Edla van Steen, estória sobre a amizade

Edla van Steen, estória sobre a amizade

Aos 18 anos de idade, conheci Edla van Steen e Sábato Magaldi. Meu pai e eu, voando de Foz do Iguaçu para o Rio de Janeiro, paramos em São Paulo com o único objetivo de almoçar com eles em sua casa no Morumbi.

A foto, tirada por meu pai, registra esse encontro.

20180407_211629.jpgEra março e o sol brilhava. A conversa foi fascinante e lembro-me com perfeição do que foi discutido. Senti-me em casa e tratado como um adulto. Esse almoço me marcou. Se pareço sério na foto, é porque estava de luto, tendo meu irmão morrido violentamente apenas três meses antes.

No ano seguinte, fui morar e estudar em Londres, como já relatei no blog, particularmente em Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo. Nunca porém perdi contato com Edla e Sábato. Dos dois, é com Edla que mantive contato mais assíduo, embora em geral por carta e por e-mail, por causa da distância geográfica. Seu desaparecimento, em 6 de abril, foi uma surpresa e provocou em mim uma tristeza grande. Troquei mensagens sobre ela com um amigo mais recente, o cineasta Sylvio Back, que eu sabia ter sido seu colega de juventude quando, embora catarinenses ambos, foram se conhecer em Curitiba. Escreveu-me Sylvio, parafraseando Guimarães Rosa: “que horrível e triste notícia o encantamento da nossa amada Edla van Steen, bela e talentosa escritora e atriz”.

Gosto da ideia de que a morte é um “encantamento”: uma nova forma de ser e uma instalação duradoura, saudosa, positiva na mente daqueles que nos conheceram. Já em vida, tudo em Edla era encantamento: o talento, a beleza, a forma segura e direta com que se dirigia ao interlocutor e o tempo que dedicava aos amigos. Escritora, foi também editora e publicou várias antologias de escritores brasileiros, das quais uma das mais conhecidas é O Papel do Amor, de 1979:

20180408_224243.jpg

Três anos depois desse primeiro almoço no Morumbi, revi Edla e Sábato em Londres. Estavam de passagem pela cidade, e minha mãe os convidou para almoçar em casa. Vinham de Paris e ouvi, seduzido, enquanto discorriam sobre as peças a que haviam assistido na França. Eu tinha 21 anos e, apaixonado por artes cênicas, escutava atentamente o que  eles tinham a dizer a respeito. Não era pouca coisa, ouvir o maior crítico de teatro do Brasil discorrer, com a sua mulher escritora, sobre a temporada teatral em Paris. Lembro particularmente do tom entusiasmado com que falaram de uma produção de L´Illusion Comique de Corneille, naquele tempo um de meus autores prediletos, e de cujas peças eu sabia de cor vários versos. Olhando agora na Internet, deduzo que devia tratar-se da famosa produção montada por Giorgio Strehler no Odéon.

Houve alguns outros encontros, ao longo dos anos, mas não tantos, pois nunca moramos na mesma cidade.

Ao conhecer minha mulher, aos 25 anos, não fiquei tão surpreso de descobrir que meu sogro fora professor de Edla em Curitiba, pois a vida, bem sei, tende a ser circular e eu aceito esse fato.

Quando meu pai morreu, em 1999, foi um grande consolo poder conversar com Edla, provavelmente sua melhor amiga. Nessa ocasião, de tudo o que ela me disse fiquei particularmente impressionado com o comentário de que meu pai nunca superara a morte de meu irmão e de que passara  a vida tentando exorcizar – sem êxito, na avaliação dele – o sucesso profissional de meu avô. Essas duas observações tornavam meu pai, notoriamente arredio à auto-análise e a revelações sobre si próprio, mais humano, mais comovente. Edla e Sábato, de resto, continuaram a ser amigos leais de meu pai, mesmo depois de sua morte.  Ela publicou esta coletânea de contos seus, em 2010:

20180415_114250.jpg

 Vi Edla e Sábato pela última vez, creio, em 2006. Naquele ano, minha mulher, nossa filha – então criança – e eu fomos visitá-los em seu apartamento no Rio. Naquela época, eles dividiam o tempo entre São Paulo e Rio, o que era prático, sendo Sábato membro da Academia Brasileira de Letras. Estavam com a neta, Bianca, que ficou brincando com nossa filha enquanto conversávamos. Terá sido então que ela autografou para nós este seu livro de contos?

20180415_115028.jpg

É um livro cativante, onde as personagens femininas são mais fortes do que as masculinas. No conto mais longo – uma novela, na verdade – que dá o título à coleção, a personagem principal é dona de uma livraria e alguns autores de sua predileção são citados, entre eles meu pai.

Em 2007, minha família e eu fomos morar em Bruxelas, mas o contato permaneceu. Há um ano, Edla enviou-me pelo correio um conto inédito de meu pai – que estava em suas mãos por ser ela sua editora na Global – e o testemunho que Sábato fizera sobre ele na Academia Brasileira de Letras, quando meu pai morrera. Houve algumas trocas de mensagens no Facebook ao longo de 2017. Escrevi para Edla pela última vez em janeiro de 2018, querendo saber se podia ligar para dar a ela uma boa notícia pessoal, mas ela não respondeu e não sei se terá visto minha mensagem.

No ano passado, dois ex-alunos me disseram, na mesma conversa, que o meu blog é sobretudo sobre os relacionamentos humanos, mesmo quando escrevo sobre um livro, um filme, uma viagem. Embora eu nunca tivesse pensado nesses termos sobre minhas postagens, percebi que tinham razão.

Muitas vezes, até recentemente, meditei com pesar sobre a transitoriedade das pessoas em nossas vidas. Nos últimos meses, comecei a pensar de forma um pouco diferente. Vejo hoje que as pessoas não entram e saem de nossas vidas aleatoriamente. Damos a elas espaço para que entrem e depois, por causa do trabalho, de compromissos familiares, de diversas ocupações, da própria falta de tempo, de mudanças de cidade ou de país, permitimos que haja um afastamento. As pessoas vão e vêm, em um fluxo constante e natural.

Fico pensando nas conversas que – por causa de minha vida apressada, errante, tão lotada, como a deles também era – eu não pude ter com Sábato e Edla sobre teatro, atores, escritores, entre eles meu pai, sobre quem eles teriam tido muito a me dizer. Agora, isso não será possível. Sábato partiu em 2016, e Edla há uma semana.

É triste pensar nas ocasiões perdidas de mais convívio com amigos, mas esse não é o pensamento correto. O que é surpreendente é que ainda consigamos, no mundo em que vivemos hoje, fazer e preservar amizades, apesar da distância física.

Guardo as cartas de vários correspondentes, recebidas na era pré-internet:

20180408_215248.jpg

A pilha da direita, embaixo, é a das cartas que recebi de meu pai enquanto eu morava em Londres. Para ler as que eu enviava a ele – meu principal correspondente durante todos os anos em que fiquei na Inglaterra – tenho hoje em dia de pedir autorização à Fundação Casa de Rui Barbosa, pois ele doou, alguns meses antes de morrer, todos os seus papéis, inclusive a correspondência recebida, à Fundação. Naquela ocasião, essa sua decisão me decepcionou, tomei-a como uma quebra de confiança. Julguei também que, presumivelmente, seriam as cartas escritas pelo meu pai, e não as recebidas por ele, que interessariam aos estudiosos, e essas estão comigo e com seus demais correspondentes.

Mantenho contato, vejo e converso, ainda que às vezes isso possa ser apenas ocasional, com amigos que conheço desde a infância, e alguns, leitores deste blog, reconhecerão suas letras nos envelopes na foto acima.

De Edla van Steen, encontrei nessa coleção uma carta apenas, escrita quando eu morava em Londres e que termina da seguinte maneira:

20180408_222926.jpg

Outras cartas estarão em outras pilhas, em outros baús aqui em casa. Muitos e-mails terão se perdido, pois em cada país em que morei, desde o início da Internet, antes da vitória final do gmail, criei um endereço eletrônico local, que era eliminado na partida. Houve também endereços eletrônicos profissionais, que eram descartados automaticamente quando eu me mudava. Em geral, eu me preocupava em gravar meus mails em discos, disquetes e pen drives, mas recuperá-los hoje daria um trabalho a que não quis ainda me dedicar.

Esse é o milagre, que possamos não só guardar no coração e na memória os amigos distantes mas que possamos também seguir interagindo com eles, ano após ano, década após década, mesmo que, por longos períodos, de maneira virtual. E assim foi com Edla.

.

Três Anúncios para um Crime – Martin McDonagh

Três Anúncios para um Crime – Martin McDonagh

facebooksquareads-february2018-threebillboardsoutside

Em outubro, a caminho do Cazaquistão e da Índia  – aonde eu viajava a trabalho – mudei de avião no aeroporto de Heathrow. O voo Rio-Londres havia sido desconfortável e seriam muitas horas de espera pela conexão a Astana. Felizmente, encontrei uma filial da livraria WHSmith. Lá comprei três livros, dos quais este:

20180218_103732.jpg

Em histórias escritas nos anos 50, Flannery O´Connor nos mostra personagens que vivem – em geral, mas nem sempre – em um ambiente rural no sul dos Estados Unidos, oprimidos por preconceitos, pouca liberdade emocional, princípios religiosos mal compreendidos e um futuro financeiro sempre incerto. No voo noturno da Air Astana em direção ao Cazaquistão, li dois ou três dos contos, inclusive o que dá seu título à coleção, um dos mais violentos. Terei lido algum adicional, poucos dias depois, no longo trajeto de Astana a Nova Delhi – longo por incluir baldeação, de madrugada, em Almaty – e no voo que me trouxe, da Índia, de regresso ao Brasil.

