Duarte e Amaro: dois diplomatas, dois perfis

Duarte e Amaro: dois diplomatas, dois perfis

Existe no Palácio do Itamaraty, em Brasília, um esboço de 1886 do quadro de Pedro Américo “Independência ou Morte” ou “O Grito do Ipiranga”. Ele pode ser visto no terceiro andar, na mesma sala onde está a gigantesca tela de Jean-Baptiste Debret retratando a coroação de D. Pedro I.

O estudo pertencente às coleções do Itamaraty é menor do que o quadro exposto em São Paulo no Museu do Ipiranga. Ambos foram pintados em Florença, onde a obra final foi exibida pela primeira vez na Academia de Belas Artes, na presença do imperador Pedro II e de D. Teresa Cristina. Isso se deu em 8 de abril de 1888. Estamos a um mês da abolição da escravidão e a pouco mais de um ano do fim do Império, e Pedro II viaja pela Europa. Naquele dia, em Florença, muito lealmente homenageia a memória do pai, protagonista da tela que se tornaria a imagem icônica da independência do Brasil.

O Grito do Ipiranga do Itamaraty

Li as palavras dirigidas por Pedro Américo a algumas das personalidades que assistiram à cerimônia em Florença. Não são muito empolgantes. Além do imperador do Brasil e de sua mulher, estiveram presentes a rainha Vitória, em vilegiatura na Toscana; sua filha caçula, a princesa Beatriz; e a rainha consorte da Sérvia. Pedro II foi saudado com elogios aos seus “magnânimos pensamentos”. Referiu-se o artista ao quadro como “o modesto trabalho com que acabo de dar nova prova do meu patriotismo”.

Procurei nos Diários da rainha Vitória alguma referência ao pintor ou à sua obra, mas nada encontrei. Esses Diários foram editados pela princesa Beatriz, que fazia as vezes de secretária particular da mãe, então o que temos não é necessariamente o texto original. A entrada para o dia 8 de abril de 1888 registra: “Como a tarde estava chuvosa, decidimos ir à Galeria de Belas Artes. Nesse prédio há uma coleção de obras de arte excepcionais da Escola Toscana”. O tom dá a entender que a ida à galeria foi acidental, causada pela chuva que impediu um passeio ao ar livre.

Mas não deve ter sido assim. Dois dias antes, em 6 de abril, nos dizem os Diários da rainha, ela recebera na Villa Palmieri, onde se hospedava em Fiesole, a visita de Pedro II e Teresa Cristina. Ambos lhe pareceram “envelhecidos e doentes”. A saúde do imperador era mesmo precária naquele período; um mês depois, em Milão, ele chegaria a receber a extrema-unção. Em 6 de abril, é crível supor, já estava marcada a cerimônia em torno ao quadro que aconteceria dois dias depois, e seria natural o imperador mencioná-la à rainha Vitória e mesmo convidá-la a participar. Vejo nos Diários de Pedro II que ele só comenta, sobre esse encontro, ter achado a rainha “bem avelhantada”. Sem saber, dava-lhe o troco.

Na entrada para o dia 8 de abril, Pedro II escreve: “Chego da exposição de quadro do Pedro Américo. Agradou-me em geral contudo não brilha pelo colorido e há um cavalo que se inclina tanto para o lado galopando que tenho medo que se prancheie” — respeito a falta de vírgulas, por não saber se é uma falha do imperador ou de quem transcreveu o Diário. É um alívio ler um comentário crítico, quase humorístico, na pluma imperial, em vez de alguma frase sentimental sobre o seu pai ou a Independência.

Há um documento escrito pelo próprio Pedro Américo, “O brado do Ipiranga”, também de 1888, que descreve a obra e, em trecho intitulado “A solenidade”, a sua inauguração em Florença. O texto do artista reaparece em um livro de 1999 dedicado ao quadro, organizado por Cecilia Helena de Salles Oliveira e Claudia Valladão de Mattos. Do texto do pintor fica claro que a rainha Vitória era esperada. Ele diz: “Vendo Sua Majestade o Imperador que o vastíssimo salão estava cheio de gente, e assim as salas e galerias adjacentes, e que não chegava S. M. a Rainha da Inglaterra, deu a palavra ao artista”. Vitória apareceu quando o imperador já havia partido. Ela terá visto um Pedro Américo radiante, pois este afirma que os participantes da cerimônia “com ele se congratularam pelo esplendor daquela festa e pelo êxito da obra exposta”.

Durante os anos em que fui professor do Instituto Rio Branco, de 2012 a 2016, incluí uma aula sobre o acervo iconográfico da História do Brasil de propriedade do Itamaraty. Além das telas que ilustram o Grito do Ipiranga e a coroação de Pedro I, a chancelaria brasileira possui várias obras retratando os dois imperadores e personalidades do período monárquico. Há um retrato famoso, excelente quanto à qualidade artística, de D. João VI, não muito lisonjeiro, obra talvez do melhor pintor português do início do século XIX, Domingos Sequeira.

Há também uma pintura, da qual não se conhece o artista, que retrata, de forma competente e sóbria, Duarte da Ponte Ribeiro (1795-1878).

Rubens Ricupero considera Ponte Ribeiro “o exemplo mais perfeito do agente da diplomacia do conhecimento”, sublinhando em A diplomacia na construção do Brasil (2017) seus “180 estudos e memórias” e os numerosos mapas que preparou. Nascido em Portugal, exerceu primeiro a medicina. Como diplomata, foi especialista em questões de limites territoriais. Trabalhou no Uruguai, na Argentina, no Chile, no Peru, na Bolívia.

Um estudioso da obra do diplomata, Castilhos Goycochêa, nos diz em 1943 que “durante o Império, principalmente no que se refere às relações com os outros países do continente, seu nome impressiona pela constância com que figura na maior parte das negociações de toda ordem”. Opina que a Ponte Ribeiro “não faltou nem mesmo a ingratidão da Pátria”.

É expressiva a bibliografia sobre esse grande diplomata. Sua carreira é estudada já desde o século XIX. Em dezembro de 1878, três meses após a sua morte, em uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que ele era sócio, Joaquim Manuel de Macedo discursou sobre sua carreira como agente diplomático e como estudioso das fronteiras do Brasil. O autor de A Moreninha destacou “a capacidade ativíssima, o zelo e a dedicação exemplares” de Ponte Ribeiro, afirmando que suas “vida laboriosa e robustez eram como um milagre de força orgânica”.

O estudo mais minucioso é a biografia por José Antônio Soares de Souza, publicada em 1952, Um diplomata do Império. Explica o autor: “foi Ponte Ribeiro, na diplomacia, o primeiro a reviver no Império o uti possidetis como base para a delimitação do Brasil”. Mostra-nos o diplomata, em 1837, “escarrapachado no lombo de um burro”, seguindo pelos Andes, por “caminhos escabrosos” o governo boliviano, “que vivia, de cidade em cidade, em constantes passeios, dos mais incômodos”. Menciona as queixas financeiras de Ponte Ribeiro, registradas por exemplo em ofício que enviou de Lima, em 1839: “Tenho necessidade de ser empregado porque me acho pobríssimo, havendo gasto quanto tinha durante treze anos” trabalhando como diplomata.

É preciso ler as páginas em que José Antônio Soares de Souza, citando as comunicações oficiais de Ponte Ribeiro, descreve suas andanças em lombo de mula, durante a última missão ao Peru e à Bolívia, de 1851 a 1852. Quinze anos mais velho desde sua estada anterior nos Andes, o diplomata, cinquentenário, sofre com a altitude e as dificuldades da cordilheira. Escreveu Ponte Ribeiro: “Durante a noite a febre, debaixo de um toldo levantado sobre o gelo, e de dia sobre o espinhaço de uma mula, queimado pelos raios ardentes do Sol, que de todos os lados são refletidos pela neve”. Nenhuma outra frase talvez seja tão reveladora quanto esta: “Aqui queria eu ver alguns dos nossos diplomatas que alegam serviços e até sacrifício, [por] irem em um coche de Roma a Gaeta, ou de Paris a Viena pelo caminho de ferro”.

Ao imaginá-lo em sua mula pelos Andes, deve-se lembrar que, anos antes, um acidente de espingarda danificara sua mão. Nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, ele sofrera “despedaçamento da mão e braço esquerdos, perda de ossos”. Soares de Souza acredita que o lado afetado tenha sido o direito, como resultado talvez não de ferimento por arma, mas de uma fratura exposta. 

Da aposentadoria em 1853 até poucos meses antes de morrer em setembro de 1878, o diplomata continuou prestando serviços à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, como se chamava então o Ministério das Relações Exteriores. De repente, em abril de 1878, aos 83 anos, recebeu aviso de que cessava a gratificação mensal correspondente.

Soares de Souza esclarece que a suspensão da gratificação teria derivado de “uma ordem geral”, a afetar todos os diplomatas que a recebiam. Ponte Ribeiro, porém, “desarvorou-se inteiramente”, por concluir “daquele suposto agravo já não necessitar a diplomacia brasileira dos seus serviços. Isso o ferira fundo e definitivamente”.  

No excelente retrato pertencente ao Itamaraty vemos um rosto de aguda inteligência e grande seriedade de propósitos, como sua vida profissional confirma. Pareceria justo esperar que não tivesse que ser submetido à inconstância institucional.

A Fundação Alexandre de Gusmão publicou, em 2010, ofícios enviados por Ponte Ribeiro à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, entre 1836 e 1839, do Uruguai, da Bolívia e do Peru. São boas análises sobre a política local, as relações internacionais desses países e as relações do Brasil com cada um deles. Um ofício de Lima, de fevereiro de 1838, revela certo isolamento andino: “Há poucos dias faleceu nesta capital o encarregado de negócios dos Estados Unidos, e agora se retira Barrère, que exercia igual caráter por parte da França: hoje não há aqui mais agentes públicos que o enviado de México e eu”. Em novembro, a situação melhorara: a Brasil e México se haviam somado novamente enviados de Estados Unidos e França, além de Reino Unido, Nova Granada, Equador e a cidade livre de Hamburgo.

A carreira de Duarte da Ponte Ribeiro demonstra o esforço do Brasil de se fazer presente diplomaticamente nos países vizinhos, mas também as privações a que faziam face seus representantes na América do Sul. Já antes de partir, ainda do Rio de Janeiro, Ponte Ribeiro predizia os transtornos que enfrentaria, movendo-se entre Peru e Bolívia: “marcharei 270 léguas por dispendiosos caminhos”. Compara sua situação com aquela mais confortável de colegas: “Outras legações há na Europa que têm encargo junto de vários governos, mas esses estão próximos, as viagens são fáceis”.  

Na Sala dos Tratados, no Itamaraty em Brasília, há três bustos em bronze de Bruno Giorgi, de 1967, representando as figuras históricas a quem o Brasil deve a definição e consolidação de suas fronteiras. De um lado, Alexandre de Gusmão e Duarte da Ponte Ribeiro; do outro, o barão do Rio Branco. Como todo diplomata brasileiro, inúmeras vezes participei de cerimônias na Sala dos Tratados. Algumas internas, quando tipicamente o ministro das Relações Exteriores coloca-se, para discursar, próximo ao busto do Barão. Outras, com delegações estrangeiras, quando há coletivas de imprensa ou, como indica o nome do recinto, a assinatura de atos internacionais. A mesa situada junto à grande treliça de Athos Bulcão possui importância ímpar, por ter fama de ser aquela sobre a qual se assinou a Lei Áurea.

Os retratos históricos circulam às vezes entre o Itamaraty do Rio e o de Brasília e são transferidos de gabinete em gabinete em cada um dos dois palácios. Em 2003, quando Samuel Pinheiro Guimarães tornou-se secretário-geral das Relações Exteriores no início do primeiro governo Lula, e fui trabalhar com ele, compreendi sua decisão de substituir  certos quadros expostos na sala de espera dos visitantes que iam vê-lo.  

Os dois palácios do Itamaraty são museus. Ambos abrigam importantes coleções de arte e de mobiliário. São ambos edifícios valiosos em termos arquitetônicos. Mas são museus vivos. Neles se trabalha, neles há agitação, neles há o propósito de criar e transmitir uma certa imagem de Brasil. Suas coleções, justamente por serem ilustres, devem ser exibidas de acordo a algum parâmetro substantivo. Parecia pouco razoável que o retrato de D. João VI, justo em frente à porta de acesso à antessala do secretário-geral, fosse a primeira visão que as visitas, nacionais ou estrangeiras, tivessem da política externa brasileira contemporânea.

Mais intrigante era ver exposta na mesma sala uma tela grande, artisticamente medíocre, retratando Luís José de Carvalho e Melo, primeiro visconde da Cachoeira, e sua mulher. Chanceler do Brasil de 1823 a 1825, Carvalho e Melo foi um dos negociadores do tratado de 1825 entre Brasil e Portugal, pelo qual a ex-metrópole reconheceu a independência da ex-colônia. O diplomata e jurista Hildebrando Accioly escreveu em 1925 que “Carvalho e Melo era homem de poucas luzes”. Um instrumento adicional ao tratado determinava o pagamento, pelo Brasil a Portugal, de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas. Accioly cita O reconhecimento do Império, onde Oliveira Lima lembra em 1901 que “a compra da Independência por dois milhões esterlinos, depois de ela ser um fato consumado e irrevogável, foi um estigma de que a monarquia justa ou injustamente nunca pôde livrar-se no Brasil e cuja recordação pairou sobre o trono até os seus últimos dias”.

