Cartas da Malásia: Sibelius e as Ilusões

Cartas da Malásia: Sibelius e as Ilusões

Em abril, houve uma boa notícia. A sala de concertos da Orquestra Filarmônica da Malásia reabrira. Desde março do ano anterior, estivera fechada por causa da pandemia.

Nas poucas semanas transcorridas entre a minha chegada a Kuala Lumpur, em janeiro de 2020, e o lockdown provocado pela Covid-19 seis semanas depois, vários domingos à tarde atravessei o parque desenhado por Roberto Burle Marx para ir assistir a concertos. A orquestra costumava então se apresentar nas noites de sábado e, com o mesmo programa, no dia seguinte, em matinê. Ocasionalmente, havia também concertos de câmara na terça, ao final do dia.

Com a pandemia, tudo mudou. Frequentemente, neste terrível último ano, eu pensei nos músicos, muitos deles estrangeiros. Presumi — corretamente, parece — que a empresa estatal Petronas, que financia a Filarmônica, continuava pagando seus salários, mas em Cleópatra no Escritório, em maio do ano passado, comentei que, para um artista, a sobrevivência financeira não é tudo. O apreço, os aplausos, a admiração do público, o contato direto com ele, são igualmente importantes. No último ano, a orquestra pôde apenas gravar, ocasionalmente, concertos para seu canal no YouTube.

A Petronas é uma das maiores empresas do mundo. O “nas” vem de “nasional”, grafia da palavra em malásio. Quanto a “Petro”, refere-se àquilo mesmo que vem à mente. Em sua página na Internet, a estatal declara ser “the custodian of Malaysia’s national oil and gas resources”. Ela opera também no Brasil, desde que, em 2019, adquiriu em leilão o direito de exploração de três blocos na Bacia de Campos, dois deles individualmente, e o terceiro em associação com a empresa francesa Total e a estatal Qatar Petroleum. A Petronas também comprou da Petrobras, no mesmo ano, o direito de exploração e produção de 50% de dois blocos adicionais. É por isso que, em fevereiro de 2020, as revistas especializadas já consideravam a estatal malásia a quinta maior produtora de petróleo e gás natural no Brasil.

A empresa tem os recursos, como se vê, para financiar a fundo perdido a Filarmônica. De fato, em todos os concertos a que assisti, notei que a sala nunca ficava lotada. Algumas empresas privadas — a Mitsubishi me foi dada como exemplo — mantêm assinatura de camarotes.

A sala de concertos, instalada nas Torres Petronas, sede da estatal, e desenhada pelo mesmo arquiteto das torres, o argentino Cesar Pelli, foi inaugurada em 1998. A acústica é excelente, e a beleza da sala, que utiliza madeiras exclusivamente malásias, impressiona. O fundo do palco é ocupado por um gigantesco órgão alemão.

Parte do prazer de ir à sala de concertos é pensar no seu nome em malaio, Dewan Filharmonik Petronas. A palavra “dewan”, assim como suas variações, é oriunda do persa; tem origens antigas e ilustres. Em malaio, significa “sala”, “hall”. Por isso, a Câmara Baixa do Parlamento se chama Dewan Rakyat — a Casa do Povo, ou a Casa das Pessoas. Na Índia, durante o Império Mogol, o termo designava um alto funcionário, um ministro. Nossa palavra “divã” tem a mesma origem. Originalmente, era o assento na sala onde despachavam os que detinham o título de dewan. Há também o conceito de diwan para uma coleção de poemas de um mesmo autor. Assistir a um concerto, sentar-me na Dewan Filharmonik Petronas é, portanto, como ser lembrado de um conto de As Mil e Uma Noites.

Com a flexibilização das regras de isolamento físico na Malásia, a orquestra pôde enfim voltar a se apresentar em abril, com um concerto por semana, nas tardes de sábado, com duração de uma hora. Comprei entrada para 1º de maio. Por causa da pandemia, permitia-se então, e há vários meses, acesso ao parque por apenas um lugar, e exclusivamente para quem quisesse correr; precisei então contorná-lo para chegar às Torres. Esse já é, em si, um passeio bucólico, porque o caminho, um círculo imperfeito, é de lajotas, apenas para pedestres, pouco frequentado, e fica rodeado de um lado pelo prédio, baixo e longo, do centro de convenções, do outro pelo parque.

A Orquestra Filarmônica é de alta qualidade. Seu regente principal foi, de 2014 a 2015, um maestro brasileiro, Fabio Mechetti. No concerto do dia 1º de maio ela foi regida por um dos dois maestros residentes, o japonês Naohisa Furusawa.

Além do uso de máscara, registro de entrada por um aplicativo e medição de temperatura ­ — todas essas, medidas obrigatórias em qualquer local público na Malásia — a direção da orquestra decidira criar espaçamento de duas ou três poltronas vazias entre cada lugar ocupado.

O programa era exclusivamente Sibelius: “Valsa Triste”, “Andante Festivo”, “Suíte Karelia”, “O Cisne de Tuonela” e “Finlândia”. Isso, para mim, não era uma perspectiva entusiasmante. Quando eu era estudante em Londres, e podia assistir a concertos assiduamente, costumava evitar a música de Jean Sibelius, que me parecia lúgubre e enfadonha. Guardo uma lembrança particularmente triste de “O Cisne de Tuonela”, embora não consiga achar em minha coleção de antigos programas de teatro em que circunstância ouvi o poema sinfônico. Minha vontade de retomar em Kuala Lumpur uma vida com parâmetros normais, em vez de ditada pela pandemia, me fez porém querer enfrentar as tristezas de Sibelius, para poder voltar a ouvir a Filarmônica.

Pela primeira vez, não havia programa impresso. Era preciso baixá-lo pelo celular por meio de uma barra de códigos. Isso significa que jamais conseguirei encontrá-lo novamente no meu telefone. Sentado em uma das poltronas vermelhas da sala de concertos, isolado, pelo espaçamento, de qualquer outro membro da plateia, vi os músicos pouco a pouco entrando no palco.

O spalla, o eslovaco Peter Daniš, aparece, a orquestra afina os instrumentos e, então, surge o regente. O público, faminto há um ano por música ao vivo, aplaude com convicção. Já nas primeiras notas, em vez da tristeza que a música de Sibelius no passado provocava em mim, sinto apenas felicidade. Mesmo “O Cisne de Tuonela” injeta-me ânimo. Percebo que havia sido uma perda eu descartar Sibelius durante tantos anos.

