Tolstoi em Paris

Tolstoi em Paris

Em 10 de janeiro de 1857 — calendário juliano — o Conde Leon Tolstoi, em São Petersburgo, escreveu em seu diário: “Recebi o passaporte e decidi partir”. Podia iniciar sua primeira viagem ao exterior, aos 28 anos. No dia 12 de janeiro, viajou de trem até Moscou. De lá, no dia 29, partiu para Paris, em uma diligência: “companheiros de viagem franceses e um polonês”.  Levou onze dias para chegar a Paris, o que aconteceu em 9 de fevereiro, calendário juliano, ou 21 de fevereiro, calendário gregoriano, que ele passa então a usar, o que também farei a partir daqui. Permaneceu em Paris por seis semanas, até 8 de abril.

Tolstoi não era ainda o autor de Guerra e Paz e Anna Karenina ou o ancião de longa barba branca, imagem pela qual é mais usual pensarmos nele. Como oficial do exército, participara da guerra da Crimeia entre 1854 e 1855 e morava em São Petersburgo desde novembro de 1855. Ao chegar a Paris, acabara de publicar o último volume de sua trilogia semi auto-biográfica, InfânciaAdolescência e Juventude. Dois anos antes, publicara os três Contos de Sebastopol. Foram todos textos bem recebidos pela crítica e pelo público. Na Rússia, Tolstoi era admirado. No exterior, era um desconhecido.

Essa era sua aparência em São Petersburgo, em 1856:

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Há muitos anos, passeando um dia em Paris, vi sem aviso prévio aquela que deve ser uma das placas comemorativas mais intrigantes do mundo:

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A placa pode ser vista no número 206 da Rue de Rivoli, onde sempre paro para vê-la, quando passo frente ao prédio. Tirei a foto em maio de 2012. Situada entre uma casa de câmbio e uma loja de souvenirs, o edifício mantém mesmo assim um ar aristocrático. Em frente, está o Jardim das Tulherias, cujo reflexo pode ser visto no vidro da porta de entrada. No mesmo dia de 2012 em que fotografei a placa registrando a presença de Tolstoi em Paris em 1857, tirei esta foto do jardim:

IMG_0165.JPGEm julho de 2014, minha mulher, minha filha e eu conseguimos tirar férias juntos -— o que não aconteceu mais desde então — e fomos a Paris, à Provença e a Praga. Tenho, por isso, carinho especial pelas fotos que tirei naquele verão, inclusive das Tulherias:

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Na Rue de Rivoli, perto da pensão onde se hospedou Tolstoi, na mesma calçada, estão não apenas outras lojas voltadas ao turista, mas também, no número 248, a enorme filial parisiense da livraria W.H. Smith; no número 224, a livraria Galignani, uma de minhas prediletas em Paris; e, no número 226, uma celebrada casa de chá, Angelina. No número 228 está o hotel de luxo Le Meurice, que foi requisitado, durante a Ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, pelo invasor. Tolstoi lá se hospedou em suas duas primeiras noites em Paris.

É raro o dia em que não penso na vida do escritor russo ou em alguma de suas obras ou em algum de seus personagens. Esse interesse fica explicitado na postagem Tolstói, Guerra e Paz e a BBC, mas falo nele ou em seus livros com frequência neste blog 

É um pouco surpreendente que os franceses comemorem a primeira passagem de Tolstoi em sua capital, por apenas seis semanas, quando não era ainda tão conhecido. Ou talvez não tão surpreendente, pois é na França que teve início a divulgação da literatura russa para o resto do mundo. E as seis semanas em Paris marcaram a personalidade de Tolstoi, como ele aliás esperava que acontecesse, pois no dia mesmo da chegada escreveu no diário: “Sem sombra de dúvida, uma nova época  [começa]”.

Como foi a vida de Tolstoi na França? Felizmente, podemos acompanhar seus afazeres, pois o seu diário, para aquelas semanas, é particularmente detalhado, em estilo sucinto e direto. Os diários e as cadernetas de Tolstoi, traduzidos para o francês e anotados por Gustave Aucouturier, foram publicados em três volumes, de 1979 a 1985, pela editora Gallimard, em sua prestigiosa coleção da Pléiade e essa é a tradução que utilizo aqui:

