O Sudeste Asiático e suas verdades

O Sudeste Asiático e suas verdades

Em maio, viajando de Angola ao Brasil, assisti no avião ao filme americano Crazy Rich Asians, dirigido por Jon M. Chu. Era a primeira vez que o revia desde 2018, ano de seu lançamento, quando minha mulher e eu o vimos em Brasília, no cinema.

No Brasil, o título foi traduzido para Podres de ricos, o que não me parece uma escolha feliz. Passa uma ideia de leviandade, enquanto que o filme, divertido e leve como é — pode ser entendido, por quem assim quiser, como uma versão moderna, transplantada para a Ásia, do conto da Cinderela — trata, subliminarmente, de um tema sério, a força econômica do Sudeste Asiático.  

O filme é extraído de um romance de Kevin Kwan, autor nascido em Singapura, como seus personagens; como seus personagens, de origem chinesa; e naturalizado americano. O verbete sobre ele na Wikipedia melindrará autores brasileiros. Recomendo que não o leiam, a não ser como exercício de masoquismo. Todos os livros de Kevin Kwan são campões de vendas; todos parecem destinados a virar filmes hollywoodianos. Tudo isso significa dinheiro, muito dinheiro. Significa sucesso, muito sucesso. 

Em 2018, minha mulher nunca havia viajado à Ásia; eu, por razões de trabalho, lá estivera algumas vezes, sobretudo desde 2016, mas não no Sudeste Asiático. Quando terminou a sessão, julgamos que Crazy Rich Asians, fora a questão do padrão de vida exorbitante da maioria dos personagens, nos provara, de uma maneira mais impactante do que qualquer livro sobre economia ou relações internacionais conseguiria, a realidade sabida mas nunca antes tão fortemente visualizada do dinamismo do Sudeste Asiático. Presenciáramos no cinema a firme evolução daquela região como um dos centros mundiais do poder econômico e comercial.

Um detalhe sutil chamou minha atenção já em 2018. Trata-se de um filme americano, distribuído por estúdio americano, mas onde os personagens ocidentais são figurantes que transitam pela tela de relance. Se olharmos um segundo para o balde de pipoca no nosso colo, perderemos os raros momentos em que a câmera os mostrou rapidamente. Os ocidentais, nas cenas em Singapura, são apenas prestadores de serviço para os asiáticos. Não participam da trama.

Somente na primeira cena do filme, em Londres, cerca de vinte anos antes da ação principal, figuras ocidentais aparecem e têm falas próprias. Isso acontece, porém, para mostrar o seu ridículo. Empregados brancos e mesquinhos de um hotel destratam e humilham, por preconceito racial, a bilionária singapurense que lá deseja se hospedar. Na mesma hora, de Singapura, o marido compra o estabelecimento para vingar a mulher. A bilionária, que mais tarde se tornará a sogra em potencial da heroína e também sua antagonista, é interpretada pela cativante atriz malásia Michelle Yeoh. Por trás do humor da cena, esse momento inicial é profundamente político e carregado de simbologia. Ilustra a ascensão da Ásia e a decadência do Ocidente.

Ao assistir a Crazy Rich Asians em 2018, minha mulher e eu não sabíamos ainda que, no ano seguinte, pediríamos para trabalhar no Sudeste Asiático, ela em Singapura e eu em Kuala Lumpur, e que chegaríamos aos dois postos no início de 2020. Rever o filme no avião, em maio de 2025, depois de cinco anos na Malásia, de onde eu partira apenas três meses antes, proporcionou uma experiência mais rica. 

Em diferentes momentos dos meus cinco anos no Sudeste Asiático conversei, na Malásia e em Singapura, com ao menos quatro dos atores de Crazy Rich Asians. Inclusive, em 2023, com a própria Michelle Yeoh, quando visitou Kuala Lumpur depois de ganhar seu Oscar. Ao rever o filme, percebi sotaques, formas de falar, expressões corporais que observei muitas vezes nos dois países.

No avião, reconheci locações. É uma história singapurense, mas muitos cenários de filmagem se encontram na verdade na Malásia. Como exemplo, direi que o “bar em Nova York” onde o casal protagonista decide viajar a Singapura é na verdade um restaurante em Kuala Lumpur, em frente ao prédio onde morei. Em uma coluna nestas páginas, Tempos de incerteza, escrita ainda em Kuala Lumpur, mencionei que, em um sábado de janeiro, eu fizera uma palestra intitulada “BRICS e ASEAN: Liderança Global de Brasil e Malásia em Tempos de Incerteza”. Cheguei ao instituto onde aconteceria minha apresentação vindo diretamente desse restaurante, onde almocei tantas vezes.

Assistindo ao filme, que é uma sátira, achamos graça nos excessos dos bilionários asiáticos. As risadas tornam fácil obliterar as verdades políticas, comerciais e econômicas que ele escancara. Por mais que seja repetida, é naturalmente difícil para brasileiros que nunca estiveram no Sudeste Asiático assimilar esta verdade: alguns dos países da região, notadamente Singapura e Malásia, são hoje destinos mais importantes para as exportações do Brasil do que a maioria dos países da União Europeia ou da América do Sul. Politicamente, é no Sudeste Asiático que é sentido mais nitidamente o sentimento de rivalidade dos Estados Unidos em relação à China.

Foi um privilégio trabalhar, até poucos meses atrás, para o estreitamento dos laços entre o Brasil e a Malásia e a Associação de Nações do Sudeste Asiático, a ASEAN. O ano de 2024 foi particularmente rico para esse fim e sobre isso já falei aqui mesmo no Estado de Minas, em O ponto de inflexão.

A Malásia é hoje uma nação próspera, prestes a se tornar um país de alta renda e que compartilha muitas das posições defendidas pelo Brasil. É esse o país que o presidente Lula descobrirá ao desembarcar em Kuala Lumpur, no final de outubro, para ser o primeiro chefe de Estado brasileiro a participar de uma cúpula da ASEAN. Um país onde o Brasil é hoje particularmente querido e admirado.

A Mansão azul, em Penang, Malásia, cenário do jogo de mahjong em Singapura entre sogra e nora

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 11 de outubro.

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Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O delírio do Chimborazo, 13 de setembro

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Geografia do tempo, finalista do Prêmio Jabuti

Geografia do tempo, finalista do Prêmio Jabuti

Uma alegria grande receber em Luanda a notícia de que meu livro Geografia do tempo é finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Crônica.

Muitos amigos a quem agradecer pelo incentivo e o estímulo, como inclusive fiz, nominalmente, no próprio livro. Obrigado uma vez mais a todos vocês!

Obrigado à minha editora, Andrea Jakobsson, pela excelência do projeto gráfico e a atenção que dedicou ao livro.

Obrigado aos meus maravilhosos leitores, que dão vida a Geografia do tempo.

Parabéns aos outros finalistas, companhia tão honrosa para mim:

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Cem anos na Ásia do Leste

Cem anos na Ásia do Leste

Aldeia de Qing Xin Ling, perto de Ipoh

Em março de 2020, quando eu acabara de chegar à Malásia, a Covid-19 me fez presenciar um fenômeno: a multiplicidade de identidades.