Rubens Ricupero relata como, a partir da exoneração em 1823 de José Bonifácio, primeiro chanceler brasileiro, já não predomina “a perspectiva do Brasil independente, mas o interesse dinástico pessoal do seu monarca”, herdeiro do trono de Portugal, “cujo projeto político dependia do reatamento de laços” com seu país de origem.

Ainda mais extraordinária era a presença, então em lugar de destaque na antessala do secretário-geral do Itamaraty, do retrato de grandes dimensões, pintado em Roma em 1832, de um jovem diplomata hoje esquecido, e que na verdade nunca chegou a merecer ser recordado. Em um livro de 1993, intitulado singelamente Itamaraty, que se tornou obra de referência sobre os dois palácios, o de Brasília e o do Rio de Janeiro, e suas coleções, João Hermes Pereira de Araújo nos explica: “O nome de Amaro Guedes Pinto não seria mais lembrado se a vaidade, característica dos dândis de todos os tempos, não o tivesse levado a encomendar seu retrato a óleo ao pintor português Antonio Manoel da Fonseca, em Roma conhecido como Fonseca Lusitano”.

A literatura e a arte possuem o poder de modificar a percepção que temos da História. Governantes habilidosos do passado frequentemente recorreram a artistas e escritores para criar uma imagem positiva a seu respeito e perpetuá-la. Da mesma forma, obras de arte podem perenizar indivíduos sem relevância enquanto vivos, ilustrando ao mesmo tempo, para a posteridade, toda a atmosfera de uma sociedade. É o caso do retrato de Amaro Guedes Pinto, o jovem secretário lotado em Roma cuja imagem durante tanto tempo foi exibida na Secretaria-Geral do Ministério. O quadro desvela uma mentalidade, a dos homens abastados da primeira metade do século XIX que viam na diplomacia uma forma elegante de viver. É de novo Oliveira Lima, em O Império brasileiro (1927), quem nos explica: “a escravidão oferecia aos moços ampla oportunidade para não trabalharem e luxarem, sedentos apenas de empregos públicos”.

João Hermes Pereira de Araújo menciona um artigo de imprensa de 1932 sobre o retrato, intitulado “O homem mais bonito do Brasil”. Localizei esse texto na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Seu autor, Gastão Penalva, é um escritor esquecido. Era avô da atriz Maria Lúcia Dahl, que eu na adolescência considerava terrivelmente atraente. Difícil dizer se é sincera a admiração de Penalva pela tela ou se fala com intenção de pilhéria ou mesmo crueldade para com o modelo — menciona “as mãos de odalisca” de Amaro Guedes Pinto, esse “Lord Brummell brazílico” e “impenitente Casanova dos trópicos”, descrevendo supostos êxitos sociais e amorosos seus em Viena.

Guedes Pinto, porém, nunca deixou Roma para assumir as novas funções a que fora designado, em 1831, na Áustria. Localizo no arquivo histórico do Itamaraty uma comunicação sua, do mesmo ano, enviada de Roma, em que menciona o seu “atual estado de saúde” — ele tinha 25 anos de idade — como razão para não aceitar “o honroso emprego a que fui destinado de cônsul-geral e encarregado de negócios interino do Brasil na Áustria”. Encontrei a resposta a ele enviada, segundo a qual “a Regência, em nome do Imperador”, aceitava sua decisão, “não obstante haver causado grande transtorno a sua recusa”.

Descobri outro artigo sobre o retrato, de 1933, igualmente fantasioso, publicado por Luís Gastão d´Escragnolle Doria em Revista da Semana. O autor parte do princípio de que Guedes Pinto de fato foi encarregado de negócios em Viena por alguns meses, em 1831, e devaneia sobre como terá ocupado seu tempo na Áustria. O império austríaco, então uma das cinco maiores potências europeias, era em 1831 governado por Francisco I, avô materno de Pedro II, que se tornara imperador do Brasil em abril daquele ano. A Áustria oferecia assim, presume-se, um cachê duplo aos diplomatas brasileiros, o que torna curiosa a preferência de Amaro Guedes Pinto por permanecer em Roma. Claramente, o trabalho diplomático era para ele um passatempo, sequer uma ambição.

Segundo João Hermes Pereira de Araújo, em seu comentário sobre a presença em Roma de Guedes Pinto, “não se encontram outras notícias desse personagem”. À custa de muita pesquisa, consegui porém consolidar bastante informação sobre sua vida e suas origens familiares.

O pai, Manoel Guedes Pinto, e o avô materno, Manoel Velho da Silva, prosperaram no comércio de pessoas escravizadas. Também traficava seres humanos o irmão de sua mãe, Amaro Velho da Silva, primeiro visconde de Macaé. A história do Brasil seria compreendida de maneira bem diferente, se fosse salientado quantos dos políticos do Império, quantos dos detentores de títulos de nobreza, quantas das personalidades mais próximas da dinastia reinante — e, na segunda metade do século XIX, seus filhos — deviam afluência e respeitabilidade à compra e venda de africanos escravizados.

Amaro nasceu em 1806. Vejo em minha pesquisa que seus pais (a mãe, Maria Thomázia Velho da Silva, morreria em 1810, com 24 anos) tiveram dois outros filhos, Manoel, nascido em 1805, e José, em 1809. A mulher do caçula, Maria Eugênia Guedes Pinto, uma das estrelas elegantes da sociedade imperial em meados do século, é tida como uma paixão de Pedro II. Era conhecida como Mariquinhas Guedes. O pai desta, o visconde de Maranguape, foi por duas vezes secretário dos Negócios Estrangeiros. José Guedes Pinto morreu em 1855, de “apoplexia”, segundo os avisos fúnebres que descubro em jornais cariocas. Há menção à viúva, mas não a filhos.

A avó materna do nosso retratado, uma tia e uma prima-irmã, todas três chamadas Leonarda, foram damas do Paço. A primeira Leonarda, a avó, viúva muito rica, só morreria em 1825, quando Amaro já tinha 19 anos. Era filha de um capitão de navios negreiros.   

Encontro o nome de Amaro Guedes Pinto em um anúncio em jornais cariocas, em fevereiro de 1837: “leilão, na casa do Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, no largo do Machado, de todos os trastes, espelhos, quadros, cristais, porcelana, prata, carruagem, carrinhos, cavalos, escravos etc… etc… pertencentes ao dito senhor”. Por um momento, penso em ruína financeira. Outro anúncio, um mês depois, no Jornal do Commercio, me tranquiliza: “leilão de uma rica e escolhida biblioteca dos melhores autores em francês, inglês, espanhol, português &c, pertencente ao Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, que se retira para a Europa”. Mais uns dias e leio, em um jornal de abril, que nosso elegante diplomata partiu, “com sua mulher”.

Localizei o registro de nascimento e o de casamento de Amaro, mas não o de seu falecimento. Em dezembro de 1833, ele se casara com uma prima-irmã, Maria Thomázia Velho da Costa, filha de sua tia Leonarda, irmã de sua mãe, a qual, cabe recordar, também se chamava Maria Thomázia. O visconde de Macaé, tio de ambos, foi uma das testemunhas. Em novembro de 1856, morre a segunda Maria Thomázia. Avisos fúnebres nos jornais nos dizem que ela tinha 37 anos, era “tísica” e viúva. Não há referência a filhos. Terá então nascido em 1819 e se casado aos 14 anos, quando Amaro tinha 27. Sabemos que este estava vivo ainda em 1839, e talvez morando em Paris, pois naquele ano um escultor francês da moda, James Pradier, esculpiu seu busto em mármore.        

Os Velho da Silva foram durante algumas décadas, no final da época colonial, no período joanino e no início do Império, uma das famílias mais prósperas, influentes e prestigiadas do Brasil. Formavam um clã. Isso explica a facilidade com que Amaro Guedes Pinto recusou a transferência para Viena.

Nas suas Memórias para servir à história do Reino do Brasil (1825), Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), o “Padre Perereca”, conta-nos que, ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1808, a família real foi recebida sob um “precioso pálio de seda de ouro encarnada”. Oito notáveis da cidade foram escolhidos para sustentar esse pálio. Um deles  era um tio-avô — outro Amaro Velho da Silva, também ele próspero traficante de pessoas escravizadas — do nosso Amaro. Em seus livros, Laurentino Gomes confunde os dois Amaro Velho da Silva, tio e sobrinho, como sendo uma só pessoa. Oitenta anos depois, o conde de Mota Maia, médico de Pedro II que o acompanhava na viagem à Europa entre 1887 e 1888 e estava presente, em Florença, à inauguração do quadro de Pedro Américo, viria a ser ninguém menos do que filho de uma prima-irmã de Amaro Guedes Pinto. Proclamada a República, ele acompanharia a família imperial em seu exílio.

Da sua chegada ao Rio em 1808 à partida para o exílio em 1889, portanto, a dinastia reinante esteve sempre acompanhada por parentes próximos do nosso retratado. A família de Amaro Guedes Pinto logrou manter-se, ao longo do século XIX, no mais alto escalão social. Malgrado a insignificância do personagem em si, um olhar sobre suas conexões familiares revela muito sobre a realidade sociológica do Brasil. Por uma ironia muito brasileira, outro dos oito notáveis que receberam a família real em 1808 era Manoel Pinheiro Guimarães, também este da burguesia mercantil do Rio, integrando a rede de fornecedores e contratadores que sustentavam a administração colonial portuguesa, e antepassado do mesmo Samuel Pinheiro Guimarães que determinaria a retirada do retrato de Amaro da antessala da Secretaria-Geral.

O quadro de Antonio Manuel da Fonseca, luxuoso nos detalhes — há cortinas de veludo verde, a roupa do modelo é rica, a cúpula da Basílica de São Pedro aparece ao fundo — preserva para a posteridade o ar juvenil, satisfeito, despreocupado de um perfil diplomático apagado. Opõe-se a ele a tela que retrata, sem ornamentos, o funcionário instruído, patriótico e incansável que foi Duarte da Ponte Ribeiro. Contra um fundo cinza, trajes discretos e um rosto de meia-idade denotam sagacidade e circunspecção. O primeiro retrato joga luz sobre o sucesso material de um grupo social. O segundo, embora atemporal, nos revela os traços de uma personalidade individual.

Ponte Ribeiro construiu reputação de trabalhador abnegado, de eficiente “fronteiro-mor”, para usar a expressão de Castilhos Goycochêa, na defesa dos interesses do Brasil, enquanto Guedes Pinto não deixou nome algum. Não poderia haver contraste mais marcante nos percursos dos dois diplomatas.

Curiosamente, essa diferença transparece em seus respectivos retratos. Estes simbolizam, assim, dois tipos de carreira diplomática divergentes, que existiram, existem e existirão. De um lado, o funcionário zeloso, estudioso, capaz, destinado pela chancelaria a postos difíceis e a duras tarefas necessárias. De outro, o hedonista acomodado a uma existência confortável e vazia, ali “onde as viagens são fáceis”.   

Este ensaio foi primeiro publicado em Estado da Arte, em 10 de dezembro de 2025

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Lepanto

Lepanto

Quem veio me contradizer foi Emmanuel Macron. Duas semanas atrás, em “Marcha fatal“, afirmei que não esperamos, de chefes de Estado e de Governo, que tenham tempo de ler. Suas tarefas, sua agenda pesada, permitem presumir que eles conseguem se dedicar no máximo à leitura de relatórios e pontos de conversação.

Na versão final daquela coluna, suprimi, por razão de espaço, um parágrafo em que recordava um romance do escritor inglês Alan Bennett, em que a rainha Elizabeth II desenvolve, de repente, uma inverossímil paixão pela leitura. Livros tornam-se a tal ponto uma obsessão da soberana, que passam a ser vistos, pelos seus assessores, como um empecilho para que exerça suas funções.    

Pois o presidente da França, entrevistado enquanto visitava o Festival do Livro em Paris agora em abril, afirmou que lê — livros, não documentos de trabalho — todos os dias, “ou cedo de manhã, ou à noite”.

Quando Macron assumiu a presidência, em 2017, divulgou-se sua foto oficial como chefe de Estado. O presidente é mostrado em uma pose relativamente informal e com ar decidido, frente à sua escrivaninha no Palais de l´Élysée. Na época, analisei o resultado em um texto intitulado “Uma foto e três livros“. O que me motivou foi a presença, sobre o móvel, de três volumes publicados na prestigiosa coleção da Pléiade, da editora Gallimard: as Memórias de Charles de Gaulle, O vermelho e o negro, de Stendhal, e Os frutos da terra, de André Gide.

