Kishore Mahbubani é um dos analistas de relações internacionais mais lúcidos da atualidade. Diplomata de carreira aposentado, foi, por duas vezes, embaixador de Singapura junto às Nações Unidas, inclusive no único período em que o país integrou, como membro não-permanente, o Conselho de Segurança.
Seus livros abordam a ascensão contemporânea da Ásia, detêm-se sobre a evolução econômica da Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN) e examinam as repercussões da rivalidade entre China e Estados Unidos. Até agora, traduziu-se no Brasil apenas um deles, com o título “A China venceu? O desafio chinês à supremacia americana“.
Mahbubani lançou, em 2024, um livro de memórias notável, “Living the Asian Century: An Undiplomatic Memoir”. Melhor subtítulo não poderia haver, porque o autor fala de sua vida pessoal e de sua trajetória profissional com surpreendente transparência. Lembro que, na ocasião, o jornal “The Straits Times”, de Singapura, apontou o quão fora do comum era a sua candura, para padrões daquela sociedade.
A verdade, porém, é que não conheço nenhum livro de memórias de diplomata, mesmo aposentado, tão sincero como esse. Diplomatas tendem a maximizar seus feitos e a relativizar seus desapontamentos. A vaidade é um traço usual da prática diplomática, e não é a aposentadoria que mudaria essa característica.
Kishore Mahbubani, ao contrário, fala com naturalidade de suas dificuldades familiares e suas frustrações e dúvidas profissionais. Trilhou, no entanto, uma carreira extremamente bem-sucedida. Além de servir duas vezes como representante permanente de seu país junto às Nações Unidas e de presidir o Conselho de Segurança, foi secretário permanente da Chancelaria, segundo cargo na hierarquia do serviço exterior.
Mahbubani foi o primeiro reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy, um dos principais centros asiáticos de ensino de políticas públicas. Seus livros, traduzidos e estudados no mundo inteiro, são respeitados pela clarividência política. Fica claro, da leitura das suas memórias, que os êxitos que colheu na diplomacia valem, para ele, tanto quanto, mas não mais do que seus sucessos acadêmicos.
É também um palestrante requisitado no circuito internacional. Em 2023, em Kuala Lumpur, assisti a duas apresentações suas, uma delas intitulada “Quando os elefantes brigarem, será a ASEAN pisoteada?”, sendo os “elefantes”, naturalmente, a China e os Estados Unidos. Minha mulher, que então trabalhava em Singapura, e o conhecia pessoalmente, já havia me recomendado suas obras. Palestrando e circulando em um palco, falando sempre sem notas, Kishore Mahbubani é uma presença carismática. Em 2024, reunião que organizei em minha casa em torno a ele transformou-se em um momento memorável para os presentes.
O diplomata e acadêmico nasceu em 1948, em uma Singapura ainda sob domínio britânico, para onde seus pais, hindus de origem sindhi, haviam emigrado. Sob qualquer critério, seu começo de vida foi penoso: faltava dinheiro e o pai enfrentava problema de alcoolismo. Frequentar uma biblioteca pública ampliou seus horizontes. Sua grande inteligência e força de caráter fizeram o resto.
A sua história de superação mantém um paralelo com a própria história do país. Singapura, ao se tornar independente em 1965, via-se rodeada por Malásia, de que se separara, e Indonésia, países com muito mais recursos e muito mais populosos. De forma quase inverossímil, o país soube contornar uma situação de pobreza real, em meio a imensas desvantagens, para transformar-se, em poucas décadas, em uma das nações mais prósperas do mundo.
O próprio autor sugere esse paralelismo: “Duas separações trouxeram calma à minha vida: a da minha mãe do meu pai, em 1962, e a de Singapura da Malásia, em 1965”.
O desenvolvimento de Singapura deveu-se ao pulso firme de Lee Kuan Yew, primeiro primeiro-ministro do país, e do time que convocou para formar seu governo. Juntos, imprimiram ao país uma ética inflexível de trabalho e responsabilidade, presente ainda entre os singapurenses. A imagem de Lee Kuan Yew paira sobre o livro de memórias de Kishore Mahbubani. Entrevistado, uma vez, pelo líder, que desejava testar sua capacidade para um cargo, este lhe perguntou: “por que você não tem nenhum amigo?”. Imagine o que não será ouvir do chefe de governo de seu país essa pergunta, em uma entrevista de que depende o seu futuro profissional.
