Duarte e Amaro: dois diplomatas, dois perfis

Duarte e Amaro: dois diplomatas, dois perfis

Existe no Palácio do Itamaraty, em Brasília, um esboço de 1886 do quadro de Pedro Américo “Independência ou Morte” ou “O Grito do Ipiranga”. Ele pode ser visto no terceiro andar, na mesma sala onde está a gigantesca tela de Jean-Baptiste Debret retratando a coroação de D. Pedro I.

O estudo pertencente às coleções do Itamaraty é menor do que o quadro exposto em São Paulo no Museu do Ipiranga. Ambos foram pintados em Florença, onde a obra final foi exibida pela primeira vez na Academia de Belas Artes, na presença do imperador Pedro II e de D. Teresa Cristina. Isso se deu em 8 de abril de 1888. Estamos a um mês da abolição da escravidão e a pouco mais de um ano do fim do Império, e Pedro II viaja pela Europa. Naquele dia, em Florença, muito lealmente homenageia a memória do pai, protagonista da tela que se tornaria a imagem icônica da independência do Brasil.

O Grito do Ipiranga do Itamaraty

Li as palavras dirigidas por Pedro Américo a algumas das personalidades que assistiram à cerimônia em Florença. Não são muito empolgantes. Além do imperador do Brasil e de sua mulher, estiveram presentes a rainha Vitória, em vilegiatura na Toscana; sua filha caçula, a princesa Beatriz; e a rainha consorte da Sérvia. Pedro II foi saudado com elogios aos seus “magnânimos pensamentos”. Referiu-se o artista ao quadro como “o modesto trabalho com que acabo de dar nova prova do meu patriotismo”.

Procurei nos Diários da rainha Vitória alguma referência ao pintor ou à sua obra, mas nada encontrei. Esses Diários foram editados pela princesa Beatriz, que fazia as vezes de secretária particular da mãe, então o que temos não é necessariamente o texto original. A entrada para o dia 8 de abril de 1888 registra: “Como a tarde estava chuvosa, decidimos ir à Galeria de Belas Artes. Nesse prédio há uma coleção de obras de arte excepcionais da Escola Toscana”. O tom dá a entender que a ida à galeria foi acidental, causada pela chuva que impediu um passeio ao ar livre.

Mas não deve ter sido assim. Dois dias antes, em 6 de abril, nos dizem os Diários da rainha, ela recebera na Villa Palmieri, onde se hospedava em Fiesole, a visita de Pedro II e Teresa Cristina. Ambos lhe pareceram “envelhecidos e doentes”. A saúde do imperador era mesmo precária naquele período; um mês depois, em Milão, ele chegaria a receber a extrema-unção. Em 6 de abril, é crível supor, já estava marcada a cerimônia em torno ao quadro que aconteceria dois dias depois, e seria natural o imperador mencioná-la à rainha Vitória e mesmo convidá-la a participar. Vejo nos Diários de Pedro II que ele só comenta, sobre esse encontro, ter achado a rainha “bem avelhantada”. Sem saber, dava-lhe o troco.

Na entrada para o dia 8 de abril, Pedro II escreve: “Chego da exposição de quadro do Pedro Américo. Agradou-me em geral contudo não brilha pelo colorido e há um cavalo que se inclina tanto para o lado galopando que tenho medo que se prancheie” — respeito a falta de vírgulas, por não saber se é uma falha do imperador ou de quem transcreveu o Diário. É um alívio ler um comentário crítico, quase humorístico, na pluma imperial, em vez de alguma frase sentimental sobre o seu pai ou a Independência.

Há um documento escrito pelo próprio Pedro Américo, “O brado do Ipiranga”, também de 1888, que descreve a obra e, em trecho intitulado “A solenidade”, a sua inauguração em Florença. O texto do artista reaparece em um livro de 1999 dedicado ao quadro, organizado por Cecilia Helena de Salles Oliveira e Claudia Valladão de Mattos. Do texto do pintor fica claro que a rainha Vitória era esperada. Ele diz: “Vendo Sua Majestade o Imperador que o vastíssimo salão estava cheio de gente, e assim as salas e galerias adjacentes, e que não chegava S. M. a Rainha da Inglaterra, deu a palavra ao artista”. Vitória apareceu quando o imperador já havia partido. Ela terá visto um Pedro Américo radiante, pois este afirma que os participantes da cerimônia “com ele se congratularam pelo esplendor daquela festa e pelo êxito da obra exposta”.

Durante os anos em que fui professor do Instituto Rio Branco, de 2012 a 2016, incluí uma aula sobre o acervo iconográfico da História do Brasil de propriedade do Itamaraty. Além das telas que ilustram o Grito do Ipiranga e a coroação de Pedro I, a chancelaria brasileira possui várias obras retratando os dois imperadores e personalidades do período monárquico. Há um retrato famoso, excelente quanto à qualidade artística, de D. João VI, não muito lisonjeiro, obra talvez do melhor pintor português do início do século XIX, Domingos Sequeira.

Há também uma pintura, da qual não se conhece o artista, que retrata, de forma competente e sóbria, Duarte da Ponte Ribeiro (1795-1878).

Rubens Ricupero considera Ponte Ribeiro “o exemplo mais perfeito do agente da diplomacia do conhecimento”, sublinhando em A diplomacia na construção do Brasil (2017) seus “180 estudos e memórias” e os numerosos mapas que preparou. Nascido em Portugal, exerceu primeiro a medicina. Como diplomata, foi especialista em questões de limites territoriais. Trabalhou no Uruguai, na Argentina, no Chile, no Peru, na Bolívia.

Um estudioso da obra do diplomata, Castilhos Goycochêa, nos diz em 1943 que “durante o Império, principalmente no que se refere às relações com os outros países do continente, seu nome impressiona pela constância com que figura na maior parte das negociações de toda ordem”. Opina que a Ponte Ribeiro “não faltou nem mesmo a ingratidão da Pátria”.

É expressiva a bibliografia sobre esse grande diplomata. Sua carreira é estudada já desde o século XIX. Em dezembro de 1878, três meses após a sua morte, em uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que ele era sócio, Joaquim Manuel de Macedo discursou sobre sua carreira como agente diplomático e como estudioso das fronteiras do Brasil. O autor de A Moreninha destacou “a capacidade ativíssima, o zelo e a dedicação exemplares” de Ponte Ribeiro, afirmando que suas “vida laboriosa e robustez eram como um milagre de força orgânica”.

O estudo mais minucioso é a biografia por José Antônio Soares de Souza, publicada em 1952, Um diplomata do Império. Explica o autor: “foi Ponte Ribeiro, na diplomacia, o primeiro a reviver no Império o uti possidetis como base para a delimitação do Brasil”. Mostra-nos o diplomata, em 1837, “escarrapachado no lombo de um burro”, seguindo pelos Andes, por “caminhos escabrosos” o governo boliviano, “que vivia, de cidade em cidade, em constantes passeios, dos mais incômodos”. Menciona as queixas financeiras de Ponte Ribeiro, registradas por exemplo em ofício que enviou de Lima, em 1839: “Tenho necessidade de ser empregado porque me acho pobríssimo, havendo gasto quanto tinha durante treze anos” trabalhando como diplomata.

É preciso ler as páginas em que José Antônio Soares de Souza, citando as comunicações oficiais de Ponte Ribeiro, descreve suas andanças em lombo de mula, durante a última missão ao Peru e à Bolívia, de 1851 a 1852. Quinze anos mais velho desde sua estada anterior nos Andes, o diplomata, cinquentenário, sofre com a altitude e as dificuldades da cordilheira. Escreveu Ponte Ribeiro: “Durante a noite a febre, debaixo de um toldo levantado sobre o gelo, e de dia sobre o espinhaço de uma mula, queimado pelos raios ardentes do Sol, que de todos os lados são refletidos pela neve”. Nenhuma outra frase talvez seja tão reveladora quanto esta: “Aqui queria eu ver alguns dos nossos diplomatas que alegam serviços e até sacrifício, [por] irem em um coche de Roma a Gaeta, ou de Paris a Viena pelo caminho de ferro”.

Ao imaginá-lo em sua mula pelos Andes, deve-se lembrar que, anos antes, um acidente de espingarda danificara sua mão. Nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, ele sofrera “despedaçamento da mão e braço esquerdos, perda de ossos”. Soares de Souza acredita que o lado afetado tenha sido o direito, como resultado talvez não de ferimento por arma, mas de uma fratura exposta. 

Da aposentadoria em 1853 até poucos meses antes de morrer em setembro de 1878, o diplomata continuou prestando serviços à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, como se chamava então o Ministério das Relações Exteriores. De repente, em abril de 1878, aos 83 anos, recebeu aviso de que cessava a gratificação mensal correspondente.

Soares de Souza esclarece que a suspensão da gratificação teria derivado de “uma ordem geral”, a afetar todos os diplomatas que a recebiam. Ponte Ribeiro, porém, “desarvorou-se inteiramente”, por concluir “daquele suposto agravo já não necessitar a diplomacia brasileira dos seus serviços. Isso o ferira fundo e definitivamente”.  

No excelente retrato pertencente ao Itamaraty vemos um rosto de aguda inteligência e grande seriedade de propósitos, como sua vida profissional confirma. Pareceria justo esperar que não tivesse que ser submetido à inconstância institucional.

A Fundação Alexandre de Gusmão publicou, em 2010, ofícios enviados por Ponte Ribeiro à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, entre 1836 e 1839, do Uruguai, da Bolívia e do Peru. São boas análises sobre a política local, as relações internacionais desses países e as relações do Brasil com cada um deles. Um ofício de Lima, de fevereiro de 1838, revela certo isolamento andino: “Há poucos dias faleceu nesta capital o encarregado de negócios dos Estados Unidos, e agora se retira Barrère, que exercia igual caráter por parte da França: hoje não há aqui mais agentes públicos que o enviado de México e eu”. Em novembro, a situação melhorara: a Brasil e México se haviam somado novamente enviados de Estados Unidos e França, além de Reino Unido, Nova Granada, Equador e a cidade livre de Hamburgo.