O livro viajou bastante depois disso, pois esteve em Curitiba com a minha mulher e, no momento, está em Bruxelas com minha filha. Em fevereiro, em casa, li os contos restantes.

Poucos dias após ter terminado o livro de Flannery O´Connor, fui ao cinema assistir a  Três Anúncios para um Crime, filme escrito e dirigido por Martin McDonagh. Saí com a sensação de ter estado, durante duas horas, em um conto de A Good Man is Hard to Find. A associação com o livro foi notada por alguns críticos. Li que, em uma das primeiras cenas do filme, quando a personagem principal, Mildred Hayes – em uma interpretação fabulosa de Frances McDormand, que lhe valeu o Oscar de melhor atriz – entra em um escritório, outro personagem, Red Welby (interpretado por Caleb Landry Jones), está lendo justamente A Good Man is Hard to Find. Confesso que não notei isso ao ver o filme mas, em minha defesa,  o livro é mostrado de forma tão rápida na cena, que se pestanejarmos perdemos a referência ou homenagem do roteirista-diretor à escritora.

Buscando, na Internet, alguma foto que comprovasse a presença física do volume de Flannery O´Connor no filme, encontrei isto no blog First Impressions, Notes on Films and Culture:

flannery

Trata-se, portanto, desta edição, de 1977:

9780156364652-us

Pela primeira vez em muitos anos, consegui assistir nos últimos meses a quase todos os candidatos ao Oscar de melhor filme. E esta era uma safra particularmente boa. Nenhum candidato ao prêmio, porém, me causou impacto tão grande quanto Três Anúncios para um Crime, com a possível exceção, por razões diferentes, de Trama Fantasma, o filme sobre as neuroses de um relacionamento a dois dirigido por Paul Thomas Anderson.

Quando Três Anúncios para um Crime começa, Mildred Hayes está de luto. Sua filha, Angela, foi estuprada, assassinada e queimada sete meses antes, sem que a polícia tenha conseguido encontrar o culpado, ou talvez sequer se esforçado para isso. Mildred tem a ideia de pagar anúncios em três painéis inutilizados no meio do campo, à beira de uma estrada por onde ela circula todos os dias, a caminho de casa. O cartazes financiados por Mildred, em sua visita ao escritório de Red Welby, responsável pela publicidade nos painéis da estrada, são altamente acusatórios contra o xerife da cidadezinha de Ebbing, Bill Willoughby, interpretado por Woody Harrelson, que foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por esse papel. Os cartazes dizem, sucessivamente, em letras garrafais: “Estuprada enquanto morria”, “E ainda nenhuma prisão”, “Como é possível, xerife Willoughby?”.

3-billboards-header-e1518026605286.jpg

A partir desse momento, o filme ganha sua lógica própria e não quero estragar o prazer de quem porventura não o viu ainda. Basta dizer que os cartazes financiados por Mildred trarão à tona a verdade presente dentro da alma dos habitantes de Ebbing, Missouri. Mostrarão seu pior lado o padre, o dentista, o médico e vários policiais, entre eles o racista principal do lugarejo, Jason Dixon, em uma magnífica interpretação de Sam Rockwell, ganhador por esse papel do Oscar de melhor ator coadjuvante. A própria Mildred nos revelará aspectos terríveis de sua personalidade, e comete vários atos condenáveis, e ao menos um crime – que não é um assassinato, mas quase provoca uma morte.

Poucas semanas antes da cerimônia de entrega dos Oscars, houve críticas de que o filme trataria de maneira apenas casual o racismo de alguns personagens, sobretudo o exercitado pelo policial interpretado por Sam Rockwell. Isso representa um erro grave de análise, ou talvez uma tentativa de diminuir as chances de o longa-metragem de Martin McDonagh ganhar o prêmio de melhor filme, que ele de fato não ganhou. Este não é um filme sobre o racismo, o machismo ou os maus tratos a minorias, embora esses sejam temas abordados. Não é um filme que deseja com que nos sintamos bem ao final e, por isso, não é a história de uma mulher enlutada, de nobres sentimentos, cuja persistência traz a justiça sobre a Terra. Como os contos de Flannery O´Connor, este é um filme sobre a mediocridade do ser humano e o desejo de uma comunidade de seguir adiante sem grandes preocupações morais ou intelectuais. O assassinato de Angela marca a coletividade, mas a reação de sua mãe, que não aceita mais ser tratada de forma condescendente, é um choque inaceitável para os demais. O padre revela-se pouco cristão (ele diz a Mildred: ” se você não tivesse parado de ir à igreja, talvez tivesse mais compreensão para com os sentimentos dos outros” – e tiraria os cartazes); o dentista, descumpridor da ética no exercício da profissão; e o policial, uma autoridade que usa violência física para abusar de seu pequeno poder.

Na segunda metade do filme, acompanhamos mudanças no caráter do policial de Sam Rockwell e alguns críticos falaram em “redenção”, o que é outro equívoco, ou ao menos uma simplificação. Vemos, isto sim, seu personagem tomar consciência da própria mediocridade – exacerbada até para os padrões locais – e do quanto isto o prejudica, nos planos pessoal e profissional.

Haveria muito a dizer sobre esta obra-prima, onde todos os elementos – trilha sonora, cenário, figurino, roteiro, interpretações – criam um conjunto harmônico e de grande impacto emocional sobre o espectador. Apesar de seus defeitos, Mildred Hayes nos cativa, por seu espírito destemido, sua luta contra o espírito acomodado que reina em Ebbing, sua tentativa de seguir vivendo apesar da dor. Três Anúncios para um Crime marcará sobretudo quem já sofreu perdas violentas, incompreensíveis. O que Mildred faz, tentar garantir que o responsável pelo seu luto seja punido, todos em sua situação já pensamos em fazer.

Se Três Anúncios para um Crime me fizesse pensar em um conto específico de A Good Man is Hard to Find, seria o intitulado The Displaced Person, de longe o mais longo, em que uma proprietária rural no sul dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, acolhe uma família – pai, mãe, filho e filha adolescentes – de imigrantes poloneses. O chefe de família vem para trabalhar como empregado na fazenda. A ironia do conto é que o polonês, embora deslocado de seu país de origem, é perfeitamente focado, funcional e competente. Sua patroa e outro casal branco que trabalha na propriedade são “deslocados” emocional e intelectualmente. Há um par de empregados negros, que aparecem para ilustrar o racismo dos demais personagens, e um padre católico que, ao contrário do padre do filme de Martin McDonagh, é boníssimo.

O filme me fez pensar também em outra obra literária, o diário de Etty Hillesum, a holandesa judia morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Em 2011, no “off” do Festival de teatro de Avignon, vi um monólogo notável, escrito e interpretado por Sandrine Chauveau. O espetáculo era todo montado com frases extraídas das cartas e dos diários de Etty Hillesum. A cena mais forte era quando esta dizia, referindo-se a Deus: “Não é você que tem de nos ajudar; cabe a nós ajudar você”.

A ideia de Deus, de fato, aparece na cena mais bela do filme de Martin McDonagh. Mildred, desanimada, sentada frente a um de seus três cartazes, no meio do campo, vê aproximar-se um cervo, tão solitário quanto ela, com o qual estabelece uma forma de diálogo – os cínicos dirão tratar-se de um monólogo. Mildred lamenta o fato de ninguém ter ainda sido preso pelo assassinato de sua filha e indaga como isso é possível: ” ‘Cause there ain’t no God and the whole world’s empty, and it doesn’t matter what we do to each other? I hope not. ” O conceito – sobre o qual Mildred especula mas que prefere descartar – de que ao renunciar a Deus o ser humano não possui mais freios em seus atos –  é puro Dostoiévski.

 ebbingdeer (1)

Mildred chega a especular se o cervo seria a reencarnação de Angela, mas tem de aceitar a realidade: “you’re pretty but you ain’t her… She got killed. Now she’s dead forever”.

Um personagem do filme reflete visão mais positiva da humanidade. Trata-se do filho de Mildred, Robbie, interpretado por Lucas Hedges, ator que pode também ser visto em Lady Bird. Robbie tenta sobreviver à morte da irmã, à separação dos pais, aos conflitos entre eles e à animosidade que os cartazes colocados pela mãe despertam na cidade, inclusive entre seus colegas de escola. É um observador maduro, equilibrado, quieto, das falhas das pessoas ao seu redor.

Saí do cinema feliz de ser carioca e de não ter nascido em Ebbing, Missouri, com seu racismo, machismo, violência, ignorância e mediocridade. A cidade, de resto, não existe e Três Anúncios para um Crime foi filmado na Carolina do Norte, em uma cidade de 3.000 habitantes chamada Sylva. Duas semanas depois, a execução de Marielle Franco em uma rua do Estácio derrotou minha complacência e tive de aceitar esta realidade: Ebbing, Missouri é todo agrupamento humano, e seus habitantes somos nós e nossos vizinhos. Essa é a força do filme.

Três Anúncios para um Crime – ficha técnica

Mahatma Gandhi em Birla House

Mahatma Gandhi em Birla House

20171111_194219.jpg

Em recente viagem a Nova Delhi, ao terminar um compromisso de trabalho no domingo, vi que teria ainda cerca de duas horas de luz antes do anoitecer. Era início de outubro, a tarde estava quente e límpida. Sem hesitar, sem parar – apesar do calor – para tirar o terno e a gravata, decidi visitar a casa onde Gandhi passou seus últimos meses de vida e onde foi assassinado.

Esse era um velho sonho, de muitos anos. Fui plenamente recompensado.