Mais tarde, eu procuraria pela minha biblioteca toda referência ao compositor. Sobretudo, olharia com atenção as fotos de sua casa em Maisons de musiciens, um livro publicado em 1997 pelas Éditions du Chêne, com textos de Gérard Gefen e fotografias de Christine Bastin e Jacques Evrard. Na Introdução, Gérard Gefen alerta contra o ímpeto de, ao visitarmos a casa de um compositor apreciado, cairmos na armadilha de uma “manifestação de adoração extática”. No entanto, como ele menciona, “as casas dos grandes criadores, simplesmente porque foram mais bem preservadas do que as de seus contemporâneos anônimos” nos mostram “as formas de vida e os gostos de uma época”. De 1904 a 1957, quando morreu, Jean Sibelius morou no campo, a quarenta quilômetros de Helsinque. É possível que ver as fotos de sua casa não nos ajude a entender melhor a sua música, mas sem dúvida captamos algo de sua personalidade e seu estilo de vida. A fotografia da cozinha é particularmente sedutora. O espaço é todo em tons de branco e bege pálido, ensolarado, olhando para a floresta.

Mas minha sede pela vida de Sibelius aconteceria em casa. Durante o concerto, e logo depois, a sua música é que me interessou. Terminada a hora mágica, tendo a orquestra já abandonado o palco, saí da sala quase que por último. Parecia inacreditável que eu pudesse ter voltado ali, depois de mais de um ano. Semanas mais tarde, em uma videoconferência com o diretor-executivo da Filarmônica, Sareen Risham, comentei o quanto a apresentação de 1º de maio mudara minha percepção de Sibelius. Ele concordou que a orquestra e o regente estavam, de fato, “jubilantes” naquela tarde, pela alegria de poder tocar e reger em público depois de tanto tempo.

Três semanas antes do concerto de Sibelius, eu fora a um espetáculo de odissi, dança indiana clássica, por uma famosa companhia malásia, Sutra. Vira lá um embaixador europeu, contente porque, por causa da pandemia, não pudera ir ao teatro por um ano. Ri e respondi: “no meu caso, faz um ano e meio”. Depois do espetáculo, ele e eu, junto com alguns convidados malásios, fomos levados a uma sala reservada, para cumprimentarmos o fundador da Sutra, Ramli Ibrahim, que dançara em uma das coreografias.

Figura mítica das artes cênicas na Malásia, Ramli Ibrahim recebeu há alguns anos o título malásio de Datuk e também uma das grandes distinções civis da Índia, a medalha Padma Shri. Conversamos. Comentei que meu número preferido havia sido o inspirado em Surya, o deus do sol no hinduísmo. Conduzindo sua carruagem com sete cavalos, Surya levanta-se do mar ao amanhecer, atravessa o céu e traz luz ao mundo. A coreografia mostrava esse momento, incluindo os movimentos dos sete cavalos, de forma altamente eficaz.

Ramli Ibrahim estava feliz e exultante. No último ano, o espetáculo a que acabáramos de assistir tivera de ser adiado mais de uma vez, por causa das repetidas medidas de isolamento social. Pensei novamente nas agruras de ser um artista durante a pandemia.

Eu tinha já entrada para o concerto seguinte da Filarmônica, na tarde do sábado 8 de maio. Na noite desse mesmo dia, iria também à apresentação de uma ópera de Francis Poulenc por uma companhia de ópera local. Os sinais eram claramente de uma volta à normalidade.

Saindo da Dewan, atravessei o amplo corredor que leva da sala de concertos ao centro comercial — que aliás se chama Suria — aos pés das Petronas. Fui à livraria; fui ao supermercado. Voltando para casa pelo parque de Roberto Burle Marx, carregando minhas sacolas, escutei o koel asiático, que canta apenas no final da tarde e de manhã cedo. Fui caminhando, pensando que as fronteiras logo seriam abertas, e eu tiraria férias e poderia ver minha mulher em Singapura, minha filha em Bruxelas, sem ter de me preocupar com quarentenas ou providências burocráticas.

Não saio da Malásia desde o início de 2020 e de Kuala Lumpur desde janeiro de 2021, por causa das restrições até mesmo a viagens dentro do país. Pensei que meus projetos de viagem significariam encontrar antes um hotel em Kuala Lumpur onde deixar Kiki, a gata persa dourada.

O otimismo de que costumo dar demonstrações, e que impressionava meu pai, pareceu-me, enquanto eu caminhava pelo parque ouvindo o koel, cantarolando trechos de Sibelius e pensando na possibilidade de viajar, um raciocínio realista. Minha única preocupação era a provável reação de Kiki. Eu a magoaria, ao deixá-la sozinha por duas ou três semanas.

Poucos dias depois, o aumento nos casos de Covid-19 obrigou o governo malásio a determinar novas restrições na capital. O concerto do dia 8 de maio da Filarmônica foi cancelado, assim como a ópera de Poulenc. Em 1º de junho, novo confinamento completo foi decretado para todo o país. Até mesmo o único acesso ao parque ainda permitido foi fechado.

Não seria ainda agora que Kiki sentiria a minha falta.

Esta Carta da Malásia, a X, foi primeiro publicada, em 3 de julho, na revista de ideias Estado da Arte

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As torres mágicas

As torres mágicas

Hoje, quero apenas compartilhar fotos.

Desde a minha chegada a Kuala Lumpur, em janeiro de 2020, pude fotografar inúmeras vezes as famosas Torres Petronas, estruturas gêmeas que se tonaram o símbolo da capital da Malásia. As torres foram construídas pelo arquiteto César Pelli, entre 1993 e 1996.

Posso vê-las do apartamento onde moro, mas não tirei todas as fotos de dentro de casa.

Nos meus ensaios e crônicas, costumo falar nas Torres Petronas. Mais recentemente, eu as menciono na minha X Carta da Malásia, publicada em 3 de julho no periódico Estado da Arte.

Tenho pronta uma crônica sobre a experiência de vê-las cotidianamente. Talvez eu a publique em breve. Mas não hoje. Ainda não.

As fotos foram tiradas em dias, horários e condições climáticas diferentes. Diga de qual gosta mais — supondo, claro, que goste de alguma.

Talvez seja covardia eu incluir uma foto da Kiki. Ou talvez seja isso que dê graça à postagem.

Até breve.

