O presente malásio

O presente malásio
Visitando Anwar Ibrahim

Transcrevo minha coluna quinzenal no jornal Estado de Minas publicada ontem, 12 de abril:

Recebo em Luanda, em 31 de março, dois livros que me envia de presente o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim.

A primeira vez que o visitei, em novembro de 2020, Anwar Ibrahim era líder da Oposição no Parlamento malásio. Recebeu-me em seu escritório pessoal em um bairro residencial de Kuala Lumpur. Mostrou-me uma estante onde eram expostas recordações dos anos em que esteve preso, condenado por motivos políticos. Entre os objetos, figuravam vários livros que as autoridades malásias de então haviam permitido a ele ler enquanto esteve preso. Fotografei alguns desses volumes. Havia, entre outros, uma edição de “Os ensaios” de Montaigne; a biografia de Barack Obama por David Remnick; “A vida dos grandes compositores”, por Harold C. Schonberg, livro de que gosto particularmente. Na foto que tirei, aparece apenas um romance, “O sol é para todos”, de Harper Lee. Em nossa conversa, o futuro primeiro-ministro citou Ortega y Gasset.

Poucos dias antes de abrir, em Angola, o pacote contendo os presentes de Anwar Ibrahim, eu recebera um telefonema do ministro das Relações Exteriores da Malásia, Mohamad Hasan. Conversamos como bons e velhos amigos que somos.

E hoje, enquanto escrevo esta coluna, leio artigo que me envia o seu autor, outro amigo malásio, Yin Shao Loong, brilhante pensador e analista das relações internacionais, sobre as consequências para a Malásia das tarifas de importação anunciadas pelos Estados Unidos em 2 de abril e revistas uma semana depois.

O Sudeste Asiático, de onde parti há dois meses, voltou assim com muita força, nesses últimos dias, à minha imaginação. De resto, parte do meu tempo livre nas últimas semanas tem sido passado comunicando a amigos daquelas latitudes que cheguei ao meu destino atual, que estou bem e que sinto saudade deles.

Um dos livros que me envia o primeiro-ministro Anwar Ibrahim contém análise da Bienal de Veneza de 2024, organizada por Adriano Pedrosa sob o tema “Estrangeiros por toda parte”. Lamentei perder essa Bienal, a primeira sob curadoria não só de um brasileiro, mas de um latino-americano, e de um residente no hemisfério sul. Uma frase de Pedrosa me chama a atenção: “onde quer que você esteja, você sempre é, verdadeira e profundamente, um estrangeiro”.

Para um diplomata, sentir-se estrangeiro, enquanto representa o seu país em outro, é muitas vezes uma característica do cotidiano. Um trecho da frase de Adriano Pedrosa, porém — “onde quer que você esteja” — parece possuir valor filosófico. De fato, a nossa realidade individual nunca consegue ser perfeitamente compartilhada com outros. Para cada um de nós, brasileiros, o Brasil possui um sentido pessoal, único. Uma das belezas do Brasil é, justamente, que em um país tão vasto, tão rico e diverso culturalmente, com uma população tão numerosa e sofrendo de marcadas diferenças sociais e econômicas, desde a independência tenha predominado entre nós um sentido autêntico de nacionalidade. Esse é o verdadeiro milagre brasileiro.

Neste exato momento, relendo “Sagarana”, penso que apenas o mineiro — e diplomata — João Guimarães Rosa poderia ter descrito tão bem a realidade de Minas Gerais. No entanto, as novelas dele se passam em uma Minas Gerais diferente daquela que eu, por exemplo, tenho entranhada em mim, que é a da Zona da Mata. “Eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias”, diz Guimarães Rosa. Por isso, afirma, optou “pelo pedaço de Minas que era mais meu”.