A carreira de Duarte da Ponte Ribeiro demonstra o esforço do Brasil de se fazer presente diplomaticamente nos países vizinhos, mas também as privações a que faziam face seus representantes na América do Sul. Já antes de partir, ainda do Rio de Janeiro, Ponte Ribeiro predizia os transtornos que enfrentaria, movendo-se entre Peru e Bolívia: “marcharei 270 léguas por dispendiosos caminhos”. Compara sua situação com aquela mais confortável de colegas: “Outras legações há na Europa que têm encargo junto de vários governos, mas esses estão próximos, as viagens são fáceis”.  

Na Sala dos Tratados, no Itamaraty em Brasília, há três bustos em bronze de Bruno Giorgi, de 1967, representando as figuras históricas a quem o Brasil deve a definição e consolidação de suas fronteiras. De um lado, Alexandre de Gusmão e Duarte da Ponte Ribeiro; do outro, o barão do Rio Branco. Como todo diplomata brasileiro, inúmeras vezes participei de cerimônias na Sala dos Tratados. Algumas internas, quando tipicamente o ministro das Relações Exteriores coloca-se, para discursar, próximo ao busto do Barão. Outras, com delegações estrangeiras, quando há coletivas de imprensa ou, como indica o nome do recinto, a assinatura de atos internacionais. A mesa situada junto à grande treliça de Athos Bulcão possui importância ímpar, por ter fama de ser aquela sobre a qual se assinou a Lei Áurea.

Os retratos históricos circulam às vezes entre o Itamaraty do Rio e o de Brasília e são transferidos de gabinete em gabinete em cada um dos dois palácios. Em 2003, quando Samuel Pinheiro Guimarães tornou-se secretário-geral das Relações Exteriores no início do primeiro governo Lula, e fui trabalhar com ele, compreendi sua decisão de substituir  certos quadros expostos na sala de espera dos visitantes que iam vê-lo.  

Os dois palácios do Itamaraty são museus. Ambos abrigam importantes coleções de arte e de mobiliário. São ambos edifícios valiosos em termos arquitetônicos. Mas são museus vivos. Neles se trabalha, neles há agitação, neles há o propósito de criar e transmitir uma certa imagem de Brasil. Suas coleções, justamente por serem ilustres, devem ser exibidas de acordo a algum parâmetro substantivo. Parecia pouco razoável que o retrato de D. João VI, justo em frente à porta de acesso à antessala do secretário-geral, fosse a primeira visão que as visitas, nacionais ou estrangeiras, tivessem da política externa brasileira contemporânea.

Mais intrigante era ver exposta na mesma sala uma tela grande, artisticamente medíocre, retratando Luís José de Carvalho e Melo, primeiro visconde da Cachoeira, e sua mulher. Chanceler do Brasil de 1823 a 1825, Carvalho e Melo foi um dos negociadores do tratado de 1825 entre Brasil e Portugal, pelo qual a ex-metrópole reconheceu a independência da ex-colônia. O diplomata e jurista Hildebrando Accioly escreveu em 1925 que “Carvalho e Melo era homem de poucas luzes”. Um instrumento adicional ao tratado determinava o pagamento, pelo Brasil a Portugal, de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas. Accioly cita O reconhecimento do Império, onde Oliveira Lima lembra em 1901 que “a compra da Independência por dois milhões esterlinos, depois de ela ser um fato consumado e irrevogável, foi um estigma de que a monarquia justa ou injustamente nunca pôde livrar-se no Brasil e cuja recordação pairou sobre o trono até os seus últimos dias”.

Rubens Ricupero relata como, a partir da exoneração em 1823 de José Bonifácio, primeiro chanceler brasileiro, já não predomina “a perspectiva do Brasil independente, mas o interesse dinástico pessoal do seu monarca”, herdeiro do trono de Portugal, “cujo projeto político dependia do reatamento de laços” com seu país de origem.

Ainda mais extraordinária era a presença, então em lugar de destaque na antessala do secretário-geral do Itamaraty, do retrato de grandes dimensões, pintado em Roma em 1832, de um jovem diplomata hoje esquecido, e que na verdade nunca chegou a merecer ser recordado. Em um livro de 1993, intitulado singelamente Itamaraty, que se tornou obra de referência sobre os dois palácios, o de Brasília e o do Rio de Janeiro, e suas coleções, João Hermes Pereira de Araújo nos explica: “O nome de Amaro Guedes Pinto não seria mais lembrado se a vaidade, característica dos dândis de todos os tempos, não o tivesse levado a encomendar seu retrato a óleo ao pintor português Antonio Manoel da Fonseca, em Roma conhecido como Fonseca Lusitano”.

A literatura e a arte possuem o poder de modificar a percepção que temos da História. Governantes habilidosos do passado frequentemente recorreram a artistas e escritores para criar uma imagem positiva a seu respeito e perpetuá-la. Da mesma forma, obras de arte podem perenizar indivíduos sem relevância enquanto vivos, ilustrando ao mesmo tempo, para a posteridade, toda a atmosfera de uma sociedade. É o caso do retrato de Amaro Guedes Pinto, o jovem secretário lotado em Roma cuja imagem durante tanto tempo foi exibida na Secretaria-Geral do Ministério. O quadro desvela uma mentalidade, a dos homens abastados da primeira metade do século XIX que viam na diplomacia uma forma elegante de viver. É de novo Oliveira Lima, em O Império brasileiro (1927), quem nos explica: “a escravidão oferecia aos moços ampla oportunidade para não trabalharem e luxarem, sedentos apenas de empregos públicos”.

João Hermes Pereira de Araújo menciona um artigo de imprensa de 1932 sobre o retrato, intitulado “O homem mais bonito do Brasil”. Localizei esse texto na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Seu autor, Gastão Penalva, é um escritor esquecido. Era avô da atriz Maria Lúcia Dahl, que eu na adolescência considerava terrivelmente atraente. Difícil dizer se é sincera a admiração de Penalva pela tela ou se fala com intenção de pilhéria ou mesmo crueldade para com o modelo — menciona “as mãos de odalisca” de Amaro Guedes Pinto, esse “Lord Brummell brazílico” e “impenitente Casanova dos trópicos”, descrevendo supostos êxitos sociais e amorosos seus em Viena.

Guedes Pinto, porém, nunca deixou Roma para assumir as novas funções a que fora designado, em 1831, na Áustria. Localizo no arquivo histórico do Itamaraty uma comunicação sua, do mesmo ano, enviada de Roma, em que menciona o seu “atual estado de saúde” — ele tinha 25 anos de idade — como razão para não aceitar “o honroso emprego a que fui destinado de cônsul-geral e encarregado de negócios interino do Brasil na Áustria”. Encontrei a resposta a ele enviada, segundo a qual “a Regência, em nome do Imperador”, aceitava sua decisão, “não obstante haver causado grande transtorno a sua recusa”.

Descobri outro artigo sobre o retrato, de 1933, igualmente fantasioso, publicado por Luís Gastão d´Escragnolle Doria em Revista da Semana. O autor parte do princípio de que Guedes Pinto de fato foi encarregado de negócios em Viena por alguns meses, em 1831, e devaneia sobre como terá ocupado seu tempo na Áustria. O império austríaco, então uma das cinco maiores potências europeias, era em 1831 governado por Francisco I, avô materno de Pedro II, que se tornara imperador do Brasil em abril daquele ano. A Áustria oferecia assim, presume-se, um cachê duplo aos diplomatas brasileiros, o que torna curiosa a preferência de Amaro Guedes Pinto por permanecer em Roma. Claramente, o trabalho diplomático era para ele um passatempo, sequer uma ambição.

Segundo João Hermes Pereira de Araújo, em seu comentário sobre a presença em Roma de Guedes Pinto, “não se encontram outras notícias desse personagem”. À custa de muita pesquisa, consegui porém consolidar bastante informação sobre sua vida e suas origens familiares.

O pai, Manoel Guedes Pinto, e o avô materno, Manoel Velho da Silva, prosperaram no comércio de pessoas escravizadas. Também traficava seres humanos o irmão de sua mãe, Amaro Velho da Silva, primeiro visconde de Macaé. A história do Brasil seria compreendida de maneira bem diferente, se fosse salientado quantos dos políticos do Império, quantos dos detentores de títulos de nobreza, quantas das personalidades mais próximas da dinastia reinante — e, na segunda metade do século XIX, seus filhos — deviam afluência e respeitabilidade à compra e venda de africanos escravizados.

Amaro nasceu em 1806. Vejo em minha pesquisa que seus pais (a mãe, Maria Thomázia Velho da Silva, morreria em 1810, com 24 anos) tiveram dois outros filhos, Manoel, nascido em 1805, e José, em 1809. A mulher do caçula, Maria Eugênia Guedes Pinto, uma das estrelas elegantes da sociedade imperial em meados do século, é tida como uma paixão de Pedro II. Era conhecida como Mariquinhas Guedes. O pai desta, o visconde de Maranguape, foi por duas vezes secretário dos Negócios Estrangeiros. José Guedes Pinto morreu em 1855, de “apoplexia”, segundo os avisos fúnebres que descubro em jornais cariocas. Há menção à viúva, mas não a filhos.

A avó materna do nosso retratado, uma tia e uma prima-irmã, todas três chamadas Leonarda, foram damas do Paço. A primeira Leonarda, a avó, viúva muito rica, só morreria em 1825, quando Amaro já tinha 19 anos. Era filha de um capitão de navios negreiros.   

