Afonso Borges e o idealismo

Afonso Borges e o idealismo

O Brasil é um país feliz. Desde o grande sucesso da última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, outros eventos voltados às letras e às ideias já se realizaram, e agora estamos nos aproximando do Festival Literário Internacional de Paracatu, o Fliparacatu.

Perguntei ao escritor Afonso Borges, idealizador do festival, que acontecerá entre 26 e 30 de agosto, quantas pessoas são esperadas: “umas 30 mil”, ele respondeu; “ano passado foram 25 mil”. A programação inclui tantos participantes, que não posso citar todos, cometendo assim uma injustiça, mas a lista completa talvez ocupasse o espaço inteiro de que disponho nesta coluna.

Lá estará Beatriz Bracher, ganhadora no ano passado do Prêmio Machado de Assis de melhor romance da Fundação Biblioteca Nacional pelo primeiro volume de seu livro sobre a Guerra da Tríplice Aliança, ou do Paraguai, Guerra – I. Recebi o livro como presente de aniversário, em janeiro, de uma prima particularmente querida, a cineasta Lucia Murat, e por isso ele possui valor duplo para mim.

Lá estará Bruna Lombardi, com a nova edição de seu Diário do Grande Sertão. Este ano, comemoram-se setenta anos da publicação do romance de Guimarães Rosa e quarenta anos da série de televisão na qual a atriz e escritora interpretou, celebremente, Diadorim. Justamente, o Fliparacatu deste ano é pensado como uma homenagem ao autor de Grande Sertão: Veredas e ao geógrafo Milton Santos.

Lá estarão duas finalistas do Troféu Juca Pato, Prêmio Intelectual do Ano, — o resultado será conhecido em setembro —, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, cuja participação na FLIP foi uma das mais celebradas e concorridas, e a escritora Eliana Alves Cruz, ganhadora do Prêmio Jabuti e do Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras.

Lá estará a poeta Fabiana Carneiro da Silva, a quem conheci há poucas semanas — graças, aliás, a Afonso Borges — aqui em Luanda, onde ela viera realizar pesquisa para seu pós-doutorado. Não percam a sua participação em Paracatu, pois é contagiante o entusiasmo que ela transmite ao falar da sua área de estudo, a presença dos provérbios de matriz africana na literatura brasileira. Ao escutá-la a respeito, captamos uma luz nova, fascinante.     

Lá estará Natalia Timerman, cujo notável romance Copo vazio mencionei em coluna anterior, “O delírio do Chimborazo”. A literatura, para mim, funciona assim: você está escrevendo sobre a experiência vivida no Equador por João Cabral de Melo Neto e encontra um desvio para poder citar um livro favorito de outro autor, no caso autora. Afonso Borges não é alheio a tais bifurcações. Em seu livro Tardes brancas, em um conto sobre Murilo Rubião, de quem foi amigo, cita duas vezes Maurice Druon.

Lá estará Paulliny Tort, cujo romance Os imortais minha mulher e eu acabamos de ganhar de presente de um amigo mineiro. Não houve ainda tempo de lê-lo, mas notei que o exemplar enviado por Hudson Caldeira Brant é o seu próprio, pois está todo anotado e desenhado por ele. Os desenhos ilustram passagens ou personagens do livro e as anotações são citações em grego e latim ou versículos da Bíblia, inspirados em nosso colega latinista pela leitura do romance. Hudson Caldeira Brant me fez ver que as letras no cabeçalho de cada capítulo, quando as juntamos, formam um trecho do primeiro canto da Eneida. Quando lermos Os imortais, portanto, já teremos nossa própria edição comentada.

O meio literário brasileiro deve muito a Afonso Borges, incansável patrono de livros e escritores. É fundador, além do Fliparacatu, também do Fliaraxá, do Flitabira e do Flipetrópolis. Seu papel, porém, é ainda mais abrangente.

No prefácio de Tardes brancas, Humberto Werneck resume de forma esclarecedora a atividade de Afonso Borges. Ele criou, em 1986, o “Sempre um Papo”, projeto destinado, explica Werneck, a colocar “sob as luzes quem esteja lançando livro relevante e, com direito à participação do público, entabular uma conversa à qual se seguirá sessão de autógrafos”. Diariamente, na rádio Alvorada FM, apresenta a coluna “Mondolivro”. Trata-se, assim, de um esforço duradouro, incansável, de muito fôlego pela divulgação da literatura brasileira.

O meio literário pode ser competitivo, como qualquer outro ambiente profissional. No entanto, é na literatura que residem algumas das pessoas mais generosas com quem já interagi.

Além de Afonso Borges, idealista promotor de uma bela visão da palavra escrita, ocorre-me destacar, como exemplos de altruísmo na sua dedicação às letras, o poeta e editor Rogério Duarte, a escritora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, o jornalista literário Rodrigo Casarin, o escritor Beto Seabra e o escritor e jornalista Carlos Marcelo, diretor de redação do Estado de Minas e editor de seu caderno literário, “Pensar”.

Geografia e tempo estarão entre os conceitos mais relevantes no Fliparacatu, cujo material de divulgação acentua a busca, por cada ser humano, de seu lugar no mundo, lugar esse que pode ser “uma cidade, uma rua, uma casa, uma lembrança ou até uma pessoa”. Uma mesa tratará das “fronteiras entre memória, experiência e invenção”; outra abordará “memória, território, afetos e identidade”; uma terceira discutirá “a escrita como espaço de memória, imaginação e esperança”.

A mesma linha parece seguir o escritor e crítico Miguel Sanches Neto. Em uma resenha assustadoramente aguda do meu próprio Geografia do tempo, ele observa que as coisas no livro “se sobrepõem, em um palimpsesto em que a experiência direta e a indireta, as referências do outro e as próprias, o que foi e o que está sendo, a realidade vivida e a ficção sonhada a partir da arte, tudo se torna uma única pátria acolhedora”.  

Sérgio Abranches e Calila das Mercês, com Daniela Prado assinando a programação local, e Rafael Nolli se encarregando da curadoria infanto-juvenil, se juntarão, na curadoria do Fliparacatu, ao paladino das letras que é Afonso Borges.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 17 de agosto

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Lendo Proust no Brasil

Lendo Proust no Brasil

A memória de Marcel Proust foi intensamente celebrada nos anos em torno a 2022, centenário de sua morte. Em 2021, comemorara-se o sesquicentenário de seu nascimento. A bibliografia sobre sua vida e sua obra, já extensa, atingiu naquele período um patamar incontrolável.

Há muita satisfação em ver um autor predileto estudado, comentado exaustivamente. Mesmo os proustianos mais perseverantes, porém, nos vemos hoje diante da impossibilidade de ler tudo o que repousa nesse altar. E para quem está se decidindo a mergulhar em “À procura do tempo perdido”, existe o risco de ceder à tentação de ler sobre o romance, em vez de ler o romance.  

No oceano bibliográfico, dois livros publicados em 2022, ambos pela editora Gallimard, merecem menção especial, pela qualidade e o elo com o Brasil.

Comecemos pelo volume coletivo Proust-Monde: Quand les écrivains étrangers lisent Proust. Um de seus organizadores é o suíço-brasileiro Étienne Sauthier, especialista da difusão e da recepção de Proust no Brasil. Trata-se de uma coleção de textos em que escritores e tradutores de diversas nacionalidades relatam suas percepções diante da obra do autor francês. Segundo a prefaciadora, Blanche Cerquiglini, responsável pela coleção Folio classique, selo pelo qual o livro foi lançado, a antologia desvenda que “outros que nós, apartados pelo tempo e a distância, nos entendem tão bem quanto nós mesmos”.

Comentários de alguns autores brasileiros são incluídos, inclusive um artigo de 1983 de Antonio Candido, traduzido para o francês pelo professor Fillipe Mauro, que nos explica as idas e vindas do crítico em relação a Proust.

Entre os tradutores, há textos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, três dos responsáveis pela primeira tradução brasileira, editada de 1948 a 1957. Há uma entrevista com Rosa Freire d´Aguiar, que trabalha, juntamente com Mario Sergio Conti, em uma nova tradução, a terceira, da qual os dois primeiros tomos já foram publicados pela Companhia das Letras.

Em tributo aos novos tradutores, emprego, como eles, o título À procura do tempo perdido, em vez da versão anterior, Em busca do tempo perdido

Em seus artigos, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, respectivamente em 1925 e 1930, admitem que sua primeira leitura de Proust não os entusiasmou. Étienne Sauthier menciona a ironia de que, duas décadas depois, ambos viessem a se tornar tradutores da obra.  

A entrevista da consagrada autora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, realizada especificamente para os organizadores de Proust-Monde, revela não somente o que significa para ela lidar com Proust, mas como encara o ofício de traduzir.

No Instituto Rio Branco, somos ensinados a evitar adjetivos, para não perder a objetividade analítica. Mas a palavra que me ocorre, em relação ao texto de Rosa Freire d´Aguiar, é “brilhante”. Pinço algumas frases: “As obras não envelhecem, as traduções sim. Traduzimos com palavras de nossa época. E a língua evolui, termos se tornam obsoletos. Uma nova tradução é uma nova leitura”. Por isso, “retraduzir os clássicos é conceder-lhes permanência”. Comenta, deliciosamente, que, em um trecho, optou pela palavra “ensopado”, em vez de “gororoba”, porque esta última, de sabor muito brasileiro, deslocaria culturalmente a atmosfera da página proustiana.

Rosa Freire d´Aguiar sugere que o personagem mais difícil para o tradutor é Françoise — a cozinheira da família do Narrador. Corre-se o risco de transformar suas falas em um pastiche, de fazer dela uma caricatura.   

A última pessoa a trabalhar na casa de Proust, Céleste Albaret, foi a destinatária das palavras finais, três frases curtas, que ele escreveu, acamado, enfraquecido, horas antes de morrer. Cinquenta anos depois, Céleste Albaret publicaria as suas memórias e incluiria no volume uma foto do derradeiro bilhete. Descubro, para minha surpresa, que esse pequeno papel, hoje, mora no Brasil. Integra a coleção de Pedro Corrêa do Lago, como ele menciona em seu livro Marcel Proust: Une vie de lettres et d´images.

