Quem veio me contradizer foi Emmanuel Macron. Duas semanas atrás, em “Marcha fatal“, afirmei que não esperamos, de chefes de Estado e de Governo, que tenham tempo de ler. Suas tarefas, sua agenda pesada, permitem presumir que eles conseguem se dedicar no máximo à leitura de relatórios e pontos de conversação.

Na versão final daquela coluna, suprimi, por razão de espaço, um parágrafo em que recordava um romance do escritor inglês Alan Bennett, em que a rainha Elizabeth II desenvolve, de repente, uma inverossímil paixão pela leitura. Livros tornam-se a tal ponto uma obsessão da soberana, que passam a ser vistos, pelos seus assessores, como um empecilho para que exerça suas funções.    

Pois o presidente da França, entrevistado enquanto visitava o Festival do Livro em Paris agora em abril, afirmou que lê — livros, não documentos de trabalho — todos os dias, “ou cedo de manhã, ou à noite”.

Quando Macron assumiu a presidência, em 2017, divulgou-se sua foto oficial como chefe de Estado. O presidente é mostrado em uma pose relativamente informal e com ar decidido, frente à sua escrivaninha no Palais de l´Élysée. Na época, analisei o resultado em um texto intitulado “Uma foto e três livros“. O que me motivou foi a presença, sobre o móvel, de três volumes publicados na prestigiosa coleção da Pléiade, da editora Gallimard: as Memórias de Charles de Gaulle, O vermelho e o negro, de Stendhal, e Os frutos da terra, de André Gide.

A presença de um presidente no Festival do Livro de Paris não parece ser ocorrência corriqueira. Bem diferente é o caso do Salão da Agricultura, evento altamente midiático com fortes contornos políticos, decorrentes da importância dos agricultores na vida francesa. O setor agrícola foi, em grande parte, o responsável pela lentidão da negociação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, assinado em janeiro após quase 30 anos de espera; e, agora, influencia na demora para a sua aprovação pelo Parlamento Europeu.

O que os incomoda é a competitividade agrícola do Brasil e do MERCOSUL. Em dezembro, de férias em Bruxelas, minha mulher e eu presenciamos, em uma avenida principal, uma tremenda manifestação de agricultores europeus, sobretudo belgas e franceses, contra o acordo. Centenas de tratores circulavam pelas ruas, paralisando o trânsito. Todos, aliás, ultramodernos, visivelmente caros, com a pintura impecável e tinindo de novos. Alguns despejavam no asfalto carregamentos de batatas. Transeuntes e motoristas, presos no engarrafamento, aproveitavam para recolhê-las. Era já um jantar em perspectiva.

Mesmo na França, é difícil imaginar o Festival do Livro competindo com o Salão da Agricultura. Mas o momento era adequado para a presença de Macron. Está em curso, em vários países europeus, a adoção de medidas que proíbam o acesso das crianças às redes sociais. Na França, espera-se que a partir de setembro, com a volta às aulas depois das férias de verão, as redes sociais, extraindo-se algumas exceções, estejam vedadas aos menores de quinze anos.

No Festival do Livro, Emmanuel Macron declarou: “há uma terrível doença, hoje: a falta de atenção, irmã gêmea de outra doença, a solidão”. A proibição às crianças de frequentar as redes sociais, estima o presidente da França, facilitará que “reaprendam a praticar esportes, a levar uma vida na comunidade e a ler. Ler é um momento mágico e essencial do dia”. 

O mais interessante, na entrevista, é que Macron parece encarar o hábito da leitura como algo que seria o oposto da solidão. Ele diz: “Quando saímos de um livro, nunca estamos sós. Estamos mergulhados naquilo que acabamos de compreender, há uma paz consigo mesmo e compreendemos o que o autor tinha a nos dizer”. A leitura é assim colocada como um fator de socialização, e não, como alguns gostam de pensar, de isolamento.

Quanto ao presidente do Brasil, sabemos que Lula, na prisão, dedicou-se à leitura e podemos mesmo descobrir, em páginas eletrônicas, o que então leu. Examino a lista neste minuto e descubro que nela figuram, entre as quarenta obras, Grande sertão: veredas e Um defeito de cor. O cativante romance da também mineira Ana Maria Gonçalves me foi oferecido de presente por um grande amigo, que compartilha com ela o sobrenome.

Em dezembro de 2023, embaixador na Malásia, inaugurei no Festival Literário de George Town, capital da ilha e do estado de Penang, uma exposição homenageando Clarice Lispector, financiada pelo Instituto Guimarães Rosa, com material cedido pelo Instituto Moreira Salles. Revelou-se uma excelente iniciativa, pela embaixada, de divulgação cultural do Brasil. Chamou minha atenção o fato de o primeiro-ministro do estado de Penang, Chow Kon Yeow, participar ativamente da abertura do festival.

Fico me perguntando se, alguma vez, um governador do Rio de Janeiro abriu a FLIP ou se um governador de Minas Gerais abriu um dos três festivais naquele estado — em Araxá, em Itabira, em Paracatu — criados, organizados e curados por Afonso Borges.

Enquanto vou terminando esta coluna, pensando aonde quero chegar e como encerrá-la, um milagre acontece. Um milagre literário, um milagre cultural. Recebo de um jovem amigo paulista, Caio Duarte, mensagem em que me conta que ele e um grupo de colegas seus lançarão, “no segundo semestre, após a FLIP”, uma revista de debate literário e cultural. O local que abrigará a sede da publicação, a qual será, pelo menos no início, semestral, já está sendo preparado em São Paulo.

A revista se chamará “Lepanto”, como a batalha naval de 1571, em homenagem a Cervantes, que, então com 24 anos, nela lutou. A notícia de seu próximo lançamento, que chegou a mim em um período particularmente duro e exaustivo no trabalho, me animou. Há portanto no Brasil, ainda, idealismo e coragem para a batalha da atividade literária.

Entusiasmado, concluí: mente quem afirma que o livro e o pensamento estão morrendo.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 27 de abril. O jornal novamente “explicou” o título original, expandindo-o

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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2 comentários sobre “Lepanto

  1. Caro Ary,  esta questão dos livros é muito interessante. Sou mineira de BH, mas morei quase 50 anos no Rio. Em Minas, todos de minha família são leitores vorazes.  No Rio, aos poucos, fui perdendo o hábito de ler, ocupada que estava com a praia, o samba e o futebol, além de muito trabalho. Depois de me aposentar, voltei a morar em BH. Fui recebida com festas e  muitos presentes, quase todos livros.  Os amigos e parentes continuam grandes leitores. Retomei o hábito de ler, com facilidade. Livros físicos, já nem sei onde foi parar o Kindle.A qualidade de vida em BH é excelente, clima ameno, povo amigo e muitos livros 📚.Forte Abraço Ana Maria 

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