Encontro o nome de Amaro Guedes Pinto em um anúncio em jornais cariocas, em fevereiro de 1837: “leilão, na casa do Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, no largo do Machado, de todos os trastes, espelhos, quadros, cristais, porcelana, prata, carruagem, carrinhos, cavalos, escravos etc… etc… pertencentes ao dito senhor”. Por um momento, penso em ruína financeira. Outro anúncio, um mês depois, no Jornal do Commercio, me tranquiliza: “leilão de uma rica e escolhida biblioteca dos melhores autores em francês, inglês, espanhol, português &c, pertencente ao Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, que se retira para a Europa”. Mais uns dias e leio, em um jornal de abril, que nosso elegante diplomata partiu, “com sua mulher”.

Localizei o registro de nascimento e o de casamento de Amaro, mas não o de seu falecimento. Em dezembro de 1833, ele se casara com uma prima-irmã, Maria Thomázia Velho da Costa, filha de sua tia Leonarda, irmã de sua mãe, a qual, cabe recordar, também se chamava Maria Thomázia. O visconde de Macaé, tio de ambos, foi uma das testemunhas. Em novembro de 1856, morre a segunda Maria Thomázia. Avisos fúnebres nos jornais nos dizem que ela tinha 37 anos, era “tísica” e viúva. Não há referência a filhos. Terá então nascido em 1819 e se casado aos 14 anos, quando Amaro tinha 27. Sabemos que este estava vivo ainda em 1839, e talvez morando em Paris, pois naquele ano um escultor francês da moda, James Pradier, esculpiu seu busto em mármore.        

Os Velho da Silva foram durante algumas décadas, no final da época colonial, no período joanino e no início do Império, uma das famílias mais prósperas, influentes e prestigiadas do Brasil. Formavam um clã. Isso explica a facilidade com que Amaro Guedes Pinto recusou a transferência para Viena.

Nas suas Memórias para servir à história do Reino do Brasil (1825), Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), o “Padre Perereca”, conta-nos que, ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1808, a família real foi recebida sob um “precioso pálio de seda de ouro encarnada”. Oito notáveis da cidade foram escolhidos para sustentar esse pálio. Um deles  era um tio-avô — outro Amaro Velho da Silva, também ele próspero traficante de pessoas escravizadas — do nosso Amaro. Em seus livros, Laurentino Gomes confunde os dois Amaro Velho da Silva, tio e sobrinho, como sendo uma só pessoa. Oitenta anos depois, o conde de Mota Maia, médico de Pedro II que o acompanhava na viagem à Europa entre 1887 e 1888 e estava presente, em Florença, à inauguração do quadro de Pedro Américo, viria a ser ninguém menos do que filho de uma prima-irmã de Amaro Guedes Pinto. Proclamada a República, ele acompanharia a família imperial em seu exílio.

Da sua chegada ao Rio em 1808 à partida para o exílio em 1889, portanto, a dinastia reinante esteve sempre acompanhada por parentes próximos do nosso retratado. A família de Amaro Guedes Pinto logrou manter-se, ao longo do século XIX, no mais alto escalão social. Malgrado a insignificância do personagem em si, um olhar sobre suas conexões familiares revela muito sobre a realidade sociológica do Brasil. Por uma ironia muito brasileira, outro dos oito notáveis que receberam a família real em 1808 era Manoel Pinheiro Guimarães, também este da burguesia mercantil do Rio, integrando a rede de fornecedores e contratadores que sustentavam a administração colonial portuguesa, e antepassado do mesmo Samuel Pinheiro Guimarães que determinaria a retirada do retrato de Amaro da antessala da Secretaria-Geral.

O quadro de Antonio Manuel da Fonseca, luxuoso nos detalhes — há cortinas de veludo verde, a roupa do modelo é rica, a cúpula da Basílica de São Pedro aparece ao fundo — preserva para a posteridade o ar juvenil, satisfeito, despreocupado de um perfil diplomático apagado. Opõe-se a ele a tela que retrata, sem ornamentos, o funcionário instruído, patriótico e incansável que foi Duarte da Ponte Ribeiro. Contra um fundo cinza, trajes discretos e um rosto de meia-idade denotam sagacidade e circunspecção. O primeiro retrato joga luz sobre o sucesso material de um grupo social. O segundo, embora atemporal, nos revela os traços de uma personalidade individual.

Ponte Ribeiro construiu reputação de trabalhador abnegado, de eficiente “fronteiro-mor”, para usar a expressão de Castilhos Goycochêa, na defesa dos interesses do Brasil, enquanto Guedes Pinto não deixou nome algum. Não poderia haver contraste mais marcante nos percursos dos dois diplomatas.

Curiosamente, essa diferença transparece em seus respectivos retratos. Estes simbolizam, assim, dois tipos de carreira diplomática divergentes, que existiram, existem e existirão. De um lado, o funcionário zeloso, estudioso, capaz, destinado pela chancelaria a postos difíceis e a duras tarefas necessárias. De outro, o hedonista acomodado a uma existência confortável e vazia, ali “onde as viagens são fáceis”.   

Este ensaio foi primeiro publicado em Estado da Arte, em 10 de dezembro de 2025

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Guerra, ontem e hoje

Guerra, ontem e hoje

Há uma guerra em curso. Na verdade, há mais de uma, como costuma acontecer. Mas você sabe a qual delas estou me referindo. E se acha que a violência atual no Oriente Médio e no Golfo Pérsico nada tem a ver conosco no Brasil, é melhor pensar de novo. É preciso avaliar as novidades no noticiário internacional e analisar seus múltiplos desdobramentos.  

Quando a terceira guerra mundial se iniciar, ninguém nos avisará. Não haverá uma declaração formal. Entenderemos aos poucos. O volume de mísseis disparados, navios afundados, cidades destruídas, tesouros artísticos arruinados, países envolvidos e, principalmente, vidas inocentes perdidas acabará por nos fazer compreender.

A Segunda Grande Guerra, em todo caso, esteve por estes dias muito presente para mim. Em janeiro, comprei no Rio um livro publicado em 2025, O tenente: Cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial, de que Celso Furtado (1920-2004) aparece como único autor. Rosa Freire d´Aguiar é responsável pela organização, a apresentação e as notas.

Revela-se aí a modéstia característica de Rosa Freire d´Aguiar. Embora a obra seja uma nova edição de um livro de Celso Furtado de 1946, De Nápoles a Paris: Contos da vida expedicionária, a concepção do volume lançado ano passado pela Companhia das Letras é da organizadora, que anexou a esse núcleo de contos quantidade de elementos iluminadores para a compreensão da obra. Há cartas do autor enviadas a parentes e amigos no Rio de Janeiro, enquanto esteve na Itália, e por ele recebidas no mesmo período. Há material sobre como a crítica recebeu os contos, quando foram lançados. Há textos avulsos do autor sobre o fascismo e sobre sua experiência como expedicionário.

Sobretudo, há uma verdadeira joia de apresentação por Rosa Freire d´Aguiar sobre o conjunto dos textos, contextualizando-os e explicando o momento histórico em que foram escritos. O grande economista brasileiro, então jovem de 24 anos, viajou para a Itália em fevereiro de 1945, “integrando o quinto, e último, escalão da Força Expedicionária Brasileira”. Viajavam no navio “General Meigs” cerca de 5 mil homens.

Rosa Freire d´Aguiar lembra que, por aquela época, Roma já estava libertada desde junho de 1944. A frente de batalha se situava então no rio Arno. Furtado foi enviado a Florença, de onde “comandou comboios para levar a tropa até a linha de frente”. Mais tarde, ele lembraria que, na guerra, não se morria apenas lutando, pois “os acidentes eram muitos”, por exemplo com minas.

Em setembro de 1945, o futuro ministro de estado e embaixador estava de volta ao Rio de Janeiro. Decidiu relatar suas impressões da guerra em forma de ficção e no ano seguinte publicava os contos. Falemos, justamente, desses contos.

Celso Furtado, como ficcionista, não possui a mesma densidade do autor de livros de pensamento econômico, notavelmente do clássico Formação econômica do Brasil, de 1959, que faz dele um dos grandes analistas da realidade brasileira. Seus contos não devem ser abordados na expectativa de que encontraremos um novo Machado de Assis, um novo Tchekhov. No entanto, não podem ser descartados. Literariamente, são satisfatórios: bem escritos e uniformes no estilo elegante, transmitem uma atmosfera própria.

São também perturbadores. Não somente porque o tema tratado é a guerra, mas porque se concentram sobre seus efeitos na vida cotidiana das pessoas, particularmente as mulheres.

Em vários contos, há um namoro ou uma atração emocional, física ou sensual entre algum soldado brasileiro e uma mulher italiana. De início, isso me pareceu um conceito excessivo, falar-se tanto de amor ou de sensualidade naquelas circunstâncias de combate e de reconstrução após a guerra. Depois, percebi que os textos revelam um padrão; em muitos casos, por causa da guerra as personagens femininas perderam família e bens. Tornaram-se desvalidas. É sobre o seu desespero que estamos lendo, essa é a tônica. O soldado estrangeiro é, em maior ou menor grau, um invasor. Pode porém parecer uma tábua de salvação. Em um dos melhores contos, “Terra prometida”, Mariucha, abandonada pelo namorado brasileiro, exclama: “Eu quero ir para o Brasil. É o meu sonho. Aqui não há futuro para mim”.

O conto mais intrigante é “Um intelectual em Florença”. Aborda uma questão já destrinchada por Henry James, a do americano — no caso, brasileiro — confrontado, na Europa, com as sutilezas das relações sociais e as tradições culturais de velhas famílias. Em uma recepção em um palacete florentino, Mário flerta com uma jovem aristocrata. Mas acredita perceber em si mesmo “a fragilidade da própria erudição, que se lhe afigurou como absolutamente postiça”,  pois não detém “os oito séculos de sedimentação que ele sentia nas paredes do castelo e no olhar das criaturas”. O protagonista discorre sobre Goethe, sobre Horácio. A jovem se volta para ele e opina: “Para vocês, o mundo e as coisas são simplesmente o mundo e as coisas. Vocês não têm a deformação monstruosa de oito séculos de tradição”. E aí, algo extraordinário acontece: ela explica Goethe e Horácio para Mário exatamente como ele acabara de fazer.

