Roma não está mais em Roma

Roma não está mais em Roma

“Aix, há 35 anos, era encantadora. Não havia na França outra cidade daquele tamanho (quarenta mil habitantes) que já não tivesse subúrbio. Em apenas uns poucos passos, íamos do cantar das fontes, ainda audível, aos pomares de oliveiras, às colinas. E depois, nas vibrações da noite de verão, Mozart. Em que terreno mais fértil poderia eu perseguir minha caça à felicidade?”. Assim escreveu o historiador Georges Duby, em um texto publicado em 1987, a respeito de sua vida em Aix-en-Provence.

Duby havia se tornado, em 1951, professor universitário em Aix, por escolha sua, recusando-se a concorrer a uma vaga na Sorbonne. Quando, em 1970, tornou-se professor de História das Sociedades Medievais no Collège de France e precisou voltar a morar em Paris, manteve sua casa perto de Aix, e lá passava o verão. A menção a Mozart é uma alusão ao Festival de música que, desde 1948, se realiza na cidade.

Inocentemente, eu tinha no início de 2020 planejado tirar férias em julho e ir a Aix para o Festival. A pandemia transformou porém a ida ao supermercado em uma aventura povoada de riscos e transtornos. O que dizer das viagens. Na Malásia, onde estou morando, até poucos dias atrás nenhum trajeto de mais de dez quilômetros era possível sem autorização prévia, por escrito, da polícia. As fronteiras do país continuam fechadas aos estrangeiros. Na França, o Presidente Emmanuel Macron indicou que o retorno à normalidade será gradual e que haverá restrições a viagens para os franceses no verão. Os festivais, inclusive o de Aix-en-Provence, foram cancelados ou adiados.

O comentário de Georges Duby, que capta de forma poética o espírito de Aix, pode ser lido em um texto autobiográfico, Le Plaisir de l’historien. Esse relato foi incluído na edição de algumas de suas obras — organizada pelo historiador brasileiro Felipe Brandi — publicada em 2019 na Bibliothèque de la Pléiade, da Gallimard. O livro é um dos quatro ou cinco que viajaram na minha mala em janeiro, quando vim morar em Kuala Lumpur.

Em um plano bem mais modesto do que Duby, eu também já troquei Paris por Aix. Em julho de 2017, lá cheguei para passar um fim de semana, a caminho de Paris. A programação de ópera no Festival estava perfeita, o clima sedutor, a alegria na cidade contagiante. Comecei a me perguntar se precisava mesmo ir à capital. Toda manhã, eu avisava à recepção no hotel que ficaria mais uma noite. Viajar de férias, eu decidira, significa não fazer planos nem sequer para o dia seguinte. O centro histórico de Aix é de uma beleza de dimensões quase domésticas. Duby diz que dá para atravessá-lo a pé, de parte a parte, em sete minutos. Se eu estava feliz ali, por que ir a Paris? Acabei não indo. Descrevi, em De carro pela Provença, como foram aquelas férias em Aix. De dia, passeava pela região. À noite, ia à Ópera. Fui ao Festival de Avignon. Fui à praia em Cassis. Contornei a montanha Sainte-Victoire, personagem central na obra de Cézanne.

Justamente, um dos lugares mais sedutores de Aix é o estúdio do pintor, preservado, em grande parte, graças aos esforços, na década de 1950, de dois americanos, o memorialista James Lord e o historiador da arte John Rewald. Uma grande parede de vidro deixa entrar a luz essencial para o trabalho do artista. Vemos objetos — vasos, pratos, figuras de gesso — que Cézanne usava como acessórios em suas telas. É comovente reconhecê-los. Vemos, pendurados, seus sobretudos e chapéus, seu guarda-chuva e sua bengala. Vemos também parte de sua biblioteca. Notei ali, da última vez, uma bela edição das Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco. Supus que a tradução seria a mais clássica disponível em francês, a do século XVI feita por Jacques Amyot. Traduzida quase que imediatamente do francês para o inglês, ela serviu de base a Shakespeare para suas tragédias romanas. Transformou-se em um monumento literário e também histórico; foi fonte de inspiração para intelectuais, figuras políticas e artistas que, durante três séculos — e notadamente durante a Revolução — quiseram emular ou celebrar Roma e seus supostos valores heroicos e morais. É a tradução que tenho, editada em dois volumes pela Pléiade.

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A impossibilidade de voltar a Aix este ano não me entristece. A pandemia prejudicou a vida de todo mundo, causando em muitos dor e perdas. O estúdio de Cézanne continuará lá, acessível quando eu puder ir. Apenas, ler a descrição feita por Duby da cidade trouxe à tona o sentimento que tenho por ela. Lembrei do barulho das fontes no silêncio e no calor do verão.

Penso nos emigrantes, ao longo dos séculos, que partiam de sua terra natal para lugares distantes, sabendo que nunca voltariam. Mudavam-se, em viagens longas e arriscadas, com a certeza de que não reveriam parentes, amigos, a cidade ou o campo onde haviam crescido. Essa é uma sensação que hoje nos é estranha. Sentir saudades de um lugar é, no século XXI, uma forma doce, poética, elegante de melancolia. Sabemos, muitos de nós, que poderemos rever aquele lugar, se quisermos realmente, mesmo à custa de sacrifícios pessoais e financeiros.

Uma das revelações da pandemia é que as viagens muitas vezes não são necessárias. Podem se transformar em uma atividade frenética, para fazer passar o tempo, desviando-nos de nós mesmos. Os lugares importantes moram em nós. Vão conosco a toda parte. A ideia desses lugares, o que eles representam, está em nós. Há um bonito verso de Corneille que nos ensina isso, em Sertorius, peça cuja ação se passa durante as guerras civis romanas. O general Quintus Sertorius — cuja biografia em Plutarco serviu de fonte a Corneille — declara a Pompeu que, na Espanha, ele não se vê como um rebelde ao ditador Sula, mas sim como o verdadeiro representante dos mais nobres valores romanos. De forma grandiloquente, ele diz: “Rome n’est plus dans Rome, elle est toute où je suis“. George Steiner, em The Death of Tragedy, o livro dele que prefiro, analisa com admiração a cena onde se insere esse estupendo alexandrino.

Ao abrir o volume da Pléiade de obras de Duby, eu não podia imaginar que a evocação feita de Aix pelo historiador iria me trazer a cidade inteira. É que os lugares vêm a nós da forma mais inesperada. Há poucas semanas, uma amiga virtual paranaense — nunca nos vimos — mandou-me fotos pelo Instagram. Seu apartamento na praia é perto da casa dos meus sogros, onde me casei. Passando lá um fim de semana de sol e calor, e sabendo que eu agora moro em Kuala Lumpur e minha mulher em Singapura, ela fotografou o sítio de longe, do alto do apartamento, com a objetiva do celular. Foi uma surpresa, confinado no sudeste da Ásia, abrir sua mensagem e ver a casa, um dos lugares mais importantes para mim. Vi-a como nunca a vira, de cima, entre o azul do mar e o verde do jardim e da mata, como se eu estivesse atravessando o céu límpido e olhasse para baixo.

Por causa do isolamento social e do fechamento de fronteiras em vários países, muitos meses terão se passado até eu poder rever minha mulher, minha filha, meus parentes, meus amigos. Elas e eles, porém, moram em mim. Como a casa de praia no Paraná, como a fazenda de meu avô em Minas Gerais, como o estúdio de Cézanne em Aix-en-Provence, como meu Plutarco — abandonado em um porto malásio, esperando o fim do confinamento para ser entregue com o resto da biblioteca e a mudança — elas e eles estão onde eu estou.

Para Sertorius, eram os valores romanos que o acompanhavam aonde ele fosse. Para mim, são os sentimentos que carrego pelas pessoas, os lugares, os livros que moram onde eu moro. Como para ele, embora por razões diferentes, para mim Roma não está mais em Roma; ela está toda onde eu estou.

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(Versão mais curta desta crônica foi primeiro publicada, em 28 de maio, no jornal literário Rascunho).

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Kiki em Kuala Lumpur

Kiki em Kuala Lumpur

Em novembro, minha insônia piorou. Nunca fui de dormir bem, mas naquele momento a situação tornou-se dramática. Eu acordava uma ou duas horas depois de adormecer; nada me fazia ter sono de novo. Lia, tomava cálcio, ficava deitado tentando pensar em prados verdes onde pastavam ovelhas brancas. Nenhum resultado. À primeira luz do sol, eu conseguia adormecer, mas pouco depois tinha de me levantar para ir trabalhar. Atravessava os dias cansado, pensando no momento em que poderia deitar-me novamente e procurar o sono. O mesmo ritual porém me esperava: dormir, acordar depois de poucas horas, ficar revirando na cama, passar o dia exausto.

Claramente, algo me preocupava. E eu sabia o que era. Seu nome era Kiki. O que passava pela minha cabeça toda noite e me causava extrema preocupação era o que fazer com a gata persa, diante da nossa próxima partida, em janeiro, para trabalhar na Ásia.

Toda minha vida, estive rodeado por animais domésticos. Com dois anos, já apareço em fotos com um cachorro vira-lata, pequeno e encantador, chamado Bahia. Na Bélgica, onde morei primeiro dos seis aos onze anos, a casa em Rhode-Saint-Genèse mais parecia uma reserva de animais. Havia sempre um cachorro, em geral dois gatos, uma tartaruga, e um fértil casal de periquitos, que procriava a toda hora. Houve aliás dois casais em sucessão, o primeiro integrado por Lune e Soleil, o segundo por Joséphine e Napoléon. Não lembro se o segundo casal de periquitos era filho do primeiro, e nem que destino era dado às sucessivas ninhadas.

Kiki é o meu nono gato desde a infância. O mais longevo foi James, que morreu em Brasília em janeiro de 2018, aos dezenove anos. Era um gato enorme, preto, com o ventre, as patas e o focinho brancos.

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“Morreu” é um triste eufemismo, pois na verdade tivemos de mandar sacrificá-lo. James estava com câncer e todo dia ficava mais frágil. Um dia, a veterinária explicou que chegara o momento de libertá-lo da dor. Essa não foi uma decisão fácil. James nascera na nossa cama, de madrugada, em Quito. Sua mãe, Cory, como ele uma gata vira-lata preta e branca, nos pertencia. Ao sentir que o parto era iminente, ela viera até nós, em um gesto de confiança e carinho.

Marcamos dia e hora. A veterinária veio com um assistente. Enquanto ele abria uma pequena cova no quintal de casa, eu, em outro canto, segurava James nos braços. A injeção entrou. Nada aconteceu. Foi preciso aplicar uma segunda dose. Ele morreu. Depois, minha mulher e eu conversamos sobre o quanto a personalidade de James evoluíra ao longo do tempo. Nascido na nossa frente, ele era porém um gato extremamente arredio, propenso a rosnar com todos, menos com minha mulher, que ele aceitava e no colo de quem gostava de se aninhar. Na velhice, tornou-se manso e carinhoso e começou a me procurar e a se aconchegar comigo. Durante seus dezenove anos, manteve sempre um olhar de quem sente falta de algo. Parecia buscar alguma coisa bem específica no horizonte. Era um gato metafísico. Possuía também um ar altaneiro, majestático, com o porte indicando superioridade. Nossa filha, quando ainda criança, em Quito, dera-lhe o apelido de “Señor Presidente”. Em sua velhice eu o chamava, em espanhol, de “Jaimito”.

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James não foi o primeiro caso em que tivemos de permitir a aplicação da injeção da felicidade eterna. Em fevereiro de 2012, acontecera o mesmo com nossa golden retriever, Missy, meu quinto cachorro. Sobre o quarto, Arusha, uma basset hound, contei em Capitu, a Garota de Ipanema, ser ela a heroína de um livro de meu pai. Nascida em Brasília, Arusha morou em Londres, voltou para Brasília, e morreu de morte violenta em Viena, na casa de minha mãe. Um dia, de madrugada, na exata hora em que meu irmão — o que só viríamos a saber poucas horas depois — morria no hospital, em Brasília, quando éramos adolescentes, Arusha foi ao quarto dele e começou a se agitar. Acordados com o barulho, fomos ver o que estava acontecendo. Lá estava ela, sentada na cama do meu irmão, com a cabeça levantada em direção ao teto, uivando.

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Muitas vezes me arrependi de não ter escrito um livro sobre Missy. Em Quito, em março de 1998, decidi ter chegado o momento de nossa filha, ainda pequena, ter animais de estimação. Saí de carro, fui a uma loja e voltei com Missy e Cory, ambas com dois meses de idade. Cory não viveu muito. Seu espírito inquieto e livre fazia-a sair de casa a todo instante. Morreu atropelada, como é o destino de tantos gatos — foi também o de outra gata nossa, Sassy, poucos anos depois — com dezoito meses de vida, mas ao menos deixou-nos James.

Missy agitou profundamente a nossa rotina. Mesmo para padrões de golden retriever, era de uma simpatia, uma energia, uma doçura ímpares. Quando eu a passeava em Quito por um parque na nossa rua, ela tanto se agitava, tanto corria, ficava tão alegre que frequentemente saltava em mim, me derrubava, grande e pesada como era, mordia ou rasgava a calça do meu terno. Uma vez, arrancou do nosso gramado uma árvore jovem que eu plantara poucos dias antes. Foi a única vez em que me zanguei com ela. Hoje, daria tudo para não ter ficado bravo nesse dia. Ela e eu estabelecemos uma relação de enorme cumplicidade. Depois de Quito, houve em Brasília um período em que eu frequentemente chegava do trabalho passada meia-noite. Ao entrar, exausto, eu sabia que encontraria, do outro lado da porta, Missy sentada à minha espera. Sem cerimônia, ela gostava de se deitar na nossa cama, algumas vezes entre minha mulher e eu, com a cabeça nos nossos travesseiros. Ouvíamos seus suspiros, seu ronco enquanto dormia.

