Botas diplomáticas

Botas diplomáticas

Coluna publicada no jornal Estado de Minas no domingo 17 de agosto.

A notícia de que o governo do Catar estaria doando um Boeing 747 para servir de novo  Air Force One para o presidente dos Estados Unidos gera discussões sobre a conveniência de que o presente seja aceito. O debate me fez tirar da estante o livro de um diplomata britânico, Paul Brummell, publicado em 2022, Presentes diplomáticos.

Ali são analisados, de forma espirituosa, cinquenta presentes — da Estátua da Liberdade a cisnes, queijos, louças e pinturas — trocados ao longo da História entre países, povos ou chefes de Estado, e a mensagem que procuraram transmitir. Brummell insere cada objeto em seu contexto histórico e cultural e aponta aspectos sociológicos do ato de presentear. Cita várias vezes o sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, por conta da sua obra clássica, Ensaio sobre o Dom, de 1925. O livro Estruturas da vida social, do antropólogo americano Alan Fiske, em que os relacionamentos humanos são divididos em quatro tipos, foi também uma fonte para a visão de Brummell.

Tanto a introdução quanto a conclusão mencionam anedotas pitorescas. Só isso já indicaria ser o autor um diplomata, pois diplomatas adoram contar anedotas, embora raramente o façam de maneira tão inteligente, instruída e engraçada como Brummell. Lemos sobre o filhote de camelo que François Hollande, então presidente da França, recebeu do governo do Mali em 2013, quando visitava o país. Seus assessores deixaram o animal com uma família em Tombuctu, até que providências fossem tomadas para transportá-lo à França. Por um erro de compreensão, o filhote “serviu de ingrediente principal para um tagine particularmente delicioso”.

Os dois pandas presenteados pela China ao Japão, em 1972, foram um exemplo daquilo que, criança, aprendi chamar-se “diplomacia do panda”. Quando minha família e eu fomos morar em Washington, em 1994, pudemos ainda conhecer Hsing-Hsing, sobrevivente do célebre casal doado, também em 1972, aos Estados Unidos. Ling-Ling morrera em 1992. Durante muitos anos, nos diz Brummell, pandas serviram de presente excepcionalmente prestigioso, para a China e para o país destinatário: raro e encantador, e por essas razões admirado no exterior, o animal é exclusivamente chinês, servindo de cartão postal para o país.

Animais são numerosos entre os presentes analisados no livro. Em 1514, D. Manuel, o Venturoso, destinatário da Carta de Pero Vaz de Caminha, enviou um elefante indiano ao Papa Leão X. Ao contrário dos pandas em relação à China, o elefante não simboliza Portugal. O objetivo do rei era demonstrar a expansão territorial de Portugal em outros continentes, o seu poderio marítimo. Leão X, membro hedonístico da família dos Médicis, adorou o elefante, que morreria dois anos depois em Roma.

É notável o capítulo sobre os Três Reis Magos, sua viagem para conhecer o Menino Jesus e os presentes que levaram. O tema, mencionado apenas em um parágrafo do Evangelho segundo Mateus — que não nos fornece seus nomes, não diz que eram reis e nem sequer que eram três —, foi ao longo dos séculos adquirindo importância cultural e religiosa. Contida na história dos presentes oferecidos pelos magos, há a menção a outra doação, a dos seus ossos ao arcebispo de Colônia em 1162. Na catedral daquela cidade, um relicário medieval, dourado, contém teoricamente os restos mortais de Melchior, Baltasar e Gaspar. A narrativa de Brummell, cativante, me fez sentir pena, por um momento, de não poder me deslocar imediatamente a Colônia e rever o relicário.

Há dois capítulos envolvendo diamantes. No primeiro, o xá da Pérsia envia seu neto a São Petersburgo, em 1829, para se fazer perdoar pelo massacre, por uma multidão, dos funcionários da Embaixada da Rússia em Teerã, incluindo o embaixador, Aleksandr Griboiedov. A figura de Griboiedov, cujo cadáver desfigurado e decapitado representa os riscos da vida diplomática, me interessa há muitos anos. Também escritor, ele hoje é lembrado como autor de uma peça de teatro. Brummell nos conta que a missão persa entregou ao tsar Nicolau I um diamante, exemplo de “presente oferecido para pedir desculpas e evitar penalidade”.

A outra história refere-se a muitos diamantes, aqueles recebidos pelo presidente da França Valéry Giscard d´Estaing de Jean-Bédel Bokassa, presidente e depois imperador centro-africano. L´affaire des diamants estará para sempre ligada ao nome do presidente francês e contribuiu para que fracassasse sua tentativa de reeleição, em 1979.

Severo com Giscard d´Estaing, Brummell evita tratar de jóias ligadas à monarquia inglesa. Fernando Morais, em “Chatô, o rei do Brasil” lembra como, em 1953, Assis Chateaubriand — fundador dos Diários Associados — escolheu, sem consultá-los, “oito felizardos” para que se cotizassem e pagassem, como presente de coroação brasileiro a Elizabeth II, “um conjunto de colar e brincos de águas-marinhas e brilhantes”. A rainha da Inglaterra, uma das mulheres mais ricas do mundo, aceitou o luxuoso conjunto, entregue em nome do povo de um país mais pobre. Usou o colar e os brincos frequentemente. Ainda hoje, de vez em quando, surgem notícias na imprensa sobre jóias doadas por potentados árabes a membros da família real britânica.          

Brummell nos conta haver razões culturais e religiosas — entre elas “a tradição islâmica de presentear generosamente” — para que dons diplomáticos de valor material elevado venham agora sobretudo de países do Oriente Médio.

Em 2008, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, ofereceu ao presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, um par de botas da marca R. M. Williams. Símbolo australiano, as botas seriam “objetos desejáveis, mas não excessivamente caros”. Peças de vestuário, indicariam “uma relação amistosa entre os dois líderes”. Presenteadas a um governante estrangeiro, ajudariam a promover a marca e as exportações do produto. De todos os dons descritos no livro, talvez sejam, entre os mais recentes, o mais útil e o mais hábil.  

Fotografei o mural dos elefantes em Kuala Kangsar, capital real de Perak, na Malásia

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O embaixador decapitado, 2 de agosto

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O embaixador decapitado

O embaixador decapitado

Um telefonema a Kuala Lumpur, semana passada, me fez viajar no tempo ao dia em que vi o embaixador decapitado.

Preparando um ensaio sobre o Museu de Artes Islâmicas da capital malásia, há quatro anos, acolhi a sugestão de seu fundador e diretor, Syed Mohamad Albukhary, de visitar o depósito no subsolo do edifício. Por falta de espaço nas salas, ali é guardada a coleção de arte orientalista: pinturas de artistas ocidentais, em geral do século XIX, representando locais e personagens de Turquia, Oriente Médio e norte da África.