A presença de um presidente no Festival do Livro de Paris não parece ser ocorrência corriqueira. Bem diferente é o caso do Salão da Agricultura, evento altamente midiático com fortes contornos políticos, decorrentes da importância dos agricultores na vida francesa. O setor agrícola foi, em grande parte, o responsável pela lentidão da negociação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, assinado em janeiro após quase 30 anos de espera; e, agora, influencia na demora para a sua aprovação pelo Parlamento Europeu.

O que os incomoda é a competitividade agrícola do Brasil e do MERCOSUL. Em dezembro, de férias em Bruxelas, minha mulher e eu presenciamos, em uma avenida principal, uma tremenda manifestação de agricultores europeus, sobretudo belgas e franceses, contra o acordo. Centenas de tratores circulavam pelas ruas, paralisando o trânsito. Todos, aliás, ultramodernos, visivelmente caros, com a pintura impecável e tinindo de novos. Alguns despejavam no asfalto carregamentos de batatas. Transeuntes e motoristas, presos no engarrafamento, aproveitavam para recolhê-las. Era já um jantar em perspectiva.

Mesmo na França, é difícil imaginar o Festival do Livro competindo com o Salão da Agricultura. Mas o momento era adequado para a presença de Macron. Está em curso, em vários países europeus, a adoção de medidas que proíbam o acesso das crianças às redes sociais. Na França, espera-se que a partir de setembro, com a volta às aulas depois das férias de verão, as redes sociais, extraindo-se algumas exceções, estejam vedadas aos menores de quinze anos.

No Festival do Livro, Emmanuel Macron declarou: “há uma terrível doença, hoje: a falta de atenção, irmã gêmea de outra doença, a solidão”. A proibição às crianças de frequentar as redes sociais, estima o presidente da França, facilitará que “reaprendam a praticar esportes, a levar uma vida na comunidade e a ler. Ler é um momento mágico e essencial do dia”. 

O mais interessante, na entrevista, é que Macron parece encarar o hábito da leitura como algo que seria o oposto da solidão. Ele diz: “Quando saímos de um livro, nunca estamos sós. Estamos mergulhados naquilo que acabamos de compreender, há uma paz consigo mesmo e compreendemos o que o autor tinha a nos dizer”. A leitura é assim colocada como um fator de socialização, e não, como alguns gostam de pensar, de isolamento.

Quanto ao presidente do Brasil, sabemos que Lula, na prisão, dedicou-se à leitura e podemos mesmo descobrir, em páginas eletrônicas, o que então leu. Examino a lista neste minuto e descubro que nela figuram, entre as quarenta obras, Grande sertão: veredas e Um defeito de cor. O cativante romance da também mineira Ana Maria Gonçalves me foi oferecido de presente por um grande amigo, que compartilha com ela o sobrenome.

Em dezembro de 2023, embaixador na Malásia, inaugurei no Festival Literário de George Town, capital da ilha e do estado de Penang, uma exposição homenageando Clarice Lispector, financiada pelo Instituto Guimarães Rosa, com material cedido pelo Instituto Moreira Salles. Revelou-se uma excelente iniciativa, pela embaixada, de divulgação cultural do Brasil. Chamou minha atenção o fato de o primeiro-ministro do estado de Penang, Chow Kon Yeow, participar ativamente da abertura do festival.

Fico me perguntando se, alguma vez, um governador do Rio de Janeiro abriu a FLIP ou se um governador de Minas Gerais abriu um dos três festivais naquele estado — em Araxá, em Itabira, em Paracatu — criados, organizados e curados por Afonso Borges.

Enquanto vou terminando esta coluna, pensando aonde quero chegar e como encerrá-la, um milagre acontece. Um milagre literário, um milagre cultural. Recebo de um jovem amigo paulista, Caio Duarte, mensagem em que me conta que ele e um grupo de colegas seus lançarão, “no segundo semestre, após a FLIP”, uma revista de debate literário e cultural. O local que abrigará a sede da publicação, a qual será, pelo menos no início, semestral, já está sendo preparado em São Paulo.

A revista se chamará “Lepanto”, como a batalha naval de 1571, em homenagem a Cervantes, que, então com 24 anos, nela lutou. A notícia de seu próximo lançamento, que chegou a mim em um período particularmente duro e exaustivo no trabalho, me animou. Há portanto no Brasil, ainda, idealismo e coragem para a batalha da atividade literária.

Entusiasmado, concluí: mente quem afirma que o livro e o pensamento estão morrendo.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 27 de abril.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Marcha fatal

Marcha fatal

De chefes de Estado ou de Governo, não esperamos que tenham tempo de ler. Acreditamos estarem eles ocupados em dinamizar a economia, garantir o respeito às instituições e às leis nacionais e inserir seus países no cenário internacional de acordo a normas estabelecidas. Supomos que seu contato com o texto escrito se limita a subsídios, relatórios e pontos de conversação preparados por assessores, de que necessitam para calibrar sua atuação.

Se eu pudesse contudo recomendar um livro aos governantes de hoje, seria 1812: A marcha fatal de Napoleão rumo a Moscou, de 2004. Seu autor é o historiador britânico e polonês Adam Zamoyski. O tema tratado nas 550 páginas é muito conhecido: o fiasco da invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte. Tenho em casa outro relato sobre o assunto, de 1985, por Nigel Nicolson, que se tornou famoso ao descrever, em Retrato de um casamento, as vidas de seus pais, o diplomata Harold Nicolson e a escritora Vita Sackville-West.

Somente na Rússia, nos conta Zamoyski, há mais de cinco mil volumes publicados sobre os eventos de 1812. A marcha fatal destaca-se por ser de leitura compulsiva. Recorre aos depoimentos de muitas testemunhas da época, inclusive russas, citadas extensamente no corpo do livro. É como um coral em que as vozes de vários cantores se combinam para produzir um grande efeito conjunto.

Adam Zamoyski nos mostra o que acontece quando um chefe de Estado militarmente poderoso decide iniciar uma guerra sem saber ao certo qual é seu objetivo concreto e sem levar em conta adequadamente os seus desdobramentos estratégicos.

Eram várias as causas plausíveis, naquele momento, para o antagonismo entre a França e a Rússia. Havia o temor do czar Alexandre I de que o Grão-Ducado de Varsóvia, satélite francês criado em 1807 com territórios retirados da Prússia, fosse um esboço de restauração da Polônia, país que fora fatiado, no final do século XVIII, por Áustria, Prússia e Rússia. Havia o Bloqueio Continental, prejudicial aos interesses econômicos da Rússia, imposto por Napoleão para impedir o comércio da Europa com o Reino Unido. Havia o desejo do imperador francês de intimidar a Rússia, para forçá-la a uma aliança contra os ingleses, seus verdadeiros inimigos. Havia o rancor ideológico dos monarcas hereditários da Europa contra o regime napoleônico, sucessor da Revolução. Havia também a rivalidade natural entre dois imperadores ambiciosos, sedentos ambos por prestígio.

Apesar dessa atmosfera de hostilidade latente, “não havia nada que a Rússia tivesse”, como aponta Zamoyski, “que Napoleão pudesse querer”. Um ano antes da invasão, Bonaparte declarara a um visitante russo: “se eu atacasse a Rússia, estaria fazendo uma guerra sem propósito”.

Em 1807, os dois imperadores haviam se encontrado sobre uma balsa no rio Niemen, selando uma aliança. Zamoyski considera, porém, que Napoleão “não sabia como lidar com aliados; ele estava acostumado a vassalos”.

Napoleão, nos diz severamente o historiador, “era conduzido pela sede de poder e de dominação sobre os outros. Comportava-se como uma criança, quando se sentia contrariado. Não possuía senso de justiça ou de respeito pela vontade alheia”. Quanto a Alexandre, já em 1808 ele escrevera a uma de suas irmãs, a respeito de seu então aliado: “não há espaço para nós dois na Europa”.

Leio no Memorial de Santa Helena a seguinte reflexão de Napoleão, destronado e exilado, sobre suas desavenças com Alexandre: “O verdadeiro obstáculo foi Constantinopla. A Rússia a queria; eu não podia deixar que a tomasse; é uma chave preciosa demais”.  

Fosse qual fosse a sua razão, no verão de 1812 Bonaparte atravessa o Niemen, invadindo o império russo. Zamoyski avalia que, entre junho e dezembro de 1812, o exército do imperador, multinacional, já que ele controlava a maior parte da Europa, enviou entre 550 mil e 600 mil homens à Rússia. Cerca de 400 mil sucumbiriam. Os russos sofreriam perdas equivalentes. Nos dois casos, um quarto dos soldados cairia lutando. Calcula Zamoyski que, entre civis e militares, um milhão de pessoas, somados os dois lados, pereceram em decorrência da invasão francesa. 

A decisão russa de evitar confronto bélico obriga o exército napoleônico a ir avançando cada vez mais. Em setembro, ocorre a sangrenta batalha de Borodino — bataille de la Moskowa para os franceses. Segundo Zamoyski, esse é “o maior massacre registrado na História” até então. Batalha vencida pela França, os russos a celebram como uma vitória sua: retiraram-se em ordem e não capitularam. Mesmo diante da tomada francesa de Moscou, uma semana mais tarde, Alexandre não propõe a paz, para surpresa do invasor, mas investe em uma estratégia de terra arrasada. Uma iniciativa francesa de cessar-fogo é ignorada.

Já desde o início da invasão, o calor, a poeira, a lama quando chovia, as dificuldades logísticas e de abastecimento haviam provocado mortes e deserções no exército francês. Mas é a retirada no inverno, com neve e temperaturas às vezes de 35 graus negativos, que aniquila as tropas de Napoleão e marca, desde então, a memória coletiva. De certa maneira, vamos lendo a obra à espera da descrição que Zamoyski fará desse momento épico e crucial da saga napoleônica, que dá início à sua derrocada final.

Dependendo da sensibilidade do leitor, a retirada da Rússia, ante o frio e o desabastecimento total, pode ser estudada pela perspectiva do heroísmo dos soldados e do próprio imperador; ou da insensatez e crueldade dessa aventura de Napoleão; ou ainda como um conto de horror.

O historiador não poupa os detalhes tenebrosos. Lemos sobre violência, traição, roubo, abandono de feridos, torturas russas sobre prisioneiros e canibalismo não somente entre as tropas rivais, mas também entre os próprios soldados da Grande Armée. No entanto, ao longo do livro, são descritos atos de generosidade impressionantes, inesperados. Revela-se aí a nossa natureza, violenta, sequiosa por conflitos absurdos mas, ao mesmo tempo, com apenas um ato desprendido, capaz de redimir a espécie.

É o ser humano comum expiando a soberba dos governantes.  

     

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 13 de abril, onde o jornal, ao mudar o título, transformou uma metáfora sobre os dias de hoje em um relato histórico

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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A diplomacia em Guerra e Paz

A diplomacia em Guerra e Paz

Quem se aproxima de Guerra e Paz entra em contato com todo um universo — para muitos leitores tão real, se não mais, do que a própria vida. A primeira pessoa a ler a obra já recebeu essa impressão. Em sua autobiografia, a condessa Sofia Tolstói, que recopiou várias vezes o livro do marido enquanto ia sendo escrito, de 1863 a 1869, comenta que, naquela época, ela desejava “nada mais do que viver na companhia dos personagens de Guerra e Paz; eu os amava e observava o desenvolvimento de suas vidas como se fossem seres vivos”.

Com seus quase seiscentos personagens, o romance é uma análise da natureza humana e de suas contradições, de suas belezas e suas mesquinharias. É também um comentário sobre a História. O que os historiadores consideram material para seus estudos, as pessoas que atravessam determinada era experimentam, afinal, como a rotina do dia a dia. Leon Tolstói ele mesmo nos diz, no livro, que, para quem não foi contemporâneo da invasão da Rússia por Napoleão, em 1812, “é natural pensar que todos os russos estavam então engajados em se sacrificar, em salvar a pátria ou chorar pela sua queda. Mas não foi assim”. Vemos, em retrospecto, “apenas o aspecto histórico daquele tempo, e não os interesses individuais que as pessoas tinham”. As tropas napoleônicas já invadiram o território russo mas, em São Petersburgo, longe do conflito, a vida continua como sempre.  

Em um artigo de 1868 intitulado “Algumas palavras sobre Guerra e Paz”, Tolstói se recusa a qualificar a obra como “romance, poema ou crônica histórica”.  Não define de maneira nítida o que seria então o seu livro, limitando-se a considerar que é “o que o autor queria que fosse e foi capaz de expressar na forma como está expresso”. Aponta que a literatura russa “desvia-se” dos gêneros europeus, não podendo suas formas artísticas ser enquadradas nas definições de “romance, epopeia ou conto”.

Uma obra tão rica provoca em cada leitor percepções diferentes. Com o passar do tempo, até os mesmos olhos, ao reabrirem Guerra e Paz, percebem aspectos que não haviam notado ou valorizado anteriormente. Isso se aplica tanto à psicologia e as motivações das personagens quanto à arquitetura do romance e os seus temas.