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A Concubina

A Concubina

Há em Kuala Lumpur um bairro chinês que foi, durante décadas, já na época da colonização britânica, o centro comercial da cidade. Durante as poucas semanas entre minha chegada à capital, em janeiro do ano passado, e o início do primeiro isolamento físico, em março, lá estive algumas vezes. Sempre ia, porém, visitar templos ou pontos turísticos específicos, atravessando as ruas principais. Nunca havia explorado as vias secundárias.  

No primeiro domingo de abril, passado um ano de pandemia, quis conhecer alguns murais ao ar livre que sabia existir ali. Decidi começar o passeio almoçando em um restaurante recomendado pelos guias, Old China Café. O lugar serve comida nyonya, ou peranakan, como são chamadas a culinária e a cultura desenvolvidas pelos imigrantes chineses que, já no século XV, mas de forma mais maciça a partir do século XIX, se instalaram no que hoje são Malásia, Indonésia e Singapura, misturando-se com as populações nativas.

Entrei no café. No estreito espaço, havia apenas famílias de origem chinesa, com uma exceção. Em uma mesa perto de mim estavam duas senhoras ocidentais, ambas com o cabelo branco, e que se pareciam fisicamente. 

Hesitei se eu optaria pelo frango frito, que lera ser uma especialidade da casa, ou pelo peixe com molho agridoce. Escolhi o frango. Enquanto esperava, olhei à minha volta para formar uma opinião sobre o recinto. Eu o definiria como um café chinês da Belle Époque. Pequenas mesas redondas, de madeira escura, com tampo de mármore branco. Cadeiras também de madeira escura, de aparência antiga. Nas paredes, pinturas sobre papel, representando sábios e damas e caligrafia. Pensei que um chinês instruído que entrasse naquele café talvez reconhecesse cenas ou versos de poemas famosos. Senti uma vez mais o quanto as culturas orientais estão fora do nosso alcance, por não dominarmos as línguas em que elas se expressam. Podemos admirar a técnica, a beleza em uma pintura chinesa, mas esse prazer será estético, não intelectual. O que as cenas representam, o que a escrita revela, não podemos alcançar, a não ser que conheçamos a fundo aquela literatura e o idioma.

O frango frito chegou. Eram pedaços pequenos, com ossinho, de cor uniforme, acompanhados de uma tigela contendo um molho azedo. Usei as mãos para comer, depois de passar o álcool em gel que trouxera comigo. A primeira mordida me decepcionou. A temperatura do frango era abaixo de morna. Pensei em Kiki, a gata persa dourada. Lamentei ter saído de casa, deixando-a sozinha, para provar um frango frito no qual eu não via graça. Lembrei do olhar acusador, amuado, que dela recebera ao abrir a porta do apartamento para sair. Senti-me um traidor. Sentado ali, no Old China Café, segurando um pedaço de frango, pensar em Kiki sozinha no apartamento me fez ficar inquieto com minha mãe no Rio de Janeiro, minha irmã em Lisboa, minha filha em Bruxelas e minha mulher em Singapura. Percebi que eu estava prestes a me indagar sobre o sentido da vida.   

Controlei-me a tempo. Filosofar em torno a um frango frito não me levaria a parte alguma. A única conclusão possível sobre o novo coronavírus é a de que ele afetou negativamente a vida de todos. Isso já cria um ponto em comum entre nós. O vírus nos afasta fisicamente dos seres queridos, deixa-nos sós, mas o sofrimento e a preocupação que causa deveriam nos aproximar espiritualmente da humanidade. 

Considerei mais profícuo voltar minha atenção à refeição. Continuei mordiscando o frango. A carne na verdade era tenra e saborosa. A ave estava crocante por fora e macia por dentro. Mergulhada no molho, que era delicioso, ficava mesmo apetecível, apesar da baixa temperatura. Pensamentos positivos começaram a surgir. O ambiente no Old China Café me fez lembrar de minha primeira viagem fora da capital, em julho do ano passado, objeto da primeira Carta da Malásia, A Ásia em Penang. Um dos centros da imigração chinesa e da cultura Nyonya, a ilha de Penang abriga, no seu centro histórico, George Town, um bem conservado bairro chinês. O frango perfeitamente frito, macio, acompanhado daquele molho exótico, podia ser encarado como uma aventura gastronômica tão estimulante quanto as refeições que eu fizera na ilha em julho.

Terminado o almoço, saí do restaurante. As duas senhoras ocidentais lá continuavam. No dia seguinte, de manhã, ao sair para o trabalho, eu descobriria que uma delas é minha vizinha, pois passaria por mim na portaria do prédio onde moro, vestida ela também de maneira mais formal do que no domingo.

Na rua, meu espírito era já outro. O frango frito e seu molho me haviam deixado contente. Pensei em um comentário habitual de minha mulher, de que sempre sabe quando chega a hora do almoço porque, quando eu sinto fome, começo a ver tudo pelo lado mais sombrio.

Em termos geográficos, eu me encontrava na parte ocidental do trecho menos movimentado da rua mais turística do bairro chinês, chamada Petaling, que é um verdadeiro bazar, onde são vendidos roupas e acessórios de marca a preços acessíveis, de origem porém incerta.

Ao meu redor, havia pequenas ruas e becos que eu desconhecia por completo. Virando a esquina, vi a loja da Beryl´s, um chocolate malásio do qual deixei-me tornar dependente, e cuja especialidade são amêndoas cobertas em chocolate ao leite, ou amargo, ou branco, ou ao chá verde. Sou, por razões médicas, proibido de ingerir cacau, sob o risco real de encurtar minha vida, e isso cria um dilema. Chocolate me dá sono de noite se estou insone, me deixa desperto de dia se estou sonolento, me dá energia se estou apático, e me acalma se estou agitado. Em suma, resolve tudo. Renunciar a ele é uma luta cotidiana, e frequentemente perdida. No interior elegante da loja, há um mural representando crianças felizes — presumivelmente por poderem comer chocolate sem culpa — e arranha-céus de Kuala Lumpur, entre eles as Torres Petronas.

No muro lateral da Beryl’s, que dá para uma viela curta e estreita, vi a pintura que eu mais desejava conhecer, uma das atrações famosas do bairro chinês, O Ourives, da artista russa Julia Volchkova.