A diretora de coleções do museu, Rekha Verma, mostrou-me as obras. De repente, a revelação. Vi-me frente a um quadro famoso que eu não sabia pertencer àquele acervo. Poucos dias antes eu lera alguns parágrafos sobre ele no livro de memórias da artista que o pintara. A coincidência me surpreendeu.

Mais impressionante, porém, era o quadro em si. É um retrato em pé, grande, majestoso, de Muhammad Dervish Khan, enviado em 1788 à corte francesa por Sultão Tipu, soberano de Mysore, na Índia. O nome em português é Maiçor. Castro Alves, em “Vozes d´África” e “Jesuítas”, usa Misora, que soa mais bonito. Sultão Tipu, cujo apelido era Tigre de Mysore, representou o último esforço nativo de resistir ao avanço da Companhia das Índias Orientais britânica no subcontinente indiano. Seu objetivo, com o envio da missão, era obter o apoio militar da França contra a expansão inglesa. 

Dervish Khan, acompanhado de dois outros embaixadores, Akbar Ali Khan e Mohammad Osman Khan, e uma comitiva de cerca de quarenta pessoas, embarcou em julho de 1787. O navio aportou em Toulon em junho de 1788. Em julho, os embaixadores chegavam a Paris. Por onde iam, os enviados do Tigre de Mysore causavam sensação. As Memórias de um pajem de Luís XVI, o conde d´Hézecques, ecoam o impacto gerado pelos indianos: “eles despertaram fortemente a atenção de toda a França”. Para os franceses da época, viajantes indianos ou mesmo de qualquer lugar da Ásia representavam uma raridade.

A audiência pública com Luís XVI em Versalhes aconteceu em 10 de agosto. Félix d´Hézecques nos diz que havia multidões no palácio nesse dia. Então representante dos Estados Unidos em Paris, Thomas Jefferson, testemunha da cerimônia, escreveu ao Secretário de Estado, John Jay: “Os embaixadores de Sultão Tipu foram recebidos hoje em Versalhes, com uma pompa inusual. As pessoas presentes eram tão numerosas que pouco se podia captar do diálogo com o rei. Pelo pouco que pude escutar, houve apenas promessas mútuas de boa vontade”.

E assim foi. Os emissários de Sultão Tipu chegavam à França em momento inoportuno. Cinco anos antes, em 1783, a Paz de Paris pusera fim à Guerra de Independência dos Estados Unidos, onerosa para a França, aliada dos americanos. Dificilmente poderia Luís XVI, com as finanças francesas em situação calamitosa, envolver-se em novo conflito com a Inglaterra. Noto que apenas dois dias antes da recepção dos enviados indianos em Versalhes, o rei anunciara que a reunião dos Estados Gerais, ideia lançada em 1787 para se concretizar em 1792, aconteceria em maio de 1789. Acabara de ser dado o pontapé inicial no processo que desembocaria na Revolução. Em onze meses, a Bastilha seria tomada. Os embaixadores de Sultão Tipu, assim, ocasionaram e ao mesmo tempo presenciaram um dos últimos momentos faustosos do Ancien Régime.

Foi Élisabeth Vigée Lebrun quem pintou o retrato de Dervish Khan que encontrei no subsolo do museu em Kuala Lumpur. Retratista habitual de Maria Antonieta, a quem provavelmente embelezava na tela, a artista é em parte responsável, hoje, pelo sentimento de empatia despertado no observador pela rainha guilhotinada. Em suas Memórias, Madame Vigée Lebrun nos conta como foi sua interação com os enviados de Mysore. Ela os viu na Ópera e achou-os “extraordinariamente pitorescos”. Sua decisão de pintá-los provocou situações rocambolescas. Fez, além do retrato de Dervish Khan, o de Osman Khan, mas esse se perdeu.

Ao regressarem a Mysore, onde chegaram em maio de 1789, os enviados se depararam com a enorme contrariedade do soberano diante do seu fracasso. A mais antiga fonte impressa a respeito da missão que pude acessar é um livro de 1801 sobre o reino de Mysore. Seu autor, o historiador francês Joseph-François Michaud afirma, sem citar a origem da informação, que Sultão Tipu se irritou não só com o insucesso do pedido de ajuda militar contra os ingleses, mas também com os continuados elogios à França feitos pelos seus enviados: “ele não gostava de ouvir que havia uma monarquia mais rica e mais florescente do que a sua”. Michaud relata que, um dia, passeando de maneira afastada com dois dos embaixadores, “ele mandou matá-los”. É frequentemente repetida a asserção de que Dervish Khan e seus companheiros foram decapitados.

Dez anos depois, em 1799, a capital de Sultão Tipu, Seringapatam, foi conquistada e saqueada pelos britânicos. Ele próprio aí morreu, em combate, vítima da transformação da Companha das Índias Orientais, como diz o historiador William Dalrymple em seu livro The Anarchy, de corporação comercial convencional, que negociava sedas e especiarias, em um “poder colonial agressivo”. 

No telefonema da semana passada, soube por Rekha Verma que em agosto abrirá no museu em Kuala Lumpur uma exposição sobre o Tigre de Mysore. A iniciativa pareceu-me tempestiva, em um contexto em que questões comerciais são novamente usadas como arma política, agora por meio de tarifaços.

O retrato de Dervish Khan estará exposto. Saindo do subsolo onde é preservado, envolto na lenda que o acompanha, ilustrará para o público a miragem e os riscos de toda missão diplomática.   

  

@Islamic Arts Museum Malaysia

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 2 de agosto.

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O espaço do diplomata

O espaço do diplomata

Recebi o convite em janeiro. O Festival de Arquitetura de Singapura, evento anual patrocinado pelo Singapore Institute of Architects, queria que eu fizesse uma apresentação sobre Roberto Burle Marx. Hesitei. O Festival seria em junho, quando eu já não estaria na Malásia mas em Angola, longe do Sudeste Asiático. O Festival insistiu. Pensei que eu não deveria deixar passar uma nova oportunidade de divulgar o nome do grande paisagista brasileiro. Aceitei.

Em uma coluna nestas páginas publicada em fevereiro, “Da Pampulha para Kuala Lumpur”, falei do jardim projetado por Burle Marx na capital malásia e do livro Um brasileiro em Kuala Lumpur: Roberto Burle Marx e o Parque KLCC. Resultado particularmente tangível do meu trabalho como embaixador na Malásia, o livro serviu ao meu propósito de tornar o Brasil e seus maiores talentos mais conhecidos naquele país.

Cada edição do Festival de Arquitetura de Singapura é organizada por um arquiteto diferente. Este ano, a tarefa coube a Rene Tan, cujo estúdio é responsável pelo conjunto residencial que considero o mais espetacular de Kuala Lumpur, o Fennel, com o qual ganhou vários prêmios internacionais.