Perdi aqui o medo de adjetivar, então vá lá: “espetacular” é a melhor maneira de definir essa obra, premiada na França e prefaciada por Jean-Yves Tadié, atualmente o principal biógrafo de Proust. O livro de Pedro Corrêa do Lago é generosamente ilustrado. O dado crucial é que todos os cerca de 450 manuscritos, fotografias, desenhos e cartas mostrados pertencem a ele. Na introdução, modestamente, ele declara que seu objetivo não era escrever uma biografia de Proust; no entanto, é esse o resultado do seu trabalho. Organiza o texto em capítulos curtos, acompanhando a obra do escritor, e sua vida e a de seu círculo, de maneira cronológica, orientado pelos documentos que integram a sua coleção.

Igualmente inesperado é um fragmento de papel, onde Proust parece explorar uma alternativa à célebre abertura de seu romance, “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”, que Mário Quintana traduziu como: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”. No fragmento em questão, quando as provas com a frase “hoje icônica”, como bem diz Pedro Corrêa do Lago, já estavam com o editor, Proust examina esta alternativa: “Ao longo de muitos anos, à noite, quando eu acabava de me deitar […]”.  

Ao utilizar apenas o seu próprio material, Corrêa do Lago comunica uma experiência pessoal sobre o autor, pois afinal, como declara, “o contato físico com o papel que ele mesmo tocou é talvez o mais próximo que possamos estar de um ser admirado e que morreu antes do nosso nascimento”.  

Apenas um outro trabalho recente fala no escritor francês de maneira tão particular. Laure Murat, em Proust, roman familial, publicado em 2023 pela editora Robert Laffont, parte do fato de que antepassados seus o conheceram para nos entregar uma visão intimista de como “À procura do tempo perdido” modificou sua vida. Essa obra, porém, nada tem a ver com o Brasil; o espaço para me estender sobre ela é meu próximo livro, que espero poder terminar em breve.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 3 de agosto

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Em Bruxelas, o Hino brasileiro

Em Bruxelas, o Hino brasileiro

A notícia veio em dezembro: nossa filha e o namorado nos comunicaram que se casariam em junho. A cerimônia aconteceria em Bruxelas, cidade onde trabalham há muitos anos. Os convidados seriam exclusivamente amigos e parentes mais próximos dos noivos.

Minha filha e meu genro foram colegas de colégio na Bélgica. Anos atrás, recebi, em Brasília, um telefonema: “papai, só para avisar que estamos na prefeitura de Ixelles, onde acabamos de estabelecer uma união estável”. Ixelles é o bairro de Bruxelas, ou comuna, como lá se diz, onde eles vivem. Tentei dramatizar: “como? Você se casou e não nos convidou!”, mas ela retrucou: “não é um casamento, é uma união estável; nós decidimos e viemos. Não pude avisar antes”. 

Os leitores terão notado que se trata de uma pessoa independente. Ela não teve opção: desde que fez dezoito anos, minha mulher e eu, obrigados pelo nosso próprio trabalho, vivemos em outros continentes, longe dela, primeiro em Brasília, depois no Sudeste Asiático e agora na África.

Houve um breve momento em que minha filha conseguiu um emprego em Brasília e voltou a morar conosco. Aqueles foram meses radiantes para nós, que havíamos pensado nunca mais poder conviver com ela. Seu objetivo era instalar-se com o namorado, que é belga, em São Paulo, onde os dois trabalhariam. Revelou-se, porém, mais fácil para ela, detentora exclusivamente do passaporte brasileiro, conseguir, de Brasília, por meio de entrevistas virtuais, um emprego mais atraente em Bruxelas.

A cerimônia civil do casamento também se realizou na sede da comuna de Ixelles. Regressávamos a um local conhecido. Há muitos anos, já havíamos assistido, os três, naquele mesmo lugar, ao casamento de Henrique, um colega e amigo querido.

Nossa filha nada nos pediu para o casamento. Ela e o noivo cuidaram de tudo. Nosso papel era apenas estar presentes e nos comportarmos bem. Em contrapartida, não nos foi autorizado convidar nossos amigos. Abordei o assunto com uma dessas amigas em Bruxelas; ela reagiu elegantemente: “Quando nosso filho se casou há alguns meses, passamos por essa situação. Não pudemos chamar ninguém. Hoje em dia é assim. E está certo, é a festa deles”.

Recebemos, na verdade, uma incumbência. Buscar, na manhã da cerimônia, o buquê de flores. De início, pensei tratar-se de uma função periférica, para que não nos sentíssemos inúteis. Percebi o quão equivocado eu estava enquanto voltávamos a pé, do florista ao hotel. Caminhando pelas ruas residenciais desertas de Ixelles, entendi ser aquela uma experiência única. Nossa filha desenhara ela mesma o buquê. O modelo, que ela criou como um emblema do amor entre ela e o noivo, passou a ser exibido pela casa de flores em suas redes sociais.    

Uma consequência de vivermos sempre tão longe dela, é que não víamos seus colegas de escola há muitos anos. Revelou-se difícil reconhecer, na forma de adultos, pessoas que havíamos encontrado pela última vez como adolescentes. Cumprimentei Peter como se fosse Xavier. Tampouco conhecíamos pessoalmente seus amigos mais recentes, embora ouçamos referências a eles com frequência. Boa parte do dia foi passada com exclamações como: “Oh, então essa é que é a Lisa? E essa é a Monica? E essa a Dayana?”. Foi cruel constatar como, por causa da distância a que fomos condenados a viver, perdemos tanto do cotidiano de nossa filha.

A chamada prefeitura de Ixelles está instalada em uma casa culturalmente importante. Foi construída em 1833, para servir de residência à muito célebre cantora de ópera Maria Malibran e seu companheiro, um violinista belga. Eles se casaram poucos meses antes da morte da mezzosoprano, aos 28 anos apenas, em 1836, das consequências de uma queda de cavalo na Inglaterra.

Maria Malibran, figura ilustrativa da era romântica, ganhou, nas últimas décadas, fama renovada graças a outra mezzosoprano. Cecilia Bartoli, que idolatra Malibran, lançou, em 2007, um disco, “Maria”, com árias tornadas famosas pela predecessora. Em homenagem a Maria Malibran, Bartoli concebeu um museu itinerante sobre rodas, em uma espécie de trailer onde eram exibidos objetos pessoais, manuscritos, cartas, partituras e documentos ligados à grande cantora. Uma vez, em Bruxelas, vi na rua esse veículo e até hoje lamento não ter visitado a coleção que continha.

A família de Maria Malibran era inteiramente composta por músicos, compositores e cantores de ópera. Sua irmã quinze anos mais jovem, Pauline Viardot, outra mezzosoprano igualmente célebre, é conhecida pelos apreciadores de literatura russa por ter sido o grande amor de Ivan Turguêniev. Este ouviu-a cantar em São Petersburgo em 1843, e a partir daí ficou preso aos seus encantos até morrer em 1883. Seguia-a pela Europa e mudou-se para a França, entre outras razões, para ficar perto dela. Desenvolveu laços de amizade com toda sua família, inclusive com o marido de Pauline. Houve períodos em que dividia casa com eles.

Há debates sobre se escritor e cantora consumaram fisicamente sua relação. Henri Troyat, biógrafo de Turguêniev, acredita que sim, mas por apenas um curto tempo. De qualquer maneira, parece haver consenso de que Pauline Viardot valorizava a amizade com o escritor, mas não o amava da mesma forma ou com a mesma intensidade. Os dois cultivaram outros amores e, às vezes, ficavam meses, anos sem se encontrar, quando Turguêniev se instalava na Rússia por longas temporadas.    

O primeiro vereador de Ixelles, ao oficiar no casamento de nossa filha, observou estarmos no que fora a sala de música de Maria Malibran e seu marido belga, “que nesta casa viveram o seu romance”. Durante a cerimônia foi uma surpresa e uma grande alegria ouvir, tocado pelo pianista, no meio da seleção musical, um trecho do Hino Nacional brasileiro.

Dois dias depois, minha mulher e eu iniciamos o regresso a Luanda. Na parada em Lisboa comemoramos singelamente, com minha mãe e minha irmã, nosso aniversário de casamento.  

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A Seleção diante do mundo

A Seleção diante do mundo

Quando esta coluna for publicada, teremos, na véspera, derrotado a Noruega e passado para as quartas de final da Copa do Mundo masculina. Ou não. No futebol, tudo acontece, e as decepções, de certa maneira, formam parte da alegria. O elemento de imprevisibilidade é o que torna o jogo tão empolgante.

Quem poderia prever que a Alemanha, quatro vezes campeã, nossa algoz em 2014, em casa, no Mineirão, quando nos humilhou de 7 a 1, seria este ano eliminada já nessa fase nova, os 16 avos? Não chegou às oitavas de final. No entanto, esse resultado não era assim tão improvável. Depois de ganhar a Copa no Brasil, os alemães em 2018 e 2022 não haviam passado sequer da fase de grupos. Fomos desclassificados de maneira vexaminosa, em 2014, por um super-herói de pés de barro.

Este ano, nos 16 avos entre a Bélgica e o Senegal, foi o país africano que jogou melhor durante quase toda a partida. Terá relaxado na reta final, acreditando na vitória? O fato é que nos últimos minutos a Bélgica fez dois gols e empatou. Um pênalti nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação eliminou o Senegal do torneio.  

Em um dos meus grupos de WhatsApp, houve protestos de que a concessão do pênalti à Bélgica fora indevida. Analistas especializados parecem discordar, assim como meu genro, que é belga.

Tenho me pegado cantarolando, em Luanda, o bordão: “Todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta”. Os comentaristas do canal brasileiro pela qual venho assistindo aos jogos disseram, depois da vitória sobre o Japão: “Não é a Seleção de antigamente, mas é a seleção do único país cinco estrelas, minha gente, e isso impõe respeito”.

