O concerto dos hipopótamos

O concerto dos hipopótamos

Quer o acaso que esta coluna quinzenal seja publicada uma semana após as eleições. O pleito é suficientemente recente para continuar a ser o grande assunto. Aqui vem o pobre colunista, escrevendo um texto sem conexão com a política, temendo não conseguir prender a atenção do leitor.

Tentemos, porém. Falemos de leões, girafas e rinocerontes.

Falemos da viagem que fiz com minha família, no final de setembro, durante alguns dias, por vários parques do Quênia.

Iniciamos nosso percurso pelo Parque Amboseli, do qual obtêm-se excelentes vistas sobre o Monte Kilimanjaro, situado na verdade na Tanzânia. Frequentemente encoberto por nuvens, nós o vimos quase sempre despejado. Um dia, ao acordar cedo, abri a porta do quarto e vi-me frente à montanha, com a alvorada tornando avermelhada a sua rocha vulcânica. Entre nós, havia apenas a savana. O impacto foi colossal. Entendi que aquela visão, pela sua força, necessariamente me acompanharia para sempre.

Talvez nesse mesmo dia, encontramos nosso primeiro leão, na verdade uma leoa. Ela veio em direção ao veículo, sem hesitação, calmamente. Ao chegar perto, atravessou frente a nós, sem nem sequer nos dirigir um olhar. Era como se não existíssemos, como se não estivéssemos ali. Do outro lado do carro, parou. Examinou aquela vastidão de savana deserta, talvez procurando uma presa. Sua cor se confundia com a da vegetação árida.

Em Amboseli, contudo, as estrelas são os elefantes. Observamos várias manadas. Uma delas, com aquele pisotear vagaroso mas sólido, tão característico da espécie, chegou perto da estrada de terra onde o nosso veículo e outros haviam parado para admirá-la. Frente ao muro de carros, os elefantes estancaram. Nosso motorista retrocedeu, abrindo espaço. Adultos e bebês se aproximaram e passaram diante de nós. Um amigo, ao ver a foto depois, perguntou se não sentíramos medo, com vários daqueles animais gigantescos circulando ao alcance da mão. Não houve medo algum, apenas o suspense de presenciar sua caminhada maciça e segura.

Um dado recorrente em todos os dias passados nos parques quenianos foi a absoluta indiferença dos animais em relação aos humanos. Às vezes, algum búfalo ou gnu ou zebra nos olhava, com ar de suspeita, enquanto circulávamos. Era até onde ia seu interesse por nós.

Nos parques em torno aos lagos Naivasha e Nakuru, há muitos pelicanos, marabus, águias, flamingos, rinocerontes e hipopótamos. Na Ilha Crescente, no Lago Naivasha, enquanto andávamos a pé, estivemos frente às magníficas girafas Rothschild, as mais altas de todas. Impalas e gazelas corriam por todo lado.

Em Maasai Mara, presenciamos uma morte. Um guepardo andava suave, delicadamente. Parou, sentou, olhou em direção a um grupo de impalas. Estes, percebendo sua presença, começaram a correr em fila. O guepardo, celebremente o animal mais rápido do mundo, precisou apenas escolher uma vítima e dar o bote. Formou-se um círculo de veículos em torno à cena. O felino, deitado, mordia o pesçoco do antílope. Às vezes, o moribundo procurava levantar a cabeça. O guepardo permanecia imóvel, os dentes bem presos à goela de sua próxima refeição. Morto o impala, o guepardo soltou seu pescoço, onde aparecia uma mancha de sangue, e olhou ao redor, como que aspirando algum cheiro. Não se incomodou de estar totalmente circundado por carros. Preservou o ar filosófico, misterioso, tão característico dos felinos. Pôs-se então a jantar, iniciando pelas coxas traseiras.

Uma ou duas horas depois, outra cena nos ensinou ainda mais sobre a natureza. Um leão dormia, deitado à beira do caminho de terra. Paramos para fotografá-lo, conversamos sobre ele, mas nada o acordou. Prosseguimos. Uns trezentos metros depois, havia duas ou três leoas, um macho jovem com a juba ainda pouco crescida e alguns bebês. Estavam adormecidos. Esperamos. Pouco a pouco, foram acordando. Espreguiçaram-se, viraram de barriga para cima, brincaram.

De repente, os animais ficaram imóveis, olhando para a mesma direção, aquela de onde viéramos. Minha filha falou: “O leão que vimos dormindo deve estar chegando”.  Uma leoa se afastou do grupo, desaparecendo do nosso raio de visão. Regressou acompanhando o leão. Este se movia da maneira mais majestática. Sentou-se tal qual uma esfinge, bocejou um pouco, olhou à sua volta. Mesmo Luís XIV jamais terá transmitido tanta serena autoridade, a segurança absoluta de dominar o seu universo.

No dia seguinte, testemunharíamos menos pompa leonina. Deitados à sombra de uma árvore, um leão e uma leoa descansavam. Aproximou-se uma manada de elefantes. Foram passando rente ao casal, ignorando-o, atravessando um tronco caído no chão. O movimento das enormes patas, levantando-se sobre o tronco, por si já justificava nossa viagem inteira.

Revelou-se, no rosto dos felinos, uma certa inquietação com a proximidade dos paquidermes. O maior deles parou diante dos leões. Encarou-os. Com ar de medo, macho e fêmea se levantaram e, a passo rápido, deslocaram-se até outra árvore, mais afastada da rota dos elefantes.  Às vezes, até o ser mais soberbo percebe existir uma força maior.

O alojamento em Maasai Mara situava-se em uma floresta à beira do rio Olare Orok. Nossas noites foram perturbadas ou enriquecidas, dependendo do ponto de vista, pelo canto noturno dos hipopótamos, numerosos naquele local. Muitas vozes pareciam mugir e urrar ou dialogar. Não sabíamos se eram gritos de cólera ou de afeto ou apenas conversas. O concerto costumava se iniciar às duas ou três horas da manhã. Éramos acordados com os sons, mas aquilo era tão fora da nossa experiência habitual, tão fascinante, que ninguém pensava em lamentar o sono perdido.

Em tudo há um aspecto triste. No topo do Kilimanjaro, sobra pouco da sua celebrada neve, descrita por Hemingway em 1936 como “inacreditavelmente branca sob o sol”, e que hoje desaparece por causa da mudança do clima. Em uma ação ecológica, os homens preservam os parques e sua fauna, mas em movimento para o lado oposto, modificam até a mais imponente das montanhas africanas.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 2 de novembro.

Minhas colunas mais recentes no Estado de Minas:

Machado de Assis, uma vida diplomática, 14 de setembro

A diplomacia e seus aliados, 31 de agosto

Afonso Borges e o idealismo, 17 de agosto

Lendo Proust no Brasil, 3 de agosto

Em Bruxelas, o Hino brasileiro, 20 de julho

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Machado de Assis, uma vida diplomática

Machado de Assis, uma vida diplomática

“Silêncio” é a palavra mais recorrente no primeiro volume da biografia de Machado de Assis por C.S. Soares, Machado, O Filho do Inverno (editora Ação, 2025).

Já discutirei o uso do vocábulo, mas antes convém pensar sobre o gênero de obra que é o livro. Se o gosto do leitor é por biografias cronológicas, repletas de detalhes irrelevantes para a compreensão da personalidade do biografado, esse livro não é para ele. Tampouco é uma análise minuciosa das obras de Machado.

C.S. Soares explica o seu propósito no capítulo 8, “O órfão imaginista”, onde também joga um pouco de luz sobre a importância do conceito de “silêncio” no universo machadiano. Esclarece que pouco sabemos sobre a infância do biografado: “As condições socioeconômicas de Machado e sua família ajudam a explicar a escassez documental. Negro, pobre, neto de ex-escravizados, ele pertencia a uma camada que vivia às margens dos instrumentos de preservação oficial, arquivos, retratos, escrituras”.

