O Embrulho Vermelho

O Embrulho Vermelho

Em 27 de maio, minha mãe fez 80 anos. Como a data caía no domingo, pude comemorar com ela no Rio de Janeiro, e estar também com minha irmã, que viera de Lisboa, onde mora.

Alguns amigos passaram em casa no final da tarde para cumprimentar a aniversariante. Como a greve dos caminhoneiros, a falta de gasolina nos postos e o desabastecimento nos mercados da cidade estavam no auge, a chegada de um determinado presente de aniversário causou grande impacto:

20180602_152243.jpg

Na foto, aparecem minha mãe, minha sobrinha e os dois amigos que trouxeram o presente. Vindo diretamente de Petrópolis para dar os parabéns, Chicô Gouvea e Paulo Reis consideraram que nada seria tão marcante quanto aquilo que não se encontrava no mercado: verduras frescas.

Nesta outra foto, registrei Cora Ronai capturando a mesma cena:

20180602_152607.jpg

Em seu perfil no Instagram (@cronai), Cora Ronai publicou uma das fotos que tirou, acompanhada do texto: “Minha amiga Thereza Quintella fez 80 anos. Ganhou muitos presentes lindos e carinhosos, mas nenhum fez tanto sucesso quanto a cesta de hortaliças que Chicô e Paulo trouxeram direto da roça”. Isso provocou comentários divertidos, como: “Que saudade de uma alface!”, “No momento, tá melhor que ganhar joias”, “Saudade de uma boa saladinha!”.

Acontece, porém, que minha mãe não foi a única a ganhar presente naquele dia. No café da manhã, olhando o mar e filosofando sobre o Infinito enquanto devorava um croissant, recebi da minha irmã um embrulho vermelho, que ela trouxera de Lisboa:

20180602_153040.jpg

Titina é a melhor irmã do mundo. Naturalmente, eu nada levara para ela e nem, aliás, para minha mãe. Decidi compensar demonstrando meus talentos mediúnicos. Alisando o embrulho vermelho, declarei: “É um livro”. Isso era pouco para comover Titina. Que mais poderia ser? Prossegui: “O papel não traz a marca de nenhuma livraria, então sei que não é da Bertrand“. Diante de sua resposta de que ela mesma embrulhara o livro, continuei: “Você comprou na livraria da Rua do Século”. Isso sim a impressionou.

De meu conhecimento, a “livraria na Rua do Século” não usa nome algum. É um sebo, forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. A primeira vez em que Titina lá me levou, julguei haver uma intenção metafísica no nome da rua, até descobrir que tratava-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia. Mais corretamente, o nome é “Rua de O Século”.

A entrada do sebo é simples e sem indicação alguma:

20171212_183153.jpg

Dentro, o espaço é congestionado:

20171212_183958.jpg

O proprietário é educado e afável e deixa os fregueses à vontade. Consegui retirar um tesouro de uma dessas pilhas, quando lá estive pela última vez, em julho de 2017:

20180603_171857-1.jpg

20180603_171914.jpg

Nem o ano, nem a encadernação nem a edição em si, aos olhos dos meus quatro leitores, justificariam o uso que fiz acima do termo “tesouro”. Tudo o que diga respeito a Carlos V, porém, me interessa desde a infância. Nascido em Gand, o Imperador preserva memória viva na Bélgica, onde morei pela primeira vez criança. Suas disputas com Francisco I de França são objeto de fascínio para mim. Um dos grandes prazeres, quando comecei a ler À la recherche du temps perdu, aos 11 anos, foi descobrir que o Narrador também divaga sobre a rivalidade entre os dois monarcas. Na primeiríssima página do romance de Proust, o Narrador menciona que, às vezes, acordava pouco depois de ter adormecido, não só pensando no livro que lera antes de dormir mas também sentindo-se ser o próprio tema do livro: “une église, un quatuor, la rivalité de Francois Ier et de Charles Quint“. Em geral, presume-se que a fonte para a observação casual de Proust sobre essa rivalidade tenha sido o livro do historiador François-Auguste Mignet (1796-1884), Rivalité de François 1er et Charles-Quint, publicado em 1875, que comprei e li na adolescência:

20171228_094605~2.jpgAlguns se perguntarão por que não coloco aqui foto dos dois volumes onde as patinhas do meu gato não apareçam. Pois direi que, pelo visto, há muito tempo eu vinha querendo falar de Carlos V e de Francisco I, ou da presença de Mignet na vida intelectual de Proust, porque esse nosso gato, James, cujas patas são inconfundíveis, morreu em janeiro de 2018, aos 19 anos. Nasceu em Quito, em 1998, em nossa casa, pois sua mãe também nos pertencia — ou nós a ela. Maior do que vários cachorros, de uma beleza altaneira e  personalidade forte (um de seus apelidos era Arquiduque, outro era Señor Presidente), James não era um amigo fácil. Tinha espírito arredio, era propenso a rosnar e marcava preferência pela minha mulher. Por todas essas qualidades, eu o amava (outro apelido que dávamos a ele era Jaimito de mi corazón). Foi uma boa surpresa para mim, ao procurar a foto no celular para inseri-la neste texto, ver que James nela aparece.

Admito que esta outra foto, tirada pela minha mulher, é de qualidade superior:

IMG-20180616-WA0012.jpg

Uma característica importante, para mim, de Mignet é que ele nasceu em Aix-en-Provence; um dos principais colégios da cidade, no coração do bairro de Aix com arquitetura do século XVII, chama-se Collège Mignet:

20170714_011431~2.jpg

Vejamos o que dizem as placas de cada lado da porta:

20170714_154942~3.jpg

20180608_201938.jpg

Esse liceu, assim, resume um pouco da História da França. Insere-se no Quartier Mazarin, construído no século XVII pelo Arcebispo de Aix, o Cardeal Michel Mazarin, irmão de outro Cardeal bem mais célebre, Jules — ou Giulio, pois nascera na Itália — Primeiro-Ministro da minoridade e da juventude de Luís XIV. No colégio estudaram, juntos, Paul Cézanne e Émile Zola e, mais tarde, Darius Mihaud. Marcel Pagnol lá deu aulas. E o liceu hoje carrega o nome de um historiador famoso em seu tempo, a cuja obra alude Proust. Nunca passo na rue Cardinale sem meditar sobre todas essas associações.

Voltemos porém ao presente que me deu Titina no dia 27 de maio. Abro o embrulho vermelho e vejo este livro:

20180602_153212.jpg

Um livro sobre o Barão do Rio-Branco, editado pela José Olympio, só poderia me deixar feliz. A palmeira, característica da Coleção Documentos Brasileiros da editora, também me trouxe boas lembranças, pois na biblioteca de meu pai e de minha mãe existem numerosos volumes dessa coleção, com a inesquecível lombada:

20180616_150208.jpg

A palmeira da Coleção Documentos Brasileiros, cujos volumes eram tão presentes lá em casa e são parte da minha infância e juventude, traz recordações felizes de leituras e, portanto, da vida.

Em 2008, a editora Sextante — fundada por Geraldo Jordão Pereira e seus filhos Marcos e Tomás, respectivamente filho e netos do editor José Olympio Pereira — publicou um livro exemplar sobre a editora José Olympio, escrito e organizado pelo também editor José Mario Pereira (o sobrenome é coincidência), dono da Topbooks:

20180606_184044.jpg

Geraldo Jordão Pereira morreu em 2008, mesmo ano em que o livro foi editado. Devemos ver José Olympio: O Editor e sua Casa como demonstração de amor filial, dirigida à memória do pai e do avô de Marcos e Tomás da Veiga Pereira. “Este livro”, diz Marcos da Veiga Pereira, “projetado como justa homenagem a meu avô e à editora que criou, agora é também para louvar a memória do grande profissional e companheiro de trabalho que foi Geraldo Jordão Pereira, meu pai”.

O volume é de uma impressionante riqueza factual e iconográfica e ganhou, em 2009, o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras. As páginas eletrônicas da Topbooks e da ABL replicam artigos onde é saudada a publicação do livro. Ao elogiar a “magistral pesquisa de José Mario Pereira”, Wilson Martins, em matéria no Jornal do Brasil, classifica o livro como “obra-prima de arte tipográfica, documentação historiográfica e preciosa iconografia”.

Quem diria o contrário, ao ver, por exemplo, estas duas páginas:

20180610_144420.jpg

O título do elogio de José Nêumanne, publicado em O Estado de São Paulo, já diz tudo: A vida do homem que pôs o Brasil para ler, remetendo ao título do primeiro capítulo do livro, “José Olympio, o civilizador do Brasil”. Dois artigos de membros da Academia Brasileira de Letras chamaram minha atenção. O texto de Ivan Junqueira, no Jornal do Commercio, menciona o “beneditino trabalho de pesquisa literária e editorial” de José Mario Pereira. O texto de Marcos Vilaça, publicado no Diário de Pernambuco, diz: “Na obra publicada pela Sextante a gente encontra do Brasil a política, a história literária, a indústria editorial, a evolução gráfica, a memória fotográfica, um pedaço da trajetória do país no século XX”.

De forma poética, proustiana, Marcos Vilaça diz como foi a experiência de folhear o livro: “Nesse passar e repassar de páginas, minha vida foi se reativando”. A mesma impressão tive eu. Abro José Olympio: O Editor e sua Casa, e ecos da infância e da juventude passam diante de meus olhos. Dinah Silveira de Queiroz, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Herberto Sales e muitos outros, todos amigos de meu pai ou de minha mãe, e que conheci pessoalmente, criança ou adolescente, em graus variados, circulam pelas páginas. Vejo um bilhete de José Guilherme Merquior, temível polemista na visão de alguns mas, no trato comigo, na minha juventude, homem educado, carismático, gentil e atencioso:

20180616_222912.jpg

Outros autores que surgem em José Olympio: O Editor e sua Casa, da geração anterior, foram amigos de meu avô materno — o baiano, pois como expliquei em De carro pela Provença, tive dois avós maternos, um baiano e outro mineiro. Muitas das edições ilustradas no livro são as que li, pois eu as encontrava nas bibliotecas de meu pai e de minha mãe. Onde terá ido parar, por exemplo, nosso exemplar de Oito Décadas, o livro de memórias de Carolina Nabuco, que li e reli quando criança, na mesma edição mostrada abaixo? Recentemente, minha filha pediu para lê-lo e não o encontrei nem aqui em casa, nem nas estantes da minha mãe. Estará com Titina em Lisboa? Ou no depósito, no Rio, onde são guardadas caixas de alguns dos  livros que pertenceram ao  meu pai?

20180616_223402.jpg

As capas dos livros de Carolina Nabuco e de Rachel Jardim são ambas de autoria de Eugenio Hirsch, nascido na Áustria em 1923, emigrado primeiro para a Argentina, fugindo do nazismo, e depois para o Brasil. Hirsch morreu no Rio de Janeiro em 2001.