Recomendo um documentário em um serviço de streaming intitulado “USA 94: Brazil´s Return to Glory”. É fascinante observar como, na preparação para a Copa masculina de 1994, nos Estados Unidos, que viríamos a ganhar — nossa quarta estrela — Carlos Alberto Parreira era criticado. Errara ao convocar alguns jogadores, errara ao não convocar outros. É um hábito brasileiro: até fazermos o primeiro gol, tudo está péssimo, falta entrosamento no time, determinados jogadores não dizem a que vieram, o técnico não está à altura — pobre do técnico, quem quer que ele seja; compete com outros 220 milhões de especialistas. Mas aí ganhamos o jogo, e isso só pode ser, afirmam os mesmos críticos de alguns minutos atrás, porque estamos rumo ao troféu.

No exterior, a admiração pela nossa Seleção é em geral consistente. Em países que não se classificam para o torneio, é comum a população torcer pelo Brasil. De quatro em quatro anos, desde 2006, nós os frustramos, mas a sua lealdade é indefectível.

Em 2022, na Malásia, fui convidado pelo prefeito de Kuala Lumpur a assistir à partida das quartas de final contra a Croácia em um telão na Praça da Independência. Acompanharam-me vários amigos malásios que apostavam no Brasil. A Malásia nunca participou de uma Copa do Mundo; seu povo gosta da Seleção e, na sua maioria, torce por ela. Ou assim me diziam meus interlocutores. Mas quem sabe, talvez o embaixador da Argentina ouvisse as mesmas palavras gentis dos seus próprios amigos.

Em todo caso, a população presente à praça, naquele jogo de quartas de final, claramente queria ver o Brasil triunfar. Chovia muito. À medida que o jogo se desenrolava, a chuva ia passando e a multidão na praça aumentava. Sentia-me desapontado com a atuação da Seleção. Ao mesmo tempo, percebi estar reagindo de forma tipicamente brasileira: se o gol não viera ainda, só podia ser porque o time não estava bem. Notei algo, porém: o ânimo na praça mudara. O público já não torcia pelo Brasil, começara a acreditar na Croácia.

Impressões nem sempre são subjetivas. Naquela noite, era impossível eu não constatar que os lances sendo aplaudidos eram agora os da Croácia. O prefeito já não conversava comigo animadamente, como no começo do jogo. No intervalo, meus amigos, já desapontados, me ofereceram palavras de estímulo.

Ao final da partida, depois dos pênaltis, cumprimentei o embaixador da Croácia fazendo uso de termos diplomáticos e elogiosos. Esperava ouvir de volta algo como “vocês também jogaram bem”. Em vez disso, meu colega croata respondeu, esfuziante: “Não falei, quando cheguei? Não falei? Eu disse que se fôssemos para os pênaltis a gente ganharia! Eu sabia! Nosso goleiro é o melhor do mundo”. Não levei a mal. Se nós, brasileiros, nos ufanamos de nossa Seleção, é natural que outras nacionalidades façam o mesmo com as suas.

Também naquele ano de 2022, pouco antes de a Copa ter início, eu lera o livro de memórias do historiador malásio Khoo Kay Kim. Frases inesperadas, naquele contexto, apareceram diante de mim: “Foi também em 1958 que tive a revelação da Seleção brasileira, ao assistir à Copa do Mundo, que ela ganharia. Nunca eu vira futebol ser jogado daquela maneira. A Copa, assim, expandiu meu universo. Até então, o Brasil era para mim um país de que eu apenas ouvira falar em aulas de geografia”.

Durante a infância e a adolescência, onde quer que estivesse no nosso planeta, ao voluntariar minha nacionalidade eu recebia, sistematicamente, uma única reação: “Brasil! Terra do Pelé!”. Edson Arantes do Nascimento, adorado no exterior, simbolizou sozinho, durante décadas, aos olhos do mundo, um país inteiro.

No fim das contas, esse é o papel único que a Seleção e suas estrelas exercem, com suas vitórias e suas derrotas, suas glórias e suas tristezas: um elemento de poder brando, uma alegoria de Brasil. Talvez ganhemos o hexa este ano ou no futuro, talvez nunca. A Canarinho continuará, porém, a exercer o seu fascínio, galvanizando-nos, os brasileiros, e gerando, em outros países, amizade por nós.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 6 de julho

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Futebol na Opéra Bastille

Futebol na Opéra Bastille

Minha mãe, Thereza Quintella, estava na igreja no Rio um domingo à tarde, em janeiro. Terminada a missa, o padre avisou: “peço que permaneçam aqui dentro ainda por algum tempo, porque há tumulto na rua, vindo da praia”.

Passei pela mesma experiência no final de maio, em Paris. Não na missa, mas na Opéra Bastille. Ao final do espetáculo, o diretor da Ópera de Paris, Alexander Neef, apareceu no palco, antes mesmo de os artistas virem ser aplaudidos, e anunciou: “alguns de vocês, durante o intervalo, terão visto nos seus celulares que o Paris Saint-Germain derrotou o Arsenal e ganhou a Liga dos Campeões. Com isso, há tumulto na Praça da Bastille. Pedimos que permaneçam sentados até avisarmos que é seguro sair”.

Pensei tratar-se de alguma brincadeira, uma forma jocosa de celebrar a vitória do time. Afinal, a partida acontecera longe, em Budapeste. Inocentemente, eu passara o intervalo no bar do teatro, devorando um sanduíche, lendo o programa. Tudo dentro da minha política de viver o presente, de me concentrar na situação em que me encontro. Ligara o celular apenas para escrever para Londres, à presidente de uma fundação cultural privada que promove montagens de óperas na China e na Europa. Recomendei-lhe que viesse a Paris assistir àquela produção.

Haveria muito a dizer sobre “Ercole amante”, ou “Hércules apaixonado”. Composta em 1707 por uma veneziana residente na França, Antonia Bembo, a obra até recentemente nunca fora ouvida, nem mesmo na época da artista. A partitura dormira abandonada na Biblioteca Nacional da França. Em 2023, houve em Stuttgart uma apresentação em versão concerto, com cortes; e, no final de 2025, uma produção em São Francisco. 

A criação na Opéra Bastille era, assim, um acontecimento. Ouvíamos o que praticamente ninguém jamais ouviu. Quanto a Antonia Bembo, soube de sua existência em 2019, quando, para comemorar o Dia Internacional da Mulher, o então embaixador da França no Brasil, Michel Miraillet, organizara um concerto na embaixada com o grupo brasiliense Estúdio Barroco. Foram tocadas apenas obras de compositoras, todas dos séculos XVII e XVIII.     

No auditório da grande casa de ópera, comecei a desconfiar que talvez o anúncio do diretor merecesse ser levado a sério. Notei que o público continuava sentado, mesmo após os agradecimentos dos artistas. Perguntei a um casal sentado atrás de mim: “Não pode ser nada tão sério que nos impeça de sair?”. Eles me explicaram: “Ano passado, quando o Paris Saint-Germain também ganhou, foi terrível, houve muita violência e destruição”. Acessei o celular. A manchete em um jornal francês informava: “PSG-Arsenal: duas pessoas feridas, tiros de rojão, lojas saqueadas… os incidentes se multiplicam em Paris e na França”.

Depois de algum tempo, Alexander Neef reapareceu. Informou: “Vamos liberá-los, mas vocês não poderão sair pela Praça da Bastille, a situação não se acalmou ainda. Sairão pela rua lateral. Isso vai levar um certo tempo”. Formou-se uma fila. Tendo atingido a porta, não resisti. Em vez de continuar pela rua relativamente segura, dirigi-me à praça.

Tumulto seria pouco para definir a cena. Pessoas corriam e gritavam e se empurravam. Fogos estouravam no ar incessantemente. Labaredas surgiam do chão. De todos os lados, soavam as sirenes da polícia. O espírito não era de alegria e confraternização, mas de tensão. Passantes incautos, com medo no olhar, pareciam querer se afastar o mais rapidamente possível.

O cenário me fez lembrar que ali mesmo, em 14 de julho de 1789, no local onde hoje se situa a praça, a fortaleza da Bastilha, usada como prisão pelos reis da França, fora conquistada. Derrubar um símbolo detestado do absolutismo pareceu-me, porém, razão mais justificável para tanto caos.

Pensei uma vez mais na sabedoria da minha mulher que, na última hora, decidira não sair comigo e permanecer no hotel. Um sexto sentido, supus, teria feito com que pressentisse a confusão e desistisse da ópera.

Voltei à rua lateral por onde o público continuava emergindo do teatro. Era uma multidão caminhando rapidamente, de forma concatenada, preocupada, mas pacífica. Chegando a uma avenida, consegui chamar um Uber. O carro demorou um pouco, por causa dos transtornos, mas acabou aparecendo. Coloquei ao motorista a questão que me intrigava: “Se a celebração de uma vitória é assim, como estariam reagindo as pessoas se o Paris Saint-Germain tivesse perdido?”, e ouvi: “Teria sido igual. Todo ano é a mesma coisa, que a gente perca ou ganhe é essa baderna”. O motorista tampouco deixou de me comunicar sua opinião a respeito do período de Neymar no PSG.

Ao longo do caminho, íamos passando por celebrações mais corriqueiras, com engarrafamento, gente gritando ou acenando com camisas pelas janelas dos veículos; às vezes havia trechos quase desertos. Era o último sábado de maio, em uma temporada excepcionalmente quente, e os parisienses, apesar da hora tardia, passeavam e confraternizavam.

Nos dias seguintes, as diferentes correntes da imprensa e do meio político debateriam intensamente sobre as causas e o resultado dos tumultos. Mas nas ruas, nos jardins, um verão de forte calor se iniciava, e prevaleciam a beleza e a tranquilidade.

