Paterson – Jim Jarmusch

Paterson – Jim Jarmusch

Paterson III

Em dezembro de 2015, no Rio de Janeiro, vi pela primeira vez um filme da série Guerra nas Estrelas. Naquele mês, foi lançado o episódio Star Wars: o Despertar da Força e, para agradar à minha família, fui ao cinema assisti-lo. Parecerá surpreendente para muitos, mas nunca antes eu desejara ver os filmes da série, partindo do princípio de que teriam uma psicologia primária, muita ação e pouca substância.

Continuo sem saber como são os filmes anteriores. Star Wars: o Despertar da Força, porém, apresenta ao menos um personagem de forte impacto psicológico: Kylo Ren, interpretado por Adam Driver. Na tela gigantesca de uma sala de cinema do Rio, em projeção 3D, estava recriado o tema da rivalidade de um filho com o pai. O ato mais bárbaro, mais cruel, que faria Sófocles e Freud tremerem de prazer e se sentirem precursores, era repentinamente mostrado, sem aviso prévio.

Kylo Ren, que poderia ter sido um mero vilão, ganhava, graças ao roteiro e ao talento do ator, uma dimensão complexa. Adam Driver nos mostra em Star Wars: o Despertar da Força um personagem que poderia ter optado pelo Bem mas decide-se pelo Mal em toda a sua vitalidade e todo seu tormento. É ainda um mistério como evoluirá Kylo Ren, mas uma redenção parece pouco crível,  à luz do que fez em seu filme de estreia.

Em Paterson, o novo filme de Jim Jarmusch, o ator nos mostra um personagem totalmente oposto a Kylo Ren em termos psicológicos, confirmando sua competência. Paterson é, ao mesmo tempo, o nome de um motorista de ônibus interpretado por Adam Driver, e o nome da cidade de Nova Jersey onde ele mora com sua mulher, Laura, interpretada com maestria por Golshifteh Farahani. Vimos a atriz iraniana, anteriormente, no papel de Mona, a presidiária atormentada do filme Dois Amigos, de Louis Garrel. Como Laura, Golshifteh Farahani mostra uma luminosidade e uma alegria de viver a anos-luz da infelicidade de Mona.

Este é um filme que faz forte uso da binariedade. Acompanhamos uma semana na vida de Laura e Paterson. Ao iniciar-se cada dia, vemos de cima os dois dormindo juntos na cama, frequentemente abraçados, com o dia da semana especificado na tela. Na primeira cena, quando os dois acordam na segunda-feira, Laura narra ao marido o sonho que tivera: tinham-se tornado pais de gêmeos. Frequentemente, nas cenas seguintes, gêmeos aparecerão no caminho de Paterson.

O casamento dos dois personagens principais é idílico. Um apoia o outro em sua rotina, seus sonhos, suas esperanças e também suas frustrações. Este é, em grande parte, um filme sobre duas pessoas boníssimas, que se amam e são felizes juntas, de forma calma e satisfeita. Quase toda noite, Paterson, enquanto passeia o cachorro, encontra no bar onde faz uma pausa antes de voltar para casa um casal que vive às turras e faz contraste claro – estabelecendo nova binariedade – com o casamento perfeito dos dois protagonistas.

Paterson é poeta nas horas vagas. Escreve quando pode, em um caderno. Laura possui também uma veia artística, para a qual procura dar vazão cozinhando cupcakes, fazendo cortinas para a casa, desenhando suas roupas e tentando se tornar cantora country. Esta foto, extraída da conta twitter do filme, mostra as quatro facetas artísticas de Laura:

Paterson

Como a colagem acima revela, Laura gosta do contraste entre as cores branca e preta – outra binariedade do filme – e até o violão, os cupcakes, a decoração da casa e parte de suas roupas, e mesmo  a coleira do cachorro, refletem essa preferência. Até mesmo quando o casal vai ao cinema, é para assistir a um filme em preto e branco.

Os apaixonados por poesia saberão que Paterson é também o nome de um longo poema de William Carlos Williams, homenagem à cidade. A obra de Williams é uma bíblia para o personagem de Adam Driver.

Tiro da estante nosso exemplar da coletânea de poemas de Williams publicada pela Penguin:

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Procuro o Prefácio do poema Paterson – do qual o volume oferece longos extratos – e vejo os seguintes versos:

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Justamente, os dois personagens principais do filme convivem bem – a ponto de parecerem simples – com suas próprias complexidades. As de Laura são evidentes, pois ela tenta encontrar um caminho para suas pulsões artísticas. As de Paterson, talvez mais maduro do que Laura, são menos óbvias, a não ser pelo fato de ele ser um motorista de ônibus que possui uma visão poética da vida. O que Jarmusch postula é que a beleza está em toda parte, mesmo nas atividades mais prosaicas, e que uma profissão manual, como a de motorista de ônibus, oferece a possibilidade de observar, pensar, meditar e de transformar em poesia o cotidiano. Em suas andanças, Paterson encontrará uma adolescente – ela tem aliás uma irmã gêmea – que escreve, como ele, poemas em um caderno. Ela lê uma de suas obras para Paterson, não percebe ser ele também poeta mas vê que gosta de poesia e ao partir, exclama: “Imagina, um motorista de ônibus que lê Emily Dickinson!”.

Frequentemente, Paterson escreve em seu caderno na hora do almoço, olhando as cataratas da cidade, celebradas por William Carlos Williams no poema Paterson: the Falls. Após um drama doméstico, Paterson estará, na última cena, sentado uma vez mais frente às cataratas, desta vez sentindo-se desencorajado em sua vocação como poeta. Sendo o filme de Jim Jarmusch celebratório da poesia e da beleza nas pequenas coisas, Paterson manterá, sentado no banco, uma conversa inesperada, com um personagem que até então não aparecera no filme e que dará a ele ânimo renovado para escrever. No universo criado por Jarmusch, artistas e poetas aparecem de forma corriqueira, e um dos prazeres do filme é constatar a facilidade com que surjem frente a Paterson almas parecidas com a sua.

Em casa, Paterson possui pequena biblioteca, no porão. A câmera, quando mostra os livros, passa por eles rapidamente. O único mostrado mais assiduamente é uma coletânea de primeiros poemas de William Carlos Williams, em capa dura, que Paterson folheia com frequência, por exemplo na cozinha, e da qual lê para Laura o que é aparentemente o poema predileto de sua mulher, This Is Just To Say:

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

Durante o filme, vários poemas do personagem de Adam Driver nos são mostrados na tela e lidos. Seu verdadeiro autor é o poeta Ron Padgett. Como o filme de Jarmusch e os versos acima de William Carlos Williams, de predileção de Laura, os poemas escritos por Padgett especialmente para o filme mostram a beleza das coisas ou dos momentos simples, que podem porém servir de parábola para sentimentos fortes. Estão disponíveis na página eletrônica de  The Poetry School.

Em determinado momento do filme, enquanto Paterson escreve no porão e a câmera passa rapidamente por sua pequena biblioteca, reconheci um livro de que possuímos  exemplar em casa. Trata-se da coletânea de contos do escritor irlandês William Trevor, lançada pela Penguin em 1993:

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O que se vê na prateleira de Paterson, na verdade, é a lombada do livro, que na nossa estante aparece assim:

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A imagem passa com pouca nitidez na tela e a câmera não se detém em nenhum título em particular. Quem não conhece essa edição da obra de Trevor, ou o nome do autor, não tem como reparar na presença do volume na prateleira de Paterson. Reconhecer em um filme um livro que possuo provoca em mim processo de identificação com os personagens, como registrei em meu comentário sobre O Plano de Maggie, e não foi diferente desta vez.

Alguns anos atrás, eu lia assiduamente os contos de William Trevor, morto em 2016 aos 88 anos. Vê-lo celebrado como uma das fontes da inspiração de Paterson surpreendeu-me. Se de um lado Trevor fala do cotidiano, como o filme de Jarmusch, de outro seus personagens são em geral sofridos e frustrados. Raramente, uma história de amor termina bem em Trevor. Seus personagens vivem em galáxia diferente daquela onde Laura e Paterson compartilham, com serenidade, sua felicidade. A presença do livro de William Trevor no filme pode ser apenas uma homenagem do diretor a um escritor de sua predileção. Fica em mim, porém, a indagação: talvez Jarmusch tenha querido mostrar, em seu filme, uma certa superioridade sobre Trevor, criando uma obra de arte onde o amor triunfa e onde os dois personagens principais têm vocação para a felicidade. “Superioridade”, porque deixar o espectador interessado é mais difícil quando se trata de uma história feliz.

Laura e Paterson são seres humanos intrinsicamente bons, de uma pureza admirável e inspiradora. Jim Jarmusch nos mostra a vida como ela pode ser, se assim quisermos: bela, rica, variada, reta, transparente e simples.

Paterson – ficha técnica

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De Taxila a Panam Nagar

De Taxila a Panam Nagar

Em 2010, recebi de um amigo belga um presente extraordinário: os volumes completos da versão de 1963 da 14ª edição revista da Enciclopédia Britânica. Ele estava se desfazendo de parte da biblioteca. Perguntou-me se eu queria a Enciclopédia e sabia a resposta de antemão. Morávamos no mesmo bairro em Bruxelas; passei em sua casa, recolhi os 24 volumes (um deles com o índice e mapas) e coloquei-os no carro.

Cresci namorando na estante do meu pai a sua edição da Enciclopédia Britânica – ano de 1957 – que hoje está guardada em um depósito no Rio. Adulto, passava horas lendo a edição dos meus sogros, que hoje está em um depósito em Curitiba.

