Diálogo, entendimento, igualdade

Diálogo, entendimento, igualdade

Um dos museus mais lúdicos que conheço fica em São Paulo: é o Museu da Língua Portuguesa, na antiga Estação da Luz. Estive lá apenas uma vez, para ver uma exposição sobre a obra de Jorge Amado. Isso foi antes do incêndio de 2015. O museu reabriu em 2021, e tenho grande curiosidade em voltar.   

Andei pensando nisso, porque em 5 de maio comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Assim decidiu a Conferência-Geral da UNESCO, em Paris, em 2019. Desde dez anos antes, em 2009, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já celebrava essa data como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura.

A escolha do dia me intriga. Procuro saber os motivos que levaram à sua adoção. Suponho ao início que marca o nascimento, ou o falecimento, de algum autor lusófono considerado um dos pais do idioma, ou a publicação de algum primeiro dicionário da língua ou de alguma legislação que levou à substituição do latim pelo português em documentos oficiais, em Portugal, em séculos pretéritos.

O Dia do Idioma Espanhol, por exemplo, é celebrado em 23 de abril, quando foi enterrado Miguel de Cervantes. Em Geografia do tempo menciono como o embaixador da Espanha na Malásia, em 2023, me convidou para participar da comemoração da data, com algum texto da literatura hispânica que eu leria em público. Optei por um soneto de Jorge Luis Borges, que homenageia Luís de Camões e “Os Lusíadas” e, por conseguinte, a língua portuguesa.     

Examinando na Wikipédia efemérides para o 5 de maio, descubro apenas um evento literário relevante para a língua portuguesa. Foi quando, em 1994, perdemos Mário Quintana. Como em qualquer outro dia do ano, na já longa história da humanidade, muitos outros acontecimentos significativos ocorreram nessa data. É em 5 de maio de 1789 que são abertos os Estados Gerais na França, evento que culminaria na Revolução e, portanto, no início da modernização política das sociedades europeias, ao difundir os princípios de cidadania, igualdade jurídica e soberania popular que moldariam o Estado moderno.

Em 5 de maio de 1821, Napoleão Bonaparte morre em Santa Helena. Ao saber da notícia, Alessandro Manzoni escreve seu poema “Il cinque maggio”. Embora sejam versos famosos, que ao reconhecer o destino grandioso de Napoleão meditam sobre o caráter efêmero das coisas humanas, eu só vim saber da sua existência também em Kuala Lumpur. Em algum 5 de maio, o embaixador da Itália me disse: “hoje é o cinque maggio”, e diante de meu ar de incompreensão, que o surpreendeu, mencionou o poema. Não tive coragem de dizer a ele que nem sequer havia lido o célebre romance de Manzoni, Os noivosI promessi sposi.

Em um cinco de maio nasceram Kierkegaard, em 1813; e Karl Marx, em 1818. Dois escritores, portanto, mas nenhum de língua portuguesa. Celebra-se também o natalício da imperatriz Eugênia, mulher de Napoleão III, em 1826; do marechal Cândido Rondon, em 1865; de Dalva de Oliveira, em 1917; e de Beth Carvalho, em 1946.

Com meus talentos mediúnicos, recomendo que ninguém viaje em um 5 de maio. Em 1972, cai um avião da Alitalia, matando todas as 115 pessoas a bordo. Em 2007, é a vez de um avião da Kenya Airways; morrem os 114 passageiros. Em 2019, 41 pessoas perdem a vida quando um voo da Aeroflot pega fogo.

A decisão da UNESCO explica ter sido o português a “língua da primeira globalização da era moderna”, o que me parece indiscutível. De forma um tanto ingênua, fala porém em um “grande encontro cultural-civilizacional” que teria propiciado “troca de duas vias de ideias, filosofias e produtos culturais”, o que gera perplexidade por seu excessivo otimismo, para não dizer revisionismo histórico.  Falar em “duas vias” nesse contexto é ignorar quão desequilibradas foram as relações entre a metrópole portuguesa – ou qualquer outra — e as suas então colônias.

O ministro da Cultura de Angola, Filipe Zau, publicou artigo, por ocasião do 5 de maio, apontando como é recente a difusão da língua portuguesa no seu país, que se iniciou apenas no século XX, nas últimas décadas da colonização. Angola, lembra, é “multicultural e plurilingue”, e a promoção do português, embora necessária para a construção da união nacional, “passa, necessariamente, pelo reconhecimento da existência de outras culturas e outras línguas”.

A resolução da CPLP que deu origem à decisão da UNESCO soa politicamente equilibrada. Adotado em uma reunião do Conselho dos Ministros da Comunidade, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o texto se refere ao nosso idioma como “um meio privilegiado de difusão da criação cultural entre os povos que falam português, numa perspectiva aberta e universalista”.

E é nessa resolução da CPLP de 2009 que encontramos a razão para a escolha do 5 de maio. É um pouquinho decepcionante. Trata-se da data em que aconteceu, no Estoril, em 2000, a primeira reunião dos ministros da Cultura da CPLP. Soa um tanto burocrático, como motivo. Mas se pensarmos no caso, veremos que talvez não houvesse outra ocasião mais neutra, que não ferisse suscetibilidades.

A data comemorativa da francofonia, 20 de março, deve-se a razões parecidas. É quando, em uma reunião no Níger, criou-se, em 1970, a Agência de Cooperação Cultural e Técnica entre países francófonos, transformada em 2006 na Organização Internacional da Francofonia, com sede em Paris.  

O 5 de maio, assim, não celebra um dado cultural ou histórico de um dos países lusófonos em detrimento dos outros, ou tampouco alguma imposição da antiga potência colonial sobre os demais. É simplesmente o dia em que os ministros da Cultura dos estados onde o português é falado se reuniram pela primeira vez.

Ao escrever isso, reconcilio-me com a escolha da data. Ela promove o diálogo, o entendimento, a igualdade entre nós, os falantes da língua portuguesa. Foi uma boa decisão.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 11 de maio.

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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