Seis livrarias

Seis livrarias

Livrarias tendem a aparecer magicamente diante de mim. Caminho pela rua e, quando menos espero, surge uma, como se eu estivesse em um conto de As Mil e Uma Noites. Em vez de um gênio, uma lâmpada, um cão falante ou um tapete voador, aparece uma livraria. Entro, e é como se eu estivesse dentro da caverna de Aladim, com seus tesouros.

Os minutos, as horas passados dentro daquele universo, folheando livros, sentado em uma poltrona ou um banco, talvez tomando um café, provocam em mim o mesmo efeito que a meditação em outros. É como um choque de paz e energia cerebrais. Saio de livrarias atento às coisas ao meu redor, alerta, sereno e feliz.

Tive ocasião de pensar uma vez mais na aparição mágica de livrarias na minha vida em julho de 2017 quando, caminhando a esmo por Aix-en-Provence — durante viagem que narrei em De carro pela Provença — vi em uma praça, sob um toldo vermelho, a porta de um sebo chamado Le Bateau Livre, que eu nunca vira antes, em todas as minhas idas a Aix:

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Pensei estar sonhando. Atravessei a praça:

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Entrei e vi, em um espaço estreito, o Paraíso:

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Após algum tempo examinando as estantes, decidi ser forte e ir embora sem nada comprar. Alguns dos livros, porém, não me saíam da cabeça e minha imaginação voltava sem trégua a Le Bateau Livre. O próprio anúncio na vitrine, dizendo “avant fermeture — 50%”, proclamando o iminente encerramento de atividades do sebo, parecia como criar para mim a obrigação de lá voltar. Como comentei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro, ver que uma livraria fechou ou vai fechar provoca em mim inquietação. É uma amizade que termina com o encerramento daquele espaço, é um local calmo e ao mesmo tempo estimulante que não estará mais disponível. Fico também me perguntando o que acontecerá aos livros. O fato de eu ter estado, ainda que somente uma vez, em Le Bateau Livre já transformara o sebo em um amigo. Não podia abandoná-lo em seus últimos dias de vida. A queima de estoque, com liquidação de 50%, terá certamente criado atrativo suplementar. O próprio nome, com ecos de Rimbaud, dava no que pensar.

Dois dias depois da descoberta da livraria, lá voltei. E nessa segunda visita, não saí sozinho. Entre outras, levava comigo para o hotel as seguintes companhias:

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Vathek, de William Beckford, foi um aceno à minha mulher. Em Londres, há vários anos, em uma livraria de Cecil Court, curta rua de pedestres povoada por elegantes sebos que começa na Charing Cross Road, por razões que se perdem no tempo eu a convencera a não comprar uma edição do livro. Suponho que eu tenha achado o preço excessivo. Terá sido a única vez na vida em que impedi — a mim mesmo ou a outra pessoa — a compra de um livro. Desde então, o remorso me corroía. Talvez, de forma excessiva. Ao receber o presente, minha mulher ficou contente mas manifestou não se lembrar do diálogo em Cecil Court. De qualquer forma, encontrar o livro em Aix pareceu-me algo tão prodigioso quanto o surgimento da própria livraria.

Les Pourparlers diplomatiques compila, país por país, a versão em francês de volumes que os governos europeus participantes da Primeira Guerra Mundial publicaram individualmente, ainda durante o conflito — alguns já a partir de 1914 — em um esforço propagandístico, para se defender da acusação de serem responsáveis pela guerra. Desejava cada país provar que procurara, até o último momento, resolver as tensões por meio do diálogo e da moderação. Em graus variados de honestidade intelectual e transparência, os países revelaram ao público, em forma de livro, comunicados, telegramas e memorandos diplomáticos, cada um utilizando uma capa de cor diferente. A coleção francesa é o “livro amarelo”, a inglesa o “livro azul”, a italiana o “livro verde”, a alemã o “livro branco”, a austro-húngara o “livro vermelho”, a russa o “livro laranja”.