Há muitos anos, despachando com meu chefe de então sem conseguir emitir uma opinião, enquanto ele expunha sua visão, com a qual eu aliás concordava, sobre os interesses de política externa do Brasil, aproveitei um fim de frase dele para dizer, absolutamente fora de contexto: “todo mundo deveria ler Guerra e Paz ao menos uma vez por ano”. O comentário, arriscado, causou, felizmente, o efeito esperado. Meu chefe, de tão surpreso, olhou-me mudo, depois balbuciou: “mas uma vez por ano, meu filho? O livro é enorme!”, e a brecha me permitiu estabelecer com ele o diálogo que eu ambicionava sobre os objetivos da política exterior brasileira. 

Não foi porém à toa que pensei em Guerra e Paz ao ouvir meu chefe discorrer sobre política externa. Um aspecto notável do livro, para mim, é a atenção dedicada por Tolstói à dinâmica das relações internacionais. A política internacional é, na verdade, a primeiríssima ideia que surge em Guerra e Paz. A ação do romance, que começa em uma recepção elegante, é lançada pela célebre frase inicial, dita em francês dentro do texto russo: “Então, príncipe, Gênova e Luca tornaram-se agora apenas apanágios, domínios da família Buonaparte”.

Assim a dona da casa, Ana Pavlovna Scherer, dama de companhia da imperatriz-viúva da Rússia, mãe do czar Alexandre I, recebe em seu salão, em São Petersburgo, em julho de 1805, um de seus convidados, o príncipe Vassili Kuraguin. Que dois aristocratas russos frequentadores da corte imperial conversassem entre si em francês era esperado e natural.

Sete meses antes, Napoleão fora coroado imperador dos Franceses. Era o seu período áureo, que duraria mais seis anos, em que atuaria como mestre incontestável da parte ocidental da Europa continental. Em março de 1805, o imperador transformara uma de suas irmãs, Elisa Baciocchi, em princesa de Piombino, antigo principado na Toscana recentemente anexado pela França, e em junho dera-lhe de presente a república de Luca; também em junho, portanto um mês antes da recepção de Ana Scherer, Gênova fora incorporada ao império francês.   

Dependendo da tradução, a anfitriã usa o nome Bonaparte ou o depreciativo Buonaparte, grafia italiana do sobrenome de Napoleão, abandonada por ele em favor da versão francesa mas com frequência utilizada por seus detratores. Na edição em russo que consultei, Ana Scherer emprega a versão Buonaparte.

O príncipe Vassili comenta que não poderá ficar muito tempo, porque prometeu ir à recepção do embaixador da Inglaterra. A conversa entre os dois prossegue. Ana Scherer possui uma mente política, alinhada ao pensamento mais radicalmente leal aos Romanov. Em um monólogo marcado pela “impetuosidade”, como o define Tolstói, ela expõe a Vassili Kuraguin sua percepção das relações internacionais na Europa. A Áustria, ao não querer realmente a guerra contra a França, trai a Rússia. Quanto à Prússia, está pronta para se aliar à França, e sua propagada neutralidade é uma mentira, já que aquela potência está sempre a declarar “que Buonaparte é invencível e que a Europa não tem poder frente a ele”. A Inglaterra, “com seu espírito voltado ao comércio”, não pode entender “a alma elevada do imperador Alexandre”. Os ingleses não compreendem “a abnegação” do imperador russo, que “não ambiciona nada para si mesmo, mas apenas o bem da humanidade”. A Rússia, assim, “terá de salvar a Europa sozinha”. Alexandre I “esmagará a hidra revolucionária, personificada de maneira mais terrível do que nunca” na pessoa de Napoleão, “esse assassino, esse bandido!”. “Teremos”, conclui a dama de companhia da imperatriz-viúva, “de vingar sozinhos o sangue do justo”.

O “sangue do justo” é uma referência à morte do duque de Enghien, príncipe francês exilado por causa da Revolução, que Napoleão mandara raptar em Ettenheim, na Alemanha, perto da fronteira com a França, e fuzilar no castelo de Vincennes, em março de 1804, após um simulacro de julgamento militar. A morte aos 31 anos de Louis-Antoine-Henri de Bourbon, duque de Enghien, primo distante de Luís XVI, marcou a imaginação de seus contemporâneos. Não apenas a deles. Quando visitei pela última vez Vincennes, em 2018 ou 2019, meu objetivo era tentar localizar o lugar exato, nos fossos do castelo, onde Enghien fora fuzilado.

Essa morte serviu de instrumento a Napoleão, então primeiro cônsul, para tornar-se imperador. Com o fuzilamento de Enghien, último rebento dos Condé, ramo ilustre do sangue real francês, ele conquista a lealdade dos antigos membros da Convenção Nacional, inclusive os que haviam votado, em 1793, pelo guilhotinamento de Luís XVI e que por essa razão temiam o retorno dos Bourbons ao trono.

Em 1803 fora rompida a chamada Paz de Amiens entre a França e a Grã-Bretanha, assinada apenas um ano antes. Desde então, haviam sido desmascarados complôs realistas, provavelmente financiados pelo governo britânico, contra a vida de Bonaparte. Enghien fora falsamente acusado de participar dessas conspirações. Talleyrand, então ministro das Relações Exteriores, foi um dos que encorajaram Napoleão a ordenar o  sequestro e fuzilamento do príncipe. Seguro no cargo, o ministro tinha tudo a ganhar, naquela época, com a permanência no poder do Napoleão primeiro cônsul. Poucos anos depois, brigado com o Napoleão imperador, trabalharia contra ele; em 1814, julgaria mais conveniente favorecer a volta dos Bourbons.

Chateaubriand, em Memórias de além-túmulo, questiona se a morte do príncipe teria sido realmente necessária para a adoção por Bonaparte do título de imperador: “Essa suposta condição é uma dessas sutilezas dos políticos, que pretendem encontrar razões ocultas para tudo”. Mas admite que, morto Enghien, “alguns não ficaram tristes de ver o primeiro cônsul separar-se para sempre dos Bourbons”.

A execução do herdeiro dos Condé levou Chateaubriand a renunciar a um cargo diplomático no exterior, sem muita importância, para o qual Napoleão acabara de designá-lo. Com a restauração dos Bourbons, ele se tornaria ministro das Relações Exteriores, de 1822 a 1824. Muitas páginas são dedicadas, na obra-prima que são suas memórias, ao fuzilamento do príncipe. O capítulo dedicado a Napoleão em sua análise dos motivos e das ações de cada ator do drama é intitulado “Bonaparte: seus sofismas  e seus remorsos”.

Não deixa de ser curioso que em seu testamento, redigido em Santa Helena em 1821, poucas semanas antes de morrer, Napoleão declare já nas primeiras linhas: “Fiz prender e julgar o duque de Enghien porque isso era necessário à segurança, ao interesse e à honra do povo francês”, mas não atribua responsabilidade a seus colaboradores de 1804. Nem mesmo a Talleyrand, que no entanto é descrito no testamento como traidor. No Memorial de Santa Helena, Emmanuel de Las Cases menciona que o imperador, exilado no ilhote atlântico, “frequentemente abordava o tema” da morte de Enghien, sobre o qual “o homem privado se debatia contra o homem público”. De maneira muito tipicamente egocêntrica, Napoleão diz em certa ocasião a Las Cases: “Eu soube depois, meu caro, que Enghien me era favorável; asseguraram-me que ele não falava de mim sem admiração. Veja como funciona a justiça distributiva aqui embaixo”.

Foi sobretudo na Rússia que a morte de Louis-Antoine-Henri de Bourbon chocou. Com razão, o czar considerou que se violara o direito internacional. A corte russa entrou em luto oficial. Anos antes, em 1797, o duque de Enghien, então com 24 anos, passara alguns meses de seu exílio em São Petersburgo, na companhia do avô, o princípe de Condé. Parece ter aí desenvolvido boas relações com o herdeiro do trono, Alexandre, o futuro czar, então com 19 anos.

O avô da mulher de Alexandre I, o eleitor de Baden, governante do estado cujo território fora desrespeitado, aceitara no entanto pacificamente a extradição forçada do duque. Seu governo recebera de Talleyrand, quando o rapto era já fato consumado, uma carta de explicação que mais parecia uma ameaça. Não seria possível que Enghien estivesse em Ettenheim “sem a permissão de sua alteza eleitoral”, dizia a missiva, o que  teria causado ao primeiro cônsul “a dor mais profunda”, ao ver que um soberano “que ele sempre tratara com amizade” abrigara “os seus inimigos mais cruéis, e permitira que eles tramassem com tranquilidade conspirações tão espantosas”. Servilmente, o eleitor de Baden decreta, então, a expulsão de sua jurisidição dos franceses emigrados da Revolução. A mística de Napoleão como general invencível e governante autoritário era, em 1804, de tal ordem, que a maioria dos monarcas europeus se calou diante do sequestro e fuzilamento do jovem Bourbon. Pode-se supor que Enghien morreu para que Napoleão demonstrasse ao público que podia matá-lo impunemente.   

De volta à recepção de Ana Scherer, o duque de Enghien passa a ser tema mais direto de conversa. Está presente nos salões da anfitriã um francês exilado, o “visconde de Mortemart” — haveria muito a dizer sobre a escolha desse nome por Tolstói — que narra uma anedota falsa mas picaresca sobre o duque e Napoleão. Ana Scherer manifesta horror diante do fato de Bonaparte, dois meses antes, em Milão, ter sido coroado rei da Itália, ato que ela considera a prova de que “o mundo todo enlouqueceu” e de que essa será “a gota d´água que fará o copo entornar”, pois “os soberanos não suportarão esse homem, ameaça para tudo”. Mortemart responde que, ao contrário, os reis europeus “traíram a causa dos Bourbons” e “estão enviando embaixadores para parabenizar o usurpador”.

Como diria Machado de Assis, criador de um diplomata, o conselheiro Aires: “Ao vencedor, as batatas”. Mortemart é lúcido, entende o conceito de realpolitik. Outro convidado de Ana Scherer, o abade Morio, um italiano, baseado em uma figura histórica, é apresentado como tendo “um projeto de paz perpétua”. Nas poucas palavras que Tolstói permite a ele dizer na recepção, Morio argumenta que a paz dependeria de “um equilíbrio de poder na Europa”, mas é interrompido pela anfitriã antes de poder explicar suas ideias.

Os diálogos ouvidos nessa recepção do verão de 1805, que é como o brilhante portal de abertura do romance de Tolstói, introduzem diferentes temas centrais para o estudo das relações internacionais, e ainda relevantes para a compreensão da realidade contemporânea:

– o problema da sede por expansão territorial, com o império francês anexando Gênova;

– a questão da sucessão estatal, com a república de Luca e o ex-principado de Piombino, que fora recentemente incorporado pela França, unidos de maneira a formar um principado novo para a irmã de Napoleão;

– as incertezas das alianças entre Estados: a Rússia pode ou não confiar na Áustria, na Prússia e na Inglaterra, se quiser enfrentar a França? Ao longo do livro, veremos Napoleão e Alexandre às vezes aliados, às vezes inimigos, o que culminará na invasão da Rússia pela França;

– a violação do direito internacional e do espaço territorial de um Estado amigo, com o sequestro do duque de Enghien;

– a desigualdade de fato entre os Estados, com o eleitor de Baden, que sequer é mencionado nas conversas no salão de Ana Scherer, tendo de se calar, diante da violação de seu território pela França. Bem mais adiante no livro, quando se inicia a invasão da Rússia, Napoleão reage às propostas de Alexandre pela manutenção da paz entre França e Rússia exclamando: “exigências desse tipo poderiam ser dirigidas a alguém como o príncipe de Baden, mas não a mim!”; 

– o predomínio da realpolitik, com os países europeus, à exceção da Rússia e da Inglaterra, curvando-se diante do poder do “usurpador”;

– a influência cultural de um país sobre os demais, o que hoje chamaríamos de “poder brando”. Vemos a elite russa conversando na língua do inimigo francês. Centenas de páginas depois, já iniciada a invasão da Rússia por Napoleão, os frequentadores das recepções de Ana Scherer passarão a criticar os russos que ainda assistem a peças no Teatro Francês em São Petersburgo, o que significa que ele continua com um público cativo;

– a noção de excepcionalidade moral, por meio da qual um determinado país julga ocupar um lugar especial, e ser sua responsabilidade, seu dever, orientar o mundo, em razão de seu espírito bem-intencionado. Cabe à Rússia, nos diz Ana Scherer, salvar, sozinha, a Europa do “bandido”, do “assassino” que é Napoleão, porque Alexandre deseja apenas “o bem da humanidade” e é dono de “uma alma elevada”.  

Ao longo de Guerra e Paz, lemos sobre vários momentos de exercício fracassado da diplomacia, quando a paz poderia ter sido preservada; e sobre batalhas após as quais o perdedor é obrigado a negociar um acordo de paz. É típica do gênio de Tolstói, por exemplo, a forma como trata o encontro de Tilsit entre Napoleão e Alexandre, em junho de 1807.

Sabemos que os dois imperadores se reuniram em um pavilhão sobre uma balsa no meio do rio Niemen. Após esse primeiro encontro, no mesmo dia Napoleão escreveu a Josefina: “Acabo de ver o imperador Alexandre. Fiquei muito contente. O jovem imperador é bonito e bom. É mais inteligente do que as pessoas geralmente pensam”. Juraram-se amizade, a qual duraria uns poucos anos. Conviveram muitos dias em Tilsit, onde assinaram um tratado de paz, pondo fim à Quarta Coalisão contra a França, que Napoleão derrotara. O historiador Jean Tulard considera Tilsit o apogeu do poder de Napoleão.

