Mozart desaparecido

Mozart desaparecido

Existe em Veneza uma placa de pedra, colada na parede de uma casa de cor ocre situada ao lado de uma pequena ponte. Sempre que passeio sem rumo pela cidade, em algum momento vejo a placa, em geral quando menos espero. Há momentos em que a procuro, não encontro a ponte de onde poderia vê-la, desisto e, no dia seguinte, por acaso, passo por ela. A cada vez, é a mesma surpresa. Fico sem entender que caminhos circulares me levaram até ali.

A placa comemora a estada de Mozart naquela casa por um mês, em 1771, quando ele tinha quinze anos. Leopold, seu pai, o acompanhava, mas é ignorado nos dizeres na pedra. Quando minha mulher e eu estivemos em Veneza pela última vez, em setembro de 2019, a placa estava decorada com uma guirlanda de folhas secas, e assim eu a fotografei. Parecia uma janela barroca.

O texto transmite justamente aquilo que, desde minha leitura das Memórias de Casanova, na adolescência, associo ao espírito veneziano do século XVIII. Caracteriza a cidade como sendo a de Vivaldi e Goldoni. Diz que Mozart, “il fanciullo salisburghese”, passou em Veneza, de forma festiva — “festevolmente” — o carnaval daquele ano. Só de ler essas palavras, os olhos comunicam à alma uma sensação de leveza.

Como todos nós, eu jamais poderia ter previsto naquele dia de setembro em Veneza, há mais de um ano, enquanto atravessava a ponte e fotografava a placa, que uma pandemia surgiria pouco tempo depois. Os meses imediatamente anteriores a fevereiro de 2020 parecem-me, hoje, mais inocentes do que até mesmo os anos da minha primeira infância. Revestem-se de uma aura de alegria, liberdade e despreocupação. Isso é, naturalmente, apenas uma fantasia post facto, mas demonstra o impacto causado pela Covid-19.   

À medida que a pandemia se eterniza, a atitude filosófica com que eu a encaro parece-me mais e mais estoica. Fiquei quase dez meses sem ver minha mulher; são já onze sem ver minha filha ou minha mãe. No meio do caminho, em julho, minha tia, também madrinha de batismo, morreu de Covid-19. Inúmeros amigos contraíram o vírus mas sobreviveram. A vida cotidiana mudou para todos.

Em maio, mergulhado no confinamento compulsório na Malásia, afirmei em Roma não está mais em Roma que, no meio do isolamento social, não precisamos ficar tristes pela saudade de amigos, de nossa família ou de lugares, pois eles estão em nós e nos acompanham aonde vamos. Quase oito meses transcorreram desde então. As fronteiras da Malásia, de Singapura e da União Europeia continuam fechadas, o vírus segue presente entre nós; as festas de final de ano fazem ver que 2020 termina, e as reuniões familiares estão ainda prejudicadas.

Durante o confinamento na Malásia, entre março e maio, uma válvula de escape foram as transmissões gratuitas pela Internet de espetáculos gravados meses ou anos antes, por diferentes teatros, companhias ou orquestras. Avaliei em Cleópatra no Escritório que, por mais lúdico que fosse para o público acessar essas transmissões, para os intérpretes a pandemia criava uma situação insustentável a longo prazo. Por razões financeiras, e também porque o artista precisa de plateia tanto quanto de ar.

De meu conhecimento, apenas a Metropolitan Opera continua transmitindo gratuitamente, de forma regular, alguns de seus espetáculos. A mesma produção de Don Pasquale já passou ao menos três vezes desde março. Essa é uma ópera que me acompanha desde os vinte anos. Não há tédio e tensão que sobrevivam às risadas que ela provoca. Gosto infinitamente do libreto e da música. Endosso o comentário de Zito Batista Filho, em seu livro A Ópera: “Tudo termina bem, como convém a uma ópera bufa que é, aliás, uma das mais belas em seu gênero”.