Já mencionei várias vezes neste blog – por exemplo em O Amor, em Papai Noel e a amizade e na crítica ao filme O Plano de Maggie – o papel que os livros podem exercer em minha relação com as pessoas. Valorizei muitíssimo receber uma edição completa da Enciclopédia Britânica, que hoje aparece assim na estante, rodeada aliás de livros que recebi de outros amigos e de parentes:

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Minha relação amorosa com a Enciclopédia Britânica sofreu um duro baque há poucos dias, quando li o verbete sobre Alexandre, o Grande. Na minha postagem anterior, fui severo com aquele que tantos consideram um herói. Apontei a sua crueldade e a falta de propósito prático de suas conquistas. Senti curiosidade em ver como o Rei da Macedônia era tratado na Enciclopédia: descobri páginas e páginas escritas em tom de fervor juvenil. Para os editores, ainda em 1963, Alexandre era um homem inigualável. Fiquei surpreso com a falta de espírito crítico do texto.

Apesar de meus comentários, algo da admiração que sentia na infância por Alexandre sobreviveu, pois minha passagem por Taxila, no Paquistão, há um mês, me marcou por sua causa. Desde sempre, associo o nome do lugar a ele. Em Taxila, visitando as ruínas da cidade e as dos mosteiros budistas, eu olhava a paisagem ao meu redor e pensava: “Ele também por aqui andou… ele também viu essas montanhas, essa grama, esse horizonte…”. Já mostrei anteriormente cenas de paisagem e das ruínas de Taxila, mas não resisto a mostrar mais.

No caminho entre Rawalpindi e Taxila, meu carro enfrentou a seguinte dificuldade, como aliás outro também, vindo na direção oposta:

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O centro urbano que visitei em Taxila é Sirkap, fundado cerca de 150 anos após a passagem de Alexandre. Estas são portanto ruínas de edifícios que, embora antiquíssimos, o conquistador não viu:

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Fiquei me perguntando se a paisagem seria mais duradoura do que os prédios:

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Taxila é famosa pelas ruínas de mosteiros budistas, como o de Jaulian, que serviu também de universidade e foi destruído no século V por invasores da Ásia Central denominados Hunos Brancos. Tive muito no que pensar, vendo estes três restos de colunas em Jaulian:

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Há muita poesia nesses três fragmentos. Eles evocam a transitoriedade das coisas, das religiões – o Budismo já não é a principal religião da Índia, sendo praticado apenas por 0,7% da população. Pensei nos monges que aqui vieram morar ou estudar e meditar; lamentei que conquistadores destruam não somente impérios e cidades e vidas humanas, mas também centros de pensamento e de espírito religioso. O mosteiro foi destruído, mas o que terá acontecido com os monges que lá ainda estavam quando os Hunos Brancos chegaram? Provavelmente, algo nada invejável.

Na estupa – monumento que abriga os restos mortais de algum monge importante ou sábio budista – principal de Jaulian, admirei os restos de esculturas, como estes:

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Ao sair de Jaulian, reparei nestes degraus ao longo de um muro, que pareciam levar ao Infinito:

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Igualmente evocadoras são as ruínas de Dharmarajika, estupa e mosteiro particularmente famoso, pois os restos mortais que ele acolhia eram de uma parte do corpo do próprio Buda:

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Havia poucos visitantes:

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E alguns guias, como este:

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Como em Jaulian, as ruínas evocavam paz e serenidade:

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Reparem nas figuras humanas abaixo:

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O museu de Taxila é famoso pela sua coleção de moedas e de estátuas encontradas nas ruínas e nos vales ao seu redor, representativas da arte de Gandara:

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Assim como Alexander Sokurov fez, em Francofonia, uma declaração de amor ao Louvre e focalizou algumas das peças daquele mega-museu – e talvez eu venha a fazer o mesmo, em uma escala naturalmente bem menor, em uma próxima postagem, mostrando fotos que tirei no Louvre em janeiro – quero mostrar alguns exemplos da coleção do museu de Taxila, como já fiz com o Museu de Arte Islâmica de Doha.

As estátuas abaixo são dos séculos II ou III depois de Cristo:

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Acima, o Buda no estado de Abhaya Mudra (sem medo). Abaixo, a estátua de que os guardas do museu mais se orgulham, o Bodhisattva Maitreya (o buda do futuro):

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Quase todas as peças no museu são mostradas dentro de vitrines de vidro, o que dificulta a reprodução fotográfica, pelos reflexos.

A minha escultura predileta talvez tenha sido esta, do Buda meditando:

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Se, no Paquistão, Rawalpindi e seu parque onde dois Primeiros-Ministros foram assassinados e Taxila, suas ruínas e seu museu me fizeram pensar sobre a transitoriedade dos impérios, dos homens e do poder, e também sobre o consolo que as religiões frequentemente trazem às pessoas, bem diferente foi minha atitude com relação a Panam Nagar, em Bangladesh, poucos dias depois.

Panam Nagar – ou Panam City, o que já soa mais prosaico – é um distrito, desenvolvido no final do século XIX, durante o domínio britânico, da antiquíssima cidade de Sonargaon, a cerca de uma hora de Daca. Povoada sobretudo por prósperos comerciantes bengalis de religião hindu, foi abandonada em 1964, após os massacres contra aquela minoria efetuados pelos muçulmanos no que era então o Paquistão Oriental.

Panam Nagar e Sonargaon eram apenas vagos nomes para mim, antes de eu chegar a Bangladesh. Pude assim visitá-los sem idéias preconcebidas. Sobram em Panam Nagar as ruínas, em variado estado de conservação, de 52 prédios, todos situados nos dois lados de uma rua.

Cheguei cedo e encontrei o local quase deserto:

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Fui ciceroneado pelo administrador do sítio, que me mostrou praticamente todas as casas:

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Esta é uma das casas mais bem conservadas:

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As mais prósperas possuem todas um andar térreo no mesmo formato, com arcadas:

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Essas casas eram ao mesmo tempo residências e depósitos comerciais.

De outras, sobra apenas uma parede, ou pedaço da fachada:

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O administrador me levou à casa mais preservada – ou reformada, na qual ele e sua família moram. Embora a casa esteja em bom estado, fiquei imaginando como seria ficar ali à noite, naquela cidade fantasma:

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Do terraço da casa, vi mais ruínas, que me lembraram sítios arqueológicos em Roma:

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O administrador me explicou que, durante anos, os habitantes da região dilapidavam os prédios, roubando os tijolos para construir suas próprias residências.

Vi, do terraço, que a cidade já não estava tão vazia como quando eu chegara:

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Descemos e seguimos caminhado pela única rua. Pouco a pouco, uma multidão animada e alegre, em trajes coloridos, encheu a rua, os gramados e as ruínas. O administrador me explicou que visitam Panam Nagar cerca de 150.000 turistas por ano, dos quais 3.000 são estrangeiros.

As cores foram tomando o espaço:

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Um visitante tira um selfie no topo de uma casa em ruínas:

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Havia grupos de estudantes:

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E vários vendedores ambulantes:

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A variedade e a riqueza de cores nos trajes era surpreendente, em uma aldeia abandonada:

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Os espaços que eu vira vazios, estavam agora ocupados por turistas:

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E as ruas estavam agora agitadas:

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Embora aquela região do que hoje é Bangladesh tenha, como todo o país, uma história rica, carregada de beleza mas também de violência – como provam as casas em ruínas – a alegria dos turistas e as cores chamativas me contaminaram e senti-me bem menos meditativo do que em Rawalpindi e em Taxila.

Escrevo este texto no Rio de Janeiro, olhando o mar:

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O que haverá nesta casa daqui a 1.000 anos? Ruínas? Prédios? Nada? Quem verá o Oceano Atlântico e essas ilhas deste mesmo ponto em que me encontro? Às vezes, quando estou no meu jardim à noite, penso nas muitas pessoas que, ao longo dos séculos, também passearam por seus jardins, em diferentes continentes, com preocupações e alegrias semelhantes às minhas. Olho a Lua e medito sobre algum babilônio que, séculos antes de Cristo, também possuía um jardim e admirava o satélite da Terra, certo de que sua casa, sua grama, suas árvores, sua religião e o império a que estava submetido durariam para sempre. Taxila, Julian, Dharmarajika, Panam Nagar parecem longe, no tempo e no espaço. Lá também, contudo, viveram seres humanos, com seus sonhos e suas ambições. Um dia, o que hoje conhecemos e consideramos eterno e natural não existirá mais, será uma ruína ou talvez nem isso.

Gravei o vídeo abaixo no rio Buriganga – ou Velho Ganges – em Daca. Os grandes rios asiáticos viram já todo tipo de civilização; uma multidão de seres humanos e de construções passaram por suas margens ao longo da História. Às vezes, eles tiveram seu curso modificado, pela natureza ou pelo Homem, e encontram-se frequentemente poluídos. Continuam, porém, a correr – se não imutáveis, ao menos eternos – até o fim dos tempos.

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Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi

Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi

Em uma manhã de primavera, libertei 200 pássaros em Rawalpindi.

O sol brilhava e o gesto, que pouco dinheiro me custou, deu sequência a uma linha de pensamento sobre a História e a fragilidade dos impérios e do poder. Isso aconteceu na semana passada quando, em Islamabad a trabalho, fui levado a Rawalpindi, cidade de 3 milhões de habitantes vizinha  da capital.

Para o longo trajeto de avião até Islamabad, eu levara isto:

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Eu lera uma crítica positiva sobre o livro no ano passado e estava decidido a comprá-lo quando, surpreendentemente, ganhei-o de presente de Natal de um amigo indiano, poeta de renome. Lembrei-me da amiga psicanalista que parecia ler todos os meus pensamentos mas, como naquele caso, não era a demonstração de um poder de adivinhação da minha mente, e sim de amizade e da capacidade de entender como penso e por quê me interesso.

