Uma vez, li em algum lugar que a vida é aquilo que precisamos fazer para ocupar o tempo entre o café da manhã e o almoço e entre o almoço e o jantar. Em julho, quando passei alguns dias em Bruxelas, senti que a vida acontecia durante as refeições, quando podia estar com minha filha, que lá vive e trabalha. O resto do tempo era apenas a espera tediosa do momento de revê-la.

Desde que Julia saiu de casa, em 2011, para fazer faculdade, e passamos a morar em países diferentes, cada reencontro torna tudo mais vivo, mais vibrante, mais colorido ao meu redor. Ao mesmo tempo, cada separação traz, nos primeiros dias, um sabor de vazio e de incompletude. Como preencher os momentos em Bruxelas entre o café da manhã, o almoço e o jantar? Como tornar menos entediantes as horas sem minha filha? Tive sorte de que os dias estavam quentes e ensolarados. Choveu apenas em um final de tarde.

Um de meus primeiros destinos foi La Boutique Tintin, o paraíso de todo admirador do jovem repórter que nunca escreve para jornal algum. Tintin é provavelmente o belga mais famoso que jamais existiu. No aeroporto de Bruxelas, Zaventem, na área central por onde passam todos os passageiros, estejam eles embarcando ou desembarcando, é ostentado o foguete que figura em duas de suas aventuras mais conhecidas:

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Assexuado, sem família, ar de adolescente e rosto sem traço distintivo — o topete é sua única característica física notável — Tintin é aquilo que cada um de nós quer que ele seja e todos podemos nos projetar nele. Mais recentemente, o personagem tem-se revestido de uma forma nova de prestígio: é um dos poucos heróis de histórias em quadrinhos famosos a não ser americano, em uma espécie de resistência cultural francófona.

No longínquo ano de 2016, meus alunos no Instituto Rio-Branco ofereceram uma festa a fantasia com o tema “Quadrinhos”. Fiquei me perguntando se algum iria vestido de personagem das BD franco-belgas. Quantos se fantasiariam de Lucky Luke, o cowboy “mais rápido do que a própria sombra”? Quantos de Astérix ou Obélix? Quantos de Spirou, o camareiro que vira jornalista, ou de Fantasio, seu melhor amigo? E quantos de Iznogoud, aquele que queria “ser califa no lugar do califa”?

Ao ver nas redes sociais as fotos da festa, fiquei desapontado. Havia apenas personagens de comics americanos. Notei uma única exceção: um aluno fora disfarçado de Tintin, levando inclusive no braço um Milou de pelúcia. O jornalista belga aparentemente escapa da relativa obscuridade atual de outros heróis de quadrinhos de língua francesa, como demonstra o filme The Adventures of Tintin, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2011.

No Brasil, conheço ao menos uma pessoa fanática por Tintin: Chicô Gouvêa. Minhas férias de julho haviam começado em Lisboa, onde eu fora visitar minha irmã, e logo no primeiríssimo dia ela e eu jantamos no apartamento de Chicô e Paulo Reis, amigos que já mencionei em  O Embrulho Vermelho. Reparei que, como também acontece em sua casa do Rio de Janeiro, os personagens tintinescos faziam-se presentes na decoração em Lisboa:

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Chicô e Paulo colecionam máscaras africanas. Uma vez, no Rio, aconteceu de eu elogiar uma delas. Da maneira mais generosa, eles imediatamente a retiraram da parede como um presente para mim. Essa máscara está hoje em casa em Brasília:

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Voltemos a Lisboa, ao jantar em casa de Chicô e Paulo, onde me deparo com uma máscara com os traços do herói belga, o que eu nunca havia visto antes:

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Dias mais tarde, em Bruxelas, dirijo-me a La Boutique Tintin. Conheço bem a loja, da época em que morei na cidade pela segunda vez, e sei que ela não é barata. Fica perto da Grand’Place:

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Dentro, o foguete é onipresente, e mesmo os modelos menores são caros, em função das leis de oferta e demanda, já que esse é provavelmente o objeto mais reconhecível, mítico das aventuras do nosso amigo belga:

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Vários objetos fazem referência a outras aventuras:

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O criador de Tintin, Georges Remi (1907-1983), conhecido pelo nome artístico Hergé (foneticamente, suas iniciais invertidas), é figura controvertida. Trabalhava, no começo da vida, em um jornal conservador, católico. É em um dos suplementos do jornal que primeiro foram publicadas, de forma seriada, as aventuras de seu principal personagem. Hergé é visto por alguns como tendo sido colaboracionista, durante a ocupação alemã da Bélgica, na Segunda Guerra Mundial.

As aventuras de Tintin começaram a ser publicadas em 1929. As primeiras prestam-se facilmente a acusações de racismo e antisemitismo. Ler Tintin au Congo (1931) é uma experiência constrangedora. A partir de um determinado momento, contudo, as aventuras mudam de tom e tornam-se cativantes, embora haja, em L’Étoile mystérieuse, publicado durante a Ocupação alemã, ao menos uma página com alusões antisemitas.

