Em Seul, sem Chateaubriand

Em Seul, sem Chateaubriand

Na minha primeira noite em Seul, insone no hotel por causa do jetlag, abro a mala de mão, para buscar meu volume de Chateaubriand. Não o encontro. Olho pelo quarto, embaixo da cama, sob os lençóis, dentro da mala, sobre a cômoda, a mesa, a poltrona. Depois de tanta agitação, não havia mais a possibilidade de conseguir dormir. Sento na cama, pensando em como pudera perder o primeiro dos dois volumes das Mémoires d’Outre-Tombe na edição da Pléiade. Já totalmente acordado, percebo a dura verdade: eu esquecera o livro no avião. Tomei a descoberta como se fosse uma separação.

Isso aconteceu em 2013. Em algum momento, já de dia, liguei para a Lufthansa e comuniquei a perda. Resignei-me a nunca mais ver meu livro. Parecia improvável que aparecesse. Na partida, no terceiro ou quarto dia, no check-in para Frankfurt, foi-me dito que eu o receberia no portão de embarque. Fiquei incrédulo. Na hora de entrar no avião, vi que o volume de Chateaubriand estava sobre o balcão onde eram verificados cartões e passaportes. Sorri. Atribuí a devolução do livro às competências somadas da Alemanha e da Coréia do Sul.

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Durante boa parte da minha vida, resisti a ler Chateaubriand. Os próprios títulos da obra desse pai do romantismo francês — como Les Martyrs, Les Aventures du dernier Abencérage, Le Génie du Christianisme — pareciam-me rebarbativos, incompreensíveis. Na adolescência, tive de ler trechos de suas Mémoires d’Outre-Tombe. Não fui imune à poesia da obra, mas passada a obrigação, não retomei sua leitura por muito tempo. O livro de memórias  parece ser o que sobrou, neste início do século XXI, da obra do autor mais célebre, influente e adulado de seu tempo. De todos os títulos que fizeram a glória de Chateaubriand, no início do século XIX, temo que muito pouco seja lido hoje, mesmo na França. Duvido, por exemplo, que alguém ainda leia Le Génie du Christianisme, publicado em 1802, que contribuiu a relançar o catolicismo na França após treze anos de Revolução e deu ao escritor verdadeira celebridade, já que o livro atendia à política de Napoleão de reconciliação da República francesa com o Papa.

A existência de François-René, visconde de Chateaubriand, transcorreu em um período tumultuado da história. Bretão, nascido em Saint-Malo em 1768 e morto em 1848, o diplomata e escritor atravessou a Revolução Francesa, viveu exilado na Inglaterra de 1793 a 1800, voltou à França, serviu por alguns meses na embaixada em Roma — onde sua vaidade criou atritos com o Embaixador, o Cardeal Fesch, tio materno de Napoleão — rompeu com Napoleão em 1804, acolheu de braços abertos, e ajudou a tornar possível, a Restauração dos Bourbons em 1814, exilou-se em Gand com Luís XVIII durante o breve retorno de Napoleão à França em 1815, decepcionou-se com os Bourbons, e presenciou a Revolução de 1830, que colocou no trono Luís Filipe de Orleães, e a de 1848, que o derrubou. Viajou a lugares então de difícil acesso para um francês, como os Estados Unidos, a Turquia, o Oriente Médio.

Chateaubriand foi, de dezembro de 1822 a agosto de 1824,  Ministro dos Negócios Estrangeiros. Fora, antes disso, Ministro plenipotenciário em Berlim e Embaixador em Londres, ocasião em que o cozinheiro da embaixada inventou o “filé Chateaubriand”. Posteriormente à sua queda do Ministério, foi Embaixador em  Roma. De maneira muito característica, em suas memórias Chateaubriand fala em uma página apenas de sua atuação como Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas dedica à sua queda, e às emoções que ela gerou nele mesmo e em outras pessoas, nove páginas.

Na qualidade de Ministro, Chateaubriand ocupou o espírito de dois sucessivos emissários a Paris de D. Pedro I, que buscava o reconhecimento pela França da independência do Brasil, e de José Bonifácio, nosso primeiro Chanceler. O primeiro emissário, Manoel Rodrigues Gameiro Pessoa, futuro visconde de Itabaiana, escreveu a José Bonifácio, em setembro de 1823, que Chateaubriand “não é favorável aos nossos interesses”. O grande feito do escritor, como Ministro, foi a intervenção militar francesa na Espanha, em 1823, para libertar o Rei Fernando VII do jugo das Côrtes. Essa ação, determinada para dar prestígio interno e externo ao trono dos Bourbons na França, e que permitiu ao rei espanhol voltar ao absolutismo, pode explicar as reticências de Chateaubriand com o processo de independência dos países ibero-americanos. Em novembro, Gameiro Pessoa voltou a escrever a José Bonifácio: “[…] o visconde de Chateaubriand, que sempre achei avesso ao Brasil”. Ler os ofícios de Gameiro Pessoa e de seu sucessor, Domingos Borges de Barros, futuro visconde de Pedra Branca, em que narram seus encontros com Chateaubriand causa certa estranheza. Nesses ofícios, vemos Chateaubriand como um diplomata cauteloso, reservado, bem diferente do poético autor que gostava de expor sentimentos ou do político assertivo e polemista.

Em suas embaixadas, o escritor nunca permaneceu mais do que alguns meses. Nas memórias cáusticas que deixou sobre a sociedade e a vida política francesas na primeira metade do século XIX, a condessa de Boigne, que o conheceu bem e claramente não simpatizava com ele, diz que, se no exterior Chateaubriand sentia-se entediado, é porque lá não era tão célebre e adulado como na França.

Eterno insatisfeito, vaidoso, egoísta, megalomaníaco, preocupado com a sua celebridade, o autor só se sentia contente sendo admirado e rodeado de admiradoras que o endeusassem. A condessa de Boigne nos diz que, em 1813, ouviu Chateaubriand ler trechos de um de seus livros em um salão aristocrático. Segundo ela, “ele lia com a voz mais tocante e emocionada, com essa fé que deposita em tudo que emana dele mesmo. Ele entrava nos sentimentos de seus personagens, ao ponto que lágrimas caíam sobre o papel”. Isso tudo causava grande emoção nos ouvintes. Terminada a leitura, um chá foi servido e começou um ritual absurdo. “Dez senhoras”, nos diz a condessa, comentaram uma com a outra: “Ele quer chá”, “Ele vai tomar chá”, “Ele pede chá”, “Dê chá a ele” e se agitaram para servi-lo.

Aos olhos do sexo feminino, Chateaubriand possuía enorme poder de sedução. Um de seus apelidos era Enchanteur. Manteve inúmeras aventuras galantes, embora fosse casado. Sua mulher fora escolhida pelo dote, mas o amava.  O visconde pertenceu àquele momento feliz da história das letras, em que um escritor famoso exercia verdadeiro fascínio sobre o público e, se tivesse ambição política, era um poder a ser levado em conta. Com seus panfletos e opúsculos políticos virulentos, Chateaubriand contribuiu para a Restauração dos Bourbons em 1814 e também para a sua queda em 1830 e, no intervalo, para a demissão de ministros.

Em sua obra de ficção como nas suas memórias, Chateaubriand inventou um tipo cativante: o homem inocente, meio ingênuo, melancólico, transparente, preocupado com questões espirituais, com capacidade para amar e ser amado, em busca da mulher ideal, submetido contra sua vontade a todo tipo de decepção e vicissitudes, vítima ou protagonista, sem procurá-los, de eventos históricos. Em resumo, o herói romântico por excelência. Ambicioso e sedento por poder e prestígio, intrigante, desejoso de se tornar Primeiro-Ministro, ele diz porém sobre sua humilhante demissão do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, nas Mémoires d’Outre-Tombe: “Eu tinha a simplicidade de permanecer tal como o céu me fizera e, porque eu nada queria, julgaram que eu queria tudo […] Como! Você não quer ser nada! Então parta! Nós não queremos que um homem despreze aquilo que adoramos, e que ele se julgue no direito de insultar a mediocridade das nossas vidas”.

Chateaubriand, que viveu grandes paixões amorosas, era capaz de enviar a uma de suas amantes, Cordélia de Castellane, logo após a vitória militar francesa contra as Côrtes espanholas e durante as celebrações que isso ocasionou em Paris, a seguinte carta: “Esta glória, que deixaria qualquer outro homem tonto, não me distrai um só momento do meu amor […] Eu te escrevo após ter escrito a todos os reis e os ministros da Europa”. A condessa de Castellane foi uma das muitas traições que Chateaubriand fez a Juliette Récamier, que foi a pessoa mais importante para ele em seus últimos trinta anos de vida. Decepcionada ao saber de sua relação com Cordélia de Castellane, Madame Récamier viaja à Itália, e lá recebe esta carta do visconde, autor e ainda Ministro: “Eu não fico insensível,  ao ver a França neste estado de prestígio […] e ao pensar que a glória e a felicidade da minha pátria se iniciaram com a minha entrada no Ministério […] mas só me resta um tédio profundo do meu cargo, uma lassidão de tudo e a vontade de ir morrer, longe de todo burburinho, em paz e esquecido, em algum canto do mundo”.

Juliette Récamier, nascida em 1777 e morta em 1849, é ainda famosa. Seu retrato por David, de 1800, em estilo neoclássico, pode ser visto no Louvre, onde o fotografei:

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Aos dezesseis anos, casara-se com um rico banqueiro, 26 anos mais velho do que ela, no que parece ter sido um casamento branco. Até iniciar sua relação amorosa com Chateaubriand, em 1818 ou 1819, manteve-se virgem. Isso não a impedia, porém, de ser uma verdadeira coquette. A bela Juliette ambicionava ser amada por todos, flertava impunemente, e após a conquista de um novo admirador oferecia-lhe, em troca, sua amizade. Madame Récamier destacava-se pela beleza, a elegância e o tato, e mantinha um dos salões realmente importantes de Paris. Ela é um exemplo de êxito burguês na França pós-revolucionária. Com base apenas nas suas relações e nas suas qualidades pessoais, tornou-se extremamente famosa na Europa e exercia poder nas esferas intelectuais e administrativas. Nomeava Embaixadores, elegia membros da Academia francesa, conseguia empregos em ministérios. Mesmo após a ruína definitiva do marido, em 1819, quando seus meios financeiros tornaram-se reduzidos, manteve um salão no convento onde foi morar em Paris, a Abbaye-aux-Bois, e seus amigos continuaram fiéis a ela.

Em julho, em Paris, no cemitério de Montmartre, procurando o túmulo de Stendhal que eu queria rever, esbarrei por acaso no da bela Juliette:

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Devemos deduzir, pelas flores na tumba, que a celebridade de Madame Récamier não se apagou.

Chateaubriand e Madame Récamier haviam sido feitos um para o outro. Ambos célebres e casados, cuidaram juntos da fase final de suas respectivas reputações. Toda tarde, Chateaubriand visitava Juliette e imperava em seu salão literário.

As Mémoires d’Outre-Tombe contêm trechos extremamente poéticos. Chateaubriand começou a escrever o livro em 1809 e esse trabalho ocupou-o, com interrupções, até quase a morte, quarenta anos depois. Desejava que fosse publicado cinquenta anos após seu falecimento, o que explica o título, mas a publicação aconteceu quase em seguida, de 1849 a 1850. No salão de Madame Récamier, a partir de 1834, convidados seletos puderam ouvir a leitura de fragmentos. Tanto Alexis de Tocqueville quanto o mais famoso crítico literário da época, Sainte-Beuve, deixaram-nos relatos sobre essas leituras. Escreveu Tocqueville, que era contraparente de Chateaubriand: “Senti-me emocionado, agitado, real e profundamente conturbado […] Voltei para casa carregado por um ambiente aéreo que não é ainda o céu, mas já não é a Terra, que é o ambiente onde se encontra o espírito quando ficamos fortemente emocionados e que a impressão vibra ainda”. Sainte-Beuve informa que a leitura fora feita por um dos participantes, não por Chateaubriand. Para os convidados, devemos supor, havia não somente o prazer de serem os primeiros a tomar conhecimento direto da obra-prima, mas também o de notar sobre o rosto do autor os efeitos do que sentia ao ouvir suas memórias sendo lidas. Diz Sainte-Beuve: “Ora sua mão passava e pousava sobre as pálpebras […] escondendo alguma lágrima involuntária. Ora seu olho reabria, com a chama da jovem águia”. Estamos em pleno Romantismo.

