Malaca é um nome mítico, que na minha imaginação parece exclusivamente ligado a alguma obra de ficção. Desperta tanta fantasia que não poderia ser um lugar no mundo conhecido, concreto. É porém uma cidade bem real, de tamanho médio, a menos de duas horas de carro de Kuala Lumpur. Preserva um centro histórico e ruínas de seu passado glorioso como entreposto comercial. Elo de ligação entre China, Índia e Oriente Médio, foi durante quatro séculos objeto de cobiça de potências europeias.

Malaca, onde Camões esteve em pessoa, é citada três vezes no Canto X de Os Lusíadas. Na estrofe 44 é classificada de “opulenta”. Versos na estrofe 123 resumem sua reputação:

Mais avante fareis que se conheça
Malaca por empório ennobrecido,
Onde toda a província do mar grande
Suas mercadorias ricas mande.

Nos restos da opulência do empório enobrecido, passei um sábado, em setembro. Minha curiosidade maior era visitar a Porta de Santiago, único pedaço remanescente de A Famosa, fortaleza que os portugueses erigiram após sua conquista do sultanato de Malaca, em 1511; e, em um morro logo atrás, as ruínas da igreja de São Paulo. A igreja foi originalmente construída a mando de Duarte Coelho, que seria anos mais tarde o primeiro donatário da capitania de Pernambuco. Nela esteve enterrado São Francisco Xavier, o santo cujo corpo teve sucessivamente três túmulos — Macau (mais precisamente a ilha de Sanchoão), Malaca e Goa, onde vi seu jazigo em 2016. Como Afonso de Albuquerque, que conquistou o sultanato para os portugueses, Luís de Camões também passou tanto por Malaca quanto por Goa. Sempre causa em mim forte impressão pensar na facilidade com que os portugueses andavam de um oceano a outro, um pouco como nós podemos morar no Leme e decidir almoçar no Flamengo.

A Porta de Santiago e a carcaça da igreja de São Paulo não me desapontaram. Ambas estão bem cuidadas. Do alto do morro, vê-se o Estreito de Malaca. Lápides em diferentes línguas comprovam a sequência de potências coloniais que ocuparam o território do sultanato: Portugal, Países Baixos, Reino Unido. Da janela de uma parede branca da igreja, olhei longamente a natureza; imaginei todas as gerações de diferentes nacionalidades que, ao longo dos séculos, terão visto a mesma paisagem por aquele quadrado.

A ida a Malaca concedeu-me o que eu procurava, uma reflexão sobre a sucessão dos impérios. As ruínas de uma igreja perduram, enquanto os seres humanos que por elas andam desaparecem; onde antes se rezou, passeia-se agora. O mesmo local serve de cenário para diferentes e sucessivas culturas ou repetidas práticas coloniais.

A cidade, porém, reservava-me uma surpresa.

Caminhando por uma das ruas do centro histórico, vi um muro caiado, no centro do qual havia um portão fechado por uma grade. Parei. Atravessei a rua. Acima do arco do portão, estava escrito: “Makam Hang Kasturi”. Pelo celular, vi que “makam” significa “túmulo”. A grade não estava trancada. Entrei. O recinto ao ar livre era pequeno e, embora imprensado entre um estacionamento e um templo chinês, encantador. Era uma sepultura pintada de branco, com uma pequena coluna em cada canto. Árvores floridas ocupavam o espaço mínimo entre o túmulo e o muro que o circundava. Pela cerca por cima do muro de trás, eu podia ver os carros no estacionamento, mas o lugar parecia um universo próprio, distinto da agitação e do calor da rua. Havia ali paz, sombra, vegetação e pássaros cantando. Era um oásis no coração de Malaca.

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De noite, em casa em Kuala Lumpur, tentando entender de quem era aquela sepultura, mergulhei em uma das lendas mais duradouras do imaginário malaio.