Em setembro de 1947, Mohandas Gandhi, o Mahatma – ou “Grande Alma” – chegou a Delhi, vindo de Calcutá, onde passara quatro semanas. A capital, como Calcutá, enfrentava distúrbios entre hindus e muçulmanos. A independência, consagrada um mês antes, levara à partição do território até então sob domínio britânico, criando dois países, o Paquistão, constituído por territórios povoados majoritariamente por muçulmanos, e a Índia, onde a população era majoritariamente hindu.

Gandhi sofrera com a ideia da Partição mas decidiu aceitá-la. Tornou-se uma voz em favor da conciliação entre os dois países e os dois grupos religiosos. As tensões, a violência e as mortes eram elevadas, assim como o número de refugiados de parte a parte. Gandhi propugnava a tolerância mútua, decepcionando hindus mais radicais.

Naquela que seria sua última estada em Delhi, o Mahatma – praticante do ascetismo – hospedou-se na casa de um dos membros da milionária família Birla, da qual ele era amigo há muitos anos:

20171111_194550.jpg

A escolha surpreendeu alguns de seus admiradores, mas não fora feita por ele. Embora Gandhi já tivesse antes frequentado a casa dos Birla, nos últimos tempos vinha se hospedando, na capital, em um bairro mais humilde, que estava, em setembro de 1947, recebendo numerosos refugiados hindus oriundos do Paquistão, e onde o Governo considerou que sua segurança não poderia ser garantida. Birla House era também facilmente acessível para membros do Governo que visitavam Gandhi.

Quatro meses depois, em janeiro de 1948, as tensões e os distúrbios continuavam. Em meados daquele mês, Gandhi iniciou um jejum, o que era para ele uma prática recorrente há décadas, por razões filosóficas e espirituais, mas que servia também, ocasionalmente, propósitos políticos. Tinha 78 anos. Como recusar-lhe algo, correndo o risco de vê-lo morrer de fome? Em poucos dias, o Governo prometeu que a segurança dos muçulmanos seria garantida e que o Paquistão receberia indenização que lhe era devida.

Jawaharlal Nehru, Primeiro-Ministro da Índia, vinte anos mais jovem do que Gandhi e a ele ligado por laços antigos e profundos, mais próximo do Mahatma talvez do que os próprios filhos deste, ao visitá-lo em Birla House viu refugiados hindus gritando na rua: “Que morra Gandhi!”. Poucas horas após a morte de seu pai espiritual, Nehru faria no rádio um notável – e hoje célebre – discurso, para comunicar à Nação o assassinato, iniciando-o com a frase: “The light has gone out of our lives”.

Gandhi ocupava um quarto mobiliado com grande simplicidade, no térreo da casa:

20171111_200320.jpg

Dormia em uma varanda ligada ao quarto, fechada por portas-janelas, ainda mais despojada e que é, hoje, a entrada principal para a visitação à casa:

Sua vida em Birla House era pública. Durante o jejum, as pessoas passavam, no jardim, em frente a essa varanda e viam Gandhi deitado, como mostra esta foto de Henri Cartier-Bresson:

mahatma-gandhi-by-photographers-margaret-bourkewhite-and-henri-cartierbresson-33-638 (1)

A legenda está errada: o jejum de cinco dias terminou não na véspera de sua morte, mas doze dias antes.

Fora o período de jejum, Gandhi conduzia orações diárias no imenso jardim posterior da casa, presenciadas por centenas de pessoas. Em 20 de janeiro, uma bomba explodiu no jardim durante a oração. Ninguém ficou ferido.  A morte de Gandhi se daria no dia 30, tão movimentado quanto aparentemente costumavam ser todos os dias em Birla House. Seu secretário, V. Kalyanam, deixou um registro das atividades do Mahatma nesse último dia de vida, mas a informação no texto não é exaustiva,  pois entre os visitantes que não cita está Cartier-Bresson.

Talvez o senso de oportunidade seja fundamental para um artista. Cartier-Bresson viajava pela Índia em janeiro de 1948, e ia frequentemente a Birla House ver ou fotografar Gandhi e com ele conversar, inclusive no dia de sua morte. As fotos que tirou nos últimos dias do Mahatma e logo depois, inclusive da cremação, são hoje icônicas.

A página eletrônica da agência Magnum, de que Cartier-Bresson foi co-fundador, expõe algumas de suas fotos desse período, como esta, tirada no dia anterior ao assassinato, na qual vemos Gandhi tomando sol em Birla House: 

HCB1947007W00053-10

Outros visitantes não citados por V. Kalyanam são a filha de Nehru, Indira Gandhi, e seu filho de três anos e meio, Rajiv – ambos futuros Primeiros-Ministros e que seriam também assassinados. As fontes porém divergem sobre se visitaram Gandhi no dia 30 ou na véspera. Em seu livro sobre a independência da Índia e a Partição, Indian Summer – comprado em Islamabad, em março, como narrei em  Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi – Alex von Tunzelmann conta que Rajiv pegou umas violetas e brincou de colocá-las em volta dos pés de Gandhi, que o interrompeu, dizendo: “One only puts flowers around dead people´s feet”. A cena, além de premonitória, cria uma imagem de grande espontaneidade.

Às 17:12 do dia 30, o Mahatma saiu de seu quarto e dirigiu-se ao jardim, para as orações. Estava atrasado; quinhentas pessoas já esperavam por ele, indianos e estrangeiros. Hoje, o museu em sua homenagem em que Birla House se transformou coloca marcas de passos, da porta-janela do quarto até o local do assassinato, para que possamos visualizar o trajeto:

A pérgola é uma construção posterior ao assassinato, para encobrir a “Coluna do Mártir”, que marca o local exato onde os três tiros foram dados, no meio da multidão, por um hindu, Nathuram Godse:

20171008_171059~2.jpg

A inscrição dá a data e as últimas palavras de Gandhi: “Oh, Deus”. Em seu julgamento, Godse declarou ter cometido o crime porque Gandhi “favorecia os muçulmanos”, porque “seu último jejum fora pro-muçulmano” e porque sua atuação pacifista favorecia o Paquistão. Godse foi julgado, condenado e enforcado. O pronunciamento que fez durante o julgamento trai igualmente sua admiração e seu rancor por Gandhi, sobre quem faz a seguinte análise: “Essas insanidades e obstinações infantis, junto com uma forma extremamente austera de vida, um labor incessante e um caráter superior tornavam Gandhi gigantesco e invencível”.

Mesmo hoje, na Índia, Gandhi não é uma figura consensual, como informa Sunil Khilnani em seu livro publicado em 2016, Incarnations, a History of India in 50 Lives, onde consegue, em apenas onze páginas, nos dar uma excelente biografia do Mahatma:

20171115_180654.jpg

Khilnani relata que, há poucos anos, assistiu no Estado natal de Gandhi, Gujarat, na capital que carrega seu nome, Gandhinagar, um filme sobre o assassinato do Pai da Nação, e que, na hora dos tiros, “the audience erupted into wild applause and cheers”.

O filme dirigido por Richard Attenborough sobre a vida de Gandhi, de 1982, onde Ben Kingsley o encarna de forma impressionante, começa com a cena do assassinato, filmada em Birla House.

Birla House, aliás, já não se chama assim. Seu nome hoje é Gandhi Smriti, ou, em inglês Gandhi Remembrance. No térreo, além do quarto ocupado pelo Mahatma vemos painéis explicando sua vida e, no quarto, emoldurados, alguns objetos pessoais:

20171008_160442.jpg

Por alguma razão, fiquei fascinado com o relógio, parado na hora em que os tiros aconteceram:

20171008_160528~2.jpg

Ao voltar da Índia, li um texto em que o relógio de Gandhi faz uma aparição. O diplomata Natwar Singh, sobre quem já falei em Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi, por causa de seu livro Walking with Lions, publicou em 2014 uma autobiografia, One Life is not Enough – quem discordaria? – em que relata a única vez em que viu Gandhi, em 1945, quando tinha 14 anos. Sabendo que um trem no qual viajava o Mahatma pararia em Bharatpur, Natwar Singh correu até a estação, conseguiu – apesar da multidão sequiosa por uma visão do ídolo –  grudar na janela do compartimento de terceira classe onde se sentava Gandhi e: “There he was, shaven-headed, watch nucked into the waistline of his loincloth”. Será o mesmo relógio que Gandhi usava. dois anos e meio depois, em Birla House e que hoje está exposto na vitrine? Faz sentido acreditar que sim.

Duas salas exibem caixas de madeira, com a frente de vidro, como se fossem casas de bonecas, mostrando cenas da vida de Gandhi que ajudaram a formar seu mito. Fotografei apenas uma das caixas, a da célebre entrevista que, em Londres –  vestido de forma simples, como sempre fazia, apesar do frio – ele manteve em Buckingham Palace com o Rei George V:

20171008_162946.jpg

No segundo andar de Gandhi Smriti está o Eternal Gandhi Multimedia Museum, onde aspectos da vida do Mahatma são recriados de forma moderna e tecnológica. Entramos em uma locomotiva, para sentir o que ele sentia viajando de trem; brincamos com um tabuleiro onde figurinhas representam contemporâneos seus, que nos repetem o que disseram como reação ao seu assassinato; em uma bacia, colhemos sal, como fez Gandhi em 1930, quando organizou a famosa Marcha do Sal até o Mar da Arábia, para protestar contra o imposto sobre o produto cobrado pelos ingleses; vemos um aro colocado contra a parede que, se aproximarmos a mão, emite o som de uma cítara:

20171008_165600~2.jpg

Há uma harpa representando, contra as cores da bandeira da Índia, a silhueta de Gandhi:

20171008_164910~2.jpg

O objeto menos tecnológico, porém, é o que mais chamou minha atenção:

20171008_163811~2.jpg

Essa escultura é uma recriação dos Três Macacos Sábios, que nos ensinam a não ver o mal, não falar mal e não ouvir o mal. Gandhi tinha frente a ele, no quarto em Birla House, apesar de seu despojamento, uma versão em madeira dos Três Macacos Sábios:

20171008_160654~2.jpg

Visitei Gandhi Smriti com dois colegas, que haviam participado comigo da reunião de trabalho naquele domingo. Ela, residente em Nova Delhi, e que já conhecia bem o museu, teve a paciência de me acompanhar, pois somos amigos há vinte anos. Ele, que estava em Delhi de passagem, é um ex-aluno e me explicou a importância filosófica dos Três Macacos Sábios para Gandhi, confirmando, como mencionei em Tagore, que aprendo sempre muito com meus alunos.