Cidadãos brasileiros, nascidos no Brasil, onde moravam suas famílias, mas que residiam, por opção, na Itália, procuraram a embaixada em Kuala Lumpur. A pandemia capturara-os passeando pela Ásia. Voos para a Itália tornavam-se escassos; as passagens eram vendidas a preços proibitivos.

Queriam ser incluídos no voo de repatriação de brasileiros. Tinham, porém, deixado seus passaportes brasileiros na Itália. Viajavam apenas com os documentos italianos. A embaixada brasileira forneceu-lhes novos passaportes.

Pouco depois, souberam que haveria voo de repatriação para a Itália. Embora não gratuito como o brasileiro, era financeiramente mais acessível do que o comercial. Mesmo conferindo precedência novamente à sua identidade italiana, voltaram a procurar, mais de uma vez, nossa embaixada, para obter informações, por exemplo, de como podiam se submeter a teste de COVID-19, condição para a viagem no voo oferecido pelo governo italiano. Deduzo que a embaixada que eu chefiava era a mais amistosa das duas.

Sou imune aos conflitos – ou, se quiserem, às potencialidades – criados pela posse de nacionalidades múltiplas. Minha mulher e eu detemos apenas o passaporte brasileiro, por considerá-lo suficiente.

A leitura de um livro sobre a China lançado este ano me fez lembrar as inquietações desses compatriotas. Recebi-o de um amigo malásio, Liew Chin Tong, vice-ministro de Investimentos, Comércio e Indústria. Político respeitado, intelectual admirado, Liew Chin Tong fez visita de trabalho a Brasília e ao Rio de Janeiro em maio de 2024. Era a sua primeira viagem ao Brasil. No Rio, entre uma reunião e outra, quis conhecer a Biblioteca Nacional.

Há três meses, ao passar por Kuala Lumpur depois da minha palestra em Singapura sobre Roberto Burle Marx, experiência de que tratei nestas páginas em O espaço do diplomata, almocei com Liew Chin Tong, ocasião em que ele me ofereceu o livro.

A obra, do historiador Wang Gungwu, intitulada Roads to Chinese Modernity: Civilisation and National Culture, coleção de ensaios seus dos últimos anos, trata de vários temas. O principal é a análise dos desafios que se apresentam à China neste início de século XXI. Talvez eu comente em uma próxima coluna o tratamento do assunto por Wang Gungwu. Abordo hoje apenas o capítulo final, “Aceitando minhas múltiplas identidades”. Seu objetivo é analisar o que significa ser de origem chinesa mas cidadão de outros países, sobretudo no Sudeste Asiático.

Nascido de pais chineses em 1930 em Surabaya, no que era então as Índias Orientais Neerlandesas e hoje é a Indonésia, Wang Gungwu cresceu na cidade de Ipoh, no estado malásio de Perak, protetorado britânico. Sua escola era inglesa; os professores, “britânicos, indianos, cingaleses, chineses e malaios”. Em casa, falava-se mandarim. Amigos chineses comunicavam-se em cantonês, hakka e hokkien, sendo cantonês a língua franca. A ocupação japonesa na Península Malaia, de 1941 a 1945, foi, cabe lembrar, particularmente cruel para a população de origem chinesa.

Os estudos universitários iniciaram-se em 1947 em Nanjing, onde ele percebeu que os ensinamentos de seu pai em literatura clássica chinesa se contrapunham “à identidade moderna” dos colegas. A Guerra Civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista forçou-o a abandonar a China e voltar para Ipoh depois de um ano e meio. O conflito armado e ideológico fez com que perdesse “todo senso de identidade com a nova China”, por sentir-se crítico em relação aos dois lados.

Seu passaporte até então era o da República da China. Ao voltar a Perak, o pai o convenceu a se tornar cidadão da Federação Malaia, ainda uma colônia britânica. Os estudos universitários prosseguiram na Universidade Malaia, no campus de Singapura. Obteve o doutorado na Universidade de Londres. Regressando ao que pouco depois se tornaria a Malásia, lecionou na Universidade Malaia, no campus de Kuala Lumpur. “Possuir mais de uma identidade parecia normal”, comenta, e “ser malásio não me libertava da identidade como chinês”. Uma frase chama minha atenção: “o status legal conferido pela cidadania e o passaporte não captura as muitas camadas de identidade que todos possuem”.

Seu interesse maior como historiador é o estudo da diáspora chinesa, cerca de 60 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Sentia-se restringido intelectualmente na Malásia, onde livros chineses contemporâneos eram proibidos. Havia tensões étnicas entre os malaios e os malásios de origem chinesa, exemplificadas de maneira dramática pela expulsão de Singapura da Malásia em 1965 e os violentos motins de 1969 em Kuala Lumpur, “the riots”, citados ainda hoje como uma página soturna na história do país.

Em 1968, Wang Gungwu e sua família mudaram-se para Camberra, onde ele lecionaria na Universidade Nacional Australiana. Adquiriu a nacionalidade australiana, por duas razões: a boa adaptação de seus filhos no novo país e a liberdade acadêmica. Em 1986, mudou-se por dez anos para Hong Kong, como vice-reitor da universidade. Desde 1996, mora em Singapura, onde trabalha no Instituto de Ásia do Leste, ligado à Universidade Nacional.

O historiador é modesto sobre sua carreira acadêmica, durante a qual ocupou posições prestigiosas. Manifesta apreço por Singapura, que considera uma das cidades verdadeiramente globais e multiculturais; mas nunca adquiriu a nacionalidade do país. Termina o livro dizendo: “estou feliz sendo um chinês pelo nascimento, admiro o êxito de Singapura e me sinto confortável tendo uma visão de mundo formada pelo fato de ser oriundo do Sudeste Asiático”.

Wang Gungwu, de quem tomei conhecimento graças ao presente do amigo malásio, passou a simbolizar para mim as impressionantes mutações políticas, militares, econômicas e sociais experimentadas pela Ásia do Leste nos últimos cem anos. Cresceu em meio a essas mutações. Resiliente, pode agora nos ajudar a pensar a respeito.

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 27 de setembro.

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O delírio do Chimborazo, 13 de setembro

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O delírio do Chimborazo

O delírio do Chimborazo

Abro a biografia de João Cabral de Melo Neto escrita por Ivan Marques, publicada em 2021, para reler o capítulo sobre a sua experiência no Equador, onde foi embaixador de 1979 a 1981. Vinte anos depois, minha família e eu também moraríamos em Quito. Para minha mulher e para mim, foi o nosso segundo posto na carreira diplomática.

Nenhuma experiência humana pode ser replicada. O Equador do poeta pernambucano não foi o nosso. Mas o livro de Ivan Marques, verdadeiro modelo de como deve ser o estudo biográfico sobre um autor, me transporta à época em que lá vivi.

O centenário de nascimento, em 2020, foi profícuo para a memória de João Cabral, falecido aos 79 anos em outubro de 1999. Ao escrever isso, noto que meu pai morrera apenas um mês antes, embora bem mais jovem.

