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Em junho, presenciei a morte de uma biblioteca. Minha mãe decidiu instalar-se em um apartamento menor do que a casa onde morara por onze anos. Na sua idade, espaços grandes, que ficam facilmente inacessíveis, já não fazem sentido. A casa rodeada de verde, debruçada sobre o mar, tornara-se inadequada, apesar da beleza do cenário.

Objetos, móveis tiveram de ser sacrificados por causa da mudança. Livros também. A biblioteca da casa continha mais de dois mil volumes. Apenas cerca de mil poderiam ser levados para o apartamento. Minha irmã e eu ajudamos nossa mãe a separar os que ela considerava essencial preservar. O que fazer da outra metade? Juntos, Titina e eu decidimos ficar com uns cento e cinquenta livros. Mais do que isso não seria razoável. Em casa, minha mulher e eu temos já seis mil; e Titina mora desde sempre no Chiado, em Lisboa, com a sua própria biblioteca.

Para examinar os restantes oitocentos, novecentos volumes, chamei, sucessivamente, quatro livreiros cariocas. O primeiro retirou da casa pouco mais de cem obras. Interessou-se sobretudo por literatura brasileira, em especial os exemplares que possuíam dedicatória para meus pais, e livros de História do Brasil. Opinou que muitos dos livros autografados eram de autores já não tão lidos. Tentei valorizar os de Fernando Sabino. Todos eles, na biblioteca, continham autógrafos para meu pai, minha mãe, ou ambos, ou mesmo para nós, os filhos. Na minha infância, Sabino era o modelo do escritor de sucesso, um cronista divertido, além de ser dono de uma personalidade carismática.

Lembro dele com afeto, embora, ao falar em mim em uma de suas crônicas no jornal, Fernando Sabino tenha me transformado em exemplo de jovem cansativo, de tão opiniático. Fui tirado de meus pensamentos pelo livreiro, que declarou: “Eu gostava do Fernando Sabino, nós nos dávamos bem, ele era um cara muito legal, mas a dedicatória dele não acrescenta nada. Ele costumava aparecer na feira de livros, quando ela se instalava em Ipanema, na praça Nossa Sra. da Paz. Ficava de papo com todo mundo, sempre simpático, e assinava livro para quem pedisse. A coisa que mais há no Rio é livro com dedicatória dele”. Decidi, na hora, ficar com os exemplares autografados pelo Sabino.

O segundo livreiro comprou talvez uns trezentos volumes. Interessou-se inclusive por aqueles em inglês e francês, sobretudo os de História e de relações internacionais. Alegou que livros de arte caros, ainda mais em outras línguas, já não são comprados. Pagou em média 4 ou 5 reais por cada volume que retirou da casa. Já no dia seguinte, vi na página eletrônica de sua livraria que um dos livros fora imediatamente revendido por 125 reais. Reagi de forma racional a respeito. Aquela obra, aliás nova, intocada, nada significava para mim, em termos afetivos, literários ou editoriais. A surpresa é que pudesse valer tanto para alguém.

O terceiro livreiro só se interessou por cinco volumes, em formato grande, com as aventuras de Flash Gordon e do Príncipe Valente, que décadas atrás haviam sido de meu pai. Declarou: “Essa é a biblioteca típica de quem fala muitas línguas. Já vi outras assim. São todos livros bons, interessantes, mas que não têm saída aqui no Rio”. Meditei, posteriormente, sobre esse esnobismo revertido.

O quarto livreiro era certamente o mais desprendido. Ele é conhecido por vender livros usados por uma ninharia, em uma barraca perto de uma estação de metrô no Centro do Rio, com o objetivo de incentivar as pessoas a lerem enquanto usam o transporte público, em vez de ficarem obsessivamente nas redes sociais. Chegou, olhou por alto as centenas de obras restantes e declarou que as levaria todas, mesmo aquelas em russo e alemão.

Depois do divórcio dos meus pais, duas bibliotecas haviam sido formadas, a dele — relativamente pequena, pois ele passara a morar em apartamento, sozinho — e a dela. Quando ele morreu, em 1999, minha irmã já morava há muitos anos em Lisboa, e eu morava em Quito. Parecera natural que colocássemos seus pertences em um depósito. Quando minha mãe comprou a casa na Pedra da Gávea, transferimos para lá as coisas dele, e colocamos seus livros junto aos dela.

Às vésperas da vinda do primeiro sebista, ao final da tarde, vi-me sozinho em um dos quartos da biblioteca, na verdade um longo corredor com estantes cobrindo integralmente uma das paredes mais compridas. Peguei uma cadeira e sentei-me frente à seção onde Titina e eu havíamos concentrado os livros a serem vendidos. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos segurando a cabeça, olhando as estantes, fui tomado de grande tristeza. Essa era a biblioteca com a qual eu crescera. Esses haviam sido os primeiros livros que eu lera. Criança, adolescente, eu os folheara incessantemente. Muitos haviam sido incorporados em datas posteriores, quando eu já era adulto, e eu os lera ao visitar minha mãe.

Sentado no silêncio e na penumbra da biblioteca, pensei em me revoltar, em levar comigo os livros todos que minha mãe se obrigara a descartar. Essa opção, porém, não era razoável. Não há como fazer crescer uma biblioteca repentinamente, de uma só vez, de seis mil para sete mil volumes. Olhei para as estantes como quem está pondo fim a um romance, ou se despedindo para sempre de um parente ou de um amigo. Aqueles livros haviam marcado a minha vida, formado a minha mente, gerado em mim uma primeira visão do mundo, das pessoas. Em retrospecto, eu via que refundir as bibliotecas de meus pais havia sido uma forma de anular seu divórcio, refazer o quinteto familiar, recuperar a infância e suas esperanças. Abandoná-los era como uma traição, renunciar a algo que fora bonito.