O jogo de atribuir ao adversário a culpa pela guerra, vemos em Les Pourparlers diplomatiques, iniciou-se imediatamente. Em 2 de agosto de 1914, um dia após a Alemanha ter declarado guerra à Rússia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo enviou telegrama circular “aos Representantes de sua Majestade o Imperador no exterior”, onde a primeiríssima frase é: “Está absolutamente claro que a Alemanha se esforça desde já para transferir sobre nós a responsabilidade pela ruptura”. De fato, o conjunto dos documentos presentes no “livro branco” alemão tende a por a culpa pela guerra na mobilização de tropas pela Rússia. O “livro laranja” russo leva a crer que a culpa foi do ultimato austro-húngaro à Sérvia, aliada do Império tsarista. Uma das preocupações do “livro amarelo” francês é inocentar a Rússia, sua aliada.

O “livro vermelho” austro-húngaro se inicia com uma apresentação onde leio o seguinte parágrafo — que traduzo do francês — relativo ao assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando por cidadãos sérvios, crime que foi estopim, motivo ou pretexto para a guerra: “A morte dessa vítima imolada à pátria devia, esperavam nossos inimigos em sua desvairada ilusão, precipitar a dissolução da Monarquia; ao contrário, ela uniu todos os povos austro-húngaros em uma unanimidade apaixonada em torno à sua dinastia. O mundo inteiro pôde ver as bases inquebrantáveis sobre as quais repousam os fundamentos da Monarquia “. O texto foi publicado quatro anos antes do fim do “inquebrantável” Império austro-húngaro.

Folhear os dois volumes equivale a ser transportado a um universo onde Ministros das Relações Exteriores e Embaixadores são Príncipes, Condes e Barões, onde Imperadores são atores cruciais e onde dois primos prestes a levar seus povos a se entre-devorarem, Guilherme II da Alemanha e Nicolau II da Rússia, trocam gentilezas. Vejo no “livro branco” alemão que, em 31 de julho de 1914, um dia antes de declarar guerra à Rússia, Guilherme II escreveu a Nicolau II: “Em resposta ao teu apelo à minha amizade e ao teu pedido de que eu te ajudasse, procurei intermediar entre teu Governo e o Governo austro-húngaro. Enquanto essa intermediação se realizava ainda, tuas tropas foram mobilizadas contra a minha aliada, a Áustria-Hungria […] A amizade por você e o teu reino, que meu avô [o primeiro Imperador da Alemanha, Guilherme I] me transmitiu em seu leito de morte, é sempre sagrada para mim”. É um universo descrito pelo historiador britânico Dominic Lieven, em seu livro Towards the Flame: Empire, War and the End of Tsarist Russia — um dos muitos publicados em torno ao centenário da Primeira Guerra Mundial, tentando explicar suas causas — como sendo “the exquisitely polite facade of ancien régime diplomacy”.

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Em seu celebrado estudo The Sleepwalkers Christopher Clark menciona que, em alguns casos, os documentos publicados por cada país no seu respectivo livro de capa colorida foram manipulados, por exemplo com mudanças de datas.

Conversando com o livreiro de Le Bateau Livre, soube que seu negócio já não era sustentável; ele não podia manter o sebo, e aquele universo seria encerrado no final de julho.

Mais sólida parecia a situação da livraria ao lado do meu hotel no Cours Mirabeau, principal rua do centro histórico de Aix:

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Dentro, a Librairie Goulard é uma enfileirada de salas, cada uma mais atraente do que a anterior, atravessando todo o quarteirão, e é possível sair pela rua de trás:

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Minha última atividade em Aix, antes de ir ao aeroporto, com o taxi já me esperando, foi entrar novamente na Goulard para comprar presentes aos amigos que, sabia, eu veria no dia seguinte. Livros são basicamente o único presente que sei oferecer. Sei onde compra-los, e isso já facilita muito as coisas. Não resisti e saí da Goulard também com dois volumes para mim mesmo, que eu namorara assiduamente ao longo de sete dias:

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Tenho apreço especial pelo historiador e filósofo Lucien Jerphagnon, especialista na Antiguidade Clássica, morto em 2011. O livro de Michel Eltchaninoff explica os fundamentos intelectuais do pensamento político de Vladimir Putin.

O ano de 2017 foi altamente satisfatório, em termos de livrarias. Não posso listar todas aquelas onde estive, porque a cada lugar aonde vou, elas aparecem e eu entro. Seria uma lista infinita. O que me impressiona mais é a peculiaridade de cada espaço. Duas livrarias nunca são iguais, mesmo que ambas pertençam à mesma grande cadeia. Sempre haverá diferenças que tornarão um estabelecimento mais sedutor para nós do que outro.