Em uma carta de abril de 1945, Celso Furtado prenuncia a apatia que hoje muitos parecem sentir diante de mais um conflito bélico: “Muito cedo nos acostumamos com as destruições”. A violência em repetição gera um sentimento de banalidade.

Em outra carta, escrita da Toscana na mesma época, comenta estar presenciando, como resultado da guerra, “a cabal decomposição de uma sociedade”, formada por “milhares de criaturas sem programa de vida, sem escala de valores, guiadas pelo medo que lhes traz o estado de insegurança. Camadas inteiras estão expostas aos ventos de qualquer ideologia, promessa ou utopia”. 

Li o volume editado por Rosa Freire d´Aguiar sob o impacto do bombardeio de uma escola primária no Irã. Um dos contos é sobre a morte de uma menina de seis anos, também vítima de um bombardeio.

Esse é um caso em que preferiríamos que o mundo não obedecesse tão fielmente à arte.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 16 de março

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas:

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Passeando pela Espanha

Passeando pela Espanha

Novos conflitos, temor de alguns de que seja iminente a terceira guerra mundial, revelações sobre a rede de contatos de alto nível de um predador de mulheres, crianças e adolescentes: há uma sinistra intensidade no noticiário internacional ao longo das últimas semanas.

Parece ter sido há uma eternidade a alegria trazida por Lucas Pinheiro Braathen ao obter a primeira medalha em Jogos Olímpicos de Inverno não só para o Brasil, mas para a América do Sul e a América Latina. Dói acompanhar os desabamentos e alagamentos que vêm causando mortes na Zona da Mata, terra da minha mãe e com a qual me identifico, particularmente em Juiz de Fora, onde moram tantos primos.

A rápida sucessão de novidades acelera o tempo. Foi ontem, em dezembro, que minha filha anunciou, em Bruxelas, que vai se casar. Foi no Natal que ouvi a missa em Lisboa com um belo e inquietante sermão sobre as relações internacionais. Foi em janeiro que comemorei com minha mulher, no Rio, nossos aniversários. Mas a sensação é de que esses acontecimentos recentes ocorreram há anos.

No turbilhão cotidiano de notícias, terá talvez passado despercebido o falecimento aos 92 anos, agora em fevereiro, do escritor neerlandês Cees Nooteboom. Retirei da estante um de seus livros, Caminhos para Santiago, de 1992. Reler sobre suas andanças pela Espanha, considerei, levaria a mente para longe dos problemas da atualidade.

Não é um livro leve. Nooteboom não era guia de turismo. Era um intelectual interessado pela história, a  filosofia, a religião católica, as artes. Lá vai ele, de carro, atravessando a Espanha de lado a lado. Delicia-se com a ideia de visitar, em algum distrito isolado e desabitado, uma igreja românica, pouco conhecida, de difícil acesso. Quando o livro parece prestes a se tornar excessivamente melancólico, surge um pensamento inesperado, estimulante, jogado em frase curta, trazendo uma revelação.

Zurbarán, pintor de sua predileção, é querido por ele sobretudo pelos retratos de santos, monges e mártires. Sobre os trajes das figuras representadas nesses quadros, Cees Nooteboom afirma ser possível “ver como o tecido era sentido no toque”. Conheço várias dessas pinturas de Zurbarán. Presentes em muitos museus, elas revelam, pelo ascetismo, uma grande espiritualidade. A obra do artista de que mais gosto, porém, eu só vi uma vez, no Museu Norton Simon, em Pasadena, há mais de vinte anos: é a “Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa”, cuja reprodução em um livro me impressionava desde a infância, como conto em Geografia do tempo. Conhecer o original concretizou uma ambição de décadas.

Nooteboom nos fala de disputas entre príncipes irmãos no início da Idade Média; da ditadura franquista; de mortes atribuídas ao ETA, o grupo separatista basco; da bandidagem de Francisco Pizarro no Império Inca, de sua generosidade com Atahualpa, ao permitir que este morresse estrangulado, em vez de queimado na fogueira. Lembrei-me de uma frase de Voltaire: “todos os séculos se parecem pela maldade dos homens”.

Com o livro na mão, perguntei-me se fora uma boa ideia utilizá-lo como descanso da violência contemporânea. Encontrei nele próprio resposta à minha indagação. Nooteboom estava na Espanha quando, em 1986, morreu Jorge Luis Borges. Ele comenta que, durante a Segunda Guerra Mundial, em vez de acompanhar os jornais para saber como evoluía aquele conflito, Borges optou por ler Tácito e sua descrição de “uma guerra diferente, mais antiga”.

Velázquez é outro objeto da admiração do escritor, que examina ora seus últimos retratos de Felipe IV, ora um da rainha Mariana d´Áustria, ora Las Meninas, onde o personagem central é a filha desse casal de tio e sobrinha. Nooteboom registra o ar de fatalidade que emana, nessas telas, de Felipe IV no final de seu reinado, quando a Espanha cedera a primazia à França, perdera Portugal, e a quantidade de casamentos endogâmicos, para não dizer incestuosos, fazia pressentir o próximo fim da dinastia. Das crianças reais dependiam, ele aponta, “expansões territoriais, alianças, vastas extensões de terras” e “o destino de continentes”. Esperava-se “de seus corpos adolescentes que produzissem herdeiros do trono”. Eram “gado de pedigree a serviço do Estado”.

Esses são os pensamentos despertados no autor pelo retrato hierático da jovem Mariana, de ar infeliz, rainha desde que, aos quatorze anos, fora enviada da Áustria à Espanha para se casar com o tio trinta anos mais velho. Nooteboom se insere assim, de maneira heterodoxa, em uma tradição de estudo sobre a representação da realeza. Dois dias antes de eu puxar seu livro da prateleira, tornara-se imediatamente famosa a fotografia do irmão do rei da Inglaterra sendo retirado, no banco de trás de um automóvel, da delegacia de polícia onde fora interrogado por dez horas sobre sua relação com o predador no centro de uma rede internacional de influência econômica e poder político.

Pensei se a foto, de início mero registro documental, não se tornaria com o tempo uma espécie de obra de arte, vetora de uma nova visão da realeza; uma sucessora a repudiar seus antecedentes, aquelas esculturas e pinturas mostrando-nos versões idealizadas dos faraós egípcios, de Alexandre Magno, de Augusto, de Luís XIV. No dia seguinte, obtive a confirmação. Ativistas haviam afixado a imagem, emoldurada, a uma parede do Louvre, sacrossanto repositório da iconografia do poder.

Procurei a resenha publicada no Book World, suplemento literário, extinto este mês, do Washington Post que, em 1997, me fizera comprar o livro de Cees Nooteboom. Uma surpresa me esperava. Seu autor é Colm Tóibín, de quem eu acabara de ler, na véspera, o romance sobre Henry James. Havia algo natural nessa coincidência. A maldade dos homens é, na história do mundo, o dado seguro, o fator sempre presente. E no entanto, também é verdade que a arte e a literatura oferecem um contraponto constante, tornando a vida menos incompreensível.

Iluminam, de alguma forma, a escuridão.

Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 28 de fevereiro

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas:

Fantasia de Carnaval, em 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, em 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

As pedras do Louvre , 25 de outubro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Missa em Lisboa

Missa em Lisboa

Em Lisboa, no domingo 28 de dezembro, ouvi, no cenário mais improvável, uma análise sobre política internacional. Nesse dia, minha mulher e eu acompanhamos minha mãe à sua igreja preferida na capital portuguesa, no Chiado. Fomos à missa do meio-dia. Minha mãe nos prevenira que a frequentação é elegante. O comentário era destinado a mim, como uma mensagem codificada, porque ela sabe que ambientes excessivamente sociais me causam tédio. Podia ser tomado como uma recomendação, ou advertência, se quisermos, de que eu fosse tolerante e paciente e me comportasse bem. Mães são assim, nunca nos veem como adultos.

A observação materna permitiu que eu me preparasse com antecedência. De resto, este Natal foi particularmente reflexivo para mim, pois acompanhou-me o sentimento da incongruência entre a abundância e as trocas de presentes características da estação, para alguns, e a celebração do nascimento de alguém que viveu sem qualquer conforto material e foi morto de maneira tão cruel.

O domingo de inverno estava ensolarado, não havia no céu uma nuvem sequer, contrastando com o frio e as chuvas da véspera. A igreja lotou rapidamente. A atmosfera era de contemplação. Ali reinava o espírito religioso, não o desejo de ser visto. Há muitos anos eu não entrava naquele recinto lisboeta que foi, no passado, cômodo para mim, já que minha irmã morou durante décadas ali perto. Em termos arquitetônicos, é um belo exemplo de templo em estilo neoclássico, ainda com elementos barrocos, de fachada relativamente simples e interior marmóreo e imponente. A pintura no teto da nave representa a Anunciação.  

O sermão pegou-me de surpresa. De início, tudo pareceu transcorrer placidamente, dentro de parâmetros previsíveis e edificantes. Houve primeiro referência a uma família presente, na qual o pai e a mãe estavam comemorando cinquenta anos de casados. Perguntei-me se eu viveria tempo suficiente para comemorar o mesmo aniversário. A seguir, o Evangelho a que recorreu o padre como inspiração foi o de Mateus. Narrou a fuga para o Egito. Mencionou a maldade de Herodes, a sua soberba. Explicou como devem ser vistos Maria, José e o Menino Jesus no contexto da viagem ao Egito. Sem usar esta palavra, fez seu auditório pensar em refugiados. E então, mudando a entonação de voz, o padre causou um sobressalto. Declarou: “Eu não deveria, talvez, abordar temas políticos, mas não posso evitá-lo. Fico com o estômago embrulhado ao ver as coisas que acontecem hoje”. Os fiéis ouviam-no atentamente. Ao menos minha mulher, minha mãe e eu, com nosso interesse profissional despertado. Mas certamente não apenas nós. Havia na igreja, entre os ouvintes, como um silêncio de expectativa, bastante perceptível.