Em suas memórias, Chateaubriand não se preocupa com a cronologia e algumas vezes insere comentários a passagens redigidas anos antes. O livro é uma mistura de auto-biografia, história da era agitada em que o autor viveu, poema em prosa e, também, de ficção. Chateaubriand revela o seu “eu” ideal, não o real. Alguns críticos literários e leitores se irritam, ao ver autor, narrador e herói imaginário alternando-se no livro. Chateaubriand narra, por exemplo, seu jantar, nos Estados Unidos, com George Washington. Há sérias dúvidas sobre se eles sequer se encontraram. Do ponto de vista puramente literário, porém, era imprescindível inserir uma vinheta sobre uma das grandes figuras históricas de seu tempo. O escritor inglês J. B. Priestley, em sua história da literatura ocidental, Literature and Western Man, declara que as Mémoires d’Outre-Tombe são “both an astonishing panorama of historical events and figures and the self-potrait of a man who is half-genius, half-charlatan, and thoroughly romantic in both halves”.

Para outros leitores, o livro pode ser irresistível. Nele, Chateaubriand cria uma atmosfera muito peculiar, da qual não queremos sair. Um dos trechos mais célebres é o da vida que o escritor levou, dos dezesseis aos dezoito anos,  após estudos em diferentes cidades da Bretanha, no castelo de Combourg, onde morou com seus pais e a caçula de suas quatro irmãs. Vemos a solidão, a natureza selvagem do lugar, a severidade do pai, a tristeza da mãe e a extrema cumplicidade com a irmã, Lucile, que mais tarde se suicidaria. Chateaubriand redige esses capítulos em 1817, mais de trinta anos após o período descrito, hospedado no castelo de Montboissier. A  vida em Combourg é introduzida de uma forma que faz dele um precursor de Proust, que conhecia bem as Mémoires d’Outre-Tombe. Passeando uma tarde sozinho pelo parque do castelo de Montboissier, Chateaubriand ouve o canto de um tordo: “Na mesma hora, esse som mágico fez reaparecer aos meus olhos a propriedade paterna; esqueci as catástrofes de que fora testemunha e, transportado repentinamente ao passado, revi aqueles campos onde tantas vezes eu escutara cantar o tordo”. Inicia-se assim o relato da vida levada em Combourg, de 1784 a 1786. O tordo de Chateaubriand prenuncia a madeleine de Proust.

Assim como a época histórica em que viveu o autor, o livro de memórias de Chateaubriand é dominado pela figura de Napoleão. Os dois só se falaram uma vez, em 1802. Em 1804, o célebre escritor descobre-se monarquista e legitimista e rompe com o Primeiro Cônsul. No entanto, nunca foi incomodado pela polícia de Napoleão, que aceitou mesmo sua eleição para a Academia francesa em 1811. Em 1814, quando o Bourbons estavam prestes a voltar à França, Chateaubriand publicou um panfleto violento contra o Imperador, intitulado De Buonaparte et des Bourbons.

Com o passar do tempo, nosso autor percebe que Napoleão dominará a lembrança daquela  era. Dá-se conta de que, sob Luís XVIII, Carlos X e Luís Filipe, a França perdera a glória em que vivera sob o regime imperial. Ao dedicar grande espaço no livro aos tempos napoleônicos, sente que engrandece a sua obra e também a si próprio. Coloca Bonaparte como seu inimigo mas, também, como objeto de sua admiração. Em 1839, Chateaubriand inicia em suas memórias a narrativa sobre a Restauração dizendo: “Tudo não terminou com Napoleão? Deveria eu falar de outra coisa? Que outro personagem pode interessar, se não ele? […] Como falar de Luís XVIII, em vez do Imperador? […] Fico ruborizado, pensando que preciso agora falar fungando de um bando de criaturas ínfimas, das quais faço parte, seres duvidosos e noturnos que nós fomos, em um cenário do qual o grande sol havia desaparecido”.

Desde 2013, com frequência penso nas memórias de Chateaubriand e releio trechos do livro. Já tive ocasião de citá-lo, na postagem sobre Waterloo.

Há menos de três meses, em julho, de férias em Paris, combinei de jantar com uma amiga. Fui buscá-la em casa. Ela mora em um dos cantos mais charmosos da cidade, a Rue du Bac. Caminhando, fui revendo e reconhecendo casas, lojas e cafés. Passei em frente ao Square des Missions Étrangères, onde há um busto de Chateaubriand que já vi inúmeras vezes na minha vida:

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Estava perto do número da casa de minha amiga. Atravessei a rua. Quase em frente ao jardim com o busto, encontrei o portão que buscava:

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Antes de inserir o código para entrar, li a placa. Pensei estar sonhando.  Vi que ali, em 4 de julho de 1848, morrera Chateaubriand. Eu sabia que, de fato, ele vivera dez anos na Rue du Bac. Não era porém possível tanta coincidência, que ele tivesse vivido e morrido no mesmíssimo prédio onde eu ia entrar.

Abri o portão. Caminhei até o pátio interno. Sabia que ele vivera em um apartamento no térreo.

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Antes de abrir a porta de vidro que leva à escada e subir até o apartamento de minha amiga, andei pelo pátio. Pensei que ali, ele estivera; que ali, ele terminara suas memórias; que aquilo, ele vira; que ali, ele morrera. Toquei nos muros. Examinei a hera. Olhei o céu.

De repente, dei-me conta também de que era preciso por fim àquele momento. Estava começando a me atrasar. Minha amiga ligou, perguntando se eu me perdera. Descartei a Revolução, o Império, a Restauração, Combourg, Chateaubriand, sua irmã Lucile, todas as suas amantes, Juliette Récamier, Tocqueville, Sainte-Beuve, Napoleão, abri a porta de vidro e subi.

                                                                                              Para Maria-Theresa Lazaro

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Vida e Morte no Musée Guimet

Vida e Morte no Musée Guimet

No Carnaval de 2013, meu melhor amigo morreu. O celular tocou, vi que era o número dele, atendi feliz, dizendo: “Olá, Antonio, que bom te ouvir”, e reconheci do outro lado a voz da sua mulher: “Estou ligando para dizer que o nosso Antonio descobriu há seis meses que estava com câncer; ele não quis que você soubesse para não te preocupar. Ele morreu anteontem e foi cremado ontem”. Era muita informação de uma vez só. O choque foi grande.

Minha mulher e eu estávamos na praia, na casa da família dela, onde nos casamos. Fui até o muro branco que separa a areia do jardim. Debrucei-me e fiquei olhando o mar. Eram onze horas da manhã, o sol batia forte, o mar e o céu estavam azuis, as ondas batiam perto do muro, os pássaros cantavam, não havia ruído humano. Era doloroso o contraste entre os sinais de vida na natureza ao meu redor e a tristeza interna.

Como ele era exatamente vinte anos mais velho do que eu, não era assombroso que partisse antes. Tudo isso era porém repentino, e ele morrera relativamente jovem.

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Em Paris, em julho, revisitando o Musée Guimet — ou Museu Nacional de Artes Asiáticas —  essas lembranças estiveram bem presentes para mim. Há doze anos eu não visitava o Guimet. A última vez fora justamente por insistência de Antonio, pois esse era seu museu preferido em Paris, onde ele então morava. Parecia-me triste a ideia de lá voltar. Em julho, porém, venceu a vontade de visitar uma exposição temporária, intitulada O Mundo visto da Ásia, através dos mapas.  

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O museu foi fundado em 1889 por Émile Guimet, industrial, orientalista e amante da música. Guimet era amigo de Edmond de Goncourt. Verifico que ele faz três aparições no Journal que Edmond manteve com o irmão Jules, até a morte deste, e depois sozinho. Edmond de Goncourt visitou o museu em 1891, a convite de Guimet. Da visita, narra apenas uma anedota inócua, que não merece ser citada, sem se preocupar com a coleção. Em 1878, ele já relatara no Journal uma visita do casal Guimet à Princesse Mathilde, célebre protetora das artes, sobrinha de Napoleão e prima-irmã de Napoleão III. Segundo Edmond, a princesa ofendeu o casal, que a ouviu, sem que ela percebesse, referindo-se a Émile Guimet como uma “tête de veau” (achando-o feio, presumivelmente), o que Goncourt, sempre fofoqueiro, aprecia, ao dizer maldosamente que Guimet “a de très grandes prétentions physiques”.

Bonito ou feio, Guimet deu origem a um dos mais importantes museus de arte asiática do mundo. A mostra que me fez revisitar a coleção acaba de terminar e expôs, de maio a setembro, mapas elaborados na Ásia ao longo dos séculos, com uma visão do mundo e dos países asiáticos diferente da visão ocidental tradicional. Muitas das obras expostas eram frágeis, e a luz por isso era baixa, o que prejudicou as fotos que tirei.

Este mapa da China, feito no Japão em 1762, representando “o território da dinastia Ming”, demonstra o intercâmbio de ideias ilustrado pela exposição. É cópia de outro mapa, do século XVII,  levado ao Japão por chineses exilados em Nagasaki, o qual, por sua vez, levava em conta noções de cartografia ocidentais trazidas pelos jesuítas à Corte imperial chinesa:

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O biombo de oito painéis visto abaixo, coreano, de 1860, reproduz um mapa do mundo do século XVII, feito na China por um jesuíta flamengo, Ferdinand Verbiest. O mapa é interessante por sua relativa precisão — embora diminua consideravelmente o território indiano — e por colocar a China no centro da carta.

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É certamente mais preciso do que este mapa-múndi japonês, de cerca de 1810:

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No esforço de colocar a Ásia no centro da imagem, todos os demais continentes foram distorcidos. Uma vez mais, a Índia é desenhada de forma apenas aproximada.

Abaixo, vemos um “mapa” do Afeganistão, da virada do século XIX para o século XX, o primeiro a ser feito localmente:

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O Afeganistão é representado pela torre central. As outras quatro torres designam os Estados vizinhos ameaçadores para o território afegão: a Rússia tsarista, situada ao Norte, é a torre da direita; o Sul é a torre da esquerda, e representa o Império britânico; a torre embaixo é a China, a Leste; em cima está o Irã — então a Pérsia — situado a Oeste.

A exposição terminava com estampas de artistas japoneses ativos na segunda metade do século XIX que retratam cidades do mundo ocidental. Os artistas não conheciam o Ocidente, e desenharam usando a imaginação, revistas ilustradas, relatos de viajantes. O artista Utagawa Yoshitara, em 1862, imaginou Paris da seguinte maneira:

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Eu esperara muito da exposição e não fiquei desapontado. Como estava no museu, decidi rever a coleção permanente. Lembrava-me apenas de um infinidade de budas que, em 2006, me pareceram tediosos pela repetição. Em 2006, porém, eu só estivera uma vez antes na Ásia, a trabalho, em Kyoto, justamente com o Antonio. De lá para cá, fui à Ásia algumas vezes. Revisitei a coleção do Guimet, em julho, com novos olhos, com outra experiência de vida.

O museu não é muito grande, e as peças são expostas de forma um tanto antiquada, o que dá um sabor adicional à visita. Não há multidões e, no fim das contas, entendi, com doze anos de atraso, o que meu amigo via no Guimet.

Na postagem sobre o Museu de Arte Islâmica em Doha, eu mencionei a dificuldade de nós nos inserirmos, nos museus, em uma cultura que não é a nossa. Há os dados sutis, as deixas culturais, históricas e sociológicas que nos escapam. Em uma visita a um  museu, podemos apreciar a arte, e passar a entender um pouco mais daquela cultura. Na ausência de anos de estudos, sem conhecer as línguas, podemos sentir o encanto, o impacto daquelas obras, mas em muitos casos não apreenderemos todo o seu significado. E assim, fui passando de sala em sala no Musée Guimet, impressionado com o que via, e pensando que seria preciso eu voltar muitas e muitas vezes, para entender melhor o que está lá exposto.

