A doença incurável

A doença incurável

Em setembro, no último sábado de verão, eu estava de férias em Paris. Fazia calor e o sol brilhava. Minha filha e o namorado tinham vindo, de Bruxelas, passar o fim de semana comigo. Depois de visitar a exposição Bacon en toutes lettres no Beaubourg, caminhamos pelo Marais. A exposição havia sido uma decepção. Seu objetivo, mostrar como a obra de alguns autores prediletos de Francis Bacon influenciara sua pintura, era ambicioso e não fora concretizado. Na rua, eu nunca vira tanta gente. Havia ao meu redor um clima de alegria, criando contraste com as figuras atormentadas na pintura de Bacon.

De repente, minha filha parou frente a uma vitrine. Logo depois, o namorado e eu entrávamos atrás dela na loja, um corredor comprido. O nome do lugar era À Rebours, pertencente, notei, à fundação cultural Lafayette Anticipations, mantida pelo grupo que controla as Galeries Lafayette.

Olhei à minha volta, surpreso. O recinto continha, em um cabide pendurado no teto, uma enorme camisa de homem, costurada como uma colcha de retalhos, com tecidos de diferentes cores; em um canto, um pufe branco com desenho preto representando talvez um ser humano; em um balcão, algumas bijuterias; em outros balcões, vasos e potes de vidro e de cerâmica. Não sei se havia muito mais do que isso. O ambiente era elegante, mas eu não entendia o que a loja vendia. Perguntei à minha filha onde estávamos. Ela respondeu: “Em uma concept store”. É bem provável que eu jamais tivesse antes ouvido o termo. Vendo meu ar de incompreensão, ela emendou: “Papai, você entra em uma concept store para entender a ideia de quem a organizou, captar uma tendência, não para comprar alguma coisa”. Fui salvo pelo meu olhar que, distraído, percebeu em uma parede uma estante de madeira muito clara onde havia livros. Aproximei-me. Com uma exceção, eram volumes sobre artistas, viagens, natureza, decoração.

A exceção era um romance de 142 páginas, intitulado Dans la forêt du hameau de Hardt, com uma capa sedutora, de fundo branco, na qual folhas — de que apenas o contorno era verde — encobriam em parte as letras do título. Havia sido lançado em janeiro.

Nem o autor, Grégory Le Floch, nem a editora, Éditions de l’Ogre, diziam-me qualquer coisa. Enquanto minha filha e o namorado, mergulhados em seu universo a dois, dialogando, examinavam objetos de cerâmica, folheei o livro. Rapidamente, ele capturou minha imaginação. Havia um mistério, a morte de um personagem. Havia alguém em crise emocional. O estilo era peculiar e cativante. Quis comprá-lo. Preconceitos arcaicos, porém, apoderaram-se de mim. Aquilo não era uma livraria; portanto, livros vendidos ali não podiam ser levados a sério. Não me ocorreu pensar que eu não entendia o conceito de concept store e que, possivelmente, a presença do livro dava a ambos, loja e romance, uma aura adicional. O próprio nome da loja, aliás, é uma referência literária, mas o romance de Huysmans marcou-me pouco quando o li na adolescência.

Saímos. Prosseguimos com nosso passeio. No domingo, acordei pensando nas linhas que eu lera na véspera, em uma ou outra página do romance. Durante o dia, e também na segunda-feira, tentei comprá-lo. Não consegui. Cada livreiro pesquisava no computador e me dizia que eu encontraria Dans la forêt du hameau de Hardt nessa ou naquela outra livraria, mas nenhuma ficava perto dos diferentes lugares aonde eu pretendia ir.