Dois dos livros de meu pai — Retrospectiva e Combati o Bom Combate — foram editados pela José Olympio e Eugenio Hirsch foi o responsável pelas capas de ambos:

20180611_095014.jpg

A capa de Combati o Bom Combate parece-me particularmente exitosa. O romance — e eu não me lembrava disto, pois tinha 10 anos de idade e morava na Bélgica — é dedicado a mim, sem sentimentalismos, de forma característica do meu pai: “Para Ary Norton de Murat Quintella”. Esta é a sua foto, beirando os 40 anos, usada na edição:

20180610_171455.jpg

Ivan Cavalcanti Proença faz uma introdução ao romance onde a questão da passagem do tempo é evocada: “uma libertação e uma transcendência ao que se chama o amargor da irreversibilidade do tempo”. Outra frase sua remete claramente a Proust: “recuperação do tempo perdido”. Isso faz sentido, pois Combati o Bom Combate é uma ficção semi-autobiográfica; reflete a infância, a adolescência e a juventude de meu pai, e vários personagens aparecem com o prenome ou o apelido das pessoas reais que os inspiraram. A ideia do tempo é retomada por Nélida Piñon, na contracapa: “um panorama profundamente nostálgico de uma geração que já não se ilude com ‘o bom combate’ “.

Quanto a Retrospectiva, sua edição seguinte deu-se em outra editora, mas a capa continuou sendo de Eugenio Hirsch. Se, na edição da José Olympio, vemos Ary Quintella bebendo um copo de uísque, na segunda ele fuma — eram quatro maços por dia e ele morreria de câncer aos 66 anos:

20180610_171545.jpg

Meu pai trabalhou, por creio um curto tempo, com José Olympio na editora. Penso não ter jamais visto o mítico editor. Conheci porém, criança, na Bélgica, durante viagem que por lá fizeram, Geraldo Jordão Pereira e sua mulher, Regina. A primeira edição de Retrospectiva, na José Olympio, traz duas dedicatórias, a mais longa delas com ecos de Baudelaire e Lautréamont:

20180616_223147.jpg

Vejo que o exemplar que tenho em casa pertenceu a meu irmão, pois nele meu pai colou o seguinte bilhete:

20180616_223016.jpg

Alfredo morreu aos 16 anos, então não saberei nunca se chegou a ler o livro, que recebeu aos 8 anos.

Como mencionei em  Edla van Steen, estória sobre a amizade, a correspondência recebida por meu pai, inclusive a enviada por mim, foi em grande parte doada por ele, ainda em vida, à Fundação Casa de Rui Barbosa. No entanto, mexendo recentemente em velhos papéis, minha mãe encontrou o seguinte bilhete de Geraldo Jordão Pereira para meu pai, de pêsames pela morte do meu irmão:

20180610_195800.jpg

20180610_195848.jpg

O texto foi escrito três dias depois da morte de Alfredo, em uma hora em que muitos terão preferido se omitir. Não creio ser indiscreto ao publicá-lo aqui, e sim estar homenageando o sentido de humanidade de Geraldo Jordão Pereira.

O leitor que chegou até aqui talvez tenha notado, acima, no topo da página em que está a dedicatória a Regina Pereira, menção a “Eugen Alois Hirsch: que já trabalhava com meu pai, mui grato”. Essa frase de meu pai me surpreendeu. Olhei alguns exemplares que tenho em casa de livros do pai dele, meu avô, o matemático, também Ary Quintella, que eram publicados pela Companhia Editora Nacional. Algumas capas aparecem como sendo de “Hugo Ribeiro (arquiteto)”, por exemplo estas, minhas prediletas:

20180610_201412.jpg

Em algum momento, porém, as capas dos livros de meu avô começaram, de fato, a ser desenhadas por Eugenio Hirsch. Os exemplares que tenho em casa estão já desbotados, perderam as cores e, possivelmente, não fazem justiça à aparência original:

20180610_171640.jpg

Eugenio Hirsch parece ter sido um designer revolucionário. Encontrei na Internet, sem grande esforço, além de vários textos que tratam especificamente de seu trabalho, três ou quatro teses e dissertações, relativas a diversos temas — a matemática, a prática editorial em livros didáticos, a história do design no Brasil etc… —  onde são estudadas suas capas para os livros de meu avô.

Situado, em termos geracionais, entre meu avô e meu pai, e tendo sobrevivido a ambos, Eugenio Hirsch associou seu talento a dois Ary Quintella, que publicaram com o mesmo nome, em décadas diferentes, em editoras diferentes, obras de finalidades diferentes — uma, de matemática, outra, de literatura.

E foi assim que um gesto simples, o de abrir o embrulho vermelho, me fez simultaneamente abolir e recuperar o tempo. O presente de minha irmã trouxe de volta, com a encantadora palmeira da José Olympio, os melhores momentos da minha juventude. Proust teria aprovado.

 

 

Seis livrarias

Seis livrarias

Livrarias tendem a aparecer magicamente diante de mim. Caminho pela rua e, quando menos espero, surge uma, como se eu estivesse em um conto de As Mil e Uma Noites. Em vez de um gênio, uma lâmpada, um cão falante ou um tapete voador, aparece uma livraria. Entro, e é como se eu estivesse dentro da caverna de Aladim, com seus tesouros.

Os minutos, as horas passados dentro daquele universo, folheando livros, sentado em uma poltrona ou um banco, talvez tomando um café, provocam em mim o mesmo efeito que a meditação em outros. É como um choque de paz e energia cerebrais. Saio de livrarias atento às coisas ao meu redor, alerta, sereno e feliz.

Tive ocasião de pensar uma vez mais na aparição mágica de livrarias na minha vida em julho de 2017 quando, caminhando a esmo por Aix-en-Provence — durante viagem que narrei em De carro pela Provença — vi em uma praça, sob um toldo vermelho, a porta de um sebo chamado Le Bateau Livre, que eu nunca vira antes, em todas as minhas idas a Aix:

20170719_123245.jpg

Pensei estar sonhando. Atravessei a praça:

20170810_171336

Entrei e vi, em um espaço estreito, o Paraíso:

20170810_171051

Após algum tempo examinando as estantes, decidi ser forte e ir embora sem nada comprar. Alguns dos livros, porém, não me saíam da cabeça e minha imaginação voltava sem trégua a Le Bateau Livre. O próprio anúncio na vitrine, dizendo “avant fermeture — 50%”, proclamando o iminente encerramento de atividades do sebo, parecia como criar para mim a obrigação de lá voltar. Como comentei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro, ver que uma livraria fechou ou vai fechar provoca em mim inquietação. É uma amizade que termina com o encerramento daquele espaço, é um local calmo e ao mesmo tempo estimulante que não estará mais disponível. Fico também me perguntando o que acontecerá aos livros. O fato de eu ter estado, ainda que somente uma vez, em Le Bateau Livre já transformara o sebo em um amigo. Não podia abandoná-lo em seus últimos dias de vida. A queima de estoque, com liquidação de 50%, terá certamente criado atrativo suplementar. O próprio nome, com ecos de Rimbaud, dava no que pensar.

Dois dias depois da descoberta da livraria, lá voltei. E nessa segunda visita, não saí sozinho. Entre outras, levava comigo para o hotel as seguintes companhias:

20170818_190048

Vathek, de William Beckford, foi um aceno à minha mulher. Em Londres, há vários anos, em uma livraria de Cecil Court, curta rua de pedestres povoada por elegantes sebos que começa na Charing Cross Road, por razões que se perdem no tempo eu a convencera a não comprar uma edição do livro. Suponho que eu tenha achado o preço excessivo. Terá sido a única vez na vida em que impedi — a mim mesmo ou a outra pessoa — a compra de um livro. Desde então, o remorso me corroía. Talvez, de forma excessiva. Ao receber o presente, minha mulher ficou contente mas manifestou não se lembrar do diálogo em Cecil Court. De qualquer forma, encontrar o livro em Aix pareceu-me algo tão prodigioso quanto o surgimento da própria livraria.

Les Pourparlers diplomatiques compila, país por país, a versão em francês de volumes que os governos europeus participantes da Primeira Guerra Mundial publicaram individualmente, ainda durante o conflito — alguns já a partir de 1914 — em um esforço propagandístico, para se defender da acusação de serem responsáveis pela guerra. Desejava cada país provar que procurara, até o último momento, resolver as tensões por meio do diálogo e da moderação. Em graus variados de honestidade intelectual e transparência, os países revelaram ao público, em forma de livro, comunicados, telegramas e memorandos diplomáticos, cada um utilizando uma capa de cor diferente. A coleção francesa é o “livro amarelo”, a inglesa o “livro azul”, a italiana o “livro verde”, a alemã o “livro branco”, a austro-húngara o “livro vermelho”, a russa o “livro laranja”.

O jogo de atribuir ao adversário a culpa pela guerra, vemos em Les Pourparlers diplomatiques, iniciou-se imediatamente. Em 2 de agosto de 1914, um dia após a Alemanha ter declarado guerra à Rússia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo enviou telegrama circular “aos Representantes de sua Majestade o Imperador no exterior”, onde a primeiríssima frase é: “Está absolutamente claro que a Alemanha se esforça desde já para transferir sobre nós a responsabilidade pela ruptura”. De fato, o conjunto dos documentos presentes no “livro branco” alemão tende a por a culpa pela guerra na mobilização de tropas pela Rússia. O “livro laranja” russo leva a crer que a culpa foi do ultimato austro-húngaro à Sérvia, aliada do Império tsarista. Uma das preocupações do “livro amarelo” francês é inocentar a Rússia, sua aliada.

O “livro vermelho” austro-húngaro se inicia com uma apresentação onde leio o seguinte parágrafo — que traduzo do francês — relativo ao assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando por cidadãos sérvios, crime que foi estopim, motivo ou pretexto para a guerra: “A morte dessa vítima imolada à pátria devia, esperavam nossos inimigos em sua desvairada ilusão, precipitar a dissolução da Monarquia; ao contrário, ela uniu todos os povos austro-húngaros em uma unanimidade apaixonada em torno à sua dinastia. O mundo inteiro pôde ver as bases inquebrantáveis sobre as quais repousam os fundamentos da Monarquia “. O texto foi publicado quatro anos antes do fim do “inquebrantável” Império austro-húngaro.

Folhear os dois volumes equivale a ser transportado a um universo onde Ministros das Relações Exteriores e Embaixadores são Príncipes, Condes e Barões, onde Imperadores são atores cruciais e onde dois primos prestes a levar seus povos a se entre-devorarem, Guilherme II da Alemanha e Nicolau II da Rússia, trocam gentilezas. Vejo no “livro branco” alemão que, em 31 de julho de 1914, um dia antes de declarar guerra à Rússia, Guilherme II escreveu a Nicolau II: “Em resposta ao teu apelo à minha amizade e ao teu pedido de que eu te ajudasse, procurei intermediar entre teu Governo e o Governo austro-húngaro. Enquanto essa intermediação se realizava ainda, tuas tropas foram mobilizadas contra a minha aliada, a Áustria-Hungria […] A amizade por você e o teu reino, que meu avô [o primeiro Imperador da Alemanha, Guilherme I] me transmitiu em seu leito de morte, é sempre sagrada para mim”. É um universo descrito pelo historiador britânico Dominic Lieven, em seu livro Towards the Flame: Empire, War and the End of Tsarist Russia — um dos muitos publicados em torno ao centenário da Primeira Guerra Mundial, tentando explicar suas causas — como sendo “the exquisitely polite facade of ancien régime diplomacy”.