Em uma das salas de arte chinesa, por exemplo, vi um ambiente simples, composto por duas cadeiras e um armário em jacarandá, do início do século XVII:

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Ainda que extremamente elegantes, pelas linhas despojadas e a qualidade do desenho e do material, os móveis não me pareceram merecer tanto da minha atenção, pelo menos não no contexto das muitas obras-primas contidas no Guimet. Isso, até eu notar uma cena intrigante. Dois visitantes chineses aproximaram-se dos móveis e ficaram muito tempo extasiados, confabulando um com o outro a respeito, tocando no armário, alisando as cadeiras, fotografando, filmando, impressionados. As funcionárias responsáveis pela segurança  — isto, infelizmente, não aparece no momento que gravei no vídeo abaixo — precisaram exclamar três ou quatro vezes: “Ne touchez pas, s’il vous plaît”:

O que os visitantes chineses terão apreciado nessas peças? Nunca saberei, e o catálogo do museu, bastante informativo e que poderia me dar alguma pista, sequer as menciona.

Há peças espetaculares na seção chinesa, como este vaso “mil flores”, do século XVIII:

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Ou este vaso “com dragão”, do século XIV:

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Não quero cansar meus seis leitores — sim, já não são quatro — com descrições de todas as obras que fotografei e minha reação diante de cada uma. Contento-me, por isso, em mostrar apenas algumas delas.

O museu é particularmente rico em peças do Império Khmer, tendo sido o Camboja um protetorado francês, de 1863 a 1953.  Logo na primeira sala, somos confrontados com esta “deusa dançante” em arenito, do século X, de Koh Ker:

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O pedestal é o original; esteve porém separado da escultura durante cerca de 145 anos, até 2016, quando o Guimet, por meio de um escambo com o Museu Nacional do Camboja,  o adquiriu. É algo magnífico, pensar que a estátua e sua base, após longa separação de um século e meio e de milhares de quilômetros, puderam se reunir.

Do mesmo Império Khmer, há esta cabeça colossal, também em arenito, do Rei Jayavarman VII, morto em 1218, escultura aliás que serve de capa para o guia do Guimet:

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Da Índia, vemos esta “divindade sob a árvore”, ainda em arenito, feita entre os séculos X e XI:

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E este “torso de Buda”, em arenito, do século V:

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A arte do reino indiano de Gandara é bem representada, e me fez pensar no museu de Taxila, que visitei em 2017, como mencionei em De Taxila a Panam Nagar.  

Abaixo, uma cabeça de “Bodisatva Maitreya” (o Buda do futuro, que ainda virá, portador de compaixão e do poder de consolar), em xisto, século I-III:

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Levei um bom tempo procurando uma das peças mais famosas do museu, o “Gênio com flores”, em estuco, do século III-IV:

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Mesmo com a ajuda de um vigia, foi difícil achar a escultura, pois ela fica pendurada em um canto de parede, ao alto, entre outras peças. Achei fascinante, o despojamento do museu em colocar assim, como quem não quer nada, uma das obras-primas de sua coleção.

Minha sala preferida é uma onde são mostradas diversas esculturas budistas chinesas, em madeira ou pedra, do século X ao século XIII, como mostra este vídeo:

Da coleção dessa sala, destaco este “monge sentado”:

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No mesmo espírito, embora representando um funcionário de governo, há, em outro salão, esta escultura japonesa, do século XVI-XVII, de um governador militar de província:

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É também japonês este biombo do século XVI:

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Era preciso partir. A tarde terminava. Eu ia à Comédie-Française, assistir à produção de uma de minhas peças prediletas de Racine, Britannicus. Mais tarde, ia me encontrar com minha filha, que chegaria de Bruxelas para passar o fim de semana comigo.

No andar mais alto,  porém, detive-me um momento no pavilhão circular, a admirar as vistas sobre Paris que o museu oferece:

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Admirei a estátua equestre de George Washington, na minha avaliação um dos seres mais extraordinários que já viveram. Pensei que o nome da praça — Place d’Iéna — evoca uma das mais célebres vitórias de Napoleão.

Lembrei que Antonio morara ali perto, na rue de Chaillot. Pensei que um dia eu tampouco estaria mais aqui, para ir ao Musée Guimet, apreciar arte asiática, lembrar de Napoleão, Washington e de todas as pessoas que marcaram minha vida e que eu jamais reverei. Percebi que essas pessoas são já muitas e vêm se acumulando desde os meus 17 anos. Há consolo, no entanto, em meditar sobre o fato de que, excetuando-se algum cataclisma, museus seguirão existindo. Gerações depois da minha visitarão o Guimet. Elas verão o governador japonês e o monge chinês sentados, ficarão impressionadas com o dragão no vaso do século XIV, sentirão o impacto que o Buda causa, em todas as suas formas e representações, se sentirão próximas do rei khmer morto em 1218. Esse, afinal, é o grande poder da arte, fazer-nos crer que a vida possui algum sentido, que a beleza e a força estética se sobrepõem à temporalidade dos seres e das coisas.  O importante não é meus parentes e amigos terem morrido, e sim o fato de terem vivido, terem sentido, terem amado, terem visto a “deusa dançante” e, para mim, de eu ter tido a chance de conviver com eles. É como uma abolição do tempo.

Nero, Agripina e Britânico me esperavam no palco da Comédie-Française. Eles também sobrevivem, como Jayavarman VII, graças ao poder da arte.

Saí do museu, entrei no metrô e fui ao teatro.

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Minhas Aventuras com Tintin

Minhas Aventuras com Tintin

Uma vez, li em algum lugar que a vida é aquilo que precisamos fazer para ocupar o tempo entre o café da manhã e o almoço e entre o almoço e o jantar. Em julho, quando passei alguns dias em Bruxelas, senti que a vida acontecia durante as refeições, quando podia estar com minha filha, que lá vive e trabalha. O resto do tempo era apenas a espera tediosa do momento de revê-la.

Desde que Julia saiu de casa, em 2011, para fazer faculdade, e passamos a morar em países diferentes, cada reencontro torna tudo mais vivo, mais vibrante, mais colorido ao meu redor. Ao mesmo tempo, cada separação traz, nos primeiros dias, um sabor de vazio e de incompletude. Como preencher os momentos em Bruxelas entre o café da manhã, o almoço e o jantar? Como tornar menos entediantes as horas sem minha filha? Tive sorte de que os dias estavam quentes e ensolarados. Choveu apenas em um final de tarde.

Um de meus primeiros destinos foi La Boutique Tintin, o paraíso de todo admirador do jovem repórter que nunca escreve para jornal algum. Tintin é provavelmente o belga mais famoso que jamais existiu. No aeroporto de Bruxelas, Zaventem, na área central por onde passam todos os passageiros, estejam eles embarcando ou desembarcando, é ostentado o foguete que figura em duas de suas aventuras mais conhecidas:

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Assexuado, sem família, ar de adolescente e rosto sem traço distintivo — o topete é sua única característica física notável — Tintin é aquilo que cada um de nós quer que ele seja e todos podemos nos projetar nele. Mais recentemente, o personagem tem-se revestido de uma forma nova de prestígio: é um dos poucos heróis de histórias em quadrinhos famosos a não ser americano, em uma espécie de resistência cultural francófona.

No longínquo ano de 2016, meus alunos no Instituto Rio-Branco ofereceram uma festa a fantasia com o tema “Quadrinhos”. Fiquei me perguntando se algum iria vestido de personagem das BD franco-belgas. Quantos se fantasiariam de Lucky Luke, o cowboy “mais rápido do que a própria sombra”? Quantos de Astérix ou Obélix? Quantos de Spirou, o camareiro que vira jornalista, ou de Fantasio, seu melhor amigo? E quantos de Iznogoud, aquele que queria “ser califa no lugar do califa”?

Ao ver nas redes sociais as fotos da festa, fiquei desapontado. Havia apenas personagens de comics americanos. Notei uma única exceção: um aluno fora disfarçado de Tintin, levando inclusive no braço um Milou de pelúcia. O jornalista belga aparentemente escapa da relativa obscuridade atual de outros heróis de quadrinhos de língua francesa, como demonstra o filme The Adventures of Tintin, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2011.

No Brasil, conheço ao menos uma pessoa fanática por Tintin: Chicô Gouvêa. Minhas férias de julho haviam começado em Lisboa, onde eu fora visitar minha irmã, e logo no primeiríssimo dia ela e eu jantamos no apartamento de Chicô e Paulo Reis, amigos que já mencionei em  O Embrulho Vermelho. Reparei que, como também acontece em sua casa do Rio de Janeiro, os personagens tintinescos faziam-se presentes na decoração em Lisboa:

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Chicô e Paulo colecionam máscaras africanas. Uma vez, no Rio, aconteceu de eu elogiar uma delas. Da maneira mais generosa, eles imediatamente a retiraram da parede como um presente para mim. Essa máscara está hoje em casa em Brasília:

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Voltemos a Lisboa, ao jantar em casa de Chicô e Paulo, onde me deparo com uma máscara com os traços do herói belga, o que eu nunca havia visto antes:

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Dias mais tarde, em Bruxelas, dirijo-me a La Boutique Tintin. Conheço bem a loja, da época em que morei na cidade pela segunda vez, e sei que ela não é barata. Fica perto da Grand’Place:

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Dentro, o foguete é onipresente, e mesmo os modelos menores são caros, em função das leis de oferta e demanda, já que esse é provavelmente o objeto mais reconhecível, mítico das aventuras do nosso amigo belga:

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Vários objetos fazem referência a outras aventuras:

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O criador de Tintin, Georges Remi (1907-1983), conhecido pelo nome artístico Hergé (foneticamente, suas iniciais invertidas), é figura controvertida. Trabalhava, no começo da vida, em um jornal conservador, católico. É em um dos suplementos do jornal que primeiro foram publicadas, de forma seriada, as aventuras de seu principal personagem. Hergé é visto por alguns como tendo sido colaboracionista, durante a ocupação alemã da Bélgica, na Segunda Guerra Mundial.

As aventuras de Tintin começaram a ser publicadas em 1929. As primeiras prestam-se facilmente a acusações de racismo e antisemitismo. Ler Tintin au Congo (1931) é uma experiência constrangedora. A partir de um determinado momento, contudo, as aventuras mudam de tom e tornam-se cativantes, embora haja, em L’Étoile mystérieuse, publicado durante a Ocupação alemã, ao menos uma página com alusões antisemitas.

Em casa, temos todos os volumes, exceto justamente Tintin au Congo. Mostro na foto os meus prediletos, sendo que na maioria dos casos são ainda os exemplares que meus irmãos e eu líamos avidamente na infância:

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Os volumes onde aparece o famoso foguete são estes:

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A mudança na visão de mundo de Hergé é atribuída à forte amizade que desenvolveu, a partir de 1934, com um estudante de arte chinês então residente na Bélgica, Chang Chong-chen, que colaborou no álbum Le Lotus Bleu. A convivência entre os dois durou apenas um ano, pois em 1935 Chang Chong-chen regressou à China. Eles só voltariam a se ver em 1981.

Hergé escreveu outras séries de histórias em quadrinhos, além da que é dedicada a Tintin, mas este, ao se tornar mais famoso do que seu próprio criador, ofusca o resto da obra. Criança, eu gostava também de Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, que mostram as peripécias de dois irmãos e seu chimpanzé:

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Em 2009, a viúva do artista criou na cidade de Louvain-la-Neuve, perto de Bruxelas, o Musée Hergé, belíssimo prédio concebido pelo arquiteto Christian de Portzamparc, mas desconfio que os visitantes vão ao museu para saber mais sobre Tintin, não sobre o criador ou o resto de sua obra. Em janeiro de 2017, visitei em Paris, no Grand Palais, exposição dedicada a Hergé:

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Na exposição, organizada pelo Musée Hergé, as críticas ao antisemitismo, racismo e espírito colonialista de alguns álbuns foram abordadas de forma superficial, como que por mero desencargo de consciência. Com relação a Tintin au Congo, por exemplo,  um cartaz explicava que: “A ingenuidade caricatural com que ele descreve a população local e o país resulta de uma documentação sumária, cuja fonte é essencialmente o museu colonial de Tervueren”. E continuava: “Em Tintin au Congo, com frequência acusado, posteriormente, pelo seu tom colonialista, Hergé dá provas sobretudo do espírito de seu meio e de seu tempo”. Fácil assim…

A exposição dava exemplos do trabalho de Hergé como desenhista publicitário, por exemplo neste anúncio do jornal de direita onde primeiro trabalhou:

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Naturalmente, não podia faltar uma maquete do celebérrimo foguete, pois afinal Tintin e seus amigos Milou, Capitão Haddock e Professor Girassol e os irmãos detetives Dupond e Dupont caminharam na Lua em 1954, quinze anos antes de Neil Armstrong:

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Nada me interessou mais na exposição do que rever a “estatueta portadora de oferendas”, em madeira, oriunda do Peru, produzida pela Cultura Chimu, pré-colombiana, entre 1100 e 1450:

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É que conheço muito bem essa escultura, pois ela pertence à coleção do Musée Art et Histoire, em Bruxelas, onde — criança e adulto — eu a vi inúmeras vezes. A peça inspirou Hergé, que a conhecia, a escrever um de meus livros prediletos da série, L’Oreille cassée.  Graças ao álbum, a estatueta talvez seja hoje a peça mais famosa do museu.