O mesmo capítulo revela o sentido de O Filho do Inverno. Expõe a profissão de fé de C.S. Soares: “Escrever sobre Machado, portanto, é escrever contra esse apagamento” e, ao mesmo tempo, “recusar-se a ser cúmplice da omissão”. O biógrafo de Machado de Assis precisa ser “jardineiro de vestígios”, que “rega raízes invisíveis”.

Uma tônica do livro de C.S. Soares é como tantas das mazelas do Brasil do século XIX explicam o país de hoje e nele se perpetuam. No capítulo 5, avalia que, do século XIX para cá, “a brutalidade contra os corpos negros não cessou, apenas mudou de vestimenta e aperfeiçoou seus instrumentos”. Assim, a “exclusão que moldou o país” explica a lacuna documental em uma sociedade que “marginalizou sistematicamente os corpos negros, as vozes negras, as experiências negras”.

O Filho do Inverno não é uma biografia romanceada, embora ocasionalmente o autor descreva cenas como se as tivesse presenciado. O objetivo não é inventar, é “escavar o que sobra, recompor contextos, escutar ecos”. E isso faz C.S. Soares, magistralmente.

Não à toa, mais para o final do livro o autor cita André Maurois, lembrando que o escritor francês “perguntava se a biografia seria uma ciência exata ou uma arte imprecisa”. Estima o biógrafo de Machado de Assis que seja ambas e mais: um “esforço de tradução entre o visível e o oculto”.

Tudo o que aprendi na adolescência sobre Shelley, Byron, George Sand, Victor Hugo, Disraeli — que, além de primeiro-ministro na era vitoriana, foi também romancista — eu o devo às biografias que sobre eles escreveu Maurois. Seu volume sobre Proust, que reli com prazer não faz muitos anos, ficou superado apenas porque desde o lançamento, em 1949, novas cartas foram reveladas, obras vieram a público, a compreensão da gênese e da evolução de À procura do tempo perdido se aprimorou. Como mencionei em coluna anterior, “Lendo Proust no Brasil”, os estudos se multiplicaram.

Esse é um ponto importante. Cada geração precisa de mais biografias das figuras de relevo do passado. As percepções mudam, o conhecimento se aperfeiçoa, descobertas ocorrem. Sorrio sempre quando leio em uma resenha que determinada biografia sobre uma personalidade histórica é a “definitiva”. Esse é um conceito absurdo. O futuro entenderá aquela pessoa com nuances diferentes das nossas.

Machado, o Filho do Inverno é a biografia de Machado de Assis apropriada para esta primeira metade do século XXI. É uma visão pessoal, mas crível, sobre a vida e a personalidade do nosso maior escritor. Insere o biografado no contexto da época, a qual nos faz conhecer melhor.

Esta é uma obra que, além de biográfica, narra a experiência de ler, estudar e escrever sobre Machado de Assis. É um passeio pelas sensações que aprender sobre sua vida pode causar. Coloca-nos frente ao biografado, como se fôssemos seus contemporâneos. Visualizamos os cenários, entendemos os atores, ouvimos os sons, captamos os sentimentos.

A maneira como C.S. Soares apresenta seu material nos faz pensar de forma inovadora sobre Machado. Fatos, ideias que estiveram sempre à nossa disposição, diante de nossos olhos, graças a este livro tomam corpo e se tornam nítidos.

Como diplomata, fiquei impressionado com o que aprendi sobre o interesse de Machado de Assis pela política externa. A Guerra do Paraguai, a execução de Maximiliano no México, atritos entre o Império brasileiro e o Uruguai, a China, a situação da Polônia subjugada pelo Império russo: o olhar desse homem que nunca saiu do Brasil se pousava constantemente sobre o exterior.

C.S. Soares faz bom uso de um artigo publicado na imprensa brasileira em 2024 por Xi Jinping, quando participou no Rio de Janeiro da Cúpula do G20. O líder chinês menciona o simbolismo de Cecília Meireles e Machado de Assis terem traduzido poemas da dinastia Tang, indicando “uma sinfonia mental que conecta os dois países”. Machado, amigo em vida de alguns diplomatas, torna-se assim, postumamente, ele próprio um agente diplomático.

Machado de Assis “aprendeu a ocupar o centro. Não com alarde, mas com gramática. Não com armas, mas com substantivos”. Esta é uma biografia celebratória da influência e da liberdade adquiridas pela leitura, a escrita, a instrução. Com uma pena, pode-se vencer a exclusão. O silêncio, assim, torna-se “método”. Pode-se dizer mais por meio de um romance, uma crônica, um conto, do que vociferando em praça pública: “o silêncio é uma forma superior de dizer”.

Na altura em que Machado, o Filho do Inverno termina, acaba de ser publicado Memórias póstumas de Brás Cubas. Impacientemente, fico me perguntando como C.S. Soares abordará, no segundo volume, os anos de glória, a abolição da escravidão, a queda do Império, a fundação da Academia Brasileira de Letras, a morte de Carolina e o fim do próprio escritor.

Uma vez mais surgirão, pela sua mão, novas percepções e uma nova compreensão. 

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 14 de setembro  

Minhas colunas mais recentes no Estado de Minas:

A diplomacia e seus aliados, 31 de agosto

Afonso Borges e o idealismo, 17 de agosto

Lendo Proust no Brasil, 3 de agosto

Em Bruxelas, o Hino brasileiro, 20 de julho

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

A diplomacia e seus aliados

A diplomacia e seus aliados

Foi por meio de uma matéria no jornal O Globo, assinada pelo jornalista Marcelo Ninio, que fiquei sabendo da visita que faria ao Brasil o secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), Kao Kim Hourn, em 18 de agosto. O título da matéria, “Visita do secretário-geral da ASEAN reforça aproximação do Brasil com bloco asiático”, já diz muito. O texto apresenta o estado das relações do Brasil com o Sudeste Asiático, que vêm ganhando dimensão de maneira progressiva e consistente.

Sobre os países da Europa e os Estados Unidos, nós brasileiros sabemos bastante, ou ao menos acreditamos saber. Os laços culturais são extensos e antigos. O mesmo não é necessariamente verdadeiro em relação a outros continentes ou regiões.

À medida que se desenvolvem as relações políticas, econômicas e comerciais com os países do Sudeste Asiático, é importante valorizar os esforços individuais, de jornalistas, acadêmicos e escritores, para nos aproximar desses países. Como lembra Marcelo Ninio, o Brasil exporta para os cinco maiores mercados da ASEAN (Singapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia) “o mesmo que para os cinco destinos tradicionais do G7” (Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão e França). Relações bilaterais sólidas, contudo, dependem também de um conhecimento mútuo no plano cultural, acadêmico e histórico.

O pesquisador Valter Peixoto oferece a sua valiosa contribuição, divulgando, nas redes sociais, com o pseudônimo “MenteMundo”, estudos sobre a geopolítica, a economia e a política do Sudeste Asiático.  

Escritores, artistas, jornalistas, pesquisadores tornam-se, assim, aliados do Itamaraty no esforço de ampliar, diversificar, tornar mais rica a interação do Brasil com outros cantos do mundo. “Aliado” não significa aqui cooptação, mas parceria. Pontos de vista, e mesmo propósitos diferentes são naturais; o importante é o resultado, a criação de vínculos abrangentes.

Fiquei lisonjeado quando Daniela Barrier, brasileira casada com um diplomata francês, me convidou para escrever o prefácio de seu livro Um traje para o aniversário do sultão e outras histórias verídicas, lançado este ano pela editora Polifonia. A obra é fruto da experiência de Daniela em Kuala Lumpur, onde morou com o marido, Gilles Barrier, enquanto este servia na embaixada da França.

A autora descreve sua vida no país, por meio de várias situações que presenciou e amigos com os quais conviveu, sem afetação, capturando de maneira direta a atenção do leitor.  