Natwar Singh, diplomata, hoje com 85 anos, teve uma carreira ilustre: foi Ministro das Relações Exteriores de 2004 a 2005 e parlamentar. Aristocrata, casou-se com a filha de um Marajá. O livro é uma coleção de artigos publicados por ele entre 2011 e 2012 no jornal Mail Today. São textos curtos, de três páginas em média, que ilustram a sua vida pessoal e profissional. O que salta aos olhos, na leitura, é de um lado a competência e o dinamismo da diplomacia indiana desde a Independência e, de outro, a capacidade do velho Embaixador de fazer amigos nas mais diferentes esferas. Sua longevidade na vida pública deveu-se à ligação com a família de Jawaharlal Nehru, particularmente com as duas irmãs do Primeiro-Ministro e, posteriormente, com sua filha, a também Primeira-Ministra Indira Gandhi, de quem foi próximo. O elo manteve-se com Rajiv Gandhi e sua viúva, Sonia Gandhi, embora eu tenha lido em outras fontes haver agora distanciamento entre Singh e a família política mais longeva e poderosa da Índia.

Natwar Singh fala dos Presidentes, Primeiros-Ministros e outros políticos que conheceu. Vemos desfilar, nas sucessivas anedotas, entre outros, Fidel Castro, Nelson Mandela, Vladimir Putin, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Indira Gandhi, Rajiv e Sonia Gandhi, Lord Mountbatten, Yasser Arafat, Haile Selassie, a viúva de Zulfikar Ali Bhutto, Nusrat Bhutto,  e o homem que garantira a execução de seu marido, Zia-ul-Haq. A foto na capa do livro representa o Imperador da Etiópia, Haile Selassie, e a Imperatriz  – e também os leões de estimação do casal imperial, que participavam das cerimônias de apresentação de credenciais dos Embaixadores, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, e que explicam o título da obra. Cada capítulo revela algo da personalidade do retratado e também do autor, em tom bem-humorado.

Natwar Singh é fascinado com Indira Gandhi; trabalhou com ela por cinco anos. Minha anedota preferida talvez seja a que relata visita da Primeira-Ministra ao Afeganistão, em 1969. Com algumas horas vagas na programação oficial, Indira Gandhi decide fazer passeio de carro pelos arredores de Cabul. Na estrada, vê em uma colina árida um canto verde e descobre que naquele local está o túmulo do primeiro Imperador Mughal da Índia, Babur, descendente de Tamerlão e morto em 1530. No Brasil, Babur é, se tanto, um nome, mas como todo fundador de império, sua memória é viva no território – o Subcontinente indiano – onde implantou sua dinastia; foi trisavô do Imperador construtor do Taj Mahal, Shah Jahan. Entende-se assim a emoção de Indira Gandhi, que decide visitar o túmulo, acompanhada de Natwar Singh. Vi fotos na Internet que mostram ser o local, hoje, bem cuidado. Em 1969, o jardim tinha virado um matagal. A comitiva da Primeira-Ministra demora para achar o túmulo. Indira Gandhi fica em silêncio, contemplando o lugar onde repousa o ilustre Imperador, e então comenta: “Tivemos nosso encontro com a História”. Natwar Singh, sem pestanejar, declara então a ela: “Eu tive dois; ver o túmulo de Babur é um acontecimento histórico, mas fazê-lo na companhia de Indira Gandhi é em si um segundo momento histórico”.

Outra anedota reveladora é a que descreve a visita em 2005 de Sonia Gandhi, Presidente do Partido do Congresso, a São Petersburgo, acompanhada por Natwar Singh, então Ministro das Relações Exteriores. Sonia Gandhi levara o Partido do Congresso a ganhar as eleições gerais no ano anterior e só não se tornara Primeira-Ministra por que não quisera, tendo escolhido Manmohan Singh para ocupar o cargo. Estava, portanto, no auge de seu poder e prestígio. Ela e Natwar Singh fazem passeio de barco pelo Golfo da Finlândia, em uma bela manhã de junho. Vladimir Putin os acompanha. Escreve o autor: “A informalidade afável e o ambiente descontraído eram uma alegria”. Indagado por Putin há quanto tempo conhece a família Nehru-Gandhi, Natwar Singh responde modestamente que desde 1944 – portanto antes mesmo da Independência da Índia.

Desembarquei em Islamabad pensando nas figuras poderosas descritas por Singh e nos seus destinos. No meu primeiro dia na cidade, em um intervalo no trabalho, fui à livraria principal, Saeed Book Bank:

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A livraria é um paraíso, onde é possível encontrar enorme bibliografia sobre a história, a economia, a vida política, as relações internacionais, a vida cotidiana do Paquistão, da Índia e de Bangladesh – país que eu visitaria logo após minha passagem por Islamabad:

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Comprei estes livros:

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O livro de Oriana Fallaci é uma coletânea de algumas de suas mais famosas entrevistas, feitas nas décadas de 60, 70 e 80, quando sua islamofobia não era ainda tão evidente e ela podia ser admirada pela coragem em fazer com que os poderosos se revelassem ingenuamente.

Uma coisa marcante no livro é o escancarado machismo de vários dos entrevistados masculinos. Declara o Xá do Irã, Reza Pahlavi, em 1973: “As mulheres só são importantes na vida de um homem se são bonitas e encantadoras […] as mulheres não são iguais aos homens em termos de habilidade […] vocês nunca nem sequer produziram um grande chef”. A partir daí, o Rei dos Reis perde todo auto-controle e fulmina: “As mulheres, quando governam, são muito mais cruéis e sedentas de sangue do que o homens. Vocês são o Mal, todas vocês”.

Zulfikar Ali Bhutto, em 1972, passa boa parte do tempo em sua entrevista a Falacci defendendo-se de ter tido qualquer participação na violência ocasionada pelo processo de independência de Bangladesh em relação ao Paquistão, concluído no ano anterior. De repente, deixa-se levar pela vaidade e afirma ser, apesar de suas duas mulheres legítimas, um “romântico”, claramente confundindo promiscuidade sexual com romantismo. Declara: “Não dá para ser um político sem ser um romântico. E como romântico, creio não haver nada mais inspirador do que um caso de amor. Não há nada de errado em se apaixonar e conquistar o coração de uma mulher. E dá para se apaixonar cem vezes. Mas eu sou um homem muito, muito moral”.

A entrevista mais famosa de todas talvez seja a de Henry Kissinger, também de 1972, considerada um modelo de como o entrevistador pode fazer com que o entrevistado faça revelações que não desejava fazer. Declara Kissinger, então divorciado: “Quando estou com garotas, sei o que devo fazer com garotas […] As mulheres não são uma preocupação central para mim. Elas são uma distração, um hobby. Ninguém passa muito tempo com seus hobbies”. 

Golda Meir e Indira Gandhi saem-se com louvor de suas respectivas entrevistas. Ao lê-las, sentimos admiração por elas. A de Indira Gandhi, porém, foi feita dois anos antes de ela decretar o Estado de Emergência na Índia, que prejudicou de forma duradoura a sua imagem.

Muitos dos entrevistados nessa coletânea foram assassinados, executados ou exilados, o que já é uma observação sobre a transitoriedade e os riscos do poder. Comentei sobre isso com um amigo, que opinou: “Muitas dessas entrevistas foram feitas com líderes de países em desenvolvimento, no contexto da Guerra Fria. As instituições nesses países eram ainda frágeis e submetidas às evoluções da situação internacional”. É uma boa explicação, mas a primeiríssima entrevista na coletânea é com um futuro assassinado que não se enquadra nesse contexto, Robert Kennedy.

Voltemos a Rawalpindi. Já que eu fora levado à cidade, pedi para visitar o parque onde, em 2007, realizou-se o último comício de Benazir Bhutto, que voltara do exílio há apenas dois meses. Ao sair do comício, Benazir Bhutto foi assassinada em um atentado suicida. O parque é denominado Liaquat Bagh, em homenagem ao Primeiro-MInistro paquistanês Liaquat Ali Khan, também  ali assassinado, em 1951.

No parque, filmei a seguinte cena:

Eu sabia que, ao sair do parque em Rawalpindi, seria levado a outra localidade próxima, Taxila, onde em 326 a. C. Alexandre o Grande fora homenageado pelo Rei local, em sua passagem pelo Norte da Índia e do que hoje é o Paquistão. Tirei a primeira foto neste texto nas ruínas de Taxila. Minha postagem sobre Os Bragança de Chandor, Goa, India termina com o comentário de que a Índia é “desde sempre objeto das cobiças e devaneios alheios”. Ao escrever essa frase, era também em Alexandre que eu pensava.

O que fora Alexandre fazer em Taxila? Terá visto a mesma paisagem que lá vi?

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Que compulsão sentia Alexandre em movimentar seu exército sem cessar, levando-o uma hora ao Egito, outra à Pérsia, outra à Índia, como alguns apenas levantam as peças no tabuleiro de xadrez? Que propósito essa hiperatividade cumpria? No Paquistão, fiquei me perguntando se suas conquistas teriam tido algum objetivo econômico, que pudesse justificá-las. Encontrei esta resenha, publicada em janeiro na Bryn Mawr Classical Review sobre um livro intitulado The Treasures of Alexander the Great. Livro e resenha aniquilam qualquer ilusão de que a epopéia de Alexandre tenha tido um objetivo econômico ou uma consequência nessa área.

Aos 7 ou 8 anos de idade, recebi de presente de meus pais uma biografia de Alexandre, que li avidamente e onde vi pela primeira vez o nome Taxila, sem imaginar que um dia lá iria:

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Na infância, é possível que eu admirasse as proezas de Alexandre. Hoje, vejo-o como mais um personagem vão, egoísta e cruel, que gostava de brincar de guerra e via os seres humanos como mero instrumento para atingir sua inútil ambição. Admito que foi mais bem-sucedido, como ambicioso, do que a maioria, pois seu nome parece destinado a perdurar na eternidade.

Encostado em uma árvore em Liaquat Bagh, pensei na ilusão dos poderosos, que sistematicamente acreditam na sua importância e na perpetuação de seus projetos, seu nome, sua dinastia, seu regime político. Pensei em Alexandre, em Tamerlão, em Babur, em como tudo passa e tudo termina. Lembrei-me do trecho em que Plutarco descreve como, bêbado, Alexandre matara um de seus melhores amigos, Clito, porque este, também inebriado, lhe dissera duras verdades, sempre um risco em toda Corte. Clito, que um dia salvara a vida de Alexandre, cometera o erro de considerar-se seu amigo e não seu cortesão. Pensei no paradoxo de que Tamerlão, possivelmente um psicopata, em todo caso o mais sanguinolento dos conquistadores, tivesse inspirado a Christopher Marlowe a mais soberba das peças, em verso branco e com imagens inesquecíveis.