Seminários de três dias, com multiplicidade de palestras, mesas-redondas e estandes são como a batalha de Waterloo na forma descrita por Stendhal em A Cartuxa de Parma. Muita coisa acontece ao mesmo tempo, em diferentes lugares, e captamos somente aquilo que está ao alcance mais imediato do olhar. Apenas Rene Tan, que durante três dias circulou incessantemente de um lado a outro, terá podido avaliar o resultado final do Festival. Para os palestrantes, restava o privilégio de estar ali, no Centro de Convenções do icônico Marina Bay Sands, símbolo arquitetônico de Singapura por excelência. 

No painel de que participei, Alexander Wong, de Hong Kong, que eu já conhecia, expôs sua atividade como projetista de salas de cinema na China, com desenho futurista arrojado, em trabalhos amplamente elogiados pela imprensa ocidental. Em outro painel, o indiano Ambrish Arora explicou como, ao criar um hotel em Jodhpur, no Rajastão, na base da montanha onde sobressai o Forte de Mehrangarh, edificado entre os séculos XV e XVII, levou em conta a necessidade de não destoar da arquitetura histórica dos arredores mas evitar, ao mesmo tempo, um pastiche. No dia seguinte, no café da manhã no hotel, descobriríamos uma amizade em comum, André Corrêa do Lago, presidente da COP30 e membro do júri do Prêmio Pritzker.

Renata Furlanetto incluíra em sua fala uma foto do Palácio do Itamaraty, com o jardim aquático em evidência, idêntica a uma imagem que eu mostraria mais tarde em minha apresentação. Apontei não ser coincidência os dois brasileiros presentes no Festival exibirem um prédio que é, na conjunção da arquitetura de Oscar Niemeyer e do paisagismo de Burle Marx, um marco do modernismo brasileiro. Mostrar e ver em Singapura a sede da diplomacia brasileira, neste momento de tensões e incertezas geopolíticas, trouxe-me reconforto. A sua própria solidez parecia uma garantia de continuidade e equilíbrio.

Teria gostado de assistir a mais palestras no Festival. Perdi a de uma grande estrela, o japonês Riken Yamamoto, ganhador do Pritzker em 2024. Jantando com alguns dos participantes, conversei com o austríaco Dietmar Eberle. Sediado em Bregenz, ele me explicou que o grau de prosperidade da sua região geográfica é exemplificado pelo número elevado de museus de arte contemporânea ali abrigados. Por esse cálculo, os milionários brasileiros precisam ainda desenvolver a filantropia na área da museografia — e em tantas outras —, mas minha primeira reação foi pensar no fato extraordinário de Inhotim existir no Brasil.

Ao final do painel de que eu participava, o moderador, Calvin Chua, retomando o tema do Festival este ano, “Não pense (apenas) como um arquiteto”, perguntou o que nós, os quatro debatedores, sugeriríamos ao público como forma de pensar. Ofereci que pensassem como um diplomata. O diplomata um dia edita um livro sobre Burle Marx, no outro negocia um acordo internacional, mas seu objetivo final não varia ao procurar sempre promover a conciliação entre interesses por vezes distintos. Precisa, idealmente, desenvolver uma atitude serena, paciente, zen, no fundo bastante asiática, se quisermos usar um clichê. Seria útil para todo mundo cultivar um temperamento assim no dia a dia.

Uma pergunta da plateia sondou como lidar com o conceito de espaço. Melhor indagação impossível, em um festival de arquitetura. Decidi responder falando do espaço a ser almejado pelo diplomata. A questão que se coloca para mim, ao trabalhar no exterior, é como me inserir na sociedade local para influenciá-la em favor do Brasil. A defesa dos interesses e da imagem do seu país constitui, por definição, o espaço do diplomata. É no cumprimento desse dever, e não na expectativa de reconhecimento, que encontramos o propósito e a gratificação da vida profissional.

A palestra em Singapura permitiu-me incluir curtas estadas, na ida e na volta, em Kuala Lumpur. Foi maravilhoso rever amigos nas duas cidades, nessa intensa viagem de uma semana. No último dia, uma jornalista malásia me perguntou se voltar ao Sudeste Asiático, de onde eu partira em fevereiro, me causava nostalgia. Respondi com sinceridade que não. Meus cinco anos em Kuala Lumpur foram perfeitamente felizes. Voltar menos de cinco meses depois proporcionara momentos mágicos. Mais importante do que o espaço exterior, contudo, é o espaço interno.

Esse começa vazio, enorme, infinito. Gradualmente, como pedras ou tijolos em uma construção física, família, amigos, lugares, livros, obras de arte, o tempo e a memória vão construindo um edifício. Onde eu estiver, ele sobrevive, continuamente acrescentando andares, mais sólido do que qualquer arranha-céu, casa ou gabinete.

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 19 de julho.

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Cenários do poder

Cenários do poder

Como nos lembra o historiador Thierry Sarmant no livro que publicou este ano, História dos palácios: o poder e sua encenação na França, do século V ao XXI, os locais onde vivem e trabalham os governantes sofrem constantes evoluções.

Há poucos meses, o presidente da França abriu as portas do Palácio do Élysée à cadeia norte-americana de notícias CNN. Entre os temas de que tratou com o jornalista Richard Quest estiveram inteligência artificial, Gaza, sua ambição por uma maior independência estratégica da União Europeia e a guerra na Ucrânia. Pouco pressionado pelo entrevistador, Emmanuel Macron transformou a ocasião em um monólogo, em um inglês fluente mas com sotaque.

Ao final da conversa, exibiu algumas salas do Élysée. Comentaristas franceses apontaram a raridade do tour assim proporcionado pelo presidente. Nas imagens que registram a visita nota-se o contraste entre de um lado obras de arte e peças de mobiliário contemporâneas, de outro móveis do século XVIII e entalhes dourados nas paredes do edifício, construído a partir de 1722 para um membro da alta nobreza.

No Salão Cleópatra, a tapeçaria mostrando o encontro entre Marco Antonio e a rainha egípcia, que empresta seu nome ao aposento, foi retirada. Em seu lugar, pendurou-se uma obra recente e estridente. No Salão Pompadour está exposta outra tapeçaria, “Mulher no espelho”, baseada em uma litogravura de Joan Miró. Minha peça predileta é uma escultura em mármore e bronze por Arman, “Tributo à Revolução de 1789”, encomendada por François Mitterrand para celebrar o bicentenário da Revolução. Colocada no vestíbulo, é a primeira visão que os visitantes ilustres recebem do interior do palácio.

Sobram hoje poucos vestígios dos locais de residência dos reis Merovíngios. Sarmant entende, no entanto, que as jóias e os móveis luxuosos que sobreviveram — como o trono de Dagoberto, que uma vez vi em uma exposição em Veneza — permitem pensar que aqueles soberanos do início da Idade Média viviam de maneira menos rústica do que imaginamos. Já dos Carolíngios restam ainda prédios, embora o mais famoso deles, a Capela Palatina em Aix-la-Chapelle, ou Aachen, esteja situado no que é hoje território da Alemanha. A partir dos Capetos, Paris gradualmente se impõe como capital, e vários castelos dos monarcas, na cidade principal ou perto dela — o Palais de la Cité, o Louvre, Vincennes, Fontainebleau, Saint-Germain-en-Laye — passam a ter perenidade, embora sofram importantes mutações com o tempo. Nos últimos cem anos da monarquia absolutista, Versalhes passa a ser, como sabemos, a residência preponderante.

