Paris – Moscou – Paris

“The Shchukin collection includes 37 paintings by Matisse – a number surpassed only by his 50 Picassos”. Não sei se a frase, extraída de um artigo do Financial Times de 19 de agosto, assinado por Kathrin Hille, surpreende mais pelos números citados ou pela simplicidade com que os fornece. O artigo, excelente, comenta a abertura na Fondation Louis Vuitton, em 22 de outubro, da exposição Icônes de l’Art Moderne, la Collection Chtchoukine.  

Aqui, faço uma pausa e medito. Um amigo fraternal perguntou-me recentemente se quando começo uma postagem neste Blog sei já o caminho  a seguir e como o terminarei. Respondi com firmeza que sim. Este texto, porém, abre várias possíveis trilhas,  igualmente sedutoras… penso na Fondation Louis Vuitton, penso em Moscou, penso no Museu Pushkin, penso em Matisse… Ponhamos ordem nisso tudo.

Antes de mais nada, meus dois leitores precisam saber que, durante muitos anos, frequentei Moscou com regularidade, primeiro por razões pessoais, depois por razões  profissionais. Lá estive pela última vez em 2011, mas espero voltar em outras ocasiões no futuro. Há em Moscou cinco lugares onde me sinto perfeitamente à vontade: a casa de Tolstoi, o Teatro Bolshoi, o Café Pushkin, a Ópera Helikon e o Museu Pushkin. Nem o Café (na realidade, um excelente restaurante) nem o Museu Pushkin possuem vínculo direto com o poeta; foram assim nomeados para homenageá-lo.

Em 2011, eu dava meus primeiros passos como fotógrafo bem amador. Não possuía ainda a obsessão do registro no celular. Tirei porém esta foto do Café Pushkin, de má qualidade mas que dá certa ideia da atmosfera do restaurante:

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O Museu Pushkin é o principal museu de arte ocidental em Moscou. Uma coleção espetacular. Quando penso no museu, contudo, eu o associo sempre aos quadros de Matisse.

Havia, na Rússia do começo do século XX, dois grandes colecionadores de artistas franceses, impressionistas e pós-impressionistas: Serguei Shushkin e Ivan Morozov, ambos homens de negócios muito ricos. Esse foi o momento – breve, já que a Revolução de Outubro de 1917 logo viria – na história da Rússia imperial em que a alta burguesia ganhava poder e prestígio, em que a nobreza já não era a única fonte de influência política e cultural. Sobre a atividade de Shushkin e Morozov como colecionadores, uma boa fonte é este livro, que dei de presente à minha mãe há muitos anos:

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As coleções de Shushkin (caberia aqui especular sobre a melhor transliteração de seu nome… cada língua usa uma e esta em português é minha invenção) e Morozov foram montadas até o começo da Primeira Guerra Mundial. Depois da Revolução de Outubro de 1917, ambas foram desapropriadas e divididas entre o Museu Pushkin, em Moscou, e o Hermitage, em São Petersburgo. A São Petersburgo e ao Hermitage, fui apenas um vez, há vinte anos e, por isso, não tenho com a cidade e o museu a relação afetiva que tenho com Moscou e o Pushkin.

O livro de Beverley Whitney Kean apresenta, em apêndices, a lista das obras de arte   pertencentes a Shiushkin e Morozov. O primeiro possuía 43 obras de Matisse, das quais 36 telas. Quão feliz pode ser alguém que possui 43 obras de Matisse em casa? Muito feliz, pelos meus critérios. Morozov possuía 11, o que já daria para incrementar o grau de felicidade de qualquer ser humano. Meus olhos acabam de cair, por acaso, na informação de que havia na coleção Morozov 18 telas de Cézanne. Shushkin possuía 8 Cézannes e pendurava todos seus 16 Gauguins  na sala de jantar. É de sonhar, realmente.

Pelos meus cálculos, examinando os apêndices do livro de Kean, o Museu Pushkin ficou com 19 obras de Matisse na partilha das coleções Shushkin e Morozov com o Hermitage. Como todas chegaram à Rússia antes da Primeira Guerra Mundial, a coleção de Matisses do Museu Pushkin cobre a fundo um período relativamente curto de sua produção. Há no museu uma tela de 1896 e outra de 1900; ambas pertenceram a Morozov. Todas  as outras obras de Matisse no Pushkin são do período de 1902 a 1913.