Tolstói está porém menos interessado na interação entre os monarcas do que na maneira como a cena é observada por um de seus personagens, o jovem e ambicioso oficial do exército Boris Drubetskoi, que ostenta o título de príncipe, mas não tem fortuna. Ao pedir para ser testemunha do encontro, Drubetskoi diz desejar “ver o grande homem”, referindo-se a Napoleão. Tolstói ironiza ao lembrar que, até então, o jovem aristocrata sempre se referira ao imperador como “Buonaparte”. Mas o imperador dos Franceses, agora, será por um tempo amigo da Rússia.

Boris observa os dois homens na balsa, com o francês estendendo a mão ao russo e ambos entrando no pavilhão. Não somos informados sobre como transcorreu o encontro, o que disseram um ao outro. O que interessa ao autor é descrever a reação do jovem oficial, que fica particularmente satisfeito porque, tendo estado presente em um momento de extrema importância histórica, “sente que sua carreira doravante estará segura”, pois Alexandre agora “reconhece o seu rosto”. É a síntese do caráter do personagem em poucas linhas.

No ano seguinte, Alexandre e Napoleão viriam a se encontrar novamente, em Erfurt, na Turíngia. Mais uma vez, não são as tratativas entre eles que Tolstói descreve, mas como as festividades ocasionadas pela presença dos monarcas afetam alguns personagens, particularmente a condessa Hélène Bezukhova e, novamente, Boris Drubetskoi, cuja ascensão social e militar continua firme. O encontro de Erfurt sequer é descrito em tempo real, mas apenas em retrospecto. A beleza de Hélène causa forte impacto na ocasião. Napoleão repara nela no teatro e é ouvido dizendo a seu respeito: “É um soberbo animal”. Novamente, com apenas esse comentário, Tolstói com poucos traços desenha o perfil psicológico do imperador.

Tive a curiosidade de contar quantas vezes os termos “diplomata”, “embaixador”, “embaixada”, “diplomacia” e “diplomático” aparecem na obra. O número varia de acordo com a tradução. Na primeira versão para o francês, de 1879, a palavra “diplomata” é usada 24 vezes, “embaixador” 23, “embaixada” 8, “diplomacia” 6 e “diplomático” 14. Na tradução para o inglês de Louise e Aylmer Maude, publicada entre 1922 e 1923, os mesmos termos são utilizados com a seguinte frequência: “diplomata”, 15 vezes; “embaixador”, 18; “embaixada” 7; “diplomacia” 3; e “diplomático” 26.

Na adolescência, Tolstói chegou a estudar para ingressar no serviço exterior. Muitos de seus parentes, tanto do lado do pai como do lado da mãe, serviram à Rússia no exército ou na diplomacia, e às vezes nas duas capacidades. Seu avô materno, o príncipe Nikolai Volkonski, foi general e embaixador em Berlim. Um antepassado, o conde Pyotr Tolstói, fora, de 1701 a 1714, embaixador em Constantinopla. Um primo militar, outro Pyotr Tolstói, serviu como embaixador em Paris de 1807 a 1808, portanto durante uma parte do período coberto por Guerra e Paz.

A dualidade exército-diplomacia é central no romance. De dois personagens, o conde Pierre Bezukhov e o conde Nikolai Rostov, ouvimos que hesitam entre ser diplomatas ou militares. No primeiro diálogo de Pierre com seu amigo o príncipe Andrei Bolkonski, este lhe pergunta se pretende seguir a carreira militar ou a diplomática. A resposta é que “nenhuma das duas perspectivas” parece atraente. Quando Vassili Kuraguin forma o projeto de casar sua filha Héléne com Pierre, que acaba de herdar “uma das maiores fortunas da Rússia”, sua primeira providência é obter para o futuro genro,  como um presente, o ingresso no serviço diplomático. Quanto a Nikolai Rostov, explica ao pai que pode apenas ser militar, pois “para ser diplomata ou funcionário civil é preciso esconder seus sentimentos, e isso eu não consigo”. Alguns capítulos mais adiante, dirá a um colega: “não sou diplomático, por isso entrei para os hussardos”.

Nikolai Rostov não percebe que militares podem ser diplomáticos. Seu parente e amigo, Boris Drubetskoi, oficial e príncipe pouco afortunado, crescido entre os esplendores dos Rostov, preocupa-se tanto em ser amável e habilidoso com todos, que é conhecido pelos primos como “um verdadeiro diplomata”. Tolstói concentrou nesse personagem seu julgamento crítico sobre o caráter de funcionários públicos. No processo, faz de Drubetskoi quase uma caricatura da personalidade carreirista. A caracterização de Boris é, no entanto, gradual. Ao começar o livro, ele vive uma espécie de namoro inocente e infantil com a encantadora Natasha Rostov, e só isso já faz com que gostemos dele. Somos primeiro levados a simpatizar com esse jovem que tateia o mundo à sua volta, procurando encontrar um caminho para o sucesso profissional, usando como trunfo traços como a boa educação, a cordialidade e o respeito a seus superiores. Pouco a pouco, vamos sendo confrontados com o que tudo isso esconde, o egoísmo, a ingratidão e a ambição inescrupulosa.

Ou talvez, o que presenciamos é a evolução da personalidade de Boris, que avança no sentido da afirmação desses traços. Inclusive porque ele está apenas saindo da adolescência no início do romance. Um dos temas sutis do livro é como a máquina estatal mói — ou molda, dependendo do ponto de vista — os indivíduos a ela submetidos, os funcionários públicos, civis ou militares.

Ainda no começo do romance, o militar e “verdadeiro diplomata” que é Boris, conversando com Pierre, parente a quem não via há muitos anos, afirma: “uma das minhas regras é sempre falar abertamente”. Pierre fica comovido; quando seu interlocutor se despede, pensa nele com afeto, julgando-o “agradável, inteligente e decidido”. Centenas de páginas depois, veremos Boris amante de Hélène, já casada com Pierre, e participando de recepções no salão da condessa, local favorável à aliança com a França, frequentado por diplomatas, inclusive o embaixador da França. Entrementes, teremos sabido que, muito longe de “falar abertamente”, ao narrar uma história em público e ser o centro das atenções Drubetskoi “evitava cuidadosamente expressar qualquer opinião pessoal”. A frase que dissera a Pierre sobre sua franqueza era uma falsidade, ou seu temperamento carreirista vencera as últimas resistências?   

Em uma das minhas primeiras releituras de Guerra e Paz, uma observação de Tolstói, embora refletindo uma verdade banal de tão óbvia, ganhou dimensão especial. O príncipe Boris, explica seu criador, intui que, na carreira militar, há duas regras de subordinação. Há a subordinação hierárquica formal, entre as categorias funcionais superiores e inferiores. E há outra, “mais importante”, uma “lei não escrita”, determinada pelo acesso ao poder proporcionado pela função que você exerce, pelo lugar onde você trabalha, e que obriga, por exemplo, “um general a esperar respeitosamente por um capitão”. Boris decide ocupar sempre funções que estabeleçam a seu favor a subordinação não formal.

Por coincidência, conversando logo depois com colegas diplomatas, todos então jovens como eu, um deles, que anos depois se tornaria chanceler, comentou: “Há alguns secretários que mandam mais do que muito embaixador”. Eu estava recebendo ao vivo a lição aprendida por um personagem literário. A experiência de Boris no exército russo, no início do século XIX, estava sendo replicada por diplomatas brasileiros duzentos anos mais tarde.

A noção de que “o sucesso no serviço não requer esforço, trabalho, coragem ou perseverança, mas apenas o conhecimento de como se dar bem com os que podem conceder recompensas” muda a vida de Boris Drubetskoi. Ele é quase inocente ao se surpreender “com a rapidez do seu próprio sucesso e com a incapacidade de outros de perceber como as coisas funcionam”. Se é tão fácil ser exitoso em uma carreira pública, pensa Boris, por que todos não implementam a mesma receita usada por ele?

Comparados com Drubetskoi, os dois personagens de Guerra e Paz que de fato exercem a carreira diplomática são menos desenvolvidos no romance. O primeiro a aparecer, Hippolyte Kuraguin, filho do príncipe Vassili e irmão de Hélène Bezukhova, é de inteligência medíocre, na avaliação do próprio pai. Não há dúvida sobre o que Tolstói pensa de sua criatura. Em 1866, em uma carta dirigida a um ilustrador do romance, Mikhail Bashilov, ele escreve: “você poderia, no desenho representanto Hippolyte, deixá-lo com uma cara ainda mais de idiota?”.

Esse diplomata possui porém tanta autoconfiança que seus interlocutores ficam na dúvida se ele é extraordinariamente limitado ou, ao contrário, espirituoso. Considera-se também um Don Juan. Hippolyte Kuraguin só nos é mostrado três vezes. Ele está entre os convidados na recepção de Ana Scherer que inicia o livro e em outra da mesma anfitriã, muitos capítulos e um ano mais tarde. Nessa segunda festa, somos informados de que ele “aprendera, ao longo de sua carreira diplomática”, que dizer em tom alto e com firmeza palavras que nem ele mesmo entende dão a elas a aparência de profundidade e inteligência. 

Entre as duas soirées, lemos que Hippolyte está em Brünn com a corte austríaca, fugitiva de Viena por causa da aproximação do exército francês. Ele é agora secretário na embaixada russa em Viena. Esse detalhe, mencionado sem comentários pelo autor, não deixa de ter sua importância. Cento e cinquenta páginas antes, enquanto o ouvíamos dizer asneiras, achando-se inteligente, seu pai o príncipe Vassili Kuraguin buscava obter junto a Anna Scherer a nomeação de Hippolyte como secretário de embaixada na capital austríaca. Mas soubera que outro candidato, um certo barão Funke, estava em liça e tentava interessar a imperatriz-viúva, Maria Feodorovna, em seu pleito. Para prejudicar a concorrência, Vassili declara que Funke é “nulo”. Isso choca Ana Scherer, para quem qualquer aparência de crítica a uma possível preferência de sua protetora, a imperatriz-viúva, é um crime. Informa a dama de companhia que Maria Feodorovna “demonstra muita estima pelo barão Funke”, que fora recomendado a ela “por sua irmã”. 

Como conseguira Vassili emplacar o filho em Viena, no lugar do barão, apesar da recomendação da “irmã” da imperatriz-viúva? A mãe do czar Alexandre nascera princesa de Württemberg. Em 1805, quando acontece a primeira recepção, suas irmãs já haviam morrido. Afinal, Guerra e Paz, misturando personagens históricos e fictícios, é literatura. Pode-se imaginar uma irmã viva para a imperatriz-viúva.

Nada impede que uma vaga adicional tenha sido aberta em Viena, para acomodar tanto o protegido da irmã da imperatriz Maria Feodorovna quanto o filho do príncipe Vassili. O importante aqui, o que Tolstói quer mostrar, é a noção de apaniguamento. Cargos diplomáticos são distribuídos não por mérito, mas para agradar aos protetores dos que os solicitam. Hippolyte é “idiota”, mas seu pai é influente na corte. O barão Funke é “nulo”, mas parentes do czar o protegem. Presume-se que ambos farão excelente carreira.

A ambição de Vassili Kuraguin de ver o filho designado para Viena tampouco é irrelevante no contexto da época. Na Europa, os postos mais importantes ao longo de todo o século XIX e ao menos até a Primeira Guerra Mundial eram Paris, Londres, Viena, São Petersburgo e Berlim. Em resumo, as capitais das principais potências europeias, cujas oscilantes e variáveis inimizades e amizades entre 1805 e 1812 são um fator para o desenvolvimento do enredo em Guerra e Paz e levarão à guerra de 1914-1918, já fora do contexto do romance. Entre os países, como nas relações humanas, denomina-se amizade o que é, na maioria das vezes, apenas uma confluência de interesses, que pode perdurar ou não.

É em Brünn que somos apresentados ao segundo diplomata de Guerra e Paz, Bilibin. Esse é um ser mais complexo do que Hippolyte. Servindo também na embaixada em Viena, ele não se parece a seus colegas, “cuja única capacidade é não se comprometer e falar francês”. Trabalha muito. O retrato do personagem, que parece positivo, vai se tornando ambiguo à medida que vemos que Bilibin preocupa-se com a forma, mas não com a substância da atividade diplomática: “o que o preocupava não era o ‘para quê’, mas o ‘como’”. Bilibin “compunha de maneira engenhosa, elegante e hábil, qualquer tipo de memorando, relatório ou circular. Tinha o talento de se comportar bem e de falar sempre de maneira adequada nas altas esferas”.