Continuando pela viela, logo cheguei a outra rua, onde há uma sequência de pitorescas casas amarelas. À direita, notei um beco fechado por uma grade, diante da qual pessoas faziam fila. Um guarda me explicou tratar-se de um lugar muito frequentado, por causa de seus murais e alguns bares. A Covid obrigava a que apenas poucas pessoas fossem autorizadas a permanecer no local simultaneamente. Juntei-me à fila, sob o sol tremendo e o excessivo calor. A espera foi curta. O nome do beco, Kwai Chai Hong, parece querer dizer, em cantonês, algo como “Brincalhão” ou “Malandrinho”. Compõe-se de duas curtíssimas ruas de pedestres, que formam um “T”, onde os muros são cobertos de murais, lembrando o espírito descontraído de Penang. Nenhum de meus guias fala nesse lugar, e descobri-lo por acaso foi uma boa surpresa. Parecia que eu estava a anos-luz da Kuala Lumpur moderna onde moro. Deixei-me levar pela levíssima sensação de estar fora do tempo, em nova realidade.

Ao abandonar o Malandrinho, de volta à rua, caminhei frente às casas amarelas. Pela janela aberta de uma delas, vi um painel na parede que me levou a entrar. Diante de mim, estava um enorme retrato de Ava Gardner. Bem, não realmente. Tratava-se de uma mulher oriental. Algo nela, porém — talvez a grande beleza, o cabelo escuro, o olhar direto e o ar de independência que a figura comunicava — me fez pensar na atriz hollywoodiana. Esta, segundo Sérgio Augusto em sua coletânea de ensaios sobre cinema, Vai Começar a Sessão, “é até hoje considerada a mulher mais linda de todos os tempos”. 

Entendi que eu entrara em um restaurante, cuja sala era no segundo andar. No térreo, nada havia se não Ava Gardner, um bar e a escada que levava ao andar de cima. Em um letreiro de neon, letras estilizadas como um caractere em mandarim formavam o nome do restaurante. Chamava-se Concubine.

Não pude me impedir de rir. Eu estava justamente lendo — e o deixara em cima da cama para ir explorar o bairro chinês — um livro lançado em 2020 pelo historiador britânico Robert Bartlett, intitulado Blood Royal, Dynastic Politics in Medieval Europe, onde o conceito de concubina é relevante. No começo da Idade Média, a concubina real era algo superior, moralmente, à amante casual, particularmente entre os Merovíngios e os Carolíngios. No caso da primeira dinastia, não havia impedimento formal a que o rei fosse sucedido por filho tido de uma concubina. O livro contém subcapítulos com títulos como: “Esperando a Morte do Pai” (atividade principal de todo príncipe herdeiro, na Idade Média como hoje), “Reis Bastardos”, “Madrastas”, “Rainhas Adúlteras”, “Matando os Primos” e — este é o meu predileto — “Tios Malvados” (“Wicked Uncles”). São exemplos desse tipo encantador de tio os príncipes que, para aceder ao trono, precisavam primeiro eliminar fisicamente — e às vezes o faziam com as próprias mãos — o sobrinho, rei menor de idade. Ler o estudo de Robert Bartlett é como segurar nas mãos o roteiro de Game of Thrones, faltando apenas os dragões. George R. R. Martin, autor dos livros que deram origem à série de televisão, notoriamente inspirou-se de eventos verdadeiros da Idade Média e também em um conjunto de romances históricos de Maurice Druon, Les Rois Maudits, que já faziam meu encanto na infância e cujos heróis aparecem, com roupagem acadêmica e não ficcional, no volume de Robert Bartlett.

Procurei na Internet quem seria a Ava Gardner do Concubine. Trata-se da modelo chinesa Fei Fei Sun. O pintor é o artista malásio Najib Bamadhaj.

Isso me fez voltar à realidade. Eu estava no universo do bairro chinês de Kuala Lumpur, não na corte de Filipe, o Belo, e suas noras, as princesas adúlteras, e muito menos na corte de Cersei Lannister e seus crimes em King’s Landing. As concubinas que haviam dado origem ao nome do restaurante não eram as de Carlos Magno, mas as dos enriquecidos imigrantes chineses. Todo aquele canto da cidade, no passado, havia sido um local de jogatinas, bebedeiras e belas cortesãs. Exatamente como em George Town, em Penang, onde existe uma via conhecida como Love Lane, porque ali, diz a tradição, moravam as amantes dos ricos chineses que residiam, com suas famílias, em uma rua adjacente. Os maridos saíam de casa dizendo que iam passear, andavam poucos metros e já estavam em questões de minutos nos braços de suas concubinas.

A tarde avançava. O passeio terminava. Uma gata me esperava.

Voltei à rua da loja da Beryl’s. Do lado esquerdo na calçada, eu notara mais cedo, havia um café, onde uma das atrações era um chocolate quente, cujo ingrediente principal vinha do chocolateiro vizinho. Sentei-me. Logo colocaram frente a mim, na mesa, o melhor chocolate quente da minha vida. A ele só podem se igualar, embora de sabores diferentes, dois outros. Um deles foi tomado há quase trinta anos em um café em Barcelona; o outro é de vez em quando preparado em casa pela minha mulher, derretendo a barra de chocolate no fogo baixo com manteiga.

A experiência durou uns poucos minutos. Enquanto eu olhava dentro da xícara já vazia, sorri.   

Este texto, VIII Carta da Malásia, foi publicada no Estado da Arte em 17 de abril

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A Tinta dos Seres Bons

A Tinta dos Seres Bons

Como toda grande cidade, Kuala Lumpur requer tempo para ser dominada. Desde que cheguei, há pouco mais de um ano, as recorrentes ondas de isolamento social obrigatório limitaram meu aprendizado. Muito do que descobri na capital malásia é resultado das semanas logo após a chegada, antes do primeiro fechamento provocado pela pandemia, iniciado em 18 de março de 2020.

Há alguns meses eu vinha querendo visitar uma livraria independente, Tintabudi, de que ouvira falar. No mapa, notei que ela ficava, e isto era um atrativo, em uma área que eu não conhecia, a uns dez, talvez quinze minutos de carro da minha casa, e bastante perto do antigo bairro chinês.

