Os sete reinos

Os sete reinos

Recebi de São Paulo, em dezembro, mensagem de um leitor britânico, Ian. Dizia-me que, nas suas aulas de português, ele e o professor às vezes recorrem aos meus textos “para ajudar com a leitura e a pronúncia”. Elogio maior não poderia haver para um autor, ainda mais surgindo de maneira tão imprevista.

Escrevi de volta agradecendo. Passados dois meses, Ian enviou nova mensagem, comentando estar notando um tom mais sombrio nas minhas atuais publicações. Ele não deixa de estar certo. Desde janeiro, como registrei em “Passeando pela Espanha”, vivemos em um planeta ainda menos seguro, ainda mais violento. Mesmo um partidário do otimismo, como meu pai me designava, sente-se afetado pela rápida degradação do cenário internacional.

Em atenção à observação do meu leitor, resolvi que hoje não falarei de guerras. Quero abordar uma série de televisão. Quero discutir O cavaleiro dos sete reinos, mais recente programa derivado dos livros de George R. R. Martin.

Há dez anos, eu estava fascinado com Game of Thrones. Domingo à noite transformava-se em um dos bons momentos da semana, quando era lançado mais um episódio. Inegavelmente brutal, a história revelava-se porém tão rica em situações dramáticas ou ocasionalmente românticas, ascensões e quedas abruptas, traições, mortes inesperadas — esse era um de seus traços mais comentados pelo público — que eu a considerava irresistível.  

Sofri quando morreu Cersei, a rainha assassina e incestuosa. Lena Headey, sua intérprete, a tornara uma figura cativante. Até os derradeiros minutos, estive certo de que ela e seu irmão, soterrados no desmoronamento do castelo, sobreviveriam e partiriam para morar juntos e anonimamente no campo, longe, felizes e esquecidos por todos. No universo de Game of Thrones, porém, não havia espaço para a felicidade, nem para os bons, nem para os maus. Incrédulo, vi o episódio terminar e a implacável mas bela rainha, que eu transformara em vítima das circunstâncias sociais, continuar sob os escombros.

Meu personagem predileto era Olenna Tyrell, não somente em função de suas falas espirituosas, mas por causa da atriz, Diana Rigg. Meus irmãos e eu, na infância, na Bélgica, nos divertíamos com as reprises da série inglesa Os vingadores. Emma Peel, espiã vivida por Diana Rigg, era extremamente sedutora. Em francês, o programa se intitulava Chapeau melon et bottes de cuir, ou Chapéu-coco e botas de couro. A sensualização da personagem, usando as celebradas botas, não me deixava insensível. Rever o mesmo rosto, décadas depois, no contexto tão impiedoso de Game of Thrones permitia, paradoxalmente, recuperar ecos da minha infância venturosa.

Anos depois de Game of Thrones, procurei assistir à série subsequente inspirada pela obra de George R. R. Martin, “A casa do dragão, cuja ação se passa décadas ou centenas de anos antes. Entediei-me. Desisti. Os dragões, as intrigas palacianas, os personagens pareciam uma repetição empobrecida do enredo original.

Com O cavaleiro dos sete reinos, o oposto acontece. O personagem principal, herói no melhor sentido da palavra, viaja em direção a um torneio, de que deseja participar para ganhar fama e melhorar seu estado de penúria financeira. Entre os personagens de George R. R. Martin, nunca existiu alma melhor, a não ser talvez o rei-criança, o segundo filho de Cersei, que pula da janela ao entender quanto horror há no mundo.

Ser Duncan é o guerreiro mais inocente, mais bondoso e também mais corajoso que já existiu. A expressão francesa chevalier sans peur et sans reproche, cavaleiro sem medo e sem mácula, — fica menos forte em português — poderia ter sido criada em sua homenagem. Nenhum dos Doze Pares da França de Carlos Magno e nenhum dos Cavaleiros da Távola Redonda do rei Artur, cujas histórias capturavam minha imaginação e a de meus irmãos, se compara a ele. Em O cavaleiro dos sete reinos, suas andanças convivem com cenas de reflexão. Alguns dos melhores momentos acontecem enquanto ele está deitado na grama, à noite, olhando as estrelas, procurando, sem aflição, com serenidade, o sentido para as coisas. É um ser sem neuroses.