Ao sair, já quase de noite, reparei no portão:

20171009_180522.jpg

e na forma como o museu se apresenta ao visitante, na fachada para a rua: “O local do Martírio de Mahatma Gandhi”:

20171009_180727.jpg

O assassinato – o “martírio” – concluiu o processo de consolidação de Gandhi no imaginário coletivo.

Antes de partir, fiquei por vários minutos sozinho no jardim, vendo a imponente fachada traseira, ouvindo os pássaros, impressionado com a vastidão do terreno e a altura das árvores, imaginando aquele dia, 69 anos atrás, quando o gramado estava coberto de seres humanos, um deles, escondendo um revólver, já sabendo que aquele seria o último momento de vida do Pai da Nação, que vinha, frágil mas sereno, caminhando em sua direção:

 

Para Claudia Vieira Santos

 

 

 

 

 

Um americano em Paris: Picasso, Dora Maar e Giacometti retratam James Lord

Um americano em Paris: Picasso, Dora Maar e Giacometti retratam James Lord

Um dia, meu pai me apresentou a Jorge Amado. Eu tinha 21 anos, estudava em Londres e estava de férias no Rio. Era um evento literário em Ipanema. Meu pai me levou até o escritor e foi conversar com outros amigos. Afável, simpático, bonachão, Jorge Amado sorriu e me disse: “Seu pai é um grande homem, você tem muita sorte”. Intimidado – o romancista estava no auge da fama – agradeci e não soube mais o que dizer. Nunca mais o vi.

No mesmo evento, estava Carlos Drummond de Andrade, a quem meu pai também me apresentou. A conversa com o poeta foi igualmente sem consequência.

Para James Lord, timidez não era um problema. Desembarcado em Paris em 1944 como soldado, em sua primeira visita à cidade, com 22 anos apenas, o americano tocou a campainha, na rue des Grands-Augustins, do ateliê de Picasso – que tinha 63 anos e era considerado o maior artista vivo. Apresentou-se, foi bem recebido, sentiu-se à vontade e tornou-se amigo do artista por dez anos. Fácil assim. Iniciava-se ali sua carreira como frequentador do meio artístico e literário parisiense, em benefício dos leitores de hoje, pois os livros de memórias de Lord são incomparáveis. Amigo de Cocteau, Balthus, Giacometti, Gertrude Stein, Peggy Guggenheim e muitos outros, Lord possuía o dom de apreender a personalidade de seus interlocutores e de captar o detalhe que tudo revela.

Um de seus livros se intitula A Gift for Admiration, e isso explica a facilidade com que se tornou íntimo de tantos artistas ou mecenas célebres. Quando admirava alguém, o escritor se aproximava e manifestava o fascínio que sentia por aquela pessoa.

O memorialista era amigo de tantos artistas, que um de seus livros, publicado  em 2003, dedica-se exclusivamente a examinar como ele foi retratado ao longo dos anos por diferentes pintores ou fotógrafos, entre eles Lucian Freud, Picasso, Balthus, Cocteau, Giacometti, Dora Maar e Cartier-Bresson.

20170902_151649

A capa mostra o segundo retrato de Lord desenhado por Picasso, em março de 1945. O primeiro, feito um ou dois dias depois de eles se conhecerem, em dezembro de 1944, enquanto almoçavam em um restaurante com Dora Maar, decepcionou o escritor, que simplesmente pediu a Picasso, três meses depois, para fazer outro.

James Lord, morto em Paris em 2009, está prestes a atingir patamar superior de fama. Há poucos dias, estreou no Reino Unido – e, espero, logo será exibido no Brasil – um filme dirigido por Stanley Tucci, Final Portrait,  onde os personagens principais são o escritor, interpretado por Armie Hammer, e Alberto Giacometti, interpretado por Geoffrey Rush. O filme é inspirado em um curto livro de Lord, lançado em 1965:

20170902_154128 Ali, o autor descreve como transcorreram as dezoito sessões em que posou para Alberto Giacometti, em 1964, quando este pediu para pintar o seu retrato. Modelo e artista, durante as sessões, discorriam sobre arte, sobre formas de ver e de representar e sobre a crônica insatisfação de Giacometti com o seu próprio trabalho, e esses diálogos são reproduzidos no livro. Lord tirava fotos da tela todo dia, registrando sua evolução. O quadro foi vendido em um leilão da Christie´s, em Nova York, em 2015, por US$ 20,8 milhões. A estimativa era de que a venda alcançasse entre US$ 22 milhões e US$ 30 milhões.

O livro de Lord sobre o quadro reproduz esta foto sua posando no ateliê de Giacometti:

20170904_004137-1

E este é o resultado final do retrato, como reproduzido no livro monumental de Yves Bonnefoy sobre o artista:

20170904_002617

Aqui, temos um dos maiores artistas do século XX retratando um amigo, que viria a ser aquele que mais escreveria sobre sua obra; o processo de pintar esse quadro específico e as conversas decorrentes das sessões de pose geram um livro que, por sua vez, é transformado em um longa-metragem com atores e diretor hollywoodianos:

James Lord idolatrava Giacometti – vinte e um anos mais velho do que ele – e publicou, em 1985, dezenove anos após a sua morte, aquela que é ainda hoje considerada a melhor biografia do artista. O livro levou quinze anos para ser completado:

20170902_153659

Lord também merece ser lembrado por ter salvado da destruição o ateliê de Cézanne em Aix-en-Provence, que sempre visito quando lá estou:

20170715_172318~2-1

Seu texto mais célebre talvez seja Picasso and Dora:

20170902_172017

Trata-se de três histórias entrelaçadas: o caso de amor entre Picasso e Dora Maar – sua musa, modelo e namorada por quase dez anos – o qual estava terminando quando Lord os conheceu; a amizade vivida posteriormente por Maar e o próprio Lord; e o que devemos considerar como um curioso triângulo amoroso entre Lord, Maar e Picasso.

Dora Maar foi uma fotógrafa respeitada na juventude, amiga dos surrealistas, e posteriormente pintora.  O único registro que temos das sucessivas etapas da pintura de Guernica por Picasso são as fotos que ela foi tirando em seu ateliê. Isso pode ter inspirado Lord, quase trinta anos mais tarde, a fotografar todo dia a evolução de seu retrato por Giacometti.

Em 1941, aos 34 anos, Dora Maar foi fotografada por Rogi André:

20170905_172849

Picasso às vezes a retratava de forma quase romântica, como neste desenho de 1936, portanto no início da relação dos dois:

20170905_180534~2

Outras vezes, ela era retratada de forma francamente erótica, como neste desenho, também de 1936, Dora e o Minotauro:

20170905_180407~2

Como se sabe, Picasso se identificava com a figura do minotauro, e o desenho adquire assim contornos de sadismo e opressão sobre a figura da amante do artista.

Em geral, Picasso usava Dora – conhecida pela inteligência e a intensidade – como modelo de figuras torturadas, aflitas, particularmente na série A Mulher que Chora. O primeiro óleo da série é de junho de 1937:

20170905_165200

A fotografia, os dois desenhos e o óleo reproduzidos acima pertenceram a Dora Maar até sua morte.

O óleo mais famoso da série A Mulher que Chora é o último, pintado em outubro de 1937; ele pode ser visto em Londres, na Tate Modern:

É por ser representada como uma figura desesperada em vários quadros de Picasso que Dora Maar ganhou imortalidade.

A amizade entre James Lord e Dora Maar durou muitos anos, mas seu auge ocorreu na primavera e no verão de 1954, quando os dois passaram semanas juntos na casa que Picasso cedera à ex-amante, na Provença, na aldeia de Ménerbes.  Nesta foto, tirada por Lord, vemos Dora no umbral da casa:

20170906_163110~2

Em 2008, em um de nossos passeios pela Provença, fomos conhecer Ménerbes, para ver essa casa. Infelizmente, não consigo encontrar as fotos daquelas férias. A casa teria muito a contar, pois foi palco da relação entre Picasso e Dora, em 1945, quando essa estava terminando; testemunhou a amizade intensa entre Dora e Lord, em 1954; e, em uma temporada, presenciou os amores de Picasso e Françoise Gilot. Tendo substituído Dora por Françoise, Picasso achou perfeitamente natural, no verão de 1946, pedir à amante rejeitada que lhe emprestasse a casa para lá passar um tempo com sua sucessora. Anos mais tarde, Françoise Gilot diria a James Lord que ficara escandalizada com a atitude de Picasso e considerara Dora “fraca e masoquista” por ter aceitado emprestar a casa.