Em casa, temos todos os volumes, exceto justamente Tintin au Congo. Mostro na foto os meus prediletos, sendo que na maioria dos casos são ainda os exemplares que meus irmãos e eu líamos avidamente na infância:

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Os volumes onde aparece o famoso foguete são estes:

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A mudança na visão de mundo de Hergé é atribuída à forte amizade que desenvolveu, a partir de 1934, com um estudante de arte chinês então residente na Bélgica, Chang Chong-chen, que colaborou no álbum Le Lotus Bleu. A convivência entre os dois durou apenas um ano, pois em 1935 Chang Chong-chen regressou à China. Eles só voltariam a se ver em 1981.

Hergé escreveu outras séries de histórias em quadrinhos, além da que é dedicada a Tintin, mas este, ao se tornar mais famoso do que seu próprio criador, ofusca o resto da obra. Criança, eu gostava também de Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, que mostram as peripécias de dois irmãos e seu chimpanzé:

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Em 2009, a viúva do artista criou na cidade de Louvain-la-Neuve, perto de Bruxelas, o Musée Hergé, belíssimo prédio concebido pelo arquiteto Christian de Portzamparc, mas desconfio que os visitantes vão ao museu para saber mais sobre Tintin, não sobre o criador ou o resto de sua obra. Em janeiro de 2017, visitei em Paris, no Grand Palais, exposição dedicada a Hergé:

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Na exposição, organizada pelo Musée Hergé, as críticas ao antisemitismo, racismo e espírito colonialista de alguns álbuns foram abordadas de forma superficial, como que por mero desencargo de consciência. Com relação a Tintin au Congo, por exemplo,  um cartaz explicava que: “A ingenuidade caricatural com que ele descreve a população local e o país resulta de uma documentação sumária, cuja fonte é essencialmente o museu colonial de Tervueren”. E continuava: “Em Tintin au Congo, com frequência acusado, posteriormente, pelo seu tom colonialista, Hergé dá provas sobretudo do espírito de seu meio e de seu tempo”. Fácil assim…

A exposição dava exemplos do trabalho de Hergé como desenhista publicitário, por exemplo neste anúncio do jornal de direita onde primeiro trabalhou:

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Naturalmente, não podia faltar uma maquete do celebérrimo foguete, pois afinal Tintin e seus amigos Milou, Capitão Haddock e Professor Girassol e os irmãos detetives Dupond e Dupont caminharam na Lua em 1954, quinze anos antes de Neil Armstrong:

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Nada me interessou mais na exposição do que rever a “estatueta portadora de oferendas”, em madeira, oriunda do Peru, produzida pela Cultura Chimu, pré-colombiana, entre 1100 e 1450:

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É que conheço muito bem essa escultura, pois ela pertence à coleção do Musée Art et Histoire, em Bruxelas, onde — criança e adulto — eu a vi inúmeras vezes. A peça inspirou Hergé, que a conhecia, a escrever um de meus livros prediletos da série, L’Oreille cassée.  Graças ao álbum, a estatueta talvez seja hoje a peça mais famosa do museu.

Em casa, temos uma mini-bibliografia sobre Tintin:

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Michael Farr —  autor inglês que publicou vários livros sobre o personagem e seu criador —  opina ser Tintin “um herói imaginário em um mundo real”. Daí derivaria seu “apelo universal”. Em The Complete Companion, Farr nos mostra como as aventuras são sistematicamente baseadas em fatos, eventos, prédios, pessoas, obras de arte, descobertas científicas reais.

O psicanalista e psiquiatra francês Serge Tisseron dedica grande parte de seu tempo a Hergé e a Tintin. Segundo sua teoria, Hergé transferiu para a série tintinesca o seu drama familiar. O pai do artista tinha um irmão gêmeo, como parecem ser gêmeos Dupond e Dupont, seus dois personagens detetives. O pai e o tio de Hergé eram filhos de uma mãe solteira, empregada doméstica na casa de um conde belga e sua mulher. Quando seus dois filhos gêmeos eram já adolescentes, a avó de Hergé casou-se com um operário, em um casamento arranjado pela condessa e graças ao qual os dois gêmeos adotaram o sobrenome — Remi — do padrasto. Essa união foi meramente de conveniência. Hergé nunca sequer viu o padrasto do pai, embora tivesse já 34 anos quando o “avô” morreu.

Quem teria sido o verdadeiro pai do pai de Hergé? Se ele sabia, nunca revelou. Serge Tisseron especula se poderia ter sido o conde, ou um de seus parentes ou talvez até mesmo o próprio Rei dos Belgas, Leopoldo II, notório mulherengo, que, segundo se sabe, frequentava as propriedades do conde e sua mulher.