Em um momento de chuva, abrigamo-nos na exposição do Matisse, que focaliza “a luz radiante dos seus últimos anos”, como comenta o material de divulgação do Grand Palais. Perdi a conta de quantas exposições do pintor já visitei ao longo das décadas. Mas nunca me cansaria. Ia de sala em sala, como se nunca antes tivesse visto aqueles quadros, aqueles guaches recortados; e alguns eram, de fato, uma novidade. A mostra, espetacular, traz como uma injeção de energia e entusiasmo, e revelações sobre o encantamento de estar vivo. 

Tomamos o trem para Bruxelas. Lá nos esperavam impressões mais duradouras do que o teatro, a música, a arte, o futebol ou mesmo enfrentamentos de rua podem proporcionar. Estávamos a caminho do casamento da nossa filha.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 22 de junho.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Memórias pouco diplomáticas

Memórias pouco diplomáticas

Kishore Mahbubani é um dos analistas de relações internacionais mais lúcidos da atualidade. Diplomata de carreira aposentado, foi, por duas vezes, embaixador de Singapura junto às Nações Unidas, inclusive no único período em que o país integrou, como membro não-permanente, o Conselho de Segurança.

Seus livros abordam a ascensão contemporânea da Ásia, detêm-se sobre a evolução econômica da Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN) e examinam as repercussões da rivalidade entre China e Estados Unidos. Até agora, traduziu-se no Brasil apenas um deles, com o título “A China venceu? O desafio chinês à supremacia americana

Mahbubani lançou, em 2024, um livro de memórias notável, “Living the Asian Century: An Undiplomatic Memoir”. Melhor subtítulo não poderia haver, porque o autor fala de sua vida pessoal e de sua trajetória profissional com surpreendente transparência. Lembro que, na ocasião, o jornal “The Straits Times”, de Singapura, apontou o quão fora do comum era a sua candura, para padrões daquela sociedade.

A verdade, porém, é que não conheço nenhum livro de memórias de diplomata, mesmo aposentado, tão sincero como esse. Diplomatas tendem a maximizar seus feitos e a relativizar seus desapontamentos. A vaidade é um traço usual da prática diplomática, e não é a aposentadoria que mudaria essa característica.

Kishore Mahbubani, ao contrário, fala com naturalidade de suas dificuldades familiares e suas frustrações e dúvidas profissionais. Trilhou, no entanto, uma carreira extremamente bem-sucedida. Além de servir duas vezes como representante permanente de seu país junto às Nações Unidas e de presidir o Conselho de Segurança, foi secretário permanente da Chancelaria, segundo cargo na hierarquia do serviço exterior.

Mahbubani foi o primeiro reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy, um dos principais centros asiáticos de ensino de políticas públicas. Seus livros, traduzidos e estudados no mundo inteiro, são respeitados pela clarividência política. Fica claro, da leitura das suas memórias, que os êxitos que colheu na diplomacia valem, para ele, tanto quanto, mas não mais do que seus sucessos acadêmicos. 

É também um palestrante requisitado no circuito internacional. Em 2023, em Kuala Lumpur, assisti a duas apresentações suas, uma delas intitulada “Quando os elefantes brigarem, será a ASEAN pisoteada?”, sendo os “elefantes”, naturalmente, a China e os Estados Unidos. Minha mulher, que então trabalhava em Singapura, e o conhecia pessoalmente, já havia me recomendado suas obras. Palestrando e circulando em um palco, falando sempre sem notas, Kishore Mahbubani é uma presença carismática. Em 2024, reunião que organizei em minha casa em torno a ele transformou-se em um momento memorável para os presentes.

O diplomata e acadêmico nasceu em 1948, em uma Singapura ainda sob domínio britânico, para onde seus pais, hindus de origem sindhi, haviam emigrado. Sob qualquer critério, seu começo de vida foi penoso: faltava dinheiro e o pai enfrentava problema de alcoolismo. Frequentar uma biblioteca pública ampliou seus horizontes. Sua grande inteligência e força de caráter fizeram o resto.

A sua história de superação mantém um paralelo com a própria história do país. Singapura, ao se tornar independente em 1965, via-se rodeada por Malásia, de que se separara, e Indonésia, países com muito mais recursos e muito mais populosos. De forma quase inverossímil, o país soube contornar uma situação de pobreza real, em meio a imensas desvantagens, para transformar-se, em poucas décadas, em uma das nações mais prósperas do mundo.

O próprio autor sugere esse paralelismo: “Duas separações trouxeram calma à minha vida: a da minha mãe do meu pai, em 1962, e a de Singapura da Malásia, em 1965”.

O desenvolvimento de Singapura deveu-se ao pulso firme de Lee Kuan Yew, primeiro primeiro-ministro do país, e do time que convocou para formar seu governo. Juntos, imprimiram ao país uma ética inflexível de trabalho e responsabilidade, presente ainda entre os singapurenses. A imagem de Lee Kuan Yew paira sobre o livro de memórias de Kishore Mahbubani. Entrevistado, uma vez, pelo líder, que desejava testar sua capacidade para um cargo, este lhe perguntou: “por que você não tem nenhum amigo?”. Imagine o que não será ouvir do chefe de governo de seu país essa pergunta, em uma entrevista de que depende o seu futuro profissional.

“Living the Asian Century” é de fato “undiplomatic”, ao articular verdades do relacionamento internacional que poucos se atrevem a encarar. “As grandes potências sempre colocarão seus interesses à frente de princípios, ao lidar com estados menos importantes”, diz a certa altura. Outra realidade apontada é a impossibilidade de que as regras pouco democráticas de funcionamento do Conselho de Segurança sejam modificadas por seus membros não-permanentes. Quando presidiu o Conselho, Mahbubani tomou iniciativas que provocaram, na delegação da França, membro permanente, o seguinte comentário: “Por que esses turistas pensam que podem entrar na nossa casa e rearrumar os móveis?”.       

O livro condena a figura do ator diplomático que pauta sua atuação externa pela ambição de relevância política na esfera doméstica, buscando agradar a determinados setores internos. Cita como exemplo Jeane Kirkpatrick, temível embaixadora de Ronald Reagan junto à ONU. Nessa posição, estima Mahbubani, ela “sacrificou os interesses dos Estados Unidos para servir à sua agenda ideológica estreita e sua ambição pessoal de chegar mais alto em Washington”.

Em Singapura, ao contrário, avalia o autor, objetivos de longo prazo para o bem público sempre terminarão por predominar sobre considerações pessoais de curto prazo.

As memórias terminam com o comentário de que o caminho traçado pelo autor “da pobreza à fartura, do desconhecimento à educação e à curiosidade intelectual” é agora replicado “por milhões, se não bilhões de outrosasiáticos”. Considera que sua posição como “pioneiro nesse renascimento da Ásia” tem sido “um dos maiores privilégios e realizações” de sua vida.

***

Quando esta coluna for lida, estarei viajando para o casamento de minha filha. Por algumas semanas, assim, estarei ausente destas páginas.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 25 de maio.

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Diálogo, entendimento, igualdade

Diálogo, entendimento, igualdade

Um dos museus mais lúdicos que conheço fica em São Paulo: é o Museu da Língua Portuguesa, na antiga Estação da Luz. Estive lá apenas uma vez, para ver uma exposição sobre a obra de Jorge Amado. Isso foi antes do incêndio de 2015. O museu reabriu em 2021, e tenho grande curiosidade em voltar.   

Andei pensando nisso, porque em 5 de maio comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Assim decidiu a Conferência-Geral da UNESCO, em Paris, em 2019. Desde dez anos antes, em 2009, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já celebrava essa data como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura.

A escolha do dia me intriga. Procuro saber os motivos que levaram à sua adoção. Suponho ao início que marca o nascimento, ou o falecimento, de algum autor lusófono considerado um dos pais do idioma, ou a publicação de algum primeiro dicionário da língua ou de alguma legislação que levou à substituição do latim pelo português em documentos oficiais, em Portugal, em séculos pretéritos.

O Dia do Idioma Espanhol, por exemplo, é celebrado em 23 de abril, quando foi enterrado Miguel de Cervantes. Em Geografia do tempo menciono como o embaixador da Espanha na Malásia, em 2023, me convidou para participar da comemoração da data, com algum texto da literatura hispânica que eu leria em público. Optei por um soneto de Jorge Luis Borges, que homenageia Luís de Camões e “Os Lusíadas” e, por conseguinte, a língua portuguesa.     

Examinando na Wikipédia efemérides para o 5 de maio, descubro apenas um evento literário relevante para a língua portuguesa. Foi quando, em 1994, perdemos Mário Quintana. Como em qualquer outro dia do ano, na já longa história da humanidade, muitos outros acontecimentos significativos ocorreram nessa data. É em 5 de maio de 1789 que são abertos os Estados Gerais na França, evento que culminaria na Revolução e, portanto, no início da modernização política das sociedades europeias, ao difundir os princípios de cidadania, igualdade jurídica e soberania popular que moldariam o Estado moderno.

Em 5 de maio de 1821, Napoleão Bonaparte morre em Santa Helena. Ao saber da notícia, Alessandro Manzoni escreve seu poema “Il cinque maggio”. Embora sejam versos famosos, que ao reconhecer o destino grandioso de Napoleão meditam sobre o caráter efêmero das coisas humanas, eu só vim saber da sua existência também em Kuala Lumpur. Em algum 5 de maio, o embaixador da Itália me disse: “hoje é o cinque maggio”, e diante de meu ar de incompreensão, que o surpreendeu, mencionou o poema. Não tive coragem de dizer a ele que nem sequer havia lido o célebre romance de Manzoni, Os noivosI promessi sposi.

Em um cinco de maio nasceram Kierkegaard, em 1813; e Karl Marx, em 1818. Dois escritores, portanto, mas nenhum de língua portuguesa. Celebra-se também o natalício da imperatriz Eugênia, mulher de Napoleão III, em 1826; do marechal Cândido Rondon, em 1865; de Dalva de Oliveira, em 1917; e de Beth Carvalho, em 1946.