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Missy tinha personalidade própria, mas não vida independente, e nem poderia ter. Seu objetivo era estar conosco, amar-nos e, em troca, receber afeto. Seu compromisso absoluto com esse propósito era irresistível e comovente. Foi o ser mais inocente que conheci. Viveu e morreu sem saber que pode haver maldade no mundo. Sem dúvida, nós a amávamos, tanto quanto ela nos amava. Às vésperas de ela cumprir quatorze anos, seu câncer generalizado obrigou-nos a dar-lhe a injeção. A veterinária veio. Sugeriu que fôssemos até o quintal, onde o assistente abria a sepultura. Tolamente, sem dúvida paralisados pelo choque, aceitamos. Missy nos acompanhou. Ficamos os três, minha mulher, Missy e eu, olhando enquanto ia sendo cavado o buraco na terra. Já na hora isso me pareceu uma crueldade, que ela ficasse à beira de sua própria tumba, curiosa sobre o que estava acontecendo. A partir daí, tudo foi rápido, a injeção surtiu efeito imediatamente. O que não passou rápido foi o meu luto, o qual na verdade nunca terminará.

Em dezembro, Kiki fez quinze anos. Mora conosco desde os dois meses de idade. É uma gata particularmente afetuosa e presente. Pode-se mesmo dizer, coloquialmente, que ela é bem oferecida. Cumprimenta com efusão qualquer visita que venha nos ver. Entra no quarto de hóspedes para dormir na cama de algum amigo para ela até então desconhecido. Ronrona com facilidade. Se levanto de noite, vem atrás de mim. Se ela some pela vizinhança, volta correndo, atravessando jardins ou pela calçada, quando nós a chamamos. Tanto em Brasília quanto em Bruxelas, costumava seguir-nos quando saíamos para passear a Missy. Isso era aliás um transtorno. Tínhamos de controlar na rua dois animais domésticos, um deles, a gata leve e ágil, sem coleira ou guia.

Várias questões colocaram-se para nós, na hora de começar os preparativos da partida para a Ásia. Ela iria para Kuala Lumpur comigo ou para Singapura com minha mulher? Essa foi a única decisão relativamente fácil. A quarentena na Malásia é de uma semana, e em Singapura de um mês, e esse foi o critério. Surgiu aí outra dúvida: não seria melhor deixá-la no Rio com minha mãe, para poupá-la de uma viagem insanamente longa, desconfortável, que seria seguida de uma quarentena? Minha mãe sempre teve gato e acabara de sacrificar seu mais recente. Como todo mundo, acredita que os afagos de Kiki são dedicados exclusivamente a ela. Sentiu ventos favoráveis e durante muitos dias manteve a esperança de ganhar na loteria, sendo Kiki o prêmio. Esse foi o momento em que a insônia mais me atacou. Descobrir o que era melhor para a gata, descartando o meu interesse particular, foi o mais difícil. Depois de muitas semanas de exame de consciência, noites em branco, esperança de que alguém tomasse a decisão por mim, concluí que seria uma covardia eu pôr fim a uma amizade de quinze anos. Kiki viajaria conosco.

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Não mencionarei a dor de cabeça que foi preparar a papelada para a viagem da gata. Em 2006, quando fomos para a Bélgica, e em 2011, quando voltamos, levamos Missy, James e Kiki, numa operação que na minha lembrança foi relativamente fácil. Tenho porém tendência a só lembrar do aspecto positivo das coisas. E fiquei, naturalmente, mais velho. Viajar com a sobrevivente, Kiki, para a Malásia pareceu-me mais difícil do que havia sido transportar os três animais para a Bélgica. Não darei detalhes dos vários dias em que, enquanto a empresa de mudança estava lá em casa empacotando, tive de ir ao serviço de vigilância agropecuária do aeroporto. Evitarei falar da dificuldade no diálogo virtual com a empresa malásia que eu contratara para cuidar da tramitação dos papéis para a quarentena. Determinado a não desfazer, junto ao leitor, a imagem encantadora que, espero, criei de Kiki, direi apenas que na reta final, vendo a mudança em curso, sentindo ares de novidades, ela diabolicamente várias vezes resolveu se esconder subindo ao telhado da casa em frente à nossa. De lá só conseguíamos tirá-la, já noite feita, à custa de muitas amolações.

A viagem de 36 horas foi penosa. Kiki provou ser imune ao remédio recomendado pela veterinária para que dormisse a bordo. Em toda a segunda metade, não fechou o olho e miou sem parar. Isso me obrigou a também ficar acordado, na tentativa inútil de acalmá-la. Ela sobreviveu porém aos três voos e aos quatro aeroportos. No final de janeiro, desembarcamos os três, minha mulher, Kiki e eu em Kuala Lumpur. Esperava-nos no aeroporto a firma que eu contratara, para levá-la à quarentena. Sete dias depois, ela me foi devolvida. Minha mulher já partira para Singapura.

Desde então, estamos, Kiki e eu, vivendo em um apartamento em Kuala Lumpur. Vazio, porque minha mudança chegou à Malásia em meados de março, logo antes da decretação do isolamento social compulsório, causado pela pandemia. Está abandonada desde então no cais do porto de Port Klang. Pela primeira vez, Kiki tem de morar em apartamento. Para ela, houve uma clara perda de liberdade. Já não pode pegar passarinho no quintal ou lagartixa no pátio, zanzar pelos jardins dos vizinhos, subir em seus telhados, sumir durante horas. Sua vida ficou também solitária. Para uma gata que cresceu em casas, em Brasília e em Bruxelas, entrando e saindo, vendo o mundo, a natureza lá fora, na companhia de três seres humanos e outro gato e um cachorro, não deve ser divertido ficar trancada em um apartamento com um homem que passa o dia no escritório e frequentemente tem compromisso de trabalho à noite.

Ou talvez não. Talvez ela prefira assim. A verdade é que Kiki envelheceu. Quinze anos é muita coisa para um gato. Talvez ela prefira hoje levar uma vida mais calma. Ao contrário de James, sua personalidade não mudou. Tanto melhor, porque como sempre foi efusiva e simpática, poderia ter ficado rabugenta, assim como James, de imperioso e antipático, tornou-se um velhinho carinhoso. Neste exato momento em que escrevo, tarde da noite, em meu quarto, durante o confinamento, Kiki está perto de mim, dando a si própria o seu banho. De vez em quando ela para, me olha e faz um delicioso miado, curto e baixo. Recentemente, adormeci enquanto ela, deitada ao meu lado, ronronando, segurava com as duas patas da frente um dos dedos de minha mão esquerda.

Se sua personalidade não mudou, o pelo, laranja, tornou-se mais pálido, mais branco. Ela perdeu muito de sua vivacidade. Dorme mais do que no passado. Há em seu pequeno rosto um ar nítido de senhora elegante e plácida, que já viveu intensamente e prefere hoje levar uma existência tranquila, sem sobressaltos.

Olho para Kiki. Percebo que, até mesmo no caso dela, gatinha que com dois meses de idade chegou lá em casa alegre, sapeca, infatigável, curiosa de tudo, a questão que se coloca é a mesma de todo ser vivo. Nascer, crescer, e procurar viver o máximo possível, para um dia aceitar que tudo termina.

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A Partida

A Partida

Ao longo de 2019, notei que frequentemente eu me indagava sobre os livros que escritores levam em suas viagens. Vinha naturalmente à minha mente a curiosidade sobre que volumes são colocados na bagagem na hora da partida talvez definitiva, da travessia arriscada, da ruptura com o passado.

Escrevendo em O Mar por toda parte sobre o Padre Antonio Vieira, procurei ver se, na sua correspondência, ele especificava com que volumes embarcaria em uma de suas sete travessias do Oceano Atlântico ou levaria em suas andanças pelo Norte e pelo Nordeste do Brasil. Encontrei apenas, na antologia de suas cartas que retirei da casa de praia de meus sogros, este trecho, escrito por ele no Maranhão em 1653: “Sabei, amigo, que a melhor vida é esta. Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra mais pardo que preto; como farinha de pau; durmo pouco; trabalho de pela manhã até à noite; gasto parte dela em me encomendar a Deus; não trato com mínima criatura; não saio fora senão a remédio de alguma alma; choro meus pecados; faço que outros chorem os seus; e o tempo que sobeja destas ocupações, levam-no os livros de Madre Teresa e outros de semelhante leitura”, referindo-se a Santa Teresa de Ávila.

Relendo o Diário de Etty Hillesum, fiquei fascinado em descobrir, como mencionei em O encontro de Avignon, que ela planejava colocar na mala, quando fosse deportada para Auschwitz, a Bíblia, sua gramática russa, O Idiota, Rilke e os contos populares de Tolstoi. Em O leitor irresponsável, registrei que o patriarca de Iasnaia Poliana, ao fugir de casa na madrugada de 28 de outubro de 1910, naquela que seria sua última viagem, encomendou à filha que se juntaria a ele seus exemplares de Os Irmãos Karamazov, os Essais de Montaigne, o romance Une Vie, de Maupassant, além do livro espiritual de um autor russo, P. P. Nikolayev.

Apenas no final de novembro racionalizei que minha curiosidade era causada pelo fato de que logo eu também ficaria privado, por alguns meses, de minha biblioteca. Soubera, em março, que em algum momento eu partiria para viver e trabalhar na Ásia. A partida está marcada para agora em janeiro, e a mudança chegará à Malásia meses depois. A rigor, eu não precisaria levar livro algum na mala. Desde muito cedo, um de meus grandes talentos é o de constituir rapidamente, onde quer que eu esteja, mesmo que lá esteja por poucos dias, uma pequena biblioteca. Os livros que eu já conheço, que já me pertencem são porém um reconforto. Tirar das estantes alguns de meus amigos, fazê-los viajar comigo tornará a nova vida, por enquanto desconhecida, imediatamente assimilável.

A questão que se coloca é definir que volumes receberão a missão de, com sua presença, tornar tudo natural, normal, previsível, além de se prestarem a ser lidos “no tempo que sobeja a estas ocupações”, à noite, após o trabalho. A empresa de mudança já se apossou de nossa casa; o tempo é limitado para grandes indagações. Além disso, minha mulher, também por razões profissionais, irá morar em Singapura, e isso significa que a biblioteca será dividida. São portanto duas decisões importantes: que livros viajarão comigo no avião, e quais ficarão de cada lado dos Estreitos de Johor. A segunda decisão foi tomada rapidamente, de forma consensual. A primeira é a mais difícil.

Sem dúvida, o candidato principal a viajar na minha mala é o volume de obras de Georges Duby lançado em setembro pela Gallimard, em sua prestigiosa coleção da Pléiade. Duby foi um medievalista prolífero. Hoje vejo que, embora eu o lesse com afinco no final da adolescência e nos anos subsequentes, perdi muito de sua produção intelectual. Poder abordá-lo agora, com as notas, os ricos comentários habituais na Pléiade é ter dele uma nova visão. O editor do volume é um historiador brasileiro, Felipe Brandi. Vários autores não-francófonos fazem parte do catálogo da Pléiade, inclusive Jorge Luis Borges e, em rara homenagem a um autor vivo, Mario Vargas Llosa. Nenhum escritor brasileiro, até hoje, recebeu a consagração das letras que a entrada na coleção representa. A edição esmerada, preparada com rigor por Felipe Brandi, dos textos de Duby, incluindo a longa introdução que redigiu em francês, é o mais perto a que já chegamos.

Para quem estuda História, e gosta dos livros densos e analíticos, porém claros, de Duby, os romances históricos podem parecer ou fascinantes ou desprezíveis. Tudo dependerá da habilidade do escritor, da seriedade com que estudou a época retratada e da luz que joga sobre personagens reais. Neste exato momento, estou mergulhado na leitura de um romance histórico e epistolar cativante, que irá na mala comigo para a Malásia, Augustus, de John Williams. Eu nunca ouvira falar no livro até 2019, quando Cora Ronai me deu de presente a tradução para o português lançada no Brasil em 2017 pela editora Rádio Londres. Fiquei curioso e comprei às vésperas do Ano Novo, na Livraria da Travessa de Ipanema, o original em inglês. Às voltas com a mudança, não tenho podido ler tanto, mas mesmo que eu consiga terminar o livro antes de viajar, ele virá comigo.

Augustus é uma biografia romanceada do primeiro imperador romano. Compõe-se de cartas e memórias fictícias de contemporâneos seus, por meio das quais vamos formando ideias, às vezes contraditórias, sobre sua personalidade. Ao mesmo tempo, cada missivista possui, na criação de John Williams, um modo próprio de pensar, de escrever, de ser, e assim as cartas de Cícero, Lívia, Marco Antonio, o diário de Julia, as memórias de Agripa revelam vozes individuais, coerentes, muito distintas umas das outras.

Susan Sontag — ela mesma autora de um romance histórico pelo qual sinto enorme carinho, The Volcano Lover —  escreveu em 2001: “The literature of the second half of the twentieth century is a much traversed field and it seems unlikely that there are still masterpieces in major, intently patrolled languages waiting to be discovered“. Esse conceito, de que as obras-primas da segunda metade do século XX já foram todas descobertas, é uma afirmação que talvez só Sontag teria tido a ousadia de fazer. Ela própria, aliás, nega sua veracidade em seguida. A frase é a primeira da introdução preparada pela escritora para uma edição em inglês de um livro russo de 1982, Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsipkin, que li há alguns anos. A segunda frase da introdução de Sontag diz: “Yet some ten years ago I came across just such a book“, que é o de Tsipkin. Verão em Baden-Baden, publicado no Brasil em 2003 pela Companhia das Letras, mistura aspectos da vida de Dostoiesvki durante seu segundo casamento, com Anna Grigorievna — incluindo a famosa e desastrada conversa com  Turgueniev na cidade alemã — com a vida do narrador, que é Leonid Tsipkin.

Leonid Tsipkin

Ao contrário de Susan Sontag, acredito ter ainda muito a descobrir sobre as “obras-primas da segunda metade do século XX”. Leio John Williams pela primeira vez e não questiono por que não o fizera ainda. Simplesmente, ele não surgira no meu caminho.  A obra de Williams, morto em 1994, é mais apreciada hoje do que enquanto ele era vivo. No Ano Novo, o namorado de minha filha, que é belga, ao me ver no Rio com Augustus nas mãos, comentou: “você está lendo John Williams… está gostando? Li Stoner há alguns anos. É um livro incrivelmente triste. Aliás, entra em toda lista de livros tristes”. Augustus não é triste, e sim uma indagação sobre como mudamos ao longo do tempo, sobre o que fazemos de nossas vidas mas, ao mesmo tempo, sobre como a vida nos molda. Na edição que comprei, há uma introdução de Daniel Mendelsohn, festejado autor de An Odyssey: a Father, a Son and an Epic, onde ele diz que os romances de Williams examinam como “whatever our characters may be, the lives we end up with are the often unexcepted products of the friction between us and the world itself”.