Há duas atitudes possíveis para quem mora no exterior. Pode-se conviver apenas, ou sobretudo, com compatriotas ou outros expatriados com os quais se percebem afinidades. A pessoa organiza sua vida social dentro de um grupo que pouco sabe ou entende da realidade local. É uma forma de isolamento voluntário. É a opção por viver em uma cápsula. Pode-se estar ali como em qualquer outro lugar. Não se incorpora qualquer visão nova.

A atitude alternativa, a meu ver preferível, é mergulhar com entusiasmo na cultura local, fazer amizades com nacionais daquele país, sair da zona de conforto, dar-se ao trabalho de compreender outra realidade, aprender ao menos os rudimentos de uma nova língua, de novos hábitos, de uma mentalidade distinta daquela em que se foi criado.

As pessoas frequentemente preferem a primeira opção, a do isolamento cultural e social. É a mais fácil; a menos desafiadora; a mais tranquilizadora.

Daniela Barrier escolheu a segunda atitude. Em Um traje para o aniversário do sultão estamos diante de uma brasileira, uma gaúcha que, pelo casamento, assimilou a cultura francesa sem nunca perder a brasilidade. Ao acompanhar o marido em seus postos no exterior, manifesta, adicionalmente, curiosidade, compreensão e apreço pelas culturas que vai descobrindo.

Para um brasileiro, o Sudeste Asiático é distante, diferente e quase desconhecido. Daniela Barrier observa: “quando anunciei aos meus familiares e amigos que iria morar na Malásia, a notícia foi recebida como uma traição: ´O que você vai fazer lá do outro lado do mundo?´”. Ao chegar, constata: “cores, cheiros, sons, sensações, códigos sociais e religiosos, tudo era novo e surpreendente”.

A Ásia costuma provocar essa impressão, de que por mais que tentemos, não chegaremos a compreendê-la perfeitamente. É bem possível que o Brasil, país continental, de enorme complexidade e diversificada riqueza cultural, crie nos estrangeiros, inclusive asiáticos, a mesma impressão de estranheza.

Multicultural, multiétnica, multirreligiosa, a Malásia é um lugar de realidades ricas e variadas. Tendo sido embaixador em Kuala Lumpur durante cinco anos, julguei, quando chegou, em 2025, a hora de partir em uma nova missão de trabalho, que, mesmo depois de tanto tempo frequentando preferencialmente malásios, em diferentes esferas políticas, econômicas, sociais, artísticas, literárias, jornalísticas, e tendo feito ali amigos excelentes, havia ainda muito a descobrir.

Independentemente da importância comercial que o Sudeste Asiático, incluindo a Malásia em particular, adquiriu para o Brasil, a localização geográfica da região a torna um dos epicentros, hoje, das disputas geopolíticas no mundo. Lá podem ser observadas de maneira mais intensa as tensões entre a China e os Estados Unidos. A Malásia, especificamente, situa-se entre o Mar do Sul da China e o Oceano Índico, ao longo do Estreito de Malaca, por onde passa parcela considerável do comércio mundial.

O poeta franco-belga Henri Michaux publicou em 1933 um relato de viagem à Ásia. Mas é em um livro anterior, sobre o Equador, de 1929, que ele lança uma frase na qual penso frequentemente. Michaux escreve: Dans les lieux qu´on ne connaît pas, il y a donc parfois quelque chose, que eu traduziria como: “Também nos lugares que não conhecemos, acontecem coisas, afinal”.

Sim, acontecem. O que Daniela Barrier oferece ao leitor, com seu livro encantador, é a oportunidade de olhar em direção a uma região tão longínqua da nossa e, ao mesmo tempo, tão sedutora. Generosamente, ela transmite o sentimento de fascínio e satisfação que uma mente aberta ao mundo pode receber ao perceber uma nova realidade.

Torna-se aliada da diplomacia.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 31 de agosto

Minhas colunas mais recentes no Estado de Minas:

Afonso Borges e o idealismo, 17 de agosto

Lendo Proust no Brasil, 3 de agosto

Em Bruxelas, o Hino brasileiro, 20 de julho

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Afonso Borges e o idealismo

Afonso Borges e o idealismo

O Brasil é um país feliz. Desde o grande sucesso da última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, outros eventos voltados às letras e às ideias já se realizaram, e agora estamos nos aproximando do Festival Literário Internacional de Paracatu, o Fliparacatu.

Perguntei ao escritor Afonso Borges, idealizador do festival, que acontecerá entre 26 e 30 de agosto, quantas pessoas são esperadas: “umas 30 mil”, ele respondeu; “ano passado foram 25 mil”. A programação inclui tantos participantes, que não posso citar todos, cometendo assim uma injustiça, mas a lista completa talvez ocupasse o espaço inteiro de que disponho nesta coluna.

Lá estará Beatriz Bracher, ganhadora no ano passado do Prêmio Machado de Assis de melhor romance da Fundação Biblioteca Nacional pelo primeiro volume de seu livro sobre a Guerra da Tríplice Aliança, ou do Paraguai, Guerra – I. Recebi o livro como presente de aniversário, em janeiro, de uma prima particularmente querida, a cineasta Lucia Murat, e por isso ele possui valor duplo para mim.

Lá estará Bruna Lombardi, com a nova edição de seu Diário do Grande Sertão. Este ano, comemoram-se setenta anos da publicação do romance de Guimarães Rosa e quarenta anos da série de televisão na qual a atriz e escritora interpretou, celebremente, Diadorim. Justamente, o Fliparacatu deste ano é pensado como uma homenagem ao autor de Grande Sertão: Veredas e ao geógrafo Milton Santos.

Lá estarão duas finalistas do Troféu Juca Pato, Prêmio Intelectual do Ano, — o resultado será conhecido em setembro —, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, cuja participação na FLIP foi uma das mais celebradas e concorridas, e a escritora Eliana Alves Cruz, ganhadora do Prêmio Jabuti e do Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras.

Lá estará a poeta Fabiana Carneiro da Silva, a quem conheci há poucas semanas — graças, aliás, a Afonso Borges — aqui em Luanda, onde ela viera realizar pesquisa para seu pós-doutorado. Não percam a sua participação em Paracatu, pois é contagiante o entusiasmo que ela transmite ao falar da sua área de estudo, a presença dos provérbios de matriz africana na literatura brasileira. Ao escutá-la a respeito, captamos uma luz nova, fascinante.     

Lá estará Natalia Timerman, cujo notável romance Copo vazio mencionei em coluna anterior, “O delírio do Chimborazo”. A literatura, para mim, funciona assim: você está escrevendo sobre a experiência vivida no Equador por João Cabral de Melo Neto e encontra um desvio para poder citar um livro favorito de outro autor, no caso autora. Afonso Borges não é alheio a tais bifurcações. Em seu livro Tardes brancas, em um conto sobre Murilo Rubião, de quem foi amigo, cita duas vezes Maurice Druon.

Lá estará Paulliny Tort, cujo romance Os imortais minha mulher e eu acabamos de ganhar de presente de um amigo mineiro. Não houve ainda tempo de lê-lo, mas notei que o exemplar enviado por Hudson Caldeira Brant é o seu próprio, pois está todo anotado e desenhado por ele. Os desenhos ilustram passagens ou personagens do livro e as anotações são citações em grego e latim ou versículos da Bíblia, inspirados em nosso colega latinista pela leitura do romance. Hudson Caldeira Brant me fez ver que as letras no cabeçalho de cada capítulo, quando as juntamos, formam um trecho do primeiro canto da Eneida. Quando lermos Os imortais, portanto, já teremos nossa própria edição comentada.

O meio literário brasileiro deve muito a Afonso Borges, incansável patrono de livros e escritores. É fundador, além do Fliparacatu, também do Fliaraxá, do Flitabira e do Flipetrópolis. Seu papel, porém, é ainda mais abrangente.