Esse contraste me fez recordar que aquele parque onde eu estava, tão acolhedor, fora o cenário do assassinato de dois Primeiros-Ministros. O que eu via – o gramado verde, os pássaros cantando, as crianças brincando, as árvores – era o que vira Benazir Bhutto segundos antes de ser morta. O pensamento sobre como a beleza às vezes convive com a violência me fez entender que Alexandre não precisava de objetivo prático algum para conquistar o mundo. Atravessara o Helesponto, para nunca mais voltar, porque essa era sua razão de viver. Como todo ser humano, fizera o que julgara necessário para atingir a felicidade. Que seu sonho de felicidade significasse o sofrimento e a morte de milhares dificilmente deteria um monarca do século IV a. C.

Dirigi-me ao portão e saí para o burburinho da rua. Gradualmente, dei-me  conta de que, enquanto eu refletia no parque sobre a História, a realidade cotidiana fazia-se bem presente na calçada. Eis o que vi:

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Aproximei-me e entendi a situação: um mulher ocidental negociava, por meio de intérprete, com um vendedor de passarinhos a libertação de alguns deles.

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Perguntei à mulher quantos pássaros ela ia libertar, e ela respondeu que seis. Colocou a mão em um das duas gaiolas e pouco a pouco foi capturando e soltando seis animais, um após o outro. A cena me deu muito no que pensar. Refleti sobre critérios como justiça e sorte na vida. Havia duzentos passarinhos nas duas gaiolas. Seis, em um contexto de duzentos, parecia um número irrisório. Imaginei o destino dos outros cento e noventa e quatro. De certa forma, o enclausuramento daqueles pássaros e a libertação acidental de uns poucos simbolizava a arbitrariedade das circunstâncias que ocorre em toda existência.

Indiquei à mulher que seria melhor soltarmos todos os pássaros. Apontei que não cabia a nós transformar a vida de seis animais, deixando os outros à própria sorte. Fazer isso era praticar uma injustiça, disfarçada de generosidade. Mencionei que havia aí uma questão filosófica. Ela concordou. Ocorreu então negociação com o vendedor, o qual, depois de algum tempo, aceitou entregar-nos todos os animais pelo equivalente a 72 dólares. Dividimos os custos. Abrimos as duas gaiolas. Alguns dos pássaros mostraram-se estranhamente reticentes a escapulir e voar. Tivemos de ajudá-los. Entrementes, a cena era observada:

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O  olhar em minha direção do homem de barba, de marrom, enquanto eu tirava a foto acima, me incomodou. Tomei consciência de que ajudar duzentos pássaros a recobrar a liberdade era bem mais fácil do que contribuir para a felicidade de seres humanos.

Consolei-me, porém, com a idéia de que, se eu nada podia fazer por esse indivíduo desconhecido, posso ao menos tentar tornar mais agradável a vida dos que me cercam. Um homem com esse sonho não cria impérios vastos e efêmeros, como Alexandre e Tamerlão, mas talvez se torne um ser menos cruel e egoísta do que eles.

Entrei no carro e parti para Taxila.

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Ary, o Anjo da Meia-Noite e Machado de Assis

Devo meu prenome a uma peça de teatro. Criança, ouvia que meu trisavô – a quem mencionei na postagem sobre Papai Noel e a amizade, por causa de seu espírito bon vivant e sua interação com Machado de Assis – teria dado ao filho mais velho, o meu bisavô, o nome de Ary por causa de uma peça francesa que fizera sucesso no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Meu avô e meu pai carregaram o mesmo prenome e pareceu muito natural, no meu nascimento, por causa da consideração que cercava meu avô, o matemático, então ainda vivo, que eu fosse o quarto Ary. Simplesmente, não ocorreu a ninguém que eu pudesse ter outro nome.

Cresci convencido de que a estória da peça francesa era apenas uma lenda familiar. Adulto, pesquisei e descobri, para minha surpresa, que efetivamente, em 1866, estreou no Rio de Janeiro uma peça importada da França que fez durante anos enorme sucesso, intitulada O Anjo da Meia-Noite, cujo personagem principal se chamava Doutor Ary Koerner. O tradutor da peça no Brasil foi… Machado de Assis.

A peça pode ser lida na Internet, na página Gallica, mantida pela Bibliothèque nationale de France, verdadeiro tesouro, onde se encontram milhões de livros e manuscritos em francês. L’Ange de Minuit estreou em Paris em 1861; foi escrita por Théodore Barrière e Édouard Plouvier. Os dois autores são hoje perfeitamente esquecidos, mas parecem ter sido ambos fecundos e famosos em sua época. 

L’Ange de Minuit, hoje tão esquecida quanto seus autores, é um dramalhão passado na Alemanha. O Docteur Ary Koerner é um médico jovem e brilhante, adorado pelos pobres, aos quais se dedica. Mora com a mãe e os dois sobrevivem com grande dificuldade pecuniária. Logo no primeiro Ato, o  médico declara que ele e a mãe são “mais pobres até do aqueles a quem ajudamos”. Apesar de boníssimo e caridoso, o médico enfrenta adversários. Tem um grande amigo, Karl, filho do Conde de Stramberg, estudante de medicina e seu discípulo. Um dia, em passeio pelo campo, Ary adoece e, no seu delírio, conhece duas mulheres. Uma é Marguerite de Stramberg, irmã de Karl, secretamente apaixonada por ele. A outra é o Anjo da Morte, que dá o título à peça. O Anjo detesta Ary – e não é sem susto que escrevo isto – sentimento que a ele explica com a seguinte fala: “Tua ciência perturba a ordem indicada… Onde eu chego e te encontro, tenho de partir e voltar mais tarde”. Isso não deixa de ser um belo elogio ao talento do médico. Sem perceber, por causa da febre, Ary faz um pacto com o Anjo: quando este aparecer e assim determinar, o médico terá de deixar morrer o paciente, caso contrário o Anjo levará sua mãe. Ao passar a febre, Ary pensa ter tido dois sonhos, um belíssimo, com a linda mulher – Marguerite – a olhá-lo, e outro terrível, sobre a Morte.

Infelizmente, não era um sonho. A peça prossegue. Ary e Marguerite (minha avó, mulher do matemático, curiosamente se chamava Margarida) ficam noivos; o casamento é facilitado porque ele salva a vida do Conde de Stramberg e porque herda uma fortuna de um tio-avô. Amigo leal e ideal – como todo Ary, naturalmente – salva a vida de Karl, quando este duela com um Barão que quer se casar à força com Marguerite, por ser dono de um segredo prejudicial à reputação do Conde. E acontece o que tinha de acontecer, sendo este um dramalhão: no dia do casamento, Marguerite adoece e está morrendo, a caminho da igreja. O Anjo aparece e pede seu preço. Apenas Ary pode vê-lo. Há diálogo intenso, amargurado e dramático entre Ary e o Anjo: quem o médico deixará morrer, a mãe ou a noiva? Uma hora ele escolhe uma; de repente, opta pela outra. A Religião salva tudo. O Conde de Stramberg, desesperado de ver a filha moribunda, se ajoelha e reza. Os pobres fazem o mesmo. Karl explica ao amigo haver poderes mais altos do que a ciência. Deus se apieda e faz retroceder o Anjo. Marguerite e a mãe do médico ambas sobrevivem. A noiva se levanta e segue feliz para a igreja. Fim da peça.

Estamos bem longe de Shakespeare ou de Racine. Há clara inspiração, empobrecida, no mito de Fausto, marcante no século XIX por causa de Goethe; a ópera de Charles Gounod, Faust, onde o objeto do amor do personagem principal se chama Marguerite, estreara em 1859, dois anos antes de L’Ange de Minuit

Encontrei na página de Gallica uma nota publicada na edição do jornal Le Figaro de 10 de dezembro de 1863, onde se afirma que Verdi – um de meus ídolos – estava compondo, naquele momento, uma ópera baseada em L’Ange de Minuit. Nunca existiu tal ópera. Théodore Barrière merece uma nota de rodapé na história da Ópera por outra razão, pois colaborou com Henry Murger em uma peça que, junto com uma novela e estórias do mesmo autor, geraria La Bohème de Puccini.

A edição da Nova Aguilar com as Obras Completas de Machado de Assis não fornece suas versões de peças francesas. Estas parecem ter sido numerosas, segundo artigo publicado em 2010 pelo Professor de Literatura Brasileira da USP, João Roberto Faria, na revista eletrônica Machado de Assis em linha. Segundo o autor,  “O Anjo da Meia-Noite surpreende no conjunto das traduções, pois é uma peça sem nenhuma qualidade literária”. Posso apenas concordar.

O Dicionário de Machado de Assis, de Ubiratan Machado, publicado pela Academia Brasileira de Letras (e que contém verbete sobre meu trisavô, Francisco José Corrêa Quintella) diz o seguinte, entre outras coisas, sobre O Anjo da Meia-Noite: “Drama fantástico […] foi representado pela primeira vez no Teatro Ginásio, em 5 de julho de 1866, pela Companhia de Furtado Coelho […] Repetindo o que acontecera em Paris, obteve um êxito retumbante”. O verbete menciona que a peça “deu rios de dinheiro a Furtado Coelho, sendo a responsável pelo grande número de crianças batizadas com o nome de Ari, como o herói”. 