Era uma vez cinco amigos de infância que, ao crescer, se tornaram os guerreiros mais famosos, valentes e respeitados a serviço do sultão de Malaca, na segunda metade do século XV. Todos usavam o termo “Hang” antes de seus nomes, o que faz pensar ser esse um título militar ou de reconhecimento de seu valor; malásios de origem chinesa gostam de ver nisso a prova de que eles eram nascidos na China. Eles se chamavam Hang Tuah, Hang Jebat, Hang Kasturi, Hang Lekir e Hang Lekiu, sendo os três primeiros os mais famosos. Hang Tuah, particularmente, é figura central do imaginário malaio. Existe no estado de Malaca, no campo, um museu dedicado à sua história. Mais de uma aldeia é apresentada como seu lugar de nascimento. Há dois túmulos antigos no país apontados como seu jazigo. No estado de Negeri Sembilan, a marca de um pé na pedra é considerada como tendo sido deixada por ele.

Os cinco amigos — ou ao menos Hang Tuah — parecem ter sido personagens históricos, em torno aos quais diferentes lendas foram desenvolvidas. Há duas fontes principais para acompanhar as suas peripécias: o épico A Saga de Hang Tuah (Hikayat Hang Tuah) e os Anais Malaios (Sejarah Melayu), obra sobre a qual escrevi em uma de minhas Cartas da Malásia.

Há um tema fundamental na saga, com variações dependendo da fonte. Hikayat Hang Tuah nos ensina que, um dia, Hang Tuah foi injustamente acusado de manter um caso com uma das favoritas do sultão, que por isso ordena ao primeiro-ministro que mande executá-lo. Hang Jebat, decidido a vingar a morte de seu melhor amigo, entra no palácio do sultão e começa a liquidar seus guardas. O monarca se dá conta de que apenas Hang Tuah teria sido capaz de contê-lo. Mas Hang Tuah morreu, por ordem sua. Como em alguma tragédia clássica, tal qual um Deus ex machina, o primeiro-ministro anuncia que não cumpriu a ordem do sultão, e que o famoso guerreiro continua vivo. Hang Tuah é trazido ao palácio, enfrenta seu amigo Hang Jebat, derrota-o e o mata.

Em Sejarah Melayu, é Hang Kasturi que, acusado, como Hang Tuah, de ter um caso com uma favorita do sultão, se revolta, é derrotado por Hang Tuah — o qual, como na outra versão, fora secretamente poupado pelo primeiro-ministro — e morre pelas suas mãos. Falta aí o elemento da revolta que tem por origem a lealdade ao amigo. Aglutino, na minha imaginação, as duas versões. Uso o enredo de Hikayat Hang Tuah, dando a Hang Kasturi o papel atribuído no épico a Hang Jebat, apenas porque acho bonito o seu túmulo, em plena Malaca. Por apreciar o túmulo, quero dar ao homem ali enterrado um papel heroico. Naturalmente, não há prova de que ali esteja mesmo enterrado Hang Kasturi, e este pode aliás nem ter existido.

O amigo de Hang Tuah revoltou-se contra o sultão para vingar sua execução injusta. No entanto, Hang Tuah mata esse amigo que se rebelou por lealdade a ele. Há, nessa história trágica, uma moral política: o herói coloca a sua fidelidade ao soberano acima de qualquer outra consideração. O Sejarah Melayu ensina que a lealdade ao soberano é o dever principal de todo malaio. Em troca, o soberano promete ser justo, o que, aliás, não fizera no caso de Hang Tuah.

Nos anos 60 e 70 do século XX, uma corrente de pensamento propugnou que o verdadeiro herói seria Hang Jebat — supondo que tenha sido ele o amigo desejoso de vingar Hang Tuah. Após a independência da Malásia, em 1957, havia desejo entre os intelectuais, nos diz um estudioso contemporâneo do assunto, o poeta Muhammad Haji Salleh, de dar ao país um modelo, que pudesse “champion the rights and the integrity of his people”. Hang Tuah, porém, venceu Hang Jebat até postumamente, e é hoje novamente proposto como o mais admirável, forte e valente dos cinco guerreiros. Avalio que recuperou sua posição de prestígio por simbolizar a conformidade com o status quo social e político.

Um domingo, tendo terminado a leitura de Sejarah Melayu, fui à melhor livraria de Kuala Lumpur, disposto a ver se encontrava exemplar em inglês do épico Hikayat Hang Tuah. Não havia. Em compensação, comprei um pequeno volume lançado em 2020, intitulado Seeking Hang Tuah, no qual Muhammad Haji Salleh discorre sobre a história dos cinco guerreiros, analisando sobretudo o grande épico. No mesmo andar da livraria, está um restaurante japonês de que gosto. Era a hora do almoço. Sentei-me e pedi meu prato predileto. Enquanto esperava a chegada do unagi gozen, folheei o livro do poeta.