Continuou o padre o seu sermão: “Se não leram o recente documento americano de Estratégia de Segurança Nacional, recomendo que o façam. A Europa ocupa três páginas das trinta do texto. Somos chamados ali a implementar uma política de exclusão, em vez de uma política de inclusão. É a negação do espírito cristão que estão a nos exigir. Jesus não pregava o repúdio ao que é estrangeiro a nós”. Apenas a voz do pregador ressoava e, ocasionalmente, abafado, algum ruído de buzina ou motor vindo da rua. As palavras que nos chegavam de perto do altar-mor eram enunciadas em tom calmo, mas firme, seguro. Não havia drama nem teatralidade. Por isso mesmo, era uma oratória que capturava a atenção dos fiéis. Atento ao sermão, com o corpo dobrado para a frente de forma a ouvir melhor, permiti-me olhar à minha volta. Ninguém parecia surpreso ou desagradado. Afinal, se aquela numerosa congregação vai à missa naquela igreja e naquele horário é porque aprecia os sermões daquele padre.

Deduzi que um pároco com tamanha habilidade é bem capaz de promover conversões ou despertar vocações religiosas. Em todo caso, sua segurança e serenidade, a própria modéstia com que conduzia a missa estariam promovendo na plateia reflexões sobre temas de política externa a que muitos ali talvez fossem alheios no dia a dia. A voz continuava. Condenou a guerra na Palestina e a guerra na Ucrânia. Lembrou que Jesus gosta dos humildes, dos desvalidos, não necessariamente dos poderosos.

Depositei um bilhete no saquinho, durante a coleta. Ofereci o braço à minha mãe para que comungasse. Cumprimentamos o padre à porta da igreja. O dia continuava ensolarado e, ao nosso redor, na rua, a vida prosseguia, com os transeuntes bem agasalhados agitando-se em seus afazeres, felizes. Os frequentadores habituais daquela igreja se cumprimentavam afetuosamente na calçada. Tinham sabido guardar a sociabilidade para os momentos após a missa. Caminhamos os três em direção ao restaurante, ali mesmo no Chiado, onde minha irmã juntou-se a nós.

A internet, tantas vezes utilizada para ataques entre as pessoas, revelou-se uma vez mais, para mim, um instrumento educativo. Quis saber o nome do padre cujo sermão me surpreendera pelo conteúdo e me impressionara pelo calor humano. Levei apenas um ou dois minutos para colher a informação. Trata-se de um religioso conhecido pela intelectualidade, autor de livros e artigos. Notei que outro padre na mesma paróquia é, curiosamente, um primo distante pelo meu lado paterno.

O almoço foi delicioso, na pequena sala bem aquecida. Dava gosto estar ali. Bem mais tarde, à noite, três de nós embarcaríamos em um mesmo voo.

O Natal, os últimos dias de dezembro e a virada do ano formam sempre esse momento abençoado, fugaz mas tão belo, em que a humanidade parece apta a viver em paz. Passeando com minha mulher pelo Chiado, pela Baixa, pela Praça do Comércio, onde o sol, aquecendo-nos, ainda tudo iluminava, olhando as gaivotas sobrevoando o Tejo, caminhando depois ao longo do rio, íamos os dois conversando sobre a beleza de viver, de estar juntos ali, intercambiando sonhos simples para 2026.

E é o que desejo também para vocês, caros leitores e leitoras, um Feliz Ano Novo.  

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 3 de janeiro

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

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O embaixador decapitado, 2 de agosto

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As pedras do Louvre

As pedras do Louvre

O roubo espetacular ocorrido no museu do Louvre no domingo 19 de outubro chama a atenção do mundo inteiro. Vejo várias razões para isso, a principal sendo que ele representa todos os seus pares. É o museu por excelência: o mais famoso, o maior em termos de espaço de exposição e o que mais visitantes recebe — nove milhões em 2024.

O filme Francofonia, de 2015, do diretor russo Aleksandr Sokurov, é uma divagação sobre o papel e a função dos museus. Muito naturalmente, é o Louvre o modelo utilizado. Sugere Sokurov, a meu ver corretamente, que o Louvre é o símbolo não somente de todos os museus, mas também da França em si. Não entendo o sentido do ditado “ir a Roma e não ver o papa”, pois já estive muitas vezes em Roma e nunca vi papa algum. Mas entenderia um ditado que soasse como “ir a Paris e não ver a Mona Lisa”, entendendo-se a Mona Lisa, aqui, como uma marca que englobaria o Louvre e ao mesmo tempo seus múltiplos tesouros, como o Escriba Sentado; a cabeça de Akhenaton; a Vênus de Milo; a Vitória de Samotrácia; o busto de Germânico — há mais de um nas salas romanas, eu tenho o meu predileto; o Escravo Morrendo, esculpido por Michelangelo; a Coroação de Napoleão por David; e todas as obras-primas das diferentes escolas de pintura.

Antigamente, décadas atrás, quando por exemplo eu era aluno universitário na London School of Economics, seria impensável eu ir de Londres a Paris, mesmo que apenas para o fim de semana, e não dar um pulo até o palácio-museu, para rever ao menos algumas das minhas peças prediletas. Hoje, visitá-lo tornou-se tarefa árdua, demonstração de persistência e resiliência. Já lá não vou há alguns anos. A fila de espera é longa e o museu, tentacular. Encontrar as obras de arte que procuramos é um exercício físico exaustivo e, às vezes, desesperador. Fiquei mais velho, mais sereno, menos influenciável esteticamente e o prazer de rever aquelas obras já é menos significativo, comparado ao esforço envolvido. Em 2019, escrevi uma crônica, A culpa foi da Mona Lisa, contando minha frustração ao não conseguir chegar até a galeria onde são exibidas pinturas do Rubens, porque a tela de Leonardo da Vinci que retrata, como eu dizia, “a florentina do sorriso misterioso”, estava temporariamente exposta ali, atraindo a multidão de sempre e criando caos.

Outra razão para o fascínio do público com o roubo é, certamente, o fato de que são joias os objetos roubados. É inexistente minha sensibilidade para joias. Vejo-as como um amálgama de pedras coloridas, sem valor intrínseco a não ser aquele a elas atribuído, ilogicamente, pelas pessoas em geral. Da mesma forma, a realeza sobrevive em alguns países pela esdrúxula crença de alguns de que determinada família seria, magicamente, superior e merecedora de preservar um privilégio hereditário.

A proveniência das joias roubadas e o local onde eram expostas contribuem para o interesse sobre o roubo de 19 de outubro. Pertenceram a Maria Luisa da Áustria, segunda mulher de Napoleão I e irmã querida da imperatriz Leopoldina; a Eugenia de Montijo, mulher de Napoleão III, último soberano que a França teve; e a Maria Amélia de Bourbon-Sicílias, mulher do rei Luís Filipe e tia da imperatriz Teresa Cristina. A combinação entre joias caras e origem real cria um elemento de fascínio popular. Quanto ao local de onde os objetos foram subtraídos, a Galerie d´Apollon, renovada no século XVII, é talvez o espaço mais luxuoso do museu. Seu arquiteto foi Louis Le Vau e o teto é, em parte, de autoria do pintor Charles Le Brun. Ambos trabalharam no Palácio de Versalhes. Duzentos anos depois, Delacroix contribuiu com uma das pinturas no teto.

Em Geografia do tempo (2024), no qual o Louvre é bem presente, menciono um pesadelo de Henry James a respeito da Galerie d´Apollon, em que era vítima de uma perseguição, na galeria, por “uma criatura, uma presença”. Como digo no meu livro, “o pesadelo, descrito em detalhe pelo escritor, é maçante, como costumam ser os sonhos alheios, mas tornou-se célebre, por pertencer a Henry James e por ter a Galerie d´Apollon como palco”.

A galeria, agora, virou cenário de um pesadelo bem real, em que as deficiências de segurança do palácio-museu ficaram escancaradas, apesar das declarações em contrário da ministra da Cultura, Rachida Dati. Ao defender o museu, tenta preservar a imagem do ministério que chefia, e também a sua própria. É candidata, como política de direita, à prefeitura de Paris, nas eleições municipais de março de 2026, para suceder à atual prefeita, de esquerda, Anne Hidalgo. A arguição no Senado da diretora do Louvre, Laurence des Cars, em 22 de outubro, demonstrou o alto grau de politização em torno às percepções sobre o roubo.

Fora o aspecto histórico, as joias roubadas valeriam 88 milhões de euros. Os ladrões certamente desmontarão as peças formadas pelas pedras coloridas, que serão vendidas de maneira individual. A não ser que a polícia consiga rapidamente prender os Arsène Lupin de carne e osso, os objetos de vaidade de duas imperatrizes e de uma rainha, os símbolos de um luxo ostentatório se perderão para sempre. Paradoxalmente, essas joias adquirirão a partir de agora um aspecto mítico, como o célebre e também desmontado “colar da rainha”, que Maria Antonieta nunca possuiu, nunca desejou, desprezou mesmo, mas que contribuiu para desonrá-la.

O detalhe pitoresco é a coroa da imperatriz Eugenia ter sido abandonada na rua pelos ladrões. Acharam-na pesada? Difícil de desmontar? De mau gosto? Leio que ela é constituída por 1.354 diamantes e 56 esmeraldas. É muita pedrinha.

A Galerie d´Apollon, local do crime, como a fotografei há alguns anos. Por uma das janelas do lado esquerdo entraram os ladrões

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 25 de outubro.

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O delírio do Chimborazo, 13 de setembro

O diplomata robô, 30 de agosto

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Botas diplomáticas

Botas diplomáticas

Coluna publicada no jornal Estado de Minas no domingo 17 de agosto.