Além da biografia de Ivan Marques, houve pelo menos, no período do centenário, a “Fotobiografia” de 2021, organizada por Eucanaã Ferraz e coordenada por Valéria Lamego; e uma edição da obra integral, “Poesia completa”, lançada pela Alfaguara em 2020, com prefácio de Antonio Carlos Secchin.

Temos os três livros em casa. No início de 2022, reabertas as fronteiras na Malásia depois de dois anos de pandemia, eu os encomendei a um colega, diplomata mineiro que vinha trabalhar na embaixada em Kuala Lumpur. Selecionei também, entre outros, “Copo vazio”, de Natalia Timerman, “O som do rugido da onça”, de Micheliny Verunschk, e “O castiçal florentino”, de Paulo Henriques Britto, sobre o qual eu viria a escrever um ensaio, que publiquei no “Estado da Arte”.

Falta na nossa biblioteca a edição bilíngue, editada pela embaixada em Quito em 2020, quando João Almino lá era embaixador, dos dez poemas cabralinos sobre o Equador contidos em “Viver nos Andes”, seção do livro “Agrestes”, de 1985.

Na edição da Alfaguara, são vários os poemas, alguns inéditos, a mencionar o Chimborazo, imenso vulcão dormente, ponto no mundo mais distante do centro da Terra. Em três deles, há menção a Simón Bolívar.

O Libertador, que subiu a montanha em 1822, escreveu um poema em prosa, “Mi delirio sobre el Chimborazo”. O texto é mistura de postulado político e experiência metafísica. Há trechos bonitos, como este conselho — péssimo, a meu ver: “não escondas os segredos que o céu te revelou: diz a verdade aos homens”. A neve é um “imenso diamante que me servia de leito”. Termina o poema, que podemos tomar como a descrição de um transe, com os versos: “abro com minhas próprias mãos as pálpebras pesadas: volto a ser homem, e escrevo o meu delírio”.

Em “Bolívar e o Chimborazo”, João Cabral explica que “Bolívar viu no Chimborazo todo o enorme de sua missão”. Mas, de maneira muito característica da secura do nosso poeta, contrapõe-se em outro poema, “Sem retórica”, à noção de que o vulcão inspira grandiloquência; estima ser o Chimborazo “apenas geologia”, cuja altura “nenhuma grandeza anuncia”.

Trabalhei três anos e meio no Equador; visitei o páramo do Cotopaxi, a quase cinco mil metros de altitude; mas nunca subi às alturas do Chimborazo. O trajeto de 200 quilômetros pelos Andes, desde Quito, dura quase quatro horas. Nossa filha era pequena, não viajava confortavelmente, e isso restringiu os passeios pelo país. E no entanto, sou fascinado com o vulcão desde a infância, quando morávamos em Montevidéu e minha mãe viajou a Quito para uma reunião. Voltou trazendo-nos um livro sobre o Equador, de 1970. O autor era Arturo Eichler, nascido na Alemanha e, exilado do nazismo, naturalizado equatoriano.

As fotos revelavam uma vida distante, misteriosa. Eichler deixou fama como um dos primeiros conservacionistas ambientais, e a obra, registro de suas andanças pelo país de adoção, em estilo de romance de aventuras, focaliza a belíssima natureza equatoriana. Um dos capítulos narra sua ascensão ao Chimborazo em 1947. O prefácio é de Alfredo Pareja Diezcanseco, intelectual que seria mais tarde chanceler, no período em que João Cabral de Melo Neto foi embaixador em Quito; é, por isso, citado na biografia de Ivan Marques.

Para as crianças que nós éramos, o mais surpreendente era a capa, de cores intensas, desenhada por Oswaldo Guayasamín, mostrando plantas tropicais. Bem no centro está, límpido, azul, com o cone branco, um vulcão. Acarinhei-me ao livro. Guardo-o até hoje, com suas páginas já tão desgastadas. Na infância, eu não podia prever que um dia trabalharia em Quito, conheceria a família Guayasamín e passaria anos desejando conduzir o carro ao Chimborazo.

Um dia, no Equador, revelei à fotógrafa Marcela García essa antiga aspiração. Ela então me disse: “Quando meu avô comprou uma fazenda, no começo do século XX, o contrato especificava: ´Incluye el cerro´. O morro assim mencionado na escritura de posse da terra era o Chimborazo”. Pareceu-me extraordinário que um particular pudesse ter sido dono do maior dos vulcões equatorianos; julguei a história digna de ser contada em meu livro “Geografia do tempo”.

O Chimborazo, que o poeta-diplomata considera ser “só capaz de ensinar silêncio” e viver em “uma imensa espera”, simboliza todos os lugares cobiçados e que não conheci até hoje: Pantanal, Ceará, Porto Seguro, Hong Kong, Luang Prabang, Castel del Monte, Iasnaia Poliana. A lista é, na verdade, bastante longa. Forma uma geografia própria, fustigada pelo tempo, cada vez mais inalcançável.

Os anos passam, e os sonhos se eternizam. O vulcão serviu de inspiração grandiosa para Bolívar e monumental para João Cabral. De maneira bem mais simples, eu gostaria apenas de pegar um avião, satisfazer a ambição da infância, ver o Chimborazo e, diante de sua imponência, acreditar na noção de eternidade da Terra. Pensar na beleza do mundo e viver assim o meu delírio.

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 13 de setembro.

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O diplomata robô, 30 de agosto

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O embaixador decapitado, 2 de agosto

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Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

Tempos de incerteza, 1º de fevereiro

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O diplomata robô

O diplomata robô

No final de junho, em Luanda, foi inaugurado o novo edifício da embaixada da China. É um prédio colossal e funcional. Conheço muitas das embaixadas brasileiras. Nenhuma lhe pode ser comparada, em termos de área.

Na recepção de inauguração, o embaixador da China mencionou haver em Angola quatrocentas empresas chinesas e investimentos de seu país da ordem de 25 bilhões de dólares. São números impressionantes. O embaixador anunciou que o objetivo da China, agora, é passar a cooperar com Angola em áreas novas e novíssimas, como energias renováveis e inteligência artificial.

E justamente, em um pátio externo, havia demontrações do avanço tecnológico chinês. Um carro elétrico superinteligente, com modelo avançado de integração digital, chamava a atenção dos convidados. Não tanto a minha, porque considero automóveis apenas máquinas úteis. Alguém ao meu lado, mais entusiasmado, comentou: “É o tipo de carro que pode andar e estacionar sozinho”.

Notei um grupo fazendo círculo. Aproximei-me. No centro, um robô humanóide tagarelava, feliz, em português. Respondia sem hesitação a qualquer pergunta, dialogava com serenidade, em tom amistoso. Despertava curiosidade e provocava sorrisos nos convidados. Falei “boa noite”. Ele se virou, veio até mim, estendeu-me a mão. Apresentou-se. Seu nome era Mateus. Conversamos. Perguntei como estava, o que achava de Luanda, se suportava bem o clima seco e invernal desta época do ano, conhecido como cacimbo.