Mostro a seguir algumas das outras livrarias que mais me agradaram em 2017, onde me senti particularmente bem.

A livraria francesa de Nova York ficava antes no Rockefeller Center e lembro-me bem de visita-la algumas vezes. Hoje, está instalada na Quinta Avenida, em frente ao parque, algumas ruas abaixo do Metropolitan Museum. Dois detalhes dão a ela características próprias: o nome, Albertine, de conotações proustianas, e a decoração inusual. A Albertine — que se apresenta na Internet também como salão de leitura e, de fato, em uma semana de férias em Nova York, lá passei bons momentos, no frio e na neve de janeiro de 2017, sentado em confortáveis poltronas, sem ser perturbado por ninguém — se apresenta assim:

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Por alguma razão, deixei de fotografar o segundo andar, embora tenha um teto fora do comum, mas um amigo me enviou esta foto, única não tirada por mim nesta postagem:

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Boa parte de meu tempo em Nova York transcorreu em livrarias, e eu já havia constituído no hotel uma biblioteca, por isso fui comedido e saí da Albertine com apenas dois volumes:

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Em fevereiro de 2017, na volta de uma rápida viagem a trabalho a Nanjing, passei o domingo em Beijing. Amigos levaram-me ao mercado das pulgas de Panjiayuan, onde uma vez mais fiquei meditando sobre a dificuldade de entender uma cultura, uma civilização, se dela não conhecemos o idioma. Pois em Panjiayuan há vários vendedores de livros a céu aberto:

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Ao menos em Panjiayuan, Mao e seu livrinho vermelho são ainda onipresentes. O efeito propagandístico obtido por esse livro vermelho foi bem superior, no século XX, ao do Império austro-húngaro.

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Tintin também é popular em Beijing. Este não era o único vendedor que oferecia, em Panjiayuan, todos os volumes das aventuras do repórter belga:

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Sobre a livraria Saeed Book Bank, em Islamabad, onde estive em março, tive ocasião de falar na postagem Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi, e será suficiente eu recolocar aqui uma foto da fachada:

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E outra dos livros que lá comprei:

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Em outubro, quando estive na Índia pela última vez, ao sair no domingo, no final da tarde, da casa onde Gandhi foi assassinado — experiência narrada em Mahatma Gandhi em Birla House   — satisfiz um velho sonho, e visitei as livrarias do Khan Market. Este é na verdade um pequeno enclave, com três ruas, e considerado o centro comercial mais caro de Nova Delhi:

Há pelo menos três livrarias no Khan Market, mas eu só pude visitar — as lojas iam fechar — as duas que já conhecia de nome. Primeiro, fui à Full Circle, onde me senti perfeitamente em casa:

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Os vendedores e o gerente foram simpáticos e me ajudaram com a lista de livros que eu levava comigo. Dos cinco, encontrei quatro na Full Circle:

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Sobre Incarnations, do historiador Sunil Khilnani, falei já em Mahatma Gandhi em Birla House. As cinquenta curtas biografias nele contidas têm sido para mim, desde outubro, uma aula constante sobre a história da Índia.

Visitei as livrarias do Khan Market com um ex-aluno e amigo, que por acaso estava em Nova Delhi. Enquanto eu folheava, fascinado, livros sobre a Índia, ele ia selecionando, em outro canto da Full Circle, livros infantis para seus dois filhos pequenos. Tomamos um café na livraria:

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Quando saímos, já era noite:

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Pudemos também visitar a outra livraria de que eu ouvira falar há anos, a Bahrisons. Ela já estava fechada, mas havia ainda um cliente dentro, então o guarda abriu a porta. Puxei para o lado uma cortina verde e entrei. Eu nunca havia estado em uma livraria tão pequena:

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Reparem nas motos, congestionando ainda mais o local, e no vendedor lendo, sentado, calmo. Apesar do espaço reduzido, a Bahrisons fez jus à fama, e lá encontrei o quinto livro, que não estivera disponível na Full Circle:

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Considerei o dia bem aproveitado naquele domingo, pois apesar do jetlag eu conseguira, de tarde, após minha reunião de trabalho, visitar a Birla House e as duas livrarias que vinham alimentando meus sonhos. Essa não é uma figura de linguagem, pois livrarias frequentemente embalam meu sono. Sonho com elas, reais ou imaginárias. Durante anos, o meu sonho mais recorrente era sobre uma livraria francesa no centro de Washington — e, de fato, morei perto da capital dos Estados Unidos — totalmente fantasiosa, criada na minha mente, mas que aparecia sempre da mesma forma no sonho, em detalhes. Eu via a rua, a entrada, os livros, o vão amplo e circular da escada que levava ao andar inferior, igualmente povoado de livros.