Ao abri-lo ao acaso, li o seguinte parágrafo: “Fiction is a crowded universe. Hundreds of literary characters jostle in Murasaki Shikibu’s ‘Genji Monogatari’, Tolstoy’s ‘War and Peace’, Márquez’s ‘A Hundred Years of Solitude’ and also in Pablo Neruda, Octavio Paz and Clarice Lispector”. Pensei estar diante de uma miragem. Esfreguei os olhos. Mas, não. O nome era bem esse. Lá estava a autora brasileira, em uma lista inequivocamente ilustre, preparada por um escritor malásio.

Controlei a tempo meu espanto. Não havia razão para surpresa em ver Clarice Lispector na lista, aliás um tanto arbitrária. Graças sobretudo a Hélène Cixous e, mais recentemente, a Benjamin Moser, Clarice entrou definitivamente no cânone literário internacional, lugar a que ela pertence de direito. Não preciso ver sua consagração no exterior para ser capaz de avaliar seu mérito, mas impressionou-me constatar que sua fama chegou à Malásia, ou ao menos a círculos literários malásios. Ela parece ter se tornado, aos olhos dos estrangeiros, o escritor brasileiro por excelência.

Muitas vezes, eu me pergunto que escritor brasileiro deveria entrar primeiro para o panteão representado pela coleção da Pléiade, da Gallimard. Há algumas semanas, conversando ao telefone sobre isso com um amigo, ex-aluno meu no Instituto Rio Branco, que hoje trabalha em Buenos Aires, ele opinou que Machado de Assis. Tenho dúvidas a respeito, embora eu considere ser Machado, certamente, o melhor escritor brasileiro. Hudson Caldeira, em um ensaio recente sobre a tradução de Flora Thomson-DeVeaux de Memórias Póstumas de Brás Cubas, alude a algumas razões que dificultariam a entrada de Machado de Assis, a esta altura, no imaginário de leitores estrangeiros.

Na conversa com meu ex-aluno, sugeri Jorge Amado, pensando que, aos olhos da editora francesa, ele teria valor comercial mais elevado. Representaria também, creio, todo o exotismo que leitores estrangeiros podem associar ao Brasil. Ali no restaurante japonês em Kuala Lumpur, lendo o comentário do poeta malásio, comecei a me perguntar se o lugar de escritor brasileiro mais consagrado nos meios literários estrangeiros já não foi ocupado, na verdade, por Clarice Lispector. André Bernardo, em artigo publicado esta semana na BBC Brasil, nos dá alguns elementos que provam o seu reconhecimento no exterior: “traduzida para 32 idiomas, do mandarim ao croata, do norueguês ao russo, do turco ao hebraico, Clarice já foi publicada em 40 países”.

Terminado o almoço, voltei à livraria. Examinei se algum volume de Clarice estava nas prateleiras, na seção em língua inglesa. Encontrei quatro títulos: A Hora da Estrela, A Paixão segundo G.H, O Lustre e A Cidade Sitiada. Vi apenas dois outros autores brasileiros, Paulo Coelho, com numerosos exemplares, em diferentes edições, de vários livros seus, e O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa. Mesmo a nova e já famosa tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas por Flora Thomson-DeVeaux não se podia achar. Sim, sim, tenho certeza. Procurei por “Machado” e por “Assis” nas prateleiras organizadas por rigorosa ordem alfabética.