“Living the Asian Century” é de fato “undiplomatic”, ao articular verdades do relacionamento internacional que poucos se atrevem a encarar. “As grandes potências sempre colocarão seus interesses à frente de princípios, ao lidar com estados menos importantes”, diz a certa altura. Outra realidade apontada é a impossibilidade de que as regras pouco democráticas de funcionamento do Conselho de Segurança sejam modificadas por seus membros não-permanentes. Quando presidiu o Conselho, Mahbubani tomou iniciativas que provocaram, na delegação da França, membro permanente, o seguinte comentário: “Por que esses turistas pensam que podem entrar na nossa casa e rearrumar os móveis?”.
O livro condena a figura do ator diplomático que pauta sua atuação externa pela ambição de relevância política na esfera doméstica, buscando agradar a determinados setores internos. Cita como exemplo Jeane Kirkpatrick, temível embaixadora de Ronald Reagan junto à ONU. Nessa posição, estima Mahbubani, ela “sacrificou os interesses dos Estados Unidos para servir à sua agenda ideológica estreita e sua ambição pessoal de chegar mais alto em Washington”.
Em Singapura, ao contrário, avalia o autor, objetivos de longo prazo para o bem público sempre terminarão por predominar sobre considerações pessoais de curto prazo.
As memórias terminam com o comentário de que o caminho traçado pelo autor “da pobreza à fartura, do desconhecimento à educação e à curiosidade intelectual” é agora replicado “por milhões, se não bilhões de outrosasiáticos”. Considera que sua posição como “pioneiro nesse renascimento da Ásia” tem sido “um dos maiores privilégios e realizações” de sua vida.
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Quando esta coluna for lida, estarei viajando para o casamento de minha filha. Por algumas semanas, assim, estarei ausente destas páginas.
Um dos museus mais lúdicos que conheço fica em São Paulo: é o Museu da Língua Portuguesa, na antiga Estação da Luz. Estive lá apenas uma vez, para ver uma exposição sobre a obra de Jorge Amado. Isso foi antes do incêndio de 2015. O museu reabriu em 2021, e tenho grande curiosidade em voltar.
Andei pensando nisso, porque em 5 de maio comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Assim decidiu a Conferência-Geral da UNESCO, em Paris, em 2019. Desde dez anos antes, em 2009, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já celebrava essa data como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura.
A escolha do dia me intriga. Procuro saber os motivos que levaram à sua adoção. Suponho ao início que marca o nascimento, ou o falecimento, de algum autor lusófono considerado um dos pais do idioma, ou a publicação de algum primeiro dicionário da língua ou de alguma legislação que levou à substituição do latim pelo português em documentos oficiais, em Portugal, em séculos pretéritos.
O Dia do Idioma Espanhol, por exemplo, é celebrado em 23 de abril, quando foi enterrado Miguel de Cervantes. EmGeografia do tempo menciono como o embaixador da Espanha na Malásia, em 2023, me convidou para participar da comemoração da data, com algum texto da literatura hispânica que eu leria em público. Optei por um soneto de Jorge Luis Borges, que homenageia Luís de Camões e “Os Lusíadas” e, por conseguinte, a língua portuguesa.
Examinando na Wikipédia efemérides para o 5 de maio, descubro apenas um evento literário relevante para a língua portuguesa. Foi quando, em 1994, perdemos Mário Quintana. Como em qualquer outro dia do ano, na já longa história da humanidade, muitos outros acontecimentos significativos ocorreram nessa data. É em 5 de maio de 1789 que são abertos os Estados Gerais na França, evento que culminaria na Revolução e, portanto, no início da modernização política das sociedades europeias, ao difundir os princípios de cidadania, igualdade jurídica e soberania popular que moldariam o Estado moderno.
Em 5 de maio de 1821, Napoleão Bonaparte morre em Santa Helena. Ao saber da notícia, Alessandro Manzoni escreve seu poema “Il cinque maggio”. Embora sejam versos famosos, que ao reconhecer o destino grandioso de Napoleão meditam sobre o caráter efêmero das coisas humanas, eu só vim saber da sua existência também em Kuala Lumpur. Em algum 5 de maio, o embaixador da Itália me disse: “hoje é o cinque maggio”, e diante de meu ar de incompreensão, que o surpreendeu, mencionou o poema. Não tive coragem de dizer a ele que nem sequer havia lido o célebre romance de Manzoni, Os noivos — I promessi sposi.
Em um cinco de maio nasceram Kierkegaard, em 1813; e Karl Marx, em 1818. Dois escritores, portanto, mas nenhum de língua portuguesa. Celebra-se também o natalício da imperatriz Eugênia, mulher de Napoleão III, em 1826; do marechal Cândido Rondon, em 1865; de Dalva de Oliveira, em 1917; e de Beth Carvalho, em 1946.
