O Triunfo da Cor

Quando éramos crianças, meus irmãos e eu tínhamos uma coleção de quebra-cabeças. Desconfio que montá-los era uma atividade idealizada por minha mãe, que trabalhava muito e via nisso uma maneira de conseguir nos unir ao seu redor. Ficávamos os quatro – ela, seus dois filhos e sua filha – em volta da mesa, na casa em Rhode-St-Genèse, procurando e colocando peças.

A maioria dos quebra-cabeças era de reproduções de quadros famosos, o que foi uma forma lúdica de despertar em nós o amor à arte. Lembro-me particularmente de dois: Le Sacre de Napoléon, de David, e Les Roulottes, de Van Gogh.

É provável que a Coroação de Napoleão tenha sido escolha minha, porque desde sempre o destino desse homem me surpreendeu e sigo tentando entender suas motivações, como prova uma recente compra na Livraria Berinjela. O quadro de David faz parte da minha vida desde meus 7 ou 8 anos, quando o vi pela primeira vez no Louvre e, pouco depois, terei feito minha mãe comprar o quebra-cabeças. Fui, por isso, bastante receptivo à cena em Francofonia, de Alexander Sokurov, em que o fantasma de Napoleão, dentro do Louvre, olhando para o quadro de sua própria coroação, esse mesmo de David, exclama: “Quanta beleza!”. Um bom exemplo, em vários níveis, de como a História inspira a Arte, mas de como também a Arte serve para a apreensão da História, pois a tela gigantesca de David contribui hoje para perpetuar o mito napoleônico; e o filme de Sokurov, por sua vez, ajuda a nos fazer pensar sobre essa correlação.

Montar As Caravanas de Van Gogh foi outra experiência inesquecível. Por isso, conheço cada detalhe do quadro. Tenho uma clara recordação da satisfação em colocar as peças para formar a figura do menino, no lado direito. Ao longo dos anos, pude ver a tela sem a intermediação do quebra-cabeças, no Musée d’Orsay. Imaginarão, por isso, meus dois únicos leitores, o choque, a surpresa que senti ao rever Les Roulottes, de maneira inesperada, no canto de uma sala na magnífica exposição  O Triunfo da Cor, os pós-impressionistas, no CCBB do Rio de Janeiro. Não sabia que o quadro estava na exposição.

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Que deslumbramento revê-lo, sem aviso prévio, como se tivesse esbarrado em um velho amigo em um lugar inesperado do mundo.

Fui ao CCBB, aliás, imbuído de ceticismo, em parte para agradar minha mãe, que queria minha companhia. Estava convencido de que a exposição seria insatisfatória, talvez pela própria publicidade em torno a ela, alardeando “75 obras de 32 artistas”… a pouco mais de duas obras por artista, em média, a coisa não parecia séria. Como entender um artista vendo apenas duas obras?

Entrei cético, mas saí maravilhado. A qualidade das obras é quase sempre extraordinária, a curadoria impecável e o accrochage muito sedutor. Os principais artistas estão representados por bem mais do que duas obras, à exceção (lastimável para mim) de Matisse, com um quadro apenas. É permitido fotografar, mas só tirei as duas fotos nesta postagem, preferindo me concentrar nas obras sem a intermediação da câmera do celular, o que agora lamento. Da mesma forma, cometi o erro de não comprar o catálogo. Tentei depois encontrá-lo em várias livrarias de Brasília, sem sucesso.

Aprende-se muito na exposição. Visitá-la é uma grande experiência sensorial e intelectual. Ela confirma minha experiência pessoal, de que mesmo obras de arte que conhecemos bem, se vistas em contexto diferente, nos dizem algo novo. Talvez seu atrativo maior, para mim, tenha sido a quantidade de telas do Vuillard à mostra. Esse pintor, de minha particular predileção, é um dos mais bem representados na exposição. Fiquei seduzido por este quadro:

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Na página do Musée d’Orsay, na lista de obras de Vuillard na coleção, o quadro aparece como tendo o título Tristan Bernard, conférencier. Na exposição, a placa ao lado da obra   explica um pouco mais, e não a fotografei, sendo esse o terceiro arrependimento em relação à minha ida ao CCBB.