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Em artigo que publicou na Semana Ilustrada, em 8 de julho de 1866, o próprio tradutor da peça, Machado de Assis, se encarregou de elogiá-la, com a assinatura “A”, que utilizava às vezes. A crítica não aparece nas Obras Completas, mas pode ser lida na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Escreve Machado, sem pudor, que “o público tem na representação deste drama tudo quanto se pode oferecer de belo e de grandioso” e “o público entusiasmado redobra de aplausos e de admiração a cada cena que aparece. Seria temeridade afirmar qual dos Atos é o melhor”.

Explicada a origem do prenome na minha família, fica a pergunta de por que dois autores franceses atribuíram ao seu herói alemão, em 1861, o nome de Ary. A única teoria que me ocorre é que seja uma homenagem ao pintor holandês de origem alemã, muito famoso no século XIX, Ary Scheffer, que fez carreira em Paris. Scheffer morreu em 1858, três anos portanto antes da estréia em Paris de L’Ange de Minuit. Era extremamente ligado aos círculos artísticos e literários franceses – sua sobrinha casou-se com o filósofo Ernest Renan, e o filho de ambos chamou-se Ary – e sua casa é hoje um dos mais interessantes pequenos museus de Paris, o Musée de la vie romantiqueScheffer era também ligado à família de Louis-Philippe, Rei dos Franceses (e não da França, pois o chamado “rei-burguês” queria se distanciar de seus antecessores absolutistas) e a abdicação e o exílio do Rei prejudicaram posteriormente a imagem do pintor.

Um dos temas principais de Scheffer em sua pintura eram cenas extraídas do Fausto de Goethe. Um importante crítico de arte do século XIX, Baudelaire – sim, ele mesmo, o poeta – detestava a obra de Scheffer e escrevia que ele pintava seus Faustos como se fossem o Cristo e seus Cristos como se fossem Fausto. De fato, a primeira foto nesta postagem retrata Fausto e Margarida no Jardim, quadro de Scheffer onde Fausto se parece à representação tradicional de Cristo.  Na página 475 do volume II das Oeuvres Complètes de Baudelaire na Bibliothèque de la Pléiade, dedicado aos seus textos como crítico literário e de arte, leio a seguinte frase: “A moda passageira do Sr. Ary Scheffer foi uma homenagem à obra de Goethe”. Paradoxalmente, acaba de terminar em Paris, no Musée de la vie romantique, que, como disse acima, foi a casa de Ary Scheffer, exposição sobre a atividade de Baudelaire como crítico, “L’Oeil de Baudelaire”, por ocasião da qual foi lançado este livro, que serviu também de catálogo:

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Procurei em documentos no Galicca  confirmação de que Ary Scheffer foi amigo de Barrière ou de Plouvier, mas nada encontrei. Olhei no Journal dos irmãos Goncourt, os maiores fofoqueiros do mundo artístico e literário no século XIX. Há lá referências a Théodore Barrière e a Ary Scheffer, e também a um quadro do pintor intitulado Marguerite, mas nada há sobre L’Ange de Minuit

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Não consigo, porém, pensar em explicação alternativa a essa de uma homenagem a Scheffer, para que Barrière e Plouvier dessem ao seu herói perfeito um nome, na época, tão inusual.

E é assim que, pelos meandros da pintura e do teatro, e o tempo perdido por Machado de Assis traduzindo uma peça hoje esquecida, e a relação de meu trisavô com ele, e a boa reputação do meu avô e a mania familiar de repetir nomes, que vim a ser registrado.

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Sleep No More – Minha noite com o casal Macbeth

Sleep No More – Minha noite com o casal Macbeth

A cena se passa em Nova York, em 21 de janeiro deste ano. São 21h45 e eu saio do taxi em Chelsea, na Rua 27, para me juntar à fila ao longo de um prédio dentro do qual, estou convencido, passarei por uma experiência transcendental. Faz frio, mas eu nem noto. Um homem com cara de poucos amigos, que trabalha no prédio, começa a circular pela fila, pedindo, em alguns casos, para ver documentos de identidade. O pedido é perfeitamente inútil, todos na fila sabemos que vamos entrar, mas a expressão feroz do homem ajuda a criar o clima adequado. A mim, ele pede a mão direita e, depois de eu retirá-la da luva, nela carimba algo ilegível, sem dizer uma palavra. Ainda não estou plenamente recuperado do acidente que sofrera em Sevilha, três semanas antes, a que aludi em O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks. Até poucos dias atrás, minha mão direita estava enfaixada e é desagradável a pouca cerimônia com que o homem a puxa e a carimba.

A função do homem parece ser a de anunciar, da forma menos simpática possível, que a porta do prédio está prestes a se abrir. Pouco atrás de mim, dois casais brasileiros riem, nervosamente. E o nervosismo não é fora de propósito. Todos na fila compramos ingresso para assistir a Sleep No More, versão de Macbeth montada pelo grupo teatral britânico Punchdrunk – pioneiro do teatro de imersão – que estreou em Londres em 2003 e em Nova York em 2011.

Como mencionei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro, as artes cênicas me atraem desde sempre. Minha primeira experiência com teatro de imersão aconteceu no Festival de Edimburgo, em 2010. Festivais de teatro me parecem irresistíveis: poder assistir a três ou quatro peças por dia – às vezes duas seguidas, quase sem intervalo – é uma das formas maiores de felicidade. Normalmente, prefiro a programação não-oficial, conhecida como off em Avignon e, em Edimburgo, como fringe.

Na capital da Escócia, em 2010, registrei que uma peça intitulada Sub Rosa, escrita e dirigida por David Leddy, e montada por sua companhia teatral, Fire Exit, seria apresentada em uma antiga Loja Maçônica, transformada durante o Festival em local para peças do fringe, com o nome de Hill Street Theatre, por causa do endereço. Hill Street, situada no coração da área georgiana da cidade, é uma rua com casas todas iguais, cinzentas, baixas, sem maior distinção arquitetônica. Sub Rosa estava sendo apresentada tarde e terminava em torno da meia-noite. Minha mulher e minha filha, por essa razão, preferiram não ir.

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A peça transcorria em vários ambientes da casa. Os espectadores íamos andando, guiados, de cômodo em cômodo, e em cada um víamos atores representar partes da estória. No Reino Unido, esse tipo de espetáculo é chamado também de promenade theatre. Lembro pouco do texto, mas tenho vívida lembrança de que o tema era tenebroso e envolvia crimes transcorridos em um teatro, na era vitoriana, bem evocada pela decoração da casa e pelos trajes dos atores. A cada cômodo, a inquietação aumentava, o terror e a repulsa com o que ouvíamos e víamos era maior. Depois de uma hora, ou hora e meia, fomos repentinamente deixados em uma rua paralela, sombria. Fazia frio – estive três vezes na Escócia, sempre no verão, e nunca passei calor – a noite era escura, as ruas estavam desertas, se comparadas à agitação diurna do Festival, e caminhei em direção ao hotel sob o impacto da peça e do ambiente ao meu redor.

Punchdrunk é talvez o pai do teatro de imersão. Em 2007 e 2008, em sucessivas viagens a Londres, eu me sentira frustrado ao não conseguir ingressos para uma famosa produção do grupo, Masque Of The Red Death, inspirada na obra de Edgar Allan Poe.

Sobre Sleep No More, baseada em Macbeth, eu ouvira recomendações de primeira mão de minha filha e minha irmã, que haviam assistido ao espetáculo juntas em Nova York, em outubro. Antes de mais nada, é preciso esclarecer que tenho apreço especial por Macbeth, uma das obras mais perturbadoras de Shakespeare em termos psicológicos. A relação entre o marido e a mulher, a de ambos com diversos outros personagens e o papel das bruxas são objeto de fascinação.

A primeira vez em que assisti à peça foi em Londres, quando lá estudava, em uma produção da Royal Shakespeare Company. Lendo o que escrevi no programa na época, vejo o seguinte comentário: “A grande tragédia de Lady Macbeth é ter se casado com o homem errado. Ela fica desesperada ao reparar que o marido não é forte o suficiente para enfrentar as consequências do crime. Ela não acha errado o assassinato do Rei, mas fica desesperada de ver que ela e o marido estão perdidos, porque ele não está à altura”. Já não posso imaginar o que, na produção, me fez chegar a essa análise, que mais se parece a uma declaração de amor por Lady Macbeth e a uma tentativa de me apresentar como parceiro mais sólido do que seu marido.

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Mais recentemente, em 2009, assisti em Namur, em inglês, à estréia de produção da peça pela notável companhia britânica Cheek by Jowl.

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Quanto à ópera de Verdi tirada da peça, assisti a três produções diferentes ao longo dos anos, em Londres, Bruxelas e Liège. A montagem em Bruxelas, em 2010, no La Monnaie – teatro que marcou minha vida, pois foi a primeira Casa de Ópera que conheci, quando era criança – era de Krzysztof Warlikovski, o mais iconoclasta dos diretores de teatro, que já vi ser vaiado na Ópera de Paris, por sua ousadia. No entanto, já não me lembro de detalhe algum de sua produção de Macbeth em Bruxelas. Esse é um ponto notável das artes cênicas: nunca sabemos o quanto aquilo que vemos naquele momento nos afetará, a longo prazo.

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Pude assistir a Sleep No More apenas na nossa última noite em Nova York. O espetáculo é apresentado cinco ou seis vezes por dia, do final da tarde até de noite. Só havia entrada para o último horário, 21h45. No dia seguinte, cedo, pegaríamos o voo de volta para o Brasil. Por isso, minha mulher decidiu não ir. Seu bom senso indicou que ficar até à meia-noite subindo e descendo escadas incessantemente, na penumbra, para acordar poucas horas depois e ir ao aeroporto não seria razoável. Delicadamente, comentou: “E afinal, alguém tem de fazer as malas”.

A porta do prédio se abre e a fila anda. Entro em um corredor, ao longo do qual está o vestiário. Ao fundo, na bilheteria, eu me identifico e recebo esta carta:

Naturalmente, a carta adiciona elemento a mais de mistério mas se revelará tão inútil quanto a agitação do homem do lado de fora. Em momento algum ela me será solicitada.