James Lord, que era gay, sempre afirmou que sua relação com Maar – quinze anos mais velha – nunca foi consumada fisicamente. Ao leitor de Picasso and Dora, fica claro, porém, que, naquelas semanas de isolamento em Ménerbes, a amizade se transformou em uma forma de amor. É uma história triste, de desencontro emocional, em que ficamos torcendo – embora cientes da sexualidade de Lord – para os dois assumirem que se amam, dormirem juntos, se casarem e viverem felizes para sempre. Em vez disso, paira sobre essa relação a sombra forte e destruidora de Picasso, que sentia ciúmes da proximidade dos dois e os humilhou publicamente quando, em 1954, encontrou-se com eles pela última vez, em um jantar no castelo provençal de Castille, que pertencia a Douglas Cooper, crítico de arte e colecionador milionário. A cena é contada por James Lord e também, em The Sorcerer´s Apprentice, por John Richardson, companheiro de Cooper, e a quem citei ao falar de Picasso em De carro pela Provença:

20170904_091051

Dora Maar e James Lord não sabiam que Picasso estaria no jantar. Picasso, por outro lado,  se fizera convidar sabendo que eles lá estariam e, com a cumplicidade malsã de Douglas Cooper, foi ao jantar com a  intenção – concretizada – de dizer-lhes coisas ofensivas, diante dos demais convidados. Picasso e o meio artístico parisiense como um todo não sabiam como interpretar a prolongada intimidade entre os dois. Indagavam-se se eram amantes e se iriam se casar.

Maar e Lord nunca mais o viram, mas o artista continuou presente em suas conversas. Dora, que fora internada em clínicas psiquiátricas e fizera uma análise com Lacan após a separação com Picasso, nunca superou totalmente ter sido abandonada por ele em favor de Françoise Gilot. A amante rejeitada e a espécie de filho postiço de Picasso em que Lord se transformara passavam o tempo, em Ménerbes, conversando sobre o artista. É o caso de se perguntar, lendo Picasso and Dora, se a lembrança de Picasso era o elo que os unia ou se, ao contrário, impedia a consumação física de sua amizade de cunho amoroso. O memorialista, sutilmente, insinua ter havido alguma atração subliminar entre o artista e ele. Em 1966, Françoise Gilot, já então separada de Picasso há muitos anos, disse a Lord que o artista o considerara um filho e que, embora tivesse partido dele a separação com Dora, tomara a relação de Lord com ela como uma dupla traição.

Esta foto de Picasso e James Lord, tirada por Dora Maar em 1945, mostra uma época em que a relação entre os três era menos complexa:

20170906_162849~2

O epílogo da amizade entre Dora Maar e James Lord foi melancólico. Dora gradualmente afastou-se de Lord, embora eles nunca tenham rompido totalmente. Já em novembro de 1954, portanto poucos meses depois do idílio em Ménerbes, Lord escreveu-lhe longa carta – que ocupa sete páginas no livro – que pode ser lida como tentativa de salvar a amizade, e também como uma declaração de amor.

Dora Maar não respondeu. Depois de 1958, eles só se reviram quatro vezes: em 1970, em 1973 e duas vezes em 1980. Dora isolou-se e refugiou-se na religião. Escreve Lord: “I was sorry not to see her. There were other people, however, other occupations, other aspirations. I traveled, I wrote and had love affairs”. Ao visitá-la em 1970, após doze anos sem se verem, Lord pensou no primeiro dia em Ménerbes, lembrou ter havido ali, na hora de eles se desejarem boa noite: “a palpable, prolonged, specific pause” e que se ele tivesse sido “different, forceful, effective” – ou seja, se tivesse passado aquela noite com ela – a vida dos dois teria sido diferente. Admite ter pensado em pedi-la em casamento várias vezes.

Pergunto-me se Maar não terá julgado que sua sina era para sempre ser vista por todos, inclusive na relação com Lord, como a ex-amante e musa de Picasso. Talvez tenha se conformado com isso e preferido ficar sozinha. Ou talvez tenha se cansado de esperar uma proposta concreta de Lord. Uma vez, quando mal se conheciam ainda, os dois almoçaram com Douglas Cooper e John Richardson no campo, na Provença. Cooper declarou: “Não é grave que nós aqui falemos tanto em Picasso. Ao fazer isso, estamos falando de nós mesmos, pois no futuro seremos lembrados apenas por causa de nossa conexão com ele”.

Dora Maar morreu em 1997, esquecida e solitária. Há tentativas recentes de recuperar sua individualidade como artista. Nos últimos anos, algumas biografias foram lançadas; o Centre Pompidou e o Getty Center planejam montar, em 2019, exposição sobre sua obra como fotógrafa.

Em janeiro, em Paris, visitei no Musée Picasso a exposição Picasso-Giacometti, que explicava a influência artística que eles exerceram um sobre o outro. A capa do catálogo é a junção de fotos dos dois artistas tiradas por Dora Maar individualmente, em torno de 1936:

20170905_152033-1

Fotografei, na exposição, uma sala em que três retratos de Dora pintados por Picasso dialogavam com várias esculturas de Giacometti que representam sua mulher, Annette:

20170105_121027-1

Em uma vitrine, estavam expostos juntos, em diagonal, o segundo retrato de James Lord por Picasso e um dos numerosos desenhos que dele fez Giacometti, ambos pertencentes ao Musée Picasso:

20170105_114709

A exposição mostrava trecho de um filme, em que Igor Stravinski conversa com Giacometti em francês, enquanto é desenhado por ele. Giacometti e Picasso haviam sido amigos próximos – embora o primeiro fosse vinte anos mais jovem – e durante anos viram-se quase todos os dias. Depois, desentenderam-se e passaram a se ignorar. Stravinski, que também havia sido amigo de Picasso, já não o via há mais de trinta anos. Giacometti declara, com mágoa: “a amizade com Picasso… você sabe como é, não é?”. Stravinski declara ser Picasso “um monstro”. Giacometti confirma e conclui: “E ele sabe que é um monstro”:

Não sabemos se Dora leu Picasso and Dora, publicado em 1993. Ao morrer, em 1997, possuía ainda dezenas e dezenas de obras de Picasso – quadros, desenhos, esculturas, cerâmicas, fotografias, gravuras, objetos e pedras pintados, cortados ou esculpidos, ao todo mais de 130 itens. Sem família, sem parentes, ela terá imaginado que sua coleção seria herdada pelo Estado francês e ficaria intacta, em um museu. Após sua morte, porém, duas primas de quem ela nunca ouvira falar, uma croata, a outra francesa,  apresentaram-se como herdeiras. Assim, aquela coleção de procedência única foi dispersada em um leilão, em Paris, em 1998.

Um amigo, na época, me mandou os três catálogos da venda:

20170902_151515

Havia dez óleos de Picasso na coleção de Dora Maar. Minha irmã os visitou, antes que fossem expostos ao público, no cofre-forte do banco parisiense onde esperavam o leilão.

Entre as peças, havia um desenho que Dora Maar fizera de Lord no verão de 1954, em Ménerbes, na fase mais intensa da relação dos dois. O comprador do desenho reconheceu no modelo James Lord quando jovem; por coincidência, era amigo do escritor e ofereceu-lhe de presente o retrato, que pôde assim  ser incluído em Plausible portraits of James Lord:

20170903_195557

Ao receber o presente, Lord ficou surpreso: já não se lembrava do desenho, feito quarenta e quatro anos antes. De todos os retratos que Dora dele fizera, esse fora o único que ela guardara para si. Ao examiná-lo, percebeu que ele só podia ser fruto de um sentimento forte, intenso: “Dora must have been astonished to see what she had done, for the model´s likeness is rendered with such a revelation of the artist´s own emotional tenderness that it is a disclosure which reaches frankly beyond affection”. Em resumo, Lord entende, em 1998, que fora amado por Dora Maar em 1954. Sobre seus próprios sentimentos declara que, em Ménerbes, muitas vezes ele se perguntara como fazer para transformar aquela amizade em algo perfeito e que, o tempo todo, a resposta estava disponível, mas que “sem perceber, despreparado, estava fadado a passar por ela sem notá-la”. Termina especulando que, se artista e modelo, em Ménerbes, tivessem dedicado tempo a examinar juntos o desenho, talvez sua amizade pudesse ter tido outra conclusão.

Para esse colecionador de imagens de si próprio, o retrato feito por Dora demonstra o poder da arte de provocar em um ser humano a auto-revelação.

 

 

 

 

De carro pela Provença

De carro pela Provença

Quando criança, morei em Rhode-St-Genèse durante quase cinco anos, como registrei em O Triunfo da Cor e em Papai Noel e a amizade.  O que não contei ainda é que, todo verão, íamos ao Sul da França visitar meu avô materno. Todo ano, ele passava uma temporada em Cannes, hospedado no Carlton. Íamos vê-lo de carro, da Bélgica, atravessando a França, com várias paradas, meus irmãos e eu sentados no banco de trás, frequentemente com algum dos nossos animais domésticos no colo.

Meu amor pelo mar vinha desde sempre, já que sou carioca e, durante a minha mais tenra infância, antes da mudança para a Bélgica, morávamos em frente à praia de Copacabana, justamente com meu avô materno, o que se hospedava no Carlton. A precisão é importante, porque meus irmãos e eu tivemos dois avós maternos.  Eram ambos homens boníssimos e superiores, cada um no seu estilo: um, baiano morando no Rio de Janeiro e francófilo; o outro, fazendeiro mineiro na Zona da Mata. Eles jamais se viram ou se falaram, mas estavam perfeitamente cientes da existência um do outro. Eram pessoas sem excentricidades, fora o fato de que tinham amado – e possivelmente ainda amavam – a mesma mulher, minha avó, amaldiçoada por rara beleza e poder de atração, que provocara um escândalo na família ao se separar, aos 19 anos de idade, do primeiro marido, meu avô mineiro. Bahiano e mineiro ambos adoravam a filha que compartilhavam, minha mãe.