20180524_173550.jpg

Em seu celebrado estudo The Sleepwalkers Christopher Clark menciona que, em alguns casos, os documentos publicados por cada país no seu respectivo livro de capa colorida foram manipulados, por exemplo com mudanças de datas.

Conversando com o livreiro de Le Bateau Livre, soube que seu negócio já não era sustentável; ele não podia manter o sebo, e aquele universo seria encerrado no final de julho.

Mais sólida parecia a situação da livraria ao lado do meu hotel no Cours Mirabeau, principal rua do centro histórico de Aix:

20170719_135519~2.jpg

Dentro, a Librairie Goulard é uma enfileirada de salas, cada uma mais atraente do que a anterior, atravessando todo o quarteirão, e é possível sair pela rua de trás:

20180518_201346.jpg

Minha última atividade em Aix, antes de ir ao aeroporto, com o taxi já me esperando, foi entrar novamente na Goulard para comprar presentes aos amigos que, sabia, eu veria no dia seguinte. Livros são basicamente o único presente que sei oferecer. Sei onde compra-los, e isso já facilita muito as coisas. Não resisti e saí da Goulard também com dois volumes para mim mesmo, que eu namorara assiduamente ao longo de sete dias:

20180520_155345.jpg

Tenho apreço especial pelo historiador e filósofo Lucien Jerphagnon, especialista na Antiguidade Clássica, morto em 2011. O livro de Michel Eltchaninoff explica os fundamentos intelectuais do pensamento político de Vladimir Putin.

O ano de 2017 foi altamente satisfatório, em termos de livrarias. Não posso listar todas aquelas onde estive, porque a cada lugar aonde vou, elas aparecem e eu entro. Seria uma lista infinita. O que me impressiona mais é a peculiaridade de cada espaço. Duas livrarias nunca são iguais, mesmo que ambas pertençam à mesma grande cadeia. Sempre haverá diferenças que tornarão um estabelecimento mais sedutor para nós do que outro.

Mostro a seguir algumas das outras livrarias que mais me agradaram em 2017, onde me senti particularmente bem.

A livraria francesa de Nova York ficava antes no Rockefeller Center e lembro-me bem de visita-la algumas vezes. Hoje, está instalada na Quinta Avenida, em frente ao parque, algumas ruas abaixo do Metropolitan Museum. Dois detalhes dão a ela características próprias: o nome, Albertine, de conotações proustianas, e a decoração inusual. A Albertine — que se apresenta na Internet também como salão de leitura e, de fato, em uma semana de férias em Nova York, lá passei bons momentos, no frio e na neve de janeiro de 2017, sentado em confortáveis poltronas, sem ser perturbado por ninguém — se apresenta assim:

20170117_174516.jpg

Por alguma razão, deixei de fotografar o segundo andar, embora tenha um teto fora do comum, mas um amigo me enviou esta foto, única não tirada por mim nesta postagem:

IMG-20180128-WA0009.jpg                                                                                                                                Foto: Gabriel Petrus

Boa parte de meu tempo em Nova York transcorreu em livrarias, e eu já havia constituído no hotel uma biblioteca, por isso fui comedido e saí da Albertine com apenas dois volumes:

20180520_154847.jpg

Em fevereiro de 2017, na volta de uma rápida viagem a trabalho a Nanjing, passei o domingo em Beijing. Amigos levaram-me ao mercado das pulgas de Panjiayuan, onde uma vez mais fiquei meditando sobre a dificuldade de entender uma cultura, uma civilização, se dela não conhecemos o idioma. Pois em Panjiayuan há vários vendedores de livros a céu aberto:

20170226_112422.jpg

Ao menos em Panjiayuan, Mao e seu livrinho vermelho são ainda onipresentes. O efeito propagandístico obtido por esse livro vermelho foi bem superior, no século XX, ao do Império austro-húngaro.

20170226_105854.jpg

Tintin também é popular em Beijing. Este não era o único vendedor que oferecia, em Panjiayuan, todos os volumes das aventuras do repórter belga:

20170226_112345.jpg

Sobre a livraria Saeed Book Bank, em Islamabad, onde estive em março, tive ocasião de falar na postagem Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi, e será suficiente eu recolocar aqui uma foto da fachada:

wp-1490485706902.jpg

E outra dos livros que lá comprei:

wp-1490377759510.jpg

Em outubro, quando estive na Índia pela última vez, ao sair no domingo, no final da tarde, da casa onde Gandhi foi assassinado — experiência narrada em Mahatma Gandhi em Birla House   — satisfiz um velho sonho, e visitei as livrarias do Khan Market. Este é na verdade um pequeno enclave, com três ruas, e considerado o centro comercial mais caro de Nova Delhi:

Há pelo menos três livrarias no Khan Market, mas eu só pude visitar — as lojas iam fechar — as duas que já conhecia de nome. Primeiro, fui à Full Circle, onde me senti perfeitamente em casa:

20171008_192938~2.jpg

20171008_192927~2.jpg

Os vendedores e o gerente foram simpáticos e me ajudaram com a lista de livros que eu levava comigo. Dos cinco, encontrei quatro na Full Circle:

20180524_175438.jpg

Sobre Incarnations, do historiador Sunil Khilnani, falei já em Mahatma Gandhi em Birla House. As cinquenta curtas biografias nele contidas têm sido para mim, desde outubro, uma aula constante sobre a história da Índia.

Visitei as livrarias do Khan Market com um ex-aluno e amigo, que por acaso estava em Nova Delhi. Enquanto eu folheava, fascinado, livros sobre a Índia, ele ia selecionando, em outro canto da Full Circle, livros infantis para seus dois filhos pequenos. Tomamos um café na livraria:

20171008_185502~2.jpg

Quando saímos, já era noite:

20171008_193417~2.jpg

Pudemos também visitar a outra livraria de que eu ouvira falar há anos, a Bahrisons. Ela já estava fechada, mas havia ainda um cliente dentro, então o guarda abriu a porta. Puxei para o lado uma cortina verde e entrei. Eu nunca havia estado em uma livraria tão pequena:

20171008_192502~2.jpg

Reparem nas motos, congestionando ainda mais o local, e no vendedor lendo, sentado, calmo. Apesar do espaço reduzido, a Bahrisons fez jus à fama, e lá encontrei o quinto livro, que não estivera disponível na Full Circle:

20180524_155128-1.jpg

Considerei o dia bem aproveitado naquele domingo, pois apesar do jetlag eu conseguira, de tarde, após minha reunião de trabalho, visitar a Birla House e as duas livrarias que vinham alimentando meus sonhos. Essa não é uma figura de linguagem, pois livrarias frequentemente embalam meu sono. Sonho com elas, reais ou imaginárias. Durante anos, o meu sonho mais recorrente era sobre uma livraria francesa no centro de Washington — e, de fato, morei perto da capital dos Estados Unidos — totalmente fantasiosa, criada na minha mente, mas que aparecia sempre da mesma forma no sonho, em detalhes. Eu via a rua, a entrada, os livros, o vão amplo e circular da escada que levava ao andar inferior, igualmente povoado de livros.

Saindo do Khan Market de tuk tuk, carregando meus livros, fui jantar com outro amigo, que agora mora na Índia, o leitor de Proust de quem já falei algumas vezes neste blog, por exemplo em Tolstói, Guerra e Paz e a BBC.  Enquanto eu observava as peripécias do condutor do tuk tuk pelo trânsito de Delhi, pensei em Lisboa e em suas livrarias. Sobre essas amigas lisboetas, porém, falarei em outra ocasião…

                                                                                 Para Vivian Oswald e João Marcos Paes Leme

 

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.342 outros seguidores

 

Tolstoi em Paris

Tolstoi em Paris

Em 10 de janeiro de 1857 — calendário juliano — o Conde Leon Tolstoi, em São Petersburgo, escreveu em seu diário: “Recebi o passaporte e decidi partir”. Podia iniciar sua primeira viagem ao exterior, aos 28 anos. No dia 12 de janeiro, viajou de trem até Moscou. De lá, no dia 29, partiu para Paris, em uma diligência: “companheiros de viagem franceses e um polonês”.  Levou onze dias para chegar a Paris, o que aconteceu em 9 de fevereiro, calendário juliano, ou 21 de fevereiro, calendário gregoriano, que ele passa então a usar, o que também farei a partir daqui. Permaneceu em Paris por seis semanas, até 8 de abril.

Tolstoi não era ainda o autor de Guerra e Paz e Anna Karenina ou o ancião de longa barba branca, imagem pela qual é mais usual pensarmos nele. Como oficial do exército, participara da guerra da Crimeia entre 1854 e 1855 e morava em São Petersburgo desde novembro de 1855. Ao chegar a Paris, acabara de publicar o último volume de sua trilogia semi auto-biográfica, InfânciaAdolescência e Juventude. Dois anos antes, publicara os três Contos de Sebastopol. Foram todos textos bem recebidos pela crítica e pelo público. Na Rússia, Tolstoi era admirado. No exterior, era um desconhecido.

Essa era sua aparência em São Petersburgo, em 1856:

20180503_151636.jpg

Há muitos anos, passeando um dia em Paris, vi sem aviso prévio aquela que deve ser uma das placas comemorativas mais intrigantes do mundo:

20180429_201113.jpg

A placa pode ser vista no número 206 da Rue de Rivoli, onde sempre paro para vê-la, quando passo frente ao prédio. Tirei a foto em maio de 2012. Situada entre uma casa de câmbio e uma loja de souvenirs, o edifício mantém mesmo assim um ar aristocrático. Em frente, está o Jardim das Tulherias, cujo reflexo pode ser visto no vidro da porta de entrada. No mesmo dia de 2012 em que fotografei a placa registrando a presença de Tolstoi em Paris em 1857, tirei esta foto do jardim:

IMG_0165.JPGEm julho de 2014, minha mulher, minha filha e eu conseguimos tirar férias juntos -— o que não aconteceu mais desde então — e fomos a Paris, à Provença e a Praga. Tenho, por isso, carinho especial pelas fotos que tirei naquele verão, inclusive das Tulherias:

20140708_142129.jpg

20140708_141929.jpg

20140705_190633.jpg

20140705_192344.jpg

Na Rue de Rivoli, perto da pensão onde se hospedou Tolstoi, na mesma calçada, estão não apenas outras lojas voltadas ao turista, mas também, no número 248, a enorme filial parisiense da livraria W.H. Smith; no número 224, a livraria Galignani, uma de minhas prediletas em Paris; e, no número 226, uma celebrada casa de chá, Angelina. No número 228 está o hotel de luxo Le Meurice, que foi requisitado, durante a Ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, pelo invasor. Tolstoi lá se hospedou em suas duas primeiras noites em Paris.

É raro o dia em que não penso na vida do escritor russo ou em alguma de suas obras ou em algum de seus personagens. Esse interesse fica explicitado na postagem Tolstói, Guerra e Paz e a BBC, mas falo nele ou em seus livros com frequência neste blog 

É um pouco surpreendente que os franceses comemorem a primeira passagem de Tolstoi em sua capital, por apenas seis semanas, quando não era ainda tão conhecido. Ou talvez não tão surpreendente, pois é na França que teve início a divulgação da literatura russa para o resto do mundo. E as seis semanas em Paris marcaram a personalidade de Tolstoi, como ele aliás esperava que acontecesse, pois no dia mesmo da chegada escreveu no diário: “Sem sombra de dúvida, uma nova época  [começa]”.