Quantas vezes, porém, pode um admirador de Donizetti assistir à mesma produção de Don Pasquale, ainda que excelente, e ver Anna Netrebko no papel de Norina, no mesmo cenário, com as mesmas roupas, na mesma gravação? Netrebko esteve hospitalizada, em setembro, com Covid-19, mas li que se recuperou bem. Ela pode voltar a cantar nas casas de ópera da Europa que venham a reabrir ou novamente fechar em função dos meandros da pandemia. Já a Met Opera permanecerá ociosa até setembro de 2021, e não paga desde abril aos seus músicos — ao menos um dos quais morreu de Covid-19 logo no início da pandemia. Um dos parceiros de Anna Netrebko em Don Pasquale, o barítono polonês Mariusz Kwiecien, anunciou, também em setembro, que, embora ainda jovem, já não cantaria nos palcos, por um problema de coluna. No mundo eternizado dos vídeos da Metropolitan, porém, nada mudou. A orquestra está intacta. Donizetti nos encanta. Anna, no papel de Norina, e Mariusz, no de Dr. Malatesta, estão saudáveis, e ela se casa em todas as transmissões com Ernesto, personificado pelo tenor Matthew Polenzani.

No futuro, haverá análises acadêmicas sobre como a repetição incessante pela Met Opera, ao longo de 2020, das mesmas gravações de algumas de suas produções terá influenciado a estética teatral no mundo. Em setembro de 2019, em Covent Garden, assisti a uma estupenda produção de Agrippina, de Handel, com Joyce DiDonato no papel-título, como mencionei em O Delacroix de Chelsea. Uma das últimas apresentações pela Metropolitan, em março de 2020, antes de seu fechamento, foi justamente a de outra produção da mesmíssima Agrippina, com a mesmíssima Joyce DiDonato. A montagem do Lincoln Center já foi transmitida duas vezes nas últimas semanas e, a esta altura, virou minha referência, suplantando a de Covent Garden, embora esta talvez fosse melhor.

Nunca pensei que teria a sorte de assistir a Nixon in China, que meu amigo Hélio sempre me recomendara. John Adams, como compositor, e Alice Goodman, como libretista, conseguem a façanha de tornar interessante uma ópera contemporânea (1987) sobre um tema de política externa — que é agora também, tantos anos depois do evento descrito, um tema de história diplomática. É uma obra artística que talvez estimule o estudo das relações internacionais. Duas noites, ao longo dos meses de pandemia, pude ver e ouvir a soprano Janis Kelly cantar a ária This is prophetic, em que Pat Nixon, em Beijing, prevê um mundo mais simples e portanto, nessa visão, mais feliz:

and everywhere the simple virtues root
and branch and leaf and flower.

Uma ópera que não morava no meu coração é Idomeneo. Não guardo lembrança alguma da única vez em que a vi no palco, em Bruxelas, há dez anos. Assistir no computador duas vezes, em pouco tempo, à produção da Met Opera deixou-me agora entusiasmado por essa opera seria mozartiana. Luxuosamente barroco, montado por Jean-Pierre Ponnelle em 1971, e parecido com a sua produção de La Clemenza di Tito, esse Idomeneo revela belezas na música que eu anteriormente não notara.

Matthew Polenzani, que poucas noites antes parecera ser o simplório Ernesto apaixonado pela esperta Norina, reaparece transformado em figura mitológica, majestática, o heroico Rei de Creta, ele mesmo, Idomeneo, regressando da Guerra de Troia. A ária final de Electra — em que ela enlouquece de amor não correspondido — tal como interpretada pela soprano Elza van den Heever é uma grande cena de teatro. Arrasta-se ela pelo chão, com olhar alucinado, afastando freneticamente do vestido de Corte do século XVIII, com as mãos, as Fúrias que somente ela vê, enquanto a elas suplica: “Squarciatemi il cuore, ceraste, serpenti”. Na estreia da ópera em 1781, em Munique, essa foi uma das árias cortadas por Mozart, para encurtar a produção, e isso já é motivo para pensar como é bom estar vivo em 2020, em vez de no século XVIII. Na produção de Ponnelle, Electra morre no palco, contorcendo-se, ao terminar a ária. Menos dramaticamente, o libreto nos diz que ela “parte, infuriata”.   

