Afonso Borges e o idealismo

Afonso Borges e o idealismo

O Brasil é um país feliz. Desde o grande sucesso da última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, outros eventos voltados às letras e às ideias já se realizaram, e agora estamos nos aproximando do Festival Literário Internacional de Paracatu, o Fliparacatu.

Perguntei ao escritor Afonso Borges, idealizador do festival, que acontecerá entre 26 e 30 de agosto, quantas pessoas são esperadas: “umas 30 mil”, ele respondeu; “ano passado foram 25 mil”. A programação inclui tantos participantes, que não posso citar todos, cometendo assim uma injustiça, mas a lista completa talvez ocupasse o espaço inteiro de que disponho nesta coluna.

Lá estará Beatriz Bracher, ganhadora no ano passado do Prêmio Machado de Assis de melhor romance da Fundação Biblioteca Nacional pelo primeiro volume de seu livro sobre a Guerra da Tríplice Aliança, ou do Paraguai, Guerra – I. Recebi o livro como presente de aniversário, em janeiro, de uma prima particularmente querida, a cineasta Lucia Murat, e por isso ele possui valor duplo para mim.

Lá estará Bruna Lombardi, com a nova edição de seu Diário do Grande Sertão. Este ano, comemoram-se setenta anos da publicação do romance de Guimarães Rosa e quarenta anos da série de televisão na qual a atriz e escritora interpretou, celebremente, Diadorim. Justamente, o Fliparacatu deste ano é pensado como uma homenagem ao autor de Grande Sertão: Veredas e ao geógrafo Milton Santos.

Lá estarão duas finalistas do Troféu Juca Pato, Prêmio Intelectual do Ano, — o resultado será conhecido em setembro —, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, cuja participação na FLIP foi uma das mais celebradas e concorridas, e a escritora Eliana Alves Cruz, ganhadora do Prêmio Jabuti e do Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras.

Lá estará a poeta Fabiana Carneiro da Silva, a quem conheci há poucas semanas — graças, aliás, a Afonso Borges — aqui em Luanda, onde ela viera realizar pesquisa para seu pós-doutorado. Não percam a sua participação em Paracatu, pois é contagiante o entusiasmo que ela transmite ao falar da sua área de estudo, a presença dos provérbios de matriz africana na literatura brasileira. Ao escutá-la a respeito, captamos uma luz nova, fascinante.     

Lá estará Natalia Timerman, cujo notável romance Copo vazio mencionei em coluna anterior, “O delírio do Chimborazo”. A literatura, para mim, funciona assim: você está escrevendo sobre a experiência vivida no Equador por João Cabral de Melo Neto e encontra um desvio para poder citar um livro favorito de outro autor, no caso autora. Afonso Borges não é alheio a tais bifurcações. Em seu livro Tardes brancas, em um conto sobre Murilo Rubião, de quem foi amigo, cita duas vezes Maurice Druon.

Lá estará Paulliny Tort, cujo romance Os imortais minha mulher e eu acabamos de ganhar de presente de um amigo mineiro. Não houve ainda tempo de lê-lo, mas notei que o exemplar enviado por Hudson Caldeira Brant é o seu próprio, pois está todo anotado e desenhado por ele. Os desenhos ilustram passagens ou personagens do livro e as anotações são citações em grego e latim ou versículos da Bíblia, inspirados em nosso colega latinista pela leitura do romance. Hudson Caldeira Brant me fez ver que as letras no cabeçalho de cada capítulo, quando as juntamos, formam um trecho do primeiro canto da Eneida. Quando lermos Os imortais, portanto, já teremos nossa própria edição comentada.

O meio literário brasileiro deve muito a Afonso Borges, incansável patrono de livros e escritores. É fundador, além do Fliparacatu, também do Fliaraxá, do Flitabira e do Flipetrópolis. Seu papel, porém, é ainda mais abrangente.