O penúltimo episódio, quando o torneio é mostrado, torna-se tão feroz quanto devemos esperar de George R. R. Martin. Ser Duncan, ao defender uma mulher, agredida por um neto do rei — e sabemos como os membros da dinastia reinante, os Targaryen, podem ser cruéis e insanos — é condenado a lutar pela própria vida em uma competição desigual. Enfrentará não só as armas dos oponentes, mas suas perfídias. Há mortes, há sangue.

As interpretações comedidas de Peter Claffey como Ser Duncan e de Dexter Sol Ansell como seu pequeno escudeiro, Egg, são perfeitas. Os atores nos mostram seus personagens como fonte de alívio nesse cotidiano soturno, tão terrível como devia ser a Idade Média real, ou qualquer outra era humana.

George R. R. Martin costuma mencionar que entre suas inspirações estão os tomos do romance histórico Os reis malditos, de Maurice Druon. Criança, eu adorava os sete livros de Druon sobre o rei Filipe IV da França e seus parentes. Sua forte popularidade no mundo francófono devia-se em parte à adaptação em uma série de sucesso na televisão. Eu traía Emma Peel — ou Diana Rigg — e suas botas com a linda e ingênua rainha Clemência da Hungria, fadada ao sofrimento. Meus exemplares, publicados nas edições “Livre de Poche”, foram sucessivamente adquiridos no supermercado em Bruxelas, quando eu acompanhava minha mãe e lhe pedia mais um volume, tendo terminado a leitura do anterior.

Os reis malditos estão perdendo as capas, páginas começam a se soltar, as lombadas a rasgar no centro, de alto a baixo. Mas eu os amo e pretendo guardá-los até o fim. Preservados na estante, enfrentando apenas a luz, deverão durar mais do que eu. 

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 30 de março.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Guerra, ontem e hoje

Guerra, ontem e hoje

Há uma guerra em curso. Na verdade, há mais de uma, como costuma acontecer. Mas você sabe a qual delas estou me referindo. E se acha que a violência atual no Oriente Médio e no Golfo Pérsico nada tem a ver conosco no Brasil, é melhor pensar de novo. É preciso avaliar as novidades no noticiário internacional e analisar seus múltiplos desdobramentos.  

Quando a terceira guerra mundial se iniciar, ninguém nos avisará. Não haverá uma declaração formal. Entenderemos aos poucos. O volume de mísseis disparados, navios afundados, cidades destruídas, tesouros artísticos arruinados, países envolvidos e, principalmente, vidas inocentes perdidas acabará por nos fazer compreender.

A Segunda Grande Guerra, em todo caso, esteve por estes dias muito presente para mim. Em janeiro, comprei no Rio um livro publicado em 2025, O tenente: Cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial, de que Celso Furtado (1920-2004) aparece como único autor. Rosa Freire d´Aguiar é responsável pela organização, a apresentação e as notas.

Revela-se aí a modéstia característica de Rosa Freire d´Aguiar. Embora a obra seja uma nova edição de um livro de Celso Furtado de 1946, De Nápoles a Paris: Contos da vida expedicionária, a concepção do volume lançado ano passado pela Companhia das Letras é da organizadora, que anexou a esse núcleo de contos quantidade de elementos iluminadores para a compreensão da obra. Há cartas do autor enviadas a parentes e amigos no Rio de Janeiro, enquanto esteve na Itália, e por ele recebidas no mesmo período. Há material sobre como a crítica recebeu os contos, quando foram lançados. Há textos avulsos do autor sobre o fascismo e sobre sua experiência como expedicionário.

Sobretudo, há uma verdadeira joia de apresentação por Rosa Freire d´Aguiar sobre o conjunto dos textos, contextualizando-os e explicando o momento histórico em que foram escritos. O grande economista brasileiro, então jovem de 24 anos, viajou para a Itália em fevereiro de 1945, “integrando o quinto, e último, escalão da Força Expedicionária Brasileira”. Viajavam no navio “General Meigs” cerca de 5 mil homens.