No prefácio de Tardes brancas, Humberto Werneck resume de forma esclarecedora a atividade de Afonso Borges. Ele criou, em 1986, o “Sempre um Papo”, projeto destinado, explica Werneck, a colocar “sob as luzes quem esteja lançando livro relevante e, com direito à participação do público, entabular uma conversa à qual se seguirá sessão de autógrafos”. Diariamente, na rádio Alvorada FM, apresenta a coluna “Mondolivro”. Trata-se, assim, de um esforço duradouro, incansável, de muito fôlego pela divulgação da literatura brasileira.

O meio literário pode ser competitivo, como qualquer outro ambiente profissional. No entanto, é na literatura que residem algumas das pessoas mais generosas com quem já interagi.

Além de Afonso Borges, idealista promotor de uma bela visão da palavra escrita, ocorre-me destacar, como exemplos de altruísmo na sua dedicação às letras, o poeta e editor Rogério Duarte, a escritora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, o jornalista literário Rodrigo Casarin, o escritor Beto Seabra e o escritor e jornalista Carlos Marcelo, diretor de redação do Estado de Minas e editor de seu caderno literário, “Pensar”.

Geografia e tempo estarão entre os conceitos mais relevantes no Fliparacatu, cujo material de divulgação acentua a busca, por cada ser humano, de seu lugar no mundo, lugar esse que pode ser “uma cidade, uma rua, uma casa, uma lembrança ou até uma pessoa”. Uma mesa tratará das “fronteiras entre memória, experiência e invenção”; outra abordará “memória, território, afetos e identidade”; uma terceira discutirá “a escrita como espaço de memória, imaginação e esperança”.

A mesma linha parece seguir o escritor e crítico Miguel Sanches Neto. Em uma resenha assustadoramente aguda do meu próprio Geografia do tempo, ele observa que as coisas no livro “se sobrepõem, em um palimpsesto em que a experiência direta e a indireta, as referências do outro e as próprias, o que foi e o que está sendo, a realidade vivida e a ficção sonhada a partir da arte, tudo se torna uma única pátria acolhedora”.  

Sérgio Abranches e Calila das Mercês, com Daniela Prado assinando a programação local, e Rafael Nolli se encarregando da curadoria infanto-juvenil, se juntarão, na curadoria do Fliparacatu, ao paladino das letras que é Afonso Borges.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 17 de agosto

Minhas colunas mais recentes no Estado de Minas:

Lendo Proust no Brasil, 3 de agosto

Em Bruxelas, o Hino brasileiro, 20 de julho

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Lendo Proust no Brasil

Lendo Proust no Brasil

A memória de Marcel Proust foi intensamente celebrada nos anos em torno a 2022, centenário de sua morte. Em 2021, comemorara-se o sesquicentenário de seu nascimento. A bibliografia sobre sua vida e sua obra, já extensa, atingiu naquele período um patamar incontrolável.

Há muita satisfação em ver um autor predileto estudado, comentado exaustivamente. Mesmo os proustianos mais perseverantes, porém, nos vemos hoje diante da impossibilidade de ler tudo o que repousa nesse altar. E para quem está se decidindo a mergulhar em “À procura do tempo perdido”, existe o risco de ceder à tentação de ler sobre o romance, em vez de ler o romance.  

No oceano bibliográfico, dois livros publicados em 2022, ambos pela editora Gallimard, merecem menção especial, pela qualidade e o elo com o Brasil.

Comecemos pelo volume coletivo Proust-Monde: Quand les écrivains étrangers lisent Proust. Um de seus organizadores é o suíço-brasileiro Étienne Sauthier, especialista da difusão e da recepção de Proust no Brasil. Trata-se de uma coleção de textos em que escritores e tradutores de diversas nacionalidades relatam suas percepções diante da obra do autor francês. Segundo a prefaciadora, Blanche Cerquiglini, responsável pela coleção Folio classique, selo pelo qual o livro foi lançado, a antologia desvenda que “outros que nós, apartados pelo tempo e a distância, nos entendem tão bem quanto nós mesmos”.

Comentários de alguns autores brasileiros são incluídos, inclusive um artigo de 1983 de Antonio Candido, traduzido para o francês pelo professor Fillipe Mauro, que nos explica as idas e vindas do crítico em relação a Proust.

Entre os tradutores, há textos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, três dos responsáveis pela primeira tradução brasileira, editada de 1948 a 1957. Há uma entrevista com Rosa Freire d´Aguiar, que trabalha, juntamente com Mario Sergio Conti, em uma nova tradução, a terceira, da qual os dois primeiros tomos já foram publicados pela Companhia das Letras.

Em tributo aos novos tradutores, emprego, como eles, o título À procura do tempo perdido, em vez da versão anterior, Em busca do tempo perdido. 

Em seus artigos, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, respectivamente em 1925 e 1930, admitem que sua primeira leitura de Proust não os entusiasmou. Étienne Sauthier menciona a ironia de que, duas décadas depois, ambos viessem a se tornar tradutores da obra.  

A entrevista da consagrada autora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, realizada especificamente para os organizadores de Proust-Monde, revela não somente o que significa para ela lidar com Proust, mas como encara o ofício de traduzir.

No Instituto Rio Branco, somos ensinados a evitar adjetivos, para não perder a objetividade analítica. Mas a palavra que me ocorre, em relação ao texto de Rosa Freire d´Aguiar, é “brilhante”. Pinço algumas frases: “As obras não envelhecem, as traduções sim. Traduzimos com palavras de nossa época. E a língua evolui, termos se tornam obsoletos. Uma nova tradução é uma nova leitura”. Por isso, “retraduzir os clássicos é conceder-lhes permanência”. Comenta, deliciosamente, que, em um trecho, optou pela palavra “ensopado”, em vez de “gororoba”, porque esta última, de sabor muito brasileiro, deslocaria culturalmente a atmosfera da página proustiana.

Rosa Freire d´Aguiar sugere que o personagem mais difícil para o tradutor é Françoise — a cozinheira da família do Narrador. Corre-se o risco de transformar suas falas em um pastiche, de fazer dela uma caricatura.   

A última pessoa a trabalhar na casa de Proust, Céleste Albaret, foi a destinatária das palavras finais, três frases curtas, que ele escreveu, acamado, enfraquecido, horas antes de morrer. Cinquenta anos depois, Céleste Albaret publicaria as suas memórias e incluiria no volume uma foto do derradeiro bilhete. Descubro, para minha surpresa, que esse pequeno papel, hoje, mora no Brasil. Integra a coleção de Pedro Corrêa do Lago, como ele menciona em seu livro Marcel Proust: Une vie de lettres et d´images.

Perdi aqui o medo de adjetivar, então vá lá: “espetacular” é a melhor maneira de definir essa obra, premiada na França e prefaciada por Jean-Yves Tadié, atualmente o principal biógrafo de Proust. O livro de Pedro Corrêa do Lago é generosamente ilustrado. O dado crucial é que todos os cerca de 450 manuscritos, fotografias, desenhos e cartas mostrados pertencem a ele. Na introdução, modestamente, ele declara que seu objetivo não era escrever uma biografia de Proust; no entanto, é esse o resultado do seu trabalho. Organiza o texto em capítulos curtos, acompanhando a obra do escritor, e sua vida e a de seu círculo, de maneira cronológica, orientado pelos documentos que integram a sua coleção.

Igualmente inesperado é um fragmento de papel, onde Proust parece explorar uma alternativa à célebre abertura de seu romance, “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”, que Mário Quintana traduziu como: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”. No fragmento em questão, quando as provas com a frase “hoje icônica”, como bem diz Pedro Corrêa do Lago, já estavam com o editor, Proust examina esta alternativa: “Ao longo de muitos anos, à noite, quando eu acabava de me deitar […]”.  