Sarmant nos mostra como o Elysée, casa e escritório do presidente da República Francesa desde a década de 1870, excluindo-se o período da II Grande Guerra, marcado pela ocupação alemã, é modificado pelos titulares do cargo. Em geral, os presidentes preferem mobília Luís XV ou Luís XVI. Georges e Claude Pompidou, assim como Emmanuel e Brigitte Macron, são exceções, e optaram por artistas e projetistas modernos.

Uma moral que extraí da leitura de Histoire des palais é a transitoriedade até mesmo do poder aparentemente mais sólido. O gradual fortalecimento, ao longo de 800 anos, com sobressaltos, dos Capetos e seus ramos Valois e Bourbon, que resultou na unificação territorial da França e no absolutismo, é eliminado em um par de anos, entre 1789 e 1792. Edificados durante séculos, os palácios da dinastia são rapidamente apropriados por novos governantes, sobretudo aqueles situados em Paris e seu entorno. Versalhes, com sua excessiva carga simbólica, é a exceção.

O Palácio das Tulherias, última morada de Luís XVI e Maria Antonieta antes da sua prisão e da abolição da monarquia em setembro de 1792, é o caso mais emblemático. Já em maio de 1793, lá se instala a Convenção Nacional revolucionária. Como aponta Sarmant, todos os regimes do século XIX que governaram a partir das Tulherias “buscaram o fausto monárquico, na suposição de que assim impressionariam os franceses, mas isso não salvou nem Napoleão I em 1814, nem Carlos X em 1830, nem Luís Filipe em 1848, nem Napoleão III em 1870”.

O Élysée tornou-se residência dos presidentes porque, apesar de suas conexões monárquicas — pertenceu a Luís XV; à sua favorita, a marquesa de Pompadour; a Napoleão I, que lá abdicou pela segunda vez em 1815 (e antes disso à sua irmã, Caroline Murat, rainha de Nápoles); e a Napoleão III — é um palácio de segunda divisão. Luxuoso, mas pequeno para padrões reais, e nunca residência oficial de soberanos franceses. Fica a dúvida no leitor se, caso as Tulherias não tivessem sido incendiadas pela Comuna em 1871, o regime republicano não teria cedido à tentação de lá se instalar.

Duas vezes trabalhei em palácios brasilienses, o Itamaraty e o Planalto. São obras-primas da arquitetura modernista brasileira, os mais bonitos de Brasília, junto com o Alvorada. O Itamaraty pareceu-me sempre acolhedor, apesar das salas subterrâneas. Como o Élysée sob alguns dos presidentes franceses, mas de maneira mais convincente, mistura quadros e móveis antigos com obras mais recentes, ajudado nisso pela arquitetura inovadora. O Planalto é elegante mas francamente gélido. Sentar-se lá é como isolar-se de qualquer outra realidade física conhecida. Quanto ao Alvorada, são conhecidas as queixas de falta de privacidade de alguns de seus moradores.

A leitura me fez questionar a razão pela qual, em uma capital republicana, inaugurada em 1960, deu-se o nome de “Palácio” a esses e a outros edifícios de Brasília. O local ainda considerado o centro do poder no Ocidente é conhecido simplesmente como uma casa, a Casa Branca.

Uma coisa é certa: os títulos dos governantes e os nomes de suas residências mudam mas, como a natureza humana é uma só, perduram as cortes e as intrigas em torno do exercício do poder.

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 5 de julho.

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Memória diplomática

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Transcrevo minha coluna quinzenal publicada no jornal Estado de Minas ontem, 21 de junho:

Minha mãe, Thereza Quintella, cumpriu 87 anos em 27 de maio. Pedi uns dias de férias para viajar de Luanda ao Rio de Janeiro e comemorar a data com ela. Decidi maximizar a ida ao Brasil com uma noite de autógrafos em Brasília.

Fiquei feliz de rever tantos amigos, ao assinar dedicatórias de Geografia do tempo na Livraria da Travessa. Aquela seria minha única oportunidade de estar com eles, já que no dia seguinte eu regressaria ao Rio. A divulgação fora bem-sucedida e havia, na fila, muitas pessoas que eu não conhecia, cuja curiosidade fora despertada pelas entrevistas e matérias na imprensa ou em portais na internet. O primeiro a falar comigo na livraria, na verdade, estava ali por acaso. Entrara para explorar as novidades, vira o aviso da noite de autógrafos e quisera saber mais.

Perguntou-me o sentido do título “Geografia do tempo”. Expliquei que uma das minhas indagações sobre o mundo é a constante variação entre a presença e a ausência de pessoas e lugares em nossas vidas. É um fluxo e refluxo em que podemos nunca mais reencontrar os seres mais queridos, por razões fora do nosso alcance; ou, ao contrário, circunstâncias imprevisíveis podem tornar as pessoas ainda mais presentes, por um período que será longo ou curto, mas jamais eterno.

Da mesma forma, avaliamos que um parque, uma cidade, um país, uma obra de arte ou um autor ficarão conosco para sempre; e no entanto, tantas vezes eles acabam por se perder para nós. A memória, assim, é como um ser independente. O tempo nos faz lembrar de algumas pessoas e de alguns lugares, e esquecer de outros, e torna misteriosa, à medida que nos deslocamos por este mundo, a geografia dos nossos sentimentos.   

Assinei exemplares de Geografia do tempo durante três horas e meia. Ao sair da livraria quando já fechavam as portas, liguei o celular e vi mensagens de minha mãe e de minha irmã avisando que, enquanto eu conversava com leitores e amigos em Brasília, no Rio falecera Marcos Azambuja.

Não é fácil discorrer sobre alguém com quem interagimos durante muitas décadas. As pessoas mudam com o avanço dos anos, e o Marcos Azambuja falecido em 28 de maio de 2025, aos 90 anos, era distinto daquele que primeiro conheci quando ele estava na faixa dos quarenta. Minha própria avaliação a seu respeito não poderia ser a mesma de quando eu tinha quatorze anos. Diante do seu falecimento tanto foi dito sobre ele, e da maneira mais elogiosa, na imprensa, nas redes sociais e nos noticiários de televisão, que parece difícil eu poder acrescentar algo.