A rigor, eu não precisava de mais uma livraria. A maior da capital, Kinokunyia, fica a dez minutos a pé de onde moro, do outro lado do parque desenhado por Roberto Burle Marx. Tenho o cartão de usuário frequente, o que me dá um desconto, e vou lá tanto que fiquei amigo de um dos gerentes, Arthur, malásio de origem chinesa, que entende como poucos de música brasileira, sendo por ela apaixonado. Outro nessa situação é um dos nove sultões do país, que considera Tom Jobim o seu compositor predileto. Nosso “soft power” está associado à música, além do futebol. No aniversário de Tom Jobim, em 25 de janeiro, Arthur me escreveu, manifestando a certeza de que os brasileiros “remember the maestro with fondness and gratitude”. Esse certamente é o meu caso; naquele mesmo dia eu fizera um tuíte com o vídeo de 1974 do músico e Elis Regina cantando Águas de Março.

No último domingo de fevereiro, depois de terminar a primeira temporada de uma série policial belga excelente, La Trêve, pensei que eu precisava sair e me recuperar dos assassinatos vistos na tela. Fechando o laptop, olhei pela janela. O dia estava nublado, sem sol, mas não chovia. Isso é uma raridade em Kuala Lumpur, onde faz trinta graus sempre, seja com sol e céu azul, seja com chuva, a qual pode durar poucos minutos ou uma ou duas horas. Na verdade, o tempo lá fora, cinza e com o teto baixo, lembrava justamente a Bélgica, embora não a Bélgica da série. Estranhamente, em La Trêve sempre faz sol, e os personagens, antes de assassinar ou ser assassinados, vivem continuamente, em suas aldeias e florestas nas Ardenas, em uma radiante primavera. Eram quatro da tarde. Resolvi sair da rotina e ir à livraria independente. Desci e chamei um “Grab”, o Uber da Malásia e de Singapura.

O trajeto relativamente curto até a Tintabudi atravessava cantos que eu nunca vira. Havia canteiros de obras por toda parte, mas isso não é novidade na capital, cuja área metropolitana contém 8 milhões de habitantes e onde a construção civil nunca se interrompe, de dia ou de noite. De repente, o motorista de “Grab” parou o carro. Tínhamos chegado.

Kuala Lumpur é hoje um símbolo da modernidade. Por todo lado, há telões em fachadas de prédios mostrando anúncios em 3D, há viadutos suspensos onde o metrô passa ao ar livre, passarelas, túneis aéreos para pedestres e edifícios espetaculares como as gêmeas, e famosas, Torres Petronas. No Natal, um jornalista brasileiro, conhecido pela ironia sutil, me escreveu: “Deve ser curioso celebrar o nascimento de Jesus no cenário de Blade Runner”. Ele não sabia, mas a tese da minha mulher foi a primeira no mundo inteiro sobre Philip K. Dick, que era então um autor pouco conhecido. Vendo Kuala Lumpur pelos olhos dela, posso entender a associação com Blade Runner.

Ao sair do “Grab”, porém, o cenário que vi nada tinha de futurístico. Eu estava frente a um prédio de quatro andares, da década de 50, conhecido como “the Zhongshan Building”. Ele não me pareceu muito diferente de alguns edifícios pequenos, antigos de Copacabana ou Ipanema. Deve ter sido um marco na Kuala Lumpur de setenta anos atrás, quando a cidade ainda não era a sede de um país independente e não iniciara seu processo de verticalização. O lugar me pareceu tão descampado, tão ermo e vazio, naquela tarde cinzenta de domingo, que perguntei ao motorista, com alguma ingenuidade, se dali eu conseguiria condução de volta. Por causa da pandemia, quinze minutos de carro a um lugar novo parecem hoje uma tremenda aventura.

Atrás do Zhongshan Building, reconheci a onipresente torre azul em construção, certamente mais distante do que alguma ilusão de ótica fazia crer. Quando essa obra terminar, talvez ainda em 2021, mais provavelmente em 2022, a torre será o segundo prédio mais alto do mundo. Dependendo da fonte, sua altura final prevista varia de 635 a 678,9 metros. Dos seus 118 andares, 83 serão de escritórios; os restantes serão ocupados por um hotel e restaurantes.

Minha atenção estava porém focalizada no infinitamente mais modesto edifício Zhongshan. Ele abriga lojas pequenas, todas elas modernosas, elegantes e alternativas. Um americano, para definir o espírito do lugar, diria que é “hipster”. Um francês diria que é “bobo”, com o acento tônico no segundo “o”. No térreo, em uma botica decorada com madeira clara, todos os produtos são preparados sem componentes químicos e vendidos em frascos de vidro marrom. Ao lado, uma lojinha de tons pálidos vende cadernos e cadernetas de couro, perto de um café-padaria onde depois me arrependi de não ter ido me sentar. Sei que há pelo prédio uma galeria de arte e lojas de roupas e objetos de decoração, mas não as visitei.

Iniciei a subida até a livraria, que fica no segundo andar. Na metade do caminho, vi uma loja de discos, Tandang, e entrei. O recinto era mínimo e sedutor. A especialidade era punk rock. Gostei da música que estava tocando naquele momento. Descobri tratar-se de The Father, de um grupo de roots reggae inglês chamado Black Roots. O disco, In Session, fora lançado quando eu estudava em Londres. No entanto, eu nunca ouvira aquela canção ou, se a ouvi, minha memória não a registrou. Na época, aos vinte anos, eu estava sempre na universidade ou em algum museu, no teatro ou na ópera. Havia muito pouco tempo disponível para roots reggae na minha vida, inclusive porque eu nem conhecia o conceito, que só descobri no último domingo de fevereiro.

Voltei às escadas. Subi mais um andar e entrei na Tintabudi. Se a loja de discos era mínima, a de livros conseguia ser mais diminuta ainda. Fiquei me perguntando se aquela seria a menor livraria que eu já vira, ou se esse título caberia à Bahrisons de Khan Market, em Nova Delhi, que visitei em 2017 e de que falei, mostrando uma foto do seu interior, em Seis Livrarias.

Como espaço, a Bahrisons, apenas um curto corredor estreito, é sem dúvida menor, mas lá isso é compensado pelo fato de os livros à mostra, empilhados até o teto, preencherem todos os recantos. Na Tintabudi, uma pequena sala quadricular, não há empilhamento de livros. Organizada e aconchegante, ela poderia ser a biblioteca de uma casa particular.

Conversei com Nazir, o proprietário, um jovem malaio. Disse-me que seu nome pode ser traduzido como “aquele que traz a notícia”, o que achei premonitório para um livreiro. Perguntei seu critério para selecionar os volumes, tendo em vista o tamanho reduzido da loja. Respondeu-me: “Escolho para vender apenas os livros que quero ler”. Ele me explicou o nome da livraria.