Ao utilizar apenas o seu próprio material, Corrêa do Lago comunica uma experiência pessoal sobre o autor, pois afinal, como declara, “o contato físico com o papel que ele mesmo tocou é talvez o mais próximo que possamos estar de um ser admirado e que morreu antes do nosso nascimento”.  

Apenas um outro trabalho recente fala no escritor francês de maneira tão particular. Laure Murat, em Proust, roman familial, publicado em 2023 pela editora Robert Laffont, parte do fato de que antepassados seus o conheceram para nos entregar uma visão intimista de como “À procura do tempo perdido” modificou sua vida. Essa obra, porém, nada tem a ver com o Brasil; o espaço para me estender sobre ela é meu próximo livro, que espero poder terminar em breve.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 3 de agosto

Minhas colunas mais recentes no Estado de Minas:

Em Bruxelas, o Hino brasileiro, 20 de julho

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Em Bruxelas, o Hino brasileiro

Em Bruxelas, o Hino brasileiro

A notícia veio em dezembro: nossa filha e o namorado nos comunicaram que se casariam em junho. A cerimônia aconteceria em Bruxelas, cidade onde trabalham há muitos anos. Os convidados seriam exclusivamente amigos e parentes mais próximos dos noivos.

Minha filha e meu genro foram colegas de colégio na Bélgica. Anos atrás, recebi, em Brasília, um telefonema: “papai, só para avisar que estamos na prefeitura de Ixelles, onde acabamos de estabelecer uma união estável”. Ixelles é o bairro de Bruxelas, ou comuna, como lá se diz, onde eles vivem. Tentei dramatizar: “como? Você se casou e não nos convidou!”, mas ela retrucou: “não é um casamento, é uma união estável; nós decidimos e viemos. Não pude avisar antes”. 

Os leitores terão notado que se trata de uma pessoa independente. Ela não teve opção: desde que fez dezoito anos, minha mulher e eu, obrigados pelo nosso próprio trabalho, vivemos em outros continentes, longe dela, primeiro em Brasília, depois no Sudeste Asiático e agora na África.

Houve um breve momento em que minha filha conseguiu um emprego em Brasília e voltou a morar conosco. Aqueles foram meses radiantes para nós, que havíamos pensado nunca mais poder conviver com ela. Seu objetivo era instalar-se com o namorado, que é belga, em São Paulo, onde os dois trabalhariam. Revelou-se, porém, mais fácil para ela, detentora exclusivamente do passaporte brasileiro, conseguir, de Brasília, por meio de entrevistas virtuais, um emprego mais atraente em Bruxelas.

A cerimônia civil do casamento também se realizou na sede da comuna de Ixelles. Regressávamos a um local conhecido. Há muitos anos, já havíamos assistido, os três, naquele mesmo lugar, ao casamento de Henrique, um colega e amigo querido.

Nossa filha nada nos pediu para o casamento. Ela e o noivo cuidaram de tudo. Nosso papel era apenas estar presentes e nos comportarmos bem. Em contrapartida, não nos foi autorizado convidar nossos amigos. Abordei o assunto com uma dessas amigas em Bruxelas; ela reagiu elegantemente: “Quando nosso filho se casou há alguns meses, passamos por essa situação. Não pudemos chamar ninguém. Hoje em dia é assim. E está certo, é a festa deles”.

Recebemos, na verdade, uma incumbência. Buscar, na manhã da cerimônia, o buquê de flores. De início, pensei tratar-se de uma função periférica, para que não nos sentíssemos inúteis. Percebi o quão equivocado eu estava enquanto voltávamos a pé, do florista ao hotel. Caminhando pelas ruas residenciais desertas de Ixelles, entendi ser aquela uma experiência única. Nossa filha desenhara ela mesma o buquê. O modelo, que ela criou como um emblema do amor entre ela e o noivo, passou a ser exibido pela casa de flores em suas redes sociais.    

Uma consequência de vivermos sempre tão longe dela, é que não víamos seus colegas de escola há muitos anos. Revelou-se difícil reconhecer, na forma de adultos, pessoas que havíamos encontrado pela última vez como adolescentes. Cumprimentei Peter como se fosse Xavier. Tampouco conhecíamos pessoalmente seus amigos mais recentes, embora ouçamos referências a eles com frequência. Boa parte do dia foi passada com exclamações como: “Oh, então essa é que é a Lisa? E essa é a Monica? E essa a Dayana?”. Foi cruel constatar como, por causa da distância a que fomos condenados a viver, perdemos tanto do cotidiano de nossa filha.

A chamada prefeitura de Ixelles está instalada em uma casa culturalmente importante. Foi construída em 1833, para servir de residência à muito célebre cantora de ópera Maria Malibran e seu companheiro, um violinista belga. Eles se casaram poucos meses antes da morte da mezzosoprano, aos 28 anos apenas, em 1836, das consequências de uma queda de cavalo na Inglaterra.

Maria Malibran, figura ilustrativa da era romântica, ganhou, nas últimas décadas, fama renovada graças a outra mezzosoprano. Cecilia Bartoli, que idolatra Malibran, lançou, em 2007, um disco, “Maria”, com árias tornadas famosas pela predecessora. Em homenagem a Maria Malibran, Bartoli concebeu um museu itinerante sobre rodas, em uma espécie de trailer onde eram exibidos objetos pessoais, manuscritos, cartas, partituras e documentos ligados à grande cantora. Uma vez, em Bruxelas, vi na rua esse veículo e até hoje lamento não ter visitado a coleção que continha.

A família de Maria Malibran era inteiramente composta por músicos, compositores e cantores de ópera. Sua irmã quinze anos mais jovem, Pauline Viardot, outra mezzosoprano igualmente célebre, é conhecida pelos apreciadores de literatura russa por ter sido o grande amor de Ivan Turguêniev. Este ouviu-a cantar em São Petersburgo em 1843, e a partir daí ficou preso aos seus encantos até morrer em 1883. Seguia-a pela Europa e mudou-se para a França, entre outras razões, para ficar perto dela. Desenvolveu laços de amizade com toda sua família, inclusive com o marido de Pauline. Houve períodos em que dividia casa com eles.

Há debates sobre se escritor e cantora consumaram fisicamente sua relação. Henri Troyat, biógrafo de Turguêniev, acredita que sim, mas por apenas um curto tempo. De qualquer maneira, parece haver consenso de que Pauline Viardot valorizava a amizade com o escritor, mas não o amava da mesma forma ou com a mesma intensidade. Os dois cultivaram outros amores e, às vezes, ficavam meses, anos sem se encontrar, quando Turguêniev se instalava na Rússia por longas temporadas.    

O primeiro vereador de Ixelles, ao oficiar no casamento de nossa filha, observou estarmos no que fora a sala de música de Maria Malibran e seu marido belga, “que nesta casa viveram o seu romance”. Durante a cerimônia foi uma surpresa e uma grande alegria ouvir, tocado pelo pianista, no meio da seleção musical, um trecho do Hino Nacional brasileiro.

Dois dias depois, minha mulher e eu iniciamos o regresso a Luanda. Na parada em Lisboa comemoramos singelamente, com minha mãe e minha irmã, nosso aniversário de casamento.  

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 20 de julho

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

A Seleção diante do mundo

A Seleção diante do mundo

Quando esta coluna for publicada, teremos, na véspera, derrotado a Noruega e passado para as quartas de final da Copa do Mundo masculina. Ou não. No futebol, tudo acontece, e as decepções, de certa maneira, formam parte da alegria. O elemento de imprevisibilidade é o que torna o jogo tão empolgante.

Quem poderia prever que a Alemanha, quatro vezes campeã, nossa algoz em 2014, em casa, no Mineirão, quando nos humilhou de 7 a 1, seria este ano eliminada já nessa fase nova, os 16 avos? Não chegou às oitavas de final. No entanto, esse resultado não era assim tão improvável. Depois de ganhar a Copa no Brasil, os alemães em 2018 e 2022 não haviam passado sequer da fase de grupos. Fomos desclassificados de maneira vexaminosa, em 2014, por um super-herói de pés de barro.