Com meus talentos mediúnicos, recomendo que ninguém viaje em um 5 de maio. Em 1972, cai um avião da Alitalia, matando todas as 115 pessoas a bordo. Em 2007, é a vez de um avião da Kenya Airways; morrem os 114 passageiros. Em 2019, 41 pessoas perdem a vida quando um voo da Aeroflot pega fogo.
A decisão da UNESCO explica ter sido o português a “língua da primeira globalização da era moderna”, o que me parece indiscutível. De forma um tanto ingênua, fala porém em um “grande encontro cultural-civilizacional” que teria propiciado “troca de duas vias de ideias, filosofias e produtos culturais”, o que gera perplexidade por seu excessivo otimismo, para não dizer revisionismo histórico. Falar em “duas vias” nesse contexto é ignorar quão desequilibradas foram as relações entre a metrópole portuguesa – ou qualquer outra — e as suas então colônias.
O ministro da Cultura de Angola, Filipe Zau, publicou artigo, por ocasião do 5 de maio, apontando como é recente a difusão da língua portuguesa no seu país, que se iniciou apenas no século XX, nas últimas décadas da colonização. Angola, lembra, é “multicultural e plurilingue”, e a promoção do português, embora necessária para a construção da união nacional, “passa, necessariamente, pelo reconhecimento da existência de outras culturas e outras línguas”.
A resolução da CPLP que deu origem à decisão da UNESCO soa politicamente equilibrada. Adotado em uma reunião do Conselho dos Ministros da Comunidade, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o texto se refere ao nosso idioma como “um meio privilegiado de difusão da criação cultural entre os povos que falam português, numa perspectiva aberta e universalista”.
E é nessa resolução da CPLP de 2009 que encontramos a razão para a escolha do 5 de maio. É um pouquinho decepcionante. Trata-se da data em que aconteceu, no Estoril, em 2000, a primeira reunião dos ministros da Cultura da CPLP. Soa um tanto burocrático, como motivo. Mas se pensarmos no caso, veremos que talvez não houvesse outra ocasião mais neutra, que não ferisse suscetibilidades.
A data comemorativa da francofonia, 20 de março, deve-se a razões parecidas. É quando, em uma reunião no Níger, criou-se, em 1970, a Agência de Cooperação Cultural e Técnica entre países francófonos, transformada em 2006 na Organização Internacional da Francofonia, com sede em Paris.
O 5 de maio, assim, não celebra um dado cultural ou histórico de um dos países lusófonos em detrimento dos outros, ou tampouco alguma imposição da antiga potência colonial sobre os demais. É simplesmente o dia em que os ministros da Cultura dos estados onde o português é falado se reuniram pela primeira vez.
Ao escrever isso, reconcilio-me com a escolha da data. Ela promove o diálogo, o entendimento, a igualdade entre nós, os falantes da língua portuguesa. Foi uma boa decisão.
Existe no Palácio do Itamaraty, em Brasília, um esboço de 1886 do quadro de Pedro Américo “Independência ou Morte” ou “O Grito do Ipiranga”. Ele pode ser visto no terceiro andar, na mesma sala onde está a gigantesca tela de Jean-Baptiste Debret retratando a coroação de D. Pedro I.
O estudo pertencente às coleções do Itamaraty é menor do que o quadro exposto em São Paulo no Museu do Ipiranga. Ambos foram pintados em Florença, onde a obra final foi exibida pela primeira vez na Academia de Belas Artes, na presença do imperador Pedro II e de D. Teresa Cristina. Isso se deu em 8 de abril de 1888. Estamos a um mês da abolição da escravidão e a pouco mais de um ano do fim do Império, e Pedro II viaja pela Europa. Naquele dia, em Florença, muito lealmente homenageia a memória do pai, protagonista da tela que se tornaria a imagem icônica da independência do Brasil.
O Grito do Ipiranga do Itamaraty
Li as palavras dirigidas por Pedro Américo a algumas das personalidades que assistiram à cerimônia em Florença. Não são muito empolgantes. Além do imperador do Brasil e de sua mulher, estiveram presentes a rainha Vitória, em vilegiatura na Toscana; sua filha caçula, a princesa Beatriz; e a rainha consorte da Sérvia. Pedro II foi saudado com elogios aos seus “magnânimos pensamentos”. Referiu-se o artista ao quadro como “o modesto trabalho com que acabo de dar nova prova do meu patriotismo”.