Na Avenida Atlântica, à noite, eu ficava na cama, acordado, ouvindo o barulho das ondas. A vista da praia de Copacabana provoca ainda em mim uma forte sensação de segurança e felicidade, embora hoje em dia eu veja o oceano mais usualmente de São Conrado, como ilustrei com esta foto, em Minha vista no Rio de Janeiro:

wp-image-2050378830jpg.jpg

Este ano, em julho, ao passar uma semana em Aix-en-Provence para o Festival de Ópera, aluguei um carro e decidi dedicar ao menos um dia ao Mediterrâneo; o calor estava intenso na Provença e eu queria dar um mergulho. A Côte d´Azur seria longe, para ir e voltar no mesmo dia – ainda mais porque iria ao teatro de noite – mas Cassis, que conheço bem, fica perto de Aix:

20170811_182400

A intensidade do azul no mar estava marcante naquele dia:

Mediterrâneo

Perto da praia, porém, havia tonalidades verdes:

Meciterrâneo 2

As expedições anuais à Côte d´Azur na minha infância incluíam passeios pela Provença. Começou aí o meu amor pela região, o que é comprovado pelo fato de que um dos primeiros livros que comprei na infância – ou pedi que comprassem para mim – foi este:

20170811_183255

Assim como preservo ainda muitos amigos da infância, guardo com carinho meus primeiros livros.

Em julho, com o carro alugado, fiz outros passeios, além da ida a Cassis para um mergulho. Sobretudo, realizei uma ambição de anos, até então nunca realizada: contornar a Montagne Sainte-Victoire. Celebrada por Cézanne – que era nascido e criado em Aix e lá faleceu – em dezenas de quadros, o morro é quase um ser vivo para os provençais, de tão mítico. Cézanne o via desta forma:

20170104_172334Tirei a foto acima em Paris, em janeiro, ao visitar na Fondation Louis Vuitton  a exposição sobre a coleção Shushkin, sobre a qual falei em Paris – Moscou – Paris. Intitulado Montagne Sainte-Victoire vue des Lauves, pintado entre 1904 e 1905, o quadro pertence hoje ao Museu Pushkin, em Moscou.           

Comecei a visita à montanha pela vertente Sul, seguindo a estrada D 17, conhecida como Route Cézanne, pois ela passa, em seu início, por vilarejos frequentados pelo pintor.  Fui parando em aldeias ou no meio do campo, para fotografar a Sainte-Victoire:

IMG_20170716_141909_884

A estrada estava vazia; desliguei o ar condicionado e abaixei o vidro, para ouvir as cigarras enquanto dirigia. Reservara mesa para almoçar no restaurante Relais de Saint-Ser, perto da aldeia de Puyloubier. Quase encostado na montanha, o restaurante olha para um vale e da minha mesa, no terraço, eu tinha a seguinte vista:

20170811_191832

Essa é uma região vinícola, a Côtes-de-provence Sainte-Victoire, e o Saint-Ser é também um domaine, produzindo o seu próprio vinho. Como eu estava guiando, não quis ir parando de vinícola em vinícola, provando vinho. Apenas, tomei no almoço um copo de rosé, de um produtor vizinho, o Domaine Sainte Lucie. É, provavelmente, o melhor rosé que já tomei.

Esta foto, que tirei na beira da estrada, coloca em uma mesma imagem vários clichés da Provença – o cipreste, o campo de lavanda, as videiras e a Montagne Sainte-Victoire:

20170813_155800

Ao sair do restaurante, antes de entrar no carro, gravei este vídeo, para registrar o canto das cigarras:

Segui meu caminho… continuei parando, tirando fotos, sempre acompanhado pelas cigarras:

20170811_202818-1

Gradualmente, cheguei à vertente Norte, onde se encontra aquele que era um de meus objetivos principais no passeio: o castelo de Vauvenargues, o qual, da estrada, aparece assim:

20170812_213432

Como mencionei em Tracey Emin e eu, Luc de Clapiers, marquês de Vauvenargues, oficial do exército morto em 1747 aos 31 anos, é hoje meu moralista predileto:

20170812_120840

Nascido em Aix, faleceu em Paris desconhecido, pobre, desfigurado pela varíola, tendo levado uma existência triste e frequentado na capital apenas uns poucos amigos, entre eles Voltaire, vinte anos mais velho do que ele.  Após a morte de Vauvenargues – que ao deixar o exército não conseguira ser diplomata por causa de sua sáude combalida – Voltaire escreveu: “Foi graças a um excesso de virtude que você não foi infeliz, e essa virtude não te custava esforço algum. Sempre reconheci em você o mais desafortunado dos homens, e o mais tranquilo”.

Vauvenargues viveu, na juventude, no castelo paterno, que ganhou súbita fama na segunda metade do século XX por ter sido comprado, em 1958, por Picasso, que lá passou relativamente pouco tempo, mas nunca dele se desfez. Enterrado no parque da propriedade, Picasso acabou lá ficando para a eternidade. O castelo pertence ainda aos herdeiros de sua última mulher, Jacqueline Roque, e não é visitável, como mostra a placa pouco simpática, mas de certa forma engraçada, colocada no portão:

20170811_205403

Ri particularmente com a frase: “O museu fica em Paris”.

Picasso parece ter comprado o castelo sobretudo para se associar a Cézanne, a quem não conheceu pessoalmente, mas que admirava, que o influenciara e de quem possuía obras. John Richardson escreve no segundo volume de sua biografia de Picasso, com quem conviveu, que os sentimentos do artista por Cézanne não eram puramente reverenciais. Picasso via Cézanne como “a mentor whose shadow he wanted to assimilate as well as escape”, enquanto ao mesmo tempo o chamava de “mother, father and even grandfather”. Como um pai, “Cézanne had to be transcended – exorcised – metaphorically killed”. No catálogo da sensacional exposição Picasso, the Mediterranean years, 1945-1962 que organizou para a galeria Gagosian, em Londres, em 2010, e que tive a sorte de visitar, Richardson escreve: “Vauvenargues might also have proved a mixed blessing in regard to Cézanne. Picasso had devoured Cézanne at the time of Cubism, but after poaching on his favourite motif he may well have felt in danger of being devoured himself”.

O  catálogo – cuja qualidade faria, como a exposição na Gagosian, muito museu empalidecer –  inclui esta foto tirada por Edward Quinn de Picasso e Jacqueline Roque, olhando pela janela de uma sala de Vauvenargues:

20170812_201549

Fico imaginando o moralista dois séculos antes, olhando melancolicamente pela mesma janela do castelo do pai, com quem mantinha relações difíceis, sem poder prever a Revolução de 1789 e as seguintes, as duas Guerras Mundiais e a chegada na propriedade paterna do espanhol genial – que era também um pai difícil.

Outro amigo de Picasso, David Douglas Duncan, publicou em 1961 livro surpreendente, Picasso’s Picassos, sobre o que eram até então centenas de obras desconhecidas do artista, guardadas no castelo de Vauvenargues e em outra de suas propriedades, La Californie, perto de Cannes. O livro apresenta fotos preciosas tiradas por Duncan, como estas duas, de Picasso diante da fachada de Vauvenargues e sentado no salão transformado em estúdio:

20170812_205103Duncan se orgulha, com alguma razão, de ter conseguido capturar o arco-íris coroando o castelo e o artista: “the most remarkable combination of natural phenomenon with newsbreak timing”. Segundo ele, “No single landmark is more renowned in modern art than Sainte-Victoire”, por causa de Cézanne.

20170812_205217

Duncan menciona no livro ter ouvido de Picasso o comentário de que, com a compra do castelo, parte da montanha, inclusive o pico, agora lhe pertencia. Isso me faz lembrar ter ouvido de uma amiga em Quito, proprietária da melhor livraria da cidade, que a escritura de posse da fazenda familiar especificava: “Incluye el cerro”. O “cerro” em questão era nada menos que o magnífico Chimborazo, vulcão de mais de 6.200 metros de altitude.

O castelo fica entre a montanha e a aldeia de Vauvenargues, Aqui, a rua principal:

20170812_205447

Da aldeia, há vistas excelentes do castelo:

20170813_135822

Vendo a cena acima, lembrando que o escritor e o artista viveram nessa casa e que a montanha, atrás, inspirou Cézanne,  pensei que  o modesto vilarejo de Vauvenargues acabou sendo um farol da cultura ocidental.

Era tempo de regressar a Aix. Retomei a estrada, sempre bela, quase sempre vazia:

20170812_220442

Pouco após Vauvenargues, notei que eu passava entre a Sainte-Victoire à esquerda e, à direita, um campo de lavanda. Parei o carro e saltei. O campo de lavanda ficava em uma propriedade particular, mas não havia cerca e a casa era distante.  Andei pelas flores, fixando a montanha, impressionado com o silêncio – quebrado apenas pelas cigarras – com o isolamento, com a beleza do lugar.

20170716_172620~2

Seria poético eu dizer que ali, naquele campo de lavanda, encarando a Sainte-Victoire, pensei nas inúmeras vezes em que, criança e adulto, passeara de carro pela Provença; dizer que meditei sobre o tempo, as incoerências da vida, a impermanência das pessoas e das coisas, que deve nos fazer valorizar o que se revela permanente; dizer que refleti sobre o poder da arte e da literatura para dar sentido à vida, e que se Vauvenargues, Cézanne e Picasso, seus sonhos, decepções e experiências vieram e se foram, eles ao menos nos deixaram obras que ajudam a tornar nossas vidas mais ricas, suportáveis.

Mas nada disso aconteceu. Parado sozinho naquele momento, naquele lugar, pensei apenas na felicidade que era ver a imponência da montanha, sentir o perfume da lavanda, ouvir as cigarras, viver plenamente aquelas sensações, exercitar os meus sentidos, atento somente ao que me rodeava.

