Mudamo-nos para 52, Cornwall Gardens, South Kensington.
Joaquim Nabuco em seu Diário, 4 de setembro de 1900

Há muitos anos, minha irmã foi, em um dia de outono, apresentada à rainha Elizabeth II e ao príncipe Philip. Titina acabara de fazer 18 anos. O príncipe é conhecido pelos seus comentários intempestivos. Por alguma razão, o divórcio de meus pais — que era recente — foi tema da conversa. O príncipe perguntou: “Se seu pai mora no Rio, isso quer dizer que você fica indo e vindo entre o Rio e Londres? Mesmo antes de se divorciarem, seus pais já viviam assim, cada um em um país?”. Concluiu a interação dizendo: “Não sei como você conseguiu nascer”.

Essa história já tinha fugido da minha memória por completo. Voltou, junto a outras, quando, há poucos dias, reli as cartas que enviei ao meu pai, na época em que eu era estudante universitário em Londres e morava com minha mãe e minha irmã. Ele era então meu principal correspondente, pois eu o via como o melhor dos amigos. As cartas eram frequentes e longas. Lembro-me com carinho das tardes ou das noites em que, voltando da universidade ou do teatro, eu me sentava à mesa de jantar, no silêncio absoluto da casa em South Kensington, a poucos metros de onde morara Joaquim Nabuco, na mesma rua, e redigia, em papel em geral azul, o relato do meu cotidiano. No dia seguinte, cedo, antes de pegar o metrô para ir à aula, eu parava na agência dos correios, perto da estação, para selar e postar a carta. Na era do e-mail, do whatsapp, isso tudo parece um conto de fadas.

Minhas cartas falam do meu curso, das minhas viagens pela Europa, de escritores amigos de meu pai — e de livros. Relê-las é recordar como eu era entre os 19 e os 24 anos.

Há referências que eu já não entendo; como meu pai morreu há vinte anos, não posso consultá-lo a respeito. Fico surpreso com a seguinte frase, que coloquei como post-scriptum em uma das cartas: “Soube que você brigou com dois acadêmicos que, no velório da Dinah, falaram da paixão dela pelo José Lins do Rêgo. Achei ótimo, a atitude deles foi de extremo mau gosto”. Falo aí de Dinah Silveira de Queiroz, grande amiga de meu pai, que conheci na adolescência, e cujo romance Margarida La Rocque: A Ilha dos Demônios eu lera pouco tempo antes e achara fascinante. Mas como foi que eu, em Londres, soubera dos protestos do meu pai diante dessa intriga? Quem me contara? Quais eram os “dois acadêmicos”? Houve essa “paixão” da Dinah Silveira de Queiroz pelo José Lins do Rêgo? Nunca mais terei resposta para essas dúvidas.

José Lins do Rêgo marcou minha juventude, por causa da leitura, no começo da adolescência, de seu romance Menino de engenho. Assim como o narrador atravessa a infância e a juventude no engenho de açúcar do avô materno na Paraíba, meus irmãos e eu passávamos todas as férias na fazenda de nosso avô materno, na Zona da Mata em Minas Gerais. Propriedades rurais imersas em uma vida própria, fora do tempo, latifundiários severos chamados de “coronel”, como o avô do personagem e como meu bisavô, eram conceitos familiares para mim na infância e na adolescência. Abro o livro ao acaso, e uma frase que define o avô do narrador poderia se aplicar ao meu: “aquele seu ar de tranquilidade poucas vezes eu via alterar-se”.

José Lins do Rêgo era amigo de meu segundo avô materno, o padrasto de minha mãe, que a criou. Por whatsapp, ela me confirma neste instante que o conheceu bem: “O Zé Lins? Claro que sim. Ele e papai eram grandes amigos, unidos pelo amor ao futebol e ao Flamengo. Fez conosco a viagem à Suíça em 1954, para a Copa do Mundo”. Eram ambos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos e cronistas no Jornal dos Sports. Meu avô, Alfredo Curvello, escreveu nesse jornal, em setembro de 1958, uma crônica sobre José Lins do Rêgo, no primeiro aniversário de sua morte, intitulada “O Inesquecível Zé Lins”. Lamenta meu avô essa perda, “surpresa dolorosa de todos os dias, quando o buscamos onde ele não estará nunca mais, quando o esperamos onde ele sempre aparecia”, e elogia a “personalidade forte de homem que não enganava a ninguém”.

Em outra carta, leio a frase repentina: “O Luis Fernando Veríssimo me telefonou ontem. Não o vi, porque ele foi embora de Londres já hoje”. Como posso ter esquecido que um dia falei com o Veríssimo? A conversa telefônica não terá sido palpitante, porque eu era um jovem tímido. É nessa mesma época que, de férias no Rio, ao ser apresentado pelo meu pai a Jorge Amado e a Carlos Drummond de Andrade, fiquei mudo diante da simpatia do escritor baiano e da cordialidade do poeta mineiro.

