Em Seul, sem Chateaubriand

Em Seul, sem Chateaubriand

Na minha primeira noite em Seul, insone no hotel por causa do jetlag, abro a mala de mão, para buscar meu volume de Chateaubriand. Não o encontro. Olho pelo quarto, embaixo da cama, sob os lençóis, dentro da mala, sobre a cômoda, a mesa, a poltrona. Depois de tanta agitação, não havia mais a possibilidade de conseguir dormir. Sento na cama, pensando em como pudera perder o primeiro dos dois volumes das Mémoires d’Outre-Tombe na edição da Pléiade. Já totalmente acordado, percebo a dura verdade: eu esquecera o livro no avião. Tomei a descoberta como se fosse uma separação.

Isso aconteceu em 2013. Em algum momento, já de dia, liguei para a Lufthansa e comuniquei a perda. Resignei-me a nunca mais ver meu livro. Parecia improvável que aparecesse. Na partida, no terceiro ou quarto dia, no check-in para Frankfurt, foi-me dito que eu o receberia no portão de embarque. Fiquei incrédulo. Na hora de entrar no avião, vi que o volume de Chateaubriand estava sobre o balcão onde eram verificados cartões e passaportes. Sorri. Atribuí a devolução do livro às competências somadas da Alemanha e da Coréia do Sul.

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Durante boa parte da minha vida, resisti a ler Chateaubriand. Os próprios títulos da obra desse pai do romantismo francês — como Les Martyrs, Les Aventures du dernier Abencérage, Le Génie du Christianisme — pareciam-me rebarbativos, incompreensíveis. Na adolescência, tive de ler trechos de suas Mémoires d’Outre-Tombe. Não fui imune à poesia da obra, mas passada a obrigação, não retomei sua leitura por muito tempo. O livro de memórias  parece ser o que sobrou, neste início do século XXI, da obra do autor mais célebre, influente e adulado de seu tempo. De todos os títulos que fizeram a glória de Chateaubriand, no início do século XIX, temo que muito pouco seja lido hoje, mesmo na França. Duvido, por exemplo, que alguém ainda leia Le Génie du Christianisme, publicado em 1802, que contribuiu a relançar o catolicismo na França após treze anos de Revolução e deu ao escritor verdadeira celebridade, já que o livro atendia à política de Napoleão de reconciliação da República francesa com o Papa.

A existência de François-René, visconde de Chateaubriand, transcorreu em um período tumultuado da história. Bretão, nascido em Saint-Malo em 1768 e morto em 1848, o diplomata e escritor atravessou a Revolução Francesa, viveu exilado na Inglaterra de 1793 a 1800, voltou à França, serviu por alguns meses na embaixada em Roma — onde sua vaidade criou atritos com o Embaixador, o Cardeal Fesch, tio materno de Napoleão — rompeu com Napoleão em 1804, acolheu de braços abertos, e ajudou a tornar possível, a Restauração dos Bourbons em 1814, exilou-se em Gand com Luís XVIII durante o breve retorno de Napoleão à França em 1815, decepcionou-se com os Bourbons, e presenciou a Revolução de 1830, que colocou no trono Luís Filipe de Orleães, e a de 1848, que o derrubou. Viajou a lugares então de difícil acesso para um francês, como os Estados Unidos, a Turquia, o Oriente Médio.

Chateaubriand foi, de dezembro de 1822 a agosto de 1824,  Ministro dos Negócios Estrangeiros. Fora, antes disso, Ministro plenipotenciário em Berlim e Embaixador em Londres, ocasião em que o cozinheiro da embaixada inventou o “filé Chateaubriand”. Posteriormente à sua queda do Ministério, foi Embaixador em  Roma. De maneira muito característica, em suas memórias Chateaubriand fala em uma página apenas de sua atuação como Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas dedica à sua queda, e às emoções que ela gerou nele mesmo e em outras pessoas, nove páginas.

Na qualidade de Ministro, Chateaubriand ocupou o espírito de dois sucessivos emissários a Paris de D. Pedro I, que buscava o reconhecimento pela França da independência do Brasil, e de José Bonifácio, nosso primeiro Chanceler. O primeiro emissário, Manoel Rodrigues Gameiro Pessoa, futuro visconde de Itabaiana, escreveu a José Bonifácio, em setembro de 1823, que Chateaubriand “não é favorável aos nossos interesses”. O grande feito do escritor, como Ministro, foi a intervenção militar francesa na Espanha, em 1823, para libertar o Rei Fernando VII do jugo das Côrtes. Essa ação, determinada para dar prestígio interno e externo ao trono dos Bourbons na França, e que permitiu ao rei espanhol voltar ao absolutismo, pode explicar as reticências de Chateaubriand com o processo de independência dos países ibero-americanos. Em novembro, Gameiro Pessoa voltou a escrever a José Bonifácio: “[…] o visconde de Chateaubriand, que sempre achei avesso ao Brasil”. Ler os ofícios de Gameiro Pessoa e de seu sucessor, Domingos Borges de Barros, futuro visconde de Pedra Branca, em que narram seus encontros com Chateaubriand causa certa estranheza. Nesses ofícios, vemos Chateaubriand como um diplomata cauteloso, reservado, bem diferente do poético autor que gostava de expor sentimentos ou do político assertivo e polemista.