Quem imagina a África subsaariana como um continente de clima sempre quente se engana. Como no Sul e no Sudeste do Brasil, o termômetro tem caído em Luanda, sobretudo à noite. Ao longo do dia, fica agradável, mas pode haver vento gelado. Lembro as temperaturas que durante anos seguidos vivenciei, em julho, na Zona da Mata em Minas Gerais.

Mateus revelou-se um verdadeiro diplomata. Respondia às minhas perguntas com educação e de forma a agradar a qualquer um dos presentes que escutavam nosso diálogo. Podia ser um humanóide mas, ao contrário de muitos humanos, não demonstrava qualquer propensão à violência, à agressividade, à ironia ferina.

Algo porém me intrigava, a sua forma de falar. Perguntei-lhe: “Você é brasileiro?”. Ele se surpreendeu, não confirmou nem negou. Reagiu indagando por que eu pensava aquilo. Expliquei que o seu sotaque parecia o de um compatriota. Na verdade, era um nítido sotaque do norte do Paraná ou interior de São Paulo. Sempre diplomático, rodeado de autoridades angolanas que ouviam a nossa conversa, e não querendo ferir nenhuma sensibilidade, Mateus retrucou, amavelmente, que seu português era “neutro” e não podia ser atribuído a uma nacionalidade específica. A essa altura, minha mulher, que é curitibana, juntara-se ao grupo onde o diálogo transcorria. “Você tem certeza de que não é de Guarapuava?”, perguntou ao robô.

Despedimo-nos de Mateus para ir ao salão onde o bufê era servido. Enquanto alguns convidados se dirigiam diretamente às mesas carregadas de pratos da culinária chinesa, passeamos pela sala. Canais de televisão iam de uma a outra autoridade local. Um ministro explicava à imprensa que o comércio bilateral, em 2024, atingiu o volume de 24 bilhões de dólares, sendo a China o maior parceiro comercial de Angola e principal investidor estrangeiro no país, excluindo-se o setor petroleiro, onde ainda predominam França, Estados Unidos e Reino Unido. Ouvimos outro ministro declarar exatamente o que estávamos pensando: “Um país que constrói uma embaixada deste tamanho é porque veio para ficar, porque confia no futuro de Angola”.

Poucos dias depois, viajei de férias por uma semana, para fazer em Singapura, no Festival de Arquitetura, uma palestra sobre Roberto Burle Marx, tema de que tratei em coluna anterior, “O espaço do diplomata”. Tanto na escala em Kuala Lumpur como em Singapura, ouvi de meus amigos asiáticos a pergunta “Que tal Angola?”. Essa é uma indagação natural quando revemos alguém com quem convivíamos e que partiu para um país que não conhecemos.

Se há algo que os países do Sudeste Asiático compreendem bem, é o peso geopolítico, a eficiência, a objetividade da China, sua vizinha. Considerei, assim, que a maneira mais ilustrativa para definir Angola junto aos meus interlocutores malásios e singapurenses seria mencionar a dimensão da presença chinesa, os investimentos, a sua nova embaixada em Luanda, o número de empresas, o volume de comércio. Ouvindo-me desfiar esses dados, entenderam meus amigos a importância que a China atribui à África e, neste caso mais especificamente, a Angola.

De regresso da Ásia, jantei na casa do embaixador da China. Sondei quantos diplomatas trabalham na embaixada. São 28, sem contar o proprio embaixador e o numeroso pessoal de apoio. De novo, nenhuma embaixada brasileira é tão grande, em termos de pessoal diplomático.

Perguntei por Mateus. Respondeu o embaixador que ele já estava de volta à China. Entendi então plenamente o sentido da celebração pela inauguração da embaixada. Ao contrário do que podem pensar os inocentes ou os maldizentes, uma recepção diplomática nunca é apenas uma festa. É sempre mais uma ocasião de atingir um objetivo político.

O novo prédio demonstrara para os angolanos e para o corpo diplomático estrangeiro como a China vê Angola. Esclarecera que este não é um país banal para a diplomacia chinesa, mas constitui uma ambiciosa aposta no futuro. Ao mesmo tempo, o carro superinteligente e o robô haviam sido uma evidência palpável, para os convidados, do avanço tecnológico, da modernidade da China. Provaram, se é que isto ainda era necessário, que a intenção chinesa de participar do desenvolvimento econômico de Angola é baseada em uma capacidade real, não em promessas insustentáveis.

Deduzi que, de fato, a presença de Mateus na embaixada já não era necessária. Sua curta missão diplomática em Luanda pudera ser concluída. Fora eficazmente cumprida.

Mateus na embaixada da China.

Essa é a minha coluna no jornal Estado de Minas publicada ontem, 30 de agosto.

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Botas diplomáticas, 17 de agosto

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Botas diplomáticas

Botas diplomáticas

Coluna publicada no jornal Estado de Minas no domingo 17 de agosto.

A notícia de que o governo do Catar estaria doando um Boeing 747 para servir de novo  Air Force One para o presidente dos Estados Unidos gera discussões sobre a conveniência de que o presente seja aceito. O debate me fez tirar da estante o livro de um diplomata britânico, Paul Brummell, publicado em 2022, Presentes diplomáticos.

Ali são analisados, de forma espirituosa, cinquenta presentes — da Estátua da Liberdade a cisnes, queijos, louças e pinturas — trocados ao longo da História entre países, povos ou chefes de Estado, e a mensagem que procuraram transmitir. Brummell insere cada objeto em seu contexto histórico e cultural e aponta aspectos sociológicos do ato de presentear. Cita várias vezes o sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, por conta da sua obra clássica, Ensaio sobre o Dom, de 1925. O livro Estruturas da vida social, do antropólogo americano Alan Fiske, em que os relacionamentos humanos são divididos em quatro tipos, foi também uma fonte para a visão de Brummell.

Tanto a introdução quanto a conclusão mencionam anedotas pitorescas. Só isso já indicaria ser o autor um diplomata, pois diplomatas adoram contar anedotas, embora raramente o façam de maneira tão inteligente, instruída e engraçada como Brummell. Lemos sobre o filhote de camelo que François Hollande, então presidente da França, recebeu do governo do Mali em 2013, quando visitava o país. Seus assessores deixaram o animal com uma família em Tombuctu, até que providências fossem tomadas para transportá-lo à França. Por um erro de compreensão, o filhote “serviu de ingrediente principal para um tagine particularmente delicioso”.

Os dois pandas presenteados pela China ao Japão, em 1972, foram um exemplo daquilo que, criança, aprendi chamar-se “diplomacia do panda”. Quando minha família e eu fomos morar em Washington, em 1994, pudemos ainda conhecer Hsing-Hsing, sobrevivente do célebre casal doado, também em 1972, aos Estados Unidos. Ling-Ling morrera em 1992. Durante muitos anos, nos diz Brummell, pandas serviram de presente excepcionalmente prestigioso, para a China e para o país destinatário: raro e encantador, e por essas razões admirado no exterior, o animal é exclusivamente chinês, servindo de cartão postal para o país.