Quando vivemos em um país estrangeiro, nossa apreensão da realidade local é delimitada pelo bairro onde moramos, pelos lugares que frequentamos, pelos amigos com os quais convivemos, pelos jornais que lemos. Por mais que tentemos, nunca obteremos uma visão completa daquela sociedade. Ao analisar “Sagarana”, o mais brasileiro dos húngaros, Paulo Rónai, que chegou ao Brasil já adulto, comenta: “O leitor vindo de fora, por mais integrado que se sinta no ambiente brasileiro, não pode estar suficientemente familiarizado com o rico cabedal linguístico e etnográfico do país para analisar o aspecto regionalista dessa obra”.

Não quero sugerir que não é possível adquirir uma noção correta da cultura onde estamos baseados. Procurar alcançar essa percepção deveria ser mesmo uma obrigação para todo diplomata. Nos países onde servi, tive sempre muita sorte nas amizades que fiz; elas abriram o acesso para uma melhor compreensão daquelas outras realidades.

Mas também o acaso permite novas percepções. Ano passado, caminhando por um bairro de Kuala Lumpur onde eu nunca antes estivera, de repente vi um mural representando uma cena rural no interior da Malásia. Casas de madeira sobre pilotis, com telhado de palha, alternavam com palmeiras e vegetação tropical. Em primeiro plano, um carro de boi idêntico ao que tantas vezes me transportou na infância, na Zona da Mata, ambos simples e menos aparatosos do que o de uma das novelas de “Sagarana”, puxado por nada menos do que oito bois. Associando-se às melhores lembranças da infância e da adolescência em Minas, aquele mural surgido repentinamente tornou a Malásia ainda mais compreensível para mim.

Voltando, pela imaginação, a Minas Gerais, percebi que conhecer e entender a Malásia era, também, uma forma de amar o Brasil.


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Eterna cobiça, 29 de março

Grandes diplomatas, 15 de março

Consternação europeia, 1º de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

Tempos de incerteza, 1º de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Eterna cobiça

Eterna cobiça

Transcrevo minha coluna quinzenal para o jornal Estado de Minas publicada em 29 de março:

Ucrânia e Gaza não são os únicos cenários de conflitos armados no mundo neste momento. Longe disso. Agora em março, assisti em Luanda a uma apresentação do novo presidente da Comissão da União Africana, o chanceler de Djibuti, Mahmoud Ali Youssouf. Ele mencionou, em um francês extremamente elegante, múltiplos conflitos em andamento na África. Anotei nada menos do que sete.

Antes de mais nada, algumas precisões. O presidente de Angola, João Lourenço, assumiu, em fevereiro, por um ano, a presidência rotativa da União Africana, cujo secretariado é a Comissão, sediada em Adis Abeba. Mahmoud Ali Youssouf tornou-se presidente da Comissão também em fevereiro.

A apresentação do chanceler de Djibuti e novo presidente da Comissão da União Africana apontou vários problemas enfrentados pelo continente, entre eles as ingerências extra-regionais, que atribuiu à cobiça despertada pelas riquezas minerais da África. Poucos dias antes, em Adis Abeba, João Lourenço dissera ser necessário “encontrar soluções africanas para os problemas africanos”.

Do ponto de vista de Angola, o conflito mais preocupante é sem dúvida o da região leste da República Democrática do Congo (RDC), país com o qual compartilha 2.600 km de fronteira. No início de março, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, lembrou serem já 500 mil as pessoas deslocadas na RDC somente este ano, que se somam às quase 8 milhões deslocadas anteriormente. Declarou que milhares de pessoas morreram desde janeiro, durante ataques conduzidos na RDC pelo grupo armado M23, “com apoio das Forças Armadas de Ruanda”.

Em janeiro, o general brasileiro Ulisses de Mesquita Gomes assumiu o comando militar da Missão da Organização das Nações Unidas para a Estabilização na República Democrática do Congo (MONUSCO), criada em 2010 para suceder à missão anterior da ONU, que fora estabelecida em 1999. Essas datas já indicam quão antiga é a instabilidade na RDC. Há o temor de que a integridade territorial do país esteja em risco.