Como foi a vida de Tolstoi na França? Felizmente, podemos acompanhar seus afazeres, pois o seu diário, para aquelas semanas, é particularmente detalhado, em estilo sucinto e direto. Os diários e as cadernetas de Tolstoi, traduzidos para o francês e anotados por Gustave Aucouturier, foram publicados em três volumes, de 1979 a 1985, pela editora Gallimard, em sua prestigiosa coleção da Pléiade e essa é a tradução que utilizo aqui:

20180501_163253.jpg

20180501_161055.jpg

Em Paris, Tolstoi viveu basicamente como lá vivia todo aristocrata russo: frequentando seus pares. Os nomes de suas relações na capital francesa lembram a origem social do Conde Leon Tolstoi: Trubetskoy, Lvov, Orlov e Gortchakov, todos príncipes, alguns deles seus parentes. Sobre o Príncipe Nicolai Orlov, futuro Embaixador em Viena, em Londres, em Paris e em Berlim — tendo o diplomata russo completado o que era então, junto com São Petersburgo, o quinteto de ouro da diplomacia — Tolstoi nos diz: “ele me levou ao teatro, bancando o aristocrata. Ridículo” e, alguns dias mais tarde: “Orlov é terrivelmente limitado. Virará um homem mau”. Isso não o impediu de frequentar o Príncipe — nascido em 1829 e, portanto, só um ano mais jovem do que ele — durante toda sua estada em Paris. Tolstoi não precisava ter sido tão duro com Orlov em seu diário, pois este perdera um olho na guerra da Crimeia e seu empenho seria determinante para que o castigo corporal fosse abolido na Rússia, em 1863:

20180504_185627.png

Entre uma recepção e outra em casa de russos, ou algum jantar, Tolstoi ia ao teatro — apreciou particularmente as peças de Molière a que assistiu e uma de Marivaux, Les Fausses Confidences, que considerou “uma maravilha de elegância”. Frequentava o Louvre e outros museus, estudava inglês e italiano, lia, escrevia um pouco, ia ao concerto ou ao cabaré. Visitou Dijon e Fontainebleau. Uma visita ao palácio de  Versalhes fez com que se sentisse “intimidado” pela sua “falta de conhecimentos”. O Hôtel des Invalides, onde se pode admirar o túmulo de Napoleão, deixa-o revoltado: “É a deificação de um celerado, isso é assustador”. Assistia a palestras na Sorbonne e no Collège de France. Ocasionalmente, aparecem comentários soltos indicando desânimo, como “dúvidas sobre tudo” ou “moralmente agitado e atormentado” ou “tédio”. Possivelmente, isso se devia à insatisfação moral, habitual nele, com relação à sua fraqueza diante de tentações sexuais. Há no diário menção a uma ida ao bordel em 21 de março e, aqui e ali, vagas referências a encontros furtivos com mulheres encontradas na rua. De forma geral, contudo, Tolstoi parece ter se sentido bem na França. Pensa estar se apaixonando pela sobrinha do Príncipe Georgy Lvov, seu anfitrião costumeiro; sente que frequentar a jovem Princesa torna a “vida alegre” e que é um “imbecil” de não tentar se casar com ela.

Duas circunstâncias no diário de Tolstoi, nas seis semanas passadas em Paris em 1857, chamam a atenção, saem do corriqueiro: ele via Ivan Turgueniev quase todo dia e assistiu a um guilhotinamento.

A relação entre Tolstoi e Turgueniev, às vezes amistosa e às vezes conflitiva — e às vezes as duas coisas no mesmo dia — mereceria  postagem à parte. Direi aqui apenas que os dois escritores haviam se conhecido um ano e meio antes da chegada de Tolstoi a Paris, em novembro de 1855, em São Petersburgo, quando Tolstoi, recém-chegado à capital, se hospedara durante um mês com Turgueniev, dez anos mais velho. Em Paris, durante as seis semanas lá passadas por Tolstoi, é raro o dia em que Turgueniev não aparece em seu diário, embora raramente de forma elogiosa. Em geral, Tolstoi se queixa da atitude triste e retraída de Turgueniev; mas não consegue parar de vê-lo. Escreve em 4 de março: “Caminhei com Turgueniev. Estar com ele é penoso e entediante”. Em 16 de março: […] Fui à casa de Turgueniev. Ele é um homem mau pela frieza e pela inutilidade, mas é muito inteligente e não prejudica ninguém”. Em 1861, na Rússia, eles teriam uma briga decisiva e ficariam dezessete anos sem escrever ou falar um com o outro. A melancolia de Turgueniev aparece nitidamente neste retrato:

20180504_191639.jpg

Além do diário, outra fonte importante para conhecermos as semanas parisienses de Tolstoi em 1857, e de resto, qualquer período de sua vida, é a sua correspondência. Uso em casa a edição  em inglês em dois volumes, publicada em 1978 pelo Professor R. F. Christian, que na época dirigia o Departamento de Russo da Universidade de St. Andrews. Monumento de erudição, essa edição, em que as cartas foram selecionadas, traduzidas e anotadas pelo Professor Christian, é indispensável para qualquer admirador ou estudioso de Tolstoi que não fale russo. Gosto de visualizar o Professor alternando, na década de 70, as aulas nas brumas escocesas com viagens à então União Soviética, para consultar arquivos.

Na capa dos dois volumes, há uma foto de Tolstoi, já ancião, abrindo sua correspondência:

20180501_161729.jpg

Um dos correspondentes habituais de Tolstoi durante essa sua primeira viagem ao exterior foi o crítico literário Vassily Botkin:

20180504_190922.jpg

Filho de um rico comerciante de chá, representante da burguesia em ascensão no século XIX, Vassily Botkin era casado com uma das irmãs, Alexandra, do anarquista Mikhail Bakunin, que era membro da nobreza. Outra irmã de Bakunin, Tatiana, foi apaixonada por Turgueniev. Esses detalhes, que me parecem fascinantes, são fornecidos por Priscilla Roosevelt em seu livro Life on the Russian Country Estate, excelente fonte de informações sobre a vida na Rússia tsarista e que contextualiza, inclusive, as obras dos escritores da época:

20180506_094840.jpg

Vejo no diário de Tolstoi que ele se dava, em São Petersburgo, antes da partida para Paris, com um irmão de Bakunin, Alexis, embora o considerasse “insuportável”. Outra ligação familiar curiosa de Vassily Botkin é seu sobrinho, Eugene Boktin, médico da família imperial no reinado de Nicolau II e que, leal até o fim, foi assassinado em Ecaterimburgo, em 1918, com o Tsar, a Tsarina e seus cinco filhos.

Em 5 de abril de 1857, Tolstoi começa  — como uma curta indicação no diário informa — uma carta para Botkin, anunciando que estava tão bem em Paris, que desejava instalar-se lá por pelo menos mais dois meses. Escreve: “Não posso imaginar que venha um tempo em que a cidade perca interesse para mim, ou a vida nela o seu charme”. Comenta que, se Paris faz com que se sinta ignorante, percebe também que lá poderá curar-se desse mal. Declara que, na capital francesa, desfruta uma “liberdade social” que, na Rússia, nunca pudera sequer imaginar.

No dia seguinte, 6 de abril, Tolstoi retoma a carta e indica ter mudado de ânimo. Menciona  a razão: “Hoje de manhã, fui estúpido e cruel o suficiente para ir assistir a uma execução […] o espetáculo causou impressão tão forte que demorarei a superá-la”. Tolstoi lembra ter já visto “várias coisas horríveis na guerra [da Crimeia] e no Cáucaso”, mas que “essa máquina engenhosa e elegante” o revoltava, pela forma como matara em instantes “um homem forte, bem disposto, saudável”. Descreve a guilhotina como “um cálculo frio, refinado e conveniente de cometer um assassinato, […]  o desejo insolente e arrogante de fazer justiça”. Considera “repulsiva” a multidão — a aplicação da pena de morte por guilhotinamento ocorria então em praça pública — , enojado pelo fato de um pai, perto dele, ter explicado à filha com frieza o funcionamento da máquina. Condena Tolstoi, em seguida, o Estado, que considera “uma conspiração destinada não somente a explorar, mas a corromper os cidadãos”. Afirma serem as “leis da política” uma “mentira terrível” e que a experiência da manhã daquele dia o levava a decidir nunca servir a governo algum.

Nem no diário nem na carta a Botkin o nome do homem executado é mencionado. Sabemos,  graças à colossal biografia de Tolstoi por Henri Troyat

20180501_161557.jpg

e também graças às notas na edição dos diários na Pléiade, tratar-se de François Richeux, cozinheiro de 40 anos de idade, condenado por duplo homicídio seguido de roubo, sendo em ambos casos uma faca o instrumento do crime. No mesmo dia 6 de abril em que terminou a carta, Tolstoi anotou no diário: “escrevi uma carta tola a Botkin”, mas não há dúvida sobre o impacto nele causado pelo guilhotinamento de Richeux. No diário, no mesmo dia 6 de abril, ele escreveu: “Um pescoço e um torso fortes, brancos, sadios. Ele beijou o Evangelho e depois — a morte, que contrassenso! […] Não estou bem, estou triste, vou jantar na casa dos Trubetskoy.”

Não sabemos se o espetáculo do guilhotinamento de 6 de abril foi causa ou pretexto, mas em 7 de abril Tolstoi escreve no diário: “Acordei tarde, não me sentindo bem, li, e de repente veio-me uma ideia simples e sensata, partir de Paris”. Na manhã do dia 8 de abril, antes de ir para a estação de trem, vai à casa de Turgueniev despedir-se: “Nas duas vezes em que me despedi dele, ao me afastar chorei, não sei por quê. Gosto muito dele. Ele fez e faz de mim um outro homem”.

Em 9 de abril, recém-chegado a Genebra, escreve a Turgueniev um balanço de sua estada em Paris: “Fiz bem de partir dessa Sodoma. Por favor, faça o mesmo […] Passei um mês e meio em Sodoma, e há o acúmulo de muita sujeira em minha alma: duas prostitutas e a guilhotina, e ociosidade e vulgaridade”.

Em 10 de abril, anota no diário: “Genebra — Acordei cedo, sentindo-me bem e quase alegre”. Iniciava-se aí uma nova vida, que duraria meses. Esperavam-no na Suíça outros russos, outros parentes, novos amigos, novas vivências. Uma nova existência. Após longa temporada na Suíça, e passeios pelo Piemonte e pela Alemanha, em 11 de agosto Tolstoi aportava de volta em São Petersburgo, após ausência de seis meses. Em 1861, voltaria a Paris por um mês.