Um terceiro livro que eu tencionava levar na mala para Kuala Lumpur era uma História da Malásia, que li em 2019 e teria sido útil nas primeiras semanas de instalação no país. Mudanças porém possuem ritmo próprio, e não separei o volume a tempo. Já no primeiro dia ele foi embalado, e para Singapura, junto com uma pilha de livros que descansavam pacificamente sobre uma mesa no escritório.

Há assim um lugar a ser ocupado. Surge a dúvida: prefiro um amigo antigo, possivelmente já lido várias vezes, e cuja companhia é garantia de bem-estar, ou um dos muitos novos que esperam ainda despertar o meu interesse? Às vezes, um livro fica anos na estante ou na mesa de cabeceira, ignorado. Um dia, de repente, sentimos que precisamos lê-lo, que precisamos daquele volume naquele momento para ser felizes. Ele é aberto, devorado, e percebemos que a vida mudou.

Durante anos, levei comigo ao embarcar em aviões uma seleção de bolso, leve, de cartas de Voltaire. Foi sempre uma excelente companhia, por causa da inteligência e da verve voltairianas. O hábito de viajar com textos do filósofo possui, aliás, precedente ilustre. Em uma carta de 1775 a Frederico, o Grande, Voltaire agradece a informação que dele recebera de que “se digna viajar com minhas pobres obras” (“mes faibles ouvrages“). O convívio dos dois na Prússia, de julho de 1750 a março de 1753, passado o fascínio mútuo inicial, fora turbulento. Voltaire e Frederico separaram-se em maus termos e nunca mais se viram. Mantiveram, porém, uma correspondência amistosa. Talvez a seleção de cartas do filósofo volte a fazer parte de minha bagagem.

E por que não um quarto livro, sobretudo sendo o Voltaire tão leve? Há poucas semanas, comprei o Lezioni americane de Italo Calvino. Publicado postumamente em 1988, o volume contém as palestras que, se não tivesse morrido em setembro de 1985, Calvino teria dado em Harvard entre 1985 e 1986, como o convidado naquele período letivo para as prestigiosas “Charles Eliot Norton Lectures”. Ao folhear os ensaios na livraria, caí na seguinte frase, no início da segunda palestra: “L’imperatore Carlomagno in tarda età s’innamorò d’una ragazza tedesca“. Essa é a habilidade do escritor, iniciar uma conferência sobre literatura, destinada a um ambiente acadêmico, narrando “una vecchia leggenda“. Funcionou comigo. Comprei o livro. Desejo lê-lo.

Calvino trabalhava nas seis palestras ao morrer. Na apresentação de Lezioni americane, sua viúva, Ester Calvino, ela mesma falecida em 2018, nos diz que o escritor, ao partir, deixou os textos datilografados sobre a escrivaninha, “in perfetto ordine“. Cada conferência se encontrava em uma pasta transparente, e todas juntas em uma pasta dura. O conjunto estava “pronto per essere messo nella valigia“. Pode-se dizer que esse é o livro que ele levou consigo em sua última viagem.

Aqui em casa, parte da biblioteca vai para Singapura. A parte que vai para Kuala Lumpur não voltará a estar acessível antes de março, abril. A biblioteca porém já está em mim. Somos a soma de tudo o que aconteceu, de tudo o que fizemos ou pensamos, de tudo o que as pessoas ao nosso redor pensam ou fazem. Somos também a soma de tudo o que já lemos, de todos os livros que já tivemos nas mãos.

Minha mulher me acompanhará até Kuala Lumpur, em seu trajeto até Singapura. Nossa gata persa, Kiki, virá junto. Companhias melhores, impossível. John Williams, Augusto, o Duby da Pléiade, Voltaire, Italo Calvino e todos os autores de que ele fala e Carlos Magno e sua “ragazza tedesca” são o bônus. Como todas as pessoas de quem eu gosto, eles já estão em mim.

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(Este ensaio foi primeiro publicado, em 10 de janeiro, na revista literária São Paulo Review)

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O encontro de Avignon

O encontro de Avignon

No último sábado de agosto, Esther reapareceu em minha vida. Ela possui a capacidade de se materializar assim, quando eu menos espero. Esbarrei nela na Livraria da Travessa de Ipanema, enquanto eu procurava a antologia bilíngue de poemas de Primo Levi, Mil sóis.

Fiquei mudo de surpresa. Nós nos conhecemos em julho de 2011, no Festival de Avignon. Penso nela com frequência e vinha querendo restabelecer contato, pois cada encontro me transporta para uma esfera superior. Nunca imaginei que ela, uma estrangeira, estivesse logo ali, tão perto, que eu fosse revê-la de repente em uma famosa livraria de Ipanema. Simples assim, e ao mesmo tempo inconcebível.

Quando primeiro a vi, eu estava passando uns dias em Aix-en-Provence. Costumo, quando vou a Aix em julho, ir a Avignon por algumas horas. A atmosfera nas duas cidades, no verão, não poderia ser mais diferente. O Festival de Aix, dedicado à Ópera, cria uma agitação comedida, erudita. O Festival de Avignon, voltado para o teatro, com centenas, se não milhares de produções fora da programação oficial, lota a ex-capital dos Papas com uma multidão variada, barulhenta e muitas vezes divertida. As pequenas companhias de teatro desfilam pelas ruas, divulgando as suas peças, com os atores vestindo os trajes usados nos palcos. A programação oficial costuma ter um caráter intelectual, mas as produções no “off” variam enormemente em qualidade e público-alvo. Há peças inteligentes contemporâneas, recriações de grandes clássicos (Molière e Tchekhov são recorrentes) e comédias banais. Gosto, por um dia, de fugir da serenidade de Aix e frequentar a balbúrdia de Avignon, indo de teatro em teatro, vendo quatro ou cinco peças curtas em poucas horas, em salas pequenas.

Meu primeiro encontro com Esther foi inesperado, marcante e inesquecível. Transformou a forma como vejo o mundo. Nunca mais deixei de pensar nela.

Naquele dia de verão, ao chegar a Avignon de manhã e pegar um exemplar do programa do Festival, que contém sempre centenas de páginas, notei uma produção intitulada “Etty Hillesum: l’espace intime du monde”. O nome nada me dizia, mas a descrição da peça era fascinante: tratava-se de um monólogo interpretado por uma jovem atriz, Sandrine Chauveau, que em cerca de uma hora recriava trechos do Diário de Etty Hillesum, holandesa, judia, que morava em Amsterdã e foi deportada e morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Uma crítica incluída no programa do Festival dizia que “no final da peça o público precisa superar a emoção antes de sair da sala, porque a experiência dessa vida nos toca a todos”. O comentário era piegas, mas intrigante.

Comprei meu ingresso. Entrei. O auditório era pequeno, mas as poltronas vermelhas confortáveis. Começou o monólogo. Víamos a atriz andar no palco, pelo cenário, “vivendo” Etty Hillesum. O texto era intenso. A jovem dirigia-se a Deus, a ele buscava. Ouvíamos sua narração de como a perseguição aos judeus holandeses, durante a ocupação alemã, ia gradualmente se agravando. Etty mantinha a coragem e o amor à vida. Sabíamos como aquilo terminaria, mas não víamos desespero na personagem. Uma frase, particularmente, foi dita com grande efeito pela atriz: “Deus, não é você que tem de nos ajudar, nós é que temos de ajudá-lo a nos ajudar”. Quando saí do teatro, uma hora depois, eu estava meditativo. Nenhuma das outras peças que vi em Avignon naquele dia marcou-me tanto. Acabo de verificar que a última produção a que assisti foi de três peças curtas, divertidas, de Tchekhov. Era uma montagem excelente, lembro-me bem agora, e aquela que é talvez a sua peça curta mais famosa, O Urso, estava incluída. O que ficou na minha memória para sempre, porém, foi esse meu primeiro contato com Esther Hillesum — a quem todos chamavam Etty — embora eu nem sequer soubesse quem ela era até poucas horas antes.

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Às vezes acontece de uma pessoa ou um livro de cuja existência não estávamos cientes começar a aparecer frente a nós por toda parte. Poucas semanas depois de Avignon, em Bruxelas onde eu então trabalhava, visitei o ateliê de um artista plástico belga, Fabrice Samyn. Durante a conversa, ele citou Etty Hillesum. Tirou da estante uma edição em francês do Diário, que folheei ali mesmo. Meu interesse por Esther ficou assim cristalizado, para usar um conceito stendhaliano.

O que vi na Livraria da Travessa, no último sábado de agosto, foi uma nova tradução para o português dos diários, lançada pela Editora Âyiné. Trata-se da versão reduzida, intitulada Uma vida interrompida, a primeira a ser publicada, em 1981, na Holanda, que inclui algumas cartas de Etty Hillesum. Essa versão é a mais difundida. O texto completo publicou-se em holandês pela primeira vez em 1986, e foi traduzido para o inglês em 2002, o francês em 2008, o alemão em 2014, e nunca para o português.

A tradução de Mariângela Guimarães para a Editora Âyiné, feita diretamente do holandês, é construída em português correto e elegante. Passa toda a intensidade daquela vida curta e dramática. Começa-se a lê-la e não se consegue parar.

O Diário começa em 9 de março de 1941, com as palavras: “Então vamos lá! Este é um momento doloroso e quase intransponível para mim: confiar meu coração inibido a um tolo pedaço de papel pautado”. Termina em 13 de outubro de 1942, com a frase: “Gostaria de ser um bálsamo para tantas dores”. Nesse período curto de um ano e meio, Esther viu o mundo ao seu redor modificar-se, tornar-se ainda mais sombrio. De agosto a setembro de 1942, ela permaneceu, voluntariamente, no campo de triagem de Westerbork, na Holanda, para prestar ajuda aos judeus prestes a serem deportados. A partir de setembro, doente, voltou por alguns meses a Amsterdã. Ao regressar a Westerbork, podia no início, e até junho de 1943, ir a Amsterdã ocasionalmente. Em setembro de 1943, ela, seus pais e um de seus irmãos foram deportados para Auschwitz. Etty morreu no campo de concentração em novembro, sem que saibamos se de doença, de fome, de exaustão ou na câmara de gás.

A leitura do Diário é uma experiência espiritual. Ou ao menos, a alma que o escreveu era intensa e impregnada de misticismo. Ela esclarece já nas primeiras páginas, em 15 de março de 1941: “O ódio não é da minha natureza”. Na sua opinião, basta haver “um alemão decente” que, por respeito a ele, “o povo alemão não pode ser odiado como um todo”. São numerosos os pensamentos que demonstram rejeição à dor moral, à raiva, à mágoa. Ciente do “grande sofrimento humano, que se acumula e se acumula” e do “enorme sadismo” de sua época, Etty continua a considerar a vida como algo “bondoso e misericordioso”. Fala no “pedacinho de eternidade que as pessoas trazem em si”.

O Diário é o veículo para uma constante autoanálise. Ela frequentava, aliás, um psicoquirólogo, Julius Spier, alemão, judeu, refugiado na Holanda. O tratamento que ele oferecia incluía luta corporal e leitura da palma da mão. Soa, aos ouvidos de hoje, como charlatanismo, mas aparentemente ele exercia grande influência sobre seus pacientes. Os dois desenvolveram uma relação afetiva — ao menos da parte dela; Spier tinha uma noiva que emigrara para a Inglaterra. A morte inesperada do psicoquirólogo, em setembro de 1942, causou nela grande sofrimento, mas nem isso foi suficiente para abalar sua coragem. Poucas horas depois, ela já pensa nele nestes termos: “Você buscou Deus em toda parte, em cada coração humano que se abria para você — e foram tantos — e por toda parte você encontrou um pedacinho de Deus”.

Consistentemente, Etty valoriza os pequenos prazeres do cotidiano, sabendo que mesmo esses, um dia, ela não mais terá. Um dos trechos mais poéticos é a descrição de um passeio que faz, em março de 1942, com um amigo e ex-namorado, Max. Ela resume o encontro da seguinte maneira: “Foram indescritivelmente belos, Max, nossa xícara de café e o cigarro ruim, e nossa caminhada pela cidade escura, de braços dados, e o fato de que andávamos ali os dois juntos”. Percebe a alegria que pode haver em um reencontro, na transformação de um amor de juventude em amizade, e diz: “Foi indescritivelmente belo. Que nesse mundo dilacerado e ameaçado coisas assim ainda sejam possíveis. É um grande consolo”.

Etty fala frequentemente em flores, descreve-as com devoção e admiração. Parece ver nelas uma referência à fragilidade de sua própria vida ameaçada, e também a tudo que pode haver de belo, satisfatório. Um dia, observa a beleza de um jasmim branco, mergulhado na luz do sol e pelo qual passa a brisa: “Como é possível, meu Deus, ele está ali prensado entre o muro sem pintura dos vizinhos de trás e a garagem. Entre aquele cinza e aquele lodoso escuro, ele fica tão radiante, tão imaculado, tão exuberante e tão delicado, uma jovem noiva imprudente, perdida num bairro pobre”. Dez dias depois, a planta perdeu as flores, mas Etty sente que, dentro dela, o jasmim floresce ainda, “imperturbável, tão exuberante e delicado como sempre floresceu”.

Livros ocupam espaço importante em sua vida. Ela deseja ser escritora, e um tema recorrente nos diários é o debate interno sobre se tem talento, se conseguirá escrever, sobre a dificuldade de colocar o que sente no papel. Espera que algumas vítimas daquele momento na História, ao sobreviverem, escrevam sobre a terrível experiência vivida; ela deseja ser um dos futuros narradores. De Westerbork, escreve a uma amiga que gostaria de poder anotar ideias para histórias que surgem em sua mente de noite, deitada na escuridão forçada. Percebe ser excessivamente exigente consigo mesma no campo literário, sente-se obrigada a, no mínimo, escrever um novo Os Irmãos Karamazov. Etty Hillesum falava russo; sua mãe aliás nascera na Rússia. Dostoievski é um autor recorrente em seu Diário. Uma hora, percebe que só poderá levar consigo poucos livros, ao ser deportada. Pensa em uma lista sucinta, e O Idiota, de que ela já nos falara várias vezes antes, está incluído. Rilke é outro autor de sua predileção, ao qual se refere a cada instante. Avalia que um verso seu é mais real do que a vida cotidiana. A mala para o campo de concentração teria de incluir também a Bíblia e dois dicionários de russo. Em outro momento, acrescenta à lista planejada os contos populares de Tolstoi.