Procurei nos Diários da rainha Vitória alguma referência ao pintor ou à sua obra, mas nada encontrei. Esses Diários foram editados pela princesa Beatriz, que fazia as vezes de secretária particular da mãe, então o que temos não é necessariamente o texto original. A entrada para o dia 8 de abril de 1888 registra: “Como a tarde estava chuvosa, decidimos ir à Galeria de Belas Artes. Nesse prédio há uma coleção de obras de arte excepcionais da Escola Toscana”. O tom dá a entender que a ida à galeria foi acidental, causada pela chuva que impediu um passeio ao ar livre.
Mas não deve ter sido assim. Dois dias antes, em 6 de abril, nos dizem os Diários da rainha, ela recebera na Villa Palmieri, onde se hospedava em Fiesole, a visita de Pedro II e Teresa Cristina. Ambos lhe pareceram “envelhecidos e doentes”. A saúde do imperador era mesmo precária naquele período; um mês depois, em Milão, ele chegaria a receber a extrema-unção. Em 6 de abril, é crível supor, já estava marcada a cerimônia em torno ao quadro que aconteceria dois dias depois, e seria natural o imperador mencioná-la à rainha Vitória e mesmo convidá-la a participar. Vejo nos Diários de Pedro II que ele só comenta, sobre esse encontro, ter achado a rainha “bem avelhantada”. Sem saber, dava-lhe o troco.
Na entrada para o dia 8 de abril, Pedro II escreve: “Chego da exposição de quadro do Pedro Américo. Agradou-me em geral contudo não brilha pelo colorido e há um cavalo que se inclina tanto para o lado galopando que tenho medo que se prancheie” — respeito a falta de vírgulas, por não saber se é uma falha do imperador ou de quem transcreveu o Diário. É um alívio ler um comentário crítico, quase humorístico, na pluma imperial, em vez de alguma frase sentimental sobre o seu pai ou a Independência.
Há um documento escrito pelo próprio Pedro Américo, “O brado do Ipiranga”, também de 1888, que descreve a obra e, em trecho intitulado “A solenidade”, a sua inauguração em Florença. O texto do artista reaparece em um livro de 1999 dedicado ao quadro, organizado por Cecilia Helena de Salles Oliveira e Claudia Valladão de Mattos. Do texto do pintor fica claro que a rainha Vitória era esperada. Ele diz: “Vendo Sua Majestade o Imperador que o vastíssimo salão estava cheio de gente, e assim as salas e galerias adjacentes, e que não chegava S. M. a Rainha da Inglaterra, deu a palavra ao artista”. Vitória apareceu quando o imperador já havia partido. Ela terá visto um Pedro Américo radiante, pois este afirma que os participantes da cerimônia “com ele se congratularam pelo esplendor daquela festa e pelo êxito da obra exposta”.
Durante os anos em que fui professor do Instituto Rio Branco, de 2012 a 2016, incluí uma aula sobre o acervo iconográfico da História do Brasil de propriedade do Itamaraty. Além das telas que ilustram o Grito do Ipiranga e a coroação de Pedro I, a chancelaria brasileira possui várias obras retratando os dois imperadores e personalidades do período monárquico. Há um retrato famoso, excelente quanto à qualidade artística, de D. João VI, não muito lisonjeiro, obra talvez do melhor pintor português do início do século XIX, Domingos Sequeira.
Há também uma pintura, da qual não se conhece o artista, que retrata, de forma competente e sóbria, Duarte da Ponte Ribeiro (1795-1878).
Rubens Ricupero considera Ponte Ribeiro “o exemplo mais perfeito do agente da diplomacia do conhecimento”, sublinhando em A diplomacia na construção do Brasil (2017) seus “180 estudos e memórias” e os numerosos mapas que preparou. Nascido em Portugal, exerceu primeiro a medicina. Como diplomata, foi especialista em questões de limites territoriais. Trabalhou no Uruguai, na Argentina, no Chile, no Peru, na Bolívia.
Um estudioso da obra do diplomata, Castilhos Goycochêa, nos diz em 1943 que “durante o Império, principalmente no que se refere às relações com os outros países do continente, seu nome impressiona pela constância com que figura na maior parte das negociações de toda ordem”. Opina que a Ponte Ribeiro “não faltou nem mesmo a ingratidão da Pátria”.
É expressiva a bibliografia sobre esse grande diplomata. Sua carreira é estudada já desde o século XIX. Em dezembro de 1878, três meses após a sua morte, em uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que ele era sócio, Joaquim Manuel de Macedo discursou sobre sua carreira como agente diplomático e como estudioso das fronteiras do Brasil. O autor de A Moreninha destacou “a capacidade ativíssima, o zelo e a dedicação exemplares” de Ponte Ribeiro, afirmando que suas “vida laboriosa e robustez eram como um milagre de força orgânica”.
