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Em outubro, a caminho do Cazaquistão e da Índia  – aonde eu viajava a trabalho – mudei de avião no aeroporto de Heathrow. O voo Rio-Londres havia sido desconfortável e seriam muitas horas de espera pela conexão a Astana. Felizmente, encontrei uma filial da livraria WHSmith. Lá comprei três livros, dos quais este:

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Em histórias escritas nos anos 50, Flannery O´Connor nos mostra personagens que vivem – em geral, mas nem sempre – em um ambiente rural no sul dos Estados Unidos, oprimidos por preconceitos, pouca liberdade emocional, princípios religiosos mal compreendidos e um futuro financeiro sempre incerto. No voo noturno da Air Astana em direção ao Cazaquistão, li dois ou três dos contos, inclusive o que dá seu título à coleção, um dos mais violentos. Terei lido algum adicional, poucos dias depois, no longo trajeto de Astana a Nova Delhi – longo por incluir baldeação, de madrugada, em Almaty – e no voo que me trouxe, da Índia, de regresso ao Brasil.

O livro viajou bastante depois disso, pois esteve em Curitiba com a minha mulher e, no momento, está em Bruxelas com minha filha. Em fevereiro, em casa, li os contos restantes.

Poucos dias após ter terminado o livro de Flannery O´Connor, fui ao cinema assistir a  Três Anúncios para um Crime, filme escrito e dirigido por Martin McDonagh. Saí com a sensação de ter estado, durante duas horas, em um conto de A Good Man is Hard to Find. A associação com o livro foi notada por alguns críticos. Li que, em uma das primeiras cenas do filme, quando a personagem principal, Mildred Hayes – em uma interpretação fabulosa de Frances McDormand, que lhe valeu o Oscar de melhor atriz – entra em um escritório, outro personagem, Red Welby (interpretado por Caleb Landry Jones), está lendo justamente A Good Man is Hard to Find. Confesso que não notei isso ao ver o filme mas, em minha defesa,  o livro é mostrado de forma tão rápida na cena, que se pestanejarmos perdemos a referência ou homenagem do roteirista-diretor à escritora.

Buscando, na Internet, alguma foto que comprovasse a presença física do volume de Flannery O´Connor no filme, encontrei isto no blog First Impressions, Notes on Films and Culture:

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Trata-se, portanto, desta edição, de 1977:

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Pela primeira vez em muitos anos, consegui assistir nos últimos meses a quase todos os candidatos ao Oscar de melhor filme. E esta era uma safra particularmente boa. Nenhum candidato ao prêmio, porém, me causou impacto tão grande quanto Três Anúncios para um Crime, com a possível exceção, por razões diferentes, de Trama Fantasma, o filme sobre as neuroses de um relacionamento a dois dirigido por Paul Thomas Anderson.

Quando Três Anúncios para um Crime começa, Mildred Hayes está de luto. Sua filha, Angela, foi estuprada, assassinada e queimada sete meses antes, sem que a polícia tenha conseguido encontrar o culpado, ou talvez sequer se esforçado para isso. Mildred tem a ideia de pagar anúncios em três painéis inutilizados no meio do campo, à beira de uma estrada por onde ela circula todos os dias, a caminho de casa. O cartazes financiados por Mildred, em sua visita ao escritório de Red Welby, responsável pela publicidade nos painéis da estrada, são altamente acusatórios contra o xerife da cidadezinha de Ebbing, Bill Willoughby, interpretado por Woody Harrelson, que foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por esse papel. Os cartazes dizem, sucessivamente, em letras garrafais: “Estuprada enquanto morria”, “E ainda nenhuma prisão”, “Como é possível, xerife Willoughby?”.

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A partir desse momento, o filme ganha sua lógica própria e não quero estragar o prazer de quem porventura não o viu ainda. Basta dizer que os cartazes financiados por Mildred trarão à tona a verdade presente dentro da alma dos habitantes de Ebbing, Missouri. Mostrarão seu pior lado o padre, o dentista, o médico e vários policiais, entre eles o racista principal do lugarejo, Jason Dixon, em uma magnífica interpretação de Sam Rockwell, ganhador por esse papel do Oscar de melhor ator coadjuvante. A própria Mildred nos revelará aspectos terríveis de sua personalidade, e comete vários atos condenáveis, e ao menos um crime – que não é um assassinato, mas quase provoca uma morte.

Poucas semanas antes da cerimônia de entrega dos Oscars, houve críticas de que o filme trataria de maneira apenas casual o racismo de alguns personagens, sobretudo o exercitado pelo policial interpretado por Sam Rockwell. Isso representa um erro grave de análise, ou talvez uma tentativa de diminuir as chances de o longa-metragem de Martin McDonagh ganhar o prêmio de melhor filme, que ele de fato não ganhou. Este não é um filme sobre o racismo, o machismo ou os maus tratos a minorias, embora esses sejam temas abordados. Não é um filme que deseja com que nos sintamos bem ao final e, por isso, não é a história de uma mulher enlutada, de nobres sentimentos, cuja persistência traz a justiça sobre a Terra. Como os contos de Flannery O´Connor, este é um filme sobre a mediocridade do ser humano e o desejo de uma comunidade de seguir adiante sem grandes preocupações morais ou intelectuais. O assassinato de Angela marca a coletividade, mas a reação de sua mãe, que não aceita mais ser tratada de forma condescendente, é um choque inaceitável para os demais. O padre revela-se pouco cristão (ele diz a Mildred: ” se você não tivesse parado de ir à igreja, talvez tivesse mais compreensão para com os sentimentos dos outros” – e tiraria os cartazes); o dentista, descumpridor da ética no exercício da profissão; e o policial, uma autoridade que usa violência física para abusar de seu pequeno poder.