Animais são numerosos entre os presentes analisados no livro. Em 1514, D. Manuel, o Venturoso, destinatário da Carta de Pero Vaz de Caminha, enviou um elefante indiano ao Papa Leão X. Ao contrário dos pandas em relação à China, o elefante não simboliza Portugal. O objetivo do rei era demonstrar a expansão territorial de Portugal em outros continentes, o seu poderio marítimo. Leão X, membro hedonístico da família dos Médicis, adorou o elefante, que morreria dois anos depois em Roma.

É notável o capítulo sobre os Três Reis Magos, sua viagem para conhecer o Menino Jesus e os presentes que levaram. O tema, mencionado apenas em um parágrafo do Evangelho segundo Mateus — que não nos fornece seus nomes, não diz que eram reis e nem sequer que eram três —, foi ao longo dos séculos adquirindo importância cultural e religiosa. Contida na história dos presentes oferecidos pelos magos, há a menção a outra doação, a dos seus ossos ao arcebispo de Colônia em 1162. Na catedral daquela cidade, um relicário medieval, dourado, contém teoricamente os restos mortais de Melchior, Baltasar e Gaspar. A narrativa de Brummell, cativante, me fez sentir pena, por um momento, de não poder me deslocar imediatamente a Colônia e rever o relicário.

Há dois capítulos envolvendo diamantes. No primeiro, o xá da Pérsia envia seu neto a São Petersburgo, em 1829, para se fazer perdoar pelo massacre, por uma multidão, dos funcionários da Embaixada da Rússia em Teerã, incluindo o embaixador, Aleksandr Griboiedov. A figura de Griboiedov, cujo cadáver desfigurado e decapitado representa os riscos da vida diplomática, me interessa há muitos anos. Também escritor, ele hoje é lembrado como autor de uma peça de teatro. Brummell nos conta que a missão persa entregou ao tsar Nicolau I um diamante, exemplo de “presente oferecido para pedir desculpas e evitar penalidade”.

A outra história refere-se a muitos diamantes, aqueles recebidos pelo presidente da França Valéry Giscard d´Estaing de Jean-Bédel Bokassa, presidente e depois imperador centro-africano. L´affaire des diamants estará para sempre ligada ao nome do presidente francês e contribuiu para que fracassasse sua tentativa de reeleição, em 1979.

Severo com Giscard d´Estaing, Brummell evita tratar de jóias ligadas à monarquia inglesa. Fernando Morais, em “Chatô, o rei do Brasil” lembra como, em 1953, Assis Chateaubriand — fundador dos Diários Associados — escolheu, sem consultá-los, “oito felizardos” para que se cotizassem e pagassem, como presente de coroação brasileiro a Elizabeth II, “um conjunto de colar e brincos de águas-marinhas e brilhantes”. A rainha da Inglaterra, uma das mulheres mais ricas do mundo, aceitou o luxuoso conjunto, entregue em nome do povo de um país mais pobre. Usou o colar e os brincos frequentemente. Ainda hoje, de vez em quando, surgem notícias na imprensa sobre jóias doadas por potentados árabes a membros da família real britânica.          

Brummell nos conta haver razões culturais e religiosas — entre elas “a tradição islâmica de presentear generosamente” — para que dons diplomáticos de valor material elevado venham agora sobretudo de países do Oriente Médio.

Em 2008, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, ofereceu ao presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, um par de botas da marca R. M. Williams. Símbolo australiano, as botas seriam “objetos desejáveis, mas não excessivamente caros”. Peças de vestuário, indicariam “uma relação amistosa entre os dois líderes”. Presenteadas a um governante estrangeiro, ajudariam a promover a marca e as exportações do produto. De todos os dons descritos no livro, talvez sejam, entre os mais recentes, o mais útil e o mais hábil.  

Fotografei o mural dos elefantes em Kuala Kangsar, capital real de Perak, na Malásia

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O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Cenários do poder, 5 de julho

Memória diplomática, 21 de junho

Batuque na cozinha, 7 de junho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

Retrato de família, 10 de maio

Benção apostólica, 26 de abril

O presente malásio, 12 de abril

Eterna cobiça, 29 de março

Grandes diplomatas, 15 de março

Consternação europeia, 1º de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

Tempos de incerteza, 1º de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro  

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O embaixador decapitado

O embaixador decapitado

Um telefonema a Kuala Lumpur, semana passada, me fez viajar no tempo ao dia em que vi o embaixador decapitado.

Preparando um ensaio sobre o Museu de Artes Islâmicas da capital malásia, há quatro anos, acolhi a sugestão de seu fundador e diretor, Syed Mohamad Albukhary, de visitar o depósito no subsolo do edifício. Por falta de espaço nas salas, ali é guardada a coleção de arte orientalista: pinturas de artistas ocidentais, em geral do século XIX, representando locais e personagens de Turquia, Oriente Médio e norte da África.

A diretora de coleções do museu, Rekha Verma, mostrou-me as obras. De repente, a revelação. Vi-me frente a um quadro famoso que eu não sabia pertencer àquele acervo. Poucos dias antes eu lera alguns parágrafos sobre ele no livro de memórias da artista que o pintara. A coincidência me surpreendeu.

Mais impressionante, porém, era o quadro em si. É um retrato em pé, grande, majestoso, de Muhammad Dervish Khan, enviado em 1788 à corte francesa por Sultão Tipu, soberano de Mysore, na Índia. O nome em português é Maiçor. Castro Alves, em “Vozes d´África” e “Jesuítas”, usa Misora, que soa mais bonito. Sultão Tipu, cujo apelido era Tigre de Mysore, representou o último esforço nativo de resistir ao avanço da Companhia das Índias Orientais britânica no subcontinente indiano. Seu objetivo, com o envio da missão, era obter o apoio militar da França contra a expansão inglesa. 

Dervish Khan, acompanhado de dois outros embaixadores, Akbar Ali Khan e Mohammad Osman Khan, e uma comitiva de cerca de quarenta pessoas, embarcou em julho de 1787. O navio aportou em Toulon em junho de 1788. Em julho, os embaixadores chegavam a Paris. Por onde iam, os enviados do Tigre de Mysore causavam sensação. As Memórias de um pajem de Luís XVI, o conde d´Hézecques, ecoam o impacto gerado pelos indianos: “eles despertaram fortemente a atenção de toda a França”. Para os franceses da época, viajantes indianos ou mesmo de qualquer lugar da Ásia representavam uma raridade.

A audiência pública com Luís XVI em Versalhes aconteceu em 10 de agosto. Félix d´Hézecques nos diz que havia multidões no palácio nesse dia. Então representante dos Estados Unidos em Paris, Thomas Jefferson, testemunha da cerimônia, escreveu ao Secretário de Estado, John Jay: “Os embaixadores de Sultão Tipu foram recebidos hoje em Versalhes, com uma pompa inusual. As pessoas presentes eram tão numerosas que pouco se podia captar do diálogo com o rei. Pelo pouco que pude escutar, houve apenas promessas mútuas de boa vontade”.