Uma amiga, que vive rodeada de peças marcantes de arte e mobiliário brasileiros contemporâneos e visitou a exposição alguns dias depois de mim, me escreveu lá de dentro: “Ary, nem terminei a expo e estou quase em lágrimas”. A montagem bem-sucedida de uma exposição é assim: cria uma entidade própria, ainda que temporária, forte pela soma de seus componentes e capaz de nos dizer algo, talvez até sobre nós mesmos.

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Tagore

Recebi, de um amigo que acaba de voltar de viagem à Índia, este presente:

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Gitanjali, em inglês, é a coleção de 103 poemas curtos que o próprio autor traduziu do bengali, incorporando obras de vários livros seus. No ano seguinte, em 1913, Tagore ganhou o Prêmio Nobel de Literatura graças a essa coletânea. O título, no Brasil, é traduzido como Oferenda Lírica. A edição que me deram traz a entusiasmada – e famosa – introdução de W. B. Yeats de 1912.

Outro futuro Prêmio Nobel de Literatura, André Gide, traduziu o livro para o francês, usando também o título L´Offrande lyrique. Sua apresentação à primeira edição dessa tradução, publicada em 1914, está incluída no volume da Bibliothèque de la Pléiade  dedicado aos seus ensaios e críticas literárias. Elogia Gide, em seu texto, o espírito sucinto da coletânea, se comparada a textos indianos como o Mahabharata e o Ramayana e a sua “animação apaixonada” (“ce qui m´emplit de larmes et de rire, c´est l´animation passionnée de cette poésie”). Menciona haver grande alegria nos versos, fruto do “sentimento da vida universal, do sentimento de participar dessa vida”. Uma frase me chama particularmente a atenção nessa apresentação de Gide, a idéia de que o poeta tem consciência de ser indispensável a Deus: “Tagore sait que Dieu a besoin de lui”. Pois, afirma Gide, é por meio de sua criatura que Deus toma consciência de si (“c´est en sa créature que Dieu prend conscience de soi”). A frase final da apresentação de Gide é, referindo-se aos últimos poemas de Gitanjali, que tratam da morte, um elogio à sua solenidade: “Je ne crois pas connaître, dans aucune littérature, accent plus solennel et plus beau”.

Há nos últimos poemas, de fato, grande aceitação do fim da vida. Porém, como os caracóis de Jacques Prévert em seu poema “Chanson des escargots qui vont à l´enterrement”, não gosto tanto de odes à morte. Descartam os caracóis de Prévert a tristeza provocada por caixões, com o belo verso: “Les histoires de cercueils, c´est triste et pas joli”.

Da coleção, preferi os poemas que mostram as incertezas do ser humano, mas ao mesmo tempo uma força interior, como os três abaixo:

 

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Tagore morreu poucas décadas antes do meu nascimento. Quando eu era criança, sua fama – como aliás a de Gide também – era ainda colossal. Lembro bem de ver fotos dele e sentir que aquele homem de longa barba branca, com um nome tão imponente, com uma aura de misticismo oriental, seria para sempre inacessível. Para mim, na infância e na adolescência, ele era uma figura mítica, de difícil compreensão, e preferi deixá-lo longe. Hoje, Gitanjali, como toda a obra de Tagore, já não é tão popular, a não ser em Bangladesh e na Índia.