Com meus talentos mediúnicos, recomendo que ninguém viaje em um 5 de maio. Em 1972, cai um avião da Alitalia, matando todas as 115 pessoas a bordo. Em 2007, é a vez de um avião da Kenya Airways; morrem os 114 passageiros. Em 2019, 41 pessoas perdem a vida quando um voo da Aeroflot pega fogo.

A decisão da UNESCO explica ter sido o português a “língua da primeira globalização da era moderna”, o que me parece indiscutível. De forma um tanto ingênua, fala porém em um “grande encontro cultural-civilizacional” que teria propiciado “troca de duas vias de ideias, filosofias e produtos culturais”, o que gera perplexidade por seu excessivo otimismo, para não dizer revisionismo histórico.  Falar em “duas vias” nesse contexto é ignorar quão desequilibradas foram as relações entre a metrópole portuguesa – ou qualquer outra — e as suas então colônias.

O ministro da Cultura de Angola, Filipe Zau, publicou artigo, por ocasião do 5 de maio, apontando como é recente a difusão da língua portuguesa no seu país, que se iniciou apenas no século XX, nas últimas décadas da colonização. Angola, lembra, é “multicultural e plurilingue”, e a promoção do português, embora necessária para a construção da união nacional, “passa, necessariamente, pelo reconhecimento da existência de outras culturas e outras línguas”.

A resolução da CPLP que deu origem à decisão da UNESCO soa politicamente equilibrada. Adotado em uma reunião do Conselho dos Ministros da Comunidade, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o texto se refere ao nosso idioma como “um meio privilegiado de difusão da criação cultural entre os povos que falam português, numa perspectiva aberta e universalista”.

E é nessa resolução da CPLP de 2009 que encontramos a razão para a escolha do 5 de maio. É um pouquinho decepcionante. Trata-se da data em que aconteceu, no Estoril, em 2000, a primeira reunião dos ministros da Cultura da CPLP. Soa um tanto burocrático, como motivo. Mas se pensarmos no caso, veremos que talvez não houvesse outra ocasião mais neutra, que não ferisse suscetibilidades.

A data comemorativa da francofonia, 20 de março, deve-se a razões parecidas. É quando, em uma reunião no Níger, criou-se, em 1970, a Agência de Cooperação Cultural e Técnica entre países francófonos, transformada em 2006 na Organização Internacional da Francofonia, com sede em Paris.  

O 5 de maio, assim, não celebra um dado cultural ou histórico de um dos países lusófonos em detrimento dos outros, ou tampouco alguma imposição da antiga potência colonial sobre os demais. É simplesmente o dia em que os ministros da Cultura dos estados onde o português é falado se reuniram pela primeira vez.

Ao escrever isso, reconcilio-me com a escolha da data. Ela promove o diálogo, o entendimento, a igualdade entre nós, os falantes da língua portuguesa. Foi uma boa decisão.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 11 de maio.

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Duarte e Amaro: dois diplomatas, dois perfis

Duarte e Amaro: dois diplomatas, dois perfis

Existe no Palácio do Itamaraty, em Brasília, um esboço de 1886 do quadro de Pedro Américo “Independência ou Morte” ou “O Grito do Ipiranga”. Ele pode ser visto no terceiro andar, na mesma sala onde está a gigantesca tela de Jean-Baptiste Debret retratando a coroação de D. Pedro I.

O estudo pertencente às coleções do Itamaraty é menor do que o quadro exposto em São Paulo no Museu do Ipiranga. Ambos foram pintados em Florença, onde a obra final foi exibida pela primeira vez na Academia de Belas Artes, na presença do imperador Pedro II e de D. Teresa Cristina. Isso se deu em 8 de abril de 1888. Estamos a um mês da abolição da escravidão e a pouco mais de um ano do fim do Império, e Pedro II viaja pela Europa. Naquele dia, em Florença, muito lealmente homenageia a memória do pai, protagonista da tela que se tornaria a imagem icônica da independência do Brasil.

O Grito do Ipiranga do Itamaraty

Li as palavras dirigidas por Pedro Américo a algumas das personalidades que assistiram à cerimônia em Florença. Não são muito empolgantes. Além do imperador do Brasil e de sua mulher, estiveram presentes a rainha Vitória, em vilegiatura na Toscana; sua filha caçula, a princesa Beatriz; e a rainha consorte da Sérvia. Pedro II foi saudado com elogios aos seus “magnânimos pensamentos”. Referiu-se o artista ao quadro como “o modesto trabalho com que acabo de dar nova prova do meu patriotismo”.

Procurei nos Diários da rainha Vitória alguma referência ao pintor ou à sua obra, mas nada encontrei. Esses Diários foram editados pela princesa Beatriz, que fazia as vezes de secretária particular da mãe, então o que temos não é necessariamente o texto original. A entrada para o dia 8 de abril de 1888 registra: “Como a tarde estava chuvosa, decidimos ir à Galeria de Belas Artes. Nesse prédio há uma coleção de obras de arte excepcionais da Escola Toscana”. O tom dá a entender que a ida à galeria foi acidental, causada pela chuva que impediu um passeio ao ar livre.

Mas não deve ter sido assim. Dois dias antes, em 6 de abril, nos dizem os Diários da rainha, ela recebera na Villa Palmieri, onde se hospedava em Fiesole, a visita de Pedro II e Teresa Cristina. Ambos lhe pareceram “envelhecidos e doentes”. A saúde do imperador era mesmo precária naquele período; um mês depois, em Milão, ele chegaria a receber a extrema-unção. Em 6 de abril, é crível supor, já estava marcada a cerimônia em torno ao quadro que aconteceria dois dias depois, e seria natural o imperador mencioná-la à rainha Vitória e mesmo convidá-la a participar. Vejo nos Diários de Pedro II que ele só comenta, sobre esse encontro, ter achado a rainha “bem avelhantada”. Sem saber, dava-lhe o troco.

Na entrada para o dia 8 de abril, Pedro II escreve: “Chego da exposição de quadro do Pedro Américo. Agradou-me em geral contudo não brilha pelo colorido e há um cavalo que se inclina tanto para o lado galopando que tenho medo que se prancheie” — respeito a falta de vírgulas, por não saber se é uma falha do imperador ou de quem transcreveu o Diário. É um alívio ler um comentário crítico, quase humorístico, na pluma imperial, em vez de alguma frase sentimental sobre o seu pai ou a Independência.

Há um documento escrito pelo próprio Pedro Américo, “O brado do Ipiranga”, também de 1888, que descreve a obra e, em trecho intitulado “A solenidade”, a sua inauguração em Florença. O texto do artista reaparece em um livro de 1999 dedicado ao quadro, organizado por Cecilia Helena de Salles Oliveira e Claudia Valladão de Mattos. Do texto do pintor fica claro que a rainha Vitória era esperada. Ele diz: “Vendo Sua Majestade o Imperador que o vastíssimo salão estava cheio de gente, e assim as salas e galerias adjacentes, e que não chegava S. M. a Rainha da Inglaterra, deu a palavra ao artista”. Vitória apareceu quando o imperador já havia partido. Ela terá visto um Pedro Américo radiante, pois este afirma que os participantes da cerimônia “com ele se congratularam pelo esplendor daquela festa e pelo êxito da obra exposta”.

Durante os anos em que fui professor do Instituto Rio Branco, de 2012 a 2016, incluí uma aula sobre o acervo iconográfico da História do Brasil de propriedade do Itamaraty. Além das telas que ilustram o Grito do Ipiranga e a coroação de Pedro I, a chancelaria brasileira possui várias obras retratando os dois imperadores e personalidades do período monárquico. Há um retrato famoso, excelente quanto à qualidade artística, de D. João VI, não muito lisonjeiro, obra talvez do melhor pintor português do início do século XIX, Domingos Sequeira.

Há também uma pintura, da qual não se conhece o artista, que retrata, de forma competente e sóbria, Duarte da Ponte Ribeiro (1795-1878).

Rubens Ricupero considera Ponte Ribeiro “o exemplo mais perfeito do agente da diplomacia do conhecimento”, sublinhando em A diplomacia na construção do Brasil (2017) seus “180 estudos e memórias” e os numerosos mapas que preparou. Nascido em Portugal, exerceu primeiro a medicina. Como diplomata, foi especialista em questões de limites territoriais. Trabalhou no Uruguai, na Argentina, no Chile, no Peru, na Bolívia.

Um estudioso da obra do diplomata, Castilhos Goycochêa, nos diz em 1943 que “durante o Império, principalmente no que se refere às relações com os outros países do continente, seu nome impressiona pela constância com que figura na maior parte das negociações de toda ordem”. Opina que a Ponte Ribeiro “não faltou nem mesmo a ingratidão da Pátria”.

É expressiva a bibliografia sobre esse grande diplomata. Sua carreira é estudada já desde o século XIX. Em dezembro de 1878, três meses após a sua morte, em uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que ele era sócio, Joaquim Manuel de Macedo discursou sobre sua carreira como agente diplomático e como estudioso das fronteiras do Brasil. O autor de A Moreninha destacou “a capacidade ativíssima, o zelo e a dedicação exemplares” de Ponte Ribeiro, afirmando que suas “vida laboriosa e robustez eram como um milagre de força orgânica”.

O estudo mais minucioso é a biografia por José Antônio Soares de Souza, publicada em 1952, Um diplomata do Império. Explica o autor: “foi Ponte Ribeiro, na diplomacia, o primeiro a reviver no Império o uti possidetis como base para a delimitação do Brasil”. Mostra-nos o diplomata, em 1837, “escarrapachado no lombo de um burro”, seguindo pelos Andes, por “caminhos escabrosos” o governo boliviano, “que vivia, de cidade em cidade, em constantes passeios, dos mais incômodos”. Menciona as queixas financeiras de Ponte Ribeiro, registradas por exemplo em ofício que enviou de Lima, em 1839: “Tenho necessidade de ser empregado porque me acho pobríssimo, havendo gasto quanto tinha durante treze anos” trabalhando como diplomata.