Até a nossa conversa, eu não me dera conta de que “tinta” em malásio significa isso mesmo, tinta. A presença de Portugal em Malaca, por 130 anos, teve consequências também para o idioma. Assim como tinta é “tinta”, armário é “almari” e igreja é “gereja” (pronuncia-se “greja”). Já “budi” parece ter um sentido mais complexo. Segundo Nazir, é uma palavra oriunda do sânscrito e incorporada ao vocabulário malásio. Significa algo como “o espírito da bondade e da racionalidade do ser humano”. Uma tradução literal do nome da livraria seria talvez algo como: “Os Textos Produzidos pela Tinta dos Seres Bons”. Qualquer variação em que se possa pensar fará desse nome algo lindamente apropriado para uma livraria.

Em razão do pequeno espaço, a Tintabudi necessariamente tem de se especializar. Concentra-se em história dos países asiáticos, poesia, filosofia, temas contemporâneos. Notei forte presença de autores latino-americanos: Gabriela Mistral, Pablo Neruda, Vargas Llosa, um Jorge Amado — Dona Flor e Seus Dois Maridos — de segunda mão em espanhol, e Clarice Lispector, com a tradução por Benjamin Moser de A Hora da Estrela. Há livros recentes e antigos, novos e de segunda mão.

Namorei a bonita edição de uma coletânea de poetas persas preparada por Abbas Kiarostami, mas era cara. Cedi, no entanto, ao ímpeto de comprar três livros:

Os ensaios de Julian Barnes sobre arte, coletados em 2020 em Keeping an Eye Open, eu já cobiçava há várias semanas, desde que vira o volume na Kinokunyia. O livro de Joan Didion, Let Me Tell You What I Mean, publicado este ano, junta textos antigos — a maioria é de 1968, e o mais recente de 2000 — concisos e cirúrgicos. É cruel a forma como, em “Pretty Nancy”, de 1968, ela destrói Nancy Reagan, cujo marido era na ocasião governador da Califórnia, sem usar uma palavra maldosa sequer. Ela só constata e descreve. Em outro texto, “Why I Write” ela diz: “Had I been blessed with even limited access to my own mind there would have been no reason to write. I write entirely to find out what I´m thinking”. A descrição, em “A Trip to Xanadu”, da visita ao célebre castelo de William Randolph Hearst em San Simeon conclui com a frase: “Make a place available to the eyes, and in certain ways it is no longer available to the imagination”. Comprei o terceiro livro, Horace and Me, porque achei que seria um bom presente para um amigo latinista. Ao chegar em casa e começar a lê-lo, achei tão divertido o tom do autor, o jornalista inglês Harry Eyres, ao falar da sua devoção antiga, desde o colégio — e o colégio era Eton — ao poeta Horácio, que decidi segurá-lo comigo, pelo menos por alguns dias ou semanas. Um capítulo começa com a frase: “I did not always get on with Horace”.

A tarde terminava. Era hora de partir. Ao chegar em casa, depois de alimentar Kiki, a gata persa dourada, tentei descobrir o significado do nome do prédio. Zhongshan é uma cidade na província de Cantão, assim renomeada em 1925 em homenagem a um de seus filhos nativos, considerado o pai da república chinesa, Sun Yat-sen, morto naquele ano. Em 2017, em minha única viagem à China até hoje, visitei o mausoléu de Sun Yat-sen em Nanjing. Sem que eu soubesse disto, ele é mais conhecido na China como Sun Zhongshan, sendo este último nome a pronúncia em mandarim do pseudônimo em japonês que ele precisou adotar ao se exilar no Japão, no ocaso da China imperial. Devemos supor que a família construtora do prédio, de origem cantonesa, ou era oriunda de Zhongshan ou quis prestar tributo ao pai da república chinesa. Alguns dias depois, eu descobriria que Sun Yat-sen, no começo do século XX, morou em Penang, onde há mesmo um museu em sua homenagem. Tenciono visitá-lo quando as viagens internas pela Malásia voltarem a ser permitidas.

No dia seguinte, no trabalho, contei vantagem a meus colaboradores brasileiros sobre o lugar moderninho, “transado”, inovador, o prédio Zhongshan, que eu descobrira. Recomendei, paternalmente, que lá fossem. De uma das minhas colaboradoras, muito jovem, ouvi: “Eu vou muito a esse lugar. Costuma haver festas com rock em um espaço no último andar”.

Tão lapidar quanto Joan Didion.

Esta é a VIII Carta da Malásia, publicada primeiro em Estado da Arte em 6 de março de 2021.

Posteriormente, versão mais curta foi publicada, em 15 de abril, em inglês, na página eletrônica do jornal Sin Chew Daily e, em17 de abril, em mandarim, na versão impressa do jornal, que é o de maior circulação na Malásia.

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Ilhas Misteriosas

Ilhas Misteriosas

Reis, rainhas, sultões, elefantes reais, ilhas misteriosas, frutas exóticas, praias desertas, epopeias, o Mar do Sul da China e mesmo Proust — sim, mesmo ele — estão todos lá, nas cinco Cartas da Malásia que já publiquei, desde julho, em Estado da Arte.

Elas podem agora ser lidas também aqui, em qualquer ordem, pois cada uma é independente.

Carta I: A Ásia em Penang

  • Na ilha de Penang, a Malásia revela ser uma condensação da Ásia

Carta II: Juru Damang, o Elefante Real

  • Descubro Malaca e um elefante do século XVI

Carta III: A Petrópolis dos Mares do Sul

  • A herança britânica na Malásia

Carta IV: A Viagem a Balbec

  • Uma praia no Mar do Sul da China me faz pensar em Proust

Carta V: As Cartas em Istana Negara

  • Com o rei e a rainha, converso sobre futebol e banana com canela

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Kiki em Kuala Lumpur

Kiki em Kuala Lumpur

Em novembro, minha insônia piorou. Nunca fui de dormir bem, mas naquele momento a situação tornou-se dramática. Eu acordava uma ou duas horas depois de adormecer; nada me fazia ter sono de novo. Lia, tomava cálcio, ficava deitado tentando pensar em prados verdes onde pastavam ovelhas brancas. Nenhum resultado. À primeira luz do sol, eu conseguia adormecer, mas pouco depois tinha de me levantar para ir trabalhar. Atravessava os dias cansado, pensando no momento em que poderia deitar-me novamente e procurar o sono. O mesmo ritual porém me esperava: dormir, acordar depois de poucas horas, ficar revirando na cama, passar o dia exausto.