Em casa, temos uma mini-bibliografia sobre Tintin:

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Michael Farr —  autor inglês que publicou vários livros sobre o personagem e seu criador —  opina ser Tintin “um herói imaginário em um mundo real”. Daí derivaria seu “apelo universal”. Em The Complete Companion, Farr nos mostra como as aventuras são sistematicamente baseadas em fatos, eventos, prédios, pessoas, obras de arte, descobertas científicas reais.

O psicanalista e psiquiatra francês Serge Tisseron dedica grande parte de seu tempo a Hergé e a Tintin. Segundo sua teoria, Hergé transferiu para a série tintinesca o seu drama familiar. O pai do artista tinha um irmão gêmeo, como parecem ser gêmeos Dupond e Dupont, seus dois personagens detetives. O pai e o tio de Hergé eram filhos de uma mãe solteira, empregada doméstica na casa de um conde belga e sua mulher. Quando seus dois filhos gêmeos eram já adolescentes, a avó de Hergé casou-se com um operário, em um casamento arranjado pela condessa e graças ao qual os dois gêmeos adotaram o sobrenome — Remi — do padrasto. Essa união foi meramente de conveniência. Hergé nunca sequer viu o padrasto do pai, embora tivesse já 34 anos quando o “avô” morreu.

Quem teria sido o verdadeiro pai do pai de Hergé? Se ele sabia, nunca revelou. Serge Tisseron especula se poderia ter sido o conde, ou um de seus parentes ou talvez até mesmo o próprio Rei dos Belgas, Leopoldo II, notório mulherengo, que, segundo se sabe, frequentava as propriedades do conde e sua mulher.

Leopoldo II não era um monarca qualquer. Rei de um pequeno país, viu no imperialismo europeu na África a chance de aumentar seu patrimônio pessoal. Transformou o imenso território que é hoje a República Democrática do Congo em uma propriedade particular, à qual atribuiu-se, ironicamente, o nome de Estado Livre do Congo. Em 1908, o rei doou sua colônia à Bélgica, depois de ter amealhado grande fortuna graças a ela. O domínio de Leopoldo II sobre o Congo foi excepcionalmente cruel e sangrento. Alguns autores consideram que a presença belga no Congo constituiu, verdadeiramente, um genocídio. Joseph Conrad inspirou-se das crueldades cometidas pelos agentes de Leopoldo II para escrever Heart of Darkness, publicado em 1902. Devemos supor, porém, que, ao contrário de Kurtz, o vilão de Joseph Conrad, o Rei dos Belgas nunca sentiu arrependimento e nunca exclamou, ao morrer “The horror! The horror!”.

Seria Leopoldo II o avô de Hergé? Estaria aí a origem das falas e das atitudes revoltantes de Tintin e mesmo de seu adorável cachorrinho Milou em sua viagem ao Congo? De qualquer forma, o Tintin que sobrevive é o posterior, aquele encantador, inteligente, que ajuda os outros, vive aventuras em todas as partes do mundo, resolve vários enigmas, nunca comete maldades, é equilibrado e sensato, apesar da eterna figura de adolescente.

Saí de La Boutique Tintin, em Bruxelas, apressado, impaciente para ver Julia. Comprara um relógio de pulso. No dia seguinte, fiz um tuíte ostentando-o no braço. É, até hoje, meu tuíte mais popular.

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O Palazzo Spada e seus gatos

O Palazzo Spada e seus gatos

Para Fátima Ishitani

Ao chegar a Roma pela primeira vez, em 1786, aos trinta e sete anos, Goethe escreveu: “Todos os sonhos da minha juventude ganharam vida”. Visitando sua casa natal em Frankfurt, em 2013, constatei que o interior havia sido decorado pelo pai do escritor com gravuras representando Roma. Após um ano e meio viajando pela Itália, Goethe precisou partir, em abril de 1788. Triste, pensou em Ovídio, “o poeta que também foi obrigado a se exilar e a abandonar Roma, em uma noite enluarada”:

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Em abril de 1925, o futuro Senador e Chanceler do Brasil Afonso Arinos de Melo Franco visitou Roma pela primeira vez, aos dezenove anos de idade, sem saber que um dia seu nome estaria ligado ao de um período destacado da diplomacia brasileira, o da Política Externa Independente. Em 1982, publicaria um belo volume, Amor a Roma — belo palíndromoque é ao mesmo tempo livro de recordações, história de Roma, relato de viagem e ensaio literário, pois ali discorre sobre escritores que, como ele, se deixaram fascinar pela cidade. Meu exemplar de Amor a Roma foi presente que ganhei de um amigo, aos vinte e quatro anos:

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Quando ganhei o livro, eu já conhecia bem Roma, pois lá estivera pela primeira vez quatro anos antes, e havia regressado em duas ou três outras oportunidades. Desde então, não me canso de voltar. A cada vez, é a mesma surpresa de que possa no mundo existir um lugar assim. A cada vez, é a mesma estupefação diante daquele esplendor. Afonso Arinos, ao descrever o que seria o amor a Roma — considerado por ele “fecundo encantamento” — ensina que “o amoroso de Roma não se transfere para dentro da Cidade, antes transfere a Cidade para dentro de si”.

Como Afonso Arinos, cheguei a Roma pela primeira vez trazendo “no bolso um livro de Stendhal”. Ele não nos diz qual. Terá sido Promenades dans Rome, clara inspiração para Amor a Roma? No meu caso, foi Chroniques italiennes, e sobre isso já escrevi em Papai Noel e a amizade.

Foi em Roma, no Campo dei Fiori, que, pela primeira vez, em 2013, descobri as virtudes do suco de romã feito na hora. Pedro Nava criou para Afonso Arinos um “Palíndromo do amigo”:

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Afonso Arinos detém-se sobre a figura do poeta Joachim Du Bellay (1522-1560), que viveu em Roma de 1553 a 1557, mas não cita o verso de Du Bellay que mais me marcou, desde que primeiro o li em uma coletânea de poesia francesa que recebi de meus pais, na infância:

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O poema, iniciado com o célebre verso “Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage”, permite a Du Bellay declarar a saudade de sua terra natal, Liré, na província de Anjou, e dizer que gosta mais de lá do que do Monte Palatino: “Plus mon petit Liré que le mont Palatin”:

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Já criança, sem nunca ter ido a Roma — mas sim ao Anjou, embora não a Liré — eu ficava intrigado: como era possível uma aldeia de nada no interior da França (2.494 habitantes em 2010) carregar mais peso em um coração do que o Monte Palatino, onde Roma começou e onde moraram Augusto e muitos Imperadores, que lá construíram seus palácios? Isso, porém, foi só até eu começar a pensar nos morros na fazenda de meu avô, na Zona da Mata em Minas Gerais.

Em julho, minha filha e eu passamos um fim de semana em Roma. No domingo de manhã, fomos passear a pé, com uma amiga, pelo Campo dei Fiori e seu mercado. Tenho um fraco por feiras ao ar livre. Costumam ser lugares onde se sente o pulso de uma cidade, ouvem-se conversas de todo tipo à nossa volta, e as frutas e os legumes parecem deliciosos. Mercados trazem-me ecos de contos de As Mil e Uma Noites, uma de minhas leituras prediletas na adolescência. Frequentemente, perambulando por quiosques de frutas, mel, nozes, ervas e condimentos, penso nas aventuras do Califa Haroun-al-Rachid em Bagdá.

Tenho no meu celular fotos tiradas no Campo dei Fiori em diferentes viagens. As minhas prediletas são estas duas, de outubro de 2013:

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Quem será esse casal elegante, parado em pleno mercado? Nunca saberei, e fica a curiosidade. Penso frequentemente nessa foto, no momento em que a tirei, e nas vidas que ela revela.

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Quando publiquei no Facebook a foto acima, uma amiga que então morava em Roma, criou-se em Portugal e é uma purista do idioma me escreveu: “comprei orégano a esse homem ontem!”.

Na foto abaixo, de julho de 2017, conto ao menos dez variedades de tomate no diminuto espaço:

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Apesar do nome poético e da beleza arquitetônica, o Campo dei Fiori é também o local onde, no passado, aconteceram execuções públicas. Em 1600, o dominicano Giordano Bruno foi aqui queimado vivo pela Inquisição por, entre outras coisas, acreditar na existência de diversos sistemas solares. No centro, mesmo local onde ocorreu o suplício, há hoje um monumento em sua homenagem:

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O mercado se desenrola ao pé e ao redor da estátua. Como tantos lugares em Roma, a praça soma o belo ao prosaico:

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O nome do cinema é uma referência ao Palazzo Farnese, ali perto, sede da Embaixada da França.

No mês passado, ao chegarmos à praça, Julia, nossa amiga e eu tomamos um suco de romã. Pouco depois, tendo chegado ao último quiosque, ouvimos o vendedor, nascido em Bangladesh, nos dizer: “I can change your life”. Sorrimos e seguimos adiante, pelas ruas da vizinhança. Aquilo, porém, ficou me martelando. Meia-hora depois, pedi que voltássemos ao estande:

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Perguntei como ele poderia mudar nossas vidas. A resposta nos frustrou: “Fazendo vocês beberem um suco destas laranjas muito especiais. Laranjas darão às suas vidas mais energia, mais saúde”. Aceitamos. Tomamos cada um o seu copo de suco. A laranja era de fato excepcional, mas fiquei decepcionado. Isso era tudo bem banal. Esperava mais; talvez, a revelação do mistério da vida. O vendedor havia feito propaganda enganosa.

Tomado o suco de laranja, perguntei à nossa amiga se conhecia o Palazzo Spada, ali perto. Julia, eu sabia, nunca estivera lá. Diante da resposta negativa, sugeri que o visitássemos imediatamente.

O palácio, construído nos séculos XVI e XVII, contém uma coleção de arte formada por membros eclesiásticos da família Spada, particularmente o Cardeal Bernardino Spada (1594-1661). Menor e menos importante do que, por exemplo, a da Galleria Borghese ou a do Palazzo Doria Pamphilj, a coleção, conhecida como Galleria Spada, é porém atraente e compacta. A fachada externa do palácio e as fachadas no pátio interno, do século XVI, apresentam-se assim:

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O palácio não é todo visitável, pois é um prédio governamental, sede do Conselho de Estado. Por essa razão, a não ser excepcionalmente, não pode ser vista a estátua de Pompeu que ele abriga, descoberta no século XVI e que, por muito tempo — mas não mais — foi considerada aquela mesma a cujos pés caiu César, ao ser assassinado no Senado. Plutarco, em sua biografia de César, nos diz que a estátua ficou “toda ensanguentada; por isso, ela parecia presidir à vingança e à punição do inimigo de Pompeu, caído aos seus pés”. Não conheço a escultura, mas posso ver sua reprodução todo dia, se quiser, pois ela está na capa deste livro:

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A Galleria Spada compõe-se de apenas quatro salas, de tamanho mediano. Os quadros são expostos ao estilo do século XVII, cobrindo ao máximo possível as paredes. Nesta foto, o retrato cardinalício, na parede da esquerda, representa Bernardino Spada, pintado por Guido Reni (1575-1642):

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Guido Reni é um pintor cujas obras sempre noto, pois era um artista de predileção de Stendhal, que frequentemente fala nele, afrancesando seu nome para “le Guide”. A cada quadro de Reni que vejo, sinto-me mais próximo de um de meus escritores prediletos.