Desde outubro, o aumento no número de casos de COVID-19 na Malásia criou novas restrições à vida social. Em novembro, impossibilitado de ver minha família, condenado de noite, ao voltar do trabalho, a ver uma vez mais no computador Anna Netrebko ou Joyce DiDonato nos mesmos papéis em que já as vi várias vezes desde março, senti um dia que precisava recuperar alguma lembrança da infância, de repente transformada, na minha fantasia, em época em que tudo era perfeito.

Foi então que pensei no disco de Mozart.

Aos 8 anos de idade, ganhei de presente dos meus pais, na Bélgica, um disco de vinil com duas sinfonias do “fanciullo salisburghese”, a Nº 40 em sol menor e a “Júpiter”. Durante muitos anos, esse disco foi um dos meus tesouros. Mesmo hoje, pego-me frequentemente cantarolando as duas sinfonias. A própria composição gráfica da capa era sedutora, com uma moldura azul celeste e, no centro, a reprodução de um quadro barroco repleto de personagens em uma cena rural.

A música de Mozart parecia revelar as complexidades, portanto as decepções, que aguardam todo ser humano, mas trazia também a cura mágica. Quando, na mesma época, entendi que um dia eu já não respiraria, não pensaria, não sentiria, saber que o compositor de dons terapêuticos também se extinguira tornou a perspectiva menos assustadora. O que consolava antecipadamente da morte era lembrar que Mozart morrera um dia. Hoje, como vivi já bem mais do que ele, que morreu tão jovem, esse pensamento produz um efeito menos benéfico. Comparo quem ele foi com quem eu sou, com tantos anos a mais na Terra, e considero-me insatisfatório. É cruel, injusto com Mozart, que eu viva mais do que ele e não produza algo como Don Giovanni ou Così fan Tutte ou a Sonata para Piano K.331.   

Nada ilustra mais a maldade representada pelo desaparecimento do compositor aos 35 anos, em 1791, do que um trecho das Conversações com Goethe de Johann Peter Eckermann. Quarta-feira 3 de fevereiro de 1830: “Jantei em casa de Goethe. Falamos de Mozart. Goethe disse: ‘Eu o vi, garoto de sete anos, quando ele dava um concerto em uma de suas viagens. Eu mesmo tinha então cerca de catorze anos, e me lembro ainda muito nitidamente daquele garotinho de peruca e espada na cintura’. Fiquei boquiaberto. Pareceu-me prodigioso que Goethe fosse velho o suficiente para ter visto Mozart criança”. Como Eckermann, fico eu também “boquiaberto” com isso. O romancista, poeta, dramaturgo, cientista e membro da Corte de Weimar tinha 80 anos na noite desse jantar em 1830.

Em outra conversa, Goethe afirma que só Mozart teria sabido transformar em ópera o seu Fausto, publicado em 1808, dezessete anos depois da morte do compositor. Para mim, o comentário é doloroso, porque traz à tona outro sentimento muito presente na minha adolescência, o da perda de obras magníficas que nunca escutaremos, porque Mozart morreu cedo demais para compô-las.

No apartamento em Kuala Lumpur, ansiei pelo consolo do disco da minha infância com as duas sinfonias. Guardo com carinho os meus antigos LPs. Fui até a estante onde eu os colocara, ao abrir a mudança em junho. Embora eu não tenha ainda conectado aquilo que se costumava chamar de vitrola, era possível ao menos olhar e segurar o disco de Mozart, admirar a capa, alisar o vinil. Isso não apresentava qualquer problema.

Só que sim.