Este ano, nos 16 avos entre a Bélgica e o Senegal, foi o país africano que jogou melhor durante quase toda a partida. Terá relaxado na reta final, acreditando na vitória? O fato é que nos últimos minutos a Bélgica fez dois gols e empatou. Um pênalti nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação eliminou o Senegal do torneio.  

Em um dos meus grupos de WhatsApp, houve protestos de que a concessão do pênalti à Bélgica fora indevida. Analistas especializados parecem discordar, assim como meu genro, que é belga.

Tenho me pegado cantarolando, em Luanda, o bordão: “Todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta”. Os comentaristas do canal brasileiro pela qual venho assistindo aos jogos disseram, depois da vitória sobre o Japão: “Não é a Seleção de antigamente, mas é a seleção do único país cinco estrelas, minha gente, e isso impõe respeito”.

Recomendo um documentário em um serviço de streaming intitulado “USA 94: Brazil´s Return to Glory”. É fascinante observar como, na preparação para a Copa masculina de 1994, nos Estados Unidos, que viríamos a ganhar — nossa quarta estrela — Carlos Alberto Parreira era criticado. Errara ao convocar alguns jogadores, errara ao não convocar outros. É um hábito brasileiro: até fazermos o primeiro gol, tudo está péssimo, falta entrosamento no time, determinados jogadores não dizem a que vieram, o técnico não está à altura — pobre do técnico, quem quer que ele seja; compete com outros 220 milhões de especialistas. Mas aí ganhamos o jogo, e isso só pode ser, afirmam os mesmos críticos de alguns minutos atrás, porque estamos rumo ao troféu.

No exterior, a admiração pela nossa Seleção é em geral consistente. Em países que não se classificam para o torneio, é comum a população torcer pelo Brasil. De quatro em quatro anos, desde 2006, nós os frustramos, mas a sua lealdade é indefectível.

Em 2022, na Malásia, fui convidado pelo prefeito de Kuala Lumpur a assistir à partida das quartas de final contra a Croácia em um telão na Praça da Independência. Acompanharam-me vários amigos malásios que apostavam no Brasil. A Malásia nunca participou de uma Copa do Mundo; seu povo gosta da Seleção e, na sua maioria, torce por ela. Ou assim me diziam meus interlocutores. Mas quem sabe, talvez o embaixador da Argentina ouvisse as mesmas palavras gentis dos seus próprios amigos.

Em todo caso, a população presente à praça, naquele jogo de quartas de final, claramente queria ver o Brasil triunfar. Chovia muito. À medida que o jogo se desenrolava, a chuva ia passando e a multidão na praça aumentava. Sentia-me desapontado com a atuação da Seleção. Ao mesmo tempo, percebi estar reagindo de forma tipicamente brasileira: se o gol não viera ainda, só podia ser porque o time não estava bem. Notei algo, porém: o ânimo na praça mudara. O público já não torcia pelo Brasil, começara a acreditar na Croácia.

Impressões nem sempre são subjetivas. Naquela noite, era impossível eu não constatar que os lances sendo aplaudidos eram agora os da Croácia. O prefeito já não conversava comigo animadamente, como no começo do jogo. No intervalo, meus amigos, já desapontados, me ofereceram palavras de estímulo.

Ao final da partida, depois dos pênaltis, cumprimentei o embaixador da Croácia fazendo uso de termos diplomáticos e elogiosos. Esperava ouvir de volta algo como “vocês também jogaram bem”. Em vez disso, meu colega croata respondeu, esfuziante: “Não falei, quando cheguei? Não falei? Eu disse que se fôssemos para os pênaltis a gente ganharia! Eu sabia! Nosso goleiro é o melhor do mundo”. Não levei a mal. Se nós, brasileiros, nos ufanamos de nossa Seleção, é natural que outras nacionalidades façam o mesmo com as suas.

Também naquele ano de 2022, pouco antes de a Copa ter início, eu lera o livro de memórias do historiador malásio Khoo Kay Kim. Frases inesperadas, naquele contexto, apareceram diante de mim: “Foi também em 1958 que tive a revelação da Seleção brasileira, ao assistir à Copa do Mundo, que ela ganharia. Nunca eu vira futebol ser jogado daquela maneira. A Copa, assim, expandiu meu universo. Até então, o Brasil era para mim um país de que eu apenas ouvira falar em aulas de geografia”.

Durante a infância e a adolescência, onde quer que estivesse no nosso planeta, ao voluntariar minha nacionalidade eu recebia, sistematicamente, uma única reação: “Brasil! Terra do Pelé!”. Edson Arantes do Nascimento, adorado no exterior, simbolizou sozinho, durante décadas, aos olhos do mundo, um país inteiro.

No fim das contas, esse é o papel único que a Seleção e suas estrelas exercem, com suas vitórias e suas derrotas, suas glórias e suas tristezas: um elemento de poder brando, uma alegoria de Brasil. Talvez ganhemos o hexa este ano ou no futuro, talvez nunca. A Canarinho continuará, porém, a exercer o seu fascínio, galvanizando-nos, os brasileiros, e gerando, em outros países, amizade por nós.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 6 de julho

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Futebol na Opéra Bastille

Futebol na Opéra Bastille

Minha mãe, Thereza Quintella, estava na igreja no Rio um domingo à tarde, em janeiro. Terminada a missa, o padre avisou: “peço que permaneçam aqui dentro ainda por algum tempo, porque há tumulto na rua, vindo da praia”.

Passei pela mesma experiência no final de maio, em Paris. Não na missa, mas na Opéra Bastille. Ao final do espetáculo, o diretor da Ópera de Paris, Alexander Neef, apareceu no palco, antes mesmo de os artistas virem ser aplaudidos, e anunciou: “alguns de vocês, durante o intervalo, terão visto nos seus celulares que o Paris Saint-Germain derrotou o Arsenal e ganhou a Liga dos Campeões. Com isso, há tumulto na Praça da Bastille. Pedimos que permaneçam sentados até avisarmos que é seguro sair”.

Pensei tratar-se de alguma brincadeira, uma forma jocosa de celebrar a vitória do time. Afinal, a partida acontecera longe, em Budapeste. Inocentemente, eu passara o intervalo no bar do teatro, devorando um sanduíche, lendo o programa. Tudo dentro da minha política de viver o presente, de me concentrar na situação em que me encontro. Ligara o celular apenas para escrever para Londres, à presidente de uma fundação cultural privada que promove montagens de óperas na China e na Europa. Recomendei-lhe que viesse a Paris assistir àquela produção.

Haveria muito a dizer sobre “Ercole amante”, ou “Hércules apaixonado”. Composta em 1707 por uma veneziana residente na França, Antonia Bembo, a obra até recentemente nunca fora ouvida, nem mesmo na época da artista. A partitura dormira abandonada na Biblioteca Nacional da França. Em 2023, houve em Stuttgart uma apresentação em versão concerto, com cortes; e, no final de 2025, uma produção em São Francisco. 

A criação na Opéra Bastille era, assim, um acontecimento. Ouvíamos o que praticamente ninguém jamais ouviu. Quanto a Antonia Bembo, soube de sua existência em 2019, quando, para comemorar o Dia Internacional da Mulher, o então embaixador da França no Brasil, Michel Miraillet, organizara um concerto na embaixada com o grupo brasiliense Estúdio Barroco. Foram tocadas apenas obras de compositoras, todas dos séculos XVII e XVIII.     

No auditório da grande casa de ópera, comecei a desconfiar que talvez o anúncio do diretor merecesse ser levado a sério. Notei que o público continuava sentado, mesmo após os agradecimentos dos artistas. Perguntei a um casal sentado atrás de mim: “Não pode ser nada tão sério que nos impeça de sair?”. Eles me explicaram: “Ano passado, quando o Paris Saint-Germain também ganhou, foi terrível, houve muita violência e destruição”. Acessei o celular. A manchete em um jornal francês informava: “PSG-Arsenal: duas pessoas feridas, tiros de rojão, lojas saqueadas… os incidentes se multiplicam em Paris e na França”.

