Em Bruxelas, o Hino brasileiro

Em Bruxelas, o Hino brasileiro

A notícia veio em dezembro: nossa filha e o namorado nos comunicaram que se casariam em junho. A cerimônia aconteceria em Bruxelas, cidade onde trabalham há muitos anos. Os convidados seriam exclusivamente amigos e parentes mais próximos dos noivos.

Minha filha e meu genro foram colegas de colégio na Bélgica. Anos atrás, recebi, em Brasília, um telefonema: “papai, só para avisar que estamos na prefeitura de Ixelles, onde acabamos de estabelecer uma união estável”. Ixelles é o bairro de Bruxelas, ou comuna, como lá se diz, onde eles vivem. Tentei dramatizar: “como? Você se casou e não nos convidou!”, mas ela retrucou: “não é um casamento, é uma união estável; nós decidimos e viemos. Não pude avisar antes”. 

Os leitores terão notado que se trata de uma pessoa independente. Ela não teve opção: desde que fez dezoito anos, minha mulher e eu, obrigados pelo nosso próprio trabalho, vivemos em outros continentes, longe dela, primeiro em Brasília, depois no Sudeste Asiático e agora na África.

Houve um breve momento em que minha filha conseguiu um emprego em Brasília e voltou a morar conosco. Aqueles foram meses radiantes para nós, que havíamos pensado nunca mais poder conviver com ela. Seu objetivo era instalar-se com o namorado, que é belga, em São Paulo, onde os dois trabalhariam. Revelou-se, porém, mais fácil para ela, detentora exclusivamente do passaporte brasileiro, conseguir, de Brasília, por meio de entrevistas virtuais, um emprego mais atraente em Bruxelas.

A cerimônia civil do casamento também se realizou na sede da comuna de Ixelles. Regressávamos a um local conhecido. Há muitos anos, já havíamos assistido, os três, naquele mesmo lugar, ao casamento de Henrique, um colega e amigo querido.

Nossa filha nada nos pediu para o casamento. Ela e o noivo cuidaram de tudo. Nosso papel era apenas estar presentes e nos comportarmos bem. Em contrapartida, não nos foi autorizado convidar nossos amigos. Abordei o assunto com uma dessas amigas em Bruxelas; ela reagiu elegantemente: “Quando nosso filho se casou há alguns meses, passamos por essa situação. Não pudemos chamar ninguém. Hoje em dia é assim. E está certo, é a festa deles”.

Recebemos, na verdade, uma incumbência. Buscar, na manhã da cerimônia, o buquê de flores. De início, pensei tratar-se de uma função periférica, para que não nos sentíssemos inúteis. Percebi o quão equivocado eu estava enquanto voltávamos a pé, do florista ao hotel. Caminhando pelas ruas residenciais desertas de Ixelles, entendi ser aquela uma experiência única. Nossa filha desenhara ela mesma o buquê. O modelo, que ela criou como um emblema do amor entre ela e o noivo, passou a ser exibido pela casa de flores em suas redes sociais.    

Uma consequência de vivermos sempre tão longe dela, é que não víamos seus colegas de escola há muitos anos. Revelou-se difícil reconhecer, na forma de adultos, pessoas que havíamos encontrado pela última vez como adolescentes. Cumprimentei Peter como se fosse Xavier. Tampouco conhecíamos pessoalmente seus amigos mais recentes, embora ouçamos referências a eles com frequência. Boa parte do dia foi passada com exclamações como: “Oh, então essa é que é a Lisa? E essa é a Monica? E essa a Dayana?”. Foi cruel constatar como, por causa da distância a que fomos condenados a viver, perdemos tanto do cotidiano de nossa filha.

A chamada prefeitura de Ixelles está instalada em uma casa culturalmente importante. Foi construída em 1833, para servir de residência à muito célebre cantora de ópera Maria Malibran e seu companheiro, um violinista belga. Eles se casaram poucos meses antes da morte da mezzosoprano, aos 28 anos apenas, em 1836, das consequências de uma queda de cavalo na Inglaterra.