Simplesmente, o disco desapareceu. Estão todos lá, os LPs que me acompanharam na infância e na adolescência, antes da chegada do CD, e que ajudaram a formar minha personalidade. Todos, não. Do disco com as duas sinfonias, não há sinal. Não consigo lembrar em que momento ele sumiu. Terá quebrado? Ou ficado tão arranhado que, em um ato de desapego pouco característico, eu o joguei fora? Vai ver, simplesmente desapareceu, como tudo na vida desaparece, assim, sem razão, como o próprio Mozart partiu um dia.  

Quis verificar o nome do regente e da orquestra na gravação. Uma busca na Internet, em poucos minutos, mostrou-me a capa. Vi então que a cena rural no centro é um quadro de Rubens. Meu apreço pelo pintor é sólido, resquício da infância passada na Bélgica. Houve a decisão, em setembro de 2019, já que eu estava de férias na Europa, de ir até Antuérpia apenas para revisitar sua casa; há as costumeiras tentativas, que consigo sempre frustrar, de rever no Louvre seu ciclo sobre a vida de Maria de Médicis.

A verdadeira surpresa da capa porém era outra. O regente, Karl Ritter, e a Orchestre de la Société des Concerts de Vienne nada me diziam. E nem poderiam. Nunca existiram. No século XIX houve um compositor menor, com esse nome, que foi aluno de Schumann. Somente uma busca intensa na Internet permitiu-me colher essa informação. Esse aluno de Schumann obviamente não poderia ter gravado um disco na segunda metade do século XX. Em resumo, meu disco de Mozart, descobri em Kuala Lumpur tantas décadas depois, era um genérico, copiando uma gravação fidedigna, mas modificando os nomes do regente e da orquestra para evitar direitos autorais ou problemas legais. Era um disco pirateado.

Essa descoberta propiciou o consolo desejado, ainda que não da forma prevista. A falsidade nos nomes dos artistas, na capa do vinil desaparecido, fez-me perceber o deslocamento que eu promovera ao longo do tempo. Atribuíra poderes encantatórios a um objeto material, em vez de à música nele gravada. O importante não era o disco, aquele fetiche que sobrara, por alguns anos, da infância. A música é o que conta. Um disco de vinil quebra. Não deixa rastros. Como as sucessivas idades da infância, ele se desvanece. Mozart morre. O que ele teve tempo de criar permanece, dando sentido à vida.

A infância não foi bonita e segura porque vivida na era pré-pandemia ou por causa da forma como transcorreu. Ela teve, a bem da verdade, os seus dramas. Preservar ou perder o disco não muda nem o passado e nem o presente. Depende só de nós valorizar a música, em vez do objeto. Depende só de nós, mesmo nos momentos mais difíceis, como este longo 2020, criar felicidade onde poderia haver tristeza. O velho LP, como Mozart, desapareceu; como as duas sinfonias, o que ele representava pode para sempre perdurar.

Este ensaio foi primeiro publicado, em outra versão, em Estado da Arte, em 5 de dezembro.

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Clarice, de Montevidéu a Malaca

Clarice, de Montevidéu a Malaca

Malaca é um nome mítico, que na minha imaginação parece exclusivamente ligado a alguma obra de ficção. Desperta tanta fantasia que não poderia ser um lugar no mundo conhecido, concreto. É porém uma cidade bem real, de tamanho médio, a menos de duas horas de carro de Kuala Lumpur. Preserva um centro histórico e ruínas de seu passado glorioso como entreposto comercial. Elo de ligação entre China, Índia e Oriente Médio, foi durante quatro séculos objeto de cobiça de potências europeias.

Malaca, onde Camões esteve em pessoa, é citada três vezes no Canto X de Os Lusíadas. Na estrofe 44 é classificada de “opulenta”. Versos na estrofe 123 resumem sua reputação:

Mais avante fareis que se conheça
Malaca por empório ennobrecido,
Onde toda a província do mar grande
Suas mercadorias ricas mande.