Não é usual que a partida de um diplomata aposentado desperte tanto interesse midiático, o que diz muito sobre a celebrada capacidade de Marcos de encantar interlocutores. Sua trajetória diplomática, embora notável, por si só não justificaria tamanha comoção. Marcos não chegou a ser chanceler e sua gestão como secretário-geral das Relações Exteriores deu-se no mandato presidencial curto e conturbado de Fernando Collor de Mello. Sempre houve nele, porém, uma luz própria, uma inteligência vivaz, que não dependiam de funções ou cargos para se fazer visíveis e brilhar.

Quando o vi pela última vez, em julho de 2024, ele me lembrou que a aposentadoria lhe permitira dedicar-se a novas atividades, como palestrante em seminários, analista frequente sobre a situação internacional em telejornais, conselheiro de entidades privadas. Ao se aposentar, vira portas se abrirem. Pareceu considerar sua vida pós-Itamaraty tão estimulante, se não mais, do que a sua exitosa carreira diplomática.   

Conhecido como frasista mordaz, daqueles que, como se diz, perdem o amigo mas não perdem a pilhéria, Marcos Azambuja era, na realidade e antes de mais nada, um hábil analista das situações. Isso valia tanto para a política e as relações internacionais como para os relacionamentos pessoais. Dissecava com lucidez e sem sentimentalismo os problemas do interlocutor e era, assim, objetivo e certeiro em seus conselhos. Para minha irmã, que foi sua nora e é mãe de dois de seus netos, ele se mostrou sempre um sogro afetuoso, atencioso, incentivador de seus projetos. Para minha mãe, um amigo cada vez mais presente com o passar dos anos.

O velório foi realizado, no Rio, no térreo do Palácio Itamaraty. Em 1912, o barão do Rio Branco lá também fora velado. Sem dúvida, Marcos teria apreciado essa homenagem. Andei pelas salas e corredores vazios — era sábado de manhã — daquela ala do Itamaraty. Naquele edifício tão carioca, cujo espaço me faz, no entanto, pensar em palácios romanos, iniciaram-se as carreiras de Marcos e de minha mãe. Ali, durante décadas, de 1899 a 1970, antes de a diplomacia brasileira mudar-se para Brasília, sonhos e ambições pessoais, mas também projetos para o País, foram arquitetados e tocados adiante, ou, ao contrário, desmantelados, de maneira muitas vezes arbitrária. Pensei no hábito comum a alguns diplomatas de, tendo morado em diversos continentes e viajado incessantemente pelo mundo, virem a morrer na sua cidade natal. Impossível decidir se há aí uma vitória do indivíduo sobre a geografia, ou da geografia sobre o indivíduo.

Vivenciar o dia a dia de maneira intensa, vibrante, é que era a forma de ser de Marcos Azambuja. Poucos dias antes de viajar ao Brasil, eu soubera pela minha mãe que ele preparava suas memórias. Se estiverem em estado de ser publicadas, trarão luz, com a efervescência e irreverência que o caracterizavam, sobre o que viu e ouviu em uma vida passada dentro do Itamaraty. No caso de Marcos, poderia haver uma vitória do indivíduo sobre o tempo.

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Benção apostólica, 26 de abril

O presente malásio, 12 de abril

Eterna cobiça, 29 de março

Grandes diplomatas, 15 de março

Consternação europeia, 1º de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

Tempos de incerteza, 1º de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro  

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Batuque na cozinha

Batuque na cozinha

Transcrevo minha coluna quinzenal publicada no jornal Estado de Minas esta semana:

Quando Pelé se despediu de nós, em 29 de dezembro de 2022, não ficamos de luto apenas porque um ser humano, e maior futebolista de todos os tempos, falecera. Com a sua partida, desaparecera aquele que fora o esteio central da imagem mais positiva do Brasil no mundo, que ainda é o futebol.

Morando no exterior criança, adolescente e ao longo da minha carreira profissional, sempre fiquei impressionado com o quanto os estrangeiros associam o nome do Brasil ao do jogador. Inúmeras vezes aconteceu, nos lugares mais distantes, de eu ouvir, ao me apresentar como brasileiro: “Ah! Brasil! A terra do Pelé”. Em 2020, quando apresentei credenciais como embaixador do Brasil ao rei da Malásia, o tema da conversa entre nós foi inteiramente sobre o Rei Pelé. Preocupava-se o monarca com o estado de saúde daquele que, por ser o soberano do futebol mundial, era o rei do Brasil.

Acredito não haver muitos outros casos de uma pessoa simbolizar sozinha, aos olhos externos, o seu país inteiro. Dois outros elementos culturais brasileiros seguiam Edson Arantes do Nascimento, em termos de popularidade lá fora, enquanto eu crescia e me tornava adulto: algumas novelas de televisão e a música. Em Luanda, existiu durante vinte anos aquele que foi o maior mercado ao ar livre de toda a África. Seu nome era “Roque Santeiro”. Algumas vezes, em táxis em diversos países do Sul Global, motoristas me disseram: “Lá em casa, todos assistimos à ´Escrava Isaura´”.

No final de abril, testemunhei a dimensão do impacto que pode causar a música brasileira, com a vinda a Luanda de Martinho da Vila. Poucos dias depois de eu chegar, no final de fevereiro, o primeiro casal angolano que minha mulher e eu convidamos para a casa comentara que o músico estava por chegar. Acrescentaram, os dois: “Ele é muito querido aqui”. Mal sabíamos nós ser isso um eufemismo.

No dia do seu desembarque em Luanda, Martinho da Vila, sua mulher, Cleo Ferreira, três de seus filhos e membros da sua equipe jantaram conosco. Vários amigos angolanos vieram com ele. Recebê-lo em casa foi, para nós, algo emocionante. E não somente para nós. Ao longo da noite, todos os convidados quiseram uma fotografia com o cantor, que aceitou a situação com grande simplicidade.

Figura cultural mítica mais acessível na forma de interagir com os outros, eu nunca vi. No entanto, ele chegara do Brasil na manhã daquele mesmo dia, seu hotel era longe da nossa casa, ele devia estar bem cansado. Se estava, não deixou transparecer. Conversou, riu, deixou-se fotografar, abraçar, contou histórias de sua relação com Angola, anterior mesmo à independência do país, já que aqui veio pela primeira vez em 1972.

O seu show, dois dias depois, foi propriamente apocalíptico. Era véspera do feriado de primeiro de maio, que caiu na quinta-feira, e sexta-feira seria feriado também. No entanto, lá estavam milhares de pessoas. Martinho da Vila pisou no palco e já foi ovacionado. Todos se levantaram para filmá-lo ou fotografá-lo. O público conhecia suas músicas, cantava com ele. O carisma, aos 87 anos, continua intacto. Ele rememorou suas relações com alguns amigos angolanos; nem todos eram famosos ou ilustres, o que tornava a narrativa mais cativante.