A carta a Botkin de 6 de abril de 1857 antecipa o Tolstoi da idade madura, o mesmo que se tornaria pregador da não-violência — influenciando Mahatma Gandhi —, o contestador que se oporia ao Estado tsarista e à Igreja Ortodoxa, a qual o excomungaria em 1901. O mesmo pensador que escreveria, em 1900, um ensaio intitulado A escravidão em nossos tempos, propondo o fim dos governos; o texto Não matarás, também de 1900, em que considera as guerras como um assassinato autorizado, determinado pelos chefes de estado; e o panfleto Não posso me calar, de 1908, em que, aos 80 anos, dois anos antes de morrer, cinquenta e um anos depois de assistir ao guilhotinamento em Paris, Tolstoi condena a pena de morte e as execuções então sendo efetuadas pelo regime tsarista. Esses textos podem ser lidos neste pequeno volume, editado em 2003 pelo Professor canadense Éric Lozowy, que escreveu uma apresentação de clareza exemplar:

20180503_151900.jpg

Ao escrever sua autobiografia espiritual, Uma Confissão, entre 1879 e 1881, portanto vinte e dois anos após a execução de François Richeux, Tolstoi lembra que ela abalara sua crença no progresso, por ter sido um ato “desnecessário e mau”. Ver a cabeça ser separada do corpo e ver os dois caírem separadamente na caixa embaixo da guilhotina demonstrara a ele que “o árbitro do que é o Bem e o que é o Mal não é o que as pessoas fazem ou dizem, e nem o progresso, mas sim o meu coração e eu mesmo”.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.342 outros seguidores

 

 

 

Mahatma Gandhi em Birla House

Mahatma Gandhi em Birla House

20171111_194219.jpg

Em recente viagem a Nova Delhi, ao terminar um compromisso de trabalho no domingo, vi que teria ainda cerca de duas horas de luz antes do anoitecer. Era início de outubro, a tarde estava quente e límpida. Sem hesitar, sem parar – apesar do calor – para tirar o terno e a gravata, decidi visitar a casa onde Gandhi passou seus últimos meses de vida e onde foi assassinado.

Esse era um velho sonho, de muitos anos. Fui plenamente recompensado.

Em setembro de 1947, Mohandas Gandhi, o Mahatma – ou “Grande Alma” – chegou a Delhi, vindo de Calcutá, onde passara quatro semanas. A capital, como Calcutá, enfrentava distúrbios entre hindus e muçulmanos. A independência, consagrada um mês antes, levara à partição do território até então sob domínio britânico, criando dois países, o Paquistão, constituído por territórios povoados majoritariamente por muçulmanos, e a Índia, onde a população era majoritariamente hindu.

Gandhi sofrera com a ideia da Partição mas decidiu aceitá-la. Tornou-se uma voz em favor da conciliação entre os dois países e os dois grupos religiosos. As tensões, a violência e as mortes eram elevadas, assim como o número de refugiados de parte a parte. Gandhi propugnava a tolerância mútua, decepcionando hindus mais radicais.

Naquela que seria sua última estada em Delhi, o Mahatma – praticante do ascetismo – hospedou-se na casa de um dos membros da milionária família Birla, da qual ele era amigo há muitos anos:

20171111_194550.jpg

A escolha surpreendeu alguns de seus admiradores, mas não fora feita por ele. Embora Gandhi já tivesse antes frequentado a casa dos Birla, nos últimos tempos vinha se hospedando, na capital, em um bairro mais humilde, que estava, em setembro de 1947, recebendo numerosos refugiados hindus oriundos do Paquistão, e onde o Governo considerou que sua segurança não poderia ser garantida. Birla House era também facilmente acessível para membros do Governo que visitavam Gandhi.

Quatro meses depois, em janeiro de 1948, as tensões e os distúrbios continuavam. Em meados daquele mês, Gandhi iniciou um jejum, o que era para ele uma prática recorrente há décadas, por razões filosóficas e espirituais, mas que servia também, ocasionalmente, propósitos políticos. Tinha 78 anos. Como recusar-lhe algo, correndo o risco de vê-lo morrer de fome? Em poucos dias, o Governo prometeu que a segurança dos muçulmanos seria garantida e que o Paquistão receberia indenização que lhe era devida.

Jawaharlal Nehru, Primeiro-Ministro da Índia, vinte anos mais jovem do que Gandhi e a ele ligado por laços antigos e profundos, mais próximo do Mahatma talvez do que os próprios filhos deste, ao visitá-lo em Birla House viu refugiados hindus gritando na rua: “Que morra Gandhi!”. Poucas horas após a morte de seu pai espiritual, Nehru faria no rádio um notável – e hoje célebre – discurso, para comunicar à Nação o assassinato, iniciando-o com a frase: “The light has gone out of our lives”.

Gandhi ocupava um quarto mobiliado com grande simplicidade, no térreo da casa:

20171111_200320.jpg

Dormia em uma varanda ligada ao quarto, fechada por portas-janelas, ainda mais despojada e que é, hoje, a entrada principal para a visitação à casa:

Sua vida em Birla House era pública. Durante o jejum, as pessoas passavam, no jardim, em frente a essa varanda e viam Gandhi deitado, como mostra esta foto de Henri Cartier-Bresson:

mahatma-gandhi-by-photographers-margaret-bourkewhite-and-henri-cartierbresson-33-638 (1)

A legenda está errada: o jejum de cinco dias terminou não na véspera de sua morte, mas doze dias antes.

Fora o período de jejum, Gandhi conduzia orações diárias no imenso jardim posterior da casa, presenciadas por centenas de pessoas. Em 20 de janeiro, uma bomba explodiu no jardim durante a oração. Ninguém ficou ferido.  A morte de Gandhi se daria no dia 30, tão movimentado quanto aparentemente costumavam ser todos os dias em Birla House. Seu secretário, V. Kalyanam, deixou um registro das atividades do Mahatma nesse último dia de vida, mas a informação no texto não é exaustiva,  pois entre os visitantes que não cita está Cartier-Bresson.

Talvez o senso de oportunidade seja fundamental para um artista. Cartier-Bresson viajava pela Índia em janeiro de 1948, e ia frequentemente a Birla House ver ou fotografar Gandhi e com ele conversar, inclusive no dia de sua morte. As fotos que tirou nos últimos dias do Mahatma e logo depois, inclusive da cremação, são hoje icônicas.

A página eletrônica da agência Magnum, de que Cartier-Bresson foi co-fundador, expõe algumas de suas fotos desse período, como esta, tirada no dia anterior ao assassinato, na qual vemos Gandhi tomando sol em Birla House: 

HCB1947007W00053-10

Outros visitantes não citados por V. Kalyanam são a filha de Nehru, Indira Gandhi, e seu filho de três anos e meio, Rajiv – ambos futuros Primeiros-Ministros e que seriam também assassinados. As fontes porém divergem sobre se visitaram Gandhi no dia 30 ou na véspera. Em seu livro sobre a independência da Índia e a Partição, Indian Summer – comprado em Islamabad, em março, como narrei em  Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi – Alex von Tunzelmann conta que Rajiv pegou umas violetas e brincou de colocá-las em volta dos pés de Gandhi, que o interrompeu, dizendo: “One only puts flowers around dead people´s feet”. A cena, além de premonitória, cria uma imagem de grande espontaneidade.

Às 17:12 do dia 30, o Mahatma saiu de seu quarto e dirigiu-se ao jardim, para as orações. Estava atrasado; quinhentas pessoas já esperavam por ele, indianos e estrangeiros. Hoje, o museu em sua homenagem em que Birla House se transformou coloca marcas de passos, da porta-janela do quarto até o local do assassinato, para que possamos visualizar o trajeto:

A pérgola é uma construção posterior ao assassinato, para encobrir a “Coluna do Mártir”, que marca o local exato onde os três tiros foram dados, no meio da multidão, por um hindu, Nathuram Godse:

20171008_171059~2.jpg

A inscrição dá a data e as últimas palavras de Gandhi: “Oh, Deus”. Em seu julgamento, Godse declarou ter cometido o crime porque Gandhi “favorecia os muçulmanos”, porque “seu último jejum fora pro-muçulmano” e porque sua atuação pacifista favorecia o Paquistão. Godse foi julgado, condenado e enforcado. O pronunciamento que fez durante o julgamento trai igualmente sua admiração e seu rancor por Gandhi, sobre quem faz a seguinte análise: “Essas insanidades e obstinações infantis, junto com uma forma extremamente austera de vida, um labor incessante e um caráter superior tornavam Gandhi gigantesco e invencível”.

Mesmo hoje, na Índia, Gandhi não é uma figura consensual, como informa Sunil Khilnani em seu livro publicado em 2016, Incarnations, a History of India in 50 Lives, onde consegue, em apenas onze páginas, nos dar uma excelente biografia do Mahatma:

20171115_180654.jpg

Khilnani relata que, há poucos anos, assistiu no Estado natal de Gandhi, Gujarat, na capital que carrega seu nome, Gandhinagar, um filme sobre o assassinato do Pai da Nação, e que, na hora dos tiros, “the audience erupted into wild applause and cheers”.

O filme dirigido por Richard Attenborough sobre a vida de Gandhi, de 1982, onde Ben Kingsley o encarna de forma impressionante, começa com a cena do assassinato, filmada em Birla House.

Birla House, aliás, já não se chama assim. Seu nome hoje é Gandhi Smriti, ou, em inglês Gandhi Remembrance. No térreo, além do quarto ocupado pelo Mahatma vemos painéis explicando sua vida e, no quarto, emoldurados, alguns objetos pessoais:

20171008_160442.jpg

Por alguma razão, fiquei fascinado com o relógio, parado na hora em que os tiros aconteceram:

20171008_160528~2.jpg

Ao voltar da Índia, li um texto em que o relógio de Gandhi faz uma aparição. O diplomata Natwar Singh, sobre quem já falei em Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi, por causa de seu livro Walking with Lions, publicou em 2014 uma autobiografia, One Life is not Enough – quem discordaria? – em que relata a única vez em que viu Gandhi, em 1945, quando tinha 14 anos. Sabendo que um trem no qual viajava o Mahatma pararia em Bharatpur, Natwar Singh correu até a estação, conseguiu – apesar da multidão sequiosa por uma visão do ídolo –  grudar na janela do compartimento de terceira classe onde se sentava Gandhi e: “There he was, shaven-headed, watch nucked into the waistline of his loincloth”. Será o mesmo relógio que Gandhi usava. dois anos e meio depois, em Birla House e que hoje está exposto na vitrine? Faz sentido acreditar que sim.

Duas salas exibem caixas de madeira, com a frente de vidro, como se fossem casas de bonecas, mostrando cenas da vida de Gandhi que ajudaram a formar seu mito. Fotografei apenas uma das caixas, a da célebre entrevista que, em Londres –  vestido de forma simples, como sempre fazia, apesar do frio – ele manteve em Buckingham Palace com o Rei George V:

20171008_162946.jpg

No segundo andar de Gandhi Smriti está o Eternal Gandhi Multimedia Museum, onde aspectos da vida do Mahatma são recriados de forma moderna e tecnológica. Entramos em uma locomotiva, para sentir o que ele sentia viajando de trem; brincamos com um tabuleiro onde figurinhas representam contemporâneos seus, que nos repetem o que disseram como reação ao seu assassinato; em uma bacia, colhemos sal, como fez Gandhi em 1930, quando organizou a famosa Marcha do Sal até o Mar da Arábia, para protestar contra o imposto sobre o produto cobrado pelos ingleses; vemos um aro colocado contra a parede que, se aproximarmos a mão, emite o som de uma cítara:

20171008_165600~2.jpg

Há uma harpa representando, contra as cores da bandeira da Índia, a silhueta de Gandhi:

20171008_164910~2.jpg

O objeto menos tecnológico, porém, é o que mais chamou minha atenção:

20171008_163811~2.jpg

Essa escultura é uma recriação dos Três Macacos Sábios, que nos ensinam a não ver o mal, não falar mal e não ouvir o mal. Gandhi tinha frente a ele, no quarto em Birla House, apesar de seu despojamento, uma versão em madeira dos Três Macacos Sábios:

20171008_160654~2.jpg

Visitei Gandhi Smriti com dois colegas, que haviam participado comigo da reunião de trabalho naquele domingo. Ela, residente em Nova Delhi, e que já conhecia bem o museu, teve a paciência de me acompanhar, pois somos amigos há vinte anos. Ele, que estava em Delhi de passagem, é um ex-aluno e me explicou a importância filosófica dos Três Macacos Sábios para Gandhi, confirmando, como mencionei em Tagore, que aprendo sempre muito com meus alunos.