Há forte contraste, nos diários, entre o que acontece na vida interior de Etty — suas indagações sobre a relação com Julius Spier e com os amigos; suas leituras; a associação com as flores; o diálogo com Deus; a sensação de liberdade obtida com a visão do céu — e a tragédia da vida ao seu redor. Em 12 de junho de 1942, escreve estar “mergulhada em algo que acontece no meu íntimo”. Dois dias depois, comenta: “E agora parece que os judeus não podem mais entrar nas grandes lojas; e devem entregar as bicicletas; e não podem mais andar de bonde; e têm que se recolher antes das oito da noite”. Em julho de 1943, já definitivamente internada em Westerbork, ela descreve em uma carta a vida no campo de triagem como equivalente à de ratos em um esgoto. No entanto continua a mesma carta dizendo: “esta vida é algo lindo e grandioso, temos de construir um mundo inteiramente novo no futuro e contra cada delito, cada atrocidade a mais temos um pouquinho de amor e bondade a mais para compensar, que temos de conquistar em nós mesmos”.

Há relatos de que, em Westerbork, Etty foi de fato um bálsamo — como ambicionara — para os internados no campo. Um amigo, Jopie Vleeschhouwer, acompanhou-a até o trem em que ela e sua família partiriam para Auschwitz e a morte. Menciona que, a caminho do trem, ela foi “falando alegremente, rindo, uma palavra simpática para todo mundo que cruzava seu caminho, cheia de um humor cintilante”.

E assim termina Uma vida interrompida, com o trem partindo rumo ao campo de concentração e a carta do amigo de Etty narrando seus últimos momentos em Westerbork. Morta, ela continua bem presente para os que a leem, graças a uma intensidade e uma sinceridade muito peculiares. Seu Diário, suas cartas são a sua obra; não são os romances ou contos que ela poderia ter escrito, mas a história dos últimos meses de vida de uma mulher jovem eliminada pelo Holocausto. É uma voz individual. Sinto o quanto eu gostaria que essa voz, com sua lição de força interior e elevação espiritual, pudesse ser ouvida por mais pessoas. Ela certamente é bem menos lida do que Anne Frank, quinze anos sua caçula. Terão as duas jamais se visto nas ruas de Amsterdã? Não é impossível.

Em agosto, saí da Livraria da Travessa carregando os dois volumes, ambos publicados em 2019: os diários da holandesa que morreu em Auschwitz, e os poemas do italiano que sobreviveu fisicamente a Auschwitz. Na antologia poética de Primo Levi pela Editora Todavia, onde os poemas foram escolhidos e belissimamente traduzidos por Maurício Santana Dias, há versos que se referem a Anne Frank mas poderiam também, com alguma imaginação, aplicar-se a Esther, a quem conheci em Avignon e nunca pude esquecer. No poema A menina de Pompeia, Primo Levi fala-nos de uma menina petrificada pela erupção do Vesúvio no tão distante ano de 79, cuja presença física ficou eternizada como um “retorcido decalque de gesso”. E diz:

Mas nada entre nós permanece de sua irmã distante,
Da menina de Holanda murada entre quatro paredes
Que ali mesmo escreveu sua infância sem futuro:
Suas cinzas mudas se dispersaram no vento,
Sua vida breve encerrou-se num caderno gasto.

 

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(Este ensaio foi publicado primeiro, em 29 de novembro, na revista literária São Paulo Review)  

 

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A doença incurável

A doença incurável

Em setembro, no último sábado de verão, eu estava de férias em Paris. Fazia calor e o sol brilhava. Minha filha e o namorado tinham vindo, de Bruxelas, passar o fim de semana comigo. Depois de visitar a exposição Bacon en toutes lettres no Beaubourg, caminhamos pelo Marais. A exposição havia sido uma decepção. Seu objetivo, mostrar como a obra de alguns autores prediletos de Francis Bacon influenciara sua pintura, era ambicioso e não fora concretizado. Na rua, eu nunca vira tanta gente. Havia ao meu redor um clima de alegria, criando contraste com as figuras atormentadas na pintura de Bacon.

De repente, minha filha parou frente a uma vitrine. Logo depois, o namorado e eu entrávamos atrás dela na loja, um corredor comprido. O nome do lugar era À Rebours, pertencente, notei, à fundação cultural Lafayette Anticipations, mantida pelo grupo que controla as Galeries Lafayette.

Olhei à minha volta, surpreso. O recinto continha, em um cabide pendurado no teto, uma enorme camisa de homem, costurada como uma colcha de retalhos, com tecidos de diferentes cores; em um canto, um pufe branco com desenho preto representando talvez um ser humano; em um balcão, algumas bijuterias; em outros balcões, vasos e potes de vidro e de cerâmica. Não sei se havia muito mais do que isso. O ambiente era elegante, mas eu não entendia o que a loja vendia. Perguntei à minha filha onde estávamos. Ela respondeu: “Em uma concept store”. É bem provável que eu jamais tivesse antes ouvido o termo. Vendo meu ar de incompreensão, ela emendou: “Papai, você entra em uma concept store para entender a ideia de quem a organizou, captar uma tendência, não para comprar alguma coisa”. Fui salvo pelo meu olhar que, distraído, percebeu em uma parede uma estante de madeira muito clara onde havia livros. Aproximei-me. Com uma exceção, eram volumes sobre artistas, viagens, natureza, decoração.

A exceção era um romance de 142 páginas, intitulado Dans la forêt du hameau de Hardt, com uma capa sedutora, de fundo branco, na qual folhas — de que apenas o contorno era verde — encobriam em parte as letras do título. Havia sido lançado em janeiro.

Nem o autor, Grégory Le Floch, nem a editora, Éditions de l’Ogre, diziam-me qualquer coisa. Enquanto minha filha e o namorado, mergulhados em seu universo a dois, dialogando, examinavam objetos de cerâmica, folheei o livro. Rapidamente, ele capturou minha imaginação. Havia um mistério, a morte de um personagem. Havia alguém em crise emocional. O estilo era peculiar e cativante. Quis comprá-lo. Preconceitos arcaicos, porém, apoderaram-se de mim. Aquilo não era uma livraria; portanto, livros vendidos ali não podiam ser levados a sério. Não me ocorreu pensar que eu não entendia o conceito de concept store e que, possivelmente, a presença do livro dava a ambos, loja e romance, uma aura adicional. O próprio nome da loja, aliás, é uma referência literária, mas o romance de Huysmans marcou-me pouco quando o li na adolescência.

Saímos. Prosseguimos com nosso passeio. No domingo, acordei pensando nas linhas que eu lera na véspera, em uma ou outra página do romance. Durante o dia, e também na segunda-feira, tentei comprá-lo. Não consegui. Cada livreiro pesquisava no computador e me dizia que eu encontraria Dans la forêt du hameau de Hardt nessa ou naquela outra livraria, mas nenhuma ficava perto dos diferentes lugares aonde eu pretendia ir.

Surgiu em mim grande frustração. Um livro pode ser como um remédio, de que precisamos para sobreviver, para curar uma doença. Estou sempre em busca do livro que resolverá tudo na minha vida; que, ao ser lido, eliminará qualquer problema e a sensação física de uma carência. Esses livros, na verdade, existem. Estão por toda parte. Aparecem inesperadamente em nossas vidas. Há muito de acaso nisso; no entanto, ao lê-los temos a sensação de que, a partir dali, vamos viver de forma idílica, pacífica, com a mente satisfeita. Sentimos que aquele era o elemento que faltava; a partir de agora estaremos completos. Pode ser por causa da história como um todo, por causa da perfeição de uma frase, por causa da apresentação gráfica. Pode ser também por uma fantasia, uma projeção que fazemos sobre aquele volume, sem muito entender a razão. Se é um livro de não ficção, pode ser porque trata de um tema de interesse profundo para nós, sobre o qual nova luz é jogada. Seja qual for a razão, o remédio faz seu efeito. A questão é que essa é uma sensação apenas temporária. Deixamos de tomar o remédio, e o corpo sente sua falta. Logo precisaremos encontrar outro livro.

Na terça-feira, meu último dia em Paris, fui de manhã a uma de minhas livrarias prediletas, a Delamain, na place Colette, em frente à Comédie-Française. Eles não tinham o romance de Grégory Le Floch, mas indicaram o lugar mais próximo onde eu poderia encontrá-lo, uma livraria chamada Petite Égypte. Lá pude ir apenas no final da tarde. Entrementes, eu almoçara com o escritor Leonardo Tonus na Sorbonne, onde ele leciona, e tentara inutilmente comprar o livro no Quartier Latin.

Achamos que conhecemos bem uma cidade, e ela nos surpreende sistematicamente. Jamais eu ouvira falar que, em pleno 2ème arrondissement, há um canto conhecido como Petite Égypte — cercado pela rue du Nil, a rue du Caire e a rue d’Aboukir —, que dá seu nome à livraria. Esta, por sinal, é excelente. A livreira mostrou-me um exemplar de Dans la forêt du hameau de Hardt. Perguntei se ela o tinha lido. Respondeu que não, mas comentou gostar muito dos títulos publicados pelas Éditions de l’Ogre.

Paguei o livro e saí. Estava atrasado. Tinha entradas para a Ópera, sala Bastille, onde assistiria a uma produção inovadora de Les Indes Galantes. Esperavam-me Rameau e a amiga que eu convidara para escutar sua obra-prima. No metrô, percebi ter gastado o dia em Paris atrás de um livro. Senti porém que valera a pena. O próprio fato de eu ter conseguido comprá-lo, depois de tanto esforço, tornava o mundo um lugar mágico. Segurá-lo nas mãos dentro do vagão do metrô era a cura para a doença que ele próprio criara, a necessidade de lê-lo.

No dia seguinte, no voo de volta para o Brasil, mergulhei na prosa de Grégory Le Floch. O livro — que ganharia poucas semanas depois um prêmio da Fondation Prince Pierre de Monaco — marcou-me pela dificuldade do personagem principal, Christophe, em narrar a morte, de que fora testemunha, de um amigo na Calábria. A personalidade inquietante de Christophe — não sabemos se ele é apenas de uma timidez doentia, ou um verdadeiro néscio, ou se sofre de distúrbios psicológicos — forma a base de um texto que trata da dificuldade de narrar, de escrever, de falar, de compartilhar pensamentos e histórias. Relatar o que presenciou na Calábria representaria para Christophe uma morte mental: “meu espírito não sobreviveria à narração daquela história […] essas palavras me matariam, não literalmente, eu já disse, mas me matariam mesmo assim definitivamente”. Na impossibilidade de contar o que presenciou, foge para uma aldeia na Alemanha, frente a uma floresta, e lá permanece por dez anos.

O toque cruel é que ele decide estar pronto a contar o que viu dez anos antes apenas quando a família do amigo morto encontrou a paz e já não precisa de sua história. Christophe pega o carro, volta à França, chega à casa da mãe do amigo morto e encontra a família toda reunida, por motivos indefinidos. A sua narrativa, que conclui o romance, é construída como uma cena de teatro.

A fala final de Christophe lembrou-me uma das tiradas mais célebres do teatro francês, le récit de Théramène. Em Phèdre, a peça mais famosa de Racine — embora não a minha predileta — Teseu exila o filho, Hipólito, acusado injustamente pela madrasta, Fedra, de ter tentado seduzi-la. Teseu, cegado pela raiva, não percebe que na verdade é Fedra quem ama Hipólito. O deus Netuno, acolhendo o desejo de vingança de Teseu, lança contra o príncipe um monstro marinho, na estrada à beira-mar pela qual partia para o exílio. Não vemos em cena a morte de Hipólito; ouvimos, junto com Teseu, detalhes de como ela se deu, por meio da narrativa de Théramène, seu preceptor e amigo.

A família do amigo morto, plateia de Christophe, reagirá à sua fala aterrorizante, devemos imaginar, com o mesmo estupor com que Teseu e o público de teatro reagem ao relato de Théramène. Tal qual o ator que abandona o palco após uma fala dramática, Christophe deixa a casa ao concluir seu terrível discurso. Presumivelmente, sua personalidade mudará; ficará menos arisca. Christophe pôde, depois de dez anos de sofrimento, narrar a sua história. Venceu seus temores. Encontrou-se. Libertou-se.

O voo aterrissou. Durante alguns dias, vivi em paz. Estava curado. Nenhuma fome por novas histórias e nenhum livro visto ao acaso me perturbaram. Poucos dias depois, a moléstia voltou, implacável.

 

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Versão diferente e mais longa deste texto foi publicada pelo jornal Rascunho, com o título Perdido na Floresta

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A culpa foi da Mona Lisa

A culpa foi da Mona Lisa

Em setembro, de férias em Paris, animou-me a notícia de que a Mona Lisa estava provisoriamente instalada na Galerie Médicis do Louvre, enquanto a sala onde habitualmente fica era reformada e pintada de azul. Há muitos anos, venho tentando rever a galeria onde ficam expostos os quadros encomendados a Rubens por Maria de Médicis, viúva de Henrique IV e mãe de Luís XIII, para celebrar sua própria vida.

Filha do grão-duque da Toscana e de uma arquiduquesa da Áustria, Maria casou-se com Henrique IV em 1600. Os Médicis, embora tivessem já dado uma rainha à França, Catarina, morta em 1589, e fossem ilustres há duzentos anos como patronos das artes, eram uma família reinante de origem apenas burguesa. Maria foi chamada pelos franceses de “a banqueira gorda”. Regente da França em nome do filho após o assassinato do marido em 1610, ela passou por todo tipo de vicissitudes. Ambiciosa, mas temperamental e não muito inteligente, demonstrou grande capacidade para atrapalhar a própria existência. Fugindo da França em 1631, morreu exilada e endividada em Colônia, em 1642. Sofreu ainda o dissabor de ver seu protegido, o cardeal de Richelieu, cuja ascensão ela promovera, suplantá-la politicamente junto a Luís XIII e causar seu exílio.