Surgiu em mim grande frustração. Um livro pode ser como um remédio, de que precisamos para sobreviver, para curar uma doença. Estou sempre em busca do livro que resolverá tudo na minha vida; que, ao ser lido, eliminará qualquer problema e a sensação física de uma carência. Esses livros, na verdade, existem. Estão por toda parte. Aparecem inesperadamente em nossas vidas. Há muito de acaso nisso; no entanto, ao lê-los temos a sensação de que, a partir dali, vamos viver de forma idílica, pacífica, com a mente satisfeita. Sentimos que aquele era o elemento que faltava; a partir de agora estaremos completos. Pode ser por causa da história como um todo, por causa da perfeição de uma frase, por causa da apresentação gráfica. Pode ser também por uma fantasia, uma projeção que fazemos sobre aquele volume, sem muito entender a razão. Se é um livro de não ficção, pode ser porque trata de um tema de interesse profundo para nós, sobre o qual nova luz é jogada. Seja qual for a razão, o remédio faz seu efeito. A questão é que essa é uma sensação apenas temporária. Deixamos de tomar o remédio, e o corpo sente sua falta. Logo precisaremos encontrar outro livro.

Na terça-feira, meu último dia em Paris, fui de manhã a uma de minhas livrarias prediletas, a Delamain, na place Colette, em frente à Comédie-Française. Eles não tinham o romance de Grégory Le Floch, mas indicaram o lugar mais próximo onde eu poderia encontrá-lo, uma livraria chamada Petite Égypte. Lá pude ir apenas no final da tarde. Entrementes, eu almoçara com o escritor Leonardo Tonus na Sorbonne, onde ele leciona, e tentara inutilmente comprar o livro no Quartier Latin.

Achamos que conhecemos bem uma cidade, e ela nos surpreende sistematicamente. Jamais eu ouvira falar que, em pleno 2ème arrondissement, há um canto conhecido como Petite Égypte — cercado pela rue du Nil, a rue du Caire e a rue d’Aboukir —, que dá seu nome à livraria. Esta, por sinal, é excelente. A livreira mostrou-me um exemplar de Dans la forêt du hameau de Hardt. Perguntei se ela o tinha lido. Respondeu que não, mas comentou gostar muito dos títulos publicados pelas Éditions de l’Ogre.

Paguei o livro e saí. Estava atrasado. Tinha entradas para a Ópera, sala Bastille, onde assistiria a uma produção inovadora de Les Indes Galantes. Esperavam-me Rameau e a amiga que eu convidara para escutar sua obra-prima. No metrô, percebi ter gastado o dia em Paris atrás de um livro. Senti porém que valera a pena. O próprio fato de eu ter conseguido comprá-lo, depois de tanto esforço, tornava o mundo um lugar mágico. Segurá-lo nas mãos dentro do vagão do metrô era a cura para a doença que ele próprio criara, a necessidade de lê-lo.

No dia seguinte, no voo de volta para o Brasil, mergulhei na prosa de Grégory Le Floch. O livro — que ganharia poucas semanas depois um prêmio da Fondation Prince Pierre de Monaco — marcou-me pela dificuldade do personagem principal, Christophe, em narrar a morte, de que fora testemunha, de um amigo na Calábria. A personalidade inquietante de Christophe — não sabemos se ele é apenas de uma timidez doentia, ou um verdadeiro néscio, ou se sofre de distúrbios psicológicos — forma a base de um texto que trata da dificuldade de narrar, de escrever, de falar, de compartilhar pensamentos e histórias. Relatar o que presenciou na Calábria representaria para Christophe uma morte mental: “meu espírito não sobreviveria à narração daquela história […] essas palavras me matariam, não literalmente, eu já disse, mas me matariam mesmo assim definitivamente”. Na impossibilidade de contar o que presenciou, foge para uma aldeia na Alemanha, frente a uma floresta, e lá permanece por dez anos.

O toque cruel é que ele decide estar pronto a contar o que viu dez anos antes apenas quando a família do amigo morto encontrou a paz e já não precisa de sua história. Christophe pega o carro, volta à França, chega à casa da mãe do amigo morto e encontra a família toda reunida, por motivos indefinidos. A sua narrativa, que conclui o romance, é construída como uma cena de teatro.