De repente, este ano, ele entrou em minha vida, e eu o recebi de bom grado. Tenho encontrado beleza em sua obra. Há poucos meses, ganhei este disco:

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Tagore, além de escritor e poeta, era músico e também adotou a pintura como forma de expressão, no final da vida. O disco acima contém algumas das 2.000 canções para as quais ele compôs a letra – em bengali – e a música, criando um gênero musical próprio…Não entendo uma palavra, naturalmente, mas nem precisa…a melodia diz tudo. Minha faixa preferida é a de Shama Rahman cantando “Shokator-e oi kandichhe shokol-e”, que o disco traduz como: “Todos choram lamentavelmente”. Certamente, a música não me faz chorar, muito menos “lamentavelmente”; leva-me, isto sim, a aceitar a vida. Vejam este vídeo:

 

Quanto a meu amigo recém-chegado da Índia, e que me deu de presente Gitanjali, é um ex-aluno e, portanto, bem mais jovem do que eu. Aprendo sempre muito com meus alunos e ex-alunos e valorizo sua amizade. O viajante à Índia, ao vir me visitar para me dar o livro, comentou que, na véspera, pedira sua namorada em casamento. A cerimônia será em um ano. Fiquei feliz por ele e senti um sopro de ânimo ao meu redor. Como diz o poema 37, “…and where the old tracks are lost, new country is revealed with its wonders”.

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Tracey Emin e eu

Em 1998, a artista britânica Tracey Emin criou uma obra de arte intitulada  My Bed, que era sua própria cama desfeita, os lençóis sujos, rodeada de objetos que normalmente ninguém mostra aos visitantes, inclusive preservativos. A artista estava em depressão na época.

 

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Tive a sorte de ver My Bed na retrospectiva consagrada a Tracey Emin em 2011, na Hayward Gallery, no South Bank, em Londres. Foi uma bela exposição e me arrependo de não ter comprado o catálogo. My Bed pertencia então a Charles Saatchi, que a vendeu em 2014 a um colecionador alemão. Está emprestada, por dez anos,  ao museu Tate Britain.

Procurando imagens da peça para reproduzi-la aqui, confirmei a dificuldade em remontá-la tal qual a cada exposição. As meias de nylon, particularmente, mudam constantemente de lugar sobre a cama. No meio de tanto detrito ao pé da cama, acho comoventes as presenças do cachorrinho branco de pelúcia e das pantufas.

A pergunta sobre se essa peça é uma obra de arte me pareceria perfeitamente absurda, pois não pode haver dúvida a respeito. Ao mostrar, de uma forma nova, inovadora, a realidade – a sua realidade – , Tracey Emin criou uma obra de arte (inclusive bela, a meu ver, mas o conceito de belo já não é necessário para definir uma obra de arte) e usou a arte para afugentar seus fantasmas.

Seria inconcebível para mim – e nem minha mulher deixaria –  viver nesse estado de bagunça.

E nem me ocorreria publicar fotos da minha cama. Achei, porém, que poderia mostrar minha mesa de cabeceira, para mim um universo tão importante (ainda que bem mais arrumado) quanto é sua cama para Tracey Emin.

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A foto no porta-retratos representa minha filha. O ocapi remete à minha infância, quando eu era fascinado com esse animal e sempre o procurava em zoológicos. Tinha um desses, como na foto, que se perdeu. Na idade adulta, comprei um novo, que desde então fica na minha mesa de cabeceira.

Passemos aos livros.

Na pilha da esquerda, de baixo para cima, estão:

  • O catálogo, presente de Beatriz Paredes, da espetacular exposição sobre os maias realizada em São Paulo, em 2014, que visitei.
  • Quatro dos livros que ganhei de presente de aniversário este ano: a edição fac-similar do Alguma Poesia do Carlos Drummond de Andrade, editada pelo Instituto Moreira Salles, que recebi de um casal de amigos (ela é minha amiga restauradora de livros, ele um dos meus amigos  mais antigos); o catálogo da exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (que visitei), presente de Cora Rónai; o livro de fotografias RioMarLisboaRio, presente de Carlos Leal; e  o livro Rio, Casas e Prédios Antigos (esse, não me lembro quem me deu).