Nos restos da opulência do empório enobrecido, passei um sábado, em setembro. Minha curiosidade maior era visitar a Porta de Santiago, único pedaço remanescente de A Famosa, fortaleza que os portugueses erigiram após sua conquista do sultanato de Malaca, em 1511; e, em um morro logo atrás, as ruínas da igreja de São Paulo. A igreja foi originalmente construída a mando de Duarte Coelho, que seria anos mais tarde o primeiro donatário da capitania de Pernambuco. Nela esteve enterrado São Francisco Xavier, o santo cujo corpo teve sucessivamente três túmulos — Macau (mais precisamente a ilha de Sanchoão), Malaca e Goa, onde vi seu jazigo em 2016. Como Afonso de Albuquerque, que conquistou o sultanato para os portugueses, Luís de Camões também passou tanto por Malaca quanto por Goa. Sempre causa em mim forte impressão pensar na facilidade com que os portugueses andavam de um oceano a outro, um pouco como nós podemos morar no Leme e decidir almoçar no Flamengo.

A Porta de Santiago e a carcaça da igreja de São Paulo não me desapontaram. Ambas estão bem cuidadas. Do alto do morro, vê-se o Estreito de Malaca. Lápides em diferentes línguas comprovam a sequência de potências coloniais que ocuparam o território do sultanato: Portugal, Países Baixos, Reino Unido. Da janela de uma parede branca da igreja, olhei longamente a natureza; imaginei todas as gerações de diferentes nacionalidades que, ao longo dos séculos, terão visto a mesma paisagem por aquele quadrado.

A ida a Malaca concedeu-me o que eu procurava, uma reflexão sobre a sucessão dos impérios. As ruínas de uma igreja perduram, enquanto os seres humanos que por elas andam desaparecem; onde antes se rezou, passeia-se agora. O mesmo local serve de cenário para diferentes e sucessivas culturas ou repetidas práticas coloniais.

A cidade, porém, reservava-me uma surpresa.

Caminhando por uma das ruas do centro histórico, vi um muro caiado, no centro do qual havia um portão fechado por uma grade. Parei. Atravessei a rua. Acima do arco do portão, estava escrito: “Makam Hang Kasturi”. Pelo celular, vi que “makam” significa “túmulo”. A grade não estava trancada. Entrei. O recinto ao ar livre era pequeno e, embora imprensado entre um estacionamento e um templo chinês, encantador. Era uma sepultura pintada de branco, com uma pequena coluna em cada canto. Árvores floridas ocupavam o espaço mínimo entre o túmulo e o muro que o circundava. Pela cerca por cima do muro de trás, eu podia ver os carros no estacionamento, mas o lugar parecia um universo próprio, distinto da agitação e do calor da rua. Havia ali paz, sombra, vegetação e pássaros cantando. Era um oásis no coração de Malaca.

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De noite, em casa em Kuala Lumpur, tentando entender de quem era aquela sepultura, mergulhei em uma das lendas mais duradouras do imaginário malaio.

Era uma vez cinco amigos de infância que, ao crescer, se tornaram os guerreiros mais famosos, valentes e respeitados a serviço do sultão de Malaca, na segunda metade do século XV. Todos usavam o termo “Hang” antes de seus nomes, o que faz pensar ser esse um título militar ou de reconhecimento de seu valor; malásios de origem chinesa gostam de ver nisso a prova de que eles eram nascidos na China. Eles se chamavam Hang Tuah, Hang Jebat, Hang Kasturi, Hang Lekir e Hang Lekiu, sendo os três primeiros os mais famosos. Hang Tuah, particularmente, é figura central do imaginário malaio. Existe no estado de Malaca, no campo, um museu dedicado à sua história. Mais de uma aldeia é apresentada como seu lugar de nascimento. Há dois túmulos antigos no país apontados como seu jazigo. No estado de Negeri Sembilan, a marca de um pé na pedra é considerada como tendo sido deixada por ele.