Livros ocupam um espaço importante na correspondência entre meu pai e eu. Um avisa ao outro que está enviando um livro pelo correio. Um comenta com o outro suas impressões sobre algum texto ou autor. Passar os olhos por uma de minhas cartas trouxe de volta a alegria que me causou a leitura de The Pickwick Papers. Em outra, comento o sucesso de crítica da tradução para o inglês de uma obra muito cara ao meu coração, Ópera dos Mortos, de Autran Dourado. Em uma carta de meu pai, vejo elogio a um livro escrito por Cora Rónai, Sapomorfose, ilustrado por Millôr Fernandes. Noutra, ele avisa que me enviou exemplar do novo romance de Jorge Amado, Tocaia Grande, com dedicatória para mim. Queixa-se de seus editores: “Edição de livro, aqui no Brasil, realmente é um problema. Acho que insolúvel”; e em outra carta: “E cadê a divulgação? É isso aí, a eterna esculhambação das editoras, que sempre julgam que o livro vende por si mesmo, misteriosamente”. Numa terceira, falando do lançamento de sua novela Sandra, Sandrinha, reclama: “o livro saiu junto com O Gato Sou Eu, do Sabino, que tem precedência, como sempre, por parte da editora”. Fernando Sabino, amigo querido de meu pai, era então, provavelmente, o autor brasileiro mais popular, o que mais vendia. Não era preocupação tola temer que o lançamento simultâneo, pela mesma editora, do livro de crônicas de Sabino fosse afetar a divulgação de sua novela.

A vida literária de meu pai é sempre presente em suas cartas. Pouco antes de eu ir morar em Londres, ele publicara sua obra mais encantadora, um infanto-juvenil intitulado Titina, fortemente baseado na nossa vida familiar. Somos todos personagens, com nossos nomes reais, e eu apareço como um garoto mergulhado em “livros franceses”. Titina e nosso basset hound, Arusha, que morreria muitos e muitos anos depois, na embaixada em Viena, já na velhice, de maneira trágica — talvez assassinada — são as heroínas. O sucesso de crítica de Titina, que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, está bem registrado no arquivo de meu pai. Wilson Martins, em um artigo sobre sua “biblioteca ideal”, nela incluiu Titina. Rachel de Queiroz indicou que “a lição moral, mostrando a alegria da convivência, o amor, a piedade, a solidariedade humana, flui tão espontânea e suave na bonita linguagem de Ary Quintella, que até o leitor adulto a aprecia e aceita”. Carlos Drummond de Andrade escreveu a meu pai: “Titina — poesia, sentimento humano, arte literária: tanta coisa bonita”. O livro possui um frescor diferente das primeiras obras de meu pai, que Drummond uma vez qualificou em uma crônica, de forma elogiosa, de “sortidas vanguardistas”.

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Quando quero ler as cartas que escrevi a meu pai, não posso simplesmente abrir um baú em casa. Cinco anos antes de morrer, ele as doou, assim como seus manuscritos, resenhas de seus livros, fotografias e seus numerosos artigos de imprensa à Fundação Casa de Rui Barbosa. Como comentei em  Edla van Steen, História sobre a Amizade,  senti decepção, recebi uma impressão de traição, ao saber do destino que ele dera às minhas cartas.

Quando estou no Rio de Janeiro e consigo ir à Fundação, nunca deixo de me perguntar como pode existir, no caos urbano carioca, um lugar tão extraordinário. O prédio histórico, na rua São Clemente, é a casa onde morou Ruy Barbosa. A cama onde o jurista morreu em Petrópolis pode ser vista em um dos quartos. Às vezes, entro apenas para visitar a biblioteca, que contém, disse-me a vigia na semana passada, 37 mil volumes. A página eletrônica da Fundação diz 23 mil. Ruy Barbosa gostava dos clássicos franceses. Fico olhando por trás das vitrines das estantes as encadernações em couro das obras de Chateaubriand, de La Fontaine, de Corneille e de Racine, e das Memórias do duque de Saint-Simon.

Atrás da casa, está o jardim, aberto ao público. É grande e relativamente silencioso. O canto dos pássaros predomina. Famílias lá passeiam com seus bebês. Em um prédio lateral está a coleção de carruagens e carros de Ruy Barbosa.

Ao fundo, vemos um prédio moderno, baixo, onde ficam a sede da Fundação e o arquivo literário, que preserva manuscritos ou documentos de vários escritores, inclusive Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Pedro Nava, Vinicius de Moraes. O arquivo de José Lins do Rêgo não está lá, mas está o manuscrito de Menino de engenho, doado por Plínio Doyle, que me foi mostrado em julho. Foi como ver um tesouro.

Menino de engenho

A sala de pesquisa, onde examino, quando vou à Fundação, o arquivo de meu pai, é também um museu literário. Ali trabalho ao lado, por exemplo, de uma mesa redonda, cadeiras e uma poltrona verde que pertenceram a Manuel Bandeira. Ao meu redor, pesquisam estudantes universitários. Nas minhas idas mais recentes à Fundação notei, pelas caixas deixadas nas mesas, que estava sendo consultado o arquivo de um poeta até então desconhecido para mim, Sebastião Uchoa Leite. Desvio minha atenção da poltrona de Manuel Bandeira e volto a examinar a herança de meu pai. Uma entrevista em um jornal uruguaio chama minha atenção: nela, ele declara que o melhor escritor brasileiro é Machado de Assis, seguido de Lima Barreto e José de Alencar. Recordo muito bem que, seis ou sete anos depois, ele condenou a minha fase de grande leitor de José de Alencar, manifestando a esperança de que eu lesse “coisas mais interessantes”. Contradição? Acredito mais na evolução natural provocada pelo tempo que passa, processo em que nosso gosto muda. Eu mesmo, quem sabe, já não tivesse hoje o mesmo prazer em ler Sonhos d’Ouro e Senhora.