Ao sair, já quase de noite, reparei no portão:

20171009_180522.jpg

e na forma como o museu se apresenta ao visitante, na fachada para a rua: “O local do Martírio de Mahatma Gandhi”:

20171009_180727.jpg

O assassinato – o “martírio” – concluiu o processo de consolidação de Gandhi no imaginário coletivo.

Antes de partir, fiquei por vários minutos sozinho no jardim, vendo a imponente fachada traseira, ouvindo os pássaros, impressionado com a vastidão do terreno e a altura das árvores, imaginando aquele dia, 69 anos atrás, quando o gramado estava coberto de seres humanos, um deles, escondendo um revólver, já sabendo que aquele seria o último momento de vida do Pai da Nação, que vinha, frágil mas sereno, caminhando em sua direção:

 

Para Claudia Vieira Santos

 

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.342 outros seguidores

 

 

 

 

 

De carro pela Provença

De carro pela Provença

Quando criança, morei em Rhode-St-Genèse durante quase cinco anos, como registrei em O Triunfo da Cor e em Papai Noel e a amizade.  O que não contei ainda é que, todo verão, íamos ao Sul da França visitar meu avô materno. Todo ano, ele passava uma temporada em Cannes, hospedado no Carlton. Íamos vê-lo de carro, da Bélgica, atravessando a França, com várias paradas, meus irmãos e eu sentados no banco de trás, frequentemente com algum dos nossos animais domésticos no colo.

Meu amor pelo mar vinha desde sempre, já que sou carioca e, durante a minha mais tenra infância, antes da mudança para a Bélgica, morávamos em frente à praia de Copacabana, justamente com meu avô materno, o que se hospedava no Carlton. A precisão é importante, porque meus irmãos e eu tivemos dois avós maternos.  Eram ambos homens boníssimos e superiores, cada um no seu estilo: um, baiano morando no Rio de Janeiro e francófilo; o outro, fazendeiro mineiro na Zona da Mata. Eles jamais se viram ou se falaram, mas estavam perfeitamente cientes da existência um do outro. Eram pessoas sem excentricidades, fora o fato de que tinham amado – e possivelmente ainda amavam – a mesma mulher, minha avó, amaldiçoada por rara beleza e poder de atração, que provocara um escândalo na família ao se separar, aos 19 anos de idade, do primeiro marido, meu avô mineiro. Bahiano e mineiro ambos adoravam a filha que compartilhavam, minha mãe.

Na Avenida Atlântica, à noite, eu ficava na cama, acordado, ouvindo o barulho das ondas. A vista da praia de Copacabana provoca ainda em mim uma forte sensação de segurança e felicidade, embora hoje em dia eu veja o oceano mais usualmente de São Conrado, como ilustrei com esta foto, em Minha vista no Rio de Janeiro:

wp-image-2050378830jpg.jpg

Este ano, em julho, ao passar uma semana em Aix-en-Provence para o Festival de Ópera, aluguei um carro e decidi dedicar ao menos um dia ao Mediterrâneo; o calor estava intenso na Provença e eu queria dar um mergulho. A Côte d´Azur seria longe, para ir e voltar no mesmo dia – ainda mais porque iria ao teatro de noite – mas Cassis, que conheço bem, fica perto de Aix:

20170811_182400

A intensidade do azul no mar estava marcante naquele dia:

Mediterrâneo

Perto da praia, porém, havia tonalidades verdes:

Meciterrâneo 2

As expedições anuais à Côte d´Azur na minha infância incluíam passeios pela Provença. Começou aí o meu amor pela região, o que é comprovado pelo fato de que um dos primeiros livros que comprei na infância – ou pedi que comprassem para mim – foi este:

20170811_183255

Assim como preservo ainda muitos amigos da infância, guardo com carinho meus primeiros livros.

Em julho, com o carro alugado, fiz outros passeios, além da ida a Cassis para um mergulho. Sobretudo, realizei uma ambição de anos, até então nunca realizada: contornar a Montagne Sainte-Victoire. Celebrada por Cézanne – que era nascido e criado em Aix e lá faleceu – em dezenas de quadros, o morro é quase um ser vivo para os provençais, de tão mítico. Cézanne o via desta forma:

20170104_172334Tirei a foto acima em Paris, em janeiro, ao visitar na Fondation Louis Vuitton  a exposição sobre a coleção Shushkin, sobre a qual falei em Paris – Moscou – Paris. Intitulado Montagne Sainte-Victoire vue des Lauves, pintado entre 1904 e 1905, o quadro pertence hoje ao Museu Pushkin, em Moscou.           

Comecei a visita à montanha pela vertente Sul, seguindo a estrada D 17, conhecida como Route Cézanne, pois ela passa, em seu início, por vilarejos frequentados pelo pintor.  Fui parando em aldeias ou no meio do campo, para fotografar a Sainte-Victoire:

IMG_20170716_141909_884

A estrada estava vazia; desliguei o ar condicionado e abaixei o vidro, para ouvir as cigarras enquanto dirigia. Reservara mesa para almoçar no restaurante Relais de Saint-Ser, perto da aldeia de Puyloubier. Quase encostado na montanha, o restaurante olha para um vale e da minha mesa, no terraço, eu tinha a seguinte vista:

20170811_191832

Essa é uma região vinícola, a Côtes-de-provence Sainte-Victoire, e o Saint-Ser é também um domaine, produzindo o seu próprio vinho. Como eu estava guiando, não quis ir parando de vinícola em vinícola, provando vinho. Apenas, tomei no almoço um copo de rosé, de um produtor vizinho, o Domaine Sainte Lucie. É, provavelmente, o melhor rosé que já tomei.

Esta foto, que tirei na beira da estrada, coloca em uma mesma imagem vários clichés da Provença – o cipreste, o campo de lavanda, as videiras e a Montagne Sainte-Victoire:

20170813_155800

Ao sair do restaurante, antes de entrar no carro, gravei este vídeo, para registrar o canto das cigarras:

Segui meu caminho… continuei parando, tirando fotos, sempre acompanhado pelas cigarras:

20170811_202818-1

Gradualmente, cheguei à vertente Norte, onde se encontra aquele que era um de meus objetivos principais no passeio: o castelo de Vauvenargues, o qual, da estrada, aparece assim:

20170812_213432

Como mencionei em Tracey Emin e eu, Luc de Clapiers, marquês de Vauvenargues, oficial do exército morto em 1747 aos 31 anos, é hoje meu moralista predileto:

20170812_120840

Nascido em Aix, faleceu em Paris desconhecido, pobre, desfigurado pela varíola, tendo levado uma existência triste e frequentado na capital apenas uns poucos amigos, entre eles Voltaire, vinte anos mais velho do que ele.  Após a morte de Vauvenargues – que ao deixar o exército não conseguira ser diplomata por causa de sua sáude combalida – Voltaire escreveu: “Foi graças a um excesso de virtude que você não foi infeliz, e essa virtude não te custava esforço algum. Sempre reconheci em você o mais desafortunado dos homens, e o mais tranquilo”.

Vauvenargues viveu, na juventude, no castelo paterno, que ganhou súbita fama na segunda metade do século XX por ter sido comprado, em 1958, por Picasso, que lá passou relativamente pouco tempo, mas nunca dele se desfez. Enterrado no parque da propriedade, Picasso acabou lá ficando para a eternidade. O castelo pertence ainda aos herdeiros de sua última mulher, Jacqueline Roque, e não é visitável, como mostra a placa pouco simpática, mas de certa forma engraçada, colocada no portão:

20170811_205403

Ri particularmente com a frase: “O museu fica em Paris”.

Picasso parece ter comprado o castelo sobretudo para se associar a Cézanne, a quem não conheceu pessoalmente, mas que admirava, que o influenciara e de quem possuía obras. John Richardson escreve no segundo volume de sua biografia de Picasso, com quem conviveu, que os sentimentos do artista por Cézanne não eram puramente reverenciais. Picasso via Cézanne como “a mentor whose shadow he wanted to assimilate as well as escape”, enquanto ao mesmo tempo o chamava de “mother, father and even grandfather”. Como um pai, “Cézanne had to be transcended – exorcised – metaphorically killed”. No catálogo da sensacional exposição Picasso, the Mediterranean years, 1945-1962 que organizou para a galeria Gagosian, em Londres, em 2010, e que tive a sorte de visitar, Richardson escreve: “Vauvenargues might also have proved a mixed blessing in regard to Cézanne. Picasso had devoured Cézanne at the time of Cubism, but after poaching on his favourite motif he may well have felt in danger of being devoured himself”.

O  catálogo – cuja qualidade faria, como a exposição na Gagosian, muito museu empalidecer –  inclui esta foto tirada por Edward Quinn de Picasso e Jacqueline Roque, olhando pela janela de uma sala de Vauvenargues:

20170812_201549

Fico imaginando o moralista dois séculos antes, olhando melancolicamente pela mesma janela do castelo do pai, com quem mantinha relações difíceis, sem poder prever a Revolução de 1789 e as seguintes, as duas Guerras Mundiais e a chegada na propriedade paterna do espanhol genial – que era também um pai difícil.

Outro amigo de Picasso, David Douglas Duncan, publicou em 1961 livro surpreendente, Picasso’s Picassos, sobre o que eram até então centenas de obras desconhecidas do artista, guardadas no castelo de Vauvenargues e em outra de suas propriedades, La Californie, perto de Cannes. O livro apresenta fotos preciosas tiradas por Duncan, como estas duas, de Picasso diante da fachada de Vauvenargues e sentado no salão transformado em estúdio:

20170812_205103Duncan se orgulha, com alguma razão, de ter conseguido capturar o arco-íris coroando o castelo e o artista: “the most remarkable combination of natural phenomenon with newsbreak timing”. Segundo ele, “No single landmark is more renowned in modern art than Sainte-Victoire”, por causa de Cézanne.

20170812_205217

Duncan menciona no livro ter ouvido de Picasso o comentário de que, com a compra do castelo, parte da montanha, inclusive o pico, agora lhe pertencia. Isso me faz lembrar ter ouvido de uma amiga em Quito, proprietária da melhor livraria da cidade, que a escritura de posse da fazenda familiar especificava: “Incluye el cerro”. O “cerro” em questão era nada menos que o magnífico Chimborazo, vulcão de mais de 6.200 metros de altitude.

O castelo fica entre a montanha e a aldeia de Vauvenargues, Aqui, a rua principal:

20170812_205447

Da aldeia, há vistas excelentes do castelo:

20170813_135822

Vendo a cena acima, lembrando que o escritor e o artista viveram nessa casa e que a montanha, atrás, inspirou Cézanne,  pensei que  o modesto vilarejo de Vauvenargues acabou sendo um farol da cultura ocidental.