Os cinco amigos — ou ao menos Hang Tuah — parecem ter sido personagens históricos, em torno aos quais diferentes lendas foram desenvolvidas. Há duas fontes principais para acompanhar as suas peripécias: o épico A Saga de Hang Tuah (Hikayat Hang Tuah) e os Anais Malaios (Sejarah Melayu), obra sobre a qual escrevi em uma de minhas Cartas da Malásia.

Há um tema fundamental na saga, com variações dependendo da fonte. Hikayat Hang Tuah nos ensina que, um dia, Hang Tuah foi injustamente acusado de manter um caso com uma das favoritas do sultão, que por isso ordena ao primeiro-ministro que mande executá-lo. Hang Jebat, decidido a vingar a morte de seu melhor amigo, entra no palácio do sultão e começa a liquidar seus guardas. O monarca se dá conta de que apenas Hang Tuah teria sido capaz de contê-lo. Mas Hang Tuah morreu, por ordem sua. Como em alguma tragédia clássica, tal qual um Deus ex machina, o primeiro-ministro anuncia que não cumpriu a ordem do sultão, e que o famoso guerreiro continua vivo. Hang Tuah é trazido ao palácio, enfrenta seu amigo Hang Jebat, derrota-o e o mata.

Em Sejarah Melayu, é Hang Kasturi que, acusado, como Hang Tuah, de ter um caso com uma favorita do sultão, se revolta, é derrotado por Hang Tuah — o qual, como na outra versão, fora secretamente poupado pelo primeiro-ministro — e morre pelas suas mãos. Falta aí o elemento da revolta que tem por origem a lealdade ao amigo. Aglutino, na minha imaginação, as duas versões. Uso o enredo de Hikayat Hang Tuah, dando a Hang Kasturi o papel atribuído no épico a Hang Jebat, apenas porque acho bonito o seu túmulo, em plena Malaca. Por apreciar o túmulo, quero dar ao homem ali enterrado um papel heroico. Naturalmente, não há prova de que ali esteja mesmo enterrado Hang Kasturi, e este pode aliás nem ter existido.

O amigo de Hang Tuah revoltou-se contra o sultão para vingar sua execução injusta. No entanto, Hang Tuah mata esse amigo que se rebelou por lealdade a ele. Há, nessa história trágica, uma moral política: o herói coloca a sua fidelidade ao soberano acima de qualquer outra consideração. O Sejarah Melayu ensina que a lealdade ao soberano é o dever principal de todo malaio. Em troca, o soberano promete ser justo, o que, aliás, não fizera no caso de Hang Tuah.

Nos anos 60 e 70 do século XX, uma corrente de pensamento propugnou que o verdadeiro herói seria Hang Jebat — supondo que tenha sido ele o amigo desejoso de vingar Hang Tuah. Após a independência da Malásia, em 1957, havia desejo entre os intelectuais, nos diz um estudioso contemporâneo do assunto, o poeta Muhammad Haji Salleh, de dar ao país um modelo, que pudesse “champion the rights and the integrity of his people”. Hang Tuah, porém, venceu Hang Jebat até postumamente, e é hoje novamente proposto como o mais admirável, forte e valente dos cinco guerreiros. Avalio que recuperou sua posição de prestígio por simbolizar a conformidade com o status quo social e político.

Um domingo, tendo terminado a leitura de Sejarah Melayu, fui à melhor livraria de Kuala Lumpur, disposto a ver se encontrava exemplar em inglês do épico Hikayat Hang Tuah. Não havia. Em compensação, comprei um pequeno volume lançado em 2020, intitulado Seeking Hang Tuah, no qual Muhammad Haji Salleh discorre sobre a história dos cinco guerreiros, analisando sobretudo o grande épico. No mesmo andar da livraria, está um restaurante japonês de que gosto. Era a hora do almoço. Sentei-me e pedi meu prato predileto. Enquanto esperava a chegada do unagi gozen, folheei o livro do poeta.