Saindo do Khan Market de tuk tuk, carregando meus livros, fui jantar com outro amigo, que agora mora na Índia, o leitor de Proust de quem já falei algumas vezes neste blog, por exemplo em Tolstói, Guerra e Paz e a BBC.  Enquanto eu observava as peripécias do condutor do tuk tuk pelo trânsito de Delhi, pensei em Lisboa e em suas livrarias. Sobre essas amigas lisboetas, porém, falarei em outra ocasião…

                                                                                 Para Vivian Oswald e João Marcos Paes Leme

 

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Tolstoi em Paris

Tolstoi em Paris

Em 10 de janeiro de 1857 — calendário juliano — o Conde Leon Tolstoi, em São Petersburgo, escreveu em seu diário: “Recebi o passaporte e decidi partir”. Podia iniciar sua primeira viagem ao exterior, aos 28 anos. No dia 12 de janeiro, viajou de trem até Moscou. De lá, no dia 29, partiu para Paris, em uma diligência: “companheiros de viagem franceses e um polonês”.  Levou onze dias para chegar a Paris, o que aconteceu em 9 de fevereiro, calendário juliano, ou 21 de fevereiro, calendário gregoriano, que ele passa então a usar, o que também farei a partir daqui. Permaneceu em Paris por seis semanas, até 8 de abril.

Tolstoi não era ainda o autor de Guerra e Paz e Anna Karenina ou o ancião de longa barba branca, imagem pela qual é mais usual pensarmos nele. Como oficial do exército, participara da guerra da Crimeia entre 1854 e 1855 e morava em São Petersburgo desde novembro de 1855. Ao chegar a Paris, acabara de publicar o último volume de sua trilogia semi auto-biográfica, InfânciaAdolescência e Juventude. Dois anos antes, publicara os três Contos de Sebastopol. Foram todos textos bem recebidos pela crítica e pelo público. Na Rússia, Tolstoi era admirado. No exterior, era um desconhecido.

Essa era sua aparência em São Petersburgo, em 1856:

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Há muitos anos, passeando um dia em Paris, vi sem aviso prévio aquela que deve ser uma das placas comemorativas mais intrigantes do mundo:

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A placa pode ser vista no número 206 da Rue de Rivoli, onde sempre paro para vê-la, quando passo frente ao prédio. Tirei a foto em maio de 2012. Situado entre uma casa de câmbio e uma loja de souvenirs, o edifício mantém mesmo assim um ar aristocrático. Em frente, está o Jardim das Tulherias, cujo reflexo pode ser visto no vidro da porta de entrada. No mesmo dia de 2012 em que fotografei a placa registrando a presença de Tolstoi em Paris em 1857, tirei esta foto do jardim:

IMG_0165.JPGEm julho de 2014, minha mulher, minha filha e eu conseguimos tirar férias juntos -— o que não aconteceu mais desde então — e fomos a Paris, à Provença e a Praga. Tenho, por isso, carinho especial pelas fotos que tirei naquele verão, inclusive das Tulherias:

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Na Rue de Rivoli, perto da pensão onde se hospedou Tolstoi, na mesma calçada, estão não apenas outras lojas voltadas ao turista, mas também, no número 248, a enorme filial parisiense da livraria W.H. Smith; no número 224, a livraria Galignani, uma de minhas prediletas em Paris; e, no número 226, uma celebrada casa de chá, Angelina. No número 228 está o hotel de luxo Le Meurice, que foi requisitado, durante a Ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, pelo invasor. Tolstoi lá se hospedou em suas duas primeiras noites em Paris.