Era tempo de regressar a Aix. Retomei a estrada, sempre bela, quase sempre vazia:

20170812_220442

Pouco após Vauvenargues, notei que eu passava entre a Sainte-Victoire à esquerda e, à direita, um campo de lavanda. Parei o carro e saltei. O campo de lavanda ficava em uma propriedade particular, mas não havia cerca e a casa era distante.  Andei pelas flores, fixando a montanha, impressionado com o silêncio – quebrado apenas pelas cigarras – com o isolamento, com a beleza do lugar.

20170716_172620~2

Seria poético eu dizer que ali, naquele campo de lavanda, encarando a Sainte-Victoire, pensei nas inúmeras vezes em que, criança e adulto, passeara de carro pela Provença; dizer que meditei sobre o tempo, as incoerências da vida, a impermanência das pessoas e das coisas, que deve nos fazer valorizar o que se revela permanente; dizer que refleti sobre o poder da arte e da literatura para dar sentido à vida, e que se Vauvenargues, Cézanne e Picasso, seus sonhos, decepções e experiências vieram e se foram, eles ao menos nos deixaram obras que ajudam a tornar nossas vidas mais ricas, suportáveis.

Mas nada disso aconteceu. Parado sozinho naquele momento, naquele lugar, pensei apenas na felicidade que era ver a imponência da montanha, sentir o perfume da lavanda, ouvir as cigarras, viver plenamente aquelas sensações, exercitar os meus sentidos, atento somente ao que me rodeava.

Enviei a foto da lavanda aos pés da Sainte-Victoire à minha mulher e à minha filha e regressei a Aix. Ainda pude visitar uma exposição antes da ópera.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.342 outros seguidores

 

 

 

 

 

Macron: uma foto e três livros

Macron: uma foto e três livros

20170806_173249-1

Em meados de julho, passei uma semana em Aix-en-Provence. Os jornais franceses ainda analisavam a foto oficial de Emmanuel Macron, divulgada pelo Palais de l´Élysée em 29 de junho:

A fotografia foi tirada por Soazig de La Moissonnière, que acompanha Macron desde a campanha eleitoral e tornou-se, com sua eleição, fotógrafa oficial do Presidente.

Todos os detalhes da foto foram dissecados na imprensa e nas redes sociais e nem o relógio – presença aparentemente anódina – escapou. Sabemos tratar-se de uma peça do século XVIII, de duas faces, normalmente vista no Salon Murat do Élysée, onde se reúne toda quarta-feira o Conselho de Ministros. Antes de cada reunião do Conselho, o relógio é tirado da lareira onde fica e colocado sobre a mesa. Sentados um frente ao outro, rodeados de seus Ministros, o Presidente e o Primeiro-Ministro acompanham, de cada lado da mesa, o andar das horas. Ao figurar na foto oficial, o relógio cumpre uma função política e também bem-humorada, pois desde a campanha presidencial Macron se auto-define como “le maître des horloges”. Com isso, ele quer dizer que é dono de seu tempo e não aceita ser apressado ou retardado por circunstâncias externas à sua pessoa. O relógio na foto provavelmente significa que, sendo agora Presidente, Macron tenciona determinar também o tempo político, o que poderá ser facilitado pela maioria que obteve nas eleições legislativas de junho, mas talvez dificultado pela brusca queda, desde que a foto foi tirada, na sua popularidade.

As bandeiras francesa e europeia indicam que, ao se colocar entre elas, o Presidente quer reiterar sua posição como garante do compromisso da França com a União Europeia. A janela aberta às suas costas, que leva o olhar ao jardim do palácio, é uma forma de declarar que fará um governo aberto, transparente, “arejado”. Desde a divulgação da foto, porém, o Presidente tem sido criticado pela reticência em se submeter a coletivas de imprensa. Os dois celulares à sua direita demonstram o espírito moderno, tecnológico, empreendedor que quer atribuir à França. Muitos notaram que o galo – símbolo do país – do tinteiro está refletido sobre o celular superior. A meu ver, o rosto revela decisão e segurança, mas alguns quiseram ver o oposto e consideraram que o ar é crispado e mostra ansiedade e tensão.

O jornal Le Figaro consultou fotógrafos profissionais. O artigo resultante apresentou críticas; vários opinaram que o enquadramento é estreito demais para tanto objeto na foto, criando uma sensação de asfixia no observador (“on étouffe”). Em outros veículos, alguns consideraram a foto exagerada quanto ao glamour e um gozador no twitter escreveu: “Adoro o novo anúncio do Dior” (“J´adore cette nouvelle campagne Dior!”). A edição francesa da revista GQ publicou, em sua página eletrônica, artigo crítico do traje do Presidente; considerou, por exemplo, que a gravata era estreita demais para o nó Windsor. Sem dúvida, faz todo sentido que o Presidente da França – país detentor da bomba atômica, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e motor fundamental da integração europeia – se preocupe toda manhã se fez o nó certo da gravata.

Os três livros sobre a escrivaninha são o que mais me interessou. Sua presença não é casual. Trata-se de três volumes de autores diferentes, mas todos publicados pela prestigiosa coleção da Bibliothèque de la Pléiade – sobre a qual já escrevi no blog, particularmente nesta postagem – publicada pela editora Gallimard. Assessora de imprensa de Macron, Sibeth Ndiaye divulgou este vídeo sobre a preparação do Presidente para a foto oficial:

Após empilhar cuidadosamente os dois celulares, Macron folheia um dos volumes – o que na foto ficará aberto à sua direita, na beirada da escrivaninha – escolhe uma página, transmitindo a ideia de que busca um trecho específico de sua predileção, no qual busca inspiração. Não sabemos que página abriu, que frase desejou deixar ao seu alcance. De resto, os funcionários do Élysée comentariam depois que o vento vindo da janela aberta fez as páginas abertas mudarem.

O Élysée revelou que o volume tratado com tanta atenção por Emmanuel Macron são as Memórias do Général de Gaulle. Vários comentaristas opinaram que com isso o Presidente quis transmitir ao país uma mensagem centrista, de harmonia, já que de Gaulle se considerava um aglutinador de forças políticas.

Abro por acaso livro que acabo de aquirir:

20170730_171843

e leio, na página 235, que ao renunciar ao cargo de Presidente do Governo provisório em janeiro de 1946, de Gaulle anunciou ao Conselho de Ministros que o fazia por observar que “O regime exclusivo de partidos reapareceu. Eu o condeno […] Vocês assumem as disputas de seus respectivos partidos. Não é assim que eu compreendo as coisas. Por isso, eu me demito”.

Não vi, no contexto da foto oficial de Macron, nenhuma análise que lembrasse um outro aspecto do legado do Presidente Charles de Gaulle, que pode também ser relevante. Suas Mémoires de guerre se iniciam com a célebre frase “Toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France”. Duas frases depois, o General declara que a França está prometida a um “destino eminente e excepcional”. De fato, de Gaulle permanece associado à noção de “grandeur”: uma França firme, de forte presença política e cultural no mundo, respeitada. No discurso em que, em novembro de 2016, lançou sua candidatura às eleições presidenciais, Macron declarou estar imbuído de “un sens de l´Histoire”.

Os dois outros volumes da Pléiade na foto, à esquerda do Presidente, são obras de Stendhal e de Gide; segundo o Élysée, respectivamente, Le Rouge et le Noir e Les Nourritures terrestres. A informação nos fornece uma precisão aparentemente desejada pelo Presidente. Com efeito, tanto as obras de Stendhal como as de Gide são editadas em vários volumes na Pléiade, cada um contendo muitos títulos, como mostram as fotos abaixo, tiradas em uma livraria de Aix:

20170719_141138~3Les Nourritures terrestres, de Gide, está incluído no primeiro de dois volumes de Romans et Écrits

20170719_135624Le Rouge et le Noir aparece no primeiro de três volumes de Oeuvres Romanesques Complètes, na mais recente edição de obras de Stendhal na Pléiade (a edição que tenho em casa é a anterior)

Sobre Le Rouge et le Noir, escrevi em minha postagem Papai Noel e a amizade: trata da ambição de um provinciano, Julien Sorel, que se envolve com uma mulher mais velha, vem a Paris, faz sucesso – até aqui parece que estamos lendo o resumo da vida de Macron – mas no final é condenado por ter atirado em sua ex-amante e guilhotinado. Macron poderia ter preferido fazer referência a outro retrato clássico da literatura francesa de um jovem ambicioso de origem provinciana, o Eugène de Rastignac de Balzac, um dos personagens principais de Le Père Goriot que, em volumes posteriores de La Comédie Humaine, faz bela carreira política e vira Ministro de Estado, sendo assim mais bem-sucedido do que Julien Sorel. Embora os romances em que transcorre a saga dos dois personagens tratem ambos do mesmo período histórico, o da Restauração dos Bourbons após a queda de Napoleão, Julien Sorel, de origem humilde, é bem mais atraente, como figura literária, do que Rastignac, falido mas nobre e, portanto, inserido no “sistema” que destruirá Julien Sorel. Este é o herói da juventude e de seus entusiasmos, enquanto que Rastignac é o modelo para os calculistas. Ao escolher Le Rouge et le Noir, Emmanuel Macron declara ser stendhaliano, portanto alguém para quem a busca da felicidade e do amor é importante, enquanto que Rastignac era movido sobretudo pela ambição. A escolha de Macron, assim, quer revelar um lado poético, idealista da alma presidencial, que conviveria bem com o lado ambicioso. É possível também que Macron tenha querido fazer uma alusão bem-humorada a quem  critica seu casamento com uma mulher bem mais velha.

A opção por Les Nourritures terrestres é menos óbvia para o público de hoje. É importante ter presente que o livro de André Gide, publicado pela primeira vez em 1897, foi, para muitas gerações de jovens franceses, um guia libertário. Pelo menos até a década de 70, influenciou o público e intelectuais. Como mencionei na postagem sobre Tagore, a fama de Gide foi colossal. Coroou-se, em 1947, com o Prêmio Nobel. Hoje, ele já não é tão lido.

Les Nourritures terrestres contém a célebre frase “Famílias! Eu vos detesto!”. Trata-se de um poema em prosa, com belas imagens sobre a luz, a natureza, as árvores, o mar, a chuva. É uma celebração da sede de viver, da sensualidade, do individualismo e um incentivo à independência – inclusive com relação ao próprio livro e à sua mensagem. Ao contrário de Le Rouge et le Noir – clássico dos clássicos – Les Nourritures, como seu autor, é hoje desconhecido do grande público. Coaduna-se com o livro de Stendhal, porém, ao fazer a apologia da libertação do ser humano de toda restrição familiar ou social que impeça sua felicidade.

Encontro no Journal de Gide, na entrada para 26 de agosto de 1926, a seguinte apreciação sobre Les Nourritures, que o autor então revisava para nova edição: “Leio nele a permissão para ser” (“J´y lis la permission de devenir”). Deve ser entendida dessa forma a decisão de Macron de inserir o livro na foto oficial: em sua vida pessoal como em sua rápida ascensão política, desafiou várias convenções para criar uma identidade muito particular e, contra todas as expectativas, tornar-se aos 39 anos Presidente da França.