Em suas embaixadas, o escritor nunca permaneceu mais do que alguns meses. Nas memórias cáusticas que deixou sobre a sociedade e a vida política francesas na primeira metade do século XIX, a condessa de Boigne, que o conheceu bem e claramente não simpatizava com ele, diz que, se no exterior Chateaubriand sentia-se entediado, é porque lá não era tão célebre e adulado como na França.

Eterno insatisfeito, vaidoso, egoísta, megalomaníaco, preocupado com a sua celebridade, o autor só se sentia contente sendo admirado e rodeado de admiradoras que o endeusassem. A condessa de Boigne nos diz que, em 1813, ouviu Chateaubriand ler trechos de um de seus livros em um salão aristocrático. Segundo ela, “ele lia com a voz mais tocante e emocionada, com essa fé que deposita em tudo que emana dele mesmo. Ele entrava nos sentimentos de seus personagens, ao ponto que lágrimas caíam sobre o papel”. Isso tudo causava grande emoção nos ouvintes. Terminada a leitura, um chá foi servido e começou um ritual absurdo. “Dez senhoras”, nos diz a condessa, comentaram uma com a outra: “Ele quer chá”, “Ele vai tomar chá”, “Ele pede chá”, “Dê chá a ele” e se agitaram para servi-lo.

Aos olhos do sexo feminino, Chateaubriand possuía enorme poder de sedução. Um de seus apelidos era Enchanteur. Manteve inúmeras aventuras galantes, embora fosse casado. Sua mulher fora escolhida pelo dote, mas o amava.  O visconde pertenceu àquele momento feliz da história das letras, em que um escritor famoso exercia verdadeiro fascínio sobre o público e, se tivesse ambição política, era um poder a ser levado em conta. Com seus panfletos e opúsculos políticos virulentos, Chateaubriand contribuiu para a Restauração dos Bourbons em 1814 e também para a sua queda em 1830 e, no intervalo, para a demissão de ministros.

Em sua obra de ficção como nas suas memórias, Chateaubriand inventou um tipo cativante: o homem inocente, meio ingênuo, melancólico, transparente, preocupado com questões espirituais, com capacidade para amar e ser amado, em busca da mulher ideal, submetido contra sua vontade a todo tipo de decepção e vicissitudes, vítima ou protagonista, sem procurá-los, de eventos históricos. Em resumo, o herói romântico por excelência. Ambicioso e sedento por poder e prestígio, intrigante, desejoso de se tornar Primeiro-Ministro, ele diz porém sobre sua humilhante demissão do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, nas Mémoires d’Outre-Tombe: “Eu tinha a simplicidade de permanecer tal como o céu me fizera e, porque eu nada queria, julgaram que eu queria tudo […] Como! Você não quer ser nada! Então parta! Nós não queremos que um homem despreze aquilo que adoramos, e que ele se julgue no direito de insultar a mediocridade das nossas vidas”.

Chateaubriand, que viveu grandes paixões amorosas, era capaz de enviar a uma de suas amantes, Cordélia de Castellane, logo após a vitória militar francesa contra as Côrtes espanholas e durante as celebrações que isso ocasionou em Paris, a seguinte carta: “Esta glória, que deixaria qualquer outro homem tonto, não me distrai um só momento do meu amor […] Eu te escrevo após ter escrito a todos os reis e os ministros da Europa”. A condessa de Castellane foi uma das muitas traições que Chateaubriand fez a Juliette Récamier, que foi a pessoa mais importante para ele em seus últimos trinta anos de vida. Decepcionada ao saber de sua relação com Cordélia de Castellane, Madame Récamier viaja à Itália, e lá recebe esta carta do visconde, autor e ainda Ministro: “Eu não fico insensível,  ao ver a França neste estado de prestígio […] e ao pensar que a glória e a felicidade da minha pátria se iniciaram com a minha entrada no Ministério […] mas só me resta um tédio profundo do meu cargo, uma lassidão de tudo e a vontade de ir morrer, longe de todo burburinho, em paz e esquecido, em algum canto do mundo”.