E assim foi. Os emissários de Sultão Tipu chegavam à França em momento inoportuno. Cinco anos antes, em 1783, a Paz de Paris pusera fim à Guerra de Independência dos Estados Unidos, onerosa para a França, aliada dos americanos. Dificilmente poderia Luís XVI, com as finanças francesas em situação calamitosa, envolver-se em novo conflito com a Inglaterra. Noto que apenas dois dias antes da recepção dos enviados indianos em Versalhes, o rei anunciara que a reunião dos Estados Gerais, ideia lançada em 1787 para se concretizar em 1792, aconteceria em maio de 1789. Acabara de ser dado o pontapé inicial no processo que desembocaria na Revolução. Em onze meses, a Bastilha seria tomada. Os embaixadores de Sultão Tipu, assim, ocasionaram e ao mesmo tempo presenciaram um dos últimos momentos faustosos do Ancien Régime.

Foi Élisabeth Vigée Lebrun quem pintou o retrato de Dervish Khan que encontrei no subsolo do museu em Kuala Lumpur. Retratista habitual de Maria Antonieta, a quem provavelmente embelezava na tela, a artista é em parte responsável, hoje, pelo sentimento de empatia despertado no observador pela rainha guilhotinada. Em suas Memórias, Madame Vigée Lebrun nos conta como foi sua interação com os enviados de Mysore. Ela os viu na Ópera e achou-os “extraordinariamente pitorescos”. Sua decisão de pintá-los provocou situações rocambolescas. Fez, além do retrato de Dervish Khan, o de Osman Khan, mas esse se perdeu.

Ao regressarem a Mysore, onde chegaram em maio de 1789, os enviados se depararam com a enorme contrariedade do soberano diante do seu fracasso. A mais antiga fonte impressa a respeito da missão que pude acessar é um livro de 1801 sobre o reino de Mysore. Seu autor, o historiador francês Joseph-François Michaud afirma, sem citar a origem da informação, que Sultão Tipu se irritou não só com o insucesso do pedido de ajuda militar contra os ingleses, mas também com os continuados elogios à França feitos pelos seus enviados: “ele não gostava de ouvir que havia uma monarquia mais rica e mais florescente do que a sua”. Michaud relata que, um dia, passeando de maneira afastada com dois dos embaixadores, “ele mandou matá-los”. É frequentemente repetida a asserção de que Dervish Khan e seus companheiros foram decapitados.

Dez anos depois, em 1799, a capital de Sultão Tipu, Seringapatam, foi conquistada e saqueada pelos britânicos. Ele próprio aí morreu, em combate, vítima da transformação da Companha das Índias Orientais, como diz o historiador William Dalrymple em seu livro The Anarchy, de corporação comercial convencional, que negociava sedas e especiarias, em um “poder colonial agressivo”. 

No telefonema da semana passada, soube por Rekha Verma que em agosto abrirá no museu em Kuala Lumpur uma exposição sobre o Tigre de Mysore. A iniciativa pareceu-me tempestiva, em um contexto em que questões comerciais são novamente usadas como arma política, agora por meio de tarifaços.

O retrato de Dervish Khan estará exposto. Saindo do subsolo onde é preservado, envolto na lenda que o acompanha, ilustrará para o público a miragem e os riscos de toda missão diplomática.   

  

@Islamic Arts Museum Malaysia

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 2 de agosto.

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O espaço do diplomata

O espaço do diplomata

Recebi o convite em janeiro. O Festival de Arquitetura de Singapura, evento anual patrocinado pelo Singapore Institute of Architects, queria que eu fizesse uma apresentação sobre Roberto Burle Marx. Hesitei. O Festival seria em junho, quando eu já não estaria na Malásia mas em Angola, longe do Sudeste Asiático. O Festival insistiu. Pensei que eu não deveria deixar passar uma nova oportunidade de divulgar o nome do grande paisagista brasileiro. Aceitei.

Em uma coluna nestas páginas publicada em fevereiro, “Da Pampulha para Kuala Lumpur”, falei do jardim projetado por Burle Marx na capital malásia e do livro Um brasileiro em Kuala Lumpur: Roberto Burle Marx e o Parque KLCC. Resultado particularmente tangível do meu trabalho como embaixador na Malásia, o livro serviu ao meu propósito de tornar o Brasil e seus maiores talentos mais conhecidos naquele país.

Cada edição do Festival de Arquitetura de Singapura é organizada por um arquiteto diferente. Este ano, a tarefa coube a Rene Tan, cujo estúdio é responsável pelo conjunto residencial que considero o mais espetacular de Kuala Lumpur, o Fennel, com o qual ganhou vários prêmios internacionais.

Seminários de três dias, com multiplicidade de palestras, mesas-redondas e estandes são como a batalha de Waterloo na forma descrita por Stendhal em A Cartuxa de Parma. Muita coisa acontece ao mesmo tempo, em diferentes lugares, e captamos somente aquilo que está ao alcance mais imediato do olhar. Apenas Rene Tan, que durante três dias circulou incessantemente de um lado a outro, terá podido avaliar o resultado final do Festival. Para os palestrantes, restava o privilégio de estar ali, no Centro de Convenções do icônico Marina Bay Sands, símbolo arquitetônico de Singapura por excelência. 

No painel de que participei, Alexander Wong, de Hong Kong, que eu já conhecia, expôs sua atividade como projetista de salas de cinema na China, com desenho futurista arrojado, em trabalhos amplamente elogiados pela imprensa ocidental. Em outro painel, o indiano Ambrish Arora explicou como, ao criar um hotel em Jodhpur, no Rajastão, na base da montanha onde sobressai o Forte de Mehrangarh, edificado entre os séculos XV e XVII, levou em conta a necessidade de não destoar da arquitetura histórica dos arredores mas evitar, ao mesmo tempo, um pastiche. No dia seguinte, no café da manhã no hotel, descobriríamos uma amizade em comum, André Corrêa do Lago, presidente da COP30 e membro do júri do Prêmio Pritzker.

Renata Furlanetto incluíra em sua fala uma foto do Palácio do Itamaraty, com o jardim aquático em evidência, idêntica a uma imagem que eu mostraria mais tarde em minha apresentação. Apontei não ser coincidência os dois brasileiros presentes no Festival exibirem um prédio que é, na conjunção da arquitetura de Oscar Niemeyer e do paisagismo de Burle Marx, um marco do modernismo brasileiro. Mostrar e ver em Singapura a sede da diplomacia brasileira, neste momento de tensões e incertezas geopolíticas, trouxe-me reconforto. A sua própria solidez parecia uma garantia de continuidade e equilíbrio.

Teria gostado de assistir a mais palestras no Festival. Perdi a de uma grande estrela, o japonês Riken Yamamoto, ganhador do Pritzker em 2024. Jantando com alguns dos participantes, conversei com o austríaco Dietmar Eberle. Sediado em Bregenz, ele me explicou que o grau de prosperidade da sua região geográfica é exemplificado pelo número elevado de museus de arte contemporânea ali abrigados. Por esse cálculo, os milionários brasileiros precisam ainda desenvolver a filantropia na área da museografia — e em tantas outras —, mas minha primeira reação foi pensar no fato extraordinário de Inhotim existir no Brasil.