As cartas que recebi de meu pai, ao contrário das minhas, estão guardadas comigo. Releio algumas e vejo o comentário de que uma amiga sua, Sônia Coutinho, “foi à casa do Jorge Amado, aqui no Rio, e me disse que o Jorge estava com o Titina na mão, falando do livro com o Merquior, que tinha ido lá trabalhar para a entrada dele na Academia”. Outra carta comenta os boatos a respeito do suicídio de Pedro Nava, ocorrido quatro dias antes.

Em uma delas, meu pai me explica sua visão sobre o processo criador: “Recebi tua última carta, que achei bem bonita. Creio que você tem razão: muita vez o escritor nem percebe o que está escrevendo e, sem querer, coloca coisas que só terceiras pessoas percebem. Mas o que vale — em qualquer obra de arte — é o efeito. Isto é, o que ocasiona no usuário da produção artística. Obviamente, o usuário vai interpretar da maneira que julgar + adequada. Duas interpretações — aliás — são, muita vez, conflitantes, antagônicas, exatamente opostas. Já li mais de 4 livros e/ou 20 artigos sobre o enigma de Capitu. Capitu “deu” ou “não deu”? Essa ambiguidade da obra de arte é que a torna valiosa, às vezes imprescindível. É gozado, quando a gente escreve, ler depois o que pensam do que foi escrito. Uma vez escrevi A Torre de Menagem. As interpretações a respeito foram engraçadíssimas. Eu não pensara em nada do que acharam que fosse minha intenção”. Mais adiante, nessa mesma carta, meu pai faz um comentário que completa sua percepção sobre o processo de criação literária: “Hoje, o Jorge Amado me ligou. Está indo para a Europa escrever. Não aguenta + tantas entrevistas e badalações. Cansam demais e fazem a gente perder tempo”.

Meu pai era fascinado por Dom Casmurro, e particularmente por Capitu. Nela falava com frequência. Descubro um longo artigo seu de 1978, Quatro romancistas cariocas, escrito em tom jocoso, em que, ao falar de Machado, concentra-se em Dom Casmurro e revela suas próprias fantasias: “Capitu, D. Capitolina, todo mundo fala de seu mistério, de sua moral e todos se esquecem de que a senhora foi belíssima, atraente, sexy, glamurosa […] a senhora foi a Garota de Ipanema de seu tempo”.

Aos 22 anos, escrevi em uma carta: “Papai, sinto saudades imensas de você”. Comentei com um amigo, que me conhece desde os quinze anos, o tom carinhoso que eu adotava com meu pai. Ele perguntou-me: “E as cartas dele a você, são afetuosas também?” Apenas um amigo de vida toda — ou o príncipe Philip — poderia me fazer uma pergunta assim. Os intervalos entre suas cartas são curtíssimos, ele me escrevia às vezes duas, três vezes na mesma semana. São também mais sucintas do que as minhas, e em estilo mais direto; ele não era dado a exposições de alma. Apenas quando recorda a morte violenta de meu irmão na adolescência, poucos anos antes, a guarda baixa: “Hoje, não cessei de pensar no Alfredo e me sinto deprimido”. O afeto por mim aparece na indagação, na preocupação constante quanto ao meu futuro profissional, minhas ambições, meus projetos: “O tempo ruge, e você — como jovem — ainda não sabe disso”.

Sobretudo, ele me incentiva toda hora a escrever. Pergunta se consegui terminar meu romance. Sugere que eu faça traduções. Oferece-se para publicar na imprensa eventuais crônicas minhas. Opina que começar com crônicas poderia ser uma boa maneira de eu “aprender, quando quiser escrever algo, a ter saco, qualidade fundamental do escritor”.

Abro mais uma carta dele, ao acaso, de quando eu tinha vinte e um anos. Meu pai, aludindo a amigos seus, pressiona-me: “Merquior, se não me engano, começou a escrever crítica literária aos 16 anos […] Jorge Amado, aos 18 anos, já tinha publicado País do Carnaval“. A carta termina com a seguinte injunção: “Ary, escreve: crônica, romance, como é o ensino em sua universidade aí, mas escreve”.

O tempo porém nem ruge nem urge. O tempo não existe, ele é uma abstração que inventamos na tentativa inútil de dar alguma coerência às nossas vidas. Existe apenas o tempo interior, próprio a cada um de nós.

 

Cartas Ary Quintella

 

(Este ensaio foi publicado anteriormente na Revista Pessoa)

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8 comentários sobre “Capitu, a Garota de Ipanema

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