Juliette Récamier, nascida em 1777 e morta em 1849, é ainda famosa. Seu retrato por David, de 1800, em estilo neoclássico, pode ser visto no Louvre, onde o fotografei:

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Aos dezesseis anos, casara-se com um rico banqueiro, 26 anos mais velho do que ela, no que parece ter sido um casamento branco. Até iniciar sua relação amorosa com Chateaubriand, em 1818 ou 1819, manteve-se virgem. Isso não a impedia, porém, de ser uma verdadeira coquette. A bela Juliette ambicionava ser amada por todos, flertava impunemente, e após a conquista de um novo admirador oferecia-lhe, em troca, sua amizade. Madame Récamier destacava-se pela beleza, a elegância e o tato, e mantinha um dos salões realmente importantes de Paris. Ela é um exemplo de êxito burguês na França pós-revolucionária. Com base apenas nas suas relações e nas suas qualidades pessoais, tornou-se extremamente famosa na Europa e exercia poder nas esferas intelectuais e administrativas. Nomeava Embaixadores, elegia membros da Academia francesa, conseguia empregos em ministérios. Mesmo após a ruína definitiva do marido, em 1819, quando seus meios financeiros tornaram-se reduzidos, manteve um salão no convento onde foi morar em Paris, a Abbaye-aux-Bois, e seus amigos continuaram fiéis a ela.

Em julho, em Paris, no cemitério de Montmartre, procurando o túmulo de Stendhal que eu queria rever, esbarrei por acaso no da bela Juliette:

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Devemos deduzir, pelas flores na tumba, que a celebridade de Madame Récamier não se apagou.

Chateaubriand e Madame Récamier haviam sido feitos um para o outro. Ambos célebres e casados, cuidaram juntos da fase final de suas respectivas reputações. Toda tarde, Chateaubriand visitava Juliette e imperava em seu salão literário.

As Mémoires d’Outre-Tombe contêm trechos extremamente poéticos. Chateaubriand começou a escrever o livro em 1809 e esse trabalho ocupou-o, com interrupções, até quase a morte, quarenta anos depois. Desejava que fosse publicado cinquenta anos após seu falecimento, o que explica o título, mas a publicação aconteceu quase em seguida, de 1849 a 1850. No salão de Madame Récamier, a partir de 1834, convidados seletos puderam ouvir a leitura de fragmentos. Tanto Alexis de Tocqueville quanto o mais famoso crítico literário da época, Sainte-Beuve, deixaram-nos relatos sobre essas leituras. Escreveu Tocqueville, que era contraparente de Chateaubriand: “Senti-me emocionado, agitado, real e profundamente conturbado […] Voltei para casa carregado por um ambiente aéreo que não é ainda o céu, mas já não é a Terra, que é o ambiente onde se encontra o espírito quando ficamos fortemente emocionados e que a impressão vibra ainda”. Sainte-Beuve informa que a leitura fora feita por um dos participantes, não por Chateaubriand. Para os convidados, devemos supor, havia não somente o prazer de serem os primeiros a tomar conhecimento direto da obra-prima, mas também o de notar sobre o rosto do autor os efeitos do que sentia ao ouvir suas memórias sendo lidas. Diz Sainte-Beuve: “Ora sua mão passava e pousava sobre as pálpebras […] escondendo alguma lágrima involuntária. Ora seu olho reabria, com a chama da jovem águia”. Estamos em pleno Romantismo.

Em suas memórias, Chateaubriand não se preocupa com a cronologia e algumas vezes insere comentários a passagens redigidas anos antes. O livro é uma mistura de auto-biografia, história da era agitada em que o autor viveu, poema em prosa e, também, de ficção. Chateaubriand revela o seu “eu” ideal, não o real. Alguns críticos literários e leitores se irritam, ao ver autor, narrador e herói imaginário alternando-se no livro. Chateaubriand narra, por exemplo, seu jantar, nos Estados Unidos, com George Washington. Há sérias dúvidas sobre se eles sequer se encontraram. Do ponto de vista puramente literário, porém, era imprescindível inserir uma vinheta sobre uma das grandes figuras históricas de seu tempo. O escritor inglês J. B. Priestley, em sua história da literatura ocidental, Literature and Western Man, declara que as Mémoires d’Outre-Tombe são “both an astonishing panorama of historical events and figures and the self-potrait of a man who is half-genius, half-charlatan, and thoroughly romantic in both halves”.

