Um lugar encantado

Um lugar encantado

Quando viajo, costumo organizar rapidamente no quarto de hotel uma pequena biblioteca. Ando pelas ruas, entro nas livrarias que vejo ao acaso e raramente saio de mãos vazias. Mencionei, em postagem anterior, Seis livrarias, que estas surgem frente a mim como num passe de mágica. Pisco os olhos e lá está uma. É como em um conto das Mil e Uma Noites, e o tesouro que aparece do nada é uma livraria.

Em Paris, em julho de 2018, comprei um guia das livrarias de Paris, lançado no final de 2016 por François Busnel.

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Se você assistiu ao último filme de Roman Polanski, Baseado em Fatos Reais (D’après une histoire vraie), você sabe quem é François Busnel. O filme é inspirado de um romance de Delphine de Vigan publicado em 2015, com elementos autobiográficos. No romance, como no filme, o personagem principal, que também se chama Delphine, é uma escritora que namora um jornalista, apresentador de um programa literário na televisão, chamado François, inspirado em Busnel.

Delphine de Vigan é a companheira de François Busnel. Ele apresenta, no canal France 5, desde 2008, um excelente programa sobre livros, La Grande Librairie. No formato usual, Busnel convida uns poucos escritores para falarem de seus livros mais recentes, todos sentados em poltronas dispostas em volta de uma mesa de centro. Os móveis são contemporâneos. O cenário é colorido e visualmente atraente. São convidados a participar romancistas, às vezes historiadores, filósofos ou poetas. Ocasionalmente, o apresentador viaja ao exterior e entrevista escritores do país visitado. Busnel é particularmente fascinado com a literatura americana. La Grande Librairie costuma também focalizar, em cada edição, em poucos minutos, uma livraria específica, em Paris ou na província, entrevistando o proprietário. Recomendo fortemente o programa — acessível pela Internet — conduzido pelo apresentador com entusiasmo contagiante.

Comprei Mon Paris littéraire em uma das livrarias descritas pelo autor, Les Cahiers de Colette, na rue Rambuteau, perto do Beaubourg. Essa é, no meio literário parisiense, uma livraria mítica. A proprietária, Colette Kerber, sentada no caixa, disse-me, com simplicidade e modéstia, quando fui pagar o livro de Busnel: “Ele fala na minha livraria, nesse guia”.  Achei encantador o tom casual com que o comentário foi feito.

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Busnel nos informa que o painel de fotografias, “parte já da história parisiense”, mostra escritores admirados por Colette Kerber. Olhando rapidamente, reconheço Kafka, Beckett, abaixo dele Jean Genet e Cortázar com seu gato. Abaixo dos dois, à direita, na foto grande, Jacques Roubaud, escritor infelizmente pouco conhecido fora da França e membro do grupo literário OuLiPo. O segundo à direita de Beckett é Walter Benjamin. Entre os dois, parece estar Lacan. Proust está no topo, na foto mais à direita, que infelizmente cortei pela metade. Na foto pouco nítida logo abaixo da de Proust, sabemos que no grupo de quatro homens aparecem Paul Éluard e André Breton, porque seus nomes estão escritos. À esquerda de Kafka, Freud sobe a bordo de um avião, em uma foto meio tenebrosa. Acima de Beckett, ao lado de Freud, está o poeta René Char. O homem na foto grande acima de Char, com ar profundamente inteligente, me pareceu primeiro ser Italo Calvino, que era também membro do OuLiPo. Olhando atentamente, vejo tratar-se na verdade do sociólogo Pierre Bourdieu. Minha imaginação me fez ver Italo Calvino porque, desde a infância, penso nele com frequência. Como no caso das livrarias, fotos e edições de livros de Calvino costumam aparecer magicamente diante dos meus olhos.