Enviei a foto da lavanda aos pés da Sainte-Victoire à minha mulher e à minha filha e regressei a Aix. Ainda pude visitar uma exposição antes da ópera.

 

 

 

 

 

 

Macron: uma foto e três livros

Macron: uma foto e três livros

20170806_173249-1

Em meados de julho, passei uma semana em Aix-en-Provence. Os jornais franceses ainda analisavam a foto oficial de Emmanuel Macron, divulgada pelo Palais de l´Élysée em 29 de junho:

A fotografia foi tirada por Soazig de La Moissonnière, que acompanha Macron desde a campanha eleitoral e tornou-se, com sua eleição, fotógrafa oficial do Presidente.

Todos os detalhes da foto foram dissecados na imprensa e nas redes sociais e nem o relógio – presença aparentemente anódina – escapou. Sabemos tratar-se de uma peça do século XVIII, de duas faces, normalmente vista no Salon Murat do Élysée, onde se reúne toda quarta-feira o Conselho de Ministros. Antes de cada reunião do Conselho, o relógio é tirado da lareira onde fica e colocado sobre a mesa. Sentados um frente ao outro, rodeados de seus Ministros, o Presidente e o Primeiro-Ministro acompanham, de cada lado da mesa, o andar das horas. Ao figurar na foto oficial, o relógio cumpre uma função política e também bem-humorada, pois desde a campanha presidencial Macron se auto-define como “le maître des horloges”. Com isso, ele quer dizer que é dono de seu tempo e não aceita ser apressado ou retardado por circunstâncias externas à sua pessoa. O relógio na foto provavelmente significa que, sendo agora Presidente, Macron tenciona determinar também o tempo político, o que poderá ser facilitado pela maioria que obteve nas eleições legislativas de junho, mas talvez dificultado pela brusca queda, desde que a foto foi tirada, na sua popularidade.

As bandeiras francesa e europeia indicam que, ao se colocar entre elas, o Presidente quer reiterar sua posição como garante do compromisso da França com a União Europeia. A janela aberta às suas costas, que leva o olhar ao jardim do palácio, é uma forma de declarar que fará um governo aberto, transparente, “arejado”. Desde a divulgação da foto, porém, o Presidente tem sido criticado pela reticência em se submeter a coletivas de imprensa. Os dois celulares à sua direita demonstram o espírito moderno, tecnológico, empreendedor que quer atribuir à França. Muitos notaram que o galo – símbolo do país – do tinteiro está refletido sobre o celular superior. A meu ver, o rosto revela decisão e segurança, mas alguns quiseram ver o oposto e consideraram que o ar é crispado e mostra ansiedade e tensão.

O jornal Le Figaro consultou fotógrafos profissionais. O artigo resultante apresentou críticas; vários opinaram que o enquadramento é estreito demais para tanto objeto na foto, criando uma sensação de asfixia no observador (“on étouffe”). Em outros veículos, alguns consideraram a foto exagerada quanto ao glamour e um gozador no twitter escreveu: “Adoro o novo anúncio do Dior” (“J´adore cette nouvelle campagne Dior!”). A edição francesa da revista GQ publicou, em sua página eletrônica, artigo crítico do traje do Presidente; considerou, por exemplo, que a gravata era estreita demais para o nó Windsor. Sem dúvida, faz todo sentido que o Presidente da França – país detentor da bomba atômica, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e motor fundamental da integração europeia – se preocupe toda manhã se fez o nó certo da gravata.

Os três livros sobre a escrivaninha são o que mais me interessou. Sua presença não é casual. Trata-se de três volumes de autores diferentes, mas todos publicados pela prestigiosa coleção da Bibliothèque de la Pléiade – sobre a qual já escrevi no blog, particularmente nesta postagem – publicada pela editora Gallimard. Assessora de imprensa de Macron, Sibeth Ndiaye divulgou este vídeo sobre a preparação do Presidente para a foto oficial:

Após empilhar cuidadosamente os dois celulares, Macron folheia um dos volumes – o que na foto ficará aberto à sua direita, na beirada da escrivaninha – escolhe uma página, transmitindo a ideia de que busca um trecho específico de sua predileção, no qual busca inspiração. Não sabemos que página abriu, que frase desejou deixar ao seu alcance. De resto, os funcionários do Élysée comentariam depois que o vento vindo da janela aberta fez as páginas abertas mudarem.

O Élysée revelou que o volume tratado com tanta atenção por Emmanuel Macron são as Memórias do Général de Gaulle. Vários comentaristas opinaram que com isso o Presidente quis transmitir ao país uma mensagem centrista, de harmonia, já que de Gaulle se considerava um aglutinador de forças políticas.

Abro por acaso livro que acabo de aquirir:

20170730_171843

e leio, na página 235, que ao renunciar ao cargo de Presidente do Governo provisório em janeiro de 1946, de Gaulle anunciou ao Conselho de Ministros que o fazia por observar que “O regime exclusivo de partidos reapareceu. Eu o condeno […] Vocês assumem as disputas de seus respectivos partidos. Não é assim que eu compreendo as coisas. Por isso, eu me demito”.

Não vi, no contexto da foto oficial de Macron, nenhuma análise que lembrasse um outro aspecto do legado do Presidente Charles de Gaulle, que pode também ser relevante. Suas Mémoires de guerre se iniciam com a célebre frase “Toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France”. Duas frases depois, o General declara que a França está prometida a um “destino eminente e excepcional”. De fato, de Gaulle permanece associado à noção de “grandeur”: uma França firme, de forte presença política e cultural no mundo, respeitada. No discurso em que, em novembro de 2016, lançou sua candidatura às eleições presidenciais, Macron declarou estar imbuído de “un sens de l´Histoire”.

Os dois outros volumes da Pléiade na foto, à esquerda do Presidente, são obras de Stendhal e de Gide; segundo o Élysée, respectivamente, Le Rouge et le Noir e Les Nourritures terrestres. A informação nos fornece uma precisão aparentemente desejada pelo Presidente. Com efeito, tanto as obras de Stendhal como as de Gide são editadas em vários volumes na Pléiade, cada um contendo muitos títulos, como mostram as fotos abaixo, tiradas em uma livraria de Aix:

20170719_141138~3Les Nourritures terrestres, de Gide, está incluído no primeiro de dois volumes de Romans et Écrits

20170719_135624Le Rouge et le Noir aparece no primeiro de três volumes de Oeuvres Romanesques Complètes, na mais recente edição de obras de Stendhal na Pléiade (a edição que tenho em casa é a anterior)

Sobre Le Rouge et le Noir, escrevi em minha postagem Papai Noel e a amizade: trata da ambição de um provinciano, Julien Sorel, que se envolve com uma mulher mais velha, vem a Paris, faz sucesso – até aqui parece que estamos lendo o resumo da vida de Macron – mas no final é condenado por ter atirado em sua ex-amante e guilhotinado. Macron poderia ter preferido fazer referência a outro retrato clássico da literatura francesa de um jovem ambicioso de origem provinciana, o Eugène de Rastignac de Balzac, um dos personagens principais de Le Père Goriot que, em volumes posteriores de La Comédie Humaine, faz bela carreira política e vira Ministro de Estado, sendo assim mais bem-sucedido do que Julien Sorel. Embora os romances em que transcorre a saga dos dois personagens tratem ambos do mesmo período histórico, o da Restauração dos Bourbons após a queda de Napoleão, Julien Sorel, de origem humilde, é bem mais atraente, como figura literária, do que Rastignac, falido mas nobre e, portanto, inserido no “sistema” que destruirá Julien Sorel. Este é o herói da juventude e de seus entusiasmos, enquanto que Rastignac é o modelo para os calculistas. Ao escolher Le Rouge et le Noir, Emmanuel Macron declara ser stendhaliano, portanto alguém para quem a busca da felicidade e do amor é importante, enquanto que Rastignac era movido sobretudo pela ambição. A escolha de Macron, assim, quer revelar um lado poético, idealista da alma presidencial, que conviveria bem com o lado ambicioso. É possível também que Macron tenha querido fazer uma alusão bem-humorada a quem  critica seu casamento com uma mulher bem mais velha.

A opção por Les Nourritures terrestres é menos óbvia para o público de hoje. É importante ter presente que o livro de André Gide, publicado pela primeira vez em 1897, foi, para muitas gerações de jovens franceses, um guia libertário. Pelo menos até a década de 70, influenciou o público e intelectuais. Como mencionei na postagem sobre Tagore, a fama de Gide foi colossal. Coroou-se, em 1947, com o Prêmio Nobel. Hoje, ele já não é tão lido.

Les Nourritures terrestres contém a célebre frase “Famílias! Eu vos detesto!”. Trata-se de um poema em prosa, com belas imagens sobre a luz, a natureza, as árvores, o mar, a chuva. É uma celebração da sede de viver, da sensualidade, do individualismo e um incentivo à independência – inclusive com relação ao próprio livro e à sua mensagem. Ao contrário de Le Rouge et le Noir – clássico dos clássicos – Les Nourritures, como seu autor, é hoje desconhecido do grande público. Coaduna-se com o livro de Stendhal, porém, ao fazer a apologia da libertação do ser humano de toda restrição familiar ou social que impeça sua felicidade.

Encontro no Journal de Gide, na entrada para 26 de agosto de 1926, a seguinte apreciação sobre Les Nourritures, que o autor então revisava para nova edição: “Leio nele a permissão para ser” (“J´y lis la permission de devenir”). Deve ser entendida dessa forma a decisão de Macron de inserir o livro na foto oficial: em sua vida pessoal como em sua rápida ascensão política, desafiou várias convenções para criar uma identidade muito particular e, contra todas as expectativas, tornar-se aos 39 anos Presidente da França.