No prefácio de Tardes brancas, Humberto Werneck resume de forma esclarecedora a atividade de Afonso Borges. Ele criou, em 1986, o “Sempre um Papo”, projeto destinado, explica Werneck, a colocar “sob as luzes quem esteja lançando livro relevante e, com direito à participação do público, entabular uma conversa à qual se seguirá sessão de autógrafos”. Diariamente, na rádio Alvorada FM, apresenta a coluna “Mondolivro”. Trata-se, assim, de um esforço duradouro, incansável, de muito fôlego pela divulgação da literatura brasileira.

O meio literário pode ser competitivo, como qualquer outro ambiente profissional. No entanto, é na literatura que residem algumas das pessoas mais generosas com quem já interagi.

Além de Afonso Borges, idealista promotor de uma bela visão da palavra escrita, ocorre-me destacar, como exemplos de altruísmo na sua dedicação às letras, o poeta e editor Rogério Duarte, a escritora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, o jornalista literário Rodrigo Casarin, o escritor Beto Seabra e o escritor e jornalista Carlos Marcelo, diretor de redação do Estado de Minas e editor de seu caderno literário, “Pensar”.

Geografia e tempo estarão entre os conceitos mais relevantes no Fliparacatu, cujo material de divulgação acentua a busca, por cada ser humano, de seu lugar no mundo, lugar esse que pode ser “uma cidade, uma rua, uma casa, uma lembrança ou até uma pessoa”. Uma mesa tratará das “fronteiras entre memória, experiência e invenção”; outra abordará “memória, território, afetos e identidade”; uma terceira discutirá “a escrita como espaço de memória, imaginação e esperança”.

A mesma linha parece seguir o escritor e crítico Miguel Sanches Neto. Em uma resenha assustadoramente aguda do meu próprio Geografia do tempo, ele observa que as coisas no livro “se sobrepõem, em um palimpsesto em que a experiência direta e a indireta, as referências do outro e as próprias, o que foi e o que está sendo, a realidade vivida e a ficção sonhada a partir da arte, tudo se torna uma única pátria acolhedora”.  

Sérgio Abranches e Calila das Mercês, com Daniela Prado assinando a programação local, e Rafael Nolli se encarregando da curadoria infanto-juvenil, se juntarão, na curadoria do Fliparacatu, ao paladino das letras que é Afonso Borges.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 17 de agosto

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Lendo Proust no Brasil

Lendo Proust no Brasil

A memória de Marcel Proust foi intensamente celebrada nos anos em torno a 2022, centenário de sua morte. Em 2021, comemorara-se o sesquicentenário de seu nascimento. A bibliografia sobre sua vida e sua obra, já extensa, atingiu naquele período um patamar incontrolável.

Há muita satisfação em ver um autor predileto estudado, comentado exaustivamente. Mesmo os proustianos mais perseverantes, porém, nos vemos hoje diante da impossibilidade de ler tudo o que repousa nesse altar. E para quem está se decidindo a mergulhar em “À procura do tempo perdido”, existe o risco de ceder à tentação de ler sobre o romance, em vez de ler o romance.  

No oceano bibliográfico, dois livros publicados em 2022, ambos pela editora Gallimard, merecem menção especial, pela qualidade e o elo com o Brasil.

Comecemos pelo volume coletivo Proust-Monde: Quand les écrivains étrangers lisent Proust. Um de seus organizadores é o suíço-brasileiro Étienne Sauthier, especialista da difusão e da recepção de Proust no Brasil. Trata-se de uma coleção de textos em que escritores e tradutores de diversas nacionalidades relatam suas percepções diante da obra do autor francês. Segundo a prefaciadora, Blanche Cerquiglini, responsável pela coleção Folio classique, selo pelo qual o livro foi lançado, a antologia desvenda que “outros que nós, apartados pelo tempo e a distância, nos entendem tão bem quanto nós mesmos”.

Comentários de alguns autores brasileiros são incluídos, inclusive um artigo de 1983 de Antonio Candido, traduzido para o francês pelo professor Fillipe Mauro, que nos explica as idas e vindas do crítico em relação a Proust.

Entre os tradutores, há textos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, três dos responsáveis pela primeira tradução brasileira, editada de 1948 a 1957. Há uma entrevista com Rosa Freire d´Aguiar, que trabalha, juntamente com Mario Sergio Conti, em uma nova tradução, a terceira, da qual os dois primeiros tomos já foram publicados pela Companhia das Letras.