A fotografia oficial de Macron tem o propósito de declarar ser o Presidente uma figura excepcional. Homem mais jovem a assumir o poder supremo na França desde Napoleão, como este casado com uma mulher mais velha e protagonista de uma ascensão fulgurante, Macron quer mostrar-se na foto como moderno, dinâmico, seguro, independente, sem amarras políticas, capaz de levar a França rumo a um futuro promissor e, ao mesmo tempo, como um conhecedor do passado e das tradições de seu país, lido, instruído, culto. Trata-se de imagem coerente com a mensagem que procurou passar durante a campanha eleitoral e é, assim, notavelmente eficaz.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.342 outros seguidores

De Taxila a Panam Nagar

De Taxila a Panam Nagar

Em 2010, recebi de um amigo belga um presente extraordinário: os volumes completos da versão de 1963 da 14ª edição revista da Enciclopédia Britânica. Ele estava se desfazendo de parte da biblioteca. Perguntou-me se eu queria a Enciclopédia e sabia a resposta de antemão. Morávamos no mesmo bairro em Bruxelas; passei em sua casa, recolhi os 24 volumes (um deles com o índice e mapas) e coloquei-os no carro.

Cresci namorando na estante do meu pai a sua edição da Enciclopédia Britânica – ano de 1957 – que hoje está guardada em um depósito no Rio. Adulto, passava horas lendo a edição dos meus sogros, que hoje está em um depósito em Curitiba.

Já mencionei várias vezes neste blog – por exemplo em O Amor, em Papai Noel e a amizade e na crítica ao filme O Plano de Maggie – o papel que os livros podem exercer em minha relação com as pessoas. Valorizei muitíssimo receber uma edição completa da Enciclopédia Britânica, que hoje aparece assim na estante, rodeada aliás de livros que recebi de outros amigos e de parentes:

20170408_164000

Minha relação amorosa com a Enciclopédia Britânica sofreu um duro baque há poucos dias, quando li o verbete sobre Alexandre, o Grande. Na minha postagem anterior, fui severo com aquele que tantos consideram um herói. Apontei a sua crueldade e a falta de propósito prático de suas conquistas. Senti curiosidade em ver como o Rei da Macedônia era tratado na Enciclopédia: descobri páginas e páginas escritas em tom de fervor juvenil. Para os editores, ainda em 1963, Alexandre era um homem inigualável. Fiquei surpreso com a falta de espírito crítico do texto.

Apesar de meus comentários, algo da admiração que sentia na infância por Alexandre sobreviveu, pois minha passagem por Taxila, no Paquistão, há um mês, me marcou por sua causa. Desde sempre, associo o nome do lugar a ele. Em Taxila, visitando as ruínas da cidade e as dos mosteiros budistas, eu olhava a paisagem ao meu redor e pensava: “Ele também por aqui andou… ele também viu essas montanhas, essa grama, esse horizonte…”. Já mostrei anteriormente cenas de paisagem e das ruínas de Taxila, mas não resisto a mostrar mais.

No caminho entre Rawalpindi e Taxila, meu carro enfrentou a seguinte dificuldade, como aliás outro também, vindo na direção oposta:

20170316_150912

O centro urbano que visitei em Taxila é Sirkap, fundado cerca de 150 anos após a passagem de Alexandre. Estas são portanto ruínas de edifícios que, embora antiquíssimos, o conquistador não viu:

20170316_145115~3

20170316_144915~2

Fiquei me perguntando se a paisagem seria mais duradoura do que os prédios:

20170316_134910~2

Taxila é famosa pelas ruínas de mosteiros budistas, como o de Jaulian, que serviu também de universidade e foi destruído no século V por invasores da Ásia Central denominados Hunos Brancos. Tive muito no que pensar, vendo estes três restos de colunas em Jaulian:

20170316_154051~2

Há muita poesia nesses três fragmentos. Eles evocam a transitoriedade das coisas, das religiões – o Budismo já não é a principal religião da Índia, sendo praticado apenas por 0,7% da população. Pensei nos monges que aqui vieram morar ou estudar e meditar; lamentei que conquistadores destruam não somente impérios e cidades e vidas humanas, mas também centros de pensamento e de espírito religioso. O mosteiro foi destruído, mas o que terá acontecido com os monges que lá ainda estavam quando os Hunos Brancos chegaram? Provavelmente, algo nada invejável.

Na estupa – monumento que abriga os restos mortais de algum monge importante ou sábio budista – principal de Jaulian, admirei os restos de esculturas, como estes:

20170316_152043~2

Ao sair de Jaulian, reparei nestes degraus ao longo de um muro, que pareciam levar ao Infinito:

20170316_154829~2

Igualmente evocadoras são as ruínas de Dharmarajika, estupa e mosteiro particularmente famoso, pois os restos mortais que ele acolhia eram de uma parte do corpo do próprio Buda:

20170316_135125~2

20170316_140536~2

Havia poucos visitantes:

20170316_135342~2

E alguns guias, como este:

20170316_141042~2

Como em Jaulian, as ruínas evocavam paz e serenidade:

20170316_141504~3

Reparem nas figuras humanas abaixo:

20170316_135205

20170316_135452~2

O museu de Taxila é famoso pela sua coleção de moedas e de estátuas encontradas nas ruínas e nos vales ao seu redor, representativas da arte de Gandara:

20170316_133254~2

Assim como Alexander Sokurov fez, em Francofonia, uma declaração de amor ao Louvre e focalizou algumas das peças daquele mega-museu – e talvez eu venha a fazer o mesmo, em uma escala naturalmente bem menor, em uma próxima postagem, mostrando fotos que tirei no Louvre em janeiro – quero mostrar alguns exemplos da coleção do museu de Taxila, como já fiz com o Museu de Arte Islâmica de Doha.

As estátuas abaixo são dos séculos II ou III depois de Cristo:

20170316_133137~2

Acima, o Buda no estado de Abhaya Mudra (sem medo). Abaixo, a estátua de que os guardas do museu mais se orgulham, o Bodhisattva Maitreya (o buda do futuro):

20170316_132351~2

Quase todas as peças no museu são mostradas dentro de vitrines de vidro, o que dificulta a reprodução fotográfica, pelos reflexos.

A minha escultura predileta talvez tenha sido esta, do Buda meditando:

20170316_130650~2

Se, no Paquistão, Rawalpindi e seu parque onde dois Primeiros-Ministros foram assassinados e Taxila, suas ruínas e seu museu me fizeram pensar sobre a transitoriedade dos impérios, dos homens e do poder, e também sobre o consolo que as religiões frequentemente trazem às pessoas, bem diferente foi minha atitude com relação a Panam Nagar, em Bangladesh, poucos dias depois.

Panam Nagar – ou Panam City, o que já soa mais prosaico – é um distrito, desenvolvido no final do século XIX, durante o domínio britânico, da antiquíssima cidade de Sonargaon, a cerca de uma hora de Daca. Povoada sobretudo por prósperos comerciantes bengalis de religião hindu, foi abandonada em 1964, após os massacres contra aquela minoria efetuados pelos muçulmanos no que era então o Paquistão Oriental.

Panam Nagar e Sonargaon eram apenas vagos nomes para mim, antes de eu chegar a Bangladesh. Pude assim visitá-los sem idéias preconcebidas. Sobram em Panam Nagar as ruínas, em variado estado de conservação, de 52 prédios, todos situados nos dois lados de uma rua.

Cheguei cedo e encontrei o local quase deserto:

wp-1491154159748.jpg

Fui ciceroneado pelo administrador do sítio, que me mostrou praticamente todas as casas:

wp-1491154318267.jpg

Esta é uma das casas mais bem conservadas:

wp-1491154374888.jpg

As mais prósperas possuem todas um andar térreo no mesmo formato, com arcadas:

wp-1491154915366.jpg

wp-1491154992457.jpg

wp-1491155226595.jpg

Essas casas eram ao mesmo tempo residências e depósitos comerciais.

De outras, sobra apenas uma parede, ou pedaço da fachada:

wp-1491154468226.jpg

20170318_103339~2

O administrador me levou à casa mais preservada – ou reformada, na qual ele e sua família moram. Embora a casa esteja em bom estado, fiquei imaginando como seria ficar ali à noite, naquela cidade fantasma:

20170318_102632~2

20170318_101847~2

20170318_102116~2

Do terraço da casa, vi mais ruínas, que me lembraram sítios arqueológicos em Roma:

20170318_102049

O administrador me explicou que, durante anos, os habitantes da região dilapidavam os prédios, roubando os tijolos para construir suas próprias residências.

Vi, do terraço, que a cidade já não estava tão vazia como quando eu chegara:

20170318_102430~2

Descemos e seguimos caminhado pela única rua. Pouco a pouco, uma multidão animada e alegre, em trajes coloridos, encheu a rua, os gramados e as ruínas. O administrador me explicou que visitam Panam Nagar cerca de 150.000 turistas por ano, dos quais 3.000 são estrangeiros.

As cores foram tomando o espaço:

20170402_223940

20170402_224143

Um visitante tira um selfie no topo de uma casa em ruínas:

20170402_224342

20170402_225255

Havia grupos de estudantes:

20170402_230015

E vários vendedores ambulantes:

20170402_225032

A variedade e a riqueza de cores nos trajes era surpreendente, em uma aldeia abandonada:

20170402_225635

Os espaços que eu vira vazios, estavam agora ocupados por turistas:

20170402_232609

20170318_110011~2

E as ruas estavam agora agitadas:

20170402_230227

Embora aquela região do que hoje é Bangladesh tenha, como todo o país, uma história rica, carregada de beleza mas também de violência – como provam as casas em ruínas – a alegria dos turistas e as cores chamativas me contaminaram e senti-me bem menos meditativo do que em Rawalpindi e em Taxila.

Escrevo este texto no Rio de Janeiro, olhando o mar:

20170422_162137

O que haverá nesta casa daqui a 1.000 anos? Ruínas? Prédios? Nada? Quem verá o Oceano Atlântico e essas ilhas deste mesmo ponto em que me encontro? Às vezes, quando estou no meu jardim à noite, penso nas muitas pessoas que, ao longo dos séculos, também passearam por seus jardins, em diferentes continentes, com preocupações e alegrias semelhantes às minhas. Olho a Lua e medito sobre algum babilônio que, séculos antes de Cristo, também possuía um jardim e admirava o satélite da Terra, certo de que sua casa, sua grama, suas árvores, sua religião e o império a que estava submetido durariam para sempre. Taxila, Julian, Dharmarajika, Panam Nagar parecem longe, no tempo e no espaço. Lá também, contudo, viveram seres humanos, com seus sonhos e suas ambições. Um dia, o que hoje conhecemos e consideramos eterno e natural não existirá mais, será uma ruína ou talvez nem isso.

Gravei o vídeo abaixo no rio Buriganga – ou Velho Ganges – em Daca. Os grandes rios asiáticos viram já todo tipo de civilização; uma multidão de seres humanos e de construções passaram por suas margens ao longo da História. Às vezes, eles tiveram seu curso modificado, pela natureza ou pelo Homem, e encontram-se frequentemente poluídos. Continuam, porém, a correr – se não imutáveis, ao menos eternos – até o fim dos tempos.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 1.342 outros seguidores