Depois de algum tempo, Alexander Neef reapareceu. Informou: “Vamos liberá-los, mas vocês não poderão sair pela Praça da Bastille, a situação não se acalmou ainda. Sairão pela rua lateral. Isso vai levar um certo tempo”. Formou-se uma fila. Tendo atingido a porta, não resisti. Em vez de continuar pela rua relativamente segura, dirigi-me à praça.

Tumulto seria pouco para definir a cena. Pessoas corriam e gritavam e se empurravam. Fogos estouravam no ar incessantemente. Labaredas surgiam do chão. De todos os lados, soavam as sirenes da polícia. O espírito não era de alegria e confraternização, mas de tensão. Passantes incautos, com medo no olhar, pareciam querer se afastar o mais rapidamente possível.

O cenário me fez lembrar que ali mesmo, em 14 de julho de 1789, no local onde hoje se situa a praça, a fortaleza da Bastilha, usada como prisão pelos reis da França, fora conquistada. Derrubar um símbolo detestado do absolutismo pareceu-me, porém, razão mais justificável para tanto caos.

Pensei uma vez mais na sabedoria da minha mulher que, na última hora, decidira não sair comigo e permanecer no hotel. Um sexto sentido, supus, teria feito com que pressentisse a confusão e desistisse da ópera.

Voltei à rua lateral por onde o público continuava emergindo do teatro. Era uma multidão caminhando rapidamente, de forma concatenada, preocupada, mas pacífica. Chegando a uma avenida, consegui chamar um Uber. O carro demorou um pouco, por causa dos transtornos, mas acabou aparecendo. Coloquei ao motorista a questão que me intrigava: “Se a celebração de uma vitória é assim, como estariam reagindo as pessoas se o Paris Saint-Germain tivesse perdido?”, e ouvi: “Teria sido igual. Todo ano é a mesma coisa, que a gente perca ou ganhe é essa baderna”. O motorista tampouco deixou de me comunicar sua opinião a respeito do período de Neymar no PSG.

Ao longo do caminho, íamos passando por celebrações mais corriqueiras, com engarrafamento, gente gritando ou acenando com camisas pelas janelas dos veículos; às vezes havia trechos quase desertos. Era o último sábado de maio, em uma temporada excepcionalmente quente, e os parisienses, apesar da hora tardia, passeavam e confraternizavam.

Nos dias seguintes, as diferentes correntes da imprensa e do meio político debateriam intensamente sobre as causas e o resultado dos tumultos. Mas nas ruas, nos jardins, um verão de forte calor se iniciava, e prevaleciam a beleza e a tranquilidade.

Em um momento de chuva, abrigamo-nos na exposição do Matisse, que focaliza “a luz radiante dos seus últimos anos”, como comenta o material de divulgação do Grand Palais. Perdi a conta de quantas exposições do pintor já visitei ao longo das décadas. Mas nunca me cansaria. Ia de sala em sala, como se nunca antes tivesse visto aqueles quadros, aqueles guaches recortados; e alguns eram, de fato, uma novidade. A mostra, espetacular, traz como uma injeção de energia e entusiasmo, e revelações sobre o encantamento de estar vivo. 

Tomamos o trem para Bruxelas. Lá nos esperavam impressões mais duradouras do que o teatro, a música, a arte, o futebol ou mesmo enfrentamentos de rua podem proporcionar. Estávamos a caminho do casamento da nossa filha.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 22 de junho.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Memórias pouco diplomáticas

Memórias pouco diplomáticas

Kishore Mahbubani é um dos analistas de relações internacionais mais lúcidos da atualidade. Diplomata de carreira aposentado, foi, por duas vezes, embaixador de Singapura junto às Nações Unidas, inclusive no único período em que o país integrou, como membro não-permanente, o Conselho de Segurança.

Seus livros abordam a ascensão contemporânea da Ásia, detêm-se sobre a evolução econômica da Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN) e examinam as repercussões da rivalidade entre China e Estados Unidos. Até agora, traduziu-se no Brasil apenas um deles, com o título “A China venceu? O desafio chinês à supremacia americana“. 

Mahbubani lançou, em 2024, um livro de memórias notável, “Living the Asian Century: An Undiplomatic Memoir”. Melhor subtítulo não poderia haver, porque o autor fala de sua vida pessoal e de sua trajetória profissional com surpreendente transparência. Lembro que, na ocasião, o jornal “The Straits Times”, de Singapura, apontou o quão fora do comum era a sua candura, para padrões daquela sociedade.

A verdade, porém, é que não conheço nenhum livro de memórias de diplomata, mesmo aposentado, tão sincero como esse. Diplomatas tendem a maximizar seus feitos e a relativizar seus desapontamentos. A vaidade é um traço usual da prática diplomática, e não é a aposentadoria que mudaria essa característica.

Kishore Mahbubani, ao contrário, fala com naturalidade de suas dificuldades familiares e suas frustrações e dúvidas profissionais. Trilhou, no entanto, uma carreira extremamente bem-sucedida. Além de servir duas vezes como representante permanente de seu país junto às Nações Unidas e de presidir o Conselho de Segurança, foi secretário permanente da Chancelaria, segundo cargo na hierarquia do serviço exterior.

Mahbubani foi o primeiro reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy, um dos principais centros asiáticos de ensino de políticas públicas. Seus livros, traduzidos e estudados no mundo inteiro, são respeitados pela clarividência política. Fica claro, da leitura das suas memórias, que os êxitos que colheu na diplomacia valem, para ele, tanto quanto, mas não mais do que seus sucessos acadêmicos. 

É também um palestrante requisitado no circuito internacional. Em 2023, em Kuala Lumpur, assisti a duas apresentações suas, uma delas intitulada “Quando os elefantes brigarem, será a ASEAN pisoteada?”, sendo os “elefantes”, naturalmente, a China e os Estados Unidos. Minha mulher, que então trabalhava em Singapura, e o conhecia pessoalmente, já havia me recomendado suas obras. Palestrando e circulando em um palco, falando sempre sem notas, Kishore Mahbubani é uma presença carismática. Em 2024, reunião que organizei em minha casa em torno a ele transformou-se em um momento memorável para os presentes.

O diplomata e acadêmico nasceu em 1948, em uma Singapura ainda sob domínio britânico, para onde seus pais, hindus de origem sindhi, haviam emigrado. Sob qualquer critério, seu começo de vida foi penoso: faltava dinheiro e o pai enfrentava problema de alcoolismo. Frequentar uma biblioteca pública ampliou seus horizontes. Sua grande inteligência e força de caráter fizeram o resto.

A sua história de superação mantém um paralelo com a própria história do país. Singapura, ao se tornar independente em 1965, via-se rodeada por Malásia, de que se separara, e Indonésia, países com muito mais recursos e muito mais populosos. De forma quase inverossímil, o país soube contornar uma situação de pobreza real, em meio a imensas desvantagens, para transformar-se, em poucas décadas, em uma das nações mais prósperas do mundo.

O próprio autor sugere esse paralelismo: “Duas separações trouxeram calma à minha vida: a da minha mãe do meu pai, em 1962, e a de Singapura da Malásia, em 1965”.

O desenvolvimento de Singapura deveu-se ao pulso firme de Lee Kuan Yew, primeiro primeiro-ministro do país, e do time que convocou para formar seu governo. Juntos, imprimiram ao país uma ética inflexível de trabalho e responsabilidade, presente ainda entre os singapurenses. A imagem de Lee Kuan Yew paira sobre o livro de memórias de Kishore Mahbubani. Entrevistado, uma vez, pelo líder, que desejava testar sua capacidade para um cargo, este lhe perguntou: “por que você não tem nenhum amigo?”. Imagine o que não será ouvir do chefe de governo de seu país essa pergunta, em uma entrevista de que depende o seu futuro profissional.