Para outros leitores, o livro pode ser irresistível. Nele, Chateaubriand cria uma atmosfera muito peculiar, da qual não queremos sair. Um dos trechos mais célebres é o da vida que o escritor levou, dos dezesseis aos dezoito anos,  após estudos em diferentes cidades da Bretanha, no castelo de Combourg, onde morou com seus pais e a caçula de suas quatro irmãs. Vemos a solidão, a natureza selvagem do lugar, a severidade do pai, a tristeza da mãe e a extrema cumplicidade com a irmã, Lucile, que mais tarde se suicidaria. Chateaubriand redige esses capítulos em 1817, mais de trinta anos após o período descrito, hospedado no castelo de Montboissier. A  vida em Combourg é introduzida de uma forma que faz dele um precursor de Proust, que conhecia bem as Mémoires d’Outre-Tombe. Passeando uma tarde sozinho pelo parque do castelo de Montboissier, Chateaubriand ouve o canto de um tordo: “Na mesma hora, esse som mágico fez reaparecer aos meus olhos a propriedade paterna; esqueci as catástrofes de que fora testemunha e, transportado repentinamente ao passado, revi aqueles campos onde tantas vezes eu escutara cantar o tordo”. Inicia-se assim o relato da vida levada em Combourg, de 1784 a 1786. O tordo de Chateaubriand prenuncia a madeleine de Proust.

Assim como a época histórica em que viveu o autor, o livro de memórias de Chateaubriand é dominado pela figura de Napoleão. Os dois só se falaram uma vez, em 1802. Em 1804, o célebre escritor descobre-se monarquista e legitimista e rompe com o Primeiro Cônsul. No entanto, nunca foi incomodado pela polícia de Napoleão, que aceitou mesmo sua eleição para a Academia francesa em 1811. Em 1814, quando o Bourbons estavam prestes a voltar à França, Chateaubriand publicou um panfleto violento contra o Imperador, intitulado De Buonaparte et des Bourbons.

Com o passar do tempo, nosso autor percebe que Napoleão dominará a lembrança daquela  era. Dá-se conta de que, sob Luís XVIII, Carlos X e Luís Filipe, a França perdera a glória em que vivera sob o regime imperial. Ao dedicar grande espaço no livro aos tempos napoleônicos, sente que engrandece a sua obra e também a si próprio. Coloca Bonaparte como seu inimigo mas, também, como objeto de sua admiração. Em 1839, Chateaubriand inicia em suas memórias a narrativa sobre a Restauração dizendo: “Tudo não terminou com Napoleão? Deveria eu falar de outra coisa? Que outro personagem pode interessar, se não ele? […] Como falar de Luís XVIII, em vez do Imperador? […] Fico ruborizado, pensando que preciso agora falar fungando de um bando de criaturas ínfimas, das quais faço parte, seres duvidosos e noturnos que nós fomos, em um cenário do qual o grande sol havia desaparecido”.

Desde 2013, com frequência penso nas memórias de Chateaubriand e releio trechos do livro. Já tive ocasião de citá-lo, na postagem sobre Waterloo.

Há menos de três meses, em julho, de férias em Paris, combinei de jantar com uma amiga. Fui buscá-la em casa. Ela mora em um dos cantos mais charmosos da cidade, a Rue du Bac. Caminhando, fui revendo e reconhecendo casas, lojas e cafés. Passei em frente ao Square des Missions Étrangères, onde há um busto de Chateaubriand que já vi inúmeras vezes na minha vida:

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Estava perto do número da casa de minha amiga. Atravessei a rua. Quase em frente ao jardim com o busto, encontrei o portão que buscava:

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Antes de inserir o código para entrar, li a placa. Pensei estar sonhando.  Vi que ali, em 4 de julho de 1848, morrera Chateaubriand. Eu sabia que, de fato, ele vivera dez anos na Rue du Bac. Não era porém possível tanta coincidência, que ele tivesse vivido e morrido no mesmíssimo prédio onde eu ia entrar.

Abri o portão. Caminhei até o pátio interno. Sabia que ele vivera em um apartamento no térreo.

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Antes de abrir a porta de vidro que leva à escada e subir até o apartamento de minha amiga, andei pelo pátio. Pensei que ali, ele estivera; que ali, ele terminara suas memórias; que aquilo, ele vira; que ali, ele morrera. Toquei nos muros. Examinei a hera. Olhei o céu.

De repente, dei-me conta também de que era preciso por fim àquele momento. Estava começando a me atrasar. Minha amiga ligou, perguntando se eu me perdera. Descartei a Revolução, o Império, a Restauração, Combourg, Chateaubriand, sua irmã Lucile, todas as suas amantes, Juliette Récamier, Tocqueville, Sainte-Beuve, Napoleão, abri a porta de vidro e subi.

                                                                                              Para Maria-Theresa Lazaro

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