O estudo mais minucioso é a biografia por José Antônio Soares de Souza, publicada em 1952, Um diplomata do Império. Explica o autor: “foi Ponte Ribeiro, na diplomacia, o primeiro a reviver no Império o uti possidetis como base para a delimitação do Brasil”. Mostra-nos o diplomata, em 1837, “escarrapachado no lombo de um burro”, seguindo pelos Andes, por “caminhos escabrosos” o governo boliviano, “que vivia, de cidade em cidade, em constantes passeios, dos mais incômodos”. Menciona as queixas financeiras de Ponte Ribeiro, registradas por exemplo em ofício que enviou de Lima, em 1839: “Tenho necessidade de ser empregado porque me acho pobríssimo, havendo gasto quanto tinha durante treze anos” trabalhando como diplomata.
É preciso ler as páginas em que José Antônio Soares de Souza, citando as comunicações oficiais de Ponte Ribeiro, descreve suas andanças em lombo de mula, durante a última missão ao Peru e à Bolívia, de 1851 a 1852. Quinze anos mais velho desde sua estada anterior nos Andes, o diplomata, cinquentenário, sofre com a altitude e as dificuldades da cordilheira. Escreveu Ponte Ribeiro: “Durante a noite a febre, debaixo de um toldo levantado sobre o gelo, e de dia sobre o espinhaço de uma mula, queimado pelos raios ardentes do Sol, que de todos os lados são refletidos pela neve”. Nenhuma outra frase talvez seja tão reveladora quanto esta: “Aqui queria eu ver alguns dos nossos diplomatas que alegam serviços e até sacrifício, [por] irem em um coche de Roma a Gaeta, ou de Paris a Viena pelo caminho de ferro”.
Ao imaginá-lo em sua mula pelos Andes, deve-se lembrar que, anos antes, um acidente de espingarda danificara sua mão. Nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, ele sofrera “despedaçamento da mão e braço esquerdos, perda de ossos”. Soares de Souza acredita que o lado afetado tenha sido o direito, como resultado talvez não de ferimento por arma, mas de uma fratura exposta.
Da aposentadoria em 1853 até poucos meses antes de morrer em setembro de 1878, o diplomata continuou prestando serviços à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, como se chamava então o Ministério das Relações Exteriores. De repente, em abril de 1878, aos 83 anos, recebeu aviso de que cessava a gratificação mensal correspondente.
Soares de Souza esclarece que a suspensão da gratificação teria derivado de “uma ordem geral”, a afetar todos os diplomatas que a recebiam. Ponte Ribeiro, porém, “desarvorou-se inteiramente”, por concluir “daquele suposto agravo já não necessitar a diplomacia brasileira dos seus serviços. Isso o ferira fundo e definitivamente”.
No excelente retrato pertencente ao Itamaraty vemos um rosto de aguda inteligência e grande seriedade de propósitos, como sua vida profissional confirma. Pareceria justo esperar que não tivesse que ser submetido à inconstância institucional.
A Fundação Alexandre de Gusmão publicou, em 2010, ofícios enviados por Ponte Ribeiro à Secretaria dos Negócios Estrangeiros, entre 1836 e 1839, do Uruguai, da Bolívia e do Peru. São boas análises sobre a política local, as relações internacionais desses países e as relações do Brasil com cada um deles. Um ofício de Lima, de fevereiro de 1838, revela certo isolamento andino: “Há poucos dias faleceu nesta capital o encarregado de negócios dos Estados Unidos, e agora se retira Barrère, que exercia igual caráter por parte da França: hoje não há aqui mais agentes públicos que o enviado de México e eu”. Em novembro, a situação melhorara: a Brasil e México se haviam somado novamente enviados de Estados Unidos e França, além de Reino Unido, Nova Granada, Equador e a cidade livre de Hamburgo.
A carreira de Duarte da Ponte Ribeiro demonstra o esforço do Brasil de se fazer presente diplomaticamente nos países vizinhos, mas também as privações a que faziam face seus representantes na América do Sul. Já antes de partir, ainda do Rio de Janeiro, Ponte Ribeiro predizia os transtornos que enfrentaria, movendo-se entre Peru e Bolívia: “marcharei 270 léguas por dispendiosos caminhos”. Compara sua situação com aquela mais confortável de colegas: “Outras legações há na Europa que têm encargo junto de vários governos, mas esses estão próximos, as viagens são fáceis”.