“Living the Asian Century” é de fato “undiplomatic”, ao articular verdades do relacionamento internacional que poucos se atrevem a encarar. “As grandes potências sempre colocarão seus interesses à frente de princípios, ao lidar com estados menos importantes”, diz a certa altura. Outra realidade apontada é a impossibilidade de que as regras pouco democráticas de funcionamento do Conselho de Segurança sejam modificadas por seus membros não-permanentes. Quando presidiu o Conselho, Mahbubani tomou iniciativas que provocaram, na delegação da França, membro permanente, o seguinte comentário: “Por que esses turistas pensam que podem entrar na nossa casa e rearrumar os móveis?”.       

O livro condena a figura do ator diplomático que pauta sua atuação externa pela ambição de relevância política na esfera doméstica, buscando agradar a determinados setores internos. Cita como exemplo Jeane Kirkpatrick, temível embaixadora de Ronald Reagan junto à ONU. Nessa posição, estima Mahbubani, ela “sacrificou os interesses dos Estados Unidos para servir à sua agenda ideológica estreita e sua ambição pessoal de chegar mais alto em Washington”.

Em Singapura, ao contrário, avalia o autor, objetivos de longo prazo para o bem público sempre terminarão por predominar sobre considerações pessoais de curto prazo.

As memórias terminam com o comentário de que o caminho traçado pelo autor “da pobreza à fartura, do desconhecimento à educação e à curiosidade intelectual” é agora replicado “por milhões, se não bilhões de outrosasiáticos”. Considera que sua posição como “pioneiro nesse renascimento da Ásia” tem sido “um dos maiores privilégios e realizações” de sua vida.

***

Quando esta coluna for lida, estarei viajando para o casamento de minha filha. Por algumas semanas, assim, estarei ausente destas páginas.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 25 de maio.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Diálogo, entendimento, igualdade

Diálogo, entendimento, igualdade

Um dos museus mais lúdicos que conheço fica em São Paulo: é o Museu da Língua Portuguesa, na antiga Estação da Luz. Estive lá apenas uma vez, para ver uma exposição sobre a obra de Jorge Amado. Isso foi antes do incêndio de 2015. O museu reabriu em 2021, e tenho grande curiosidade em voltar.   

Andei pensando nisso, porque em 5 de maio comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Assim decidiu a Conferência-Geral da UNESCO, em Paris, em 2019. Desde dez anos antes, em 2009, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já celebrava essa data como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura.

A escolha do dia me intriga. Procuro saber os motivos que levaram à sua adoção. Suponho ao início que marca o nascimento, ou o falecimento, de algum autor lusófono considerado um dos pais do idioma, ou a publicação de algum primeiro dicionário da língua ou de alguma legislação que levou à substituição do latim pelo português em documentos oficiais, em Portugal, em séculos pretéritos.

O Dia do Idioma Espanhol, por exemplo, é celebrado em 23 de abril, quando foi enterrado Miguel de Cervantes. Em Geografia do tempo menciono como o embaixador da Espanha na Malásia, em 2023, me convidou para participar da comemoração da data, com algum texto da literatura hispânica que eu leria em público. Optei por um soneto de Jorge Luis Borges, que homenageia Luís de Camões e “Os Lusíadas” e, por conseguinte, a língua portuguesa.     

Examinando na Wikipédia efemérides para o 5 de maio, descubro apenas um evento literário relevante para a língua portuguesa. Foi quando, em 1994, perdemos Mário Quintana. Como em qualquer outro dia do ano, na já longa história da humanidade, muitos outros acontecimentos significativos ocorreram nessa data. É em 5 de maio de 1789 que são abertos os Estados Gerais na França, evento que culminaria na Revolução e, portanto, no início da modernização política das sociedades europeias, ao difundir os princípios de cidadania, igualdade jurídica e soberania popular que moldariam o Estado moderno.

Em 5 de maio de 1821, Napoleão Bonaparte morre em Santa Helena. Ao saber da notícia, Alessandro Manzoni escreve seu poema “Il cinque maggio”. Embora sejam versos famosos, que ao reconhecer o destino grandioso de Napoleão meditam sobre o caráter efêmero das coisas humanas, eu só vim saber da sua existência também em Kuala Lumpur. Em algum 5 de maio, o embaixador da Itália me disse: “hoje é o cinque maggio”, e diante de meu ar de incompreensão, que o surpreendeu, mencionou o poema. Não tive coragem de dizer a ele que nem sequer havia lido o célebre romance de Manzoni, Os noivos — I promessi sposi.

Em um cinco de maio nasceram Kierkegaard, em 1813; e Karl Marx, em 1818. Dois escritores, portanto, mas nenhum de língua portuguesa. Celebra-se também o natalício da imperatriz Eugênia, mulher de Napoleão III, em 1826; do marechal Cândido Rondon, em 1865; de Dalva de Oliveira, em 1917; e de Beth Carvalho, em 1946.

Com meus talentos mediúnicos, recomendo que ninguém viaje em um 5 de maio. Em 1972, cai um avião da Alitalia, matando todas as 115 pessoas a bordo. Em 2007, é a vez de um avião da Kenya Airways; morrem os 114 passageiros. Em 2019, 41 pessoas perdem a vida quando um voo da Aeroflot pega fogo.

A decisão da UNESCO explica ter sido o português a “língua da primeira globalização da era moderna”, o que me parece indiscutível. De forma um tanto ingênua, fala porém em um “grande encontro cultural-civilizacional” que teria propiciado “troca de duas vias de ideias, filosofias e produtos culturais”, o que gera perplexidade por seu excessivo otimismo, para não dizer revisionismo histórico.  Falar em “duas vias” nesse contexto é ignorar quão desequilibradas foram as relações entre a metrópole portuguesa – ou qualquer outra — e as suas então colônias.

O ministro da Cultura de Angola, Filipe Zau, publicou artigo, por ocasião do 5 de maio, apontando como é recente a difusão da língua portuguesa no seu país, que se iniciou apenas no século XX, nas últimas décadas da colonização. Angola, lembra, é “multicultural e plurilingue”, e a promoção do português, embora necessária para a construção da união nacional, “passa, necessariamente, pelo reconhecimento da existência de outras culturas e outras línguas”.

A resolução da CPLP que deu origem à decisão da UNESCO soa politicamente equilibrada. Adotado em uma reunião do Conselho dos Ministros da Comunidade, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o texto se refere ao nosso idioma como “um meio privilegiado de difusão da criação cultural entre os povos que falam português, numa perspectiva aberta e universalista”.

E é nessa resolução da CPLP de 2009 que encontramos a razão para a escolha do 5 de maio. É um pouquinho decepcionante. Trata-se da data em que aconteceu, no Estoril, em 2000, a primeira reunião dos ministros da Cultura da CPLP. Soa um tanto burocrático, como motivo. Mas se pensarmos no caso, veremos que talvez não houvesse outra ocasião mais neutra, que não ferisse suscetibilidades.

A data comemorativa da francofonia, 20 de março, deve-se a razões parecidas. É quando, em uma reunião no Níger, criou-se, em 1970, a Agência de Cooperação Cultural e Técnica entre países francófonos, transformada em 2006 na Organização Internacional da Francofonia, com sede em Paris.  

O 5 de maio, assim, não celebra um dado cultural ou histórico de um dos países lusófonos em detrimento dos outros, ou tampouco alguma imposição da antiga potência colonial sobre os demais. É simplesmente o dia em que os ministros da Cultura dos estados onde o português é falado se reuniram pela primeira vez.

Ao escrever isso, reconcilio-me com a escolha da data. Ela promove o diálogo, o entendimento, a igualdade entre nós, os falantes da língua portuguesa. Foi uma boa decisão.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 11 de maio.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.