É raro o dia em que não penso na vida do escritor russo ou em alguma de suas obras ou em algum de seus personagens. Esse interesse fica explicitado na postagem Tolstói, Guerra e Paz e a BBC, mas falo nele ou em seus livros com frequência neste blog 

É um pouco surpreendente que os franceses comemorem a primeira passagem de Tolstoi em sua capital, por apenas seis semanas, quando não era ainda tão conhecido. Ou talvez não tão surpreendente, pois é na França que teve início a divulgação da literatura russa para o resto do mundo. E as seis semanas em Paris marcaram a personalidade de Tolstoi, como ele aliás esperava que acontecesse, pois no dia mesmo da chegada escreveu no diário: “Sem sombra de dúvida, uma nova época  [começa]”.

Como foi a vida de Tolstoi na França? Felizmente, podemos acompanhar seus afazeres, pois o seu diário, para aquelas semanas, é particularmente detalhado, em estilo sucinto e direto. Os diários e as cadernetas de Tolstoi, traduzidos para o francês e anotados por Gustave Aucouturier, foram publicados em três volumes, de 1979 a 1985, pela editora Gallimard, em sua prestigiosa coleção da Pléiade e essa é a tradução que utilizo aqui:

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Em Paris, Tolstoi viveu basicamente como lá vivia todo aristocrata russo: frequentando seus pares. Os nomes de suas relações na capital francesa lembram a origem social do Conde Leon Tolstoi: Trubetskoy, Lvov, Orlov e Gortchakov, todos príncipes, alguns deles seus parentes. Sobre o Príncipe Nicolai Orlov, futuro Embaixador em Viena, em Londres, em Paris e em Berlim — tendo o diplomata russo completado o que era então, junto com São Petersburgo, o quinteto de ouro da diplomacia — Tolstoi nos diz: “ele me levou ao teatro, bancando o aristocrata. Ridículo” e, alguns dias mais tarde: “Orlov é terrivelmente limitado. Virará um homem mau”. Isso não o impediu de frequentar o Príncipe — nascido em 1829 e, portanto, só um ano mais jovem do que ele — durante toda sua estada em Paris. Tolstoi não precisava ter sido tão duro com Orlov em seu diário, pois este perdera um olho na guerra da Crimeia e seu empenho seria determinante para que o castigo corporal fosse abolido na Rússia, em 1863:

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Entre uma recepção e outra em casa de russos, ou algum jantar, Tolstoi ia ao teatro — apreciou particularmente as peças de Molière a que assistiu e uma de Marivaux, Les Fausses Confidences, que considerou “uma maravilha de elegância”. Frequentava o Louvre e outros museus, estudava inglês e italiano, lia, escrevia um pouco, ia ao concerto ou ao cabaré. Visitou Dijon e Fontainebleau. Uma visita ao palácio de  Versalhes fez com que se sentisse “intimidado” pela sua “falta de conhecimentos”. O Hôtel des Invalides, onde se pode admirar o túmulo de Napoleão, deixa-o revoltado: “É a deificação de um celerado, isso é assustador”. Assistia a palestras na Sorbonne e no Collège de France. Ocasionalmente, aparecem comentários soltos indicando desânimo, como “dúvidas sobre tudo” ou “moralmente agitado e atormentado” ou “tédio”. Possivelmente, isso se devia à insatisfação moral, habitual nele, com relação à sua fraqueza diante de tentações sexuais. Há no diário menção a uma ida ao bordel em 21 de março e, aqui e ali, vagas referências a encontros furtivos com mulheres encontradas na rua. De forma geral, contudo, Tolstoi parece ter se sentido bem na França. Pensa estar se apaixonando pela sobrinha do Príncipe Georgy Lvov, seu anfitrião costumeiro; sente que frequentar a jovem Princesa torna a “vida alegre” e que é um “imbecil” de não tentar se casar com ela.

Duas circunstâncias no diário de Tolstoi, nas seis semanas passadas em Paris em 1857, chamam a atenção, saem do corriqueiro: ele via Ivan Turgueniev quase todo dia e assistiu a um guilhotinamento.