Continuo por outro corredor escuro, forrado de preto, em zigue-zague, e chego a uma sala:

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Aqui, cabe explicar o cenário de Sleep No More em Nova York. O prédio onde as representações acontecem é um conjunto de antigos depósitos, mas os produtores o apresentam, de forma fantasiosa, como sendo um velho hotel abandonado e restaurado para servir de local para a peça. O hotel inventado pela produção se chama McKittrick e os cinéfilos maníacos por Hitchcock talvez reconheçam ser esse o nome do hotel onde  Madeleine, uma das duas personagens vividas por Kim Novak em Um Corpo Que Cai, entra para criar confusão na mente de Scottie, o personagem de James Stewart, que, da rua, a observa na janela mas, ao entrar no hotel e subir até o quarto, não a encontra.

Junto à sala ilustrada acima, há um bar, o Manderley, cujo nome remete a outro filme de Hitchcock, Rebecca, pois assim se chama a casa palaciana em que vai morar a heroína, vivida por Joan Fontaine, ao se casar com o rico viúvo Maxim de Winter – uma das melhores interpretações de Laurence Olivier no cinema –  e onde vive obcecada pela figura de sua falecida predecessora.

Eis o bar, que é realmente usado como tal, e onde acontecem apresentações musicais:

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Por uma porta, localizada à esquerda da foto, entra-se na parte do hotel onde são apresentadas as cenas de Sleep No More e a partir deste ponto já não são autorizadas fotografias. A porta se abre, cada espectador recebe uma máscara branca – que é obrigado a usar – entra e mergulha em um novo universo. Minha filha e minha irmã tinham me dito que começava-se o percurso entrando em um elevador, o que amigos, semanas depois, no Rio, me confirmaram. No meu caso, não houve elevador. A porta se abriu, o grupo em que eu fora colocado passou o umbral. Vimos uma escada e ouvimos de um funcionário que era possível subir ou descer, como quiséssemos. Hesitei um segundo e decidi subir.

Sleep No More é um espetáculo sem falas. Os atores emitem, no máximo, onomatopéias e grunhidos. Na verdade, são mais bailarinos do que atores, pois há em muitas cenas uma forte preocupação coreográfica. A produção recria, por meio de mímica e gestos e danças, algumas cenas de Macbeth. Cada espectador, usando sua máscara branca, anda por onde quer, livremente, sobe ou desce escadas sem parar – sozinho ou juntando-se a um grupo que segue um dos atores – caminha por longos corredores, entra em cômodos que estarão vazios ou povoados por outros espectadores, dependendo do que neles esteja ocorrendo. Não há uma sequência pré-estabelecida na forma como assistimos às cenas. Estas, aliás, ocorrem repetidamente e podem ser vistas várias vezes na mesma noite. Minha filha e minha irmã, quando foram, ficaram quase quatro horas. Não tive essa sorte, pois à meia-noite, os funcionários do “hotel”, todos de preto e usando máscaras pretas, começaram a bloquear o acesso a determinados andares ou salas, obrigando os espectadores a gradualmente dirigir-se à saída.

Os trajes dos atores são da década de 30; a música, constante, contém ecos da mesma época, mas também de filmes de Hitchcock. Reconheci evocações da trilha sonora de Um Corpo Que Cai. A decoração é a de uma casa da alta burguesia britânica do final do século XIX. Alguns cômodos porém recriam ambientes que não seriam os de uma casa particular. Há uma farmácia, o ateliê de um taxidermista e o de um alfaiate, que vemos trabalhar, quase encostando nele no espaço pequeno, embora ele nos ignore totalmente. Há um quarto de hospital, com várias camas de metal. Há também a recriação da floresta evocada na peça. Como alguns dos ambientes, há cenas que nada têm a ver c0m Macbeth, criando eventos paralelos. Em alguns momentos, eu tinha a impressão de passar sempre pelos mesmos cômodos ou atores. Cruzei várias vezes, em diferentes corredores, com uma moça de chapéu, carregando uma mala de couro, despertando em mim a indagação de quem era e para onde ia, naquela constante movimentação. De repente, eu descobria um espaço ou um andar novo. Há dois bares. Um deles é o cenário da profecia das bruxas a Macbeth. Só que eram duas bruxas e um feiticeiro, todos vestidos em trajes de gala da década de 30. Macbeth usava um paletó de veludo roxo. A expressão corporal, nessa cena, é particularmente sensual, para ilustrar o quanto as bruxas e o feiticeiro dominam a mente de Macbeth. Em um dos cômodos, fora do eixo principal de circulação, vi um casal de espectadores – reconhecíveis pelas máscaras brancas – em uma cadeira de balanço, ela sentada sobre ele. Minha entrada no quarto gerou desconforto, e ela se levantou o mais rapidamente possível. Às vezes, eu me via sozinho em ambientes escuros e estranhos e pensava, inquieto, em romances de Agatha Christie.

Logo no início do meu percurso, cheguei ao quarto do casal Macbeth e assisti à cena em que Lady Macbeth convence o marido a matar o Rei. O amplo aposento – que inclui uma banheira no meio do ambiente, onde veremos Macbeth tomar banho, nu, frágil, tremendo, para retirar o sangue após a morte do Rei – continha numerosos espectadores, em pé, observando, mascarados, Macbeth sendo seduzido pela mulher. Era um espetáculo de alta carga erótica. Em Sleep No More, o sexo entre o casal Macbeth é figurado como sendo enérgico, quase violento. Macbeth começa rejeitando a mulher, por causa de seu pedido insistente de que ele mate o Rei. Gradualmente, cede à tentação física, joga a mulher contra a parede e a ela se junta. Depois, leva-a para a cama.

Numa segunda vez em que assisti à cena, mais tarde na noite, sentei-me em um banco ao lado do leito matrimonial dos Macbeth, observando de perto a mímica sexual dos intérpretes – ambos estavam vestidos – e, se quisesse, poderia neles ter tocado. Uma das funções dos funcionários de máscara negra é coibir que membros do público tomem a iniciativa de interagir com os atores. Estes, porém, frequentemente se aproximam dos espectadores. Quando participei da cena da loucura, ao longo de um corredor, seguindo Lady Macbeth em sua caminhada alucinada, notei que ela frequentemente parava para cochichar palavras incompreensíveis no ouvido de alguns espectadores. Preferi evitar tanta proximidade com ela. Quando, porém, ela se jogou ao chão, pouco depois pediu com o olhar que eu a ajudasse a se levantar, o que fiz. Uma hora antes, Macbeth, ao voltar ensanguentado para o quarto depois do assassinato do Rei, esbarrara em mim.

A questão é que a presença física do casal era desagradável, pois a produção consegue criar um clima pelo qual sentimos, os espectadores, que estamos dentro da estória. As máscaras brancas fazem de nós fantasmas, que presenciam, ininterruptamente, as mesmas cenas, enquanto elas acontecem e se repetem. O espetáculo faz uma análise sutil sobre a noção de tempo, sobre a ideia de que o que aconteceu no passado continua acontecendo insistentemente. Testemunhamos, em 2017, em Nova York, uma estória ocorrida na Idade Média escocesa. Assim, quando o ator esbarrou em mim e quando dei minha mão à atriz que representava sua mulher para que se levantasse do chão, esses foram momentos gélidos, de pavor; não eram os intérpretes com os quais eu interagia, mas quase que literalmente com Macbeth e com Lady Macbeth, portanto um assassino em série e sua cúmplice e instigadora, que matam para subir ao trono e matam para nele se manter.

Não consegui, por mais que tentasse, ver todas as cenas. Perdi o segundo encontro de Macbeth com as bruxas. Simplesmente, não aconteceu de eu estar na hora certa no ambiente certo para testemunhar a cena. A morte do Rei me deu trabalho, mas pude vê-la, ao seguir Macbeth fora do quarto na segunda vez em que, sem querer, testemunhei a cena da sedução. O ator caminhou a passo veloz por corredores e escadas que eu até então não vira, e foi difícil acompanhá-lo. Nesta produção, Macbeth mata pessoalmente, estrangulando-a, Lady Macduff, que aparece grávida, para simplificar, pois na peça seu filho também é morto. A cena é muito bem levada: há um embate físico, particularmente vocal, entre Macbeth e sua vítima. Vemos que Macbeth já não demonstra hesitação, temor ou pudor na hora de cometer um crime.

O programa, vendido na saída, apresenta entrevista com os dois diretores, Felix Barrett – fundador de Punchdrunk – e Maxine Doyle:

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Barrett declara no final da entrevista que “Sleep No More é uma experiência visceral tanto para a mente como para o corpo. Algumas pessoas preferem explorar o espaço de forma metódica, enquanto outras seguem os atores. Algumas pessoas a vêem como teatro, outras como instalação artística”.

A primeira foto desta postagem é da minha máscara. Foi tirada no taxi, depois do espetáculo, a caminho do hotel. O fundo preto é meu sobretudo, dobrado no banco traseiro. Em sua entrevista, Felix Barrett informa que o uso das máscaras pelos espectadores garante que cada experiência será individual e que elas são parte importante “do mundo onírico que tentamos criar”.

Alguns comentários de espectadores, na Internet, fazem referência ao filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick. Como nesse filme, em Sleep No More há espectadores mascarados, tensão sexual e a percepção de que há um ambiente criminoso. Pessoalmente, pensei mais no filme Malpertuis, do diretor belga Harry Kümel e baseado em livro de Jean Ray, que meus irmãos e eu vimos inúmeras vezes na infância e na adolescência e que minha irmã e eu adoramos até hoje. O cenário de Sleep No More lembrou-me muito o da casa onde, em Malpertuis, todos os personagens – que são os deuses do Olimpo, caídos – são obrigados a viver como burgueses de Bruges do final do século XIX, aprisionados que foram pelo personagem malévolo de Orson Welles, que os encontrara perdidos em uma ilha.