Maria seria hoje talvez uma rainha esquecida, se não fosse a sua atividade como protetora das artes. Devemos a ela a construção do palácio do Luxemburgo, em Paris, onde morou. Para decorá-lo, idealizou um ciclo pictórico sobre si mesma. Desejava, por meio de quadros, mostrar a sua trajetória como algo belo, grandioso, memorável. Queria ser lembrada como aquilo que não era, esposa e mãe amorosa e rainha sábia e competente. Atribuiu essa tarefa ao grande artista barroco, o flamengo Peter Paul Rubens. Entre 1622 e 1625, o pintor realizou 21 quadros povoados, além de Maria, de figuras mitológicas, e mais três retratos da rainha e de seus pais. O talento de Rubens imortalizou uma soberana medíocre, revestindo de glamour a sua imagem.

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Scala Archives

Minhas tentativas de revisitar a galeria, no segundo andar da aile Richelieu, terminam sempre em fracasso. Já me aconteceu de entrar no Louvre especificamente para isso, mas vou parando pelo caminho, minha atenção é desviada por outras obras-primas, pego outros rumos pelo museu, perco-me. Quando eu era criança, adolescente, universitário, os 24 quadros eram expostos em outro canto do museu, então eu simplesmente não consigo mais chegar até eles.

Em setembro, minha visita à casa de Rubens em Antuérpia, poucos dias antes de chegar a Paris, tornara mais intensa a vontade de rever a Galerie Médicis. Julguei que naquele momento isso seria facílimo, pois o percurso até a residência temporária da Mona Lisa, ídolo das multidões, estaria certamente apontado com cartazes e flechas. Minha filha, ao me ouvir durante o almoço expressar essa opinião, mostrou-se cética: “Não sei… acho que a presença da Mona Lisa na galeria pode complicar mais as coisas”.

Só consegui chegar ao Louvre setenta minutos antes de o museu fechar. Na pirâmide, os guardas não me deixaram entrar, por causa da hora. Andei rápido até a porta na rue de Rivoli, desci as escadas rolantes e atravessei o corredor subterrâneo de lojas. Lá o guarda foi mais tolerante. Entrei. Como eu previra, cartazes indicavam de maneira ostensiva a localização da Mona Lisa. Havia uma fila, contida por uma barreira, de pessoas esperando para pegar as escadas rolantes e subir à aile Richelieu. Lembrei que eu estava sem bilhete de entrada. Perguntei aos guardas se era necessário comprar um, considerando que o museu fecharia dali a uma hora. Disseram que sim. Corri até as máquinas eletrônicas, mas já estavam trancadas. Fui à única bilheteria onde havia ainda um vendedor, que hesitou em me dar uma entrada: “O museu vai fechar daqui a menos de uma hora. Tem certeza?”. Respondi usando a cartada da favorita do grande público, a atração maior do museu: “Sim, por favor, um bilhete, só quero ir até a Mona Lisa”. Tecnicamente, era verdade.

Com a entrada na mão, voltei rápido até a fila. Só que não havia mais fila. Naqueles três, quatro minutos em que eu me ausentara, a barreira fora levantada, e o grupo subira as escadas rolantes. Os turistas deviam agora estar caminhando pelas salas da aile Richelieu, em direção ao segundo andar, cantarolando de alegria com a perspectiva de ver a florentina do sorriso misterioso, sem saber que veriam também as enormes pinturas celebrando outra florentina, a rainha morta no exílio. Os guardas já não deixavam entrar ninguém. Implorei. Expliquei. Fiz como todo mundo, e declarei não poder partir sem ver a Mona Lisa. Inútil. Tive de desistir. Pensei em ir embora mas, afinal, pagara pela entrada. Apenas o acesso à aile Richelieu fechara, por causa da multidão sequiosa por aquele sorriso. As outras alas estavam abertas.

Fui diretamente às salas de escultura romana, que são há alguns anos meu lugar preferido no museu e estão aliás instaladas nos antigos aposentos de verão da nora de Maria de Médicis, a mulher de Luís XIII, Ana de Áustria. Lá também uma decepção me esperava. O busto de Germânico que eu queria rever — o museu possui vários — estava emprestado para a exposição em Roma sobre seu irmão, o imperador Claudio.

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A hora de fechamento do museu encontrou-me na Grande Galerie, repleta de quadros italianos importantes, inclusive de Leonardo da Vinci, e onde eu, pela centésima vez, meditava por que aquelas pinturas são menos famosas do que a Mona Lisa. Os visitantes começavam a ser gentilmente conduzidos para a saída. Muitos reclamavam. Não eu. É importante ter sempre uma razão para voltar aos lugares de que gostamos. Algum dia, conseguirei rever o ciclo de Maria de Médicis.

À noite, jantando com minha filha, narrei-lhe minha desventura. Ela me olhou e disse: “Bem, pelo menos, você pôde ver outras salas, Mas papai, era tão evidente que a presença da Mona Lisa na galeria ia impedir você de chegar lá. Como você pode ter achado o contrário?”. Abanou a cabeça e suspirou.

Sorri. Senti-me realizado; feliz. É a melhor das sensações, quando vemos os filhos serem mais prescientes do que nós.

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Uma casa em Antuérpia

Uma casa em Antuérpia

No verão de 1629, Peter Paul Rubens estava em Londres, negociando uma trégua no conflito entre a Espanha e a Inglaterra, o que levaria, no final do ano seguinte, à assinatura de um tratado de paz. De Londres, enviou uma carta, em 8 de agosto, a seu amigo o erudito Pierre Dupuy, bibliotecário do rei de França, no caso Luís XIII. Escrevendo em italiano, como quase sempre fazia em sua correspondência, Rubens dizia ao amigo que teria de permanecer na Inglaterra ainda um pouco: “apesar do meu desejo de respirar uma vez mais na minha própria casa” (con desiderio di respirar qualche tempo in casa mia). E acrescentava que a casa “realmente precisa da minha presença, pois quando retornei de Espanha fiquei em Antuérpia apenas três ou quatro dias”. O pintor e diplomata permaneceria na Inglaterra, porém, até março de 1630.

Há alguns anos, também eu vinha acalentando o sonho de voltar a respirar o ar da casa de Rubens, hoje um museu em homenagem ao artista. Corroía-me a vontade de revê-la — pois é, aos meus olhos, desde a infância, um lugar fascinante — e, dentro dela, um busto de mármore que o artista acreditava representar Sêneca. O filósofo estoico é minha leitura predileta nas horas de tristeza ou preocupação.

Em setembro, minha mulher e eu estivemos em Bruxelas, de férias, visitando nossa filha. Antuérpia pareceu um sonho facilmente realizável. Uma terça-feira, levei minha mulher ao aeroporto de madrugada, pois ela precisava regressar ao Brasil antes do previsto, e o voo decolaria às 06:15. O plano era que, na tarde daquele mesmo dia, eu viajaria a Londres. No táxi, ela me pediu: “Não vá a Antuérpia, você só vai se cansar. Eu vou ficar preocupada. Por favor, vá direto para Londres”. Prometi.

Do aeroporto, voltei ao hotel. Fiz a mala, desci para tomar café e olhei no celular os horários dos trens para Londres. À medida em que cafeína, proteínas, carboidratos iam entrando no meu sistema, comecei a relativizar o peso da promessa feita. Julguei que eu a fizera para tranquilizar minha mulher. Esse objetivo fora cumprido. Pensei em Rubens, em Sêneca, na casa.

Fui para a estação. Convém ao viajante aventureiro saber que há dois tipos de trem no trajeto Bruxelas-Antuérpia. Um, direto, de alta velocidade, faz a viagem em 35 minutos. O outro tipo leva de 45 a 75 minutos, dependendo do número de paradas. Comprei bilhete para o trem seguinte. Infelizmente, era o mais lento de todos. E assim, fui parando em pequenas cidades de que nunca ouvira falar, apesar dos muitos anos em que morei, criança e adulto, na Bélgica. Adolescentes subiam de mochila e desciam na estação seguinte. Tudo parecia bem campestre.

Eu deixara todos os livros na mala em Bruxelas e desligara o celular, para economizar a bateria. Assim, tive o lazer de pensar sobre aquela insistência em revisitar a Rubenshuis. Comecei a me perguntar se meu objetivo não era o de postergar, ao máximo possível, o momento em que eu deixaria a Bélgica e colocaria, entre minha filha e eu, uma distância física maior. Quis ligar, para avisá-la de que eu estava a caminho de Antuérpia, e não ainda de Londres, mas sabia que ela passaria a manhã em uma reunião importante. Tive o impulso de cancelar a ida à Inglaterra e passar mais uns dias em Bruxelas. Lembrei das Cartas a Lucílio, onde Sêneca pondera que “estar em todo lado é o mesmo que não estar em parte alguma”. Pensei nos amigos que eu não tivera tempo de ver em Bruxelas, e sobre isso também a segunda carta a Lucílio tem algo severo a dizer: “Quem passa a vida em viagens tem muitos conhecidos, mas nenhum amigo verdadeiro”.

Acontece, porém, que obras de arte, os artistas que as criam e os museus que as abrigam podem também ser excelentes amigos, assim como livros e seus autores. A ida a Antuérpia parecia-me um esforço de reencontrar velhos e íntimos conhecidos: a cidade, o pintor, a Rubenshuis, seu conteúdo, o busto do pseudo-Sêneca — que não representa as feições do filósofo, mas torna-o simbolicamente presente naquele ambiente — e a própria atmosfera da casa. Como Rubens na carta a Pierre Dupuy, eu sentia que ficara tempo demais sem respirar aquele ar.

Chuviscava em Antuérpia. Coloquei o casaco e caminhei até a Rubenshuis, no coração da cidade.

Rubens comprou a casa em 1610. Dois anos antes, ele voltara da Itália, onde residira por oito anos — com um pequeno intervalo durante sua primeira viagem à Espanha, entre 1603 e 1604. O artista desenhou e construiu uma nova ala, de inspiração italiana. Por isso, a Rubenshuis é descrita como sendo “palaciana”, ou “no estilo de um palazzo italiano”. Lá ele morou, com interrupções devidas a variadas e prolongadas viagens, até morrer na casa em 1640. Lá também trabalhava com seus assistentes, em um amplo e arejado estúdio. Modificada, decaída, desfigurada com o tempo, a casa foi, no século XX, restaurada, na medida do possível, ao que terá sido enquanto Rubens lá viveu.

De certa forma, já então a residência do artista era um museu, pois Rubens foi um colecionador importante de pinturas dos séculos XVI e XVII, particularmente da escola veneziana, de esculturas antigas, de medalhas e de objetos preciosos. Sua coleção era um marco nos Países Baixos espanhóis e atraía visitantes ilustres. Em seu livro publicado em 1672 sobre a vida de pintores do século XVII, Giovanni Pietro Bellori escreve sobre Rubens: “non passando forestiere alcuno in Anversa che non vedesse il suo Gabinetto“. Sem dúvida, a coleção e a ala italianada da casa consagravam também o prestígio social do artista, que foi enobrecido por Filipe IV de Espanha e por Carlos I de Inglaterra pela sua atuação na negociação de paz entre os dois países. Após a morte de Rubens, o catálogo das obras de arte a serem vendidas por seus herdeiros incluía mais de mil peças. Filipe IV, sozinho, comprou 29 quadros.

Por essa razão, obras que pertenceram a Rubens podem ser vistas em diversos museus. Sua coleção é objeto de um estudo publicado em 1989 pelo professor de história da arte Jeffrey M. Muller, Rubens: The Artist as Collector. Muller trata do tema com verdadeiro afeto: “Rubens’s collection is like a vanished work of art, even more ephemeral than a painting, because when he died the spirit of the collection departed and its physical shell disintegrated quickly“. A atividade de Rubens como colecionador — que se soma aos seus talentos como artista e diplomata — é mencionada por Jonathan Brown em seu livro Kings & Connoisseurs, Collecting Art in Seventeenth-Century Europe.

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Curiosamente, Muller não menciona uma das peças mais ilustres da coleção de Rubens, hoje exibida no Walters Art Museum, em Baltimore. Trata-se de um vaso bizantino de ágata decorado com folhas de vinha e duas cabeças de sátiro, do século V, com uma história imponente e pitoresca. Em uma carta de 18 de dezembro de 1634 a outro amigo francês, Nicolas-Claude Fabri de Peiresc, célebre homem de ciência e de letras, Rubens menciona que o vaso fora capturado por piratas holandeses quando estava sendo transportado, por razões que ele não explica, para a Índia.

A Rubenshuis contém alguns quadros do artista, assim como do mais famoso de seus discípulos, Van Dyck, e de alguns contemporâneos. As naturezas-mortas de pintores flamengos do século XVII são numerosas e excelentes. Há uma recriação dos diferentes ambientes — quartos, salas, cozinha, estúdio e galerias onde era exposta a coleção.

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Um dos quatro auto-retratos existentes de Rubens está na casa, onde vemos sua preocupação em se apresentar como um homem distinto, elegante, de elevada posição social.

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De repente, cheguei à entrada da sala semi-circular construída por Rubens, denominada “Panteão”, obviamente inspirada no Pantheon romano, onde ele exibia parte de sua coleção de esculturas antigas e onde o visitante de hoje pode ver o pseudo-Sêneca:

Sabe-se que Rubens trouxe com ele o busto de mármore, do século I, ao regressar da Itália, em 1608. Estava convencido de que se tratava de uma representação do estoico. Há várias esculturas em diferentes museus reproduzindo essas feições. Supõe-se, hoje, que o retratado era um poeta, dramaturgo ou outro filósofo, possivelmente grego, caro aos romanos. O modelo do pseudo-Sêneca, a que pertence o busto da Rubenshuis, mereceu um capítulo no catálogo da exposição D’après l’antique, que o Louvre montou em 2000 sobre a influência cultural, ao longo dos séculos, de obras famosas da antiguidade.

O busto possivelmente foi incluído por Rubens na venda que fez, em 1626, de parte de sua coleção ao duque de Buckingham. O duque é célebre por ter sido favorito do rei Jaime I de Inglaterra e de seu filho, Carlos I, e por ter mantido com a mulher de Luís XIII, Ana de Áustria, uma intensa relação, o que é um dos temas de Alexandre Dumas em Les Trois Mousquetaires. Na verdade, não há certeza se o busto que hoje vemos na Rubenshuis — comprado em um leilão em Paris na década de 1950é o exemplar do pseudo-Sêneca que pertenceu ao pintor. Há quem argumente que sim; há quem pense que o busto que foi de Rubens é na verdade outro exemplar do pseudo-Sêneca, exposto hoje no museu Ashmolean, em Oxford.