A relação entre Tolstoi e Turgueniev, às vezes amistosa e às vezes conflitiva — e às vezes as duas coisas no mesmo dia — mereceria  postagem à parte. Direi aqui apenas que os dois escritores haviam se conhecido um ano e meio antes da chegada de Tolstoi a Paris, em novembro de 1855, em São Petersburgo, quando Tolstoi, recém-chegado à capital, se hospedara durante um mês com Turgueniev, dez anos mais velho. Em Paris, durante as seis semanas lá passadas por Tolstoi, é raro o dia em que Turgueniev não aparece em seu diário, embora raramente de forma elogiosa. Em geral, Tolstoi se queixa da atitude triste e retraída de Turgueniev; mas não consegue parar de vê-lo. Escreve em 4 de março: “Caminhei com Turgueniev. Estar com ele é penoso e entediante”. Em 16 de março: […] Fui à casa de Turgueniev. Ele é um homem mau pela frieza e pela inutilidade, mas é muito inteligente e não prejudica ninguém”. Em 1861, na Rússia, eles teriam uma briga decisiva e ficariam dezessete anos sem escrever ou falar um com o outro. A melancolia de Turgueniev aparece nitidamente neste retrato:

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Além do diário, outra fonte importante para conhecermos as semanas parisienses de Tolstoi em 1857, e de resto, qualquer período de sua vida, é a sua correspondência. Uso em casa a edição  em inglês em dois volumes, publicada em 1978 pelo Professor R. F. Christian, que na época dirigia o Departamento de Russo da Universidade de St. Andrews. Monumento de erudição, essa edição, em que as cartas foram selecionadas, traduzidas e anotadas pelo Professor Christian, é indispensável para qualquer admirador ou estudioso de Tolstoi que não fale russo. Gosto de visualizar o Professor alternando, na década de 70, as aulas nas brumas escocesas com viagens à então União Soviética, para consultar arquivos.

Na capa dos dois volumes, há uma foto de Tolstoi, já ancião, abrindo sua correspondência:

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Um dos correspondentes habituais de Tolstoi durante essa sua primeira viagem ao exterior foi o crítico literário Vassily Botkin:

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Filho de um rico comerciante de chá, representante da burguesia em ascensão no século XIX, Vassily Botkin era casado com uma das irmãs, Alexandra, do anarquista Mikhail Bakunin, que era membro da nobreza. Outra irmã de Bakunin, Tatiana, foi apaixonada por Turgueniev. Esses detalhes, que me parecem fascinantes, são fornecidos por Priscilla Roosevelt em seu livro Life on the Russian Country Estate, excelente fonte de informações sobre a vida na Rússia tsarista e que contextualiza, inclusive, as obras dos escritores da época:

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Vejo no diário de Tolstoi que ele se dava, em São Petersburgo, antes da partida para Paris, com um irmão de Bakunin, Alexis, embora o considerasse “insuportável”. Outra ligação familiar curiosa de Vassily Botkin é seu sobrinho, Eugene Boktin, médico da família imperial no reinado de Nicolau II e que, leal até o fim, foi assassinado em Ecaterimburgo, em 1918, com o Tsar, a Tsarina e seus cinco filhos.

Em 5 de abril de 1857, Tolstoi começa  — como uma curta indicação no diário informa — uma carta para Botkin, anunciando que estava tão bem em Paris, que desejava instalar-se lá por pelo menos mais dois meses. Escreve: “Não posso imaginar que venha um tempo em que a cidade perca interesse para mim, ou a vida nela o seu charme”. Comenta que, se Paris faz com que se sinta ignorante, percebe também que lá poderá curar-se desse mal. Declara que, na capital francesa, desfruta uma “liberdade social” que, na Rússia, nunca pudera sequer imaginar.

No dia seguinte, 6 de abril, Tolstoi retoma a carta e indica ter mudado de ânimo. Menciona  a razão: “Hoje de manhã, fui estúpido e cruel o suficiente para ir assistir a uma execução […] o espetáculo causou impressão tão forte que demorarei a superá-la”. Tolstoi lembra ter já visto “várias coisas horríveis na guerra [da Crimeia] e no Cáucaso”, mas que “essa máquina engenhosa e elegante” o revoltava, pela forma como matara em instantes “um homem forte, bem disposto, saudável”. Descreve a guilhotina como “um cálculo frio, refinado e conveniente de cometer um assassinato, […]  o desejo insolente e arrogante de fazer justiça”. Considera “repulsiva” a multidão — a aplicação da pena de morte por guilhotinamento ocorria então em praça pública — , enojado pelo fato de um pai, perto dele, ter explicado à filha com frieza o funcionamento da máquina. Condena Tolstoi, em seguida, o Estado, que considera “uma conspiração destinada não somente a explorar, mas a corromper os cidadãos”. Afirma serem as “leis da política” uma “mentira terrível” e que a experiência da manhã daquele dia o levava a decidir nunca servir a governo algum.