Ao abri-lo ao acaso, li o seguinte parágrafo: “Fiction is a crowded universe. Hundreds of literary characters jostle in Murasaki Shikibu’s ‘Genji Monogatari’, Tolstoy’s ‘War and Peace’, Márquez’s ‘A Hundred Years of Solitude’ and also in Pablo Neruda, Octavio Paz and Clarice Lispector”. Pensei estar diante de uma miragem. Esfreguei os olhos. Mas, não. O nome era bem esse. Lá estava a autora brasileira, em uma lista inequivocamente ilustre, preparada por um escritor malásio.

Controlei a tempo meu espanto. Não havia razão para surpresa em ver Clarice Lispector na lista, aliás um tanto arbitrária. Graças sobretudo a Hélène Cixous e, mais recentemente, a Benjamin Moser, Clarice entrou definitivamente no cânone literário internacional, lugar a que ela pertence de direito. Não preciso ver sua consagração no exterior para ser capaz de avaliar seu mérito, mas impressionou-me constatar que sua fama chegou à Malásia, ou ao menos a círculos literários malásios. Ela parece ter se tornado, aos olhos dos estrangeiros, o escritor brasileiro por excelência.

Muitas vezes, eu me pergunto que escritor brasileiro deveria entrar primeiro para o panteão representado pela coleção da Pléiade, da Gallimard. Há algumas semanas, conversando ao telefone sobre isso com um amigo, ex-aluno meu no Instituto Rio Branco, que hoje trabalha em Buenos Aires, ele opinou que Machado de Assis. Tenho dúvidas a respeito, embora eu considere ser Machado, certamente, o melhor escritor brasileiro. Hudson Caldeira, em um ensaio recente sobre a tradução de Flora Thomson-DeVeaux de Memórias Póstumas de Brás Cubas, alude a algumas razões que dificultariam a entrada de Machado de Assis, a esta altura, no imaginário de leitores estrangeiros.

Na conversa com meu ex-aluno, sugeri Jorge Amado, pensando que, aos olhos da editora francesa, ele teria valor comercial mais elevado. Representaria também, creio, todo o exotismo que leitores estrangeiros podem associar ao Brasil. Ali no restaurante japonês em Kuala Lumpur, lendo o comentário do poeta malásio, comecei a me perguntar se o lugar de escritor brasileiro mais consagrado nos meios literários estrangeiros já não foi ocupado, na verdade, por Clarice Lispector. André Bernardo, em artigo publicado esta semana na BBC Brasil, nos dá alguns elementos que provam o seu reconhecimento no exterior: “traduzida para 32 idiomas, do mandarim ao croata, do norueguês ao russo, do turco ao hebraico, Clarice já foi publicada em 40 países”.

Terminado o almoço, voltei à livraria. Examinei se algum volume de Clarice estava nas prateleiras, na seção em língua inglesa. Encontrei quatro títulos: A Hora da Estrela, A Paixão segundo G.H, O Lustre e A Cidade Sitiada. Vi apenas dois outros autores brasileiros, Paulo Coelho, com numerosos exemplares, em diferentes edições, de vários livros seus, e O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa. Mesmo a nova e já famosa tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas por Flora Thomson-DeVeaux não se podia achar. Sim, sim, tenho certeza. Procurei por “Machado” e por “Assis” nas prateleiras organizadas por rigorosa ordem alfabética.