Uma canção que eu não conhecia despertou meu interesse, como demonstração de internacionalização de um produto cultural. Martinho da Vila comentou de sua amizade com o poeta e dramaturgo Manuel Rui, autor da letra do hino nacional angolano. Mencionou que uma de suas composições, “À volta da fogueira”, é inspirada em um poema de Manuel Rui, “Os meninos de Huambo”. O mesmo poema recebeu também duas outras versões musicais, uma pelo artista angolano Ruy Mingas e outra pelo português Paulo de Carvalho.

O espetáculo foi aberto com apresentação de Eduardo Paim, ninguém menos do que o pai da kizomba. Uma amiga brasileira havia nos falado sobre esse eletrizante ritmo angolano. Eduardo Paim, ele próprio uma lenda viva, cantou e tocou o keytar durante uma hora, em uma atmosfera frenética, empolgante, fazendo-nos conhecer composições suas que eu viria a descobrir depois serem clássicos angolanos, como “A minha vizinha” e “São saudades”.

Entrevistados antes do show por um canal de televisão, minha mulher e eu lembramos à jornalista que crescer no Brasil significa ir acompanhando a carreira musical de ídolos como Martinho da Vila, que ele faz parte da vida pessoal de todos nós brasileiros. Na noite seguinte, a presença do artista brasileiro em Luanda ocupou longo trecho do principal telejornal do país.

O afeto de décadas entre o artista e o público angolano não é um feito banal, se pensarmos no poder global da indústria de entretenimento americana. Na mesma semana, Lady Gaga foi levada ao Rio de Janeiro, e dois milhões de pessoas compareceram para ouvi-la na praia de Copacabana. É uma ironia que a maior potência militar do planeta seja também a de “poder brando” mais efetivo. Não é porém uma ironia inédita. Luís XIV e Napoleão desenvolveram, cada um em sua era, políticas de agressão militar aos países vizinhos, enquanto a cultura francesa ocupava, paradoxalmente, a posição de maior prestígio e influência sobre o resto da Europa.

Na manhã seguinte, cedo, Martinho da Vila viajou para Maputo, levando com ele sua alegria, sua generosidade. Peguei-me cantarolando “Canta, canta minha gente… deixa a tristeza pra lá… canta forte, canta alto… que a vida vai melhorar”. Tendo crescido ouvindo essa canção, e tantas outras do compositor, sinto ser ele um elemento-chave, como é o Pelé, da noção que faço de mim mesmo como brasileiro.

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Um Brasil consciente e forte

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Hall dos Ministros, Palácio Itamaraty, Rio de Janeiro

Minha coluna quinzenal no jornal Estado de Minas publicada ontem, 24 de maio:

Meu pai, também Ary Quintella, entrevistou em 1970 o político mineiro Afonso Arinos de Mello Franco. A conversa aconteceu na casa de Botafogo, na rua Dona Mariana, onde o ex-ministro das Relações Exteriores morava e que ainda existe, e onde eu mesmo estive quando ela servia de sede ao centro de pesquisas Brics Policy Center.

Naquele mesmo ano de 1970, meu pai conduziu entrevistas com diversos autores brasileiros para o suplemento literário do Jornal do Commercio carioca. Algumas foram publicadas, outras não. Ignoro as razões para a seleção final, ou mesmo para a escolha dos escritores. As conversas realizadas com Rachel de Queiroz e Mário Palmério, outro mineiro, viraram referência e são sempre citadas por estudiosos de suas obras.

A longa entrevista com Afonso Arinos, que eu saiba, nunca veio a público. Apenas em 2019, vinte anos após a morte do meu pai, preparando-me para partir como embaixador na Malásia, descobri, classificando seus documentos, uma pasta contendo a transcrição de todas as entrevistas. O diálogo com Afonso Arinos chamou minha atenção, talvez por vício profissional, já que o senador foi chanceler em dois períodos, de fevereiro a agosto de 1961 e de julho a setembro de 1962, que integram o que viria a ser conhecido como Política Externa Independente.

Há muito a saborear no diálogo, por causa da cumplicidade entre entrevistado e entrevistador. Meu pai explica sobre seu interlocutor: “Sua fala é tranquila e sem vacilações: absoluta sinceridade, que espouca decididamente”. Afonso Arinos comenta ter sido colega de classe no Colégio Pedro II de meu avô, o matemático, também Ary Quintella.

Um dos temas mais presentes é Guimarães Rosa. Discutem sua personalidade, seu “método de composição”. O autor de Grande Sertão: Veredas sentara-se, um dia depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras — quando fora saudado por Afonso Arinos — e um dia antes de morrer, na mesma poltrona na varanda da casa na rua Dona Mariana de onde meu pai conduzia o diálogo. “Guimarães Rosa gostava dessa aí”, diz o político mineiro, apontando a poltrona, e meu pai, que então apenas iniciava sua carreira literária, comenta com o leitor: “sinto um arrepio ao longo da espinha”. Recorda Afonso Arinos que “Rosa era de uma amabilidade exuberante, implacável, minuciosa, que nos obrigava a tomar cuidado para não lhe causar nenhuma decepção”. 

Casa de Afonso Arinos na rua Dona Mariana, Botafogo, Rio de Janeiro

A conversa flui, passando da literatura brasileira para a francesa, e incluindo Jânio Quadros, Che Guevara e o Papa João XXIII. Sobre a Lei Afonso Arinos, de 1951, primeira norma no Brasil contra o racismo, o político declara ter sido “a mais importante realização da minha vida parlamentar”. Afirma que sempre se dedicou à política “com esmero, por uma questão de decoro e consciência, mas sem paixão”. Famoso pela capacidade oratória, admite: “se de fato eu tivesse no coração aquela paixão que demonstrava em minha voz quando fazia discursos violentos, eu já teria morrido há muito tempo”. Meu pai pergunta: “Era simulação?”, e ele responde: “não era simulação, mas a consciência de uma representação. Aliás, é a primeira vez que digo isso com tal franqueza”.

Há momentos de indagação filosófica: “esse problema de fixação no tempo, Ary, é coisa que todos nós nos consultamos permanentemente: quem somos nós, de onde viemos, para onde vamos? Não há ninguém que tenha um pouco de capacidade de se demorar dentro de si mesmo que não esteja sempre perseguido por essas ideias”. Meu pai faz uma pergunta difícil e pertinente, considerando o ano em que se realiza a entrevista: “Não se sente frustrado ao dar aulas de direito constitucional?”. 

Indagado sobre “sua melhor experiência como chanceler”, Afonso Arinos responde: “ela se situa fora do Ministério, depois que o deixei. Durante todo o período em que fui ministro, só encontrei resistências, incompreensões e obstáculos às minhas ideias”. Só depois suas tentativas de “viabilizar a afirmação da personalidade nacional” viriam a ser aceitas. Não sente saudades do Itamaraty, “pelas injustiças” que sofreu, “de ataques feitos por interesses escusos”.