O manual de François Busnel é dedicado “a D., minha parisiense”, em clara homenagem a Delphine de Vigan. Divide-se por arrondissements. Além de falar das livrarias, o autor indica, nas redondezas, locais de predileção ou residências de escritores célebres, jardins onde ler, bares e restaurantes onde descansar da busca por livros e, em uma página que abri ao acaso, até mesmo o endereço de um barbeiro —Desfossé, na avenue Matignon, número 19 — porque lá há uma biblioteca para os clientes.

Trata-se, em resumo, do roteiro do dia-a-dia de François Busnel, cujo trabalho — oh, pessoa feliz! — é justamente frequentar livrarias, conhecer autores, ler livros, preparar seu programa semanal na televisão. Como ele mesmo diz no prefácio, sem livrarias “Paris não seria exatamente Paris”. Segundo ele, há na França — país que é, pela dimensão territorial, metade de todo o estado do Pará — 3.260 livrarias independentes, o que considera “indispensável para o reforço dos laços sociais. Não há democracia sem excelentes livrarias”.

A rue de Richelieu é uma das mais citadas por Busnel. Isso é normal, porque a rua, situada no 1er e no 2ème arrondissements, situa-se no coração da cidade. Desemboca na praça onde estão o Palais-Royal e seu jardim, a Comédie-Française e sua loja, a livraria Delamain — que pertence à editora Gallimard — vários cafés, o excelente restaurante do Hôtel du Louvre e, um quarteirão depois, o próprio Museu do Louvre e o jardim das Tulherias. Denominada place Colette — pois a escritora morava ali, em um apartamento no Palais-Royal — e prolongada pela place André Malraux, a praça, a meu ver, é o centro nevrálgico da cidade, e dela já falei na postagem Keira Knightley e os escândalos de Colette. Seria possível passar dias inteiros naquela vizinhança, sem precisar aventurar-se além, e a bem da verdade eu já fiz isso em diferentes férias passadas na cidade.

Sempre que ando por ali — e é lá que fica, aliás, meu hotel predileto — paro e revejo as placas homenageando Molière e Diderot, pois ambos morreram em casas situadas na rue de Richelieu.

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Molière, morto em 1673, ocupa lugar especial no coração dos franceses, ao menos entre os que lêem. O teatro nacional por excelência, a Comédie-Française, é conhecido também como la Maison de Molière e preserva, em suas coleções, a poltrona onde o autor passou mal no palco, enquanto atuava em uma de suas peças, intitulada, ironicamente, Le Malade Imaginaire, logo antes de morrer. O idioma francês é denominado la langue de Molière. O prêmio teatral anual é o Molière. Diz-se “ganhei um Molière”, como quem diria “ganhei um Oscar” ou “ganhei um Emmy”. No saguão de entrada da Comédie-Française há uma escultura do teatrólogo.

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Mais ou menos na altura do lugar onde ficava a casa em que Molière morreu — o prédio atual é posterior à sua morte — há uma fonte dedicada a ele.

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FonteMolière.jpgA foto abaixo mostra a perspectiva da rua, passando pela fonte com a escultura em bronze representando Molière e terminando no Louvre. A rua que se inicia à direita do monumento chama-se, justamente, rue Molière:

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Pensava eu já conhecer perfeitamente a rue de Richelieu, ajudado inclusive por este livro:

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Por mais que pensemos conhecer um lugar, contudo, isso é apenas uma fantasia. Sempre sobram mistérios a ser desvendados. Jacques Hillairet nos diz que a rue de Richelieu, aberta em 1634 por iniciativa do célebre Cardeal e Primeiro-Ministro em homenagem a quem é nomeada, é a rua de Paris que mais abrigou celebridades em sua história. Hillairet lista uma quantidade impressionante de moradores, que inclui chefes de Estado, ministros, políticos, cortesãs, príncipes, artistas. Como o autor disseca a estória de cada casa da rua, e de seus moradores famosos, o volume de informação pode ser desnorteador.