Vejamos em detalhe a pilha da direita:

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De baixo para cima:

  • Mais um volume de Fernando Pessoa, comprado na Livraria da Travessa de Ipanema este ano.
  • As obras completas de Vauvenargues, um moralista que tem me interessado mais do que La Rochefoucauld. Tenho esse livro há anos e venho lendo trechos ocasionalmente.
  • Le Royaume, de Emmanuel Carrère, comprado em Paris em 2015, não lido ainda.
  • Dentro do envelope: uma peça do Gorki, na versão apresentada na Comédie-Française em 2015, quando a vi. Comprei a peça na livraria da Comédie-Française, para poder passar os olhos no texto antes da representação.
  • Love, Hate and Reparation, obra das psicanalistas Joan Riviere e Melanie Klein que já li algumas vezes. Ao longo dos anos, dei exemplares desse livro a vários amigos. Não sei por que está na mesa de cabeceira.
  • The Consolations of Philosophy, por Alain de Botton, onde venho gostando de fuçar de vez em quando.
  • Mudança, de Mo Yan, outro presente de Cora Rónai deste ano, não lido ainda. Desse autor, tenho e li uma tradução para o francês de O mapa do tesouro.
  • La raison des sortilèges, por Michel Onfray, um filósofo – no sentido francês da palavra – que já li muito, mas cuja prolixidade não tenho conseguido acompanhar. Ganhei o livro há poucos meses de um amigo  que nem sabia de meu antigo interesse por Onfray.
  • Uma seleção, em formato pequeno, fácil de levar em viagens, das cartas de Voltaire, sempre um consolo.
  • A agenda que (quase nunca) uso, a da Pléiade.

Embora arrumada, minha mesa de cabeceira se parece com a cama de Tracey Emin pela seguinte razão: não saberia dizer por que muitos desses livros estão sobre ela. Estou lendo livros no momento que não estão em nenhuma das duas pilhas. Outros livros comprados ou ganhos recentemente estão sobre outros móveis no quarto. Tudo isso é parte do mistério inerente a uma casa cheia de livros.

 

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Bibliothèque de la Pléiade 

Em seu livro iconoclasta, Le charme des penseurs tristes,

o filósofo Frédéric Schiffter, no capítulo sobre Cioran, critica os volumes da “Bibliothèque de la Pléiade”. Segundo ele, o papel é fino demais e os livros acabam virando troféus para colocar na estante e nunca serem abertos. Afirma: “…rien n’est moins plaisant que l’usage de ces bouquins”. Alegremente, comenta que seus volumes da Pléiade foram todos surrupiados quando era estudante (“quand je m’ adonnais à la pratique anarchiste de la reprise individuelle”….o estilo do autor é belíssimo). Lastima não o fato de ter roubado, já que afanava livros como forma de redistribuição de renda, mas de ter roubado volumes da Pléiade.

Com alguma propriedade, Schiffter declara que os volumes não podem ser levados à praia, problema significativo para um autor e leitor residente, como ele, em Biarritz. Posso eu mesmo testemunhar que os livros da Pléiade não devem ser lidos na praia. Em dezembro, em Búzios, um dia levei o quarto  (e último) volume da segunda edição de À la recherche du temps perdu para a praia da Ferradura. Uma tempestade de areia destruiu meu exemplar.

Tirei uma foto enquanto via o livro ser estragado pela areia e a brisa marinha: 

Hoje, o volume está na seguinte condição:

Uma amiga restauradora de livros me informou que recuperar o volume não seria economicamente viável. Um amigo também leitor de Proust veio jantar conosco, há poucas semanas; mostrei o volume e ele gentilmente se ofereceu para me trazer novo exemplar de Paris. Sua mulher, porém, fez uma ponderação que me deu no que pensar. Ela me disse: “Pensa um pouco se vale a pena jogar esse exemplar fora…esse estado dá a ele uma história”.

Posso entender seu argumento. Os livros da Pléiade, embora caros, não precisam ser tratados como tesouros intocáveis. São publicados para ser lidos. São tesouros, isto sim, de erudição.