Leopoldo II não era um monarca qualquer. Rei de um pequeno país, viu no imperialismo europeu na África a chance de aumentar seu patrimônio pessoal. Transformou o imenso território que é hoje a República Democrática do Congo em uma propriedade particular, à qual atribuiu-se, ironicamente, o nome de Estado Livre do Congo. Em 1908, o rei doou sua colônia à Bélgica, depois de ter amealhado grande fortuna graças a ela. O domínio de Leopoldo II sobre o Congo foi excepcionalmente cruel e sangrento. Alguns autores consideram que a presença belga no Congo constituiu, verdadeiramente, um genocídio. Joseph Conrad inspirou-se das crueldades cometidas pelos agentes de Leopoldo II para escrever Heart of Darkness, publicado em 1902. Devemos supor, porém, que, ao contrário de Kurtz, o vilão de Joseph Conrad, o Rei dos Belgas nunca sentiu arrependimento e nunca exclamou, ao morrer “The horror! The horror!”.

Seria Leopoldo II o avô de Hergé? Estaria aí a origem das falas e das atitudes revoltantes de Tintin e mesmo de seu adorável cachorrinho Milou em sua viagem ao Congo? De qualquer forma, o Tintin que sobrevive é o posterior, aquele encantador, inteligente, que ajuda os outros, vive aventuras em todas as partes do mundo, resolve vários enigmas, nunca comete maldades, é equilibrado e sensato, apesar da eterna figura de adolescente.

Saí de La Boutique Tintin, em Bruxelas, apressado, impaciente para ver Julia. Comprara um relógio de pulso. No dia seguinte, fiz um tuíte ostentando-o no braço. É, até hoje, meu tuíte mais popular.

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13 comentários sobre “Minhas Aventuras com Tintin

  1. Para falar de timtim, tem um brasileiro conhecido pela compulsao: ED MOTTA. Ele me contou anedotas nao so do jovem jornalista mas também de Blake e Mortimer se, nao me engano, morava rue Antoines Dansart, e os smurfs talves mas conhecidos ainda que Timtim, e enfim “La ligne clair”, aquele “escola belga;Ele tinha albuns com desenho originais<<<<<<;;;uma das paixoes do multi instrumentista! O Pior é que Ed nunca foi na Bélgica !!

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  2. Ary, a sua casa é um baú maravilhoso. De onde você tira tantos livros? Adorei a história de Tintin. Quando estive em Bruxelas, passei pela porta da loja que menciona, mas confesso que não tive curiosidade em entrar, devido nunca ter lido nada sobre este maravilhoso personagem. Nunca fui muito chegada a histórias em quadrinhos. Mas adorei o seu post, como sempre. A gente viaja no tempo e acaba aprendendo muito também.

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  3. Ary, temos mais uma coisa em comum. Adoro Tintim. Ele me acompanhou por toda a infância e adolescência. Na verdade, foi meu amigo mesmo antes de saber ler, pois o meu pai comprou Os Charutos do Faraó quando eu estava no jardim de infância e me lembro de minha mãe o ler para nós – eu, Lena e Beto. Eu era tão pequena que senti medo, mas adorei a história. Depois dessa aventura, vieram várias outras e até hoje tenho os exemplares que herdei do Papai e outros, que minha mãe me deu. Ele também foi meu companheiro das tardes em casa, com gripe. Quando estávamos com febre, de cama, minha mãe saía para trabalhar, mas nos deixava em casa com uma pilha de revistinhas da Luluzinha, Tio Patinhas e os exemplares (em português, claro) do Tintim e do Asterix. (A grafia nos livros em português muda…) Essas tardes eram maravilhosas. Passavam rapidinho. Um beijo grande. Ciça

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  4. Ah, e tem mais! Lembra-se do Sr. Oliveira? O comerciante português que o Tintim conhece em um navio que o recolheu depois de vagar pelo mar dentro de um sarcófago? E que lhe vende uma cartola, um par de esquis, um papagaio e uma série de outros itens “indispensáveis”, mas que deixa o próprio Tintim felicíssimo com todas as “barganhas” que ele fez? Pois em minha viagem ao Cairo com meu pai, encontramos um senhor egípcio no Grande Mercado que nos empurrou quatro tapetes, mais de uma dúzia de garrafinhas de cristal contendo aromas, um tabuleiro de xadrez entre outras coisas incrivelmente nada práticas para se carregar em uma viagem internacional e ainda por cima nos deixou a ambos felicíssimos… Na ocasião, brinquei com o meu pai que aquele senhor egípcio era o nosso Sr. Oliveira particular. E até hoje me lembro dele com carinho. he, he, he. São personagens assim que trazem alegria e sofisticação à obra de Hergé.

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  5. Aqui em casa também tem um fã incondicional com diversas coleções das
    histórias de Tintim.
    Tem
    também bonecos e outras coisitas. È meu marido. Eu tenho um relógio Tintim de uma edição especial da swatch.

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