A fala final de Christophe lembrou-me uma das tiradas mais célebres do teatro francês, le récit de Théramène. Em Phèdre, a peça mais famosa de Racine — embora não a minha predileta — Teseu exila o filho, Hipólito, acusado injustamente pela madrasta, Fedra, de ter tentado seduzi-la. Teseu, cegado pela raiva, não percebe que na verdade é Fedra quem ama Hipólito. O deus Netuno, acolhendo o desejo de vingança de Teseu, lança contra o príncipe um monstro marinho, na estrada à beira-mar pela qual partia para o exílio. Não vemos em cena a morte de Hipólito; ouvimos, junto com Teseu, detalhes de como ela se deu, por meio da narrativa de Théramène, seu preceptor e amigo.

A família do amigo morto, plateia de Christophe, reagirá à sua fala aterrorizante, devemos imaginar, com o mesmo estupor com que Teseu e o público de teatro reagem ao relato de Théramène. Tal qual o ator que abandona o palco após uma fala dramática, Christophe deixa a casa ao concluir seu terrível discurso. Presumivelmente, sua personalidade mudará; ficará menos arisca. Christophe pôde, depois de dez anos de sofrimento, narrar a sua história. Venceu seus temores. Encontrou-se. Libertou-se.

O voo aterrissou. Durante alguns dias, vivi em paz. Estava curado. Nenhuma fome por novas histórias e nenhum livro visto ao acaso me perturbaram. Poucos dias depois, a moléstia voltou, implacável.

 

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Versão diferente e mais longa deste texto foi publicada pelo jornal Rascunho, com o título Perdido na Floresta

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A culpa foi da Mona Lisa

A culpa foi da Mona Lisa

Em setembro, de férias em Paris, animou-me a notícia de que a Mona Lisa estava provisoriamente instalada na Galerie Médicis do Louvre, enquanto a sala onde habitualmente fica era reformada e pintada de azul. Há muitos anos, venho tentando rever a galeria onde ficam expostos os quadros encomendados a Rubens por Maria de Médicis, viúva de Henrique IV e mãe de Luís XIII, para celebrar sua própria vida.

Filha do grão-duque da Toscana e de uma arquiduquesa da Áustria, Maria casou-se com Henrique IV em 1600. Os Médicis, embora tivessem já dado uma rainha à França, Catarina, morta em 1589, e fossem ilustres há duzentos anos como patronos das artes, eram uma família reinante de origem apenas burguesa. Maria foi chamada pelos franceses de “a banqueira gorda”. Regente da França em nome do filho após o assassinato do marido em 1610, ela passou por todo tipo de vicissitudes. Ambiciosa, mas temperamental e não muito inteligente, demonstrou grande capacidade para atrapalhar a própria existência. Fugindo da França em 1631, morreu exilada e endividada em Colônia, em 1642. Sofreu ainda o dissabor de ver seu protegido, o cardeal de Richelieu, cuja ascensão ela promovera, suplantá-la politicamente junto a Luís XIII e causar seu exílio.

Maria seria hoje talvez uma rainha esquecida, se não fosse a sua atividade como protetora das artes. Devemos a ela a construção do palácio do Luxemburgo, em Paris, onde morou. Para decorá-lo, idealizou um ciclo pictórico sobre si mesma. Desejava, por meio de quadros, mostrar a sua trajetória como algo belo, grandioso, memorável. Queria ser lembrada como aquilo que não era, esposa e mãe amorosa e rainha sábia e competente. Atribuiu essa tarefa ao grande artista barroco, o flamengo Peter Paul Rubens. Entre 1622 e 1625, o pintor realizou 21 quadros povoados, além de Maria, de figuras mitológicas, e mais três retratos da rainha e de seus pais. O talento de Rubens imortalizou uma soberana medíocre, revestindo de glamour a sua imagem.

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Scala Archives

Minhas tentativas de revisitar a galeria, no segundo andar da aile Richelieu, terminam sempre em fracasso. Já me aconteceu de entrar no Louvre especificamente para isso, mas vou parando pelo caminho, minha atenção é desviada por outras obras-primas, pego outros rumos pelo museu, perco-me. Quando eu era criança, adolescente, universitário, os 24 quadros eram expostos em outro canto do museu, então eu simplesmente não consigo mais chegar até eles.