A notícia de que o governo do Catar estaria doando um Boeing 747 para servir de novo  Air Force One para o presidente dos Estados Unidos gera discussões sobre a conveniência de que o presente seja aceito. O debate me fez tirar da estante o livro de um diplomata britânico, Paul Brummell, publicado em 2022, Presentes diplomáticos.

Ali são analisados, de forma espirituosa, cinquenta presentes — da Estátua da Liberdade a cisnes, queijos, louças e pinturas — trocados ao longo da História entre países, povos ou chefes de Estado, e a mensagem que procuraram transmitir. Brummell insere cada objeto em seu contexto histórico e cultural e aponta aspectos sociológicos do ato de presentear. Cita várias vezes o sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, por conta da sua obra clássica, Ensaio sobre o Dom, de 1925. O livro Estruturas da vida social, do antropólogo americano Alan Fiske, em que os relacionamentos humanos são divididos em quatro tipos, foi também uma fonte para a visão de Brummell.

Tanto a introdução quanto a conclusão mencionam anedotas pitorescas. Só isso já indicaria ser o autor um diplomata, pois diplomatas adoram contar anedotas, embora raramente o façam de maneira tão inteligente, instruída e engraçada como Brummell. Lemos sobre o filhote de camelo que François Hollande, então presidente da França, recebeu do governo do Mali em 2013, quando visitava o país. Seus assessores deixaram o animal com uma família em Tombuctu, até que providências fossem tomadas para transportá-lo à França. Por um erro de compreensão, o filhote “serviu de ingrediente principal para um tagine particularmente delicioso”.

Os dois pandas presenteados pela China ao Japão, em 1972, foram um exemplo daquilo que, criança, aprendi chamar-se “diplomacia do panda”. Quando minha família e eu fomos morar em Washington, em 1994, pudemos ainda conhecer Hsing-Hsing, sobrevivente do célebre casal doado, também em 1972, aos Estados Unidos. Ling-Ling morrera em 1992. Durante muitos anos, nos diz Brummell, pandas serviram de presente excepcionalmente prestigioso, para a China e para o país destinatário: raro e encantador, e por essas razões admirado no exterior, o animal é exclusivamente chinês, servindo de cartão postal para o país.

Animais são numerosos entre os presentes analisados no livro. Em 1514, D. Manuel, o Venturoso, destinatário da Carta de Pero Vaz de Caminha, enviou um elefante indiano ao Papa Leão X. Ao contrário dos pandas em relação à China, o elefante não simboliza Portugal. O objetivo do rei era demonstrar a expansão territorial de Portugal em outros continentes, o seu poderio marítimo. Leão X, membro hedonístico da família dos Médicis, adorou o elefante, que morreria dois anos depois em Roma.

É notável o capítulo sobre os Três Reis Magos, sua viagem para conhecer o Menino Jesus e os presentes que levaram. O tema, mencionado apenas em um parágrafo do Evangelho segundo Mateus — que não nos fornece seus nomes, não diz que eram reis e nem sequer que eram três —, foi ao longo dos séculos adquirindo importância cultural e religiosa. Contida na história dos presentes oferecidos pelos magos, há a menção a outra doação, a dos seus ossos ao arcebispo de Colônia em 1162. Na catedral daquela cidade, um relicário medieval, dourado, contém teoricamente os restos mortais de Melchior, Baltasar e Gaspar. A narrativa de Brummell, cativante, me fez sentir pena, por um momento, de não poder me deslocar imediatamente a Colônia e rever o relicário.

Há dois capítulos envolvendo diamantes. No primeiro, o xá da Pérsia envia seu neto a São Petersburgo, em 1829, para se fazer perdoar pelo massacre, por uma multidão, dos funcionários da Embaixada da Rússia em Teerã, incluindo o embaixador, Aleksandr Griboiedov. A figura de Griboiedov, cujo cadáver desfigurado e decapitado representa os riscos da vida diplomática, me interessa há muitos anos. Também escritor, ele hoje é lembrado como autor de uma peça de teatro. Brummell nos conta que a missão persa entregou ao tsar Nicolau I um diamante, exemplo de “presente oferecido para pedir desculpas e evitar penalidade”.

A outra história refere-se a muitos diamantes, aqueles recebidos pelo presidente da França Valéry Giscard d´Estaing de Jean-Bédel Bokassa, presidente e depois imperador centro-africano. L´affaire des diamants estará para sempre ligada ao nome do presidente francês e contribuiu para que fracassasse sua tentativa de reeleição, em 1979.

Severo com Giscard d´Estaing, Brummell evita tratar de jóias ligadas à monarquia inglesa. Fernando Morais, em “Chatô, o rei do Brasil” lembra como, em 1953, Assis Chateaubriand — fundador dos Diários Associados — escolheu, sem consultá-los, “oito felizardos” para que se cotizassem e pagassem, como presente de coroação brasileiro a Elizabeth II, “um conjunto de colar e brincos de águas-marinhas e brilhantes”. A rainha da Inglaterra, uma das mulheres mais ricas do mundo, aceitou o luxuoso conjunto, entregue em nome do povo de um país mais pobre. Usou o colar e os brincos frequentemente. Ainda hoje, de vez em quando, surgem notícias na imprensa sobre jóias doadas por potentados árabes a membros da família real britânica.          

Brummell nos conta haver razões culturais e religiosas — entre elas “a tradição islâmica de presentear generosamente” — para que dons diplomáticos de valor material elevado venham agora sobretudo de países do Oriente Médio.

Em 2008, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, ofereceu ao presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, um par de botas da marca R. M. Williams. Símbolo australiano, as botas seriam “objetos desejáveis, mas não excessivamente caros”. Peças de vestuário, indicariam “uma relação amistosa entre os dois líderes”. Presenteadas a um governante estrangeiro, ajudariam a promover a marca e as exportações do produto. De todos os dons descritos no livro, talvez sejam, entre os mais recentes, o mais útil e o mais hábil.  

Fotografei o mural dos elefantes em Kuala Kangsar, capital real de Perak, na Malásia

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O embaixador decapitado, 2 de agosto

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O embaixador decapitado

O embaixador decapitado

Um telefonema a Kuala Lumpur, semana passada, me fez viajar no tempo ao dia em que vi o embaixador decapitado.

Preparando um ensaio sobre o Museu de Artes Islâmicas da capital malásia, há quatro anos, acolhi a sugestão de seu fundador e diretor, Syed Mohamad Albukhary, de visitar o depósito no subsolo do edifício. Por falta de espaço nas salas, ali é guardada a coleção de arte orientalista: pinturas de artistas ocidentais, em geral do século XIX, representando locais e personagens de Turquia, Oriente Médio e norte da África.

A diretora de coleções do museu, Rekha Verma, mostrou-me as obras. De repente, a revelação. Vi-me frente a um quadro famoso que eu não sabia pertencer àquele acervo. Poucos dias antes eu lera alguns parágrafos sobre ele no livro de memórias da artista que o pintara. A coincidência me surpreendeu.

Mais impressionante, porém, era o quadro em si. É um retrato em pé, grande, majestoso, de Muhammad Dervish Khan, enviado em 1788 à corte francesa por Sultão Tipu, soberano de Mysore, na Índia. O nome em português é Maiçor. Castro Alves, em “Vozes d´África” e “Jesuítas”, usa Misora, que soa mais bonito. Sultão Tipu, cujo apelido era Tigre de Mysore, representou o último esforço nativo de resistir ao avanço da Companhia das Índias Orientais britânica no subcontinente indiano. Seu objetivo, com o envio da missão, era obter o apoio militar da França contra a expansão inglesa. 

Dervish Khan, acompanhado de dois outros embaixadores, Akbar Ali Khan e Mohammad Osman Khan, e uma comitiva de cerca de quarenta pessoas, embarcou em julho de 1787. O navio aportou em Toulon em junho de 1788. Em julho, os embaixadores chegavam a Paris. Por onde iam, os enviados do Tigre de Mysore causavam sensação. As Memórias de um pajem de Luís XVI, o conde d´Hézecques, ecoam o impacto gerado pelos indianos: “eles despertaram fortemente a atenção de toda a França”. Para os franceses da época, viajantes indianos ou mesmo de qualquer lugar da Ásia representavam uma raridade.

A audiência pública com Luís XVI em Versalhes aconteceu em 10 de agosto. Félix d´Hézecques nos diz que havia multidões no palácio nesse dia. Então representante dos Estados Unidos em Paris, Thomas Jefferson, testemunha da cerimônia, escreveu ao Secretário de Estado, John Jay: “Os embaixadores de Sultão Tipu foram recebidos hoje em Versalhes, com uma pompa inusual. As pessoas presentes eram tão numerosas que pouco se podia captar do diálogo com o rei. Pelo pouco que pude escutar, houve apenas promessas mútuas de boa vontade”.

E assim foi. Os emissários de Sultão Tipu chegavam à França em momento inoportuno. Cinco anos antes, em 1783, a Paz de Paris pusera fim à Guerra de Independência dos Estados Unidos, onerosa para a França, aliada dos americanos. Dificilmente poderia Luís XVI, com as finanças francesas em situação calamitosa, envolver-se em novo conflito com a Inglaterra. Noto que apenas dois dias antes da recepção dos enviados indianos em Versalhes, o rei anunciara que a reunião dos Estados Gerais, ideia lançada em 1787 para se concretizar em 1792, aconteceria em maio de 1789. Acabara de ser dado o pontapé inicial no processo que desembocaria na Revolução. Em onze meses, a Bastilha seria tomada. Os embaixadores de Sultão Tipu, assim, ocasionaram e ao mesmo tempo presenciaram um dos últimos momentos faustosos do Ancien Régime.