Na Sala dos Tratados, no Itamaraty em Brasília, há três bustos em bronze de Bruno Giorgi, de 1967, representando as figuras históricas a quem o Brasil deve a definição e consolidação de suas fronteiras. De um lado, Alexandre de Gusmão e Duarte da Ponte Ribeiro; do outro, o barão do Rio Branco. Como todo diplomata brasileiro, inúmeras vezes participei de cerimônias na Sala dos Tratados. Algumas internas, quando tipicamente o ministro das Relações Exteriores coloca-se, para discursar, próximo ao busto do Barão. Outras, com delegações estrangeiras, quando há coletivas de imprensa ou, como indica o nome do recinto, a assinatura de atos internacionais. A mesa situada junto à grande treliça de Athos Bulcão possui importância ímpar, por ter fama de ser aquela sobre a qual se assinou a Lei Áurea.
Os retratos históricos circulam às vezes entre o Itamaraty do Rio e o de Brasília e são transferidos de gabinete em gabinete em cada um dos dois palácios. Em 2003, quando Samuel Pinheiro Guimarães tornou-se secretário-geral das Relações Exteriores no início do primeiro governo Lula, e fui trabalhar com ele, compreendi sua decisão de substituir certos quadros expostos na sala de espera dos visitantes que iam vê-lo.
Os dois palácios do Itamaraty são museus. Ambos abrigam importantes coleções de arte e de mobiliário. São ambos edifícios valiosos em termos arquitetônicos. Mas são museus vivos. Neles se trabalha, neles há agitação, neles há o propósito de criar e transmitir uma certa imagem de Brasil. Suas coleções, justamente por serem ilustres, devem ser exibidas de acordo a algum parâmetro substantivo. Parecia pouco razoável que o retrato de D. João VI, justo em frente à porta de acesso à antessala do secretário-geral, fosse a primeira visão que as visitas, nacionais ou estrangeiras, tivessem da política externa brasileira contemporânea.
Mais intrigante era ver exposta na mesma sala uma tela grande, artisticamente medíocre, retratando Luís José de Carvalho e Melo, primeiro visconde da Cachoeira, e sua mulher. Chanceler do Brasil de 1823 a 1825, Carvalho e Melo foi um dos negociadores do tratado de 1825 entre Brasil e Portugal, pelo qual a ex-metrópole reconheceu a independência da ex-colônia. O diplomata e jurista Hildebrando Accioly escreveu em 1925 que “Carvalho e Melo era homem de poucas luzes”. Um instrumento adicional ao tratado determinava o pagamento, pelo Brasil a Portugal, de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas. Accioly cita Oreconhecimento do Império, onde Oliveira Lima lembra em 1901 que “a compra da Independência por dois milhões esterlinos, depois de ela ser um fato consumado e irrevogável, foi um estigma de que a monarquia justa ou injustamente nunca pôde livrar-se no Brasil e cuja recordação pairou sobre o trono até os seus últimos dias”.
Rubens Ricupero relata como, a partir da exoneração em 1823 de José Bonifácio, primeiro chanceler brasileiro, já não predomina “a perspectiva do Brasil independente, mas o interesse dinástico pessoal do seu monarca”, herdeiro do trono de Portugal, “cujo projeto político dependia do reatamento de laços” com seu país de origem.
Ainda mais extraordinária era a presença, então em lugar de destaque na antessala do secretário-geral do Itamaraty, do retrato de grandes dimensões, pintado em Roma em 1832, de um jovem diplomata hoje esquecido, e que na verdade nunca chegou a merecer ser recordado. Em um livro de 1993, intitulado singelamente Itamaraty, que se tornou obra de referência sobre os dois palácios, o de Brasília e o do Rio de Janeiro, e suas coleções, João Hermes Pereira de Araújo nos explica: “O nome de Amaro Guedes Pinto não seria mais lembrado se a vaidade, característica dos dândis de todos os tempos, não o tivesse levado a encomendar seu retrato a óleo ao pintor português Antonio Manoel da Fonseca, em Roma conhecido como Fonseca Lusitano”.
A literatura e a arte possuem o poder de modificar a percepção que temos da História. Governantes habilidosos do passado frequentemente recorreram a artistas e escritores para criar uma imagem positiva a seu respeito e perpetuá-la. Da mesma forma, obras de arte podem perenizar indivíduos sem relevância enquanto vivos, ilustrando ao mesmo tempo, para a posteridade, toda a atmosfera de uma sociedade. É o caso do retrato de Amaro Guedes Pinto, o jovem secretário lotado em Roma cuja imagem durante tanto tempo foi exibida na Secretaria-Geral do Ministério. O quadro desvela uma mentalidade, a dos homens abastados da primeira metade do século XIX que viam na diplomacia uma forma elegante de viver. É de novo Oliveira Lima, em O Império brasileiro (1927), quem nos explica: “a escravidão oferecia aos moços ampla oportunidade para não trabalharem e luxarem, sedentos apenas de empregos públicos”.