Bilibin é o que Henry James denominaria “ficelle”, uma personagem sem muita vida própria que existe para explicar a evolução do enredo ou a trama em torno a personagens mais importantes. Pouco sabemos sobre sua vida, a não ser que tem 35 anos, iniciou sua carreira diplomática aos 16 e é solteiro. Em Guerra e Paz, ele surge para interagir com Andrei Bolkonski — com quem analisa a evolução das alianças e das desavenças entre a Rússia, a Prússia, a Áustria, a França — ou com Hélène, a quem aconselha em um momento de hesitação amorosa ou matrimonial. Casada com Pierre, a quem não ama e a quem trai de maneira contumaz, a condessa planeja se divorciar — algo então quase impossível — para se casar com um ou outro de dois admiradores, um príncipe estrangeiro de sangue real e um magnata russo bem mais velho. Conversa a respeito com Bilibin. Este reage mordazmente à vaidade insensata e incongruente de sua interlocutora, convencida de que Pierre a ama muito e que, justamente por isso, acederá facilmente ao seu pedido de divórcio.  

Outros diplomatas vão atravessando as páginas de Guerra e Paz, alguns históricos, outros inventados pelo autor, alguns mencionados de forma anônima, outros pelo nome, como o marquês — e general — de Caulaincourt, que existiu, foi embaixador da França em São Petersburgo de 1807 a 1811 e desempenhara aliás um papel no sequestro do duque de Enghien. Vemos um general enviado por Alexandre I a Napoleão em uma missão especial, para tentar impedir a guerra, quando um diplomata hábil teria sido mais apropriado. E lemos sobre um diplomata profissional, embaixador da Rússia em Paris de 1808 a 1812, cujo ato precipitado e belicoso de anunciar ao governo francês — segundo Alexandre I, sem instruções suas — que está deixando o posto permite a Napoleão considerar-se em guerra com a Rússia.  

O menos perceptivo, porém, parece ser um dos diplomatas anônimos, que encontramos em uma festa de Vassili Kuraguin. É nessa recepção que Kuraguin força a mão a Pierre Bezukhov, fazendo de conta que o jovem propôs casamento a Hélène, e proclamando isso aos convidados, o que o principal interessado aceita passivamente. Tínhamos acompanhado, nas páginas anteriores, a grande hesitação de Pierre em relação a Hélène, por quem sente forte atração sexual, mas que por vezes julga ser de inteligência limitada e de uma moralidade questionável, tendo ouvido rumores até de incesto com um dos irmãos, Anatole. Ele está certo em hesitar, pois sua vida conjugal se revelará infernal.

O diplomata anônimo, constatando o que lhe parece ser “o enlevo dos dois namorados” pensa que, comparado ao que julga ser a atmosfera de amor entre os noivos, o que ele mesmo está dizendo na festa soa como pura bobagem, como algo irrelevante, insípido. Sendo a capacidade de observação, presume-se, uma qualidade importante em um diplomata, o comensal anônimo do príncipe Vassili falha terrivelmente nesse quesito.

Ao partir da recepção, sai triste dos salões dos Kuraguin. Considera que sua carreira diplomática mostra-se fútil e vã frente a tamanha felicidade.

Adolphe Roehn, O encontro entre Napoleão I e Alexandre I sobre o Niemen, quadro de 1808, Palácio de Versalhes

Versões mais curtas deste ensaio foram primeiro publicadas, em 23 de maio de 2025, no Estado da Arte e, em 9 de junho de 2025, no jornal O Estado de S. Paulo

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Guerra, ontem e hoje

Guerra, ontem e hoje

Há uma guerra em curso. Na verdade, há mais de uma, como costuma acontecer. Mas você sabe a qual delas estou me referindo. E se acha que a violência atual no Oriente Médio e no Golfo Pérsico nada tem a ver conosco no Brasil, é melhor pensar de novo. É preciso avaliar as novidades no noticiário internacional e analisar seus múltiplos desdobramentos.  

Quando a terceira guerra mundial se iniciar, ninguém nos avisará. Não haverá uma declaração formal. Entenderemos aos poucos. O volume de mísseis disparados, navios afundados, cidades destruídas, tesouros artísticos arruinados, países envolvidos e, principalmente, vidas inocentes perdidas acabará por nos fazer compreender.

A Segunda Grande Guerra, em todo caso, esteve por estes dias muito presente para mim. Em janeiro, comprei no Rio um livro publicado em 2025, O tenente: Cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial, de que Celso Furtado (1920-2004) aparece como único autor. Rosa Freire d´Aguiar é responsável pela organização, a apresentação e as notas.

Revela-se aí a modéstia característica de Rosa Freire d´Aguiar. Embora a obra seja uma nova edição de um livro de Celso Furtado de 1946, De Nápoles a Paris: Contos da vida expedicionária, a concepção do volume lançado ano passado pela Companhia das Letras é da organizadora, que anexou a esse núcleo de contos quantidade de elementos iluminadores para a compreensão da obra. Há cartas do autor enviadas a parentes e amigos no Rio de Janeiro, enquanto esteve na Itália, e por ele recebidas no mesmo período. Há material sobre como a crítica recebeu os contos, quando foram lançados. Há textos avulsos do autor sobre o fascismo e sobre sua experiência como expedicionário.

Sobretudo, há uma verdadeira joia de apresentação por Rosa Freire d´Aguiar sobre o conjunto dos textos, contextualizando-os e explicando o momento histórico em que foram escritos. O grande economista brasileiro, então jovem de 24 anos, viajou para a Itália em fevereiro de 1945, “integrando o quinto, e último, escalão da Força Expedicionária Brasileira”. Viajavam no navio “General Meigs” cerca de 5 mil homens.

Rosa Freire d´Aguiar lembra que, por aquela época, Roma já estava libertada desde junho de 1944. A frente de batalha se situava então no rio Arno. Furtado foi enviado a Florença, de onde “comandou comboios para levar a tropa até a linha de frente”. Mais tarde, ele lembraria que, na guerra, não se morria apenas lutando, pois “os acidentes eram muitos”, por exemplo com minas.

Em setembro de 1945, o futuro ministro de estado e embaixador estava de volta ao Rio de Janeiro. Decidiu relatar suas impressões da guerra em forma de ficção e no ano seguinte publicava os contos. Falemos, justamente, desses contos.

Celso Furtado, como ficcionista, não possui a mesma densidade do autor de livros de pensamento econômico, notavelmente do clássico Formação econômica do Brasil, de 1959, que faz dele um dos grandes analistas da realidade brasileira. Seus contos não devem ser abordados na expectativa de que encontraremos um novo Machado de Assis, um novo Tchekhov. No entanto, não podem ser descartados. Literariamente, são satisfatórios: bem escritos e uniformes no estilo elegante, transmitem uma atmosfera própria.

São também perturbadores. Não somente porque o tema tratado é a guerra, mas porque se concentram sobre seus efeitos na vida cotidiana das pessoas, particularmente as mulheres.

Em vários contos, há um namoro ou uma atração emocional, física ou sensual entre algum soldado brasileiro e uma mulher italiana. De início, isso me pareceu um conceito excessivo, falar-se tanto de amor ou de sensualidade naquelas circunstâncias de combate e de reconstrução após a guerra. Depois, percebi que os textos revelam um padrão; em muitos casos, por causa da guerra as personagens femininas perderam família e bens. Tornaram-se desvalidas. É sobre o seu desespero que estamos lendo, essa é a tônica. O soldado estrangeiro é, em maior ou menor grau, um invasor. Pode porém parecer uma tábua de salvação. Em um dos melhores contos, “Terra prometida”, Mariucha, abandonada pelo namorado brasileiro, exclama: “Eu quero ir para o Brasil. É o meu sonho. Aqui não há futuro para mim”.

O conto mais intrigante é “Um intelectual em Florença”. Aborda uma questão já destrinchada por Henry James, a do americano — no caso, brasileiro — confrontado, na Europa, com as sutilezas das relações sociais e as tradições culturais de velhas famílias. Em uma recepção em um palacete florentino, Mário flerta com uma jovem aristocrata. Mas acredita perceber em si mesmo “a fragilidade da própria erudição, que se lhe afigurou como absolutamente postiça”,  pois não detém “os oito séculos de sedimentação que ele sentia nas paredes do castelo e no olhar das criaturas”. O protagonista discorre sobre Goethe, sobre Horácio. A jovem se volta para ele e opina: “Para vocês, o mundo e as coisas são simplesmente o mundo e as coisas. Vocês não têm a deformação monstruosa de oito séculos de tradição”. E aí, algo extraordinário acontece: ela explica Goethe e Horácio para Mário exatamente como ele acabara de fazer.

Em uma carta de abril de 1945, Celso Furtado prenuncia a apatia que hoje muitos parecem sentir diante de mais um conflito bélico: “Muito cedo nos acostumamos com as destruições”. A violência em repetição gera um sentimento de banalidade.

Em outra carta, escrita da Toscana na mesma época, comenta estar presenciando, como resultado da guerra, “a cabal decomposição de uma sociedade”, formada por “milhares de criaturas sem programa de vida, sem escala de valores, guiadas pelo medo que lhes traz o estado de insegurança. Camadas inteiras estão expostas aos ventos de qualquer ideologia, promessa ou utopia”. 

Li o volume editado por Rosa Freire d´Aguiar sob o impacto do bombardeio de uma escola primária no Irã. Um dos contos é sobre a morte de uma menina de seis anos, também vítima de um bombardeio.

Esse é um caso em que preferiríamos que o mundo não obedecesse tão fielmente à arte.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 16 de março

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas:

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Passeando pela Espanha

Passeando pela Espanha

Novos conflitos, temor de alguns de que seja iminente a terceira guerra mundial, revelações sobre a rede de contatos de alto nível de um predador de mulheres, crianças e adolescentes: há uma sinistra intensidade no noticiário internacional ao longo das últimas semanas.

Parece ter sido há uma eternidade a alegria trazida por Lucas Pinheiro Braathen ao obter a primeira medalha em Jogos Olímpicos de Inverno não só para o Brasil, mas para a América do Sul e a América Latina. Dói acompanhar os desabamentos e alagamentos que vêm causando mortes na Zona da Mata, terra da minha mãe e com a qual me identifico, particularmente em Juiz de Fora, onde moram tantos primos.

A rápida sucessão de novidades acelera o tempo. Foi ontem, em dezembro, que minha filha anunciou, em Bruxelas, que vai se casar. Foi no Natal que ouvi a missa em Lisboa com um belo e inquietante sermão sobre as relações internacionais. Foi em janeiro que comemorei com minha mulher, no Rio, nossos aniversários. Mas a sensação é de que esses acontecimentos recentes ocorreram há anos.

No turbilhão cotidiano de notícias, terá talvez passado despercebido o falecimento aos 92 anos, agora em fevereiro, do escritor neerlandês Cees Nooteboom. Retirei da estante um de seus livros, Caminhos para Santiago, de 1992. Reler sobre suas andanças pela Espanha, considerei, levaria a mente para longe dos problemas da atualidade.

Não é um livro leve. Nooteboom não era guia de turismo. Era um intelectual interessado pela história, a  filosofia, a religião católica, as artes. Lá vai ele, de carro, atravessando a Espanha de lado a lado. Delicia-se com a ideia de visitar, em algum distrito isolado e desabitado, uma igreja românica, pouco conhecida, de difícil acesso. Quando o livro parece prestes a se tornar excessivamente melancólico, surge um pensamento inesperado, estimulante, jogado em frase curta, trazendo uma revelação.

Zurbarán, pintor de sua predileção, é querido por ele sobretudo pelos retratos de santos, monges e mártires. Sobre os trajes das figuras representadas nesses quadros, Cees Nooteboom afirma ser possível “ver como o tecido era sentido no toque”. Conheço várias dessas pinturas de Zurbarán. Presentes em muitos museus, elas revelam, pelo ascetismo, uma grande espiritualidade. A obra do artista de que mais gosto, porém, eu só vi uma vez, no Museu Norton Simon, em Pasadena, há mais de vinte anos: é a “Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa”, cuja reprodução em um livro me impressionava desde a infância, como conto em Geografia do tempo. Conhecer o original concretizou uma ambição de décadas.

Nooteboom nos fala de disputas entre príncipes irmãos no início da Idade Média; da ditadura franquista; de mortes atribuídas ao ETA, o grupo separatista basco; da bandidagem de Francisco Pizarro no Império Inca, de sua generosidade com Atahualpa, ao permitir que este morresse estrangulado, em vez de queimado na fogueira. Lembrei-me de uma frase de Voltaire: “todos os séculos se parecem pela maldade dos homens”.

Com o livro na mão, perguntei-me se fora uma boa ideia utilizá-lo como descanso da violência contemporânea. Encontrei nele próprio resposta à minha indagação. Nooteboom estava na Espanha quando, em 1986, morreu Jorge Luis Borges. Ele comenta que, durante a Segunda Guerra Mundial, em vez de acompanhar os jornais para saber como evoluía aquele conflito, Borges optou por ler Tácito e sua descrição de “uma guerra diferente, mais antiga”.