A RDC é o segundo maior país da África e um dos principais produtores de cobalto do mundo. Produz também diamantes e coltan, de que há importantes reservas na região de Kivu, a leste do país, na fronteira com Ruanda, e do qual se extrai o tântalo usado em celulares. Em dezembro de 2024, o governo congolês deu início a uma ação criminal contra subsidiárias da Apple na Bélgica e na França, acusando a empresa de utilizar minerais extraídos ilegalmente de seu território.

Em fevereiro, o Conselho de Direitos Humanos da ONU emitiu resolução condenando a violência na RDC — inclusive o bombardeio de hospitais e escolas —, a “exploração ilegal de recursos naturais” e o “apoio logístico e militar prestado pelas Forças de Defesa de Ruanda ao M23”.  Poucos dias depois, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou por unanimidade uma resolução que insta as Forças de Defesa de Ruanda a deixar de prestar apoio ao M23 e a se retirar da RDC. Por sua vez, o representante de Ruanda junto à ONU declarou que a RDC “parece acreditar que a solução para seu conflito interno virá de atores extra-africanos, vários dos quais são a causa histórica deste conflito”.

Em 2024, percebi, em conversas com diferentes interlocutores, que Ruanda estava na moda. Ouvi, no Brasil e na Malásia, a avaliação de que o pequeno país — um pouco maior do que Sergipe — era “a Suíça da África”.

De fato, Ruanda ainda era, no ano passado, um dos países africanos mais bem vistos no Ocidente. Jogadores de três times europeus de futebol, Arsenal, Bayern de Munique e Paris Saint-Germain, usam nas camisas os dizeres “Visit Rwanda”. Londres negociou com Kigali um arranjo, que não chegou a ser implementado por causa da queda do governo conservador, para envio a Ruanda de solicitantes de asilo deportados. Em novembro de 2023, o Brasil criou a Embaixada em Kigali, que não foi ainda aberta.

Desde então, a imagem internacional de Ruanda se deteriorou. Em janeiro, a RDC rompeu relações diplomáticas com o país. Em fevereiro, os Estados Unidos impuseram sanções ao ministro da Integração Regional ruandês, acusando-o de coordenar a exportação, a partir de Ruanda, de minerais extraídos da RDC e de ser “elo de ligação com o M23”. Também em fevereiro, o Reino Unido anunciou, entre outras restrições, a interrupção da ajuda financeira direta ao governo de Ruanda e avaliou que, embora seja “possível” admitir que Ruanda tenha preocupações securitárias, não seria aceitável que essas fossem resolvidas militarmente. Em março, a União Europeia adotou sanções a membros das Forças de Defesa de Ruanda. Em reação às sanções europeias, Ruanda cortou as relações diplomáticas com a Bélgica.

Desde 2022, João Lourenço vinha servindo como mediador entre a RDC e Ruanda. No entanto, em 18 de março, os presidentes dos dois países reuniram-se em Doha, inesperadamente, a convite do emir do Catar, novo ator, extra-africano, que passa a se envolver no assunto. Nesse mesmo dia, estava marcada reunião em Luanda entre a RDC e o M23, mas este, para surpresa de Angola, não compareceu. Dois dias depois, o chanceler angolano, Téte António, declarou à imprensa: “Nós ficamos, de fato, estupefatos pelo encontro em Doha”.

Diante da aceitação, pela RDC e por Ruanda, de um mediador extra-regional, em 24 de março o governo angolano anunciou “a necessidade de se libertar da responsabilidade” de mediar o conflito no leste da RDC. Caberá agora escolher outro país africano para exercer essa tarefa, mas não está claro ainda como uma mediação africana se coadunará com a do Catar, caso esta prossiga.  