Cheguei a retirar volumes adicionais das estantes, para guardá-los comigo. Em seguida, recoloquei-os de volta. Valia a pena agarrar-me à edição em Livre de Poche, antiga e surrada, das Memórias de Charles de Gaulle? Sem dúvida, é facílimo conseguir novas edições, melhores e comentadas, por exemplo da Pléiade. Aquele, porém — velho, com a capa machucada, as páginas amareladas — era o exemplar com o qual eu crescera, que acompanhara minha vida, e mesmo a dos meus pais. Segurei nas mãos os dois volumes da biografia do presidente Rodrigues Alves por Afonso Arinos de Mello Franco, na edição original, de 1973, pela editora José Olympio. Sem dúvida, eu já não teria tempo de reler esse livro. Desde criança, porém, os dois volumes, um de capa vermelha, o outro de capa verde, me fascinavam. Saber que eu já não os veria, não os folhearia, era sentir como uma perda. O quarto livreiro levou o General de Gaulle e o Rodrigues Alves de Afonso Arinos.

No último momento antes da visita do primeiro sebista, retive uma primeira edição de Carlos Drummond de Andrade com uma dedicatória para meu pai. Entre as visitas do terceiro e do quarto sebista, decidi guardar também livros de Vinicius de Moraes, sem autógrafos.

Duas semanas depois, minha mãe instalou-se no novo apartamento. Minha mulher e eu fomos ajudá-la. Uma das providências necessárias era arrumar as estantes. Mesmo reduzida à metade, a biblioteca deu-nos trabalho por vários dias. Abrir caixas, limpar prateleiras, categorizar os livros, rearranjá-los à medida que novos volumes surgiam representou esforço grande.

O resultado foi surpreendente. Livros de que eu não me lembrava reapareceram. Livros que eu nunca notara seduziram-me. Várias vezes, interrompendo a arrumação, sentei-me para folhear uma obra até então desconhecida ou esquecida. Terminado o trabalho, olhei feliz para as estantes. Havia ali mais luz do que no corredor sem janela da casa sobre o mar. Recolocados em um novo ambiente, em ordem diferente nas estantes, iluminados de forma natural, os volumes remanescentes pareceram ter adquirido nova existência. Eram os mesmos livros, mas era outra biblioteca.

Era uma nova entidade. Era uma nova verdade. Era a promessa de uma nova vida.

 

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8 comentários sobre “De Gaulle e o Príncipe Valente

  1. Ary, eu não são acumulador. Mas de livros, sim. Os livros da minha infancia se perderam nas mudanças a começar pelo meu primeiro casamento, os sucessivos endereços e finalmente na mudança para o Brasil. Mas a partir de ai, o que não pararam de crescer em casa são as bibliotecas, minhas e da minha mulher. Aparecem livros embaixo da mesa, nas estantes da sala, por tudo que é canto. Aparecem sozinhos, eu compro menos do que vem se acumular nesta parte do cosmos. Suspeito que é ela que traz, mas nega. E tem os que comprei e não li ainda, mas sei que a cada um deles chegará a sua hora, um a um. E os que li e nem lembro o que contavam, mas lembro sim da tarde embaixo da planta de damascos de meu pai, onde acostumaba ler ha muitos anos. Livros são parte do corpo. Dificil se livrar deles. Abraço.

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  2. Oi Ary. Tua crônica bateu de frente no meu coração pois estou iniciando um processo semelhante na minha vida. Realmente, dar adeus a uma biblioteca não é pouca coisa, é para os fortes. Se o início do relato me fez sentir dor contigo, os parágrafos finais foram no entanto encorajadores. Livros nunca morrem, eles se transformam em luz e anunciam vida nova como tão bem escrevestes.

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  3. Que bom que a sua mãe está bem instalada! Ela (como vocês, certamente) aproveitou muito aquela casa, mas, de fato, a idade pesa e precisamos nos preparar para levá-la da melhor maneira possível! Um abraço para ela e, para você, cumprimentos por mais um ótimo texto! MCarmo

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  4. Fantástico depoimento sobre os livros qdo hoje as pessoas não fazem esta diferença de Abrir e Leer um bom livro! Eu pessoalmente gosto de ler abrindo um livro e não por internet! Obrigada por compartilhar está linda história! 🤗

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  5. Querido Ari, Que lindo texto. Eu estou tentando me desfazer não só de livros, porque como você bem diz, fazem parte da gente, mas também de objetos. A vida de diplomatas é muito difícil! Estamos sempre dizendo adeus a qualquer coisa, ou a alguém que nunca mais veremos. Solange

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  6. Fiquei contente de saber por vc e depois pelo Marco Antonio que sua mãe está morando na Rainha Elizabeth e está muito satisfeita. Que imenso alívio deve ter sido o seu e de sua irmã! Beijo

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  7. Como é difícil a gente se separar dos livros amados. Por enquanto, estou ainda comprando-os e enchendo a casa. Imagino exatamente o que você sentiu ao fazer a escolha: este vai ou não vai? Linda crônica. Abraço

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  8. Caro Ary,

    A batalha de se desfazer de livros é dramática. Penso,às vezes, em mudar-me para um apartamento menor, num edifício maior, mas ao pensar na mudança desisto. Quanto mais tempo passa,fica mais difícil…Foi bom que a Tereza pudesse contar com a colaboração de vocês para a nova instalação. Soube da substancial ajuda da Eugênia para a nova instalação… Abs Alvaro

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