Velázquez é outro objeto da admiração do escritor, que examina ora seus últimos retratos de Felipe IV, ora um da rainha Mariana d´Áustria, ora Las Meninas, onde o personagem central é a filha desse casal de tio e sobrinha. Nooteboom registra o ar de fatalidade que emana, nessas telas, de Felipe IV no final de seu reinado, quando a Espanha cedera a primazia à França, perdera Portugal, e a quantidade de casamentos endogâmicos, para não dizer incestuosos, fazia pressentir o próximo fim da dinastia. Das crianças reais dependiam, ele aponta, “expansões territoriais, alianças, vastas extensões de terras” e “o destino de continentes”. Esperava-se “de seus corpos adolescentes que produzissem herdeiros do trono”. Eram “gado de pedigree a serviço do Estado”.

Esses são os pensamentos despertados no autor pelo retrato hierático da jovem Mariana, de ar infeliz, rainha desde que, aos quatorze anos, fora enviada da Áustria à Espanha para se casar com o tio trinta anos mais velho. Nooteboom se insere assim, de maneira heterodoxa, em uma tradição de estudo sobre a representação da realeza. Dois dias antes de eu puxar seu livro da prateleira, tornara-se imediatamente famosa a fotografia do irmão do rei da Inglaterra sendo retirado, no banco de trás de um automóvel, da delegacia de polícia onde fora interrogado por dez horas sobre sua relação com o predador no centro de uma rede internacional de influência econômica e poder político.

Pensei se a foto, de início mero registro documental, não se tornaria com o tempo uma espécie de obra de arte, vetora de uma nova visão da realeza; uma sucessora a repudiar seus antecedentes, aquelas esculturas e pinturas mostrando-nos versões idealizadas dos faraós egípcios, de Alexandre Magno, de Augusto, de Luís XIV. No dia seguinte, obtive a confirmação. Ativistas haviam afixado a imagem, emoldurada, a uma parede do Louvre, sacrossanto repositório da iconografia do poder.

Procurei a resenha publicada no Book World, suplemento literário, extinto este mês, do Washington Post que, em 1997, me fizera comprar o livro de Cees Nooteboom. Uma surpresa me esperava. Seu autor é Colm Tóibín, de quem eu acabara de ler, na véspera, o romance sobre Henry James. Havia algo natural nessa coincidência. A maldade dos homens é, na história do mundo, o dado seguro, o fator sempre presente. E no entanto, também é verdade que a arte e a literatura oferecem um contraponto constante, tornando a vida menos incompreensível.

Iluminam, de alguma forma, a escuridão.

Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 28 de fevereiro

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Fantasia de Carnaval

Fantasia de Carnaval

As recentes notícias sobre as demissões no jornal The Washington Post viajam o mundo. Um terço dos jornalistas demitidos, inclusive vários correspondentes internacionais. Seções inteiras eliminadas, como a de esportes e, do meu ponto de vista mais tragicamente, o caderno literário, Book World. A morte de um periódico de literatura sinaliza que o interesse por livros é considerado pouco relevante.

Na segunda metade da década de 1990, trabalhei em Washington. Foi meu primeiro posto. Assim que alugamos casa e nos instalamos, fazer uma assinatura do Washington Post foi prioridade. Ao encontrá-lo na soleira da porta, de manhã, considerávamos não estar apenas recolhendo um jornal; participávamos de um pedaço da história dos Estados Unidos e, por conseguinte, do mundo.

Era impossível não lembrar que aquele jornal defendera a democracia e o direito das pessoas à informação. Em 1971, lutara para publicar os “Pentagon Papers” sobre a Guerra do Vietnã e contribuíra para a eclosão, em 1972, do escândalo de Watergate, que levaria dois anos depois à renúncia de Richard Nixon. Durante nosso tempo em Washington, esses eram fatos relativamente recentes, de pouco mais de vinte anos. Watergate era muito presente na mente de todos. Lembro de ir uma noite a um compromisso social, por causa do meu trabalho, e de um conhecido, americano, me apontar um convidado, no outro lado do salão, e sussurrar: “Ele esteve envolvido em Watergate”.

Naturalmente, era aos domingos que o jornal chegava mais polpudo. Nesse dia, vinham inúmeros cadernos. Book World era o primeiro a receber minha atenção. Criado em 1972, fazia autoridade no meio literário e entre leitores. Na nossa biblioteca de mais de seis mil volumes, muitos foram comprados por causa de resenhas ali publicadas. Ler as do crítico Michael Dirda era um prazer especial. É possível encontrar, na internet, textos bem-humorados seus, publicados nos últimos anos, narrando suas experiências na redação do suplemento. 

Meu exemplar da autobiografia da então proprietária do jornal, Katharine Graham, Personal History, está inencontrável. Suponho que o livro, publicado em 1997 e ganhador de um Prêmio Pulitzer em 1998, esteja em uma das caixas até hoje não abertas, por falta de espaço, depois da última mudança, a do ano passado. Lembro que a autora conta como foi ter de passar a comandar um jornal, em uma época em que era raro, como aliás em todas as épocas e ainda hoje, ver mulheres em posições de poder.

Katharine Graham também fala no diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, casado com sua tia Elise Meyer, que foi embaixador na França durante a Segunda Guerra Mundial, e um dos dois únicos brasileiros reconhecidos como “Justo entre as Nações” — sendo a outra Aracy Guimarães Rosa. Souza Dantas é objeto de uma biografia pelo historiador Fábio Koifman, de 2002, Quixote nas trevas. O autor retrata os preconceitos dos colegas do embaixador, críticos de seu casamento em 1933 com Elise Meyer, por ela já não ser jovem. Depreende-se das fontes citadas que a fortuna da nova embaixatriz incomodava o Itamaraty.

Na ausência da autobiografia de Katharine Graham, contento-me com a de Ben Bradlee, A Good Life, de 1995. Editor do Washington Post de 1965 a 1991, Bradlee narra a ascensão do jornal à posição de um dos mais importantes do mundo, contribuindo para esse resultado o papel que desempenhou nas revelações de Watergate. Bradlee se pergunta qual teria sido, “exatamente”, o papel do Post. A resposta, explica, é que “a energia do jornal, e especialmente o talento e a persistência de Bob Woodward e Carl Bernstein, fixaram Watergate para sempre na história. Juntos, deixamos o assunto na agenda nacional. E assim, a arrogância e a imoralidade dos homens em volta de Richard Nixon ficaram gradualmente patentes”. Segundo Bradlee, durante o desenrolar da cobertura do escândalo, uma vez Katharine Graham lhe perguntou, com bastante propriedade: “se essa história é tão importante, cadê o resto da imprensa?”.

Bradlee nada fala, infelizmente, da criação do suplemento literário nem menciona seus editores. Criado no mesmo ano em que homens a mando da Casa Branca forçaram a porta, no edifício Watergate, do escritório do Comitê Nacional Democrata para espioná-lo, o Book World talvez tenha parecido ao editor um dado menor frente às circunstâncias políticas de então.

Enquanto eu, na minha inocência, mergulhava em Washington, contente, nas páginas do jornal e de seu caderno literário, o futuro assomava-se timidamente. A internet engatinhava. Em 1995, Jeff Bezos criava a página eletrônica da Amazon. De início, a empresa vendia apenas livros. Em 1996, lá fiz a minha primeira compra eletrônica, uma obra sobre a história cultural da Rússia. É mais tarde que a Amazon passa a fornecer martelo, areia de gato, roupa e liquidificador; basicamente, qualquer produto.

O oligarca americano possui hoje uma fortuna estimada em 250 bilhões de dólares. Em 2013, adquire o Washington Post; em 2026, demite a terça parte dos seus jornalistas. Nas páginas do Estado de Minas, o jornalista João Renato Faria mencionou outro dia a ironia de alguém fazer fortuna vendendo livros, e décadas depois eliminar o suplemento literário de seu jornal. O Estado de Minas preserva, aliás, o seu renomado caderno Pensar.

No Globo de domingo passado, Dorrit Harazim analisava as razões financeiras e políticas para a mutilação do grande jornal. Quanto a mim, eterno otimista, penso com alguma esperança em Book World. O caderno havia deixado de ser impresso anteriormente, em 2009, ainda na gestão do filho de Katharine Graham, continuando porém a existir na versão eletrônica, o que não acontecerá mais agora. Curiosamente, foi na mão de Jeff Bezos que ressurgiu como suplemento impresso, em 2022.

Quem sabe se, daqui a alguns anos, o Book World não voltará, de alguma maneira, permitindo fantasiar que os livros, afinal, não são apenas uma mercadoria dispensável.

 

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 14 de fevereiro

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Missa em Lisboa

Missa em Lisboa

Em Lisboa, no domingo 28 de dezembro, ouvi, no cenário mais improvável, uma análise sobre política internacional. Nesse dia, minha mulher e eu acompanhamos minha mãe à sua igreja preferida na capital portuguesa, no Chiado. Fomos à missa do meio-dia. Minha mãe nos prevenira que a frequentação é elegante. O comentário era destinado a mim, como uma mensagem codificada, porque ela sabe que ambientes excessivamente sociais me causam tédio. Podia ser tomado como uma recomendação, ou advertência, se quisermos, de que eu fosse tolerante e paciente e me comportasse bem. Mães são assim, nunca nos veem como adultos.

A observação materna permitiu que eu me preparasse com antecedência. De resto, este Natal foi particularmente reflexivo para mim, pois acompanhou-me o sentimento da incongruência entre a abundância e as trocas de presentes características da estação, para alguns, e a celebração do nascimento de alguém que viveu sem qualquer conforto material e foi morto de maneira tão cruel.

O domingo de inverno estava ensolarado, não havia no céu uma nuvem sequer, contrastando com o frio e as chuvas da véspera. A igreja lotou rapidamente. A atmosfera era de contemplação. Ali reinava o espírito religioso, não o desejo de ser visto. Há muitos anos eu não entrava naquele recinto lisboeta que foi, no passado, cômodo para mim, já que minha irmã morou durante décadas ali perto. Em termos arquitetônicos, é um belo exemplo de templo em estilo neoclássico, ainda com elementos barrocos, de fachada relativamente simples e interior marmóreo e imponente. A pintura no teto da nave representa a Anunciação.  

O sermão pegou-me de surpresa. De início, tudo pareceu transcorrer placidamente, dentro de parâmetros previsíveis e edificantes. Houve primeiro referência a uma família presente, na qual o pai e a mãe estavam comemorando cinquenta anos de casados. Perguntei-me se eu viveria tempo suficiente para comemorar o mesmo aniversário. A seguir, o Evangelho a que recorreu o padre como inspiração foi o de Mateus. Narrou a fuga para o Egito. Mencionou a maldade de Herodes, a sua soberba. Explicou como devem ser vistos Maria, José e o Menino Jesus no contexto da viagem ao Egito. Sem usar esta palavra, fez seu auditório pensar em refugiados. E então, mudando a entonação de voz, o padre causou um sobressalto. Declarou: “Eu não deveria, talvez, abordar temas políticos, mas não posso evitá-lo. Fico com o estômago embrulhado ao ver as coisas que acontecem hoje”. Os fiéis ouviam-no atentamente. Ao menos minha mulher, minha mãe e eu, com nosso interesse profissional despertado. Mas certamente não apenas nós. Havia na igreja, entre os ouvintes, como um silêncio de expectativa, bastante perceptível.

Continuou o padre o seu sermão: “Se não leram o recente documento americano de Estratégia de Segurança Nacional, recomendo que o façam. A Europa ocupa três páginas das trinta do texto. Somos chamados ali a implementar uma política de exclusão, em vez de uma política de inclusão. É a negação do espírito cristão que estão a nos exigir. Jesus não pregava o repúdio ao que é estrangeiro a nós”. Apenas a voz do pregador ressoava e, ocasionalmente, abafado, algum ruído de buzina ou motor vindo da rua. As palavras que nos chegavam de perto do altar-mor eram enunciadas em tom calmo, mas firme, seguro. Não havia drama nem teatralidade. Por isso mesmo, era uma oratória que capturava a atenção dos fiéis. Atento ao sermão, com o corpo dobrado para a frente de forma a ouvir melhor, permiti-me olhar à minha volta. Ninguém parecia surpreso ou desagradado. Afinal, se aquela numerosa congregação vai à missa naquela igreja e naquele horário é porque aprecia os sermões daquele padre.

Deduzi que um pároco com tamanha habilidade é bem capaz de promover conversões ou despertar vocações religiosas. Em todo caso, sua segurança e serenidade, a própria modéstia com que conduzia a missa estariam promovendo na plateia reflexões sobre temas de política externa a que muitos ali talvez fossem alheios no dia a dia. A voz continuava. Condenou a guerra na Palestina e a guerra na Ucrânia. Lembrou que Jesus gosta dos humildes, dos desvalidos, não necessariamente dos poderosos.

Depositei um bilhete no saquinho, durante a coleta. Ofereci o braço à minha mãe para que comungasse. Cumprimentamos o padre à porta da igreja. O dia continuava ensolarado e, ao nosso redor, na rua, a vida prosseguia, com os transeuntes bem agasalhados agitando-se em seus afazeres, felizes. Os frequentadores habituais daquela igreja se cumprimentavam afetuosamente na calçada. Tinham sabido guardar a sociabilidade para os momentos após a missa. Caminhamos os três em direção ao restaurante, ali mesmo no Chiado, onde minha irmã juntou-se a nós.