A visita pela Galleria Spada continua:

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A última sala contém o quadro que mais me intrigou nesta visita recente, o maior de todos, visto abaixo na parede da esquerda:

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Vejamos a obra mais de perto. Não foi fácil fotografá-la, pois por mais que eu me movesse pela sala — retangular e relativamente estreita — sempre havia luz incidindo sobre alguma parte da tela:

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Trata-se de A Morte de Dido, pelo Guercino (1591-1666), outro pintor de predileção de Stendhal, que o chama de “le Guerchin”. A obra, teatral, representa o momento em que Dido, rainha e fundadora de Cartago, se suicida ao ser abandonada pelo amante, Eneas, que parte nos barcos vistos ao fundo da tela. A espada usada por Dido para se matar fora um presente de Eneas. O homem à direita na tela nos convida a assistir à cena, o que parece nos inserir em uma peça. Essa percepção é acentuada pela posição do corpo de Dido — que ainda está viva — pouco natural mas fortemente dramática. À esquerda, a irmã da rainha demonstra seu choque, com o gesto das mãos abertas. Barroco pelas roupas e as poses das personagens, o quadro é impressionante.

Era porém hora de sair para o jardim interno do palácio, onde já me esperavam Julia e nossa amiga, e onde queríamos ver a famosa perspectiva criada pelo arquiteto Francesco Borromini em 1653:

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Graças a um efeito de ilusão de ótica, a galeria de colunas parece ter 35 metros, mas na realidade há pouco menos de nove. A estátua de soldado ao fundo parece ser em tamanho natural, mas sua altura verdadeira é de apenas 60 centímetros.

A perspectiva de Borromini é um dos tesouros romanos mostrados em A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino, ganhador de numerosos prêmios, inclusive, em 2014, o Oscar de melhor filme estrangeiro. A Grande Beleza é, talvez, a mais bela homenagem que um filme já tenha prestado a qualquer cidade. O personagem principal, Jep Gambardella — em uma convincente atuação de Toni Servillo — nos revela, andando pela cidade, a vida cínica e ociosa que passa junto a membros decadentes da alta sociedade romana, em claros ecos de La Dolce Vita de Fellini. Na loja da Galleria Spada, ao sair, comprei um livro fascinante, do historiador da arte Costantino D’Orazio, que nos explica muito sobre os cenários de A Grande Beleza e o objetivo de Sorrentino ao realizar o filme:

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Segundo D’Orazio, “Os romanos já não sabem apreciar a beleza que os circunda”. O fio condutor do filme de Sorrentino seria o seguinte: “La grande bellezza di Roma, le sue architetture e opere d’arte vengono continuamente deturpate dalla volgarità degli uomini che le abitano”.

Em um filme repleto de cenas memoráveis, uma das melhores dura cinco minutos e mostra Jep e sua nova amiga, Ramona, em um passeio noturno por palácios, museus e jardins. Levaríamos dias, enfrentando multidões, para percorrer o trajeto daqueles cinco minuto de cena. Jep e Ramona estão acompanhados de Stefano, claudicante e de bengala, que carrega consigo uma pasta onde estão as chaves — enormes — dos lugares que contêm vários dos tesouros artísticos da cidade. Ramona pergunta a Jep: “Ele é o porteiro?”. A resposta: “Não, é o amigo das princesas”. A personagem de Ramona é a mais comovente do filme. Quando Jep a conhece, sabemos apenas que ganha a vida fazendo strip-tease na casa noturna do pai, que assiste ao seu show e explica: “Já disse a ela que, aos 42 anos, está velha para isso, mas ela diz que precisa do dinheiro”. Longe de ser mais uma personagem decadente do filme, Ramona é, na verdade, a mais inocente e atraente, e logo descobriremos a razão triste por que precisa do dinheiro.

O poético passeio noturno de Jep, Ramona e Stefano inclui uma visita à perspectiva de Borromini no Palazzo Spada. Ao contrário de nós, Ramona pode caminhar pela galeria de colunas e, chegando ao fim, exclama: “parecia longa, mas é curta!”, com ar de total surpresa e felicidade. Comenta D’Orazio: “Con il sorriso di una bambina… la sua sorpresa è quella che i romani non vivono più di fronte alla grande bellezza di Roma”. D’Orazio classifica a perspectiva como apta a provocar “stupore” e “meraviglia”.

O jardim de laranjeiras de onde se vê a obra de Borromini é silencioso e tranquilo:

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Admirei as laranjas, ouvi o canto de pássaros, senti o sol, reexaminei a galeria de colunas. A paz era profunda. Além de nós três, mais ninguém. Ou assim pensávamos. Logo, sentimos outra presença. Uma gata, grávida, circulava pelo jardim:

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Deitou-se sem cerimônia:

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Logo apareceu um segundo gato, e rapidamente elaboramos a teoria, romântica ou lúcida, de que seria o feliz papai dos filhotes prestes a nascer:

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Tivemos em seguida a certeza de que eram os animais de estimação da casa:

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Fiquei pensando sobre o fato de que, em um canto silencioso de Roma, o Palazzo Spada guarde a estátua antiga de Pompeu e os quadros de Guido Reni e Il Guercino ilustrando figuras da história ou cenas dramáticas da mitologia, ostente as suas nobres fachadas, mas abrigue também dois gatos e sua casinha. Talvez seja esse o mistério de Roma. A cidade é o espetáculo grandioso de várias épocas superpostas, formando ao mesmo tempo um conjunto coeso. Para sempre, porém, seu nome fará lembrar o do Império de que já foi o centro e que ruiu. Por isso, as noções de grandeza e decadência estão, em Roma, interligadas. E a vida continua, agitada mas também serena, espetacular mas também simples, alegre e também triste, e o mesmo espaço nos mostra, magnificamente, a morte de Dido — abandonada por Eneas, preocupado em partir para ir fundar Roma — e uma gata grávida e seu pequeno abrigo. Roma, assim, é todos nós.

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Obrigado,

Ary

 

Waterloo

Waterloo

Há poucos dias, estive com minha filha no campo de batalha de Waterloo. Lá, em 18 de junho de 1815, Napoleão Bonaparte foi derrotado pelo Duque de Wellington e pelo Marechal prussiano Príncipe Blücher. Esse é um lugar especial para mim. Na postagem Papai Noel e a amizade, mencionei meu interesse constante, desde a infância, por Napoleão, despertado pelo fato de que Rhode-Saint-Genèse — onde morei criança — é uma localidade perto de Waterloo; de que visitei inúmeras vezes, ao longo da vida, o campo de batalha, seu Panorama, o museu de cera e a livraria cobrindo todo tipo de tema ligado à era napoleônica; e de que subi tantas vezes os 226 degraus do morro do famoso Leão.

Nos três dias que passei em Bruxelas, neste final de julho, o verão estava quente e ensolarado. Antes da ida a Waterloo, minha filha, seu namorado e eu nos encontramos em um café por eles frequentado, o Cup 28, em Ixelles, bairro de Bruxelas onde ela mora e onde ficava meu hotel. Sentamo-nos no pátio, embaixo de uma parreira. Sentar-se do lado de fora em restaurantes é, em Bruxelas, façanha relativamente rara:

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Reparei, ao receber meu café da manhã, que o suco de laranja vinha acompanhado de  canudo de metal, primeiro e único que vi até agora:

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Ao pagar, descobri que o funcionário que tinha nos servido, e que talvez fosse o gerente do café, era brasileiro, de Goiás, e que mora na Bélgica com os pais desde a infância.

A caminho de Waterloo, Julia e eu passamos por Rhode-Saint-Genèse, para eu rever a casa onde morei criança. O passeio quase termina aí, pois o táxi em que íamos por pouco não bateu, em uma rotatória, na entrada de Rhode, em outro carro, dirigido por uma mulher jovem, com o filho pequeno sentado no banco de trás.

De Ixelles a Rhode, o caminho é idílico. Passamos primeiro pelo Bois de La Cambre e, depois, pela Forêt de Soignes. De dentro do táxi, tirei a foto abaixo:

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Lembrei de quantas vezes, criança, eu andara a cavalo nessa floresta.

A rua onde morei em Rhode-Saint-Genèse continua intacta:

20180803_151655.jpgE também intacta continua a nossa casa, embora minha mãe e minha irmã, ao verem esta foto, não tenham aprovado a cerca de hera, única novidade:

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Fiquei pensando em quantas vezes meus irmãos e eu, na infância, nos dias de neve,  deslizáramos de trenó a rampa que leva às duas portas da garagem.

Julia foi impecável e não manifestou nenhuma impaciência com essas demonstrações de saudosismo relativo a uma época em que eu era ainda muito mais jovem do que ela é hoje. Aceitou bem, inclusive, a minha vontade de rever, ali perto, a minha escola:

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Ao contrário de minha filha, meus quatro leitores, a esta altura, devem pensar que abuso de sua paciência. Deixemos Rhode-Saint-Genèse, então, e prossigamos até Waterloo. Lá, algumas surpresas me esperavam.

Há quase sete anos eu não ia ao campo de batalha. O antigo museu de cera, onde as figuras, que acompanharam toda minha vida, começavam mais recentemente a perder bigodes e a escurecer, foi eliminado. Esta foto, em que apareço de casaco de couro, ladeado à esquerda pelo meu irmão e à direita pela minha irmã e, atrás, por Ângela, a amiga — querida até hoje — que nos meus sete anos me explicou que Papai Noel não existia, já não poderá ser replicada por futuras gerações de crianças. O boneco de grenadier atrás de Ângela terá sido preservado?

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Em 2015, como parte das celebrações pelos 200 anos da batalha, as atrações locais foram modificadas. Não só o museu de cera foi eliminado, como também — e isto é uma pena — o passeio de trenzinho pelo campo de batalha, que nos permitia andar pelos caminhos arborizados e bastante afundados em relação aos campos que atravessam, os famosos “chemins creux” frequentes na província do Brabant e que tiveram papel importante na batalha, ao menos na visão dos romancistas. Em La Chartreuse de Parme, Fabrice del Dongo entra, sai, caminha pelos “chemins creux”, sem chegar a compreender se estava participando ou não da batalha.

No lugar do envelhecido museu de cera, há agora um Mémorial 1815, subterrâneo mas arejado, cuja entrada apresenta-se assim:

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À direita dos degraus, estão listadas as subdivisões dos exércitos que participaram da batalha. À esquerda, o acesso ao Mémorial:

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Entra-se na recepção. À direita, está a entrada do museu e, à esquerda, a loja onde podem ser comprados bustos de Napoleão, chocolate em forma de grande medalha — envolto em alumínio dourado — chaveiros, pratos, objetos celebrando o Imperador dos Franceses ou a batalha:

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A loja inclui a livraria, reduzida com relação à do passado:

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São duas ou três estantes assim. Isso pode parecer suficiente, mas senti saudades da fartura da livraria anterior. Como tenho a fantasia de que as livrarias vão falir, se eu não comprar ao menos um livro ao visitá-las, escolhi esta biografia:

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Seria difícil supor que precisaríamos em casa de mais um volume sobre Napoleão, pois nossas estantes estão já fornidas de estudos, ensaios sobre ele e seu governo, e de biografias sobre seus inimigos, parentes e Ministros. Certamente, não conseguirei viver o suficiente para ler todos os volumes que venho reunindo, desde a infância, sobre essa figura, que será sempre controvertida.

O livro de Paul Johnson, publicado em 2002, começa da forma mais promissora:

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Passo para a segunda página, porém, e caio nos lugares-comuns habituais: o biografado era um “oportunista”, sedento por guerras infindáveis; deveria ter estudado o exemplo de George Washington, que trocou “o reino da força” pelo “reino da lei”; a Revolução Francesa era totalmente desnecessária em seu “terrível percurso”, pois bastava aos franceses terem feito as reformas necessárias de forma pacífica, “como a Grã-Bretanha e os países escandinavos”. Nas duas páginas seguintes da Introdução, o Congresso de Viena é elogiado como promotor da paz;  e lemos que “o Estado totalitário do século XX era filho de Napoleão”.

A última frase do livro é surpreendente: “todas as formas de grandeza, militar e administrativa, que construam uma nação ou um império,  nada são — são, na verdade, extremamente perigosas — sem um coração humilde e contrito”. Esse estilo “romance cor-de-rosa” é uma curiosa maneira de terminar uma biografia histórica, ainda mais tratando-se de um personagem tão pouco sentimental como Bonaparte.