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Em um quadro pintado em 1611 ou 1612, Os Quatro Filósofos, o artista retratou-se com seu irmão Filipe, morto em 1611, e um famoso humanista flamengo, Justus Lipsius (1547-1606), de quem Filipe Rubens era discípulo. Lipsius reviveu o estoicismo como filosofia e editou as obras de Sêneca. Hoje, empresta seu nome a um prédio cavernoso das instituições europeias, em Bruxelas, onde muitas vezes participei de reuniões. A quarta figura no quadro é outro seguidor de Justus Lipsius, Joannes Woverius, amigo dos irmãos Rubens. Em um nicho à direita, pairando acima dos quatro homens, está o busto do pseudo-Sêneca. A escultura aparece também em desenhos de Rubens e serviu de inspiração para o rosto em outro quadro seu, de que há algumas cópias, A Morte de Sêneca. O busto pertencente a Rubens também ilustrou uma nova impressão, em 1615, das obras do filósofo estoico editadas por Lipsius, a cargo de Balthasar Moretus, célebre editor e humanista, para quem Rubens pintou uma das versões de A Morte de Sêneca.

O busto na coleção do pintor, portanto, deve ter sido bastante famoso em seu tempo. Dele aliás parece ter sido feito um molde de gesso, cópias do qual aparecem em quadros de outros pintores. Um professor de história da arte, Wolfram Prinz, em um ensaio de 1973, analisou a frequente presença pictórica, no século XVII, do pseudo-Sêneca de Rubens. Prinz menciona que o busto de Rubens era a única imagem do filósofo existente “ao Norte dos Alpes” naquela época. O professor James Ker, em The Deaths of Seneca, escreve ser o busto “an instance of willful projection, in which inauthenticity is outweighed by perceived authority — by the perceived correspondence between physiognomy and idea“. As feições do pseudo-Sêneca, enrugadas, emaciadas, sofridas, intensas, com ar dramático, simplesmente correspondiam à imagem que se queria ter do filósofo, no Barroco.

Assim, no círculo erudito frequentado por Rubens, o apreço por Sêneca fazia parte da atmosfera. Justus Lipsius viu no estoicismo, argumenta Wolfram Prinz, uma forma de lidar com o sofrimento causado pela violência das guerras de religião e da revolta holandesa, iniciada em 1568, contra o domínio espanhol.

Praticar efetivamente o estoicismo, contudo, podia ser mais árduo. Em outra carta enviada a Pierre Dupuy, de Antuérpia, em 15 de julho de 1626, comentando a recente morte de sua primeira mulher, Isabella Brant, Rubens comunica a sua dor e diz: “Não tenho a pretensão de chegar à impassibilidade estoica” (io non ho pretensione d´arrivar giammai alla impassibilità stoica).

Da prodigiosa quantidade de cartas escritas por Rubens sobrevivem 250, editadas em 1955 por Ruth Saunders Magurn. Em nenhuma delas encontro menção a Sêneca ou ao busto. Seria fascinante sabermos mais sobre como o adquiriu e o que pensou ao se desfazer dele.

Pergunto-me se, para Rubens, Sêneca não representava também uma advertência moral. O filósofo teve de se suicidar — e o fez com coragem e dignidade — por ordem de seu ex-pupilo, Nero, que o tornara riquíssimo e que em troca ganhara no início de seu governo, graças ao preceptor, a aura, afinal falsa, de imperador digno de Augusto. Os textos de Sêneca ajudavam, no século XVII, a suportar a violência e as incertezas daquele tempo. A vida de Sêneca ilustrava os méritos e os riscos, para o intelectual ou artista, na relação com o governante. Rubens conheceu de perto as cortes de Mântua, Bruxelas, Madri, Paris e Londres. Os retratos que pintou de soberanos e favoritos ajudaram a criar dos poderosos uma imagem idealizada. Ao mesmo tempo, o artista deles recebeu prestígio, nobreza e dinheiro. Rubens foi, em 1609, nomeado pintor da corte do arquiduque Alberto da Áustria e da infanta Isabel Clara Eugenia de Espanha que, primos e cônjuges, governavam juntos os Países Baixos espanhóis. Na década de 1620, graças à confiança que nele tinha a infanta, exerceu a sua intensa atividade político-diplomática. Um de seus correspondentes era o poderosíssimo conde-duque de Olivares, primeiro-ministro de Filipe IV. Rubens foi nomeado pelo rei secretário de seu conselho privado.

No entanto, em 16 de março de 1636, retirado da vida pública, o artista declara em carta a Peiresc: “ho in horrore le corti”. E acrescenta: “aprendi por meio de longa experiência o quanto os príncipes agem lentamente quando se trata do interesse de outras pessoas, e quão mais fácil é para eles fazer o Mal em vez do Bem”.

Na carta a Peiresc de 1634 em que menciona o vaso bizantino, Rubens escreve que “nos últimos três anos, pela graça divina, encontrei a paz de espírito, e renunciei a qualquer forma de atividade além de minha adorada profissão [de pintor]”. Continuando, diz: “Devo muito à Fortuna, pois posso dizer sem pretensão que as minhas missões e viagens à Espanha e à Inglaterra foram extremamente bem-sucedidas. Efetuei negociações da mais alta importância”. Rubens explica que, “tendo atingido o ápice do favor junto à Sereníssima Infanta e aos principais ministros do rei”, tomou a decisão “de fazer violência a mim mesmo e de cortar o nó dourado da ambição” (tagliar questo nodo d’oro). Rubens confidencia a Peiresc ter percebido que “um retiro desse tipo deve ser feito enquanto estamos subindo, e não caindo; que devemos abandonar a Fortuna enquanto ela ainda é favorável”. O tom elevado da carta é prejudicado quando, no final, Rubens pede a Peiresc ajuda para ganhar uma causa no Parlamento de Paris contra um gravador que copiava sem autorização suas gravuras, causando-lhe “grave prejuízo e dano”.

Se nenhuma das cartas sobreviventes de Rubens fala em Sêneca, três falam no Brasil e na Bahia, por causa das iniciativas holandesas contra Salvador, sendo Filipe IV de Espanha também rei de Portugal. Uma dessas cartas, enviada a Pierre Dupuy em 1º de junho de 1628, pertence hoje ao colecionador Pedro Corrêa do Lago.

Que o busto de mármore exibido na casa represente outro filósofo ou poeta, em vez de Sêneca; que talvez nem seja o busto que pertenceu a Rubens; que o neo-estoicismo tenha sido no artista afetação ou convicção, nada disso me pareceu relevante, ao revisitar a Rubenshuis. O importante era estar ali, respirar aquele ar, incorporar o ambiente, compreender a forma de vida de um dos artistas mais talentosos de sua geração, pensar que Sêneca foi valorizado naquela atmosfera, preservar esses vínculos.

Sob um céu cinzento, passeei sozinho pelo jardim deserto. Vi a fachada posterior da casa com suas esculturas, a arcada e o pavilhão neoclássicos construídos por Rubens, as árvores, os arbustos. Minha filha porém começava a me escrever no celular. Sua reunião terminara. Preocupou-se em que eu não perdesse o trem Bruxelas-Londres.

Ao voltar para a imponente estação de Antuérpia, consegui um trem mais rápido do que o de vinda, embora o de 35 minutos tenha continuado a me eludir. Recuperei minhas malas na estação em Bruxelas; embarquei. Às oito da noite, estava já no meu hotel em Londres.

Senti que havia vencido o tempo, as gerações, a geografia, a morte.

À memória de Ivan Cannabrava,
que partiu ontem e permanece para sempre amigo incomparável.

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O Mar por toda parte

O Mar por toda parte

Passei este ano o melhor Carnaval do mundo: com a minha mulher, na casa onde nos casamos, na beira da praia, acompanhados por silêncio e tranquilidade, rodeados pelo oceano de um lado e pela Mata Atlântica do outro.

Levei comigo alguns livros, mas isso não teria sido necessário, pois a casa contém, ainda intacta, a biblioteca secundária de meus sogros. Na postagem O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks aludi a essa casa. O que não disse, naquela ocasião, é que o prazer de lá estar, ao longo dos anos, inclui o de mergulhar em sua biblioteca. Fico lendo na praia, na varanda, à beira da piscina ou na sala onde me casei, de onde observo, pelas paredes de vidro, o sol se levantar ou cair no horizonte, ouvindo e vendo o mar.

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Ao longo de sucessivos férias e feriados na praia, passei dos romances de F. Scott Fitzgerald — foi nessa casa que aprendi a gostar dele — à monumental biografia, em quatro volumes, do primeiro duque de Marlborough, John Churchill, escrita por Winston Churchill, seu descendente, e publicada entre 1933 e 1938. Um volume, aliás, o segundo, desapareceu. Sempre me pergunto onde terá ido parar. No Carnaval, toquei no assunto com a minha mulher, que respondeu, meditativamente: “Não sei. Ninguém sabe. Sumiu faz muito tempo”. Isso só confirmou minha opinião de que os livros possuem vida própria.

Marlborough: His Life and Times voltou a despertar minha atenção recentemente, porque o duque e sobretudo sua mulher, Sarah Jennings, são personagens do extraordinário filme de Yorgos Lanthimos, The Favourite, que era meu preferido na corrida ao Oscar. O filme oferece uma visão pessoal do diretor sobre a relação entre Sarah e a rainha Anne, que reinou de 1702 a 1714. Lembrando que a amizade entre elas começara na infância e fora durante décadas “deep and strong“, Churchill nos diz que em 1709 essa relação já estava desgastada: “Nothing remained of that remarkable partnership except the opportunities of quarrel“, o que atribui à personalidade forte e difícil de sua antepassada.

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Winston Churchill, neto do sétimo duque de Marlborough — e nascido no palácio de Blenheim, a pouco modesta casa de campo da família, construída pelo primeiro duque e Sarah — ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1953, escreveu com a biografia de seu antepassado uma obra monumental. A edição da casa de praia, embora tenha cerca de mil páginas, é abreviada. O original chega ao dobro. É uma leitura fascinante. John Churchill foi um celebérrimo e vitorioso general na Guerra de Sucessão da Espanha. Na visão de seu descendente, suas vitórias fizeram do reinado de Anne um dos momentos mais ilustres da história inglesa.

Churchill examinou nos arquivos de Blenheim as cartas de amor escritas por John Churchill a Sarah, entre 1675 e 1677. Os dois eram então jovens, solteiros, vivendo o início da paixão e, embora exercessem ambos cargos na Corte do rei Carlos II, tio da futura rainha Anne, não detinham ainda o poder e o prestígio que teriam mais tarde. É comovente ler as cartas onde expõe seu coração o futuro duque e general, que chegou a ser, durante algum tempo, o homem público mais importante do país. Escreve John Churchill à ainda adolescente Sarah Jennings: “É cruel, minha Alma, ser forçado a estar em um lugar sem que eu possa ter a esperança de vê-la”; “Assim que eu soube de seu mal-estar, juro, sem afetação, que também fiquei doente”; “Se você não for gentil comigo, eu a amo tanto que não poderei sobreviver, pois você é minha vida, minha alma, tudo que eu mais valorizo neste mundo”.

Há muito tempo, outras cartas chamavam minha atenção na biblioteca. Elas estão contidas em um volume de capa dura que, com a lombada branca meio surrada, na foto abaixo aparece na prateleira do meio, ao lado de Galápagos, de Kurt Vonnegut, um dos autores de predileção de minha sogra e, aliás, também de meu pai. Trata-se de uma edição de 1949, na coleção Clássicos Jackson, das cartas do Padre Antonio Vieira.

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O pregador, grande favorito de minha mulher, começou a me interessar no início do nosso namoro, pois ela já possuía então a edição de 1959 dos Sermões, em cinco volumes, em papel bíblia, pela editora Lello & Irmão, do Porto. É nessa edição que acabo de ler, por exemplo, o Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma de 1644, em que o autor disseca os sentimentos de amor, amizade e ódio e suas correlações. Diz ele: “Isto que no mundo se chama amor, é uma coisa que não há, nem é: é quimera, é mentira, é engano; é uma doença da imaginação e por isso basta para ser tormento”. De maneira geral, os sermões de Vieira que abordam os temas de amor ou amizade postulam que todo afeto terrestre é uma ilusão. Um argumento frequente seu, pode-se resumir, é que só Jesus sabe amar e, por isso, só ele merece o nosso amor.

Entre as setenta cartas incluídas no livro da biblioteca da praia, porém, vemos em várias um Vieira afetuoso. Carta escrita em 1653, do Maranhão, ao Padre Francisco de Morais termina da seguinte maneira: “Ah amigo, quem pudera trasladar-vos aqui o coração, para que lêsseis nele as mais puras e as mais importantes verdades, não só escritas ou impressas, senão gravadas”. Trinta anos depois, em 1683, da Bahia, Vieira escreve ao Cônego Francisco Barreto: “A falta de carta de V. Mcê, em tanta continuação de navios, me tinha muito sentido, posto que não desconfiado, como quem tão seguro está na verdade do afeto de V. Mcê”.

Dependendo do interlocutor, do momento, do local onde foram escritas, das circunstâncias históricas, as cartas mostram Antonio Vieira preocupando-se com política, economia, diplomacia, religião, catequese e direitos de indígenas brasileiros, etnografia, profecias, amizade. O que nunca vemos nas cartas é Antonio Vieira frio, indiferente. Há uma intensidade constante. Nas cartas, como nos sermões, há no tom uma teatralização do mundo.

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Vieira era um temperamento peripatético. Em uma ocasião, há alguns anos, lendo as cartas na praia, listei os muitos lugares onde ele esteve, além de Portugal: Bahia, Maranhão, Pará, Ceará, Olinda, Cabo Verde, Roma, Haia, Dover, Florença, Paris, Rouen, Açores.

Ouvindo as ondas morrerem quase que no muro do jardim, eu ficava maravilhado com a coragem com que Vieira, no século XVII, subia aos barcos frágeis do seu tempo. Sete vezes, ele atravessou o Atlântico; sofreu tempestades, naufrágios e o desconforto de viagens que podiam durar dois meses, e bem mais se surgiam contratempos. Ao menos duas vezes, ele foi recolhido por piratas.