Claramente, algo me preocupava. E eu sabia o que era. Seu nome era Kiki. O que passava pela minha cabeça toda noite e me causava extrema preocupação era o que fazer com a gata persa, diante da nossa próxima partida, em janeiro, para trabalhar na Ásia.

Toda minha vida, estive rodeado por animais domésticos. Com dois anos, já apareço em fotos com um cachorro vira-lata, pequeno e encantador, chamado Bahia. Na Bélgica, onde morei primeiro dos seis aos onze anos, a casa em Rhode-Saint-Genèse mais parecia uma reserva de animais. Havia sempre um cachorro, em geral dois gatos, uma tartaruga, e um fértil casal de periquitos, que procriava a toda hora. Houve aliás dois casais em sucessão, o primeiro integrado por Lune e Soleil, o segundo por Joséphine e Napoléon. Não lembro se o segundo casal de periquitos era filho do primeiro, e nem que destino era dado às sucessivas ninhadas.

Kiki é o meu nono gato desde a infância. O mais longevo foi James, que morreu em Brasília em janeiro de 2018, aos dezenove anos. Era um gato enorme, preto, com o ventre, as patas e o focinho brancos.

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“Morreu” é um triste eufemismo, pois na verdade tivemos de mandar sacrificá-lo. James estava com câncer e todo dia ficava mais frágil. Um dia, a veterinária explicou que chegara o momento de libertá-lo da dor. Essa não foi uma decisão fácil. James nascera na nossa cama, de madrugada, em Quito. Sua mãe, Cory, como ele uma gata vira-lata preta e branca, nos pertencia. Ao sentir que o parto era iminente, ela viera até nós, em um gesto de confiança e carinho.

Marcamos dia e hora. A veterinária veio com um assistente. Enquanto ele abria uma pequena cova no quintal de casa, eu, em outro canto, segurava James nos braços. A injeção entrou. Nada aconteceu. Foi preciso aplicar uma segunda dose. Ele morreu. Depois, minha mulher e eu conversamos sobre o quanto a personalidade de James evoluíra ao longo do tempo. Nascido na nossa frente, ele era porém um gato extremamente arredio, propenso a rosnar com todos, menos com minha mulher, que ele aceitava e no colo de quem gostava de se aninhar. Na velhice, tornou-se manso e carinhoso e começou a me procurar e a se aconchegar comigo. Durante seus dezenove anos, manteve sempre um olhar de quem sente falta de algo. Parecia buscar alguma coisa bem específica no horizonte. Era um gato metafísico. Possuía também um ar altaneiro, majestático, com o porte indicando superioridade. Nossa filha, quando ainda criança, em Quito, dera-lhe o apelido de “Señor Presidente”. Em sua velhice eu o chamava, em espanhol, de “Jaimito”.

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James não foi o primeiro caso em que tivemos de permitir a aplicação da injeção da felicidade eterna. Em fevereiro de 2012, acontecera o mesmo com nossa golden retriever, Missy, meu quinto cachorro. Sobre o quarto, Arusha, uma basset hound, contei em Capitu, a Garota de Ipanema, ser ela a heroína de um livro de meu pai. Nascida em Brasília, Arusha morou em Londres, voltou para Brasília, e morreu de morte violenta em Viena, na casa de minha mãe. Um dia, de madrugada, na exata hora em que meu irmão — o que só viríamos a saber poucas horas depois — morria no hospital, em Brasília, quando éramos adolescentes, Arusha foi ao quarto dele e começou a se agitar. Acordados com o barulho, fomos ver o que estava acontecendo. Lá estava ela, sentada na cama do meu irmão, com a cabeça levantada em direção ao teto, uivando.

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Muitas vezes me arrependi de não ter escrito um livro sobre Missy. Em Quito, em março de 1998, decidi ter chegado o momento de nossa filha, ainda pequena, ter animais de estimação. Saí de carro, fui a uma loja e voltei com Missy e Cory, ambas com dois meses de idade. Cory não viveu muito. Seu espírito inquieto e livre fazia-a sair de casa a todo instante. Morreu atropelada, como é o destino de tantos gatos — foi também o de outra gata nossa, Sassy, poucos anos depois — com dezoito meses de vida, mas ao menos deixou-nos James.

Missy agitou profundamente a nossa rotina. Mesmo para padrões de golden retriever, era de uma simpatia, uma energia, uma doçura ímpares. Quando eu a passeava em Quito por um parque na nossa rua, ela tanto se agitava, tanto corria, ficava tão alegre que frequentemente saltava em mim, me derrubava, grande e pesada como era, mordia ou rasgava a calça do meu terno. Uma vez, arrancou do nosso gramado uma árvore jovem que eu plantara poucos dias antes. Foi a única vez em que me zanguei com ela. Hoje, daria tudo para não ter ficado bravo nesse dia. Ela e eu estabelecemos uma relação de enorme cumplicidade. Depois de Quito, houve em Brasília um período em que eu frequentemente chegava do trabalho passada meia-noite. Ao entrar, exausto, eu sabia que encontraria, do outro lado da porta, Missy sentada à minha espera. Sem cerimônia, ela gostava de se deitar na nossa cama, algumas vezes entre minha mulher e eu, com a cabeça nos nossos travesseiros. Ouvíamos seus suspiros, seu ronco enquanto dormia.

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Missy tinha personalidade própria, mas não vida independente, e nem poderia ter. Seu objetivo era estar conosco, amar-nos e, em troca, receber afeto. Seu compromisso absoluto com esse propósito era irresistível e comovente. Foi o ser mais inocente que conheci. Viveu e morreu sem saber que pode haver maldade no mundo. Sem dúvida, nós a amávamos, tanto quanto ela nos amava. Às vésperas de ela cumprir quatorze anos, seu câncer generalizado obrigou-nos a dar-lhe a injeção. A veterinária veio. Sugeriu que fôssemos até o quintal, onde o assistente abria a sepultura. Tolamente, sem dúvida paralisados pelo choque, aceitamos. Missy nos acompanhou. Ficamos os três, minha mulher, Missy e eu, olhando enquanto ia sendo cavado o buraco na terra. Já na hora isso me pareceu uma crueldade, que ela ficasse à beira de sua própria tumba, curiosa sobre o que estava acontecendo. A partir daí, tudo foi rápido, a injeção surtiu efeito imediatamente. O que não passou rápido foi o meu luto, o qual na verdade nunca terminará.