Nem no diário nem na carta a Botkin o nome do homem executado é mencionado. Sabemos,  graças à colossal biografia de Tolstoi por Henri Troyat

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e também graças às notas na edição dos diários na Pléiade, tratar-se de François Richeux, cozinheiro de 40 anos de idade, condenado por duplo homicídio seguido de roubo, sendo em ambos casos uma faca o instrumento do crime. No mesmo dia 6 de abril em que terminou a carta, Tolstoi anotou no diário: “escrevi uma carta tola a Botkin”, mas não há dúvida sobre o impacto nele causado pelo guilhotinamento de Richeux. No diário, no mesmo dia 6 de abril, ele escreveu: “Um pescoço e um torso fortes, brancos, sadios. Ele beijou o Evangelho e depois — a morte, que contrassenso! […] Não estou bem, estou triste, vou jantar na casa dos Trubetskoy.”

Não sabemos se o espetáculo do guilhotinamento de 6 de abril foi causa ou pretexto, mas em 7 de abril Tolstoi escreve no diário: “Acordei tarde, não me sentindo bem, li, e de repente veio-me uma ideia simples e sensata, partir de Paris”. Na manhã do dia 8 de abril, antes de ir para a estação de trem, vai à casa de Turgueniev despedir-se: “Nas duas vezes em que me despedi dele, ao me afastar chorei, não sei por quê. Gosto muito dele. Ele fez e faz de mim um outro homem”.

Em 9 de abril, recém-chegado a Genebra, escreve a Turgueniev um balanço de sua estada em Paris: “Fiz bem de partir dessa Sodoma. Por favor, faça o mesmo […] Passei um mês e meio em Sodoma, e há o acúmulo de muita sujeira em minha alma: duas prostitutas e a guilhotina, e ociosidade e vulgaridade”.

Em 10 de abril, anota no diário: “Genebra — Acordei cedo, sentindo-me bem e quase alegre”. Iniciava-se aí uma nova vida, que duraria meses. Esperavam-no na Suíça outros russos, outros parentes, novos amigos, novas vivências. Uma nova existência. Após longa temporada na Suíça, e passeios pelo Piemonte e pela Alemanha, em 11 de agosto Tolstoi aportava de volta em São Petersburgo, após ausência de seis meses. Em 1861, voltaria a Paris por um mês.

A carta a Botkin de 6 de abril de 1857 antecipa o Tolstoi da idade madura, o mesmo que se tornaria pregador da não-violência — influenciando Mahatma Gandhi —, o contestador que se oporia ao Estado tsarista e à Igreja Ortodoxa, a qual o excomungaria em 1901. O mesmo pensador que escreveria, em 1900, um ensaio intitulado A escravidão em nossos tempos, propondo o fim dos governos; o texto Não matarás, também de 1900, em que considera as guerras como um assassinato autorizado, determinado pelos chefes de estado; e o panfleto Não posso me calar, de 1908, em que, aos 80 anos, dois anos antes de morrer, cinquenta e um anos depois de assistir ao guilhotinamento em Paris, Tolstoi condena a pena de morte e as execuções então sendo efetuadas pelo regime tsarista. Esses textos podem ser lidos neste pequeno volume, editado em 2003 pelo Professor canadense Éric Lozowy, que escreveu uma apresentação de clareza exemplar:

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Ao escrever sua autobiografia espiritual, Uma Confissão, entre 1879 e 1881, portanto vinte e dois anos após a execução de François Richeux, Tolstoi lembra que ela abalara sua crença no progresso, por ter sido um ato “desnecessário e mau”. Ver a cabeça ser separada do corpo e ver os dois caírem separadamente na caixa embaixo da guilhotina demonstrara a ele que “o árbitro do que é o Bem e o que é o Mal não é o que as pessoas fazem ou dizem, e nem o progresso, mas sim o meu coração e eu mesmo”.

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