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Grandes diplomatas

Grandes diplomatas

Transcrevo minha coluna quinzenal para o jornal Estado de Minas publicada ontem, 15 de março:

Em Escolhas difíceis, livro de 2014 sobre sua gestão como secretária de Estado, Hillary Clinton ridiculariza sutilmente Serguei Lavrov, chanceler da Rússia desde 2004: “ele estava sempre bronzeado e bem-vestido”. Um dos propósitos da obra era contribuir para que a ex-secretária de Estado ganhasse, em 2016, a nomeação do partido democrata para as eleições presidenciais, que viria a disputar e perderia para Donald Trump. O livro de memórias procura provar sua firmeza com a Rússia, considerada ainda então pelos Estados Unidos como seu principal rival.

Contou-me um diplomata russo que, nas reuniões entre Hillary Clinton e Serguei Lavrov, era penoso constatar como a secretária de Estado lidava de forma superficial com os assuntos, os quais parecia não dominar. O livro de Clinton e o comentário do colega russo demonstram que a disputa entre grandes potências se dá também no plano da rivalidade pessoal entre chanceleres, competindo entre si sobre quem transmite a imagem de mais habilidoso.

Não há mulheres entre os biografados no livro editado em 2024 por Hubert Védrine — chanceler da França no gabinete do primeiro-ministro Lionel Jospin, durante a presidência de Jacques Chirac —, intitulado Grandes diplomatas: os mestres das relações internacionais, de Mazarino aos nossos dias.  

Poucos dos perfis ali destacados foram diplomatas de carreira. Muitos ocuparam o cargo de ministro das Relações Exteriores. Dos vinte homens celebrados no livro por vinte historiadores ou jornalistas franceses — dos quais apenas quatro mulheres — doze trabalharam a serviço de França, Alemanha, Áustria ou Inglaterra, e dois a serviço dos Estados Unidos. Dos seis restantes, Kofi Annan e Boutros Boutros-Ghali foram secretários-gerais da Organização das Nações Unidas; três foram chanceleres da Rússia; e um, da China.   

Para um diplomata brasileiro, salta aos olhos a falta de uma representatividade geográfica mais ampla. Não há razão, por exemplo, para a ausência do barão do Rio Branco. Sua gestão como chanceler, entre 1902 e 1912, foi mais bem-sucedida e de resultados mais duradouros do que a da maioria dos biografados.

Escritório do barão do Rio Branco, onde viria a falecer em 1912, no Palácio Itamaraty , Rio de Janeiro

A celebridade parece ter sido um critério para a seleção. No prefácio, Védrine orgulha-se de que podem ser encontrados no livro “quatro nomes de notoriedade mundial: Talleyrand, Metternich, Bismarck e Kissinger”. O culto à notoriedade pode ter influenciado também o espírito às vezes pouco crítico das análises. Lemos no artigo sobre Henry Kissinger que “em 1973, ele tinha virado uma celebridade mundial, uma figura da cultura pop americana”. São apenas afloradas as acusações de crimes de guerra, atribuídas à “ala esquerda do partido democrata”.

Há traços comuns às diferentes trajetórias. Mazarino, Kissinger e Brzezinski, estrangeiros tendo de se adaptar à nova pátria, enfrentam dificuldades de inserção na elite local. Sobre Mazarino, italiano que foi primeiro-ministro da França na infância e juventude de Luís XIV, a historiadora Simone Bertière escreve: “sua inteligência é de um poder tão inquietante que ele é obrigado a escondê-la”, sem que possa “dividir com ninguém suas visões anticonformistas”. Molotov e Zhou Enlai são, em razão da visibilidade de seus cargos, as figuras politicas mais famosas de seus países no exterior, depois de Stalin e Mao Tsé-Tung. Isso basta para despertar a ira e o sadismo de seus chefes. A maioria dos biografados precisa acomodar-se ao temperamento de seus reis ou presidentes e aceitar humilhações. Vários são considerados cortesãos pelos contemporâneos.   