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Em Paris, Tolstoi viveu basicamente como lá vivia todo aristocrata russo: frequentando seus pares. Os nomes de suas relações na capital francesa lembram a origem social do Conde Leon Tolstoi: Trubetskoy, Lvov, Orlov e Gortchakov, todos príncipes, alguns deles seus parentes. Sobre o Príncipe Nicolai Orlov, futuro Embaixador em Viena, em Londres, em Paris e em Berlim — tendo o diplomata russo completado o que era então, junto com São Petersburgo, o quinteto de ouro da diplomacia — Tolstoi nos diz: “ele me levou ao teatro, bancando o aristocrata. Ridículo” e, alguns dias mais tarde: “Orlov é terrivelmente limitado. Virará um homem mau”. Isso não o impediu de frequentar o Príncipe — nascido em 1829 e, portanto, só um ano mais jovem do que ele — durante toda sua estada em Paris. Tolstoi não precisava ter sido tão duro com Orlov em seu diário, pois este perdera um olho na guerra da Crimeia e seu empenho seria determinante para que o castigo corporal fosse abolido na Rússia, em 1863:

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Entre uma recepção e outra em casa de russos, ou algum jantar, Tolstoi ia ao teatro — apreciou particularmente as peças de Molière a que assistiu e uma de Marivaux, Les Fausses Confidences, que considerou “uma maravilha de elegância”. Frequentava o Louvre e outros museus, estudava inglês e italiano, lia, escrevia um pouco, ia ao concerto ou ao cabaré. Visitou Dijon e Fontainebleau. Uma visita ao palácio de  Versalhes fez com que se sentisse “intimidado” pela sua “falta de conhecimentos”. O Hôtel des Invalides, onde se pode admirar o túmulo de Napoleão, deixa-o revoltado: “É a deificação de um celerado, isso é assustador”. Assistia a palestras na Sorbonne e no Collège de France. Ocasionalmente, aparecem comentários soltos indicando desânimo, como “dúvidas sobre tudo” ou “moralmente agitado e atormentado” ou “tédio”. Possivelmente, isso se devia à insatisfação moral, habitual nele, com relação à sua fraqueza diante de tentações sexuais. Há no diário menção a uma ida ao bordel em 21 de março e, aqui e ali, vagas referências a encontros furtivos com mulheres encontradas na rua. De forma geral, contudo, Tolstoi parece ter se sentido bem na França. Pensa estar se apaixonando pela sobrinha do Príncipe Georgy Lvov, seu anfitrião costumeiro; sente que frequentar a jovem Princesa torna a “vida alegre” e que é um “imbecil” de não tentar se casar com ela.

Duas circunstâncias no diário de Tolstoi, nas seis semanas passadas em Paris em 1857, chamam a atenção, saem do corriqueiro: ele via Ivan Turgueniev quase todo dia e assistiu a um guilhotinamento.

A relação entre Tolstoi e Turgueniev, às vezes amistosa e às vezes conflitiva — e às vezes as duas coisas no mesmo dia — mereceria  postagem à parte. Direi aqui apenas que os dois escritores haviam se conhecido um ano e meio antes da chegada de Tolstoi a Paris, em novembro de 1855, em São Petersburgo, quando Tolstoi, recém-chegado à capital, se hospedara durante um mês com Turgueniev, dez anos mais velho. Em Paris, durante as seis semanas lá passadas por Tolstoi, é raro o dia em que Turgueniev não aparece em seu diário, embora raramente de forma elogiosa. Em geral, Tolstoi se queixa da atitude triste e retraída de Turgueniev; mas não consegue parar de vê-lo. Escreve em 4 de março: “Caminhei com Turgueniev. Estar com ele é penoso e entediante”. Em 16 de março: […] Fui à casa de Turgueniev. Ele é um homem mau pela frieza e pela inutilidade, mas é muito inteligente e não prejudica ninguém”. Em 1861, na Rússia, eles teriam uma briga decisiva e ficariam dezessete anos sem escrever ou falar um com o outro. A melancolia de Turgueniev aparece nitidamente neste retrato:

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Além do diário, outra fonte importante para conhecermos as semanas parisienses de Tolstoi em 1857, e de resto, qualquer período de sua vida, é a sua correspondência. Uso em casa a edição  em inglês em dois volumes, publicada em 1978 pelo Professor R. F. Christian, que na época dirigia o Departamento de Russo da Universidade de St. Andrews. Monumento de erudição, essa edição, em que as cartas foram selecionadas, traduzidas e anotadas pelo Professor Christian, é indispensável para qualquer admirador ou estudioso de Tolstoi que não fale russo. Gosto de visualizar o Professor alternando, na década de 70, as aulas nas brumas escocesas com viagens à então União Soviética, para consultar arquivos.