Voltemos ao Mémorial 1815. Trata-se de um museu interativo. Vemos explicações de como a prensa móvel permitiu a divulgação dos ideais filosóficos do Século XVIII e dos panfletos da época da Revolução:

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Vemos a guilhotina:

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Vemos como eram os instrumentos dos cirurgiões dos exércitos da época, e pensamentos aterrorizados veem povoar nossas mentes:

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Há reproduções de quadros famosos retratando as grandes batalhas das tropas revolucionárias e napoleônicas, com a característica de que são animadas. Aqui, a Batalha de Fleurus, de 1794, vencida pelo General Jourdan:

Há uma grande galeria, onde vemos manequins ilustrando uniformes da época:

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Em uma vitrine paralela, deparo-me, de repente, com uma das cenas mais famosas do antigo museu de cera, que devo ter visto pela primeira vez aos 7 anos de idade, que revi em inúmeras ocasiões posteriormente, e que sempre me fascinou. A cena representa marechais e generais de Napoleão, poucas horas antes da Batalha de Waterloo, examinando mapas:

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As duas figuras centrais representam o Marechal Nicolas-Jean Soult, Duque da Dalmácia, e o General Henri Gatien Bertrand, “Grande Marechal do Palácio” de Napoleão e Conde imperial. Este último acompanharia Napoleão no exílio em Santa Helena. Essas figuras merecem ser vistas em detalhe, pela expressividade de seus rostos:

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Uma placa informa que há pequenos erros nos uniformes mas que, como esta cena “encantou gerações de crianças” que visitaram ao longo das décadas o museu de cera, decidiu-se poupá-la da extinção. Uma grande sorte para mim. E também para Julia, que conhece o campo de batalha desde os 13 anos, esteve lá várias vezes comigo e, conheceu, assim, o antigo museu e o trenzinho, cujo fim ela pareceu lastimar tanto quanto eu.

A cena termina, à direita, com a figura sorumbática de Napoleão, acompanhado de seu “mameluco”, o qual, em 1815, era na verdade um francês, Louis Étienne Saint-Denis, que Napoleão exoticamente chamava de “Ali”:

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No novo prédio do Mémorial, a última atração no percurso da visita é um curta-metragem de pouco mais de 10 minutos, dirigido por Gérard Corbiau em 2015 — portanto, como parte das celebrações do bicentenário — e projetado em 4D, intitulado Waterloo: au coeur de la bataille. Assisti-lo é uma experiência fabulosa. Tirei fotos durante a projeção; sem os óculos especiais, a imagem naturalmente perde nitidez, mas não resisto a publicar algumas, inclusive a que mostra o Imperador examinando a batalha com sua luneta:

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Terminada a visita ao novo museu, caminhamos até a Rotunda onde, há mais de 100 anos, encontra-se uma pintura panorâmica representando, em 360º graus, a batalha — o famoso Panorama de Louis Dumoulin:

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Quando criança, eu ficava impressionado com as figuras representando cavalos mortos, jogadas no espaço entre a pintura e os visitantes:

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Este vídeo que fiz dá uma ideia mais completa do Panorama:

Faltava agora o mais difícil, que é escalar os 226 degraus do célebre monte do Leão, uma das representações mais conhecidas da Bélgica:

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Quando criança, e na verdade até recentemente, isto não representava desafio maior. Desta vez, quase desisti de subir. Minha filha porém galopou escadas acima, alegremente. Pensei que não podia fazer feio diante dela, apesar da vertigem e do despreparo físico. Em um momento, parei e notei que ainda faltava um bocado de degraus para subir:

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Lá de cima, senti que meu esforço fora recompensado. Nunca concordei com o famoso verso de Victor Hugo, segundo o qual Waterloo é uma “planície triste” (“morne plaine“), mas possivelmente o poema quer dizer que a planície foi triste para Napoleão, pois lá terminou a aventura que fora sua vida até então. É verdade, também, que já visitei, no passado, o campo de batalha em dias menos ensolarados, e mesmo chuvosos, quando talvez o cenário pareça menos atraente. Olhando ao redor, aos pés do Leão, naquele dia de um verão excepcionalmente quente, com um céu azul, senti o impacto da beleza do lugar:

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Pensei que aqueles campos tão serenos presenciaram, há 200 anos, uma das batalhas mais sangrentas da história da Europa. Houve entre 10.000 e 11.000 mortos e entre 30.000 e 40.000 feridos naquele 18 de junho; milhares de feridos morreriam nos dias subsequentes. Pensei que por ali cavalgaram, temeram, gritaram, respiraram Wellington e Napoleão.

Os lugares não guardam lembrança do tempo em que ocupamos fisicamente aquele espaço. De manhã, eu revira a casa em Rhode, sem uma presença humana à vista frente à porta de entrada onde meus irmãos e eu — e nosso filhote de pastor alemão — nos sentamos alguma vez. O campo de batalha não tem registro de todas as pessoas que, ao longo dos séculos, por ali passaram. Todo espaço vazio, tranquilo, terá sido ocupado, em algum momento anterior, por corpos humanos, acompanhados de pensamentos, aflições, esperanças. Do drama humano vivido por dezenas de milhares de pessoas em 18 de junho de 1815, não sobra nada.

Era preciso regressar ao solo, tínhamos de almoçar. Para quem sofre de vertigem, como eu, a perspectiva da descida era pouco reconfortante:

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Pensei que talvez precisasse ficar ali em cima para sempre, mas naturalmente essa opção não era realista. Julia, a essa altura, já me esperava em baixo. Desci.

O almoço, excelente, foi, como em tantas vezes anteriores, no L´Estaminet de Joséphine:

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O restaurante fica logo no início da rua sem saída que leva ao campo de batalha. Sentamo-nos no terraço. Como entrada, pedi o que quase sempre peço na Bélgica, croquete de camarão cinza com salsa frita:

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O cinzeiro é testemunha de que ainda se fuma muito na Europa, coisa com a qual nunca canso de me chocar. Fumar em terraço é permitido nos bares, cafés e restaurantes. A bebida na taça é isso mesmo que você está pensando, querido leitor. Comprovar que eu era ainda capaz de subir — e de descer — o monte do Leão me enchera de orgulho; eu precisava comemorar.

Enquanto almoçávamos, íamos conversando sobre Napoleão e seu destino. Ele e seu principal vencedor em Waterloo, o Duque de Wellington, nunca se encontraram. Nunca aliás haviam antes se enfrentado em um campo de batalha. Para o Imperador, Waterloo significou o fim definitivo do poder e o exílio em Santa Helena, onde morreria em 1821, aos 51 anos. Para Wellington, a vitória foi uma consagração. Até a sua morte em 1852, aos 83 anos, viveu em constante glória, tendo chegado mesmo a ser Primeiro-Ministro do Reino Unido e tendo recebido, do Rei dos Países-Baixos, o título de Príncipe de Waterloo, que seus descendentes seguem usando. O atual Duque de Wellington recebe de renda, pelas terras ligadas ao principado, a quantia bastante satisfatória de 160 mil dólares por ano. É o caso de lembrar Machado de Assis: “ao vencedor, as batatas”.

Ou será que não? Um dos maiores historiadores da era napoleônica, Jean Tulard, lembra que, em 1815, quando Napoleão voltara do primeiro exílio na ilha de Elba, para retomar o poder durante os Cem-Dias, sua presença no cenário político simplesmente não era aceitável para as demais potências europeias e seus soberanos, entre os quais se incluía seu sogro, o Imperador da Áustria Francisco I. Em Napoléon, les grands moments d´un destin, publicado em 2006, Tulard examina cinquenta decisões de Bonaparte ou eventos em sua vida que, gradualmente, determinaram o curso de sua existência:

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A derrota em Waterloo é objeto do capítulo 47. Conclui Tulard, após analisar a batalha em detalhe: “Que Napoleão tivesse ou não ganhado em Waterloo, seu destino estava selado. As grandes potências [Áustria, Prússia, Reino Unido e Rússia] pareciam determinadas a não negociar uma paz isoladamente e dispunham de superioridade numérica acachapante […] A sorte não poderia estar sempre ao seu lado”.

Waterloo e o exílio em Santa Helena consagraram o mito napoleônico. Em seu rochedo no Atlântico Sul, o Imperador cuidou da própria lenda. A palavra final talvez caiba a Chateaubriand, que professava ser seu inimigo, mas claramente o admirava. Em Mémoires d´Outre-Tombe, o escritor-diplomata defensor dos Bourbons opina, julgando Napoleão, que “sua desgraça favoreceu a sua glória”. Ao mesmo tempo, admite: “Águia, deram a ele um rochedo, da ponta do qual permaneceu ao sol até a morte, e do qual era visto da Terra inteira”.

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O Embrulho Vermelho

O Embrulho Vermelho

Em 27 de maio, minha mãe fez 80 anos. Como a data caía no domingo, pude comemorar com ela no Rio de Janeiro, e estar também com minha irmã, que viera de Lisboa, onde mora.

Alguns amigos passaram em casa no final da tarde para cumprimentar a aniversariante. Como a greve dos caminhoneiros, a falta de gasolina nos postos e o desabastecimento nos mercados da cidade estavam no auge, a chegada de um determinado presente de aniversário causou grande impacto:

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Na foto, aparecem minha mãe, minha sobrinha e os dois amigos que trouxeram o presente. Vindo diretamente de Petrópolis para dar os parabéns, Chicô Gouvea e Paulo Reis consideraram que nada seria tão marcante quanto aquilo que não se encontrava no mercado: verduras frescas.

Nesta outra foto, registrei Cora Ronai capturando a mesma cena:

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Em seu perfil no Instagram (@cronai), Cora Ronai publicou uma das fotos que tirou, acompanhada do texto: “Minha amiga Thereza Quintella fez 80 anos. Ganhou muitos presentes lindos e carinhosos, mas nenhum fez tanto sucesso quanto a cesta de hortaliças que Chicô e Paulo trouxeram direto da roça”. Isso provocou comentários divertidos, como: “Que saudade de uma alface!”, “No momento, tá melhor que ganhar joias”, “Saudade de uma boa saladinha!”.

Acontece, porém, que minha mãe não foi a única a ganhar presente naquele dia. No café da manhã, olhando o mar e filosofando sobre o Infinito enquanto devorava um croissant, recebi da minha irmã um embrulho vermelho, que ela trouxera de Lisboa:

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Titina é a melhor irmã do mundo. Naturalmente, eu nada levara para ela e nem, aliás, para minha mãe. Decidi compensar demonstrando meus talentos mediúnicos. Alisando o embrulho vermelho, declarei: “É um livro”. Isso era pouco para comover Titina. Que mais poderia ser? Prossegui: “O papel não traz a marca de nenhuma livraria, então sei que não é da Bertrand“. Diante de sua resposta de que ela mesma embrulhara o livro, continuei: “Você comprou na livraria da Rua do Século”. Isso sim a impressionou.

De meu conhecimento, a “livraria na Rua do Século” não usa nome algum. É um sebo, forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. A primeira vez em que Titina lá me levou, julguei haver uma intenção metafísica no nome da rua, até descobrir que tratava-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia. Mais corretamente, o nome é “Rua de O Século”.

A entrada do sebo é simples e sem indicação alguma:

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Dentro, o espaço é congestionado:

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O proprietário é educado e afável e deixa os fregueses à vontade. Consegui retirar um tesouro de uma dessas pilhas, quando lá estive pela última vez, em julho de 2017:

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Nem o ano, nem a encadernação nem a edição em si, aos olhos dos meus quatro leitores, justificariam o uso que fiz acima do termo “tesouro”. Tudo o que diga respeito a Carlos V, porém, me interessa desde a infância. Nascido em Gand, o Imperador preserva memória viva na Bélgica, onde morei pela primeira vez criança. Suas disputas com Francisco I de França são objeto de fascínio para mim. Um dos grandes prazeres, quando comecei a ler À la recherche du temps perdu, aos 11 anos, foi descobrir que o Narrador também divaga sobre a rivalidade entre os dois monarcas. Na primeiríssima página do romance de Proust, o Narrador menciona que, às vezes, acordava pouco depois de ter adormecido, não só pensando no livro que lera antes de dormir mas também sentindo-se ser o próprio tema do livro: “une église, un quatuor, la rivalité de Francois Ier et de Charles Quint“. Em geral, presume-se que a fonte para a observação casual de Proust sobre essa rivalidade tenha sido o livro do historiador François-Auguste Mignet (1796-1884), Rivalité de François 1er et Charles-Quint, publicado em 1875, que comprei e li na adolescência:

20171228_094605~2.jpgAlguns se perguntarão por que não coloco aqui foto dos dois volumes onde as patinhas do meu gato não apareçam. Pois direi que, pelo visto, há muito tempo eu vinha querendo falar de Carlos V e de Francisco I, ou da presença de Mignet na vida intelectual de Proust, porque esse nosso gato, James, cujas patas são inconfundíveis, morreu em janeiro de 2018, aos 19 anos. Nasceu em Quito, em 1998, em nossa casa, pois sua mãe também nos pertencia — ou nós a ela. Maior do que vários cachorros, de uma beleza altaneira e  personalidade forte (um de seus apelidos era Arquiduque, outro era Señor Presidente), James não era um amigo fácil. Tinha espírito arredio, era propenso a rosnar e marcava preferência pela minha mulher. Por todas essas qualidades, eu o amava (outro apelido que dávamos a ele era Jaimito de mi corazón). Foi uma boa surpresa para mim, ao procurar a foto no celular para inseri-la neste texto, ver que James nela aparece.