João Hermes Pereira de Araújo menciona um artigo de imprensa de 1932 sobre o retrato, intitulado “O homem mais bonito do Brasil”. Localizei esse texto na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Seu autor, Gastão Penalva, é um escritor esquecido. Era avô da atriz Maria Lúcia Dahl, que eu na adolescência considerava terrivelmente atraente. Difícil dizer se é sincera a admiração de Penalva pela tela ou se fala com intenção de pilhéria ou mesmo crueldade para com o modelo — menciona “as mãos de odalisca” de Amaro Guedes Pinto, esse “Lord Brummell brazílico” e “impenitente Casanova dos trópicos”, descrevendo supostos êxitos sociais e amorosos seus em Viena.
Guedes Pinto, porém, nunca deixou Roma para assumir as novas funções a que fora designado, em 1831, na Áustria. Localizo no arquivo histórico do Itamaraty uma comunicação sua, do mesmo ano, enviada de Roma, em que menciona o seu “atual estado de saúde” — ele tinha 25 anos de idade — como razão para não aceitar “o honroso emprego a que fui destinado de cônsul-geral e encarregado de negócios interino do Brasil na Áustria”. Encontrei a resposta a ele enviada, segundo a qual “a Regência, em nome do Imperador”, aceitava sua decisão, “não obstante haver causado grande transtorno a sua recusa”.
Descobri outro artigo sobre o retrato, de 1933, igualmente fantasioso, publicado por Luís Gastão d´Escragnolle Doria em Revista da Semana. O autor parte do princípio de que Guedes Pinto de fato foi encarregado de negócios em Viena por alguns meses, em 1831, e devaneia sobre como terá ocupado seu tempo na Áustria. O império austríaco, então uma das cinco maiores potências europeias, era em 1831 governado por Francisco I, avô materno de Pedro II, que se tornara imperador do Brasil em abril daquele ano. A Áustria oferecia assim, presume-se, um cachê duplo aos diplomatas brasileiros, o que torna curiosa a preferência de Amaro Guedes Pinto por permanecer em Roma. Claramente, o trabalho diplomático era para ele um passatempo, sequer uma ambição.
Segundo João Hermes Pereira de Araújo, em seu comentário sobre a presença em Roma de Guedes Pinto, “não se encontram outras notícias desse personagem”. À custa de muita pesquisa, consegui porém consolidar bastante informação sobre sua vida e suas origens familiares.
O pai, Manoel Guedes Pinto, e o avô materno, Manoel Velho da Silva, prosperaram no comércio de pessoas escravizadas. Também traficava seres humanos o irmão de sua mãe, Amaro Velho da Silva, primeiro visconde de Macaé. A história do Brasil seria compreendida de maneira bem diferente, se fosse salientado quantos dos políticos do Império, quantos dos detentores de títulos de nobreza, quantas das personalidades mais próximas da dinastia reinante — e, na segunda metade do século XIX, seus filhos — deviam afluência e respeitabilidade à compra e venda de africanos escravizados.
Amaro nasceu em 1806. Vejo em minha pesquisa que seus pais (a mãe, Maria Thomázia Velho da Silva, morreria em 1810, com 24 anos) tiveram dois outros filhos, Manoel, nascido em 1805, e José, em 1809. A mulher do caçula, Maria Eugênia Guedes Pinto, uma das estrelas elegantes da sociedade imperial em meados do século, é tida como uma paixão de Pedro II. Era conhecida como Mariquinhas Guedes. O pai desta, o visconde de Maranguape, foi por duas vezes secretário dos Negócios Estrangeiros. José Guedes Pinto morreu em 1855, de “apoplexia”, segundo os avisos fúnebres que descubro em jornais cariocas. Há menção à viúva, mas não a filhos.
A avó materna do nosso retratado, uma tia e uma prima-irmã, todas três chamadas Leonarda, foram damas do Paço. A primeira Leonarda, a avó, viúva muito rica, só morreria em 1825, quando Amaro já tinha 19 anos. Era filha de um capitão de navios negreiros.
Encontro o nome de Amaro Guedes Pinto em um anúncio em jornais cariocas, em fevereiro de 1837: “leilão, na casa do Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, no largo do Machado, de todos os trastes, espelhos, quadros, cristais, porcelana, prata, carruagem, carrinhos, cavalos, escravos etc… etc… pertencentes ao dito senhor”. Por um momento, penso em ruína financeira. Outro anúncio, um mês depois, no Jornal do Commercio, me tranquiliza: “leilão de uma rica e escolhida biblioteca dos melhores autores em francês, inglês, espanhol, português &c, pertencente ao Ilmo. Sr. Amaro Guedes Pinto, que se retira para a Europa”. Mais uns dias e leio, em um jornal de abril, que nosso elegante diplomata partiu, “com sua mulher”.