A internet, tantas vezes utilizada para ataques entre as pessoas, revelou-se uma vez mais, para mim, um instrumento educativo. Quis saber o nome do padre cujo sermão me surpreendera pelo conteúdo e me impressionara pelo calor humano. Levei apenas um ou dois minutos para colher a informação. Trata-se de um religioso conhecido pela intelectualidade, autor de livros e artigos. Notei que outro padre na mesma paróquia é, curiosamente, um primo distante pelo meu lado paterno.

O almoço foi delicioso, na pequena sala bem aquecida. Dava gosto estar ali. Bem mais tarde, à noite, três de nós embarcaríamos em um mesmo voo.

O Natal, os últimos dias de dezembro e a virada do ano formam sempre esse momento abençoado, fugaz mas tão belo, em que a humanidade parece apta a viver em paz. Passeando com minha mulher pelo Chiado, pela Baixa, pela Praça do Comércio, onde o sol, aquecendo-nos, ainda tudo iluminava, olhando as gaivotas sobrevoando o Tejo, caminhando depois ao longo do rio, íamos os dois conversando sobre a beleza de viver, de estar juntos ali, intercambiando sonhos simples para 2026.

E é o que desejo também para vocês, caros leitores e leitoras, um Feliz Ano Novo.  

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 3 de janeiro

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

As pedras do Louvre , 25 de outubro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Minas e as formigas

Minas e as formigas

Os mineiros são um povo privilegiado, ao poder contar com a Universidade Federal de Minas Gerais. Alguns dos diplomatas brasileiros mais preparados e competentes que conheço nas novas gerações do Itamaraty lá estudaram. Para minha sorte, alguns já trabalharam comigo.

Pela editora da UFMG, lançou-se este ano o livro De Bonifácio a Amorim, de Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada naquela universidade. Antes de encomendar a obra, eu supusera que se trataria de uma história da política externa brasileira. Não tinha ainda tomado conhecimento do subtítulo: “Elementos de uma teoria social da política externa brasileira”.

Foi uma boa surpresa constatar que o enfoque adotado é diferente de uma análise histórica, porque a obra que será o texto clássico, nesta geração, sobre a história da política externa já existe — trata-se do estupendo livro do embaixador Rubens Ricupero, A diplomacia na construção do Brasil, de 2017, que mereceu no ano passado uma segunda edição.

Diferentes pontos de vista sobre a evolução da política externa brasileira serão sempre úteis e bem-vindos, e Dawisson Belém Lopes está plenamente preparado para um dia apresentar o seu, se assim quiser, mas a tarefa a que ele se dedicou em De Bonifácio a Amorim é outra e é igualmente importante. O autor do prefácio é justamente Rubens Ricupero e ele o inicia com a frase: “Originalidade é a impressão predominante de quem abre e folheia este livro”. Recolhi da leitura o mesmo sentimento.

É  uma análise sociológica da diplomacia brasileira e do Itamaraty o que nos propõe Dawisson Belém Lopes, e é daí que decorre o ineditismo de seu novo livro.

Discute o autor como a diplomacia brasileira tem-se adaptado, ao longo dos duzentos anos desde a Independência, para lidar com fatores internos e circunstâncias externas que provocaram, com maior ou menor sucesso, mudanças ou permanências no Itamaraty. É na Conclusão que encontro a definição mais clara do objetivo do livro, em frase colocada em itálico pelo próprio autor: pensar o bicentenário do Brasil a partir das raízes sociais de sua política exterior.

Cito um trecho que me parece ilustrar bem o sabor da singularidade do estudo de Belém Lopes: “Embora a fama meritocrática do Itamaraty não fosse infundada, dado seu histórico de recrutamento rigoroso e excelência profissional, a era pós-golpe [de 64] viu essa imagem ser manipulada para servir aos interesses do regime militar. O Ministério propalou imagem de neutralidade e eficiência burocrática para o mundo externo, o que ajudou a mascarar a natureza profundamente política de suas operações reestruturadas”.  

Um tema, sobretudo, o do elitismo e conservadorismo, serve para que o autor analise o longo processo de continuidades no Itamaraty. Em coluna anterior neste jornal, que intitulei “Um Brasil consciente e forte”, tratei de uma entrevista que meu pai conduziu, em 1970, com o senador e ex-chanceler Afonso Arinos, em que o político mineiro explicitava a frustração que experimentara ao chefiar o Itamaraty. “Só encontrei resistências, incompreensões e obstáculos às minhas ideias”, relatava Afonso Arinos, que enfrentou da parte dos diplomatas brasileiros, e apesar de suas impecáveis credenciais aristocráticas, obstinada oposição para implementar a chamada “Política Externa Independente”.

Na avaliação de Belém Lopes, há uma “interação entre interesses econômicos dominantes e a gestão diplomática”. Entende, por exemplo, que “Não se explica o comportamento histórico do Brasil na arena internacional, tampouco as orientações contemporâneas do Itamaraty ao chefe de Estado, sem recorrer à base econômica do poder nacional, responsável, ademais, por construir uma identidade de país exportador da periferia capitalista global”.

Em vários momentos de sua narrativa, Dawisson Belém Lopes insere “estudos de caso”, todos fascinantes, nos quais examina de maneira mais concreta até que ponto fatores domésticos podem afetar a formulação da política externa. Ao frisar nossa “identidade de país exportador de gêneros agrícolas”, importador de fertilizantes, sustenta que a resposta brasileira à guerra na Ucrânia seria “profundamente informada pelo desproporcional peso político da velha elite agrária”. Esse é um ponto em que não compartilho inteiramente de seu diagnóstico, pois vejo razões geopolíticas sólidas para embasar a posição brasileira tendente ao apaziguamento das tensões. O próprio autor matiza sua opinião ao comentar, corretamente, que o Brasil “vê a paz e a estabilidade como pré-requisitos para o desenvolvimento econômico e a prosperidade global”.  

Os “estudos de caso” criados pelo professor Belém Lopes, particularmente apropriados, permitem que ele se debruce de forma profunda e detalhada sobre determinado fato ou momento para iluminar aspectos da práxis externa brasileira. Gostei particularmente do estudo de caso referente ao BRICS, em que ele apresenta uma verdade fundamental, mas nem sempre assim percebida, sobre a história da política externa brasileira: “As mudanças de direção que houve, via de regra, resultaram de cálculo e determinantes estruturais, não de idiossincrasias e frivolidades”. Sua conclusão é de que termina geralmente por prevalecer, no caso brasileiro, um componente de neutralidade e não-alinhamento às superpotências e de universalismo diplomático do país.  

Se eu tivesse de fazer alguma crítica a uma obra de análise tão rica, oportuna e inovadora como a do professor Dawisson Belém Lopes, seria a de que, considerando ser a sua uma abordagem sociológica, ele poderia talvez ter investigado de maneira mais extensa as ramificações de dois outros temas que aborda, as questões de gênero e raça.

Ao final da leitura, fica a dúvida se o livro é elogioso ou crítico em relação ao Itamaraty. Ao refletir a respeito, chego à conclusão de que os admiradores e os detratores da diplomacia brasileira se sentirão igualmente justificados com essa obra, e nisso reside um de seus méritos. 

Para mim, como diplomata, foi uma curiosa sensação deparar-me com um estudo em que a instituição na qual se desenrola minha atividade profissional é observada e analisada com verdadeiro talento de entomologista.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 6 de dezembro

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

As pedras do Louvre , 25 de outubro

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Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro  

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Belém, capital do mundo

Belém, capital do mundo

“Belém é a cidade principal da Polinésia. Mandaram vir uma imigração de malaios e no vão das mangueiras nasceu Belém do Pará”. Assim brincava Mário de Andrade em maio de 1927, enquanto ia descobrindo a Amazônia com a riquíssima Olívia Guedes Penteado, a “Rainha do Café”, como ele diz, no que era então, para sulistas, uma viagem rara. Deslumbrou-se com a cidade. Fora a queixa do calor — calor também sentido, agora em novembro, pelos participantes da Conferência do Clima, a COP30 — todos os seus comentários são afetuosos: “Belém foi feita para mim e caibo nela que nem mão dentro de luva”. Depois de dois meses subindo os rios amazônicos, volta à capital do Pará no final de julho, no longo caminho de regresso a São Paulo. Suspira: “Belém gostosíssima, a milhor coisa do mundo”. No último dia, em 1º de agosto, resume: “nunca na minha vida encontrei uma cidade que me agradasse tanto” e “passei em Belém os melhores dias de minha vida, inesquecíveis”.

Garimpo as frases acima na mais recente edição de O turista aprendiz, de 2024, organizada por Flora Thomson-DeVeaux, que também traduziu para o inglês esse livrinho delicioso. O nosso poeta, um dos maiores intelectuais do país, foi ainda mais direto em uma carta a Manuel Bandeira de junho de 1927, enviada depois da primeira passagem por Belém. Escreve ao amigo: “Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim”. “Meu único ideal de agora em diante”, diz ele, “é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrasse em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí”.

Duas vezes estive em Belém. Na primeira, viajei de férias com minha irmã, quando éramos estudantes; na segunda, minha mulher e eu, ainda namorados e alunos do Instituto Rio Branco, fizemos uma viagem à Amazônia com os colegas, naquilo que era, naquela época, parte da formação na academia diplomática. Lembro bem do impacto sentido com a descida do rio Amazonas, de Manaus a Belém. É preciso viver essa experiência para ter a noção do que significa ser brasileiro, perceber a imensidão daquele rio e a imensidão do país. Como Mário de Andrade, também eu tomei ali pela primeira vez um sorvete de cupuaçu, na calçada, olhando para a fachada do Teatro da Paz.

Além de me fazer reler, em Luanda, O turista aprendiz, o noticiário sobre a COP30 me levou de volta a um filme de Bruno Murtinho, Amazônia Groove, lançado em 2018. Foi há dois anos que tomei conhecimento desse documentário sobre a variedade da produção musical no Pará. Querendo em 2023 realizar, pela primeira vez, um Festival de Cinema Brasileiro em Kuala Lumpur, decidi apresentar ao público malásio uma retrospectiva de Kleber Mendonça Filho. Tive a sorte de contar na Malásia com uma equipe excepcionalmente competente, inclusive meu colega Marcelo Hasunuma, que me ajudou a montar o Festival do zero, por ser uma iniciativa inédita. Foi ele quem me convenceu a incluir na programação, além de filmes do diretor recifense, também Amazônia Groove para inaugurar o Festival.

Na sessão de abertura, o convidado de honra foi o ministro de Turismo, Indústria Criativa e Artes Cênicas do estado de Sarawak, Abdul Karim bin Rahman Hamzah. Sarawak, situado na ilha de Bornéu, ocupa uma área equivalente à da Inglaterra. Produz 30% do petróleo malásio e preserva a maior cobertura de floresta nativa no país. Suas importações de produtos agropecuários são supervisionadas por serviços próprios, independentes dos da Malásia continental. Sentado ao meu lado, o ministro Abdul Karim viu na tela igarapés, a floresta, populações ribeirinhas, o Ver-O-Peso. Tomou conhecimento de estilos musicais como carimbó e tecnobrega. Ouviu o violão de Sebastião Tapajós tocar no Teatro da Paz e Dona Onete cantar “Banzeiro” em um barco. Em O turista acidental, leio que a palavra significa “movimento agitado das águas, quando o navio passa e deixa a esteira violando a mansidão do rio”.

Ao terminar o filme, o ministro virou-se para mim e exclamou, surpreso: “A Amazônia lembra demais Sarawak!”. Se eu tivesse relido Mário de Andrade antes do filme, teria citado a Abdul Karim a brincadeira de que Belém fora fundada por malaios. 

A realização da COP30 em Belém gerou críticas, por causa do custo da hospedagem. Não consigo imaginar, porém, onde mais, no Brasil, a reunião poderia ter acontecido, pelo peso simbólico daquela cidade, situada na vasta desembocadura do rio Amazonas. Como disse ao início da reunião o presidente Lula, nas duas semanas seguintes Belém seria “a capital do mundo”, ajudando a mostrar que a Amazônia é uma realidade, e não uma abstração.  

Mário de Andrade, então com 33 anos, conta que, em Porto Velho, explicou a um interlocutor local que ele e seus companheiros de viagem “éramos um grupo de amigos paulistas, curiosos de conhecer outros brasis, pela vaidade ou ventura de conhecer coisas”. Assim é nosso país, composto de tantos “brasis”, que apenas parcialmente conseguimos percebê-lo.

Como o poeta há cem anos, muitos dos 56 mil participantes da COP30 terão se apaixonado por Belém. Preparo estas palavras na reta final da Conferência, e os delegados estarão partindo quando elas forem impressas. Um primo mineiro, que participou na primeira semana, me escreve: “Gostei de Belém, gostei da COP. O saldo é positivo. No meu último dia, passeei um pouco pela cidade, foi ótimo. Talvez eu nunca tivesse ido lá se não fosse a COP”.

Afinal, uma conferência internacional serve também para isto: para revelar a multiplicidade de “brasis” não somente aos estrangeiros, mas também a nós brasileiros.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 22 de novembro

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