Em dezembro de 1652, o barco em que ia de Portugal ao Maranhão precisou, por razões de mau tempo, aportar por larga temporada em Cabo Verde. Escreve Vieira em carta ao Padre André Fernandes: “Faço esta em Cabo Verde, aonde chegamos com trinta dias de viagem, obrigados dos ventos contrários e de todos os outros trabalhos de tempestades, calmarias e corsários, que em mais compridas navegações se costumam padecer”. Em 1654, indo do Maranhão a Portugal, sofre novo naufrágio e aporta nos Açores. No Sermão de Santa Teresa, pregado na Ilha de São Miguel, declara: “Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas, como a em que eu e os companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar, e nós fora dele, pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus, e de sua Mãe. Não apareceu ali baleia que nos tragasse…”

Várias cartas comprovam o desejo de Antonio Vieira de estar no centro dos eventos e revelam as controvérsias em que, por causa de seu interesse pela política, ele se envolveu. O sublime orador, cujos textos alcançam a maior profundidade mística, não era desligado das coisas terrestres. Tinha sede de influenciar os rumos de seu país e foi próximo de D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança e restaurador, em 1640, da independência portuguesa após sessenta anos de jugo espanhol. A viagem ao Maranhão de 1652 é relevante para esta discussão, porque deveu-se a intrigas e ao ocaso de sua proximidade com o rei.

A edição dos Sermões da editora Lello & Irmão inclui biografia do orador pelo Padre Gonçalo Alves. Diz este sobre a viagem de Vieira de 1652 ao Maranhão: “afinal o rei, também já trabalhado fortemente pelos inimigos do grande pregador, e aguilhoado talvez pela desconfiança de que fora ele o conselheiro do príncipe [Teodósio, filho mais velho do rei, que com ele estava indisposto], não continuou a impedir-lhe a partida, e quando Antonio Vieira, a 22 de novembro de 1652, embarcou, esperando encontrar a bordo alguma nova ordem para não sair, não encontrou coisa alguma, e teve de partir”. Severo, o padre prossegue: “Foi esse o justíssimo castigo de sua duplicidade, porque, fingindo sempre que todo o seu desejo era ir servir a causa sagrada da religião católica, e que só muito constrangido obedecia às ordens reiteradas de el-rei que não podia passar sem ele, afinal foi vítima da sua própria comédia, e teve de partir, ferido cruelmente no seu amor-próprio, ao ver que o rei se desprendera com facilidade dos laços em que ele julgara tê-lo perpetuamente preso”. De fato, a carta já citada ao Padre Francisco de Morais, de 1653, começa com a frase: “Enfim, amigo, pôde mais Deus que os homens, e prevaleceram os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas. A primeira vez vinha contra a vontade de El-Rei; desta segunda vim até contra a minha, para que nesta obra não houvesse vontade mais que a de Deus”.

Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e faleceu em Salvador em 1697. Essa longevidade, em si atípica no século XVII, surpreende ainda mais em alguém que viveu em condições tantas vezes desconfortáveis, viajando no Brasil a aldeias indígenas distantes, sofrendo o antagonismo das autoridades coloniais, fazendo inimigos poderosos em Portugal ao se imiscuir em temas políticos e, por algum tempo, sendo processado pela própria Inquisição. Vieira morou no Brasil nos seguintes períodos: de 1615 — nessa primeira viagem transatlântica já quase naufragou na Paraíba — a 1640; de 1653 a 1654; de 1655 a 1661; e de 1681 até morrer. O resto do tempo, viveu na Europa, inclusive em Roma por seis anos. Conviveu com D. João IV e a rainha Luísa de Guzmán, com os filhos do casal, Teodósio, D. Afonso VI, D. Pedro II e Catarina, que foi rainha de Inglaterra por ter se casado com o rei Carlos II — um casamento famoso na História, porque a noiva levou Bombaim em dote à Inglaterra. Em Roma, Antonio Vieira conviveu com a rainha Cristina da Suécia e pregou em seu palácio. Em Paris, negociou com a rainha e regente Ana de Áustria e com o cardeal e primeiro-ministro Julio Mazarino.

Talvez o trecho mais cativante na correspondência esteja contido em carta escrita em 1654, do Pará. Descreve uma viagem sua de Belém ao rio Tocantins, pela foz do “rio das Amazonas”, em missão de catequese de povos indígenas. Diz a carta: “[…] cada um em sua canoa, e começamos a navegar por um mar de água doce. Derrotou-nos a escuridão da noite, e o Padre Antonio Ribeiro e eu a passamos amarrados às árvores de uma ilha, que nos serviram de âncoras e amarras”. Seduz a imaginação pensar no interlocutor dos reis e ator da cena política europeia navegando, quase só, pelos rios amazônicos, sob as estrelas de noite, e de dia vendo a mata, ouvindo apenas os barulhos da natureza. No justamente célebre Sermão de Santo Antonio aos Peixes, escrito em 1654, Vieira alude ao trecho anterior dessa viagem, de São Luís a Belém, ao dizer: “Navegando daqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa) vi correr pela tona da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia”.

Uma das mais belas cartas é a que escreveu à rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, em 1695. Viúva sem filhos do rei Carlos II, com quem se casara em 1662, Catarina regressara a Portugal em 1693. Durante as suas décadas na Inglaterra, não fora feliz. Antagonizada por ser católica em um país de religião oficial anglicana, tivera de conviver publicamente, na Corte, com as numerosas amantes do marido e seus filhos ilegítimos. Ao não ter ela própria filhos, Catarina falhara, na visão da época, na única missão destinada a uma rainha. Vieira a conhecera criança. Escreve ele, aos 87 anos, da Bahia: “Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades”.

Na carta à rainha Catarina, entramos na intimidade da família de D. João IV. Vieira cita diálogo que tivera sobre ela com sua mãe, a rainha D. Luísa de Guzmán, nascida nobre espanhola. Sendo ele “o correio fiel dos recados e lembranças da mãe e das saudades da filha”, relata que D. Luísa lhe dissera, a respeito de um presente que enviara a Catarina: “Estoy muy mal con Catalina, porque, enviándole unas perlas, me las agradeció“. Comenta Vieira: “Onde o agradecimento é ofensa, bem se podia ser secretário destes corações”. É notável que a carta resgate uma frase verdadeira, pronunciada há quase quatrocentos anos: podemos ouvir a voz da rainha de Portugal, que traduz seu sentimento de afeição pela rainha de Inglaterra, sua filha.

Terminava o feriado de Carnaval. Um pensamento antigo voltou à minha mente: seria errado eu retirar o livro das cartas de Antonio Vieira da casa e levá-lo comigo? Isso não estragaria a harmonia da biblioteca, conservada durante anos pelos meus sogros? Quando eu passava pelas estantes, porém, o olhar sempre se dirigia ao volume de capa dura, encadernado com tela branca, um pouco manchada pelo tempo. A própria tela me fazia pensar nas viagens marítimas de Antonio Vieira. As janelas perpendiculares às estantes mostravam o mar e as ondas.

No dia da partida, saímos cedo, pois iríamos ainda subir a serra até o aeroporto. Vendo o sol nascer no horizonte marítimo, eliminei minha hesitação, pousei as malas na porta de entrada, corri pelas escadas até a biblioteca e extraí da estante o livro branco.

Guardo-o comigo desde então.

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Um lugar encantado

Um lugar encantado

Quando viajo, costumo organizar rapidamente no quarto de hotel uma pequena biblioteca. Ando pelas ruas, entro nas livrarias que vejo ao acaso e raramente saio de mãos vazias. Mencionei, em postagem anterior, Seis livrarias, que estas surgem frente a mim como num passe de mágica. Pisco os olhos e lá está uma. É como em um conto das Mil e Uma Noites, e o tesouro que aparece do nada é uma livraria.

Em Paris, em julho de 2018, comprei um guia das livrarias de Paris, lançado no final de 2016 por François Busnel.

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Se você assistiu ao último filme de Roman Polanski, Baseado em Fatos Reais (D’après une histoire vraie), você sabe quem é François Busnel. O filme é inspirado de um romance de Delphine de Vigan publicado em 2015, com elementos autobiográficos. No romance, como no filme, o personagem principal, que também se chama Delphine, é uma escritora que namora um jornalista, apresentador de um programa literário na televisão, chamado François, inspirado em Busnel.

Delphine de Vigan é a companheira de François Busnel. Ele apresenta, no canal France 5, desde 2008, um excelente programa sobre livros, La Grande Librairie. No formato usual, Busnel convida uns poucos escritores para falarem de seus livros mais recentes, todos sentados em poltronas dispostas em volta de uma mesa de centro. Os móveis são contemporâneos. O cenário é colorido e visualmente atraente. São convidados a participar romancistas, às vezes historiadores, filósofos ou poetas. Ocasionalmente, o apresentador viaja ao exterior e entrevista escritores do país visitado. Busnel é particularmente fascinado com a literatura americana. La Grande Librairie costuma também focalizar, em cada edição, em poucos minutos, uma livraria específica, em Paris ou na província, entrevistando o proprietário. Recomendo fortemente o programa — acessível pela Internet — conduzido pelo apresentador com entusiasmo contagiante.

Comprei Mon Paris littéraire em uma das livrarias descritas pelo autor, Les Cahiers de Colette, na rue Rambuteau, perto do Beaubourg. Essa é, no meio literário parisiense, uma livraria mítica. A proprietária, Colette Kerber, sentada no caixa, disse-me, com simplicidade e modéstia, quando fui pagar o livro de Busnel: “Ele fala na minha livraria, nesse guia”.  Achei encantador o tom casual com que o comentário foi feito.

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Busnel nos informa que o painel de fotografias, “parte já da história parisiense”, mostra escritores admirados por Colette Kerber. Olhando rapidamente, reconheço Kafka, Beckett, abaixo dele Jean Genet e Cortázar com seu gato. Abaixo dos dois, à direita, na foto grande, Jacques Roubaud, escritor infelizmente pouco conhecido fora da França e membro do grupo literário OuLiPo. O segundo à direita de Beckett é Walter Benjamin. Entre os dois, parece estar Lacan. Proust está no topo, na foto mais à direita, que infelizmente cortei pela metade. Na foto pouco nítida logo abaixo da de Proust, sabemos que no grupo de quatro homens aparecem Paul Éluard e André Breton, porque seus nomes estão escritos. À esquerda de Kafka, Freud sobe a bordo de um avião, em uma foto meio tenebrosa. Acima de Beckett, ao lado de Freud, está o poeta René Char. O homem na foto grande acima de Char, com ar profundamente inteligente, me pareceu primeiro ser Italo Calvino, que era também membro do OuLiPo. Olhando atentamente, vejo tratar-se na verdade do sociólogo Pierre Bourdieu. Minha imaginação me fez ver Italo Calvino porque, desde a infância, penso nele com frequência. Como no caso das livrarias, fotos e edições de livros de Calvino costumam aparecer magicamente diante dos meus olhos.

O manual de François Busnel é dedicado “a D., minha parisiense”, em clara homenagem a Delphine de Vigan. Divide-se por arrondissements. Além de falar das livrarias, o autor indica, nas redondezas, locais de predileção ou residências de escritores célebres, jardins onde ler, bares e restaurantes onde descansar da busca por livros e, em uma página que abri ao acaso, até mesmo o endereço de um barbeiro —Desfossé, na avenue Matignon, número 19 — porque lá há uma biblioteca para os clientes.

Trata-se, em resumo, do roteiro do dia-a-dia de François Busnel, cujo trabalho — oh, pessoa feliz! — é justamente frequentar livrarias, conhecer autores, ler livros, preparar seu programa semanal na televisão. Como ele mesmo diz no prefácio, sem livrarias “Paris não seria exatamente Paris”. Segundo ele, há na França — país que é, pela dimensão territorial, metade de todo o estado do Pará — 3.260 livrarias independentes, o que considera “indispensável para o reforço dos laços sociais. Não há democracia sem excelentes livrarias”.

A rue de Richelieu é uma das mais citadas por Busnel. Isso é normal, porque a rua, situada no 1er e no 2ème arrondissements, situa-se no coração da cidade. Desemboca na praça onde estão o Palais-Royal e seu jardim, a Comédie-Française e sua loja, a livraria Delamain — que pertence à editora Gallimard — vários cafés, o excelente restaurante do Hôtel du Louvre e, um quarteirão depois, o próprio Museu do Louvre e o jardim das Tulherias. Denominada place Colette — pois a escritora morava ali, em um apartamento no Palais-Royal — e prolongada pela place André Malraux, a praça, a meu ver, é o centro nevrálgico da cidade, e dela já falei na postagem Keira Knightley e os escândalos de Colette. Seria possível passar dias inteiros naquela vizinhança, sem precisar aventurar-se além, e a bem da verdade eu já fiz isso em diferentes férias passadas na cidade.

Sempre que ando por ali — e é lá que fica, aliás, meu hotel predileto — paro e revejo as placas homenageando Molière e Diderot, pois ambos morreram em casas situadas na rue de Richelieu.

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Molière, morto em 1673, ocupa lugar especial no coração dos franceses, ao menos entre os que lêem. O teatro nacional por excelência, a Comédie-Française, é conhecido também como la Maison de Molière e preserva, em suas coleções, a poltrona onde o autor passou mal no palco, enquanto atuava em uma de suas peças, intitulada, ironicamente, Le Malade Imaginaire, logo antes de morrer. O idioma francês é denominado la langue de Molière. O prêmio teatral anual é o Molière. Diz-se “ganhei um Molière”, como quem diria “ganhei um Oscar” ou “ganhei um Emmy”. No saguão de entrada da Comédie-Française há uma escultura do teatrólogo.

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Mais ou menos na altura do lugar onde ficava a casa em que Molière morreu — o prédio atual é posterior à sua morte — há uma fonte dedicada a ele.

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FonteMolière.jpgA foto abaixo mostra a perspectiva da rua, passando pela fonte com a escultura em bronze representando Molière e terminando no Louvre. A rua que se inicia à direita do monumento chama-se, justamente, rue Molière:

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Pensava eu já conhecer perfeitamente a rue de Richelieu, ajudado inclusive por este livro:

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Por mais que pensemos conhecer um lugar, contudo, isso é apenas uma fantasia. Sempre sobram mistérios a ser desvendados. Jacques Hillairet nos diz que a rue de Richelieu, aberta em 1634 por iniciativa do célebre Cardeal e Primeiro-Ministro em homenagem a quem é nomeada, é a rua de Paris que mais abrigou celebridades em sua história. Hillairet lista uma quantidade impressionante de moradores, que inclui chefes de Estado, ministros, políticos, cortesãs, príncipes, artistas. Como o autor disseca a estória de cada casa da rua, e de seus moradores famosos, o volume de informação pode ser desnorteador.