Ao final do painel de que eu participava, o moderador, Calvin Chua, retomando o tema do Festival este ano, “Não pense (apenas) como um arquiteto”, perguntou o que nós, os quatro debatedores, sugeriríamos ao público como forma de pensar. Ofereci que pensassem como um diplomata. O diplomata um dia edita um livro sobre Burle Marx, no outro negocia um acordo internacional, mas seu objetivo final não varia ao procurar sempre promover a conciliação entre interesses por vezes distintos. Precisa, idealmente, desenvolver uma atitude serena, paciente, zen, no fundo bastante asiática, se quisermos usar um clichê. Seria útil para todo mundo cultivar um temperamento assim no dia a dia.

Uma pergunta da plateia sondou como lidar com o conceito de espaço. Melhor indagação impossível, em um festival de arquitetura. Decidi responder falando do espaço a ser almejado pelo diplomata. A questão que se coloca para mim, ao trabalhar no exterior, é como me inserir na sociedade local para influenciá-la em favor do Brasil. A defesa dos interesses e da imagem do seu país constitui, por definição, o espaço do diplomata. É no cumprimento desse dever, e não na expectativa de reconhecimento, que encontramos o propósito e a gratificação da vida profissional.

A palestra em Singapura permitiu-me incluir curtas estadas, na ida e na volta, em Kuala Lumpur. Foi maravilhoso rever amigos nas duas cidades, nessa intensa viagem de uma semana. No último dia, uma jornalista malásia me perguntou se voltar ao Sudeste Asiático, de onde eu partira em fevereiro, me causava nostalgia. Respondi com sinceridade que não. Meus cinco anos em Kuala Lumpur foram perfeitamente felizes. Voltar menos de cinco meses depois proporcionara momentos mágicos. Mais importante do que o espaço exterior, contudo, é o espaço interno.

Esse começa vazio, enorme, infinito. Gradualmente, como pedras ou tijolos em uma construção física, família, amigos, lugares, livros, obras de arte, o tempo e a memória vão construindo um edifício. Onde eu estiver, ele sobrevive, continuamente acrescentando andares, mais sólido do que qualquer arranha-céu, casa ou gabinete.

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 19 de julho.

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Cenários do poder

Cenários do poder

Como nos lembra o historiador Thierry Sarmant no livro que publicou este ano, História dos palácios: o poder e sua encenação na França, do século V ao XXI, os locais onde vivem e trabalham os governantes sofrem constantes evoluções.

Há poucos meses, o presidente da França abriu as portas do Palácio do Élysée à cadeia norte-americana de notícias CNN. Entre os temas de que tratou com o jornalista Richard Quest estiveram inteligência artificial, Gaza, sua ambição por uma maior independência estratégica da União Europeia e a guerra na Ucrânia. Pouco pressionado pelo entrevistador, Emmanuel Macron transformou a ocasião em um monólogo, em um inglês fluente mas com sotaque.

Ao final da conversa, exibiu algumas salas do Élysée. Comentaristas franceses apontaram a raridade do tour assim proporcionado pelo presidente. Nas imagens que registram a visita nota-se o contraste entre de um lado obras de arte e peças de mobiliário contemporâneas, de outro móveis do século XVIII e entalhes dourados nas paredes do edifício, construído a partir de 1722 para um membro da alta nobreza.

No Salão Cleópatra, a tapeçaria mostrando o encontro entre Marco Antonio e a rainha egípcia, que empresta seu nome ao aposento, foi retirada. Em seu lugar, pendurou-se uma obra recente e estridente. No Salão Pompadour está exposta outra tapeçaria, “Mulher no espelho”, baseada em uma litogravura de Joan Miró. Minha peça predileta é uma escultura em mármore e bronze por Arman, “Tributo à Revolução de 1789”, encomendada por François Mitterrand para celebrar o bicentenário da Revolução. Colocada no vestíbulo, é a primeira visão que os visitantes ilustres recebem do interior do palácio.

Sobram hoje poucos vestígios dos locais de residência dos reis Merovíngios. Sarmant entende, no entanto, que as jóias e os móveis luxuosos que sobreviveram — como o trono de Dagoberto, que uma vez vi em uma exposição em Veneza — permitem pensar que aqueles soberanos do início da Idade Média viviam de maneira menos rústica do que imaginamos. Já dos Carolíngios restam ainda prédios, embora o mais famoso deles, a Capela Palatina em Aix-la-Chapelle, ou Aachen, esteja situado no que é hoje território da Alemanha. A partir dos Capetos, Paris gradualmente se impõe como capital, e vários castelos dos monarcas, na cidade principal ou perto dela — o Palais de la Cité, o Louvre, Vincennes, Fontainebleau, Saint-Germain-en-Laye — passam a ter perenidade, embora sofram importantes mutações com o tempo. Nos últimos cem anos da monarquia absolutista, Versalhes passa a ser, como sabemos, a residência preponderante.

Sarmant nos mostra como o Elysée, casa e escritório do presidente da República Francesa desde a década de 1870, excluindo-se o período da II Grande Guerra, marcado pela ocupação alemã, é modificado pelos titulares do cargo. Em geral, os presidentes preferem mobília Luís XV ou Luís XVI. Georges e Claude Pompidou, assim como Emmanuel e Brigitte Macron, são exceções, e optaram por artistas e projetistas modernos.

Uma moral que extraí da leitura de Histoire des palais é a transitoriedade até mesmo do poder aparentemente mais sólido. O gradual fortalecimento, ao longo de 800 anos, com sobressaltos, dos Capetos e seus ramos Valois e Bourbon, que resultou na unificação territorial da França e no absolutismo, é eliminado em um par de anos, entre 1789 e 1792. Edificados durante séculos, os palácios da dinastia são rapidamente apropriados por novos governantes, sobretudo aqueles situados em Paris e seu entorno. Versalhes, com sua excessiva carga simbólica, é a exceção.

O Palácio das Tulherias, última morada de Luís XVI e Maria Antonieta antes da sua prisão e da abolição da monarquia em setembro de 1792, é o caso mais emblemático. Já em maio de 1793, lá se instala a Convenção Nacional revolucionária. Como aponta Sarmant, todos os regimes do século XIX que governaram a partir das Tulherias “buscaram o fausto monárquico, na suposição de que assim impressionariam os franceses, mas isso não salvou nem Napoleão I em 1814, nem Carlos X em 1830, nem Luís Filipe em 1848, nem Napoleão III em 1870”.

O Élysée tornou-se residência dos presidentes porque, apesar de suas conexões monárquicas — pertenceu a Luís XV; à sua favorita, a marquesa de Pompadour; a Napoleão I, que lá abdicou pela segunda vez em 1815 (e antes disso à sua irmã, Caroline Murat, rainha de Nápoles); e a Napoleão III — é um palácio de segunda divisão. Luxuoso, mas pequeno para padrões reais, e nunca residência oficial de soberanos franceses. Fica a dúvida no leitor se, caso as Tulherias não tivessem sido incendiadas pela Comuna em 1871, o regime republicano não teria cedido à tentação de lá se instalar.