Maria Malibran, figura ilustrativa da era romântica, ganhou, nas últimas décadas, fama renovada graças a outra mezzosoprano. Cecilia Bartoli, que idolatra Malibran, lançou, em 2007, um disco, “Maria”, com árias tornadas famosas pela predecessora. Em homenagem a Maria Malibran, Bartoli concebeu um museu itinerante sobre rodas, em uma espécie de trailer onde eram exibidos objetos pessoais, manuscritos, cartas, partituras e documentos ligados à grande cantora. Uma vez, em Bruxelas, vi na rua esse veículo e até hoje lamento não ter visitado a coleção que continha.

A família de Maria Malibran era inteiramente composta por músicos, compositores e cantores de ópera. Sua irmã quinze anos mais jovem, Pauline Viardot, outra mezzosoprano igualmente célebre, é conhecida pelos apreciadores de literatura russa por ter sido o grande amor de Ivan Turguêniev. Este ouviu-a cantar em São Petersburgo em 1843, e a partir daí ficou preso aos seus encantos até morrer em 1883. Seguia-a pela Europa e mudou-se para a França, entre outras razões, para ficar perto dela. Desenvolveu laços de amizade com toda sua família, inclusive com o marido de Pauline. Houve períodos em que dividia casa com eles.

Há debates sobre se escritor e cantora consumaram fisicamente sua relação. Henri Troyat, biógrafo de Turguêniev, acredita que sim, mas por apenas um curto tempo. De qualquer maneira, parece haver consenso de que Pauline Viardot valorizava a amizade com o escritor, mas não o amava da mesma forma ou com a mesma intensidade. Os dois cultivaram outros amores e, às vezes, ficavam meses, anos sem se encontrar, quando Turguêniev se instalava na Rússia por longas temporadas.    

O primeiro vereador de Ixelles, ao oficiar no casamento de nossa filha, observou estarmos no que fora a sala de música de Maria Malibran e seu marido belga, “que nesta casa viveram o seu romance”. Durante a cerimônia foi uma surpresa e uma grande alegria ouvir, tocado pelo pianista, no meio da seleção musical, um trecho do Hino Nacional brasileiro.

Dois dias depois, minha mulher e eu iniciamos o regresso a Luanda. Na parada em Lisboa comemoramos singelamente, com minha mãe e minha irmã, nosso aniversário de casamento.  

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 20 de julho

Algumas de minhas colunas anteriores no Estado de Minas:

A Seleção diante do mundo, 6 de julho

Futebol na Opéra Bastille, 22 de junho

Memórias pouco diplomáticas, 25 de maio

Diálogo, entendimento, igualdade, 11 de maio

Lepanto, 28 de abril

Marcha fatal, 14 de abril

Os sete reinos, 30 de março

Guerra, ontem e hoje, 16 de março

Passeando pela Espanha, 28 de fevereiro

Fantasia de Carnaval, 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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A Seleção diante do mundo

A Seleção diante do mundo

Quando esta coluna for publicada, teremos, na véspera, derrotado a Noruega e passado para as quartas de final da Copa do Mundo masculina. Ou não. No futebol, tudo acontece, e as decepções, de certa maneira, formam parte da alegria. O elemento de imprevisibilidade é o que torna o jogo tão empolgante.

Quem poderia prever que a Alemanha, quatro vezes campeã, nossa algoz em 2014, em casa, no Mineirão, quando nos humilhou de 7 a 1, seria este ano eliminada já nessa fase nova, os 16 avos? Não chegou às oitavas de final. No entanto, esse resultado não era assim tão improvável. Depois de ganhar a Copa no Brasil, os alemães em 2018 e 2022 não haviam passado sequer da fase de grupos. Fomos desclassificados de maneira vexaminosa, em 2014, por um super-herói de pés de barro.

Este ano, nos 16 avos entre a Bélgica e o Senegal, foi o país africano que jogou melhor durante quase toda a partida. Terá relaxado na reta final, acreditando na vitória? O fato é que nos últimos minutos a Bélgica fez dois gols e empatou. Um pênalti nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação eliminou o Senegal do torneio.  

Em um dos meus grupos de WhatsApp, houve protestos de que a concessão do pênalti à Bélgica fora indevida. Analistas especializados parecem discordar, assim como meu genro, que é belga.

Tenho me pegado cantarolando, em Luanda, o bordão: “Todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta”. Os comentaristas do canal brasileiro pela qual venho assistindo aos jogos disseram, depois da vitória sobre o Japão: “Não é a Seleção de antigamente, mas é a seleção do único país cinco estrelas, minha gente, e isso impõe respeito”.