Rosa Freire d´Aguiar lembra que, por aquela época, Roma já estava libertada desde junho de 1944. A frente de batalha se situava então no rio Arno. Furtado foi enviado a Florença, de onde “comandou comboios para levar a tropa até a linha de frente”. Mais tarde, ele lembraria que, na guerra, não se morria apenas lutando, pois “os acidentes eram muitos”, por exemplo com minas.

Em setembro de 1945, o futuro ministro de estado e embaixador estava de volta ao Rio de Janeiro. Decidiu relatar suas impressões da guerra em forma de ficção e no ano seguinte publicava os contos. Falemos, justamente, desses contos.

Celso Furtado, como ficcionista, não possui a mesma densidade do autor de livros de pensamento econômico, notavelmente do clássico Formação econômica do Brasil, de 1959, que faz dele um dos grandes analistas da realidade brasileira. Seus contos não devem ser abordados na expectativa de que encontraremos um novo Machado de Assis, um novo Tchekhov. No entanto, não podem ser descartados. Literariamente, são satisfatórios: bem escritos e uniformes no estilo elegante, transmitem uma atmosfera própria.

São também perturbadores. Não somente porque o tema tratado é a guerra, mas porque se concentram sobre seus efeitos na vida cotidiana das pessoas, particularmente as mulheres.

Em vários contos, há um namoro ou uma atração emocional, física ou sensual entre algum soldado brasileiro e uma mulher italiana. De início, isso me pareceu um conceito excessivo, falar-se tanto de amor ou de sensualidade naquelas circunstâncias de combate e de reconstrução após a guerra. Depois, percebi que os textos revelam um padrão; em muitos casos, por causa da guerra as personagens femininas perderam família e bens. Tornaram-se desvalidas. É sobre o seu desespero que estamos lendo, essa é a tônica. O soldado estrangeiro é, em maior ou menor grau, um invasor. Pode porém parecer uma tábua de salvação. Em um dos melhores contos, “Terra prometida”, Mariucha, abandonada pelo namorado brasileiro, exclama: “Eu quero ir para o Brasil. É o meu sonho. Aqui não há futuro para mim”.

O conto mais intrigante é “Um intelectual em Florença”. Aborda uma questão já destrinchada por Henry James, a do americano — no caso, brasileiro — confrontado, na Europa, com as sutilezas das relações sociais e as tradições culturais de velhas famílias. Em uma recepção em um palacete florentino, Mário flerta com uma jovem aristocrata. Mas acredita perceber em si mesmo “a fragilidade da própria erudição, que se lhe afigurou como absolutamente postiça”,  pois não detém “os oito séculos de sedimentação que ele sentia nas paredes do castelo e no olhar das criaturas”. O protagonista discorre sobre Goethe, sobre Horácio. A jovem se volta para ele e opina: “Para vocês, o mundo e as coisas são simplesmente o mundo e as coisas. Vocês não têm a deformação monstruosa de oito séculos de tradição”. E aí, algo extraordinário acontece: ela explica Goethe e Horácio para Mário exatamente como ele acabara de fazer.

Em uma carta de abril de 1945, Celso Furtado prenuncia a apatia que hoje muitos parecem sentir diante de mais um conflito bélico: “Muito cedo nos acostumamos com as destruições”. A violência em repetição gera um sentimento de banalidade.

Em outra carta, escrita da Toscana na mesma época, comenta estar presenciando, como resultado da guerra, “a cabal decomposição de uma sociedade”, formada por “milhares de criaturas sem programa de vida, sem escala de valores, guiadas pelo medo que lhes traz o estado de insegurança. Camadas inteiras estão expostas aos ventos de qualquer ideologia, promessa ou utopia”. 

Li o volume editado por Rosa Freire d´Aguiar sob o impacto do bombardeio de uma escola primária no Irã. Um dos contos é sobre a morte de uma menina de seis anos, também vítima de um bombardeio.

Esse é um caso em que preferiríamos que o mundo não obedecesse tão fielmente à arte.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 16 de março

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas:

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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