Duas vezes trabalhei em palácios brasilienses, o Itamaraty e o Planalto. São obras-primas da arquitetura modernista brasileira, os mais bonitos de Brasília, junto com o Alvorada. O Itamaraty pareceu-me sempre acolhedor, apesar das salas subterrâneas. Como o Élysée sob alguns dos presidentes franceses, mas de maneira mais convincente, mistura quadros e móveis antigos com obras mais recentes, ajudado nisso pela arquitetura inovadora. O Planalto é elegante mas francamente gélido. Sentar-se lá é como isolar-se de qualquer outra realidade física conhecida. Quanto ao Alvorada, são conhecidas as queixas de falta de privacidade de alguns de seus moradores.

A leitura me fez questionar a razão pela qual, em uma capital republicana, inaugurada em 1960, deu-se o nome de “Palácio” a esses e a outros edifícios de Brasília. O local ainda considerado o centro do poder no Ocidente é conhecido simplesmente como uma casa, a Casa Branca.

Uma coisa é certa: os títulos dos governantes e os nomes de suas residências mudam mas, como a natureza humana é uma só, perduram as cortes e as intrigas em torno do exercício do poder.

Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 5 de julho.

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Memória diplomática

Memória diplomática

Transcrevo minha coluna quinzenal publicada no jornal Estado de Minas ontem, 21 de junho:

Minha mãe, Thereza Quintella, cumpriu 87 anos em 27 de maio. Pedi uns dias de férias para viajar de Luanda ao Rio de Janeiro e comemorar a data com ela. Decidi maximizar a ida ao Brasil com uma noite de autógrafos em Brasília.

Fiquei feliz de rever tantos amigos, ao assinar dedicatórias de Geografia do tempo na Livraria da Travessa. Aquela seria minha única oportunidade de estar com eles, já que no dia seguinte eu regressaria ao Rio. A divulgação fora bem-sucedida e havia, na fila, muitas pessoas que eu não conhecia, cuja curiosidade fora despertada pelas entrevistas e matérias na imprensa ou em portais na internet. O primeiro a falar comigo na livraria, na verdade, estava ali por acaso. Entrara para explorar as novidades, vira o aviso da noite de autógrafos e quisera saber mais.

Perguntou-me o sentido do título “Geografia do tempo”. Expliquei que uma das minhas indagações sobre o mundo é a constante variação entre a presença e a ausência de pessoas e lugares em nossas vidas. É um fluxo e refluxo em que podemos nunca mais reencontrar os seres mais queridos, por razões fora do nosso alcance; ou, ao contrário, circunstâncias imprevisíveis podem tornar as pessoas ainda mais presentes, por um período que será longo ou curto, mas jamais eterno.

Da mesma forma, avaliamos que um parque, uma cidade, um país, uma obra de arte ou um autor ficarão conosco para sempre; e no entanto, tantas vezes eles acabam por se perder para nós. A memória, assim, é como um ser independente. O tempo nos faz lembrar de algumas pessoas e de alguns lugares, e esquecer de outros, e torna misteriosa, à medida que nos deslocamos por este mundo, a geografia dos nossos sentimentos.   

Assinei exemplares de Geografia do tempo durante três horas e meia. Ao sair da livraria quando já fechavam as portas, liguei o celular e vi mensagens de minha mãe e de minha irmã avisando que, enquanto eu conversava com leitores e amigos em Brasília, no Rio falecera Marcos Azambuja.

Não é fácil discorrer sobre alguém com quem interagimos durante muitas décadas. As pessoas mudam com o avanço dos anos, e o Marcos Azambuja falecido em 28 de maio de 2025, aos 90 anos, era distinto daquele que primeiro conheci quando ele estava na faixa dos quarenta. Minha própria avaliação a seu respeito não poderia ser a mesma de quando eu tinha quatorze anos. Diante do seu falecimento tanto foi dito sobre ele, e da maneira mais elogiosa, na imprensa, nas redes sociais e nos noticiários de televisão, que parece difícil eu poder acrescentar algo.

Não é usual que a partida de um diplomata aposentado desperte tanto interesse midiático, o que diz muito sobre a celebrada capacidade de Marcos de encantar interlocutores. Sua trajetória diplomática, embora notável, por si só não justificaria tamanha comoção. Marcos não chegou a ser chanceler e sua gestão como secretário-geral das Relações Exteriores deu-se no mandato presidencial curto e conturbado de Fernando Collor de Mello. Sempre houve nele, porém, uma luz própria, uma inteligência vivaz, que não dependiam de funções ou cargos para se fazer visíveis e brilhar.

Quando o vi pela última vez, em julho de 2024, ele me lembrou que a aposentadoria lhe permitira dedicar-se a novas atividades, como palestrante em seminários, analista frequente sobre a situação internacional em telejornais, conselheiro de entidades privadas. Ao se aposentar, vira portas se abrirem. Pareceu considerar sua vida pós-Itamaraty tão estimulante, se não mais, do que a sua exitosa carreira diplomática.   

Conhecido como frasista mordaz, daqueles que, como se diz, perdem o amigo mas não perdem a pilhéria, Marcos Azambuja era, na realidade e antes de mais nada, um hábil analista das situações. Isso valia tanto para a política e as relações internacionais como para os relacionamentos pessoais. Dissecava com lucidez e sem sentimentalismo os problemas do interlocutor e era, assim, objetivo e certeiro em seus conselhos. Para minha irmã, que foi sua nora e é mãe de dois de seus netos, ele se mostrou sempre um sogro afetuoso, atencioso, incentivador de seus projetos. Para minha mãe, um amigo cada vez mais presente com o passar dos anos.

O velório foi realizado, no Rio, no térreo do Palácio Itamaraty. Em 1912, o barão do Rio Branco lá também fora velado. Sem dúvida, Marcos teria apreciado essa homenagem. Andei pelas salas e corredores vazios — era sábado de manhã — daquela ala do Itamaraty. Naquele edifício tão carioca, cujo espaço me faz, no entanto, pensar em palácios romanos, iniciaram-se as carreiras de Marcos e de minha mãe. Ali, durante décadas, de 1899 a 1970, antes de a diplomacia brasileira mudar-se para Brasília, sonhos e ambições pessoais, mas também projetos para o País, foram arquitetados e tocados adiante, ou, ao contrário, desmantelados, de maneira muitas vezes arbitrária. Pensei no hábito comum a alguns diplomatas de, tendo morado em diversos continentes e viajado incessantemente pelo mundo, virem a morrer na sua cidade natal. Impossível decidir se há aí uma vitória do indivíduo sobre a geografia, ou da geografia sobre o indivíduo.

Vivenciar o dia a dia de maneira intensa, vibrante, é que era a forma de ser de Marcos Azambuja. Poucos dias antes de viajar ao Brasil, eu soubera pela minha mãe que ele preparava suas memórias. Se estiverem em estado de ser publicadas, trarão luz, com a efervescência e irreverência que o caracterizavam, sobre o que viu e ouviu em uma vida passada dentro do Itamaraty. No caso de Marcos, poderia haver uma vitória do indivíduo sobre o tempo.

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