A fotografia oficial de Macron tem o propósito de declarar ser o Presidente uma figura excepcional. Homem mais jovem a assumir o poder supremo na França desde Napoleão, como este casado com uma mulher mais velha e protagonista de uma ascensão fulgurante, Macron quer mostrar-se na foto como moderno, dinâmico, seguro, independente, sem amarras políticas, capaz de levar a França rumo a um futuro promissor e, ao mesmo tempo, como um conhecedor do passado e das tradições de seu país, lido, instruído, culto. Trata-se de imagem coerente com a mensagem que procurou passar durante a campanha eleitoral e é, assim, notavelmente eficaz.

Paterson – Jim Jarmusch

Paterson – Jim Jarmusch

Paterson III

Em dezembro de 2015, no Rio de Janeiro, vi pela primeira vez um filme da série Guerra nas Estrelas. Naquele mês, foi lançado o episódio Star Wars: o Despertar da Força e, para agradar à minha família, fui ao cinema assisti-lo. Parecerá surpreendente para muitos, mas nunca antes eu desejara ver os filmes da série, partindo do princípio de que teriam uma psicologia primária, muita ação e pouca substância.

Continuo sem saber como são os filmes anteriores. Star Wars: o Despertar da Força, porém, apresenta ao menos um personagem de forte impacto psicológico: Kylo Ren, interpretado por Adam Driver. Na tela gigantesca de uma sala de cinema do Rio, em projeção 3D, estava recriado o tema da rivalidade de um filho com o pai. O ato mais bárbaro, mais cruel, que faria Sófocles e Freud tremerem de prazer e se sentirem precursores, era repentinamente mostrado, sem aviso prévio.

Kylo Ren, que poderia ter sido um mero vilão, ganhava, graças ao roteiro e ao talento do ator, uma dimensão complexa. Adam Driver nos mostra em Star Wars: o Despertar da Força um personagem que poderia ter optado pelo Bem mas decide-se pelo Mal em toda a sua vitalidade e todo seu tormento. É ainda um mistério como evoluirá Kylo Ren, mas uma redenção parece pouco crível,  à luz do que fez em seu filme de estreia.

Em Paterson, o novo filme de Jim Jarmusch, o ator nos mostra um personagem totalmente oposto a Kylo Ren em termos psicológicos, confirmando sua competência. Paterson é, ao mesmo tempo, o nome de um motorista de ônibus interpretado por Adam Driver, e o nome da cidade de Nova Jersey onde ele mora com sua mulher, Laura, interpretada com maestria por Golshifteh Farahani. Vimos a atriz iraniana, anteriormente, no papel de Mona, a presidiária atormentada do filme Dois Amigos, de Louis Garrel. Como Laura, Golshifteh Farahani mostra uma luminosidade e uma alegria de viver a anos-luz da infelicidade de Mona.

Este é um filme que faz forte uso da binariedade. Acompanhamos uma semana na vida de Laura e Paterson. Ao iniciar-se cada dia, vemos de cima os dois dormindo juntos na cama, frequentemente abraçados, com o dia da semana especificado na tela. Na primeira cena, quando os dois acordam na segunda-feira, Laura narra ao marido o sonho que tivera: tinham-se tornado pais de gêmeos. Frequentemente, nas cenas seguintes, gêmeos aparecerão no caminho de Paterson.

O casamento dos dois personagens principais é idílico. Um apoia o outro em sua rotina, seus sonhos, suas esperanças e também suas frustrações. Este é, em grande parte, um filme sobre duas pessoas boníssimas, que se amam e são felizes juntas, de forma calma e satisfeita. Quase toda noite, Paterson, enquanto passeia o cachorro, encontra no bar onde faz uma pausa antes de voltar para casa um casal que vive às turras e faz contraste claro – estabelecendo nova binariedade – com o casamento perfeito dos dois protagonistas.

Paterson é poeta nas horas vagas. Escreve quando pode, em um caderno. Laura possui também uma veia artística, para a qual procura dar vazão cozinhando cupcakes, fazendo cortinas para a casa, desenhando suas roupas e tentando se tornar cantora country. Esta foto, extraída da conta twitter do filme, mostra as quatro facetas artísticas de Laura:

Paterson

Como a colagem acima revela, Laura gosta do contraste entre as cores branca e preta – outra binariedade do filme – e até o violão, os cupcakes, a decoração da casa e parte de suas roupas, e mesmo  a coleira do cachorro, refletem essa preferência. Até mesmo quando o casal vai ao cinema, é para assistir a um filme em preto e branco.

Os apaixonados por poesia saberão que Paterson é também o nome de um longo poema de William Carlos Williams, homenagem à cidade. A obra de Williams é uma bíblia para o personagem de Adam Driver.

Tiro da estante nosso exemplar da coletânea de poemas de Williams publicada pela Penguin:

20170507_225029

Procuro o Prefácio do poema Paterson – do qual o volume oferece longos extratos – e vejo os seguintes versos:

20170507_225139

Justamente, os dois personagens principais do filme convivem bem – a ponto de parecerem simples – com suas próprias complexidades. As de Laura são evidentes, pois ela tenta encontrar um caminho para suas pulsões artísticas. As de Paterson, talvez mais maduro do que Laura, são menos óbvias, a não ser pelo fato de ele ser um motorista de ônibus que possui uma visão poética da vida. O que Jarmusch postula é que a beleza está em toda parte, mesmo nas atividades mais prosaicas, e que uma profissão manual, como a de motorista de ônibus, oferece a possibilidade de observar, pensar, meditar e de transformar em poesia o cotidiano. Em suas andanças, Paterson encontrará uma adolescente – ela tem aliás uma irmã gêmea – que escreve, como ele, poemas em um caderno. Ela lê uma de suas obras para Paterson, não percebe ser ele também poeta mas vê que gosta de poesia e ao partir, exclama: “Imagina, um motorista de ônibus que lê Emily Dickinson!”.

Frequentemente, Paterson escreve em seu caderno na hora do almoço, olhando as cataratas da cidade, celebradas por William Carlos Williams no poema Paterson: the Falls. Após um drama doméstico, Paterson estará, na última cena, sentado uma vez mais frente às cataratas, desta vez sentindo-se desencorajado em sua vocação como poeta. Sendo o filme de Jim Jarmusch celebratório da poesia e da beleza nas pequenas coisas, Paterson manterá, sentado no banco, uma conversa inesperada, com um personagem que até então não aparecera no filme e que dará a ele ânimo renovado para escrever. No universo criado por Jarmusch, artistas e poetas aparecem de forma corriqueira, e um dos prazeres do filme é constatar a facilidade com que surjem frente a Paterson almas parecidas com a sua.

Em casa, Paterson possui pequena biblioteca, no porão. A câmera, quando mostra os livros, passa por eles rapidamente. O único mostrado mais assiduamente é uma coletânea de primeiros poemas de William Carlos Williams, em capa dura, que Paterson folheia com frequência, por exemplo na cozinha, e da qual lê para Laura o que é aparentemente o poema predileto de sua mulher, This Is Just To Say:

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

Durante o filme, vários poemas do personagem de Adam Driver nos são mostrados na tela e lidos. Seu verdadeiro autor é o poeta Ron Padgett. Como o filme de Jarmusch e os versos acima de William Carlos Williams, de predileção de Laura, os poemas escritos por Padgett especialmente para o filme mostram a beleza das coisas ou dos momentos simples, que podem porém servir de parábola para sentimentos fortes. Estão disponíveis na página eletrônica de  The Poetry School.

Em determinado momento do filme, enquanto Paterson escreve no porão e a câmera passa rapidamente por sua pequena biblioteca, reconheci um livro de que possuímos  exemplar em casa. Trata-se da coletânea de contos do escritor irlandês William Trevor, lançada pela Penguin em 1993:

20170508_004412

O que se vê na prateleira de Paterson, na verdade, é a lombada do livro, que na nossa estante aparece assim:

20170509_102903

A imagem passa com pouca nitidez na tela e a câmera não se detém em nenhum título em particular. Quem não conhece essa edição da obra de Trevor, ou o nome do autor, não tem como reparar na presença do volume na prateleira de Paterson. Reconhecer em um filme um livro que possuo provoca em mim processo de identificação com os personagens, como registrei em meu comentário sobre O Plano de Maggie, e não foi diferente desta vez.

Alguns anos atrás, eu lia assiduamente os contos de William Trevor, morto em 2016 aos 88 anos. Vê-lo celebrado como uma das fontes da inspiração de Paterson surpreendeu-me. Se de um lado Trevor fala do cotidiano, como o filme de Jarmusch, de outro seus personagens são em geral sofridos e frustrados. Raramente, uma história de amor termina bem em Trevor. Seus personagens vivem em galáxia diferente daquela onde Laura e Paterson compartilham, com serenidade, sua felicidade. A presença do livro de William Trevor no filme pode ser apenas uma homenagem do diretor a um escritor de sua predileção. Fica em mim, porém, a indagação: talvez Jarmusch tenha querido mostrar, em seu filme, uma certa superioridade sobre Trevor, criando uma obra de arte onde o amor triunfa e onde os dois personagens principais têm vocação para a felicidade. “Superioridade”, porque deixar o espectador interessado é mais difícil quando se trata de uma história feliz.

Laura e Paterson são seres humanos intrinsicamente bons, de uma pureza admirável e inspiradora. Jim Jarmusch nos mostra a vida como ela pode ser, se assim quisermos: bela, rica, variada, reta, transparente e simples.

Paterson – ficha técnica

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.121 outros seguidores