A coleção, orgulho da editora Gallimard, vem sendo publicada desde a década de 30. O primeiro autor editado foi Baudelaire, em 1931. No início, o aparato crítico era simples. Hoje, ocupa parte considerável de cada volume. Alguns autores já foram editados mais de uma vez: de cabeça, lembro de Molière, Casanova, Racine, Saint-Simon, Balzac, Stendhal, Montaigne e Proust. Este último foi publicado pela Pléiade, a primeira vez, em 1954, em três volumes. O fato de a nova edição, publicada de 1987 a 1989, ser em quatro volumes dá uma idéia da evolução do aparato crítico. Foi na edição em três volumes, da biblioteca dos meus pais, que comecei a ler Proust, aos 11 anos.

Não conheço, em outra cultura, edições tão cuidadas e eruditas como as da Pléiade. As da Library of America não chegam nem perto.

A crítica de Schiffter, assim, parece excessiva.

Temos em casa mais de 100 volumes da Pléiade. Uns 110, talvez. Não posso dar um número preciso, porque alguns estão emprestados a meu amigo leitor de Morgenthau. Todos guardam marcas de terem sido lidos. Minha mulher e eu os lemos no jardim, ao sol; sempre viajamos com algum na mala, e eu não sinto compunção em deixar cair água, chocolate, frutas em algumas páginas. Certamente, não os tratamos como objetos valiosos, embora nenhum volume esteja em tão mau estado como o quarto volume de À la recherche. Ele aparece assim na estante:

Alguns exemplares foram comprados de segunda mão, com buquinistas à beira do Sena ou na Livraria Berinjela, no Rio. Em uma de minhas visitas este ano à Livraria, encontrei o primeiro volume da edição de 1954 de À la recherche, aquela que conheço da biblioteca dos meus pais. Comprei o livro, que estava em bom estado, e dei-o de presente ao meu amigo leitor de Proust. Ele gostou.

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O título em português dá um sentido levemente diferente do título em inglês (Mountains may depart). O título em francês (Au-delà des montagnes) já dá um terceiro sentido, mais fraco do que os outros dois. Qual dos três sentidos será mais perto do chinês? O enredo justifica os três títulos, dependendo do aspecto que se queira enfatizar.

Jia Zhangke aborda o tema filosófico, a meu ver, mais fascinante de todos: como o ser humano lida com a solidão inerente  a toda vida. Nascemos, vivemos e morremos apenas na companhia de nós mesmos, e se eu fosse o narrador de um filme do Woody Allen, recomendaria agora: “Ame a você mesmo…é muito chato ter de passar a vida inteira com alguém de quem você não gosta”.

Pode-se postular que amamos, fazemos amigos, jantamos fora em grupo e queremos sucesso profissional, em parte, para tentar escapar da solidão. Porém, nem os amores mais profundos, nem as amizades mais verdadeiras, nem a vida social mais intensa, nem a existência mais prestigiada, mais exitosa eliminam totalmente a solidão.

Um amigo, este ano, chamou minha atenção para um artigo de Hans Morgenthau de 1962, bastante surpreendente, intitulado Love and Power, em que o autor equipara a busca por amor e a busca por poder, argumentando serem ambas causadas pela tentativa de fugir da solidão.

Os amores, porém, muitas vezes terminam e os amigos se desentendem (e o poder, em algum momento, termina). Fazemos um esforço de aproximação com outros seres humanos para escapar da solidão, mas frequentemente afastamos de nós essas mesmas pessoas. Fugimos da solidão e a trazemos de volta.

O belo filme de Jia Zhangke é, entre outras coisas — muitos preferem ver no filme uma análise das consequências que o desenvolvimento chinês provoca nas pessoas, mas essa visão não é incompatível com a minha, é apenas uma questão de ênfase  -— uma descrição sobre a solidão a que as pessoas às vezes se condenam. Elas fazem escolhas, ao longo da vida, sem ter como prever as consequências; essas escolhas podem ser equivocadas e aumentar —  em vez de diminuir  — seu grau de solidão.

A frase mais marcante do filme talvez seja: “todo relacionamento humano termina; as pessoas sempre se afastam umas das outras”. A frase não é sempre verdadeira. Amores, amizades e relações profissionais e sociais podem durar a vida inteira, como sei pela minha própria experiência. Toda relação, porém, mesmo a mais indiferente, precisa de esforço constante para ser preservada. Um olhar mau-humorado pode bastar para azedar a relação mais antiga. E Proust nos ensina que todo relacionamento humano varia ao longo dos anos, às vezes mais próximo, às vezes mais distante.