Em dezembro, Kiki fez quinze anos. Mora conosco desde os dois meses de idade. É uma gata particularmente afetuosa e presente. Pode-se mesmo dizer, coloquialmente, que ela é bem oferecida. Cumprimenta com efusão qualquer visita que venha nos ver. Entra no quarto de hóspedes para dormir na cama de algum amigo para ela até então desconhecido. Ronrona com facilidade. Se levanto de noite, vem atrás de mim. Se ela some pela vizinhança, volta correndo, atravessando jardins ou pela calçada, quando nós a chamamos. Tanto em Brasília quanto em Bruxelas, costumava seguir-nos quando saíamos para passear a Missy. Isso era aliás um transtorno. Tínhamos de controlar na rua dois animais domésticos, um deles, a gata leve e ágil, sem coleira ou guia.

Várias questões colocaram-se para nós, na hora de começar os preparativos da partida para a Ásia. Ela iria para Kuala Lumpur comigo ou para Singapura com minha mulher? Essa foi a única decisão relativamente fácil. A quarentena na Malásia é de uma semana, e em Singapura de um mês, e esse foi o critério. Surgiu aí outra dúvida: não seria melhor deixá-la no Rio com minha mãe, para poupá-la de uma viagem insanamente longa, desconfortável, que seria seguida de uma quarentena? Minha mãe sempre teve gato e acabara de sacrificar seu mais recente. Como todo mundo, acredita que os afagos de Kiki são dedicados exclusivamente a ela. Sentiu ventos favoráveis e durante muitos dias manteve a esperança de ganhar na loteria, sendo Kiki o prêmio. Esse foi o momento em que a insônia mais me atacou. Descobrir o que era melhor para a gata, descartando o meu interesse particular, foi o mais difícil. Depois de muitas semanas de exame de consciência, noites em branco, esperança de que alguém tomasse a decisão por mim, concluí que seria uma covardia eu pôr fim a uma amizade de quinze anos. Kiki viajaria conosco.

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Não mencionarei a dor de cabeça que foi preparar a papelada para a viagem da gata. Em 2006, quando fomos para a Bélgica, e em 2011, quando voltamos, levamos Missy, James e Kiki, numa operação que na minha lembrança foi relativamente fácil. Tenho porém tendência a só lembrar do aspecto positivo das coisas. E fiquei, naturalmente, mais velho. Viajar com a sobrevivente, Kiki, para a Malásia pareceu-me mais difícil do que havia sido transportar os três animais para a Bélgica. Não darei detalhes dos vários dias em que, enquanto a empresa de mudança estava lá em casa empacotando, tive de ir ao serviço de vigilância agropecuária do aeroporto. Evitarei falar da dificuldade no diálogo virtual com a empresa malásia que eu contratara para cuidar da tramitação dos papéis para a quarentena. Determinado a não desfazer, junto ao leitor, a imagem encantadora que, espero, criei de Kiki, direi apenas que na reta final, vendo a mudança em curso, sentindo ares de novidades, ela diabolicamente várias vezes resolveu se esconder subindo ao telhado da casa em frente à nossa. De lá só conseguíamos tirá-la, já noite feita, à custa de muitas amolações.

A viagem de 36 horas foi penosa. Kiki provou ser imune ao remédio recomendado pela veterinária para que dormisse a bordo. Em toda a segunda metade, não fechou o olho e miou sem parar. Isso me obrigou a também ficar acordado, na tentativa inútil de acalmá-la. Ela sobreviveu porém aos três voos e aos quatro aeroportos. No final de janeiro, desembarcamos os três, minha mulher, Kiki e eu em Kuala Lumpur. Esperava-nos no aeroporto a firma que eu contratara, para levá-la à quarentena. Sete dias depois, ela me foi devolvida. Minha mulher já partira para Singapura.

Desde então, estamos, Kiki e eu, vivendo em um apartamento em Kuala Lumpur. Vazio, porque minha mudança chegou à Malásia em meados de março, logo antes da decretação do isolamento social compulsório, causado pela pandemia. Está abandonada desde então no cais do porto de Port Klang. Pela primeira vez, Kiki tem de morar em apartamento. Para ela, houve uma clara perda de liberdade. Já não pode pegar passarinho no quintal ou lagartixa no pátio, zanzar pelos jardins dos vizinhos, subir em seus telhados, sumir durante horas. Sua vida ficou também solitária. Para uma gata que cresceu em casas, em Brasília e em Bruxelas, entrando e saindo, vendo o mundo, a natureza lá fora, na companhia de três seres humanos e outro gato e um cachorro, não deve ser divertido ficar trancada em um apartamento com um homem que passa o dia no escritório e frequentemente tem compromisso de trabalho à noite.

Ou talvez não. Talvez ela prefira assim. A verdade é que Kiki envelheceu. Quinze anos é muita coisa para um gato. Talvez ela prefira hoje levar uma vida mais calma. Ao contrário de James, sua personalidade não mudou. Tanto melhor, porque como sempre foi efusiva e simpática, poderia ter ficado rabugenta, assim como James, de imperioso e antipático, tornou-se um velhinho carinhoso. Neste exato momento em que escrevo, tarde da noite, em meu quarto, durante o confinamento, Kiki está perto de mim, dando a si própria o seu banho. De vez em quando ela para, me olha e faz um delicioso miado, curto e baixo. Recentemente, adormeci enquanto ela, deitada ao meu lado, ronronando, segurava com as duas patas da frente um dos dedos de minha mão esquerda.

Se sua personalidade não mudou, o pelo, laranja, tornou-se mais pálido, mais branco. Ela perdeu muito de sua vivacidade. Dorme mais do que no passado. Há em seu pequeno rosto um ar nítido de senhora elegante e plácida, que já viveu intensamente e prefere hoje levar uma existência tranquila, sem sobressaltos.

Olho para Kiki. Percebo que, até mesmo no caso dela, gatinha que com dois meses de idade chegou lá em casa alegre, sapeca, infatigável, curiosa de tudo, a questão que se coloca é a mesma de todo ser vivo. Nascer, crescer, e procurar viver o máximo possível, para um dia aceitar que tudo termina.

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