Localizei o registro de nascimento e o de casamento de Amaro, mas não o de seu falecimento. Em dezembro de 1833, ele se casara com uma prima-irmã, Maria Thomázia Velho da Costa, filha de sua tia Leonarda, irmã de sua mãe, a qual, cabe recordar, também se chamava Maria Thomázia. O visconde de Macaé, tio de ambos, foi uma das testemunhas. Em novembro de 1856, morre a segunda Maria Thomázia. Avisos fúnebres nos jornais nos dizem que ela tinha 37 anos, era “tísica” e viúva. Não há referência a filhos. Terá então nascido em 1819 e se casado aos 14 anos, quando Amaro tinha 27. Sabemos que este estava vivo ainda em 1839, e talvez morando em Paris, pois naquele ano um escultor francês da moda, James Pradier, esculpiu seu busto em mármore.
Os Velho da Silva foram durante algumas décadas, no final da época colonial, no período joanino e no início do Império, uma das famílias mais prósperas, influentes e prestigiadas do Brasil. Formavam um clã. Isso explica a facilidade com que Amaro Guedes Pinto recusou a transferência para Viena.
Nas suas Memórias para servir à história do Reino do Brasil (1825), Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), o “Padre Perereca”, conta-nos que, ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1808, a família real foi recebida sob um “precioso pálio de seda de ouro encarnada”. Oito notáveis da cidade foram escolhidos para sustentar esse pálio. Um deles era um tio-avô — outro Amaro Velho da Silva, também ele próspero traficante de pessoas escravizadas — do nosso Amaro. Em seus livros, Laurentino Gomes confunde os dois Amaro Velho da Silva, tio e sobrinho, como sendo uma só pessoa. Oitenta anos depois, o conde de Mota Maia, médico de Pedro II que o acompanhava na viagem à Europa entre 1887 e 1888 e estava presente, em Florença, à inauguração do quadro de Pedro Américo, viria a ser ninguém menos do que filho de uma prima-irmã de Amaro Guedes Pinto. Proclamada a República, ele acompanharia a família imperial em seu exílio.
Da sua chegada ao Rio em 1808 à partida para o exílio em 1889, portanto, a dinastia reinante esteve sempre acompanhada por parentes próximos do nosso retratado. A família de Amaro Guedes Pinto logrou manter-se, ao longo do século XIX, no mais alto escalão social. Malgrado a insignificância do personagem em si, um olhar sobre suas conexões familiares revela muito sobre a realidade sociológica do Brasil. Por uma ironia muito brasileira, outro dos oito notáveis que receberam a família real em 1808 era Manoel Pinheiro Guimarães, também este da burguesia mercantil do Rio, integrando a rede de fornecedores e contratadores que sustentavam a administração colonial portuguesa, e antepassado do mesmo Samuel Pinheiro Guimarães que determinaria a retirada do retrato de Amaro da antessala da Secretaria-Geral.
O quadro de Antonio Manuel da Fonseca, luxuoso nos detalhes — há cortinas de veludo verde, a roupa do modelo é rica, a cúpula da Basílica de São Pedro aparece ao fundo — preserva para a posteridade o ar juvenil, satisfeito, despreocupado de um perfil diplomático apagado. Opõe-se a ele a tela que retrata, sem ornamentos, o funcionário instruído, patriótico e incansável que foi Duarte da Ponte Ribeiro. Contra um fundo cinza, trajes discretos e um rosto de meia-idade denotam sagacidade e circunspecção. O primeiro retrato joga luz sobre o sucesso material de um grupo social. O segundo, embora atemporal, nos revela os traços de uma personalidade individual.
Ponte Ribeiro construiu reputação de trabalhador abnegado, de eficiente “fronteiro-mor”, para usar a expressão de Castilhos Goycochêa, na defesa dos interesses do Brasil, enquanto Guedes Pinto não deixou nome algum. Não poderia haver contraste mais marcante nos percursos dos dois diplomatas.
Curiosamente, essa diferença transparece em seus respectivos retratos. Estes simbolizam, assim, dois tipos de carreira diplomática divergentes, que existiram, existem e existirão. De um lado, o funcionário zeloso, estudioso, capaz, destinado pela chancelaria a postos difíceis e a duras tarefas necessárias. De outro, o hedonista acomodado a uma existência confortável e vazia, ali “onde as viagens são fáceis”.
Este ensaio foi primeiro publicado em Estado da Arte, em 10 de dezembro de 2025