Os dois colecionadores iam a Paris com frequência e conheciam Matisse pessoalmente. Foi a convite de Shushkin que o artista visitou a Rússia em 1911. Matisse, mais tarde, mencionaria o impacto que os ícones russos tiveram sobre ele. Todas as fontes que consultei (além do livro de Kean, pesquisei em  James H. Billington – The Icon and the Axe, an Interpretative History of Russian Culture -, em Suzanne Massie – Land of the Firebird, the Beauty of Old Russi-, em Oleg Neverov – Great Private Collections of Imperial Russia – e em monografias e biografias de Matisse, um dos artistas que mais admiro) mencionam que, graças às coleções Shushkin e Morozov, em 1911 Matisse era já  apreciado no meio cultural russo. As duas coleções eram abertas ao público e há registro de que Shushkin, aos domingos, gostava de acompanhar ele mesmo os visitantes. As duas coleções, ao mostrar em Moscou o que havia de mais avant-garde em Paris, influenciaram a arte russa. Malevich era um dos admiradores dessas obras e é estranho pensar que Matisse, o inovador no uso de cores vibrantes, contribuiu, entre outros, para formar a concepção artística do artista que, em 1915, apresentaria ao público a tela abstrata Quadrado Negro sobre Fundo Branco, onde apenas essa duas cores aparecem.

Nunca, em minhas visitas a Moscou, deixei de ir ao Pushkin, aonde vou especificamente para ver os Matisses. Passei frente a eles momentos de contemplação, em que a vida se tornava mais instigante, mais intensa. Saía do museu certo de que a felicidade é algo concreto.

Não tenho fotos dos quadros no meu celular. Fotografei, isto sim, a vista desde o pórtico de entrada do museu:

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A iminência da abertura da exposição da coleção Shushkin na Fondation Louis Vuitton está deixando o mundo da arte empolgado. Virão 130 obras do Hermitage e do Pushkin,  recriando parte da coleção em um só local.

Estive na Fundação em 2015, para visitar a exposição Les Clefs d’une passion, onde foram reunidas dezenas de obras-primas da arte do século XX. Um dos pontos mais altos da exposição foi o quadro La Danse, de Matisse, emprestado pelo Hermitage e que pertenceu a Shushkin, que o encomendara ao artista.

Montar uma exposição especificamente sobre a coleção Shushkin segue padrão recente, de examinar o gosto de determinados colecionadores. Em 2015, a National Gallery de Londres montou uma mostra reveladora e importante, Inventing Impressionism, que tive a sorte de visitar, sobre a atividade de Paul Durand-Ruel como marchand. Em 2011, a exposição Matisse, Cézanne, Picasso… L’Aventure des Stein, no Grand Palais, celebrou a atividade de Gertrude Stein, seus dois irmãos e sua cunhada – todos, aliás, amigos de Shushkin – sobre o meio artístico parisiense. Misturada com obras de outras origens, tanto no Pushkin quanto no Hermitage, a coleção Shushkin aparece fragmentada. Na Fundação, seu espírito visionário e corajoso ficará valorizado.

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As Caravanas

Quando éramos crianças, meus irmãos e eu tínhamos uma coleção de quebra-cabeças. Desconfio que montá-los era uma atividade idealizada por minha mãe, que trabalhava muito e via nisso uma maneira de conseguir nos unir ao seu redor. Ficávamos os quatro – ela, seus dois filhos e sua filha – em volta da mesa, na casa em Rhode-St-Genèse, procurando e colocando peças.

A maioria dos quebra-cabeças era de reproduções de quadros famosos, o que foi uma forma lúdica de despertar em nós o amor à arte. Lembro-me particularmente de dois: Le Sacre de Napoléon, de David, e Les Roulottes, de Van Gogh.