O guia de Busnel, preocupado apenas com livrarias, escritores e os lugares que eles frequentam ou frequentaram, apresenta de forma mais sucinta as informações sobre os autores que moraram na rua. Folheando o guia, vejo que Stendhal passou um tempo no número 45 da rua, onde terminou de escrever De l’Amour. Esse livro, de 1822, é um dos mais curiosos de Stendhal. Nele, o escritor descreve o surgimento e a consolidação da paixão amorosa de forma aparentemente científica, embora esse seja o sentimento menos racional de todos. Stendhal insere porém dezenas de anedotas. Podemos assim pensar em  De l’Amour como uma obra de ficção fantasiada de não-ficção. É nesse livro que Stendhal cria o famoso conceito, importante para entender seus romances, de “cristalização”, etapa no desenvolvimento do amor durante a qual o ser amado adquire, para nós, todas as perfeições. É o ápice do amor. É o momento em que os eventos, as ocasiões, os lugares mais diversos nos lembram a pessoa que amamos. Quando li De l’Amour, aos vinte anos, fiquei muito impressionado.

Vejo no guia de François Busnel, no livro de Jacques Hillairet e nas obras autobiográficas de Stendhal que o escritor morou em vários endereços na rua, em diferentes épocas de sua vida, e que lá escreveu Le Rouge et le Noir. Aparentemente, morou um tempo no mesmíssimo hotel onde costumo ficar, o que descubro apenas agora. Balzac também morou na rua.  Em um restaurante que já não existe, George Sand e Alfred de Musset se conheceram, dando início a uma das mais atormentadas relações amorosas das letras francesas.

Busnel detém-se sobre uma livraria na rue de Rivoli, a Galignani, uma de minhas prediletas, que passei a frequentar por influência de meu amigo Antonio, a quem já mencionei em Vida e Morte no Musée Guimet. Busnel nos informa que a Galignani lá está desde 1856. Segundo ele, “por lá passaram Hemingway, Malraux, Yourcenar, Colette, e também Marlene Dietrich, Orson Welles e Julien Green”. A lista já faz sonhar. Busnel avalia que “a atmosfera é aconchegante, o atendimento discreto, os conselhos esclarecidos. Guarida para curiosos, estetas e dândis”. De fato, a atmosfera na Galignani possui aquele elemento indefinível, mas palpável, que nos faz perceber termos ingressado em um ambiente altamente elegante, mostruário de uma civilização. Duas outras livrarias que provocam em mim a mesma reação são a Hatchards, em Londres, e a Ferin, em Lisboa.

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Em Se una notte d’inverno un viaggiatore, Italo Calvino lista várias razões — distribuídas em categorias criadas por ele —  pelas quais, afinal, livros não são comprados ou, se comprados, não são lidos. Por exemplo: “Livros que Você Poderia Por De Lado Para Talvez Ler Neste Verão”. Há uma categoria bastante metafísica — alguns pensarão cínica: “Livros Já Lidos Sem Que Você Sequer Tenha Precisado Abri-Los Já Que Eles Pertencem À Categoria Dos Livros Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos”.

A classificação que mais me marca é: “Livros Que Se Você Tivesse Mais De Uma Vida Para Viver Você Certamente Leria Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Você Tem Para Viver Estão Contados”. É uma frase engraçadíssima. Como lê-la sem rir? Ao mesmo tempo, ela remete a um fato triste. Por mais disciplinado que seja um leitor, ele nunca conseguirá ler todos os livros que tem ou que deseja ler.

O guia de Busnel mostra uma forma superior de vida, toda orientada pelo amor aos livros, aos parques onde podemos lê-los, aos restaurantes onde podemos conversar sobre eles. Assim como lamento não ter tempo para ler tudo o que gostaria, já que não terei mais de uma vida, Mon Paris littéraire me faz pensar, com nostalgia, em todas as livrarias fantásticas, mundo afora, que não terei tempo de conhecer.

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