Em um de seus livros de memórias, Planalto (1968), o político estende-se sobre esse assunto e nota que a hostilidade não vinha somente do empresariado ou da imprensa. “Tudo aquilo que podia representar cultura, inteligência, independência, trabalho, nacionalismo não existia para a maior parte do grupo dominante do Itamaraty”, escreve, e condena a “frivolidade condecorada” de diplomatas. Mesmo um senador ilustre, patrício, destacado político conservador não conseguiu que seus objetivos de “criação daquela imagem de um Brasil consciente e forte” fossem aceitos.

Um tema candente no Brasil, desde a década de 1950, era o das colônias portuguesas na África, em relação ao qual o Brasil, até a presidência de Jânio Quadros, se alinhava às teses portuguesas. A mudança de orientação a partir de 1961, diz Afonso Arinos a meu pai, constituiu uma das principais razões das críticas que recebeu como chanceler, ao ser acusado de não guardar “a tradição da fraternidade luso-brasileira”, e lembra: “nós somos o maior país africano do mundo”. Avalia que o Brasil, embora não sendo “uma grande potência”, é “uma grande nação” e “deve e pode” contribuir “como força decisiva no sentido da paz mundial”.   

Como conclusão da entrevista, declara o ex-chanceler: “o grande problema da humanidade é a paz” e lamenta-se com meu pai: “nós poderemos assistir durante toda a nossa vida a essa sucessão monótona de tragédias, limitadas a tais ou quais regiões do planeta, e que desencadeiam brutalidades que não poderemos jamais compreender”.

É desconsolador saber que, desde 1970, nada mudou.

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Convite: Brasília, 28 de maio

Convite: Brasília, 28 de maio

No final de novembro, viajei de Kuala Lumpur ao Rio de Janeiro para lançar meu livro Geografia do tempo. Compromissos de trabalho me obrigaram a viajar de volta à Malásia logo após a noite de autógrafos.

Em 28 de maio, viajarei de Luanda a Brasília especificamente para fazer noite de autógrafos na Livraria da Travessa do CasaPark, a partir das 19h.

Espero vocês lá. Será uma festa. Tragam os amigos.

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Retrato de família

Retrato de família

A Mansão azul em Penang

Transcrevo abaixo minha coluna quinzenal no jornal “Estado de Minas” publicada em 10 de maio:

A imigração chinesa aos territórios que eram então as colônias britânicas da Península Malaia e de Singapura, ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX, é uma história de superação da extrema pobreza. Os imigrantes viviam em condições insalubres, submetidos a trabalhos fisicamente árduos, enfrentando enorme dificuldade financeira.

Fortunas surgiram porém já no século XIX. Existe em George Town, capital da ilha e do estado de Penang, a célebre “mansão azul”, ou “mansão de Cheong Fatt Tze”, do nome de seu proprietário original, nascido em 1840 e falecido em 1916. Cheong Fatt Tze elevou-se, pelo trabalho no comércio, a um nível de riqueza tão impressionante que chegou a ser conhecido como “o Rockefeller do Oriente”. Sua casa é hoje um hotel; serviu de cenário, no cinema, para Indochina (1992) e Podres de ricos (2018). Nesse último filme, o jogo de mahjong entre as futuras sogra e nora foi filmado no pátio da “mansão azul”, embora o enredo se passe em Singapura.

Hoje, a população de origem chinesa na Malásia situa-se em torno de 23%. Em Singapura, onde a proporção de chineses étnicos chega a 80%, ao caminhar pelas ruas ouve-se mais facilmente transeuntes conversando em mandarim do que em inglês. A influência chinesa, misturada à malaia, deu origem à cultura peranakan, particularmente viva hoje, nos dois países, e de forma deliciosa, na área gastronômica.

Tash Aw é um dos escritores malásios de língua inglesa mais conhecidos da atualidade. Seus cinco romances — o quinto foi publicado este ano — não foram ainda traduzidos no Brasil. Em Portugal, a tradução do primeiro, The Harmony Silk Factory (2005), recebeu o título de A fábrica das sedas. Durante o primeiro confinamento causado pela pandemia de Covid-19, em 2020, eu acabara de chegar à Malásia, e esse livro ofereceu-me a experiência possível do país.

A editora brasileira Todavia lançará, este ano, Estranhos em um píer, obra autobiográfica de Tash Aw de 90 páginas. Ao contrário de Podres de ricos, o livro não nos mostra os excessos dos bilionários contemporâneos, de origem chinesa, na Malásia ou em Singapura. Descreve a criação, a partir da segunda metade do século XX, da classe média urbana malásia.

A aventura familiar começa com os dois avós. Um fala o dialeto chinês hokkien, o outro o dialeto hainanês. Ambos aportam em Singapura na década de 1920, vindos do sul da China. Estrangeiros no píer, não se sentem porém estranhos ao lugar. A ilha é uma colônia britânica, mas é também um entreposto comercial. A imigração chinesa começara oitenta anos antes, e os avós de Tash Aw “estão a muitas gerações de serem pioneiros”. Abandonaram um país “devastado pela fome e pela guerra civil”. Não viveriam o suficiente para ver a pátria original “tornar-se a fábrica do mundo, o maior consumidor de bens de luxo e a segunda economia mundial”.

Instalam-se ambos na Península Malaia. Vão viver no campo, “às margens de rios amplos e barrentos”. Um deles mantinha uma venda, o outro era professor rural. Um capítulo detém-se na figura de uma das avós, na verdade madrasta de sua mãe. Nascida em uma aldeia na selva malásia, em uma família sem recursos, algumas realidades cedo se impuseram sobre ela: nunca frequentaria uma escola, começaria a trabalhar ainda muito jovem e teria de se casar com o primeiro homem aceitável que se apresentasse.

Na escola pública malásia onde o autor estudou na década de 1980, os alunos eram “parte de um processo de formação da nação”, cujos pais “acreditavam em um projeto comum de construção do ´eu´, da sociedade, do país”. Eram todos eles “filhos dos que passaram privações, nascidos em um país que nunca antes produzira uma burguesia”. Tash Aw pertence à geração que testemunhou o desenvolvimento industrial e tecnológico da Malásia. Quatro décadas depois, importante elo na cadeia global de semicondutores, o país está a um passo de se consolidar como nação de alta renda.

Descendentes de imigrantes tendem a “criar narrativa de trajetória positiva, com alguma dose de sofrimento bem apresentado, naturalmente superado, que valorize a ascensão ao conforto, ao sucesso e à felicidade”. Conflitos entre etnias, religiões e classes sociais são vistos como menores e relativos ao passado. Membro de uma etnia minoritária, Tash Aw entende ser preciso “provar que você é trabalhador e útil para a sociedade, mas não a ponto de se tornar uma ameaça; então você desvia atenção da sua pessoa”.