A heroína do filme, em uma comovente interpretação de Zhao Tao, é bela, ética, meiga (sei que o adjetivo soa antiquado, mas é correto, neste contexto) e generosa. Um erro — e é, em qualquer vida, o que pode bastar — a condena, e a vários outros personagens, à solidão. A decisão em questão é perfeitamente natural e parece correta, naquele momento. Suas consequências, porém, afetam negativamente a vida de vários dos personagens principais do filme, e por muitos anos.

A cena final provocou em mim enorme tristeza. Alguns amigos, talvez mais sábios, tiveram percepção diferente: julgaram que a heroína termina feliz, conformada com a sua condição solitária, já que humana.

 

Ficha técnica do filme: imdb

 

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Amor e Amizade -Whit Stillman

Amor e Amizade…dois sentimentos, sugere o filme, que devem ser evitados se quisermos manter a objetividade necessária para vencer na vida. Lady Susan Vernon, a protagonista, é especialista em despertar os dois sentimentos nos outros, sem nunca ser sua vítima. Este filme é mais do que uma nova adaptação da obra de Jane Austen. É um estudo sobre as contingências de uma mulher do século XVIII, ciente de ser mais inteligente do que as pessoas ao seu redor e de que a falta de escrúpulos será seu trunfo. Como bônus, o filme nos entrega interiores soberbos, belas paisagens, Handel e Mozart na trilha sonora, interpretações magníficas e o mais importante: muito senso de humor. Kate Beckinsale está inesquecível como a personagem principal, que hesito em chamar de vilã. Sua Lady Susan merece todos os epítetos listados no poster abaixo mas é também bela, sedutora, irresistível e espirituosa. O diretor do filme, Whit Stillman, nos leva a aceitar que a falta de caráter da protagonista, associada a um constante sorriso, é a melhor arma de que ela dispõe para sobreviver naquela sociedade. Não é culpa sua se é rodeada de tolos, dispostos a se iludir com ela. Tom Bennett, aliás, está estupendo no papel do mais tolo dos tolos. A filosofia de Lady Susan é: a frieza, o cinismo e o oportunismo compensam, se disfarçados pela simpatia e conduzidos com inteligência. Confrontada com sua deslealdade, Lady Susan descarta, sem susto, as acusações contra ela, pontificando: “facts are a horrid thing”. Um filme delicioso.

 

Ficha técnica do filme: imdb

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Em torno a um bilhete encontrado em um livro

Como comentei em texto anterior, em minha mais recente expedição à Livraria Berinjela comprei cinco livros franceses. Entre eles, os dois acima, sobre Proust.

Dentro do livro publicado por Lucien Daudet sobre 60 das cartas que recebeu de Proust, achei um “bilhete postal”, denominação aliás nova para mim. Reproduzo o bilhete nas fotos abaixo.

C. A. [Carlos Alfredo] Bernardes era um diplomata, também conhecido como Lolô Bernardes. Em 1949, pelo visto, estava lotado na Embaixada em Paris. Reproduzo o texto do cartão: “Querido, Receio que você não tenha recebido a minha carta. Já agora, não há tempo de fazer a encomenda, pois ando nas [ilegível] da minha estadia aqui.É pena; visto que o tal líquido corre por cá em caudaloso rio…Muita saudade do teu Lauro”.

Mensagem mais críptica, impossível. Qual é o “tal líquido” (sublinhado no original) que, em Lisboa, corre em “caudaloso rio” e que poderia interessar a um morador de Paris encomendar ?

Não há como saber. Não é grave, porém.  O que interessa é sentir a vida pulsar, 67 anos depois, quando os dois amigos estão mortos. Eles se foram, mas suas preocupações, suas frustrações, sua amizade podem ainda ser sentidas, porque por acaso o bilhete postal de Lauro para Carlos Alfredo sobreviveu.