Recomendo um documentário em um serviço de streaming intitulado “USA 94: Brazil´s Return to Glory”. É fascinante observar como, na preparação para a Copa masculina de 1994, nos Estados Unidos, que viríamos a ganhar — nossa quarta estrela — Carlos Alberto Parreira era criticado. Errara ao convocar alguns jogadores, errara ao não convocar outros. É um hábito brasileiro: até fazermos o primeiro gol, tudo está péssimo, falta entrosamento no time, determinados jogadores não dizem a que vieram, o técnico não está à altura — pobre do técnico, quem quer que ele seja; compete com outros 220 milhões de especialistas. Mas aí ganhamos o jogo, e isso só pode ser, afirmam os mesmos críticos de alguns minutos atrás, porque estamos rumo ao troféu.

No exterior, a admiração pela nossa Seleção é em geral consistente. Em países que não se classificam para o torneio, é comum a população torcer pelo Brasil. De quatro em quatro anos, desde 2006, nós os frustramos, mas a sua lealdade é indefectível.

Em 2022, na Malásia, fui convidado pelo prefeito de Kuala Lumpur a assistir à partida das quartas de final contra a Croácia em um telão na Praça da Independência. Acompanharam-me vários amigos malásios que apostavam no Brasil. A Malásia nunca participou de uma Copa do Mundo; seu povo gosta da Seleção e, na sua maioria, torce por ela. Ou assim me diziam meus interlocutores. Mas quem sabe, talvez o embaixador da Argentina ouvisse as mesmas palavras gentis dos seus próprios amigos.

Em todo caso, a população presente à praça, naquele jogo de quartas de final, claramente queria ver o Brasil triunfar. Chovia muito. À medida que o jogo se desenrolava, a chuva ia passando e a multidão na praça aumentava. Sentia-me desapontado com a atuação da Seleção. Ao mesmo tempo, percebi estar reagindo de forma tipicamente brasileira: se o gol não viera ainda, só podia ser porque o time não estava bem. Notei algo, porém: o ânimo na praça mudara. O público já não torcia pelo Brasil, começara a acreditar na Croácia.

Impressões nem sempre são subjetivas. Naquela noite, era impossível eu não constatar que os lances sendo aplaudidos eram agora os da Croácia. O prefeito já não conversava comigo animadamente, como no começo do jogo. No intervalo, meus amigos, já desapontados, me ofereceram palavras de estímulo.

Ao final da partida, depois dos pênaltis, cumprimentei o embaixador da Croácia fazendo uso de termos diplomáticos e elogiosos. Esperava ouvir de volta algo como “vocês também jogaram bem”. Em vez disso, meu colega croata respondeu, esfuziante: “Não falei, quando cheguei? Não falei? Eu disse que se fôssemos para os pênaltis a gente ganharia! Eu sabia! Nosso goleiro é o melhor do mundo”. Não levei a mal. Se nós, brasileiros, nos ufanamos de nossa Seleção, é natural que outras nacionalidades façam o mesmo com as suas.

Também naquele ano de 2022, pouco antes de a Copa ter início, eu lera o livro de memórias do historiador malásio Khoo Kay Kim. Frases inesperadas, naquele contexto, apareceram diante de mim: “Foi também em 1958 que tive a revelação da Seleção brasileira, ao assistir à Copa do Mundo, que ela ganharia. Nunca eu vira futebol ser jogado daquela maneira. A Copa, assim, expandiu meu universo. Até então, o Brasil era para mim um país de que eu apenas ouvira falar em aulas de geografia”.

Durante a infância e a adolescência, onde quer que estivesse no nosso planeta, ao voluntariar minha nacionalidade eu recebia, sistematicamente, uma única reação: “Brasil! Terra do Pelé!”. Edson Arantes do Nascimento, adorado no exterior, simbolizou sozinho, durante décadas, aos olhos do mundo, um país inteiro.

No fim das contas, esse é o papel único que a Seleção e suas estrelas exercem, com suas vitórias e suas derrotas, suas glórias e suas tristezas: um elemento de poder brando, uma alegoria de Brasil. Talvez ganhemos o hexa este ano ou no futuro, talvez nunca. A Canarinho continuará, porém, a exercer o seu fascínio, galvanizando-nos, os brasileiros, e gerando, em outros países, amizade por nós.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 6 de julho

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