É preciso ler as páginas em que José Antônio Soares de Souza, citando as comunicações oficiais de Ponte Ribeiro, descreve suas andanças em lombo de mula, durante a última missão ao Peru e à Bolívia, de 1851 a 1852. Quinze anos mais velho desde sua estada anterior nos Andes, o diplomata, cinquentenário, sofre com a altitude e as dificuldades da cordilheira. Escreveu Ponte Ribeiro: “Durante a noite a febre, debaixo de um toldo levantado sobre o gelo, e de dia sobre o espinhaço de uma mula, queimado pelos raios ardentes do Sol, que de todos os lados são refletidos pela neve”. Nenhuma outra frase talvez seja tão reveladora quanto esta: “Aqui queria eu ver alguns dos nossos diplomatas que alegam serviços e até sacrifício, [por] irem em um coche de Roma a Gaeta, ou de Paris a Viena pelo caminho de ferro”.

Ao imaginá-lo em sua mula pelos Andes, deve-se lembrar que, anos antes, um acidente de espingarda danificara sua mão. Nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, ele sofrera “despedaçamento da mão e braço esquerdos, perda de ossos”. Soares de Souza acredita que o lado afetado tenha sido o direito, como resultado talvez não de ferimento por arma, mas de uma fratura exposta. 

Da aposentadoria em 1853 até poucos meses antes de morrer em setembro de 1878, o diplomata continuou prestando serviços à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, como se chamava então o Ministério das Relações Exteriores. De repente, em abril de 1878, aos 83 anos, recebeu aviso de que cessava a gratificação mensal correspondente.

Soares de Souza esclarece que a suspensão da gratificação teria derivado de “uma ordem geral”, a afetar todos os diplomatas que a recebiam. Ponte Ribeiro, porém, “desarvorou-se inteiramente”, por concluir “daquele suposto agravo já não necessitar a diplomacia brasileira dos seus serviços. Isso o ferira fundo e definitivamente”.  

No excelente retrato pertencente ao Itamaraty vemos um rosto de aguda inteligência e grande seriedade de propósitos, como sua vida profissional confirma. Pareceria justo esperar que não tivesse que ser submetido à inconstância institucional.

A Fundação Alexandre de Gusmão publicou, em 2010, ofícios enviados por Ponte Ribeiro à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, entre 1836 e 1839, do Uruguai, da Bolívia e do Peru. São boas análises sobre a política local, as relações internacionais desses países e as relações do Brasil com cada um deles. Um ofício de Lima, de fevereiro de 1838, revela certo isolamento andino: “Há poucos dias faleceu nesta capital o encarregado de negócios dos Estados Unidos, e agora se retira Barrère, que exercia igual caráter por parte da França: hoje não há aqui mais agentes públicos que o enviado de México e eu”. Em novembro, a situação melhorara: a Brasil e México se haviam somado novamente enviados de Estados Unidos e França, além de Reino Unido, Nova Granada, Equador e a cidade livre de Hamburgo.

A carreira de Duarte da Ponte Ribeiro demonstra o esforço do Brasil de se fazer presente diplomaticamente nos países vizinhos, mas também as privações a que faziam face seus representantes na América do Sul. Já antes de partir, ainda do Rio de Janeiro, Ponte Ribeiro predizia os transtornos que enfrentaria, movendo-se entre Peru e Bolívia: “marcharei 270 léguas por dispendiosos caminhos”. Compara sua situação com aquela mais confortável de colegas: “Outras legações há na Europa que têm encargo junto de vários governos, mas esses estão próximos, as viagens são fáceis”.  

Na Sala dos Tratados, no Itamaraty em Brasília, há três bustos em bronze de Bruno Giorgi, de 1967, representando as figuras históricas a quem o Brasil deve a definição e consolidação de suas fronteiras. De um lado, Alexandre de Gusmão e Duarte da Ponte Ribeiro; do outro, o barão do Rio Branco. Como todo diplomata brasileiro, inúmeras vezes participei de cerimônias na Sala dos Tratados. Algumas internas, quando tipicamente o ministro das Relações Exteriores coloca-se, para discursar, próximo ao busto do Barão. Outras, com delegações estrangeiras, quando há coletivas de imprensa ou, como indica o nome do recinto, a assinatura de atos internacionais. A mesa situada junto à grande treliça de Athos Bulcão possui importância ímpar, por ter fama de ser aquela sobre a qual se assinou a Lei Áurea.

Os retratos históricos circulam às vezes entre o Itamaraty do Rio e o de Brasília e são transferidos de gabinete em gabinete em cada um dos dois palácios. Em 2003, quando Samuel Pinheiro Guimarães tornou-se secretário-geral das Relações Exteriores no início do primeiro governo Lula, e fui trabalhar com ele, compreendi sua decisão de substituir  certos quadros expostos na sala de espera dos visitantes que iam vê-lo.  

Os dois palácios do Itamaraty são museus. Ambos abrigam importantes coleções de arte e de mobiliário. São ambos edifícios valiosos em termos arquitetônicos. Mas são museus vivos. Neles se trabalha, neles há agitação, neles há o propósito de criar e transmitir uma certa imagem de Brasil. Suas coleções, justamente por serem ilustres, devem ser exibidas de acordo a algum parâmetro substantivo. Parecia pouco razoável que o retrato de D. João VI, justo em frente à porta de acesso à antessala do secretário-geral, fosse a primeira visão que as visitas, nacionais ou estrangeiras, tivessem da política externa brasileira contemporânea.

Mais intrigante era ver exposta na mesma sala uma tela grande, artisticamente medíocre, retratando Luís José de Carvalho e Melo, primeiro visconde da Cachoeira, e sua mulher. Chanceler do Brasil de 1823 a 1825, Carvalho e Melo foi um dos negociadores do tratado de 1825 entre Brasil e Portugal, pelo qual a ex-metrópole reconheceu a independência da ex-colônia. O diplomata e jurista Hildebrando Accioly escreveu em 1925 que “Carvalho e Melo era homem de poucas luzes”. Um instrumento adicional ao tratado determinava o pagamento, pelo Brasil a Portugal, de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas. Accioly cita O reconhecimento do Império, onde Oliveira Lima lembra em 1901 que “a compra da Independência por dois milhões esterlinos, depois de ela ser um fato consumado e irrevogável, foi um estigma de que a monarquia justa ou injustamente nunca pôde livrar-se no Brasil e cuja recordação pairou sobre o trono até os seus últimos dias”.

Rubens Ricupero relata como, a partir da exoneração em 1823 de José Bonifácio, primeiro chanceler brasileiro, já não predomina “a perspectiva do Brasil independente, mas o interesse dinástico pessoal do seu monarca”, herdeiro do trono de Portugal, “cujo projeto político dependia do reatamento de laços” com seu país de origem.

Ainda mais extraordinária era a presença, então em lugar de destaque na antessala do secretário-geral do Itamaraty, do retrato de grandes dimensões, pintado em Roma em 1832, de um jovem diplomata hoje esquecido, e que na verdade nunca chegou a merecer ser recordado. Em um livro de 1993, intitulado singelamente Itamaraty, que se tornou obra de referência sobre os dois palácios, o de Brasília e o do Rio de Janeiro, e suas coleções, João Hermes Pereira de Araújo nos explica: “O nome de Amaro Guedes Pinto não seria mais lembrado se a vaidade, característica dos dândis de todos os tempos, não o tivesse levado a encomendar seu retrato a óleo ao pintor português Antonio Manoel da Fonseca, em Roma conhecido como Fonseca Lusitano”.

A literatura e a arte possuem o poder de modificar a percepção que temos da História. Governantes habilidosos do passado frequentemente recorreram a artistas e escritores para criar uma imagem positiva a seu respeito e perpetuá-la. Da mesma forma, obras de arte podem perenizar indivíduos sem relevância enquanto vivos, ilustrando ao mesmo tempo, para a posteridade, toda a atmosfera de uma sociedade. É o caso do retrato de Amaro Guedes Pinto, o jovem secretário lotado em Roma cuja imagem durante tanto tempo foi exibida na Secretaria-Geral do Ministério. O quadro desvela uma mentalidade, a dos homens abastados da primeira metade do século XIX que viam na diplomacia uma forma elegante de viver. É de novo Oliveira Lima, em O Império brasileiro (1927), quem nos explica: “a escravidão oferecia aos moços ampla oportunidade para não trabalharem e luxarem, sedentos apenas de empregos públicos”.

João Hermes Pereira de Araújo menciona um artigo de imprensa de 1932 sobre o retrato, intitulado “O homem mais bonito do Brasil”. Localizei esse texto na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Seu autor, Gastão Penalva, é um escritor esquecido. Era avô da atriz Maria Lúcia Dahl, que eu na adolescência considerava terrivelmente atraente. Difícil dizer se é sincera a admiração de Penalva pela tela ou se fala com intenção de pilhéria ou mesmo crueldade para com o modelo — menciona “as mãos de odalisca” de Amaro Guedes Pinto, esse “Lord Brummell brazílico” e “impenitente Casanova dos trópicos”, descrevendo supostos êxitos sociais e amorosos seus em Viena.

Guedes Pinto, porém, nunca deixou Roma para assumir as novas funções a que fora designado, em 1831, na Áustria. Localizo no arquivo histórico do Itamaraty uma comunicação sua, do mesmo ano, enviada de Roma, em que menciona o seu “atual estado de saúde” — ele tinha 25 anos de idade — como razão para não aceitar “o honroso emprego a que fui destinado de cônsul-geral e encarregado de negócios interino do Brasil na Áustria”. Encontrei a resposta a ele enviada, segundo a qual “a Regência, em nome do Imperador”, aceitava sua decisão, “não obstante haver causado grande transtorno a sua recusa”.