Sleep No More é uma experiência forte e sei que as pessoas costumam voltar para revê-la. Consegue criar uma atmosfera única e transformar a nós, os espectadores mascarados, em participantes do enredo. Vemos Macbeth se rebelar contra a falta de escrúpulos da mulher, contestar seu pedido, mas gradualmente ceder, pela gratificação de um momento sexual e pela simples predominância da personalidade de Lady Macbeth. Logo após o ato sexual virão o primeiro crime, o trono e em seguida mais crimes, mais sangue… E nós, fantasmas atemporais, condenados a ser testemunhas recorrentes, para a eternidade, daqueles eventos, nada podemos fazer para impedi-los. É uma produção para dar calafrios.

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O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks

O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks

Aos 25 anos, eu me apaixonei. Fomos apresentados um ao outro e convivemos durante alguns dias, por razões profissionais. Pouco depois, viajei de férias. Passei várias semanas nos Estados Unidos e na Europa. Sabia que ela também viajava pela Europa, mas não conhecia o seu roteiro. Em Nova York, eu ia aos museus pensando se ela já estaria em Londres. Em Londres, eu ia ao teatro pensando o que ela estaria fazendo em Paris. Em Paris, eu almoçava com amigos me perguntando se ela tinha namorado. Em resumo, os sinais eram inconfundíveis.

Anos depois, descobrimos que havíamos ficado hospedados em Londres no mesmo período, em ruas adjacentes de South Kensington, sem nunca esbarrarmos um no outro. Julgamos ter havido uma conspiração do destino. Nessa ocasião, porém, já conhecíamos o final feliz da história: de volta ao Brasil, nós nos reencontramos em seguida, começamos a namorar, nos casamos e nesse estado estamos até hoje. A foto acima mostra o lugar onde aconteceu o casamento.

Quando começamos a namorar, fizemos duas descobertas importantes: a de que nascêramos na mesma data e a de que nossas bibliotecas se completavam. A dela continha sobretudo livros de ficção científica – com destaque para os de Philip K. Dick, de quem eu nunca ouvira falar, pois era ainda um autor “cult” – poesia de língua inglesa, padre Antonio Vieira e ficção francesa da segunda metade do século XX. Na minha, predominavam livros de História e de psicanálise e literatura clássica francesa.

Como mencionei em minhas postagens sobre o filme O Plano de Maggie, de Rebecca Miller e Papai Noel e a amizade, acredito na capacidade dos livros de exercer papel nos relacionamentos humanos. Namorando, ia incorporando a sua vida à minha e ia assimilando novos interesses intelectuais. Lendo os seus livros, eu a conhecia melhor.

O primeiro volume da sua biblioteca que li talvez tenha sido este:

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Nossas estantes cresceram tanto com o tempo, que levei alguns minutos para achá-lo hoje, com o objetivo de fotografá-lo. Georges Perec era então apenas um nome muito vago para mim. A leitura de La Vie mode d’emploi foi uma revelação. Como eu pudera chegar aos 26 anos sem ler esse livro? Vários hábitos meus apareciam ali, escancarados: a mania das listas, que me acometia desde a infância; o fascínio com quebra-cabeças, a que já me referi na postagem O Triunfo da Cor; a vontade de dissecar a realidade, detalhe por detalhe; a análise das relações humanas e suas complexas implicações; a meditação sobre a interação entre a arte e o cotidiano.

Outro hábito meu é o de, ao descobrir um autor, querer ler tudo o que ele escreveu e tudo que foi escrito sobre ele. Perec ocupou meus pensamentos durante um bom tempo. Poderia ter entrado na lista de autores mortos que foram meus melhores amigos, alguns dos quais mencionei em Papai Noel e a amizade. Sua vida trágica me deixou muitas vezes inquieto, em um sentimento de solidariedade e fraternidade. Neste exato momento, enquanto escrevo, recordo os detalhes da sua existência e sinto profunda tristeza. No entanto, Perec em suas fotos está sempre sorridente, amou e foi amado ao menos duas vezes, tinha numerosos amigos e ganhou prêmios literários importantes. Ele é um exemplo de superação das adversidades, que porém o perseguiram até o fim – morreu de câncer às vésperas de completar 46 anos.

Até 2015, eu não conhecia este livro de Perec:

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Esse texto curto, de 40 páginas, de certa forma é uma grande listagem. Durante três dias, em outubro de 1974, Perec sentou-se em Paris em dois Cafés diferentes da place Saint-Sulpice e listou o que passava diante de seus olhos. Os vários ônibus – ele menciona se estavam cheios, vazios ou semi-cheios – as pessoas e as roupas que usavam e o que carregavam; os carros, especificando seus modelos e suas cores. Perec não tem o propósito de descrever os prédios, sequer a igreja de Saint-Sulpice, uma das mais famosas de Paris. Seu objetivo é “descrever o resto: aquilo que normalmente não notamos, o que não é observado, o que não tem importância: o que acontece quando nada acontece, a não ser o tempo, as pessoas, os carros e as nuvens”. Perec fica sentado nos dois Cafés, ou em um banco na praça, observando, anotando e também registrando o que ele come e o que bebe. Fica fascinado quando vê passar um homem que, como ele – e ninguém mais que ele conheça – segura o cigarro entre os dedos anular e mediano. O texto de forma alguma pretende ser um romance, mas às vezes frases soltas nos fazem imaginar vidas alheias, como esta: “Um homem carregando uns tapetes”; ou: “Um casal se aproxima de seu Autobianchi Abarth estacionado ao longo da calçada. A mulher mordisca uma tartelete”.  Que fim terá levado esse casal? Terão ficado casados? Tiveram filhos? Aliás, eram casados ou apenas amigos ou sócios? O que pensavam enquanto iam buscar o carro? Nunca saberemos.

Há registro fotográfico de Perec sentado no Café de la Mairie, um dos dois de onde observava a rua e escrevia sobre o que via em Tentative d’épuisement d’un lieu parisien:

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A foto de cima mostra o Café. A de baixo nos mostra um Perec caracteristicamente sorridente, mas parecido com um personagem dostoievskiano. A página é extraída de uma fotobiografia, Georges Perec, Images:

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Até 2015, portanto, a praça Saint-Sulpice não representava nada para mim; simplesmente, não fazia parte da minha Paris, embora o Hôtel Récamier, nos últimos anos, tenha virado local de hospedagem da minha irmã na cidade, e ao lado da praça haja uma excelente livraria, La Procure. Passava eu pela praça de vez em quando, quando estava em Paris, mas sem maior interesse. De repente, em 2015, uma sequência de eventos tornou a praça  objeto de minhas indagações. Naquele ano, eu estava na cidade, em abril; por coincidência, em dias sucessivos, dois amigos marcaram encontro comigo no Café de la Mairie. Poucas semanas depois de voltar ao Brasil, vi na Livraria Cultura do Leblon um livro de Enrique Vila-Matas publicado em 2009:

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Dietario voluble cobre o período de dezembro de 2005 a abril de 2008 na vida do escritor espanhol. Logo no começo, para janeiro de 2006, há a seguinte frase: “Estoy en la plaza de Saint-Sulpice, sentado en el café desde donde Georges Perec espiaba horas y horas lo que allí podia verse, no lo que ya había sido antes catalogado o inventariado…”. Vila-Matas menciona que Catherine Deneuve, Vargas Llosa e Umberto Eco possuem apartamentos na praça e brinca de Perec, sentado no Café, esperando, “en vano como siempre”, que passe Catherine Deneuve; lê na revista Lire que Vargas Llosa espera há 15 anos que Deneuve passe, “pero ella no aparece nunca”, lamenta-se o escritor peruano. E eis que, nesse momento, Catherine Deneuve se materializa de repente frente a Vila-Matas, que escreve: “Quedo mudo de la sorpresa y me pregunto si por unos momentos Deneuve no ha sido ‘lo que pasa cuando no pasa nada’”.

Folheando o Dietario voluble na Livraria Cultura, fiquei surpreso com a coincidência, já que acabara de frequentar o mesmo Café – mas não vira Deneuve. Comprei o livro. Mandei por whatsapp ao mais literato dos dois amigos com quem me sentara no Café de la Mairie essa página de Vila-Matas, embora ele não fale nem português, nem espanhol – é holandês. A providência seguinte foi encomendar o livro de Perec, o único do autor a faltar até então na nossa biblioteca.

Na primeira semana de janeiro deste ano, passando por Lisboa, onde mora minha irmã, li no blog Lunettes Rouges, minha bíblia para temas de arte contemporânea, artigo sobre exposição em uma galeria de arte lisboeta: Un photographe de notre temps (Daniel Blaufuks). O autor do blog, Marc Lenot, mora agora em Lisboa. No artigo, descreve Daniel Blaufuks como “um fotógrafo da memória, da lembrança, da História, do genocídio dos judeus, fotógrafo assombrado pelo passado”. E menciona que Perec havia sido uma fonte de inspiração para Blaufuks, que fotografara a mesa da cozinha de seu apartamento em Lisboa, onde naturalmente nada acontecia, a não ser pratos, comida, flores, que eram colocados sobre a superfície e retirados.

Não era necessário mais do que esse comentário sobre Perec para me fazer ir até o bairro de Alvalade – distante em relação ao Chiado, centro da cidade para mim – visitar a Galeria Vera Cortês. Alvalade foi urbanizado em meados do século XX e, embora não possua o charme da Lisboa pombalina, mostrou-me nova faceta da cidade.

Vera Cortês é extremamente simpática. A galeria é clara e minimalista, como mostra este canto, que serve de copa:

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O folheto sobre a exposição de Daniel Blaufuks, intitulada, em homenagem a Perec, “Tentativa de esgotamento”, relembra logo na primeira frase o experimento do escritor na praça Saint-Sulpice em 1974 e a tentativa de resgatar “o que se passa quando não se passa nada, salvo o tempo”. Blaufuks informa: “Entre 2009 e 2016 fotografei uma mesa e a janela na minha cozinha em Lisboa. Primeiro atraído pelo silêncio, depois pela forma como a luz caía nos objectos e em seguida pela sua composição geométrica, fui reparando mais e mais em como tudo se repetia e não se repetia devido às ligeiras e quase invisíveis diferenças do dia-a-dia”. O texto de Blaufuks termina da seguinte maneira:

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Tanto Blaufuks quanto Vila-Matas preferiram falar como se Perec tivesse se sentado sempre no mesmo café.