Admito que esta outra foto, tirada pela minha mulher, é de qualidade superior:

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Uma característica importante, para mim, de Mignet é que ele nasceu em Aix-en-Provence; um dos principais colégios da cidade, no coração do bairro de Aix com arquitetura do século XVII, chama-se Collège Mignet:

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Vejamos o que dizem as placas de cada lado da porta:

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Esse liceu, assim, resume um pouco da História da França. Insere-se no Quartier Mazarin, construído no século XVII pelo Arcebispo de Aix, o Cardeal Michel Mazarin, irmão de outro Cardeal bem mais célebre, Jules — ou Giulio, pois nascera na Itália — Primeiro-Ministro da minoridade e da juventude de Luís XIV. No colégio estudaram, juntos, Paul Cézanne e Émile Zola e, mais tarde, Darius Mihaud. Marcel Pagnol lá deu aulas. E o liceu hoje carrega o nome de um historiador famoso em seu tempo, a cuja obra alude Proust. Nunca passo na rue Cardinale sem meditar sobre todas essas associações.

Voltemos porém ao presente que me deu Titina no dia 27 de maio. Abro o embrulho vermelho e vejo este livro:

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Um livro sobre o Barão do Rio-Branco, editado pela José Olympio, só poderia me deixar feliz. A palmeira, característica da Coleção Documentos Brasileiros da editora, também me trouxe boas lembranças, pois na biblioteca de meu pai e de minha mãe existem numerosos volumes dessa coleção, com a inesquecível lombada:

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A palmeira da Coleção Documentos Brasileiros, cujos volumes eram tão presentes lá em casa e são parte da minha infância e juventude, traz recordações felizes de leituras e, portanto, da vida.

Em 2008, a editora Sextante — fundada por Geraldo Jordão Pereira e seus filhos Marcos e Tomás, respectivamente filho e netos do editor José Olympio Pereira — publicou um livro exemplar sobre a editora José Olympio, escrito e organizado pelo também editor José Mario Pereira (o sobrenome é coincidência), dono da Topbooks:

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Geraldo Jordão Pereira morreu em 2008, mesmo ano em que o livro foi editado. Devemos ver José Olympio: O Editor e sua Casa como demonstração de amor filial, dirigida à memória do pai e do avô de Marcos e Tomás da Veiga Pereira. “Este livro”, diz Marcos da Veiga Pereira, “projetado como justa homenagem a meu avô e à editora que criou, agora é também para louvar a memória do grande profissional e companheiro de trabalho que foi Geraldo Jordão Pereira, meu pai”.

O volume é de uma impressionante riqueza factual e iconográfica e ganhou, em 2009, o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras. As páginas eletrônicas da Topbooks e da ABL replicam artigos onde é saudada a publicação do livro. Ao elogiar a “magistral pesquisa de José Mario Pereira”, Wilson Martins, em matéria no Jornal do Brasil, classifica o livro como “obra-prima de arte tipográfica, documentação historiográfica e preciosa iconografia”.

Quem diria o contrário, ao ver, por exemplo, estas duas páginas:

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O título do elogio de José Nêumanne, publicado em O Estado de São Paulo, já diz tudo: A vida do homem que pôs o Brasil para ler, remetendo ao título do primeiro capítulo do livro, “José Olympio, o civilizador do Brasil”. Dois artigos de membros da Academia Brasileira de Letras chamaram minha atenção. O texto de Ivan Junqueira, no Jornal do Commercio, menciona o “beneditino trabalho de pesquisa literária e editorial” de José Mario Pereira. O texto de Marcos Vilaça, publicado no Diário de Pernambuco, diz: “Na obra publicada pela Sextante a gente encontra do Brasil a política, a história literária, a indústria editorial, a evolução gráfica, a memória fotográfica, um pedaço da trajetória do país no século XX”.

De forma poética, proustiana, Marcos Vilaça diz como foi a experiência de folhear o livro: “Nesse passar e repassar de páginas, minha vida foi se reativando”. A mesma impressão tive eu. Abro José Olympio: O Editor e sua Casa, e ecos da infância e da juventude passam diante de meus olhos. Dinah Silveira de Queiroz, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Herberto Sales e muitos outros, todos amigos de meu pai ou de minha mãe, e que conheci pessoalmente, criança ou adolescente, em graus variados, circulam pelas páginas. Vejo um bilhete de José Guilherme Merquior, temível polemista na visão de alguns mas, no trato comigo, na minha juventude, homem educado, carismático, gentil e atencioso:

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Outros autores que surgem em José Olympio: O Editor e sua Casa, da geração anterior, foram amigos de meu avô materno — o baiano, pois como expliquei em De carro pela Provença, tive dois avós maternos, um baiano e outro mineiro. Muitas das edições ilustradas no livro são as que li, pois eu as encontrava nas bibliotecas de meu pai e de minha mãe. Onde terá ido parar, por exemplo, nosso exemplar de Oito Décadas, o livro de memórias de Carolina Nabuco, que li e reli quando criança, na mesma edição mostrada abaixo? Recentemente, minha filha pediu para lê-lo e não o encontrei nem aqui em casa, nem nas estantes da minha mãe. Estará com Titina em Lisboa? Ou no depósito, no Rio, onde são guardadas caixas de alguns dos  livros que pertenceram ao  meu pai?

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As capas dos livros de Carolina Nabuco e de Rachel Jardim são ambas de autoria de Eugenio Hirsch, nascido na Áustria em 1923, emigrado primeiro para a Argentina, fugindo do nazismo, e depois para o Brasil. Hirsch morreu no Rio de Janeiro em 2001.

Dois dos livros de meu pai — Retrospectiva e Combati o Bom Combate — foram editados pela José Olympio e Eugenio Hirsch foi o responsável pelas capas de ambos:

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A capa de Combati o Bom Combate parece-me particularmente exitosa. O romance — e eu não me lembrava disto, pois tinha 10 anos de idade e morava na Bélgica — é dedicado a mim, sem sentimentalismos, de forma característica do meu pai: “Para Ary Norton de Murat Quintella”. Esta é a sua foto, beirando os 40 anos, usada na edição:

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Ivan Cavalcanti Proença faz uma introdução ao romance onde a questão da passagem do tempo é evocada: “uma libertação e uma transcendência ao que se chama o amargor da irreversibilidade do tempo”. Outra frase sua remete claramente a Proust: “recuperação do tempo perdido”. Isso faz sentido, pois Combati o Bom Combate é uma ficção semi-autobiográfica; reflete a infância, a adolescência e a juventude de meu pai, e vários personagens aparecem com o prenome ou o apelido das pessoas reais que os inspiraram. A ideia do tempo é retomada por Nélida Piñon, na contracapa: “um panorama profundamente nostálgico de uma geração que já não se ilude com ‘o bom combate’ “.

Quanto a Retrospectiva, sua edição seguinte deu-se em outra editora, mas a capa continuou sendo de Eugenio Hirsch. Se, na edição da José Olympio, vemos Ary Quintella bebendo um copo de uísque, na segunda ele fuma — eram quatro maços por dia e ele morreria de câncer aos 66 anos:

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Meu pai trabalhou, por creio um curto tempo, com José Olympio na editora. Penso não ter jamais visto o mítico editor. Conheci porém, criança, na Bélgica, durante viagem que por lá fizeram, Geraldo Jordão Pereira e sua mulher, Regina. A primeira edição de Retrospectiva, na José Olympio, traz duas dedicatórias, a mais longa delas com ecos de Baudelaire e Lautréamont:

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Vejo que o exemplar que tenho em casa pertenceu a meu irmão, pois nele meu pai colou o seguinte bilhete:

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Alfredo morreu aos 16 anos, então não saberei nunca se chegou a ler o livro, que recebeu aos 8 anos.

Como mencionei em  Edla van Steen, estória sobre a amizade, a correspondência recebida por meu pai, inclusive a enviada por mim, foi em grande parte doada por ele, ainda em vida, à Fundação Casa de Rui Barbosa. No entanto, mexendo recentemente em velhos papéis, minha mãe encontrou o seguinte bilhete de Geraldo Jordão Pereira para meu pai, de pêsames pela morte do meu irmão:

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O texto foi escrito três dias depois da morte de Alfredo, em uma hora em que muitos terão preferido se omitir. Não creio ser indiscreto ao publicá-lo aqui, e sim estar homenageando o sentido de humanidade de Geraldo Jordão Pereira.

O leitor que chegou até aqui talvez tenha notado, acima, no topo da página em que está a dedicatória a Regina Pereira, menção a “Eugen Alois Hirsch: que já trabalhava com meu pai, mui grato”. Essa frase de meu pai me surpreendeu. Olhei alguns exemplares que tenho em casa de livros do pai dele, meu avô, o matemático, também Ary Quintella, que eram publicados pela Companhia Editora Nacional. Algumas capas aparecem como sendo de “Hugo Ribeiro (arquiteto)”, por exemplo estas, minhas prediletas:

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Em algum momento, porém, as capas dos livros de meu avô começaram, de fato, a ser desenhadas por Eugenio Hirsch. Os exemplares que tenho em casa estão já desbotados, perderam as cores e, possivelmente, não fazem justiça à aparência original:

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Eugenio Hirsch parece ter sido um designer revolucionário. Encontrei na Internet, sem grande esforço, além de vários textos que tratam especificamente de seu trabalho, três ou quatro teses e dissertações, relativas a diversos temas — a matemática, a prática editorial em livros didáticos, a história do design no Brasil etc… —  onde são estudadas suas capas para os livros de meu avô.

Situado, em termos geracionais, entre meu avô e meu pai, e tendo sobrevivido a ambos, Eugenio Hirsch associou seu talento a dois Ary Quintella, que publicaram com o mesmo nome, em décadas diferentes, em editoras diferentes, obras de finalidades diferentes — uma, de matemática, outra, de literatura.

E foi assim que um gesto simples, o de abrir o embrulho vermelho, me fez simultaneamente abolir e recuperar o tempo. O presente de minha irmã trouxe de volta, com a encantadora palmeira da José Olympio, os melhores momentos da minha juventude. Proust teria aprovado.

 

 

Seis livrarias

Seis livrarias

Livrarias tendem a aparecer magicamente diante de mim. Caminho pela rua e, quando menos espero, surge uma, como se eu estivesse em um conto de As Mil e Uma Noites. Em vez de um gênio, uma lâmpada, um cão falante ou um tapete voador, aparece uma livraria. Entro, e é como se eu estivesse dentro da caverna de Aladim, com seus tesouros.

Os minutos, as horas passados dentro daquele universo, folheando livros, sentado em uma poltrona ou um banco, talvez tomando um café, provocam em mim o mesmo efeito que a meditação em outros. É como um choque de paz e energia cerebrais. Saio de livrarias atento às coisas ao meu redor, alerta, sereno e feliz.