É provável que a Coroação de Napoleão tenha sido escolha minha, porque desde sempre o destino desse homem me surpreendeu e sigo tentando entender suas motivações, como prova uma recente compra na Livraria Berinjela. O quadro de David faz parte da minha vida desde meus 7 ou 8 anos, quando o vi pela primeira vez no Louvre e, pouco depois, terei feito minha mãe comprar o quebra-cabeças. Fui, por isso, bastante receptivo à cena em Francofonia, de Alexander Sokurov, em que o fantasma de Napoleão, dentro do Louvre, olhando para o quadro de sua própria coroação, esse mesmo de David, exclama: “Quanta beleza!”. Um bom exemplo, em vários níveis, de como a História inspira a Arte, mas de como também a Arte serve para a apreensão da História, pois a tela gigantesca de David contribui hoje para perpetuar o mito napoleônico; e o filme de Sokurov, por sua vez, ajuda a nos fazer pensar sobre essa correlação.

Montar As Caravanas de Van Gogh foi outra experiência inesquecível. Por isso, conheço cada detalhe do quadro. Tenho uma clara recordação da satisfação em colocar as peças para formar a figura do menino, no lado direito. Ao longo dos anos, pude ver a tela sem a intermediação do quebra-cabeças, no Musée d’Orsay. Imaginarão, por isso, meus dois únicos leitores, o choque, a surpresa que senti ao rever Les Roulottes, de maneira inesperada, no canto de uma sala na magnífica exposição  O Triunfo da Cor, os pós-impressionistas, no CCBB do Rio de Janeiro. Não sabia que o quadro estava na exposição.

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Que deslumbramento revê-lo, sem aviso prévio, como se tivesse esbarrado em um velho amigo em um lugar inesperado do mundo.

Fui ao CCBB, aliás, imbuído de ceticismo, em parte para agradar minha mãe, que queria minha companhia. Estava convencido de que a exposição seria insatisfatória, talvez pela própria publicidade em torno a ela, alardeando “75 obras de 32 artistas”… a pouco mais de duas obras por artista, em média, a coisa não parecia séria. Como entender um artista vendo apenas duas obras?

Entrei cético, mas saí maravilhado. A qualidade das obras é quase sempre extraordinária, a curadoria impecável e o accrochage muito sedutor. Os principais artistas estão representados por bem mais do que duas obras, à exceção (lastimável para mim) de Matisse, com um quadro apenas. É permitido fotografar, mas só tirei as duas fotos nesta postagem, preferindo me concentrar nas obras sem a intermediação da câmera do celular, o que agora lamento. Da mesma forma, cometi o erro de não comprar o catálogo. Tentei depois encontrá-lo em várias livrarias de Brasília, sem sucesso.

Aprende-se muito na exposição. Visitá-la é uma grande experiência sensorial e intelectual. Ela confirma minha experiência pessoal, de que mesmo obras de arte que conhecemos bem, se vistas em contexto diferente, nos dizem algo novo. Talvez seu atrativo maior, para mim, tenha sido a quantidade de telas do Vuillard à mostra. Esse pintor, de minha particular predileção, é um dos mais bem representados na exposição. Fiquei seduzido por este quadro:

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Na página do Musée d’Orsay, na lista de obras de Vuillard na coleção, o quadro aparece como tendo o título Tristan Bernard, conférencier. Na exposição, a placa ao lado da obra   explica um pouco mais, e não a fotografei, sendo esse o terceiro arrependimento em relação à minha ida ao CCBB.

Uma amiga, que vive rodeada de peças marcantes de arte e mobiliário brasileiros contemporâneos e visitou a exposição alguns dias depois de mim, me escreveu lá de dentro: “Ary, nem terminei a expo e estou quase em lágrimas”. A montagem bem-sucedida de uma exposição é assim: cria uma entidade própria, ainda que temporária, forte pela soma de seus componentes e capaz de nos dizer algo, talvez até sobre nós mesmos.

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Tracey Emin e eu

Em 1998, a artista britânica Tracey Emin criou uma obra de arte intitulada  My Bed, que era sua própria cama desfeita, os lençóis sujos, rodeada de objetos que normalmente ninguém mostra aos visitantes, inclusive preservativos. A artista estava em depressão na época.

 

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Tive a sorte de ver My Bed na retrospectiva consagrada a Tracey Emin em 2011, na Hayward Gallery, no South Bank, em Londres. Foi uma bela exposição e me arrependo de não ter comprado o catálogo. My Bed pertencia então a Charles Saatchi, que a vendeu em 2014 a um colecionador alemão. Está emprestada, por dez anos,  ao museu Tate Britain.