Foi Élisabeth Vigée Lebrun quem pintou o retrato de Dervish Khan que encontrei no subsolo do museu em Kuala Lumpur. Retratista habitual de Maria Antonieta, a quem provavelmente embelezava na tela, a artista é em parte responsável, hoje, pelo sentimento de empatia despertado no observador pela rainha guilhotinada. Em suas Memórias, Madame Vigée Lebrun nos conta como foi sua interação com os enviados de Mysore. Ela os viu na Ópera e achou-os “extraordinariamente pitorescos”. Sua decisão de pintá-los provocou situações rocambolescas. Fez, além do retrato de Dervish Khan, o de Osman Khan, mas esse se perdeu.

Ao regressarem a Mysore, onde chegaram em maio de 1789, os enviados se depararam com a enorme contrariedade do soberano diante do seu fracasso. A mais antiga fonte impressa a respeito da missão que pude acessar é um livro de 1801 sobre o reino de Mysore. Seu autor, o historiador francês Joseph-François Michaud afirma, sem citar a origem da informação, que Sultão Tipu se irritou não só com o insucesso do pedido de ajuda militar contra os ingleses, mas também com os continuados elogios à França feitos pelos seus enviados: “ele não gostava de ouvir que havia uma monarquia mais rica e mais florescente do que a sua”. Michaud relata que, um dia, passeando de maneira afastada com dois dos embaixadores, “ele mandou matá-los”. É frequentemente repetida a asserção de que Dervish Khan e seus companheiros foram decapitados.

Dez anos depois, em 1799, a capital de Sultão Tipu, Seringapatam, foi conquistada e saqueada pelos britânicos. Ele próprio aí morreu, em combate, vítima da transformação da Companha das Índias Orientais, como diz o historiador William Dalrymple em seu livro The Anarchy, de corporação comercial convencional, que negociava sedas e especiarias, em um “poder colonial agressivo”. 

No telefonema da semana passada, soube por Rekha Verma que em agosto abrirá no museu em Kuala Lumpur uma exposição sobre o Tigre de Mysore. A iniciativa pareceu-me tempestiva, em um contexto em que questões comerciais são novamente usadas como arma política, agora por meio de tarifaços.

O retrato de Dervish Khan estará exposto. Saindo do subsolo onde é preservado, envolto na lenda que o acompanha, ilustrará para o público a miragem e os riscos de toda missão diplomática.   

  

@Islamic Arts Museum Malaysia

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 2 de agosto.

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O espaço do diplomata, 19 de julho

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Eterna cobiça, 29 de março

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Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

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O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro  

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O espaço do diplomata

O espaço do diplomata

Recebi o convite em janeiro. O Festival de Arquitetura de Singapura, evento anual patrocinado pelo Singapore Institute of Architects, queria que eu fizesse uma apresentação sobre Roberto Burle Marx. Hesitei. O Festival seria em junho, quando eu já não estaria na Malásia mas em Angola, longe do Sudeste Asiático. O Festival insistiu. Pensei que eu não deveria deixar passar uma nova oportunidade de divulgar o nome do grande paisagista brasileiro. Aceitei.

Em uma coluna nestas páginas publicada em fevereiro, “Da Pampulha para Kuala Lumpur”, falei do jardim projetado por Burle Marx na capital malásia e do livro Um brasileiro em Kuala Lumpur: Roberto Burle Marx e o Parque KLCC. Resultado particularmente tangível do meu trabalho como embaixador na Malásia, o livro serviu ao meu propósito de tornar o Brasil e seus maiores talentos mais conhecidos naquele país.

Cada edição do Festival de Arquitetura de Singapura é organizada por um arquiteto diferente. Este ano, a tarefa coube a Rene Tan, cujo estúdio é responsável pelo conjunto residencial que considero o mais espetacular de Kuala Lumpur, o Fennel, com o qual ganhou vários prêmios internacionais.

Seminários de três dias, com multiplicidade de palestras, mesas-redondas e estandes são como a batalha de Waterloo na forma descrita por Stendhal em A Cartuxa de Parma. Muita coisa acontece ao mesmo tempo, em diferentes lugares, e captamos somente aquilo que está ao alcance mais imediato do olhar. Apenas Rene Tan, que durante três dias circulou incessantemente de um lado a outro, terá podido avaliar o resultado final do Festival. Para os palestrantes, restava o privilégio de estar ali, no Centro de Convenções do icônico Marina Bay Sands, símbolo arquitetônico de Singapura por excelência. 

No painel de que participei, Alexander Wong, de Hong Kong, que eu já conhecia, expôs sua atividade como projetista de salas de cinema na China, com desenho futurista arrojado, em trabalhos amplamente elogiados pela imprensa ocidental. Em outro painel, o indiano Ambrish Arora explicou como, ao criar um hotel em Jodhpur, no Rajastão, na base da montanha onde sobressai o Forte de Mehrangarh, edificado entre os séculos XV e XVII, levou em conta a necessidade de não destoar da arquitetura histórica dos arredores mas evitar, ao mesmo tempo, um pastiche. No dia seguinte, no café da manhã no hotel, descobriríamos uma amizade em comum, André Corrêa do Lago, presidente da COP30 e membro do júri do Prêmio Pritzker.

Renata Furlanetto incluíra em sua fala uma foto do Palácio do Itamaraty, com o jardim aquático em evidência, idêntica a uma imagem que eu mostraria mais tarde em minha apresentação. Apontei não ser coincidência os dois brasileiros presentes no Festival exibirem um prédio que é, na conjunção da arquitetura de Oscar Niemeyer e do paisagismo de Burle Marx, um marco do modernismo brasileiro. Mostrar e ver em Singapura a sede da diplomacia brasileira, neste momento de tensões e incertezas geopolíticas, trouxe-me reconforto. A sua própria solidez parecia uma garantia de continuidade e equilíbrio.

Teria gostado de assistir a mais palestras no Festival. Perdi a de uma grande estrela, o japonês Riken Yamamoto, ganhador do Pritzker em 2024. Jantando com alguns dos participantes, conversei com o austríaco Dietmar Eberle. Sediado em Bregenz, ele me explicou que o grau de prosperidade da sua região geográfica é exemplificado pelo número elevado de museus de arte contemporânea ali abrigados. Por esse cálculo, os milionários brasileiros precisam ainda desenvolver a filantropia na área da museografia — e em tantas outras —, mas minha primeira reação foi pensar no fato extraordinário de Inhotim existir no Brasil.

Ao final do painel de que eu participava, o moderador, Calvin Chua, retomando o tema do Festival este ano, “Não pense (apenas) como um arquiteto”, perguntou o que nós, os quatro debatedores, sugeriríamos ao público como forma de pensar. Ofereci que pensassem como um diplomata. O diplomata um dia edita um livro sobre Burle Marx, no outro negocia um acordo internacional, mas seu objetivo final não varia ao procurar sempre promover a conciliação entre interesses por vezes distintos. Precisa, idealmente, desenvolver uma atitude serena, paciente, zen, no fundo bastante asiática, se quisermos usar um clichê. Seria útil para todo mundo cultivar um temperamento assim no dia a dia.

Uma pergunta da plateia sondou como lidar com o conceito de espaço. Melhor indagação impossível, em um festival de arquitetura. Decidi responder falando do espaço a ser almejado pelo diplomata. A questão que se coloca para mim, ao trabalhar no exterior, é como me inserir na sociedade local para influenciá-la em favor do Brasil. A defesa dos interesses e da imagem do seu país constitui, por definição, o espaço do diplomata. É no cumprimento desse dever, e não na expectativa de reconhecimento, que encontramos o propósito e a gratificação da vida profissional.

A palestra em Singapura permitiu-me incluir curtas estadas, na ida e na volta, em Kuala Lumpur. Foi maravilhoso rever amigos nas duas cidades, nessa intensa viagem de uma semana. No último dia, uma jornalista malásia me perguntou se voltar ao Sudeste Asiático, de onde eu partira em fevereiro, me causava nostalgia. Respondi com sinceridade que não. Meus cinco anos em Kuala Lumpur foram perfeitamente felizes. Voltar menos de cinco meses depois proporcionara momentos mágicos. Mais importante do que o espaço exterior, contudo, é o espaço interno.

Esse começa vazio, enorme, infinito. Gradualmente, como pedras ou tijolos em uma construção física, família, amigos, lugares, livros, obras de arte, o tempo e a memória vão construindo um edifício. Onde eu estiver, ele sobrevive, continuamente acrescentando andares, mais sólido do que qualquer arranha-céu, casa ou gabinete.

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 19 de julho.

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Cenários do poder

Cenários do poder

Como nos lembra o historiador Thierry Sarmant no livro que publicou este ano, História dos palácios: o poder e sua encenação na França, do século V ao XXI, os locais onde vivem e trabalham os governantes sofrem constantes evoluções.

Há poucos meses, o presidente da França abriu as portas do Palácio do Élysée à cadeia norte-americana de notícias CNN. Entre os temas de que tratou com o jornalista Richard Quest estiveram inteligência artificial, Gaza, sua ambição por uma maior independência estratégica da União Europeia e a guerra na Ucrânia. Pouco pressionado pelo entrevistador, Emmanuel Macron transformou a ocasião em um monólogo, em um inglês fluente mas com sotaque.

Ao final da conversa, exibiu algumas salas do Élysée. Comentaristas franceses apontaram a raridade do tour assim proporcionado pelo presidente. Nas imagens que registram a visita nota-se o contraste entre de um lado obras de arte e peças de mobiliário contemporâneas, de outro móveis do século XVIII e entalhes dourados nas paredes do edifício, construído a partir de 1722 para um membro da alta nobreza.

No Salão Cleópatra, a tapeçaria mostrando o encontro entre Marco Antonio e a rainha egípcia, que empresta seu nome ao aposento, foi retirada. Em seu lugar, pendurou-se uma obra recente e estridente. No Salão Pompadour está exposta outra tapeçaria, “Mulher no espelho”, baseada em uma litogravura de Joan Miró. Minha peça predileta é uma escultura em mármore e bronze por Arman, “Tributo à Revolução de 1789”, encomendada por François Mitterrand para celebrar o bicentenário da Revolução. Colocada no vestíbulo, é a primeira visão que os visitantes ilustres recebem do interior do palácio.