O guia de Busnel, preocupado apenas com livrarias, escritores e os lugares que eles frequentam ou frequentaram, apresenta de forma mais sucinta as informações sobre os autores que moraram na rua. Folheando o guia, vejo que Stendhal passou um tempo no número 45 da rua, onde terminou de escrever De l’Amour. Esse livro, de 1822, é um dos mais curiosos de Stendhal. Nele, o escritor descreve o surgimento e a consolidação da paixão amorosa de forma aparentemente científica, embora esse seja o sentimento menos racional de todos. Stendhal insere porém dezenas de anedotas. Podemos assim pensar em  De l’Amour como uma obra de ficção fantasiada de não-ficção. É nesse livro que Stendhal cria o famoso conceito, importante para entender seus romances, de “cristalização”, etapa no desenvolvimento do amor durante a qual o ser amado adquire, para nós, todas as perfeições. É o ápice do amor. É o momento em que os eventos, as ocasiões, os lugares mais diversos nos lembram a pessoa que amamos. Quando li De l’Amour, aos vinte anos, fiquei muito impressionado.

Vejo no guia de François Busnel, no livro de Jacques Hillairet e nas obras autobiográficas de Stendhal que o escritor morou em vários endereços na rua, em diferentes épocas de sua vida, e que lá escreveu Le Rouge et le Noir. Aparentemente, morou um tempo no mesmíssimo hotel onde costumo ficar, o que descubro apenas agora. Balzac também morou na rua.  Em um restaurante que já não existe, George Sand e Alfred de Musset se conheceram, dando início a uma das mais atormentadas relações amorosas das letras francesas.

Busnel detém-se sobre uma livraria na rue de Rivoli, a Galignani, uma de minhas prediletas, que passei a frequentar por influência de meu amigo Antonio, a quem já mencionei em Vida e Morte no Musée Guimet. Busnel nos informa que a Galignani lá está desde 1856. Segundo ele, “por lá passaram Hemingway, Malraux, Yourcenar, Colette, e também Marlene Dietrich, Orson Welles e Julien Green”. A lista já faz sonhar. Busnel avalia que “a atmosfera é aconchegante, o atendimento discreto, os conselhos esclarecidos. Guarida para curiosos, estetas e dândis”. De fato, a atmosfera na Galignani possui aquele elemento indefinível, mas palpável, que nos faz perceber termos ingressado em um ambiente altamente elegante, mostruário de uma civilização. Duas outras livrarias que provocam em mim a mesma reação são a Hatchards, em Londres, e a Ferin, em Lisboa.

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Em Se una notte d’inverno un viaggiatore, Italo Calvino lista várias razões — distribuídas em categorias criadas por ele —  pelas quais, afinal, livros não são comprados ou, se comprados, não são lidos. Por exemplo: “Livros que Você Poderia Por De Lado Para Talvez Ler Neste Verão”. Há uma categoria bastante metafísica — alguns pensarão cínica: “Livros Já Lidos Sem Que Você Sequer Tenha Precisado Abri-Los Já Que Eles Pertencem À Categoria Dos Livros Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos”.

A classificação que mais me marca é: “Livros Que Se Você Tivesse Mais De Uma Vida Para Viver Você Certamente Leria Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Você Tem Para Viver Estão Contados”. É uma frase engraçadíssima. Como lê-la sem rir? Ao mesmo tempo, ela remete a um fato triste. Por mais disciplinado que seja um leitor, ele nunca conseguirá ler todos os livros que tem ou que deseja ler.

O guia de Busnel mostra uma forma superior de vida, toda orientada pelo amor aos livros, aos parques onde podemos lê-los, aos restaurantes onde podemos conversar sobre eles. Assim como lamento não ter tempo para ler tudo o que gostaria, já que não terei mais de uma vida, Mon Paris littéraire me faz pensar, com nostalgia, em todas as livrarias fantásticas, mundo afora, que não terei tempo de conhecer.

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O Dia em que vi o Crânio de meu Avô

O Dia em que vi o Crânio de meu Avô

Let’s talk of graves, of worms, and epitaphs
Richard II, Shakespeare

No final da minha adolescência, no começo da vida adulta, eu costumava, quando  estava em Paris, fazer peregrinação aos túmulos de escritores e compositores objeto de minha admiração. Os cemitérios da cidade são frequentados pelos turistas, que caminham entre os monumentos funerários, com um mapa nas mãos, tentando encontrar o jazigo de celebridades.

A tumba de Stendhal era para mim destino obrigatório, por ser ele então meu escritor predileto. Estudante em Londres, eu ficava acordado até de madrugada lendo seus livros, e ia à aula no dia seguinte acompanhado de seus personagens. Pensava nas intrigas amorosas, nas tramas políticas da existência de Julien Sorel e de Fabrice del Dongo, nas suas ambições, nas renomadas habilidades de estadista do Conde Mosca; tentava prever se eu me apaixonaria por uma Mathilde de La Mole, uma Gina Sanseverina ou uma Clélia Conti; lamentava o terrível destino de Beatrice Cenci. As peripécias, os diálogos, as cenas encontradas nos livros de Stendhal despertavam muito mais meu interesse do que as aulas de estatística ou os experimentos no laboratório.

Quando eu viajava a Paris, enfrentava frio, chuva, neve para andar pelo cemitério de Montmartre até o túmulo de Stendhal. Ficava parado frente a ele, refletindo com ar compenetrado, tentando talvez incorporar algo do talento do escritor, ou da intensidade que ele concedeu, em seus romances, a Julien e a Fabrice. Havia provavelmente, nisso tudo, uma forte inspiração da cena do cemitério em Hamlet. De resto, seria apropriado que assim fosse, pois Stendhal idolatrava Shakespeare e chegou a tentar, em 1802, aos 19 anos, escrever sua própria versão da tragédia do príncipe dinamarquês, transportando a ação para a Polônia.

Adulto, perdi o interesse pelo turismo funerário. Há muitos e muitos anos eu já não prestava homenagem a sepulturas de músicos ou escritores. Em julho, passando poucos dias de férias em Paris, resolvi porém revisitar o cemitério de Montmartre. Na postagem Em Seul, sem Chateaubriand contei que, procurando mais uma vez a tumba de Stendhal, esbarrei na de Madame Récamier, amiga, amante e musa de Chateaubriand. Entre os turistas que estavam no cemitério, naquele dia de verão, um grupo de três mulheres perguntou-me, em um francês com forte sotaque balcânico, se eu conhecia a localização do túmulo de Jeanne Moreau, morta em 2017, e que eu nem sabia estar ali enterrada.

Naquela tarde, a residência final de Stendhal reapresentou-se a mim desta maneira:

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A inscrição na lápide merece ser vista em detalhe, inclusive porque é fruto da vontade do próprio autor, manifestada em ao menos duas obras auto-biográficas — Souvenirs d’égotisme, escrita em 1832, e um texto curto, avulso, de 1837:

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Stendhal chamava-se, na verdade, Henri Beyle — por isso o “Arrigo” na lápide — e era notoriamente admirador da Itália, que não fora ainda unificada e era então uma península e um conceito, mas não um país. Alguns dos momentos mais felizes do escritor foram passados em Milão, que visitou pela primeira vez em 1800, aos 17 anos, e onde morou de 1814 a 1821, o que explica o “Milanese”. Stendhal desejava também que constasse de sua lápide que ele “adorara Cimarosa, Mozart e Shakespeare” — costumava aliás escrever “Shakspeare”, sem o primeiro “e”. No texto de 1837, acrescentou à lista o pintor Correggio, “le Corrège” para os franceses. Nosso escritor, como se sabe, era grande admirador das artes plásticas. No século XX, surgiu mesmo a noção de “síndrome de Stendhal” para designar a reação exacerbada, alguns dirão ridícula — tonturas, palpitações, desmaios — diante da beleza de uma obra de arte. Um de seus primeiros livros, redigido em grande parte parafraseando outros autores, intitula-se Histoire de la peinture en Italie,

O escritor deu origem também ao termo “beylisme”, que ele próprio criou em 1812, e que ficou consagrado desde pelo menos a publicação, em 1914, do livro de Léon Blum, Stendhal et le beylisme. A expressão remete aos ingredientes habituais da personalidade dos protagonistas de seus romances — e ao seu próprio ideal — de energia, individualismo, liberdade, capacidade de viver grandes paixões e busca da felicidade.

Tanto em 1832 como em 1837, Stendhal determinara que constassem em seu epitáfio os três verbos “viveu, escreveu, amou”, em italiano. Por alguma razão, seu primo, amigo, biógrafo e executor testamentário Romain Colomb inverteu a ordem, colocando “escreveu” em primeiro lugar. É por isso que lemos “scrisse, amò, visse”. Para qualquer espírito cartesiano, a presença do “viveu” no final da tríade parece ilógica. Para os fanáticos de Stendhal, soa como traição. Em 1891, o escritor nacionalista Maurice Barrès declarou, em um artigo no Figaro intitulado “Le Génie au Cimetière“, que a decisão de Colomb fora uma “manobra chocante”. “O verdadeiro beylista”, escreveu Barrès, “deve antes de mais nada respeitar as manias de Beyle”.

Em 1888, com a inauguração de um viaduto de metal que passa exatamente sobre aquele canto do cemitério, com veículos rodando por cima das tumbas, o túmulo de Stendhal ficara ensombrecido e escondido. Na primeira vez em que visitei o cemitério de Montmartre, aos 20 anos, fiquei suficientemente impressionado com a presença do viaduto — conhecido como pont Caulaincourt — sobre as sepulturas para mencionar o fato em um caderno de anotações. Em 1892, admiradores de Stendhal cotizaram-se para restaurar a sepultura, o que explica a data na lápide. A inversão na ordem dos verbos, porém, permaneceu. Em 1962, passados 120 anos da morte de Stendhal, um dos maiores especialistas de sua obra, Vittorio (ou Victor) del Litto, francês nascido na Itália, promoveu uma mudança de 150 metros na localização do túmulo, para retirá-lo do espaço sob a estrutura metálica do pont Caulaincourt. A cerimônia deu-se em 23 de março, aniversário da morte do escritor. Victor del Litto deixou-nos do acontecimento um relato. Participaram do traslado do túmulo apenas quatro pessoas: o diretor do cemitério, um comissário de polícia, del Litto e sua mulher. Foi necessário abrir a sepultura. Do cadáver de Stendhal, além de “uma poeira impalpável”, sobravam o crânio, a mandíbula e uma tíbia

Durante o enterro do meu pai, no cemitério do Caju, em 1999, um primo chamou-me de lado para “ver algo importante”. Levou-me a uma tumba vizinha ao jazigo da família. Sobre esse túmulo vizinho, haviam colocado uma caixa de metal contendo o que sobrava de meu avô, o matemático. A caixa, retirada do jazigo familiar apenas para que pudéssemos sepultar meu pai, estava aberta. Dentro, naquele dia de sol carioca, vi o crânio de meu avô, uma tíbia e as dragonas de seu uniforme militar. Era tudo o que restava do General Ary Norton de Murat Quintella.

Não terminaremos nessa nota fúnebre. Afinal, como nos ensina o poeta Jacques Prévert, em Chanson des escargots qui vont à l’enterrement,
“Les histoires de cercueils
C’est triste et pas joli”

A caminho do enterro de uma folha morta, os dois caracóis enlutados partem no outono, mas só chegam na primavera, e a essa altura as folhas “sont toutes ressuscitées“. Os pobres caracóis “sont très désappointés“.

O leitor atento — ou com boa visão — terá notado em uma das fotos acima que, no dia de minha visita, havia sobre a sepultura de Stendhal um pedacinho de papel, segurado por uma pedra. Em várias das ocasiões em que vi esse túmulo, ao longo dos anos, algum admirador havia deixado um recado escrito, frequentemente em italiano.

Dessa vez, era este o bilhete:

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“Para Stendhal, obrigada pelo Vermelho e o Negro, Elena”.

Tive o cuidado de não tocar no papel ou na pedrinha. Fiquei pensando na glória póstuma desse homem morto em 1842, aos 59 anos, praticamente desconhecido como escritor enquanto vivo, a não ser por uns poucos amigos literatos. Pensei na beleza de uma vida que pudera ser resumida de forma simples, com três verbos apenas, “escreveu, amou, viveu”.

Como nas vezes anteriores, apreciei a admiração que a ele devotam seus leitores italianos, justíssima, considerando o quanto ele amara a Itália e a maneira como a descrevera. Comovi-me com a simplicidade do papel, claramente arrancado de algum pequeno caderno. Tivera Elena desde o início a intenção, ao dirigir-se ao cemitério, de deixar o bilhete, ou fora esse um gesto impulsivo, inspirado por uma emoção causada pela visão do próprio túmulo? Por que Le Rouge et le Noir e não La Chartreuse de Parme? O que a leitura de Le Rouge et le Noir trouxera a Elena?

E aí, percebi que para essa última pergunta eu tinha a resposta. Os heróis stendhalianos, homens e mulheres, trazem-nos um sopro de energia, de coragem diante da adversidade e das circunstâncias, a sensação de que são seres à parte, com uma personalidade própria e atraente e a capacidade de viver intensamente. Dessa forma, Stendhal cumpre, de uma maneira que só pertence a ele, o papel de todo grande escritor: tornar a vida mais suportável, mais rica, mais empolgante para os seus leitores.

O sol estava forte. Saí do cemitério, perambulei por Montmartre, sentei-me ao ar livre em um café numa praça, tomei uma garrafa inteira de água mineral e um macchiato, fiquei vendo a vida passar. Pensei na amizade que os personagens de Stendhal têm me oferecido, ao longo dos anos, desde a adolescência. Teria bastado que ele morresse em 1812, na calamitosa campanha da Rússia de Napoleão, de que participou, para ficarmos sem suas obras e o reconforto que oferecem.

O sol começava a baixar. Mais tarde, eu iria ao teatro com amigos. Queria antes passar em uma livraria de que gosto, Les Cahiers de Colette. O tempo estava ficando curto. Paguei a água e o café, peguei um táxi e fui à livraria.

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