Tive ocasião de pensar uma vez mais na aparição mágica de livrarias na minha vida em julho de 2017 quando, caminhando a esmo por Aix-en-Provence — durante viagem que narrei em De carro pela Provença — vi em uma praça, sob um toldo vermelho, a porta de um sebo chamado Le Bateau Livre, que eu nunca vira antes, em todas as minhas idas a Aix:

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Pensei estar sonhando. Atravessei a praça:

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Entrei e vi, em um espaço estreito, o Paraíso:

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Após algum tempo examinando as estantes, decidi ser forte e ir embora sem nada comprar. Alguns dos livros, porém, não me saíam da cabeça e minha imaginação voltava sem trégua a Le Bateau Livre. O próprio anúncio na vitrine, dizendo “avant fermeture — 50%”, proclamando o iminente encerramento de atividades do sebo, parecia como criar para mim a obrigação de lá voltar. Como comentei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro, ver que uma livraria fechou ou vai fechar provoca em mim inquietação. É uma amizade que termina com o encerramento daquele espaço, é um local calmo e ao mesmo tempo estimulante que não estará mais disponível. Fico também me perguntando o que acontecerá aos livros. O fato de eu ter estado, ainda que somente uma vez, em Le Bateau Livre já transformara o sebo em um amigo. Não podia abandoná-lo em seus últimos dias de vida. A queima de estoque, com liquidação de 50%, terá certamente criado atrativo suplementar. O próprio nome, com ecos de Rimbaud, dava no que pensar.

Dois dias depois da descoberta da livraria, lá voltei. E nessa segunda visita, não saí sozinho. Entre outras, levava comigo para o hotel as seguintes companhias:

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Vathek, de William Beckford, foi um aceno à minha mulher. Em Londres, há vários anos, em uma livraria de Cecil Court, curta rua de pedestres povoada por elegantes sebos que começa na Charing Cross Road, por razões que se perdem no tempo eu a convencera a não comprar uma edição do livro. Suponho que eu tenha achado o preço excessivo. Terá sido a única vez na vida em que impedi — a mim mesmo ou a outra pessoa — a compra de um livro. Desde então, o remorso me corroía. Talvez, de forma excessiva. Ao receber o presente, minha mulher ficou contente mas manifestou não se lembrar do diálogo em Cecil Court. De qualquer forma, encontrar o livro em Aix pareceu-me algo tão prodigioso quanto o surgimento da própria livraria.

Les Pourparlers diplomatiques compila, país por país, a versão em francês de volumes que os governos europeus participantes da Primeira Guerra Mundial publicaram individualmente, ainda durante o conflito — alguns já a partir de 1914 — em um esforço propagandístico, para se defender da acusação de serem responsáveis pela guerra. Desejava cada país provar que procurara, até o último momento, resolver as tensões por meio do diálogo e da moderação. Em graus variados de honestidade intelectual e transparência, os países revelaram ao público, em forma de livro, comunicados, telegramas e memorandos diplomáticos, cada um utilizando uma capa de cor diferente. A coleção francesa é o “livro amarelo”, a inglesa o “livro azul”, a italiana o “livro verde”, a alemã o “livro branco”, a austro-húngara o “livro vermelho”, a russa o “livro laranja”.

O jogo de atribuir ao adversário a culpa pela guerra, vemos em Les Pourparlers diplomatiques, iniciou-se imediatamente. Em 2 de agosto de 1914, um dia após a Alemanha ter declarado guerra à Rússia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo enviou telegrama circular “aos Representantes de sua Majestade o Imperador no exterior”, onde a primeiríssima frase é: “Está absolutamente claro que a Alemanha se esforça desde já para transferir sobre nós a responsabilidade pela ruptura”. De fato, o conjunto dos documentos presentes no “livro branco” alemão tende a por a culpa pela guerra na mobilização de tropas pela Rússia. O “livro laranja” russo leva a crer que a culpa foi do ultimato austro-húngaro à Sérvia, aliada do Império tsarista. Uma das preocupações do “livro amarelo” francês é inocentar a Rússia, sua aliada.

O “livro vermelho” austro-húngaro se inicia com uma apresentação onde leio o seguinte parágrafo — que traduzo do francês — relativo ao assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando por cidadãos sérvios, crime que foi estopim, motivo ou pretexto para a guerra: “A morte dessa vítima imolada à pátria devia, esperavam nossos inimigos em sua desvairada ilusão, precipitar a dissolução da Monarquia; ao contrário, ela uniu todos os povos austro-húngaros em uma unanimidade apaixonada em torno à sua dinastia. O mundo inteiro pôde ver as bases inquebrantáveis sobre as quais repousam os fundamentos da Monarquia “. O texto foi publicado quatro anos antes do fim do “inquebrantável” Império austro-húngaro.

Folhear os dois volumes equivale a ser transportado a um universo onde Ministros das Relações Exteriores e Embaixadores são Príncipes, Condes e Barões, onde Imperadores são atores cruciais e onde dois primos prestes a levar seus povos a se entre-devorarem, Guilherme II da Alemanha e Nicolau II da Rússia, trocam gentilezas. Vejo no “livro branco” alemão que, em 31 de julho de 1914, um dia antes de declarar guerra à Rússia, Guilherme II escreveu a Nicolau II: “Em resposta ao teu apelo à minha amizade e ao teu pedido de que eu te ajudasse, procurei intermediar entre teu Governo e o Governo austro-húngaro. Enquanto essa intermediação se realizava ainda, tuas tropas foram mobilizadas contra a minha aliada, a Áustria-Hungria […] A amizade por você e o teu reino, que meu avô [o primeiro Imperador da Alemanha, Guilherme I] me transmitiu em seu leito de morte, é sempre sagrada para mim”. É um universo descrito pelo historiador britânico Dominic Lieven, em seu livro Towards the Flame: Empire, War and the End of Tsarist Russia — um dos muitos publicados em torno ao centenário da Primeira Guerra Mundial, tentando explicar suas causas — como sendo “the exquisitely polite facade of ancien régime diplomacy”.

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Em seu celebrado estudo The Sleepwalkers Christopher Clark menciona que, em alguns casos, os documentos publicados por cada país no seu respectivo livro de capa colorida foram manipulados, por exemplo com mudanças de datas.

Conversando com o livreiro de Le Bateau Livre, soube que seu negócio já não era sustentável; ele não podia manter o sebo, e aquele universo seria encerrado no final de julho.

Mais sólida parecia a situação da livraria ao lado do meu hotel no Cours Mirabeau, principal rua do centro histórico de Aix:

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Dentro, a Librairie Goulard é uma enfileirada de salas, cada uma mais atraente do que a anterior, atravessando todo o quarteirão, e é possível sair pela rua de trás:

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Minha última atividade em Aix, antes de ir ao aeroporto, com o taxi já me esperando, foi entrar novamente na Goulard para comprar presentes aos amigos que, sabia, eu veria no dia seguinte. Livros são basicamente o único presente que sei oferecer. Sei onde compra-los, e isso já facilita muito as coisas. Não resisti e saí da Goulard também com dois volumes para mim mesmo, que eu namorara assiduamente ao longo de sete dias:

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Tenho apreço especial pelo historiador e filósofo Lucien Jerphagnon, especialista na Antiguidade Clássica, morto em 2011. O livro de Michel Eltchaninoff explica os fundamentos intelectuais do pensamento político de Vladimir Putin.

O ano de 2017 foi altamente satisfatório, em termos de livrarias. Não posso listar todas aquelas onde estive, porque a cada lugar aonde vou, elas aparecem e eu entro. Seria uma lista infinita. O que me impressiona mais é a peculiaridade de cada espaço. Duas livrarias nunca são iguais, mesmo que ambas pertençam à mesma grande cadeia. Sempre haverá diferenças que tornarão um estabelecimento mais sedutor para nós do que outro.

Mostro a seguir algumas das outras livrarias que mais me agradaram em 2017, onde me senti particularmente bem.

A livraria francesa de Nova York ficava antes no Rockefeller Center e lembro-me bem de visita-la algumas vezes. Hoje, está instalada na Quinta Avenida, em frente ao parque, algumas ruas abaixo do Metropolitan Museum. Dois detalhes dão a ela características próprias: o nome, Albertine, de conotações proustianas, e a decoração inusual. A Albertine — que se apresenta na Internet também como salão de leitura e, de fato, em uma semana de férias em Nova York, lá passei bons momentos, no frio e na neve de janeiro de 2017, sentado em confortáveis poltronas, sem ser perturbado por ninguém — se apresenta assim:

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Por alguma razão, deixei de fotografar o segundo andar, embora tenha um teto fora do comum, mas um amigo me enviou esta foto, única não tirada por mim nesta postagem:

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Boa parte de meu tempo em Nova York transcorreu em livrarias, e eu já havia constituído no hotel uma biblioteca, por isso fui comedido e saí da Albertine com apenas dois volumes:

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Em fevereiro de 2017, na volta de uma rápida viagem a trabalho a Nanjing, passei o domingo em Beijing. Amigos levaram-me ao mercado das pulgas de Panjiayuan, onde uma vez mais fiquei meditando sobre a dificuldade de entender uma cultura, uma civilização, se dela não conhecemos o idioma. Pois em Panjiayuan há vários vendedores de livros a céu aberto:

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Ao menos em Panjiayuan, Mao e seu livrinho vermelho são ainda onipresentes. O efeito propagandístico obtido por esse livro vermelho foi bem superior, no século XX, ao do Império austro-húngaro.

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Tintin também é popular em Beijing. Este não era o único vendedor que oferecia, em Panjiayuan, todos os volumes das aventuras do repórter belga:

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Sobre a livraria Saeed Book Bank, em Islamabad, onde estive em março, tive ocasião de falar na postagem Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi, e será suficiente eu recolocar aqui uma foto da fachada:

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E outra dos livros que lá comprei:

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Em outubro, quando estive na Índia pela última vez, ao sair no domingo, no final da tarde, da casa onde Gandhi foi assassinado — experiência narrada em Mahatma Gandhi em Birla House   — satisfiz um velho sonho, e visitei as livrarias do Khan Market. Este é na verdade um pequeno enclave, com três ruas, e considerado o centro comercial mais caro de Nova Delhi:

Há pelo menos três livrarias no Khan Market, mas eu só pude visitar — as lojas iam fechar — as duas que já conhecia de nome. Primeiro, fui à Full Circle, onde me senti perfeitamente em casa:

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Os vendedores e o gerente foram simpáticos e me ajudaram com a lista de livros que eu levava comigo. Dos cinco, encontrei quatro na Full Circle:

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Sobre Incarnations, do historiador Sunil Khilnani, falei já em Mahatma Gandhi em Birla House. As cinquenta curtas biografias nele contidas têm sido para mim, desde outubro, uma aula constante sobre a história da Índia.

Visitei as livrarias do Khan Market com um ex-aluno e amigo, que por acaso estava em Nova Delhi. Enquanto eu folheava, fascinado, livros sobre a Índia, ele ia selecionando, em outro canto da Full Circle, livros infantis para seus dois filhos pequenos. Tomamos um café na livraria:

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Quando saímos, já era noite:

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Pudemos também visitar a outra livraria de que eu ouvira falar há anos, a Bahrisons. Ela já estava fechada, mas havia ainda um cliente dentro, então o guarda abriu a porta. Puxei para o lado uma cortina verde e entrei. Eu nunca havia estado em uma livraria tão pequena:

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Reparem nas motos, congestionando ainda mais o local, e no vendedor lendo, sentado, calmo. Apesar do espaço reduzido, a Bahrisons fez jus à fama, e lá encontrei o quinto livro, que não estivera disponível na Full Circle:

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Considerei o dia bem aproveitado naquele domingo, pois apesar do jetlag eu conseguira, de tarde, após minha reunião de trabalho, visitar a Birla House e as duas livrarias que vinham alimentando meus sonhos. Essa não é uma figura de linguagem, pois livrarias frequentemente embalam meu sono. Sonho com elas, reais ou imaginárias. Durante anos, o meu sonho mais recorrente era sobre uma livraria francesa no centro de Washington — e, de fato, morei perto da capital dos Estados Unidos — totalmente fantasiosa, criada na minha mente, mas que aparecia sempre da mesma forma no sonho, em detalhes. Eu via a rua, a entrada, os livros, o vão amplo e circular da escada que levava ao andar inferior, igualmente povoado de livros.

Saindo do Khan Market de tuk tuk, carregando meus livros, fui jantar com outro amigo, que agora mora na Índia, o leitor de Proust de quem já falei algumas vezes neste blog, por exemplo em Tolstói, Guerra e Paz e a BBC.  Enquanto eu observava as peripécias do condutor do tuk tuk pelo trânsito de Delhi, pensei em Lisboa e em suas livrarias. Sobre essas amigas lisboetas, porém, falarei em outra ocasião…

                                                                                 Para Vivian Oswald e João Marcos Paes Leme

 

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