Descobri outro artigo sobre o retrato, de 1933, igualmente fantasioso, publicado por Luís Gastão d´Escragnolle Doria em Revista da Semana. O autor parte do princípio de que Guedes Pinto de fato foi encarregado de negócios em Viena por alguns meses, em 1831, e devaneia sobre como terá ocupado seu tempo na Áustria. O império austríaco, então uma das cinco maiores potências europeias, era em 1831 governado por Francisco I, avô materno de Pedro II, que se tornara imperador do Brasil em abril daquele ano. A Áustria oferecia assim, presume-se, um cachê duplo aos diplomatas brasileiros, o que torna curiosa a preferência de Amaro Guedes Pinto por permanecer em Roma. Claramente, o trabalho diplomático era para ele um passatempo, sequer uma ambição.

Segundo João Hermes Pereira de Araújo, em seu comentário sobre a presença em Roma de Guedes Pinto, “não se encontram outras notícias desse personagem”. À custa de muita pesquisa, consegui porém consolidar bastante informação sobre sua vida e suas origens familiares.

O pai, Manoel Guedes Pinto, e o avô materno, Manoel Velho da Silva, prosperaram no comércio de pessoas escravizadas. Também traficava seres humanos o irmão de sua mãe, Amaro Velho da Silva, primeiro visconde de Macaé. A história do Brasil seria compreendida de maneira bem diferente, se fosse salientado quantos dos políticos do Império, quantos dos detentores de títulos de nobreza, quantas das personalidades mais próximas da dinastia reinante — e, na segunda metade do século XIX, seus filhos — deviam afluência e respeitabilidade à compra e venda de africanos escravizados.

Amaro nasceu em 1806. Vejo em minha pesquisa que seus pais (a mãe, Maria Thomázia Velho da Silva, morreria em 1810, com 24 anos) tiveram dois outros filhos, Manoel, nascido em 1805, e José, em 1809. A mulher do caçula, Maria Eugênia Guedes Pinto, uma das estrelas elegantes da sociedade imperial em meados do século, é tida como uma paixão de Pedro II. Era conhecida como Mariquinhas Guedes. O pai desta, o visconde de Maranguape, foi por duas vezes secretário dos Negócios Estrangeiros. José Guedes Pinto morreu em 1855, de “apoplexia”, segundo os avisos fúnebres que descubro em jornais cariocas. Há menção à viúva, mas não a filhos.

A avó materna do nosso retratado, uma tia e uma prima-irmã, todas três chamadas Leonarda, foram damas do Paço. A primeira Leonarda, a avó, viúva muito rica, só morreria em 1825, quando Amaro já tinha 19 anos. Era filha de um capitão de navios negreiros.   

Encontro o nome de Amaro Guedes Pinto em um anúncio em jornais cariocas, em fevereiro de 1837: “leilão, na casa do Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, no largo do Machado, de todos os trastes, espelhos, quadros, cristais, porcelana, prata, carruagem, carrinhos, cavalos, escravos etc… etc… pertencentes ao dito senhor”. Por um momento, penso em ruína financeira. Outro anúncio, um mês depois, no Jornal do Commercio, me tranquiliza: “leilão de uma rica e escolhida biblioteca dos melhores autores em francês, inglês, espanhol, português &c, pertencente ao Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, que se retira para a Europa”. Mais uns dias e leio, em um jornal de abril, que nosso elegante diplomata partiu, “com sua mulher”.

Localizei o registro de nascimento e o de casamento de Amaro, mas não o de seu falecimento. Em dezembro de 1833, ele se casara com uma prima-irmã, Maria Thomázia Velho da Costa, filha de sua tia Leonarda, irmã de sua mãe, a qual, cabe recordar, também se chamava Maria Thomázia. O visconde de Macaé, tio de ambos, foi uma das testemunhas. Em novembro de 1856, morre a segunda Maria Thomázia. Avisos fúnebres nos jornais nos dizem que ela tinha 37 anos, era “tísica” e viúva. Não há referência a filhos. Terá então nascido em 1819 e se casado aos 14 anos, quando Amaro tinha 27. Sabemos que este estava vivo ainda em 1839, e talvez morando em Paris, pois naquele ano um escultor francês da moda, James Pradier, esculpiu seu busto em mármore.        

Os Velho da Silva foram durante algumas décadas, no final da época colonial, no período joanino e no início do Império, uma das famílias mais prósperas, influentes e prestigiadas do Brasil. Formavam um clã. Isso explica a facilidade com que Amaro Guedes Pinto recusou a transferência para Viena.

Nas suas Memórias para servir à história do Reino do Brasil (1825), Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), o “Padre Perereca”, conta-nos que, ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1808, a família real foi recebida sob um “precioso pálio de seda de ouro encarnada”. Oito notáveis da cidade foram escolhidos para sustentar esse pálio. Um deles  era um tio-avô — outro Amaro Velho da Silva, também ele próspero traficante de pessoas escravizadas — do nosso Amaro. Em seus livros, Laurentino Gomes confunde os dois Amaro Velho da Silva, tio e sobrinho, como sendo uma só pessoa. Oitenta anos depois, o conde de Mota Maia, médico de Pedro II que o acompanhava na viagem à Europa entre 1887 e 1888 e estava presente, em Florença, à inauguração do quadro de Pedro Américo, viria a ser ninguém menos do que filho de uma prima-irmã de Amaro Guedes Pinto. Proclamada a República, ele acompanharia a família imperial em seu exílio.

Da sua chegada ao Rio em 1808 à partida para o exílio em 1889, portanto, a dinastia reinante esteve sempre acompanhada por parentes próximos do nosso retratado. A família de Amaro Guedes Pinto logrou manter-se, ao longo do século XIX, no mais alto escalão social. Malgrado a insignificância do personagem em si, um olhar sobre suas conexões familiares revela muito sobre a realidade sociológica do Brasil. Por uma ironia muito brasileira, outro dos oito notáveis que receberam a família real em 1808 era Manoel Pinheiro Guimarães, também este da burguesia mercantil do Rio, integrando a rede de fornecedores e contratadores que sustentavam a administração colonial portuguesa, e antepassado do mesmo Samuel Pinheiro Guimarães que determinaria a retirada do retrato de Amaro da antessala da Secretaria-Geral.

O quadro de Antonio Manuel da Fonseca, luxuoso nos detalhes — há cortinas de veludo verde, a roupa do modelo é rica, a cúpula da Basílica de São Pedro aparece ao fundo — preserva para a posteridade o ar juvenil, satisfeito, despreocupado de um perfil diplomático apagado. Opõe-se a ele a tela que retrata, sem ornamentos, o funcionário instruído, patriótico e incansável que foi Duarte da Ponte Ribeiro. Contra um fundo cinza, trajes discretos e um rosto de meia-idade denotam sagacidade e circunspecção. O primeiro retrato joga luz sobre o sucesso material de um grupo social. O segundo, embora atemporal, nos revela os traços de uma personalidade individual.

Ponte Ribeiro construiu reputação de trabalhador abnegado, de eficiente “fronteiro-mor”, para usar a expressão de Castilhos Goycochêa, na defesa dos interesses do Brasil, enquanto Guedes Pinto não deixou nome algum. Não poderia haver contraste mais marcante nos percursos dos dois diplomatas.

Curiosamente, essa diferença transparece em seus respectivos retratos. Estes simbolizam, assim, dois tipos de carreira diplomática divergentes, que existiram, existem e existirão. De um lado, o funcionário zeloso, estudioso, capaz, destinado pela chancelaria a postos difíceis e a duras tarefas necessárias. De outro, o hedonista acomodado a uma existência confortável e vazia, ali “onde as viagens são fáceis”.   

Este ensaio foi primeiro publicado em Estado da Arte, em 10 de dezembro de 2025

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Lepanto

Lepanto

Quem veio me contradizer foi Emmanuel Macron. Duas semanas atrás, em “Marcha fatal“, afirmei que não esperamos, de chefes de Estado e de Governo, que tenham tempo de ler. Suas tarefas, sua agenda pesada, permitem presumir que eles conseguem se dedicar no máximo à leitura de relatórios e pontos de conversação.

Na versão final daquela coluna, suprimi, por razão de espaço, um parágrafo em que recordava um romance do escritor inglês Alan Bennett, em que a rainha Elizabeth II desenvolve, de repente, uma inverossímil paixão pela leitura. Livros tornam-se a tal ponto uma obsessão da soberana, que passam a ser vistos, pelos seus assessores, como um empecilho para que exerça suas funções.    

Pois o presidente da França, entrevistado enquanto visitava o Festival do Livro em Paris agora em abril, afirmou que lê — livros, não documentos de trabalho — todos os dias, “ou cedo de manhã, ou à noite”.

Quando Macron assumiu a presidência, em 2017, divulgou-se sua foto oficial como chefe de Estado. O presidente é mostrado em uma pose relativamente informal e com ar decidido, frente à sua escrivaninha no Palais de l´Élysée. Na época, analisei o resultado em um texto intitulado “Uma foto e três livros“. O que me motivou foi a presença, sobre o móvel, de três volumes publicados na prestigiosa coleção da Pléiade, da editora Gallimard: as Memórias de Charles de Gaulle, O vermelho e o negro, de Stendhal, e Os frutos da terra, de André Gide.

A presença de um presidente no Festival do Livro de Paris não parece ser ocorrência corriqueira. Bem diferente é o caso do Salão da Agricultura, evento altamente midiático com fortes contornos políticos, decorrentes da importância dos agricultores na vida francesa. O setor agrícola foi, em grande parte, o responsável pela lentidão da negociação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, assinado em janeiro após quase 30 anos de espera; e, agora, influencia na demora para a sua aprovação pelo Parlamento Europeu.

O que os incomoda é a competitividade agrícola do Brasil e do MERCOSUL. Em dezembro, de férias em Bruxelas, minha mulher e eu presenciamos, em uma avenida principal, uma tremenda manifestação de agricultores europeus, sobretudo belgas e franceses, contra o acordo. Centenas de tratores circulavam pelas ruas, paralisando o trânsito. Todos, aliás, ultramodernos, visivelmente caros, com a pintura impecável e tinindo de novos. Alguns despejavam no asfalto carregamentos de batatas. Transeuntes e motoristas, presos no engarrafamento, aproveitavam para recolhê-las. Era já um jantar em perspectiva.