Na segunda metade do filme, acompanhamos mudanças no caráter do policial de Sam Rockwell e alguns críticos falaram em “redenção”, o que é outro equívoco, ou ao menos uma simplificação. Vemos, isto sim, seu personagem tomar consciência da própria mediocridade – exacerbada até para os padrões locais – e do quanto isto o prejudica, nos planos pessoal e profissional.

Haveria muito a dizer sobre esta obra-prima, onde todos os elementos – trilha sonora, cenário, figurino, roteiro, interpretações – criam um conjunto harmônico e de grande impacto emocional sobre o espectador. Apesar de seus defeitos, Mildred Hayes nos cativa, por seu espírito destemido, sua luta contra o espírito acomodado que reina em Ebbing, sua tentativa de seguir vivendo apesar da dor. Três Anúncios para um Crime marcará sobretudo quem já sofreu perdas violentas, incompreensíveis. O que Mildred faz, tentar garantir que o responsável pelo seu luto seja punido, todos em sua situação já pensamos em fazer.

Se Três Anúncios para um Crime me fizesse pensar em um conto específico de A Good Man is Hard to Find, seria o intitulado The Displaced Person, de longe o mais longo, em que uma proprietária rural no sul dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, acolhe uma família – pai, mãe, filho e filha adolescentes – de imigrantes poloneses. O chefe de família vem para trabalhar como empregado na fazenda. A ironia do conto é que o polonês, embora deslocado de seu país de origem, é perfeitamente focado, funcional e competente. Sua patroa e outro casal branco que trabalha na propriedade são “deslocados” emocional e intelectualmente. Há um par de empregados negros, que aparecem para ilustrar o racismo dos demais personagens, e um padre católico que, ao contrário do padre do filme de Martin McDonagh, é boníssimo.

O filme me fez pensar também em outra obra literária, o diário de Etty Hillesum, a holandesa judia morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Em 2011, no “off” do Festival de teatro de Avignon, vi um monólogo notável, escrito e interpretado por Sandrine Chauveau. O espetáculo era todo montado com frases extraídas das cartas e dos diários de Etty Hillesum. A cena mais forte era quando esta dizia, referindo-se a Deus: “Não é você que tem de nos ajudar; cabe a nós ajudar você”.

A ideia de Deus, de fato, aparece na cena mais bela do filme de Martin McDonagh. Mildred, desanimada, sentada frente a um de seus três cartazes, no meio do campo, vê aproximar-se um cervo, tão solitário quanto ela, com o qual estabelece uma forma de diálogo – os cínicos dirão tratar-se de um monólogo. Mildred lamenta o fato de ninguém ter ainda sido preso pelo assassinato de sua filha e indaga como isso é possível: ” ‘Cause there ain’t no God and the whole world’s empty, and it doesn’t matter what we do to each other? I hope not. ” O conceito – sobre o qual Mildred especula mas que prefere descartar – de que ao renunciar a Deus o ser humano não possui mais freios em seus atos –  é puro Dostoiévski.

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Mildred chega a especular se o cervo seria a reencarnação de Angela, mas tem de aceitar a realidade: “you’re pretty but you ain’t her… She got killed. Now she’s dead forever”.

Um personagem do filme reflete visão mais positiva da humanidade. Trata-se do filho de Mildred, Robbie, interpretado por Lucas Hedges, ator que pode também ser visto em Lady Bird. Robbie tenta sobreviver à morte da irmã, à separação dos pais, aos conflitos entre eles e à animosidade que os cartazes colocados pela mãe despertam na cidade, inclusive entre seus colegas de escola. É um observador maduro, equilibrado, quieto, das falhas das pessoas ao seu redor.

Saí do cinema feliz de ser carioca e de não ter nascido em Ebbing, Missouri, com seu racismo, machismo, violência, ignorância e mediocridade. A cidade, de resto, não existe e Três Anúncios para um Crime foi filmado na Carolina do Norte, em uma cidade de 3.000 habitantes chamada Sylva. Duas semanas depois, a execução de Marielle Franco em uma rua do Estácio derrotou minha complacência e tive de aceitar esta realidade: Ebbing, Missouri é todo agrupamento humano, e seus habitantes somos nós e nossos vizinhos. Essa é a força do filme.

Três Anúncios para um Crime – ficha técnica

 

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9 comentários sobre “Três Anúncios para um Crime – Martin McDonagh

  1. Muito importante suas observações sobre o filme e o paralelo com o Rio.
    Estou com este livro em casa e fiquei mais interessada depois de suas colocações.
    Suas publicações são ótimas.
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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