No começo da adolescência, convivi, em Montevidéu, com Maury Gurgel Valente, ex-marido de Clarice Lispector e pai de seus dois filhos. Tenho uma lembrança vívida dele, como um homem boníssimo e extraordinariamente afável. Na Fotobiografia da escritora por Nádia Battella Gotlib, ele aparece bem mais jovem do que quando o conheci e, no entanto, é perfeitamente reconhecível. Pedro, um dos filhos, bem mais velho do que eu, morava com o pai e dele também tenho lembrança. Por isso, Clarice não era uma referência distante para mim. Parecia próxima, bem real, embora eu nunca a tenha visto. Guardo com carinho meu exemplar da primeira edição de A Mulher que Matou os Peixes, com ilustrações de Carlos Scliar, lido no final da infância. Ano passado mesmo, ainda em Brasília, passei bons momentos relendo A Via Crucis do Corpo. Uma das brincadeiras entre minha filha e eu, há muitos anos, quando um de nós vê que o outro está preocupado, é perguntar, fazendo referência ao conto Um dia a menos: “O que houve? É a xícara de chá ruim que estraga a tarde, o dia ou a vida?”. Clarice, assim, faz parte do meu cotidiano familiar. Ao mesmo tempo, talvez eu pensasse conhecê-la bem demais e não entrei na sua literatura com a assiduidade ou com o estado de espírito necessários.

Tudo mudou com a visão de seu nome, em um restaurante japonês de Kuala Lumpur, nas páginas do livro de um poeta local que disseca uma famosa lenda do povo malaio. Foi como um aviso de que eu estava deixando passar algo importante. Tive a percepção de que ter crescido ouvindo falar nela e ter lido suas obras de vez em quando não era suficiente.

No fim de semana seguinte, lendo Laços de Família, na edição dos contos completos da editora Rocco organizada por Benjamin Moser, fiquei sem vontade de sair de casa. Nada lá fora poderia ser tão instigante quanto aquela escrita. Devorei-os todos. Alguns dias depois, conversando ao telefone com outro amigo, Gilberto Morbach, mencionei três a ele: A imitação da rosa, O crime do professor de matemática e O búfalo. O segundo, opinei com Gilberto, diz em oito páginas o que Dostoiesvki diz em centenas.

Nova tentativa, porém, de ler A Paixão segundo G.H, a terceira ou quarta ao longo da vida, foi uma vez mais infrutífera. O momento certo não chegou. Nunca sabemos, na verdade, quando virá esse momento. De repente, lemos sem aviso prévio o livro de que estávamos justamente precisando. Algo acontece que nos aproxima de um autor ou de uma obra na hora certa.

Não pude ainda encomendar do Brasil, para entrega na Malásia, o volume Todas as Cartas lançado pela Rocco em setembro, sem dúvida um dos grandes acontecimentos literários do ano. Tampouco posso, por causa da pandemia, viajar a Singapura onde, na casa da minha mulher, está um livro mais enxuto, Correspondências, de 2002, organizado para a Rocco por Teresa Montero. Contento-me, assim, com as duas cartas par Olga Borelli incluídas na minha edição de A Paixão segundo G.H., da Coleção Archivos, preparada por Benedito Nunes, com extenso material crítico. Muitas vezes, nas últimas décadas, diante da tentativa malsucedida de ler o romance, acabei relendo, no volume, as duas cartas. A primeira delas, de 11 de dezembro de 1970, portanto um dia após o aniversário da autora, é famosa, e com razão. É surpreendente de franqueza e vulnerabilidade, considerando que a remetente e a destinatária, que viriam a ser amigas, tinham se conhecido apenas poucos dias antes. Toda a Clarice parece estar contida naquelas poucas linhas cativantes. Diz ela: “Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo […] Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança”.

Eu estava precisando dos contos de Clarice. O estranho é perceber que, se não me aguardasse naquele pequeno canto de Malaca o túmulo tido como sendo o de um guerreiro semi-lendário, se minha curiosidade pela sua história não tivesse sido despertada, se um poeta malásio que escreveu a respeito não lançasse o nome de Clarice Lispector solto assim em seu livro, talvez essa busca tivesse ficado soterrada em mim por um bom tempo ainda. O fascínio iniciado em Montevidéu cristalizou-se, tantos anos depois, como consequência da visão de um túmulo secular na mítica Malaca.

Primeira versão, mais curta, deste texto foi publicada em Estado da Arte, em 10 de outubro.

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