Mesmo na França, é difícil imaginar o Festival do Livro competindo com o Salão da Agricultura. Mas o momento era adequado para a presença de Macron. Está em curso, em vários países europeus, a adoção de medidas que proíbam o acesso das crianças às redes sociais. Na França, espera-se que a partir de setembro, com a volta às aulas depois das férias de verão, as redes sociais, extraindo-se algumas exceções, estejam vedadas aos menores de quinze anos.

No Festival do Livro, Emmanuel Macron declarou: “há uma terrível doença, hoje: a falta de atenção, irmã gêmea de outra doença, a solidão”. A proibição às crianças de frequentar as redes sociais, estima o presidente da França, facilitará que “reaprendam a praticar esportes, a levar uma vida na comunidade e a ler. Ler é um momento mágico e essencial do dia”. 

O mais interessante, na entrevista, é que Macron parece encarar o hábito da leitura como algo que seria o oposto da solidão. Ele diz: “Quando saímos de um livro, nunca estamos sós. Estamos mergulhados naquilo que acabamos de compreender, há uma paz consigo mesmo e compreendemos o que o autor tinha a nos dizer”. A leitura é assim colocada como um fator de socialização, e não, como alguns gostam de pensar, de isolamento.

Quanto ao presidente do Brasil, sabemos que Lula, na prisão, dedicou-se à leitura e podemos mesmo descobrir, em páginas eletrônicas, o que então leu. Examino a lista neste minuto e descubro que nela figuram, entre as quarenta obras, Grande sertão: veredas e Um defeito de cor. O cativante romance da também mineira Ana Maria Gonçalves me foi oferecido de presente por um grande amigo, que compartilha com ela o sobrenome.

Em dezembro de 2023, embaixador na Malásia, inaugurei no Festival Literário de George Town, capital da ilha e do estado de Penang, uma exposição homenageando Clarice Lispector, financiada pelo Instituto Guimarães Rosa, com material cedido pelo Instituto Moreira Salles. Revelou-se uma excelente iniciativa, pela embaixada, de divulgação cultural do Brasil. Chamou minha atenção o fato de o primeiro-ministro do estado de Penang, Chow Kon Yeow, participar ativamente da abertura do festival.

Fico me perguntando se, alguma vez, um governador do Rio de Janeiro abriu a FLIP ou se um governador de Minas Gerais abriu um dos três festivais naquele estado — em Araxá, em Itabira, em Paracatu — criados, organizados e curados por Afonso Borges.

Enquanto vou terminando esta coluna, pensando aonde quero chegar e como encerrá-la, um milagre acontece. Um milagre literário, um milagre cultural. Recebo de um jovem amigo paulista, Caio Duarte, mensagem em que me conta que ele e um grupo de colegas seus lançarão, “no segundo semestre, após a FLIP”, uma revista de debate literário e cultural. O local que abrigará a sede da publicação, a qual será, pelo menos no início, semestral, já está sendo preparado em São Paulo.

A revista se chamará “Lepanto”, como a batalha naval de 1571, em homenagem a Cervantes, que, então com 24 anos, nela lutou. A notícia de seu próximo lançamento, que chegou a mim em um período particularmente duro e exaustivo no trabalho, me animou. Há portanto no Brasil, ainda, idealismo e coragem para a batalha da atividade literária.

Entusiasmado, concluí: mente quem afirma que o livro e o pensamento estão morrendo.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 27 de abril.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Marcha fatal

Marcha fatal

De chefes de Estado ou de Governo, não esperamos que tenham tempo de ler. Acreditamos estarem eles ocupados em dinamizar a economia, garantir o respeito às instituições e às leis nacionais e inserir seus países no cenário internacional de acordo a normas estabelecidas. Supomos que seu contato com o texto escrito se limita a subsídios, relatórios e pontos de conversação preparados por assessores, de que necessitam para calibrar sua atuação.

Se eu pudesse contudo recomendar um livro aos governantes de hoje, seria 1812: A marcha fatal de Napoleão rumo a Moscou, de 2004. Seu autor é o historiador britânico e polonês Adam Zamoyski. O tema tratado nas 550 páginas é muito conhecido: o fiasco da invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte. Tenho em casa outro relato sobre o assunto, de 1985, por Nigel Nicolson, que se tornou famoso ao descrever, em Retrato de um casamento, as vidas de seus pais, o diplomata Harold Nicolson e a escritora Vita Sackville-West.

Somente na Rússia, nos conta Zamoyski, há mais de cinco mil volumes publicados sobre os eventos de 1812. A marcha fatal destaca-se por ser de leitura compulsiva. Recorre aos depoimentos de muitas testemunhas da época, inclusive russas, citadas extensamente no corpo do livro. É como um coral em que as vozes de vários cantores se combinam para produzir um grande efeito conjunto.

Adam Zamoyski nos mostra o que acontece quando um chefe de Estado militarmente poderoso decide iniciar uma guerra sem saber ao certo qual é seu objetivo concreto e sem levar em conta adequadamente os seus desdobramentos estratégicos.

Eram várias as causas plausíveis, naquele momento, para o antagonismo entre a França e a Rússia. Havia o temor do czar Alexandre I de que o Grão-Ducado de Varsóvia, satélite francês criado em 1807 com territórios retirados da Prússia, fosse um esboço de restauração da Polônia, país que fora fatiado, no final do século XVIII, por Áustria, Prússia e Rússia. Havia o Bloqueio Continental, prejudicial aos interesses econômicos da Rússia, imposto por Napoleão para impedir o comércio da Europa com o Reino Unido. Havia o desejo do imperador francês de intimidar a Rússia, para forçá-la a uma aliança contra os ingleses, seus verdadeiros inimigos. Havia o rancor ideológico dos monarcas hereditários da Europa contra o regime napoleônico, sucessor da Revolução. Havia também a rivalidade natural entre dois imperadores ambiciosos, sedentos ambos por prestígio.

Apesar dessa atmosfera de hostilidade latente, “não havia nada que a Rússia tivesse”, como aponta Zamoyski, “que Napoleão pudesse querer”. Um ano antes da invasão, Bonaparte declarara a um visitante russo: “se eu atacasse a Rússia, estaria fazendo uma guerra sem propósito”.

Em 1807, os dois imperadores haviam se encontrado sobre uma balsa no rio Niemen, selando uma aliança. Zamoyski considera, porém, que Napoleão “não sabia como lidar com aliados; ele estava acostumado a vassalos”.

Napoleão, nos diz severamente o historiador, “era conduzido pela sede de poder e de dominação sobre os outros. Comportava-se como uma criança, quando se sentia contrariado. Não possuía senso de justiça ou de respeito pela vontade alheia”. Quanto a Alexandre, já em 1808 ele escrevera a uma de suas irmãs, a respeito de seu então aliado: “não há espaço para nós dois na Europa”.

Leio no Memorial de Santa Helena a seguinte reflexão de Napoleão, destronado e exilado, sobre suas desavenças com Alexandre: “O verdadeiro obstáculo foi Constantinopla. A Rússia a queria; eu não podia deixar que a tomasse; é uma chave preciosa demais”.  

Fosse qual fosse a sua razão, no verão de 1812 Bonaparte atravessa o Niemen, invadindo o império russo. Zamoyski avalia que, entre junho e dezembro de 1812, o exército do imperador, multinacional, já que ele controlava a maior parte da Europa, enviou entre 550 mil e 600 mil homens à Rússia. Cerca de 400 mil sucumbiriam. Os russos sofreriam perdas equivalentes. Nos dois casos, um quarto dos soldados cairia lutando. Calcula Zamoyski que, entre civis e militares, um milhão de pessoas, somados os dois lados, pereceram em decorrência da invasão francesa. 

A decisão russa de evitar confronto bélico obriga o exército napoleônico a ir avançando cada vez mais. Em setembro, ocorre a sangrenta batalha de Borodino — bataille de la Moskowa para os franceses. Segundo Zamoyski, esse é “o maior massacre registrado na História” até então. Batalha vencida pela França, os russos a celebram como uma vitória sua: retiraram-se em ordem e não capitularam. Mesmo diante da tomada francesa de Moscou, uma semana mais tarde, Alexandre não propõe a paz, para surpresa do invasor, mas investe em uma estratégia de terra arrasada. Uma iniciativa francesa de cessar-fogo é ignorada.

Já desde o início da invasão, o calor, a poeira, a lama quando chovia, as dificuldades logísticas e de abastecimento haviam provocado mortes e deserções no exército francês. Mas é a retirada no inverno, com neve e temperaturas às vezes de 35 graus negativos, que aniquila as tropas de Napoleão e marca, desde então, a memória coletiva. De certa maneira, vamos lendo a obra à espera da descrição que Zamoyski fará desse momento épico e crucial da saga napoleônica, que dá início à sua derrocada final.

Dependendo da sensibilidade do leitor, a retirada da Rússia, ante o frio e o desabastecimento total, pode ser estudada pela perspectiva do heroísmo dos soldados e do próprio imperador; ou da insensatez e crueldade dessa aventura de Napoleão; ou ainda como um conto de horror.

O historiador não poupa os detalhes tenebrosos. Lemos sobre violência, traição, roubo, abandono de feridos, torturas russas sobre prisioneiros e canibalismo não somente entre as tropas rivais, mas também entre os próprios soldados da Grande Armée. No entanto, ao longo do livro, são descritos atos de generosidade impressionantes, inesperados. Revela-se aí a nossa natureza, violenta, sequiosa por conflitos absurdos mas, ao mesmo tempo, com apenas um ato desprendido, capaz de redimir a espécie.

É o ser humano comum expiando a soberba dos governantes.  

     

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 13 de abril, onde o jornal, ao mudar o título, transformou uma metáfora sobre os dias de hoje em um relato histórico

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

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O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

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Grandes diplomatas, 15 de março

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