Mostro abaixo visão panorâmica da exposição:

E abaixo, algumas das minhas fotos prediletas:

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Como aponta Marc Lenot em seu artigo, há várias referências artísticas nas fotos, a ponto de podermos nos perguntar se, por exemplo, os girassóis realmente apareceram ali por acaso. Penso que provavelmente não. A questão mais relevante, porém, é outra: é a tentativa de Blaufuks de mostrar como um livro, um prato de comida, um talher, uma fruta, uma flor, uma toalha colocados sobre a mesma mesa mudam o ambiente ou ao menos a percepção que temos do ambiente. Qual das duas fotografias que mostram o copo de leite é mais impactante filosoficamente ou esteticamente melhor? Discuti o assunto com Vera Cortês. Não sei se há resposta certa. As duas mostram um copo de leite sobre a mesma mesa. No entanto, cada uma mostra uma realidade bem diferente.

Vera Cortês me deu de presente livro editado pela sua galeria, que contém vários textos de Blaufuks ou sobre ele ou que nada têm a ver com ele diretamente mas ilustram sua visão de mundo:

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Ao sair da galeria, parei em um Café do bairro. Sentei-me na varanda coberta e fiquei observando a rua, vendo cair a luz do fim de tarde invernal, pensando em muitas coisas. Poucos dias antes, em Sevilha, eu sofrera um acidente banal mas no qual me machucara o suficiente para ter de ir ao hospital duas vezes em três dias. Não narrei esse incidente na postagem sobre meu Ano Novo, Sevilha: Palacio de las Dueñas e Casa de Pilatos, onde preferi me concentrar na beleza da vida. No Café em Alvalade, com a mão direita enfaixada – estado em que passei meus nove dias em Sevilha, Lisboa e Paris, no começo do ano – as costas, os tornozelos, os joelhos doloridos, pensei na exposição de Daniel Blaufuks, em Georges Perec e sua existência repleta de tragédias mas da qual ele procurara fazer uma experiência feliz, pensei na transitoriedade das coisas e das pessoas em nossas vidas. Pensei na II Segunda Guerra Mundial e em como afetara as vidas de Perec e de Blaufuks, por meio de seus pais, no caso do primeiro, e seus avós, no caso do segundo. Lembrei que aquele que fora meu amigo mais próximo, e que, muitíssimo mais velho do que eu, já não está aqui, nascera na Inglaterra durante a II Guerra Mundial. Fiquei me perguntando onde fora parar a máscara anti-gás que ele, quando era bebê, usava durante os bombardeios alemães, e que uma vez me mostrara. Lamentei não poder ligar e narrar-lhe a exposição de Blaufuks que ele, como fotógrafo amador e filósofo nas horas vagas, teria adorado.

Como eu estava em Lisboa, o café e o doce eram ambos deliciosos e agiram sobre mim. Pensei na sorte que era estar ali, de não ter me machucado mais, no quanto minha irmã cuidara de mim em Sevilha. Lembrei que tinha de voltar para casa, pois ia jantar fora com um casal de amigos, em meu restaurante predileto na cidade.

Concluí pensando na sorte que fora apaixonar-me aos 25 anos logo por ela, e que a vida, que nos parece às vezes tão arbitrária, pode também demonstrar enorme coerência: o Amor me fizera gostar de Perec, e isso me levara, depois de anos e de várias coincidências – duas idas seguidas ao Café de la Mairie, por iniciativa de amigos diferentes; a descoberta do livro de Enrique Vila-Matas na Livraria Cultura; a leitura do blog Lunettes Rouges – a Alvalade e àquele Café.

Levantei-me feliz, sentindo-me tranquilo e seguro, manquei até o balcão para pagar a conta, peguei um taxi e voltei para o Chiado.

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Toni Erdmann – Maren Ade

Toni Erdmann, concorrente pela Alemanha ao Oscar de melhor filme estrangeiro, trata de temas seríssimos, mas de forma engraçada e com senso de humor iconoclasta. É provavelmente o longa-metragem mais original que veremos nas telas este ano.

Dependendo da personalidade do espectador, este filme pode ser examinado de duas maneiras diferentes. Alguns o tomarão como a estória de um pai embaraçosamente excêntrico, que atrapalha a vida profissional da filha, mulher focada, consultora empresarial, que tenta sobreviver em um ambiente machista, competitivo e cruel. Outros o verão como a estória de uma filha fria, ambiciosa, que não tem tempo para sua família carinhosa, inclusive o pai encantado com ela.

As duas visões não são necessariamente antagônicas, pois o filme, embora não seja, como A Morte de Luís XIV, exemplo típico do que é classificado como cinema de arte europeu, é suficientemente ambíguo para permitir várias interpretações, como tantas vezes acontece na vida real. Toni Erdmann dura 2 horas e 40 minutos, mas em momento algum nos entedia. Ficamos atentos ao que acontece na tela e não sentimos o tempo passar.

Winfried Conradi – interpretado pelo ator austríaco Peter Simonischek – é professor primário em uma pequena cidade alemã. É dono de uma imaginação e um senso de humor que apenas ele acha engraçados, criando situações que deixam perplexas as demais personagens mas fazem os espectadores rirem de bom grado. Sua filha, Ines – interpretada por Sandra Hüller – está prestando consultoria em Bucareste por um ano e sonha em trabalhar em Xangai. Leva uma vida duríssima, solitária, enfrentando todo tipo de constrangimento machista de seus colegas, clientes e superiores hierárquicos. O líder empresarial alemão cliente da firma de consultoria para a qual trabalha, que ela deseja agradar pela competência profissional, coloca-a para acompanhar a mulher russa às compras.

A personagem russa, embora secundária, é aliás bem delineada. Uma das características deste filme fascinante é a forma hábil como a diretora, Maren Ade – também roteirista – revela a psicologia mesmo dos personagens menos importantes. Declara a russa, mulher do plutocrata alemão: “Nós moramos em Frankfurt. Gosto de Frankfurt, pois possui uma classe média sólida. As classes médias são tão relaxantes…”.

De forma sutil, em várias cenas, somos levados a perceber que o gênero de Ines é uma questão sempre presente na sua vida profissional, apesar do talento. A magnífica  interpretação de Sabine Hüller torna palpável a angústia de sua personagem diante dessa situação.

Os pais de Ines são divorciados e a mãe casou-se novamente. Mora com o segundo marido em uma casa onde todas as paredes são cobertas por estantes de livros. Esse cenário livresco serve para ilustrar que a mãe e o padrasto de Ines levam um vida intelectualmente mais refinada do que Winfried. Vendo os livros nas estantes, fiquei me perguntando se seriam todos em alemão ou se haveria alguns em outras línguas, e de que temas tratariam. A câmera focaliza apenas um volume, um estudo sobre Bach.

O enredo ganha ritmo acelerado quando Winfried decide visitar a filha em Bucareste. Em uma das cenas cruciais do filme, pergunta a ela se é feliz. Ines fica surpresa e questiona o próprio conceito de felicidade, que considera super-valorizado. O  pai pergunta em seguida se ela tem tempo de viver, e ela acha a ideia ingênua; responde com outra pergunta, de forma irônica: “Você quer saber se vou ao cinema, coisas assim?”. A partir daí, Winfried decide, sem pedir licença a Ines, dar-lhe algumas lições de vida.

Outra cena importante é a de sexo, que foge do padrão usual. É um dos poucos momentos onde Ines consegue, ainda que apenas de forma relativa, mostrar poder e superioridade, no caso sobre seu parceiro.

Em uma terceira cena, quando Winfried está quase desistindo do plano de fazer a filha enxergar o que está errado em sua vida, obriga-a a cantar, em uma festa de Páscoa em casa de desconhecidos, The Greatest Love of All, de Whitney Houston. É um momento surpreendente do filme. É como se estivéssemos ouvindo a célebre canção pela primeira vez, incorporando-a, entendendo sua mensagem – de que a capacidade de amar, para cada ser humano, começa pela aceitação de si próprio. A iniciativa de Winfried dá certo, embora ele não perceba isso imediatamente pois Ines, ao terminar de cantar, foge da festa, ainda relutante em aceitar a verdade explicitada pela canção.

O filme é uma indagação sobre o que significa ser um adulto e qual a melhor forma de ser adulto. Como sabemos, a resposta não é fácil, pois não há um molde único, acessível a todos. Pessoalmente, considerei a anfitriã romena da festa onde Ines canta como o personagem mais sereno, talvez mais feliz. Em compensação, na festa de aniversário de Ines – um dos momentos mais hilariantes do filme mas também mais densos, pois é quando percebemos o começo de uma evolução psicológica na personagem – vemos que uma de suas duas únicas amigas está disposta a ajudá-la a escolher uma roupa para vestir mas não a indagá-la sobre o que está acontecendo em sua vida interior. E algo importante está claramente acontecendo. Sentimos pena não de Ines, mas da amiga, tão simpática e tão árida.

Este não é um filme hollywoodiano; não há, no final, uma epifania, a provocar nos personagens e nos espectadores uma catarse, com música grandiloquente ao fundo. A epifania aconteceu bem antes, enquanto Ines cantava Whitney Houston.

Na saída do cinema, membros do público ficaram discutindo como deveriam interpretar a última cena. Achei a mensagem bastante evidente, mas não quero estragar o prazer de potenciais espectadores. Direi ao leitor apenas que Winfried e Ines passam a aceitar mais um ao outro e que este é um belíssimo filme sobre o amor entre um pai e uma filha.

Toni Erdmann – Ficha técnica

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