Procurando imagens da peça para reproduzi-la aqui, confirmei a dificuldade em remontá-la tal qual a cada exposição. As meias de nylon, particularmente, mudam constantemente de lugar sobre a cama. No meio de tanto detrito ao pé da cama, acho comoventes as presenças do cachorrinho branco de pelúcia e das pantufas.

A pergunta sobre se essa peça é uma obra de arte me pareceria perfeitamente absurda, pois não pode haver dúvida a respeito. Ao mostrar, de uma forma nova, inovadora, a realidade – a sua realidade – , Tracey Emin criou uma obra de arte (inclusive bela, a meu ver, mas o conceito de belo já não é necessário para definir uma obra de arte) e usou a arte para afugentar seus fantasmas.

Seria inconcebível para mim – e nem minha mulher deixaria –  viver nesse estado de bagunça.

E nem me ocorreria publicar fotos da minha cama. Achei, porém, que poderia mostrar minha mesa de cabeceira, para mim um universo tão importante (ainda que bem mais arrumado) quanto é sua cama para Tracey Emin.

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A foto no porta-retratos representa minha filha. O ocapi remete à minha infância, quando eu era fascinado com esse animal e sempre o procurava em zoológicos. Tinha um desses, como na foto, que se perdeu. Na idade adulta, comprei um novo, que desde então fica na minha mesa de cabeceira.

Passemos aos livros.

Na pilha da esquerda, de baixo para cima, estão:

  • O catálogo, presente de Beatriz Paredes, da espetacular exposição sobre os maias realizada em São Paulo, em 2014, que visitei.
  • Quatro dos livros que ganhei de presente de aniversário este ano: a edição fac-similar do Alguma Poesia do Carlos Drummond de Andrade, editada pelo Instituto Moreira Salles, que recebi de um casal de amigos (ela é minha amiga restauradora de livros, ele um dos meus amigos  mais antigos); o catálogo da exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (que visitei), presente de Cora Rónai; o livro de fotografias RioMarLisboaRio, presente de Carlos Leal; e  o livro Rio, Casas e Prédios Antigos (esse, não me lembro quem me deu).

Vejamos em detalhe a pilha da direita:

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De baixo para cima:

  • Mais um volume de Fernando Pessoa, comprado na Livraria da Travessa de Ipanema este ano.
  • As obras completas de Vauvenargues, um moralista que tem me interessado mais do que La Rochefoucauld. Tenho esse livro há anos e venho lendo trechos ocasionalmente.
  • Le Royaume, de Emmanuel Carrère, comprado em Paris em 2015, não lido ainda.
  • Dentro do envelope: uma peça do Gorki, na versão apresentada na Comédie-Française em 2015, quando a vi. Comprei a peça na livraria da Comédie-Française, para poder passar os olhos no texto antes da representação.
  • Love, Hate and Reparation, obra das psicanalistas Joan Riviere e Melanie Klein que já li algumas vezes. Ao longo dos anos, dei exemplares desse livro a vários amigos. Não sei por que está na mesa de cabeceira.
  • The Consolations of Philosophy, por Alain de Botton, onde venho gostando de fuçar de vez em quando.
  • Mudança, de Mo Yan, outro presente de Cora Rónai deste ano, não lido ainda. Desse autor, tenho e li uma tradução para o francês de O mapa do tesouro.
  • La raison des sortilèges, por Michel Onfray, um filósofo – no sentido francês da palavra – que já li muito, mas cuja prolixidade não tenho conseguido acompanhar. Ganhei o livro há poucos meses de um amigo  que nem sabia de meu antigo interesse por Onfray.
  • Uma seleção, em formato pequeno, fácil de levar em viagens, das cartas de Voltaire, sempre um consolo.
  • A agenda que (quase nunca) uso, a da Pléiade.

Embora arrumada, minha mesa de cabeceira se parece com a cama de Tracey Emin pela seguinte razão: não saberia dizer por que muitos desses livros estão sobre ela. Estou lendo livros no momento que não estão em nenhuma das duas pilhas. Outros livros comprados ou ganhos recentemente estão sobre outros móveis no quarto. Tudo isso é parte do mistério inerente a uma casa cheia de livros.

 

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