Em tributo aos novos tradutores, emprego, como eles, o título À procura do tempo perdido, em vez da versão anterior, Em busca do tempo perdido

Em seus artigos, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, respectivamente em 1925 e 1930, admitem que sua primeira leitura de Proust não os entusiasmou. Étienne Sauthier menciona a ironia de que, duas décadas depois, ambos viessem a se tornar tradutores da obra.  

A entrevista da consagrada autora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, realizada especificamente para os organizadores de Proust-Monde, revela não somente o que significa para ela lidar com Proust, mas como encara o ofício de traduzir.

No Instituto Rio Branco, somos ensinados a evitar adjetivos, para não perder a objetividade analítica. Mas a palavra que me ocorre, em relação ao texto de Rosa Freire d´Aguiar, é “brilhante”. Pinço algumas frases: “As obras não envelhecem, as traduções sim. Traduzimos com palavras de nossa época. E a língua evolui, termos se tornam obsoletos. Uma nova tradução é uma nova leitura”. Por isso, “retraduzir os clássicos é conceder-lhes permanência”. Comenta, deliciosamente, que, em um trecho, optou pela palavra “ensopado”, em vez de “gororoba”, porque esta última, de sabor muito brasileiro, deslocaria culturalmente a atmosfera da página proustiana.

Rosa Freire d´Aguiar sugere que o personagem mais difícil para o tradutor é Françoise — a cozinheira da família do Narrador. Corre-se o risco de transformar suas falas em um pastiche, de fazer dela uma caricatura.   

A última pessoa a trabalhar na casa de Proust, Céleste Albaret, foi a destinatária das palavras finais, três frases curtas, que ele escreveu, acamado, enfraquecido, horas antes de morrer. Cinquenta anos depois, Céleste Albaret publicaria as suas memórias e incluiria no volume uma foto do derradeiro bilhete. Descubro, para minha surpresa, que esse pequeno papel, hoje, mora no Brasil. Integra a coleção de Pedro Corrêa do Lago, como ele menciona em seu livro Marcel Proust: Une vie de lettres et d´images.

Perdi aqui o medo de adjetivar, então vá lá: “espetacular” é a melhor maneira de definir essa obra, premiada na França e prefaciada por Jean-Yves Tadié, atualmente o principal biógrafo de Proust. O livro de Pedro Corrêa do Lago é generosamente ilustrado. O dado crucial é que todos os cerca de 450 manuscritos, fotografias, desenhos e cartas mostrados pertencem a ele. Na introdução, modestamente, ele declara que seu objetivo não era escrever uma biografia de Proust; no entanto, é esse o resultado do seu trabalho. Organiza o texto em capítulos curtos, acompanhando a obra do escritor, e sua vida e a de seu círculo, de maneira cronológica, orientado pelos documentos que integram a sua coleção.

Igualmente inesperado é um fragmento de papel, onde Proust parece explorar uma alternativa à célebre abertura de seu romance, “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”, que Mário Quintana traduziu como: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”. No fragmento em questão, quando as provas com a frase “hoje icônica”, como bem diz Pedro Corrêa do Lago, já estavam com o editor, Proust examina esta alternativa: “Ao longo de muitos anos, à noite, quando eu acabava de me deitar […]”.  

Ao utilizar apenas o seu próprio material, Corrêa do Lago comunica uma experiência pessoal sobre o autor, pois afinal, como declara, “o contato físico com o papel que ele mesmo tocou é talvez o mais próximo que possamos estar de um ser admirado e que morreu antes do nosso nascimento”.  

Apenas um outro trabalho recente fala no escritor francês de maneira tão particular. Laure Murat, em Proust, roman familial, publicado em 2023 pela editora Robert Laffont, parte do fato de que antepassados seus o conheceram para nos entregar uma visão intimista de como “À procura do tempo perdido” modificou sua vida. Essa obra, porém, nada tem a ver com o Brasil; o espaço para me estender sobre ela é meu próximo livro, que espero poder terminar em breve.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 3 de agosto

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