No começo da adolescência, convivi, em Montevidéu, com Maury Gurgel Valente, ex-marido de Clarice Lispector e pai de seus dois filhos. Tenho uma lembrança vívida dele, como um homem boníssimo e extraordinariamente afável. Na Fotobiografia da escritora por Nádia Battella Gotlib, ele aparece bem mais jovem do que quando o conheci e, no entanto, é perfeitamente reconhecível. Pedro, um dos filhos, bem mais velho do que eu, morava com o pai e dele também tenho lembrança. Por isso, Clarice não era uma referência distante para mim. Parecia próxima, bem real, embora eu nunca a tenha visto. Guardo com carinho meu exemplar da primeira edição de A Mulher que Matou os Peixes, com ilustrações de Carlos Scliar, lido no final da infância. Ano passado mesmo, ainda em Brasília, passei bons momentos relendo A Via Crucis do Corpo. Uma das brincadeiras entre minha filha e eu, há muitos anos, quando um de nós vê que o outro está preocupado, é perguntar, fazendo referência ao conto Um dia a menos: “O que houve? É a xícara de chá ruim que estraga a tarde, o dia ou a vida?”. Clarice, assim, faz parte do meu cotidiano familiar. Ao mesmo tempo, talvez eu pensasse conhecê-la bem demais e não entrei na sua literatura com a assiduidade ou com o estado de espírito necessários.

Tudo mudou com a visão de seu nome, em um restaurante japonês de Kuala Lumpur, nas páginas do livro de um poeta local que disseca uma famosa lenda do povo malaio. Foi como um aviso de que eu estava deixando passar algo importante. Tive a percepção de que ter crescido ouvindo falar nela e ter lido suas obras de vez em quando não era suficiente.

No fim de semana seguinte, lendo Laços de Família, na edição dos contos completos da editora Rocco organizada por Benjamin Moser, fiquei sem vontade de sair de casa. Nada lá fora poderia ser tão instigante quanto aquela escrita. Devorei-os todos. Alguns dias depois, conversando ao telefone com outro amigo, Gilberto Morbach, mencionei três a ele: A imitação da rosa, O crime do professor de matemática e O búfalo. O segundo, opinei com Gilberto, diz em oito páginas o que Dostoiesvki diz em centenas.

Nova tentativa, porém, de ler A Paixão segundo G.H, a terceira ou quarta ao longo da vida, foi uma vez mais infrutífera. O momento certo não chegou. Nunca sabemos, na verdade, quando virá esse momento. De repente, lemos sem aviso prévio o livro de que estávamos justamente precisando. Algo acontece que nos aproxima de um autor ou de uma obra na hora certa.

Não pude ainda encomendar do Brasil, para entrega na Malásia, o volume Todas as Cartas lançado pela Rocco em setembro, sem dúvida um dos grandes acontecimentos literários do ano. Tampouco posso, por causa da pandemia, viajar a Singapura onde, na casa da minha mulher, está um livro mais enxuto, Correspondências, de 2002, organizado para a Rocco por Teresa Montero. Contento-me, assim, com as duas cartas par Olga Borelli incluídas na minha edição de A Paixão segundo G.H., da Coleção Archivos, preparada por Benedito Nunes, com extenso material crítico. Muitas vezes, nas últimas décadas, diante da tentativa malsucedida de ler o romance, acabei relendo, no volume, as duas cartas. A primeira delas, de 11 de dezembro de 1970, portanto um dia após o aniversário da autora, é famosa, e com razão. É surpreendente de franqueza e vulnerabilidade, considerando que a remetente e a destinatária, que viriam a ser amigas, tinham se conhecido apenas poucos dias antes. Toda a Clarice parece estar contida naquelas poucas linhas cativantes. Diz ela: “Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo […] Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança”.

Eu estava precisando dos contos de Clarice. O estranho é perceber que, se não me aguardasse naquele pequeno canto de Malaca o túmulo tido como sendo o de um guerreiro semi-lendário, se minha curiosidade pela sua história não tivesse sido despertada, se um poeta malásio que escreveu a respeito não lançasse o nome de Clarice Lispector solto assim em seu livro, talvez essa busca tivesse ficado soterrada em mim por um bom tempo ainda. O fascínio iniciado em Montevidéu cristalizou-se, tantos anos depois, como consequência da visão de um túmulo secular na mítica Malaca.

Primeira versão, mais curta, deste texto foi publicada em Estado da Arte, em 10 de outubro.

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5 comentários sobre “Clarice, de Montevidéu a Malaca

  1. Muito obrigada. Lendo e aprendendo. Há alguns anos tentei uma leitura de Clarisse Lispector, que não consegui chegar ao fim, nem me lembro mais por que. Sob sua instigação, tentarei de novo.

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