Estranhos em um píer é um texto muito rico. Trata, em poucas páginas, do processo de urbanização, do surgimento da prosperidade em um país que se modernizou rapidamente, e do fosso assim criado entre gerações mais novas e mais instruídas e as anteriores ou as que permaneceram rurais. Ir de Kuala Lumpur à aldeia, para visitar parentes, significava para o autor esconder os livros que estava lendo e modificar a maneira de falar. Sua irmã, “mais determinada a escapar” daquela realidade familiar, sente-se menos constrangida e pratica abertamente “caligrafia chinesa e gramática francesa”.

Tash Aw hoje mora no sul da França; visita os pais com frequência na Malásia, onde é uma celebridade. Em uma das vezes em que almoçamos juntos em Kuala Lumpur, comentei que Estranhos em um píer me permitira aprender mais sobre seu país do que qualquer volume de história ou de sociologia.

Mas o livro vai além. Como toda obra autobiográfica verdadeiramente literária, ilumina o processo de conscientização, por um ser humano, de sua individualidade.

Conversando com Tash Aw em Kuala Lumpur, em novembro de 2024, no lançamento do último livro de William Dalrymple, “The Golden Road”; e “Estranhos em um píer”

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Bênção apostólica

Bênção apostólica

Transcrevo minha coluna quinzenal no jornal “Estado de Minas“, publicada ontem, 26 de abril:

O desaparecimento do papa marca a imaginação coletiva. A constatação de que pode haver apenas um pontífice em exercício cria para o ocupante da cadeira de São Pedro uma posição única. Presidentes e primeiros–ministros detêm títulos raros, mas há uns duzentos deles no mundo. Mesmo os reis, escassos hoje, são ainda algumas dezenas. O papa é só um.

Tendo sido Francisco um homem humilde na maneira de ser, teremos neste sábado, paradoxalmente, o espetáculo grandioso do seu sepultamento. É um lugar comum a observação de que nenhum protocolo se assemelha ao do Vaticano ou ao da Corte inglesa. Por mais simples que seja um bispo de Roma, ele continua encarnando a figura papal até entrar no túmulo, e o público espera assistir a um belo ritual.

Ao mesmo tempo, por mais admirado e querido que seja o sucessor de São Pedro, iniciam-se imediatamente, quando ele falece, as especulações sobre seu substituto. Haverá sempre um papa, espera-se, até o fim da humanidade, variando apenas os indivíduos que exercem a função ao longo da História.

Quando Francisco partiu, pensei em um diplomata que conviveu com quatro pontífices. Carlos Magalhães de Azeredo chefiou, durante vinte anos, de 1914 a 1934, a representação do Brasil junto à Santa Sé, onde servira anteriormente como secretário. Aposentado, ficou vivendo em Roma, onde faleceu em 1963, aos 91 anos.

Poeta, contista, membro fundador da Academia Brasileira de Letras antes de completar 25 anos, ele hoje é lembrado como amigo de Machado de Assis, 33 anos mais velho. No terceiro volume da correspondência machadiana, publicado em 2011 pela Academia Brasileira de Letras, Sergio Paulo Rouanet comenta: “a partir de 1892, as cartas de e para Azeredo predominam de modo avassalador”. A correspondência entre os dois compõe um livro muito útil, de quase trezentas páginas, editado em 1969 por Carmelo Virgillo. Em O presidente Machado de Assis, Josué Montello já comentava, em 1961, ser essa “a mais importante correspondência epistolar da literatura brasileira”. 

É em uma obra de Afonso Arinos, Amor a Roma (1982), que primeiro li sobre Magalhães de Azeredo. O futuro senador, chanceler e acadêmico, passando semanas em Roma em 1925, aos 19 anos, conviveu com Azeredo — era 33 anos mais jovem do que o embaixador — e afeiçoou-se a ele. Em seu primeiro livro de memórias, A alma do tempo (1961), o político mineiro nos conta ter Azeredo escrito um depoimento, “colorido e curioso”, e nunca publicado, sobre “a atmosfera de inquietação e intriga que reinava nos corredores do Vaticano, nas horas que precederam à morte de Leão XIII”, em 1903. Em Amor a Roma, volta ao assunto. Foi no Janículo que Azeredo leu a ele essa “peça meio crítica, na qual o então secretário brasileiro anotava as intrigas dos vivos ao redor do grande papa moribundo”.

Para entender Azeredo, convém saber que era filho único e póstumo. Seu livro de memórias, organizado em 2003 pelo acadêmico Afonso Arinos, filho, que havia sido ele também embaixador no Vaticano, seria mais interessante se não se fizesse tão presente a veneração por figuras mais velhas ou ilustres, como Dom Pedro II, Leão XIII ou Joaquim Nabuco. Sobre Pedro Augusto de Saxe-Coburgo-Gotha, neto de Dom Pedro II e objeto de um livro de Mary Del Priore de 2007 cujos título e subtítulo, O principe maldito, traição e loucura na Família Imperial, já dizem muito, Azeredo, tendo conhecido o príncipe na adolescência, nos conta apenas que era “de caráter bondoso e extremamente singelo”.

Em 1896, escreve da Itália a Machado de Assis: “Quero dizer-lhe algo da maravilha máxima do Vaticano e de Roma, Leão XIII”. Tendo assistido a uma missa celebrada pelo pontífice, conta que ele o tratou “paternalmente; tomou entre as suas as minhas mãos, unindo-as ao seu coração, e assim as teve durante toda a audiência”.

Não é preciso ser psicanalista para ver em Azeredo a busca constante da figura paterna. As demandas de sua amizade eram exaustivas. Em março de 1897, queixa-se a Machado de Assis: “A falta de cartas suas tem sido muitas vezes para mim objeto de reflexões melancólicas. Não posso crer que o seu coração tenha mudado para comigo. Mas o que creio e vejo é que as manifestações exteriores, visíveis, da sua amizade já não são as mesmas”.

Recente artigo do pesquisador Jair Santos, “Um poeta brasileiro no Vaticano”, me fez chegar aos ofícios enviados de Roma por Azeredo. Alguns, selecionados e apresentados por Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que foi ele mesmo embaixador no Vaticano, foram publicados em 2016 pela Fundação Alexandre de Gusmão. Não podendo conhecer o depoimento “colorido e curioso” sobre a morte de Leão XIII em 1903, lemos nesse volume a respeito do falecimento de Bento XV em 1922 e da eleição de seu sucessor, Pio XI. Esses documentos oficiais, burocráticos, não possuem a verve do outro texto, que Afonso Arinos nos faz imaginar. 

Um resfriado rapidamente evolui para a bronquite, que avança para a broncopneumonia, e Bento XV morre. Pio XI, eleito, aparece na sacada pela primeira vez, pronuncia, “com voz clara e vibrante, as preces preliminares”, traça “três vastas cruzes no espaço”, dá a bênção apostólica. E, então, “as aclamações reboaram pela praça inteira”.

É esse ritual de apresentação do novo papa que, em poucas semanas, veremos novamente, dando-nos a sensação de continuidade e perenidade em um mundo onde, cada vez mais, tudo parece efêmero.

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