O artigo mais estimulante é o último, que retrata Lavrov, único dos vinte “grandes diplomatas” ainda vivo e ainda em função. A inclusão de seu nome em obra publicada após o início da guerra na Ucrânia e das sanções ocidentais contra a Rússia é, em si, reveladora de sua importância. A autora do artigo, Sylvie Bermann, foi a primeira mulher embaixadora da França, sucessivamente, na China, no Reino Unido e na Rússia.  

Segundo Bermann, Serguei Lavrov se insere “na linhagem de ministros extremamente competentes e temíveis na defesa dos interesses de seu país”, como Andrei Gromiko —um dos grandes ausentes do livro, admite Hubert Védrine no prefácio — e Evgueni Primakov. Lavrov compartilharia a visão desses predecessores de que a Rússia é “uma fortaleza assediada”, à qual interessaria, por isso, um multilateralismo fortalecido.

Como Kissinger em seu tempo, Lavrov pertence à cultura pop: “é uma das figuras mais populares e respeitadas na Rússia; há camisetas com seu rosto”. Sylvie Bermann especula não haver “nem amizade nem proximidade entre ele e Putin”. Sustenta que Lavrov “executa a política decidida no Kremlim, mais do que a elabora”, tendo sido a Chancelaria “marginalizada” nos dois temas de política externa mais importantes para a Rússia nos últimos anos — Síria e Ucrânia.

Putin e Lavrov “compartilham a nostalgia de uma Rússia poderosa e o ressentimento contra o Ocidente e as ações da OTAN, com seus avanços em direção às fronteiras russas”. Pergunta-se a embaixadora que imagem o chanceler deixará na História. Avalia que isso dependerá do resultado da guerra na Ucrânia: “Quando voltar o tempo da diplomacia, é possível que ele conheça uma forma de reabilitação”.

Em suas conclusões, Hubert Védrine critica discretamente a diplomacia europeia da atualidade, para a qual seria tabu, desde 2022, preparar o futuro das relações com Moscou, no pós-guerra da Ucrânia. De forma presciente — o livro foi preparado em 2023 — declara que esse tema é menos inabordável para os Estados Unidos, “para os quais a prioridade é fazer face ao desafio chinês”.

O embaixador Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro de 2024, o livro “Geografia do tempo”.

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Consternação europeia

Consternação europeia

Transcrevo abaixo minha quarta coluna quinzenal para o jornal “Estado de Minas”, publicada ontem, 1o. de março:

“Neste mês de fevereiro, passei dez dias em Bruxelas. Apesar do frio, no plano pessoal esse não poderia ter sido um período melhor. Mas enquanto eu passeava com minha filha e meu genro, frequentava museus e livrarias e retornava a restaurantes prediletos, ao meu redor instalava-se a incerteza. Por obra e graça de Donald Trump, o mundo se transformava a galope e esfacelava-se a celebrada aliança transatlântica.

Meus dias em Bruxelas coincidiram com o anúncio do novo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, de que não seria “realista” restabelecer as fronteiras da Ucrânia ao que eram antes de 2014. Falando em Bruxelas, Hegseth aproveitou para acrescentar que seu governo não considera conducente à paz a entrada da Ucrânia na OTAN. A frase que mais terá chocado os europeus, porém, é esta: “duras realidades estratégicas impedem aos Estados Unidos focalizar, como prioridade, a segurança da Europa”.

No mesmo dia, Donald Trump e Vladimir Putin conversaram ao telefone por uma hora e meia. Rompeu-se assim o isolamento russo, imposto há três anos pelos próprios Estados Unidos. Dois dias depois, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente americano, JD Vance, criticou, em seu discurso, um suposto déficit de liberdade de expressão na União Europeia, avaliando ser este o principal inimigo da Europa, não a Rússia ou a China. Estava eu ainda em Bruxelas quando o experimentado chanceler russo, Serguei Lavrov — ­frequentemente considerado, em círculos diplomáticos globais, o mais competente do mundo — manteve na Arábia Saudita reunião com o novo secretário de Estado, Marco Rubio. Causou forte comoção, na Europa, o fato de americanos e russos se sentarem para discutir ­o fim da guerra na Ucrânia sem a presença daquele país ou da União Europeia.