Sobram hoje poucos vestígios dos locais de residência dos reis Merovíngios. Sarmant entende, no entanto, que as jóias e os móveis luxuosos que sobreviveram — como o trono de Dagoberto, que uma vez vi em uma exposição em Veneza — permitem pensar que aqueles soberanos do início da Idade Média viviam de maneira menos rústica do que imaginamos. Já dos Carolíngios restam ainda prédios, embora o mais famoso deles, a Capela Palatina em Aix-la-Chapelle, ou Aachen, esteja situado no que é hoje território da Alemanha. A partir dos Capetos, Paris gradualmente se impõe como capital, e vários castelos dos monarcas, na cidade principal ou perto dela — o Palais de la Cité, o Louvre, Vincennes, Fontainebleau, Saint-Germain-en-Laye — passam a ter perenidade, embora sofram importantes mutações com o tempo. Nos últimos cem anos da monarquia absolutista, Versalhes passa a ser, como sabemos, a residência preponderante.

Sarmant nos mostra como o Elysée, casa e escritório do presidente da República Francesa desde a década de 1870, excluindo-se o período da II Grande Guerra, marcado pela ocupação alemã, é modificado pelos titulares do cargo. Em geral, os presidentes preferem mobília Luís XV ou Luís XVI. Georges e Claude Pompidou, assim como Emmanuel e Brigitte Macron, são exceções, e optaram por artistas e projetistas modernos.

Uma moral que extraí da leitura de Histoire des palais é a transitoriedade até mesmo do poder aparentemente mais sólido. O gradual fortalecimento, ao longo de 800 anos, com sobressaltos, dos Capetos e seus ramos Valois e Bourbon, que resultou na unificação territorial da França e no absolutismo, é eliminado em um par de anos, entre 1789 e 1792. Edificados durante séculos, os palácios da dinastia são rapidamente apropriados por novos governantes, sobretudo aqueles situados em Paris e seu entorno. Versalhes, com sua excessiva carga simbólica, é a exceção.

O Palácio das Tulherias, última morada de Luís XVI e Maria Antonieta antes da sua prisão e da abolição da monarquia em setembro de 1792, é o caso mais emblemático. Já em maio de 1793, lá se instala a Convenção Nacional revolucionária. Como aponta Sarmant, todos os regimes do século XIX que governaram a partir das Tulherias “buscaram o fausto monárquico, na suposição de que assim impressionariam os franceses, mas isso não salvou nem Napoleão I em 1814, nem Carlos X em 1830, nem Luís Filipe em 1848, nem Napoleão III em 1870”.

O Élysée tornou-se residência dos presidentes porque, apesar de suas conexões monárquicas — pertenceu a Luís XV; à sua favorita, a marquesa de Pompadour; a Napoleão I, que lá abdicou pela segunda vez em 1815 (e antes disso à sua irmã, Caroline Murat, rainha de Nápoles); e a Napoleão III — é um palácio de segunda divisão. Luxuoso, mas pequeno para padrões reais, e nunca residência oficial de soberanos franceses. Fica a dúvida no leitor se, caso as Tulherias não tivessem sido incendiadas pela Comuna em 1871, o regime republicano não teria cedido à tentação de lá se instalar.

Duas vezes trabalhei em palácios brasilienses, o Itamaraty e o Planalto. São obras-primas da arquitetura modernista brasileira, os mais bonitos de Brasília, junto com o Alvorada. O Itamaraty pareceu-me sempre acolhedor, apesar das salas subterrâneas. Como o Élysée sob alguns dos presidentes franceses, mas de maneira mais convincente, mistura quadros e móveis antigos com obras mais recentes, ajudado nisso pela arquitetura inovadora. O Planalto é elegante mas francamente gélido. Sentar-se lá é como isolar-se de qualquer outra realidade física conhecida. Quanto ao Alvorada, são conhecidas as queixas de falta de privacidade de alguns de seus moradores.

A leitura me fez questionar a razão pela qual, em uma capital republicana, inaugurada em 1960, deu-se o nome de “Palácio” a esses e a outros edifícios de Brasília. O local ainda considerado o centro do poder no Ocidente é conhecido simplesmente como uma casa, a Casa Branca.

Uma coisa é certa: os títulos dos governantes e os nomes de suas residências mudam mas, como a natureza humana é uma só, perduram as cortes e as intrigas em torno do exercício do poder.

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 5 de julho.

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O presente malásio

O presente malásio
Visitando Anwar Ibrahim

Transcrevo minha coluna quinzenal no jornal Estado de Minas publicada ontem, 12 de abril:

Recebo em Luanda, em 31 de março, dois livros que me envia de presente o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim.

A primeira vez que o visitei, em novembro de 2020, Anwar Ibrahim era líder da Oposição no Parlamento malásio. Recebeu-me em seu escritório pessoal em um bairro residencial de Kuala Lumpur. Mostrou-me uma estante onde eram expostas recordações dos anos em que esteve preso, condenado por motivos políticos. Entre os objetos, figuravam vários livros que as autoridades malásias de então haviam permitido a ele ler enquanto esteve preso. Fotografei alguns desses volumes. Havia, entre outros, uma edição de “Os ensaios” de Montaigne; a biografia de Barack Obama por David Remnick; “A vida dos grandes compositores”, por Harold C. Schonberg, livro de que gosto particularmente. Na foto que tirei, aparece apenas um romance, “O sol é para todos”, de Harper Lee. Em nossa conversa, o futuro primeiro-ministro citou Ortega y Gasset.

Poucos dias antes de abrir, em Angola, o pacote contendo os presentes de Anwar Ibrahim, eu recebera um telefonema do ministro das Relações Exteriores da Malásia, Mohamad Hasan. Conversamos como bons e velhos amigos que somos.

E hoje, enquanto escrevo esta coluna, leio artigo que me envia o seu autor, outro amigo malásio, Yin Shao Loong, brilhante pensador e analista das relações internacionais, sobre as consequências para a Malásia das tarifas de importação anunciadas pelos Estados Unidos em 2 de abril e revistas uma semana depois.

O Sudeste Asiático, de onde parti há dois meses, voltou assim com muita força, nesses últimos dias, à minha imaginação. De resto, parte do meu tempo livre nas últimas semanas tem sido passado comunicando a amigos daquelas latitudes que cheguei ao meu destino atual, que estou bem e que sinto saudade deles.

Um dos livros que me envia o primeiro-ministro Anwar Ibrahim contém análise da Bienal de Veneza de 2024, organizada por Adriano Pedrosa sob o tema “Estrangeiros por toda parte”. Lamentei perder essa Bienal, a primeira sob curadoria não só de um brasileiro, mas de um latino-americano, e de um residente no hemisfério sul. Uma frase de Pedrosa me chama a atenção: “onde quer que você esteja, você sempre é, verdadeira e profundamente, um estrangeiro”.

Para um diplomata, sentir-se estrangeiro, enquanto representa o seu país em outro, é muitas vezes uma característica do cotidiano. Um trecho da frase de Adriano Pedrosa, porém — “onde quer que você esteja” — parece possuir valor filosófico. De fato, a nossa realidade individual nunca consegue ser perfeitamente compartilhada com outros. Para cada um de nós, brasileiros, o Brasil possui um sentido pessoal, único. Uma das belezas do Brasil é, justamente, que em um país tão vasto, tão rico e diverso culturalmente, com uma população tão numerosa e sofrendo de marcadas diferenças sociais e econômicas, desde a independência tenha predominado entre nós um sentido autêntico de nacionalidade. Esse é o verdadeiro milagre brasileiro.

Neste exato momento, relendo “Sagarana”, penso que apenas o mineiro — e diplomata — João Guimarães Rosa poderia ter descrito tão bem a realidade de Minas Gerais. No entanto, as novelas dele se passam em uma Minas Gerais diferente daquela que eu, por exemplo, tenho entranhada em mim, que é a da Zona da Mata. “Eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias”, diz Guimarães Rosa. Por isso, afirma, optou “pelo pedaço de Minas que era mais meu”.

Quando vivemos em um país estrangeiro, nossa apreensão da realidade local é delimitada pelo bairro onde moramos, pelos lugares que frequentamos, pelos amigos com os quais convivemos, pelos jornais que lemos. Por mais que tentemos, nunca obteremos uma visão completa daquela sociedade. Ao analisar “Sagarana”, o mais brasileiro dos húngaros, Paulo Rónai, que chegou ao Brasil já adulto, comenta: “O leitor vindo de fora, por mais integrado que se sinta no ambiente brasileiro, não pode estar suficientemente familiarizado com o rico cabedal linguístico e etnográfico do país para analisar o aspecto regionalista dessa obra”.

Não quero sugerir que não é possível adquirir uma noção correta da cultura onde estamos baseados. Procurar alcançar essa percepção deveria ser mesmo uma obrigação para todo diplomata. Nos países onde servi, tive sempre muita sorte nas amizades que fiz; elas abriram o acesso para uma melhor compreensão daquelas outras realidades.

Mas também o acaso permite novas percepções. Ano passado, caminhando por um bairro de Kuala Lumpur onde eu nunca antes estivera, de repente vi um mural representando uma cena rural no interior da Malásia. Casas de madeira sobre pilotis, com telhado de palha, alternavam com palmeiras e vegetação tropical. Em primeiro plano, um carro de boi idêntico ao que tantas vezes me transportou na infância, na Zona da Mata, ambos simples e menos aparatosos do que o de uma das novelas de “Sagarana”, puxado por nada menos do que oito bois. Associando-se às melhores lembranças da infância e da adolescência em Minas, aquele mural surgido repentinamente tornou a Malásia ainda mais compreensível para mim.

Voltando, pela imaginação, a Minas Gerais, percebi que conhecer e entender a Malásia era, também, uma forma de amar o Brasil.


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