Em setembro, minha visita à casa de Rubens em Antuérpia, poucos dias antes de chegar a Paris, tornara mais intensa a vontade de rever a Galerie Médicis. Julguei que naquele momento isso seria facílimo, pois o percurso até a residência temporária da Mona Lisa, ídolo das multidões, estaria certamente apontado com cartazes e flechas. Minha filha, ao me ouvir durante o almoço expressar essa opinião, mostrou-se cética: “Não sei… acho que a presença da Mona Lisa na galeria pode complicar mais as coisas”.

Só consegui chegar ao Louvre setenta minutos antes de o museu fechar. Na pirâmide, os guardas não me deixaram entrar, por causa da hora. Andei rápido até a porta na rue de Rivoli, desci as escadas rolantes e atravessei o corredor subterrâneo de lojas. Lá o guarda foi mais tolerante. Entrei. Como eu previra, cartazes indicavam de maneira ostensiva a localização da Mona Lisa. Havia uma fila, contida por uma barreira, de pessoas esperando para pegar as escadas rolantes e subir à aile Richelieu. Lembrei que eu estava sem bilhete de entrada. Perguntei aos guardas se era necessário comprar um, considerando que o museu fecharia dali a uma hora. Disseram que sim. Corri até as máquinas eletrônicas, mas já estavam trancadas. Fui à única bilheteria onde havia ainda um vendedor, que hesitou em me dar uma entrada: “O museu vai fechar daqui a menos de uma hora. Tem certeza?”. Respondi usando a cartada da favorita do grande público, a atração maior do museu: “Sim, por favor, um bilhete, só quero ir até a Mona Lisa”. Tecnicamente, era verdade.

Com a entrada na mão, voltei rápido até a fila. Só que não havia mais fila. Naqueles três, quatro minutos em que eu me ausentara, a barreira fora levantada, e o grupo subira as escadas rolantes. Os turistas deviam agora estar caminhando pelas salas da aile Richelieu, em direção ao segundo andar, cantarolando de alegria com a perspectiva de ver a florentina do sorriso misterioso, sem saber que veriam também as enormes pinturas celebrando outra florentina, a rainha morta no exílio. Os guardas já não deixavam entrar ninguém. Implorei. Expliquei. Fiz como todo mundo, e declarei não poder partir sem ver a Mona Lisa. Inútil. Tive de desistir. Pensei em ir embora mas, afinal, pagara pela entrada. Apenas o acesso à aile Richelieu fechara, por causa da multidão sequiosa por aquele sorriso. As outras alas estavam abertas.

Fui diretamente às salas de escultura romana, que são há alguns anos meu lugar preferido no museu e estão aliás instaladas nos antigos aposentos de verão da nora de Maria de Médicis, a mulher de Luís XIII, Ana de Áustria. Lá também uma decepção me esperava. O busto de Germânico que eu queria rever — o museu possui vários — estava emprestado para a exposição em Roma sobre seu irmão, o imperador Claudio.

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A hora de fechamento do museu encontrou-me na Grande Galerie, repleta de quadros italianos importantes, inclusive de Leonardo da Vinci, e onde eu, pela centésima vez, meditava por que aquelas pinturas são menos famosas do que a Mona Lisa. Os visitantes começavam a ser gentilmente conduzidos para a saída. Muitos reclamavam. Não eu. É importante ter sempre uma razão para voltar aos lugares de que gostamos. Algum dia, conseguirei rever o ciclo de Maria de Médicis.

À noite, jantando com minha filha, narrei-lhe minha desventura. Ela me olhou e disse: “Bem, pelo menos, você pôde ver outras salas, Mas papai, era tão evidente que a presença da Mona Lisa na galeria ia impedir você de chegar lá. Como você pode ter achado o contrário?”. Abanou a cabeça e suspirou.

Sorri. Senti-me realizado; feliz. É a melhor das sensações, quando vemos os filhos serem mais prescientes do que nós.

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