Meus dez dias na capital da Europa foram, assim, dez dias que abalaram o mundo. Ou ao menos, abalaram os países da União Europeia, além, naturalmente, da Ucrânia. Algumas manchetes dos mais ilustres jornais europeus, naquele período, dão conta do nível de consternação: “Estupefação e angústia em Kiev e na Europa”; “Ucrânia: a Europa marginalizada por Trump e Putin”; “Washington e Moscou reatam, às custas de Kiev”.

Durante 80 anos, desde o final da Segunda Guerra, acostumaram-se os países europeus, não podendo mais dominar o mundo, como haviam feito por séculos, a uma confortável subordinação aos interesses americanos. Gerações de europeus doutrinadas a ver na Rússia, e na China, o inimigo natural defrontam-se agora, com “estupefação e angústia”, com algo muito parecido com um inimigo novo. A guinada de lealdades da administração Trump — anunciada em ritmo acelerado em declarações que colocam em jogo toda a retórica americana precedente sobre a inviolabilidade da soberania ucraniana, a solidez da OTAN e segurança da Europa de maneira geral  — deixou os governos europeus sem fio condutor.

Logo após a invasão da Ucrânia, há três anos, o embaixador em Kuala Lumpur de um dos países mais influentes da União Europeia cometeu um ato falho em uma coletiva de imprensa. Àquela altura, os embaixadores europeus exerciam forte pressão, de forma pública, sobre o governo malásio para que este condenasse a Rússia. “Os malásios têm de entender”, declarou o embaixador europeu, “que essa não é uma guerra que afete apenas homens brancos. Afeta o mundo todo”. Racismo à parte, a declaração produziu a impressão de que, nessa guerra, estavam em jogo, justamente, apenas os interesses de países do hemisfério Norte.

Perguntei uma vez a Samuel Pinheiro Guimarães como era possível que o presidente Lula, em seu primeiro e segundo mandatos, se entendesse melhor, na avaliação de observadores políticos, com George W. Bush do que com Barack Obama. Sua resposta foi: “É mais fácil, para um país como o Brasil, lidar, no campo da política externa, com os republicanos. Os democratas vêm sempre rodeados de uma aura demagógica. Republicanos e democratas executam a mesma política externa, mas os republicanos têm o mérito da transparência”.

É isso o que estamos presenciando: Donald Trump coloca as cartas na mesa e a realidade dos novos interesses norte-americanos aparece agora sem qualquer verniz. O conflito na Ucrânia beneficiou sobretudo os Estados Unidos, ao prender Rússia e União Europeia em um conflito onde aparentemente não poderia haver vencedor. Agora, os ventos mudam e a posição dos EUA parece ser antes a de permitir à Rússia flexibilidade muito mais ampla em termos de área de influência. Será interessante observar se a administração Trump manterá, em relação aos interesses geoestratégicos da China, a mesma compreensão que parece manifestar em relação aos interesses russos sobre o entorno europeu de Moscou.

A verdade é que não terá sido por falta de aviso. Já em seu primeiro mandato, em 2018, Donald Trump declarara ser a União Europeia “inimiga dos Estados Unidos”, por questões comerciais e por não contribuir o suficiente para sua própria defesa. Os países europeus podem ter sentido alívio com a vitória de Joe Biden, nas eleições de 2020. Deixaram porém de prever que Trump, ou outro ator com os mesmos instintos, poderia voltar ao poder. Sua consternação, assim, não deixa de ser consternante.  

Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no “Estado de Minas”. Publicou, em novembro de 2024, o livro de ensaios “Geografia do tempo”.

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do autor.

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