Na capa dos dois volumes, há uma foto de Tolstoi, já ancião, abrindo sua correspondência:

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Um dos correspondentes habituais de Tolstoi durante essa sua primeira viagem ao exterior foi o crítico literário Vassily Botkin:

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Filho de um rico comerciante de chá, representante da burguesia em ascensão no século XIX, Vassily Botkin era casado com uma das irmãs, Alexandra, do anarquista Mikhail Bakunin, que era membro da nobreza. Outra irmã de Bakunin, Tatiana, foi apaixonada por Turgueniev. Esses detalhes, que me parecem fascinantes, são fornecidos por Priscilla Roosevelt em seu livro Life on the Russian Country Estate, excelente fonte de informações sobre a vida na Rússia tsarista e que contextualiza, inclusive, as obras dos escritores da época:

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Vejo no diário de Tolstoi que ele se dava, em São Petersburgo, antes da partida para Paris, com um irmão de Bakunin, Alexis, embora o considerasse “insuportável”. Outra ligação familiar curiosa de Vassily Botkin é seu sobrinho, Eugene Boktin, médico da família imperial no reinado de Nicolau II e que, leal até o fim, foi assassinado em Ecaterimburgo, em 1918, com o Tsar, a Tsarina e seus cinco filhos.

Em 5 de abril de 1857, Tolstoi começa  — como uma curta indicação no diário informa — uma carta para Botkin, anunciando que estava tão bem em Paris, que desejava instalar-se lá por pelo menos mais dois meses. Escreve: “Não posso imaginar que venha um tempo em que a cidade perca interesse para mim, ou a vida nela o seu charme”. Comenta que, se Paris faz com que se sinta ignorante, percebe também que lá poderá curar-se desse mal. Declara que, na capital francesa, desfruta uma “liberdade social” que, na Rússia, nunca pudera sequer imaginar.

No dia seguinte, 6 de abril, Tolstoi retoma a carta e indica ter mudado de ânimo. Menciona  a razão: “Hoje de manhã, fui estúpido e cruel o suficiente para ir assistir a uma execução […] o espetáculo causou impressão tão forte que demorarei a superá-la”. Tolstoi lembra ter já visto “várias coisas horríveis na guerra [da Crimeia] e no Cáucaso”, mas que “essa máquina engenhosa e elegante” o revoltava, pela forma como matara em instantes “um homem forte, bem disposto, saudável”. Descreve a guilhotina como “um cálculo frio, refinado e conveniente de cometer um assassinato, […]  o desejo insolente e arrogante de fazer justiça”. Considera “repulsiva” a multidão — a aplicação da pena de morte por guilhotinamento ocorria então em praça pública — , enojado pelo fato de um pai, perto dele, ter explicado à filha com frieza o funcionamento da máquina. Condena Tolstoi, em seguida, o Estado, que considera “uma conspiração destinada não somente a explorar, mas a corromper os cidadãos”. Afirma serem as “leis da política” uma “mentira terrível” e que a experiência da manhã daquele dia o levava a decidir nunca servir a governo algum.

Nem no diário nem na carta a Botkin o nome do homem executado é mencionado. Sabemos,  graças à colossal biografia de Tolstoi por Henri Troyat

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e também graças às notas na edição dos diários na Pléiade, tratar-se de François Richeux, cozinheiro de 40 anos de idade, condenado por duplo homicídio seguido de roubo, sendo em ambos casos uma faca o instrumento do crime. No mesmo dia 6 de abril em que terminou a carta, Tolstoi anotou no diário: “escrevi uma carta tola a Botkin”, mas não há dúvida sobre o impacto nele causado pelo guilhotinamento de Richeux. No diário, no mesmo dia 6 de abril, ele escreveu: “Um pescoço e um torso fortes, brancos, sadios. Ele beijou o Evangelho e depois — a morte, que contrassenso! […] Não estou bem, estou triste, vou jantar na casa dos Trubetskoy.”

Não sabemos se o espetáculo do guilhotinamento de 6 de abril foi causa ou pretexto, mas em 7 de abril Tolstoi escreve no diário: “Acordei tarde, não me sentindo bem, li, e de repente veio-me uma ideia simples e sensata, partir de Paris”. Na manhã do dia 8 de abril, antes de ir para a estação de trem, vai à casa de Turgueniev despedir-se: “Nas duas vezes em que me despedi dele, ao me afastar chorei, não sei por quê. Gosto muito dele. Ele fez e faz de mim um outro homem”.

Em 9 de abril, recém-chegado a Genebra, escreve a Turgueniev um balanço de sua estada em Paris: “Fiz bem de partir dessa Sodoma. Por favor, faça o mesmo […] Passei um mês e meio em Sodoma, e há o acúmulo de muita sujeira em minha alma: duas prostitutas e a guilhotina, e ociosidade e vulgaridade”.

Em 10 de abril, anota no diário: “Genebra — Acordei cedo, sentindo-me bem e quase alegre”. Iniciava-se aí uma nova vida, que duraria meses. Esperavam-no na Suíça outros russos, outros parentes, novos amigos, novas vivências. Uma nova existência. Após longa temporada na Suíça, e passeios pelo Piemonte e pela Alemanha, em 11 de agosto Tolstoi aportava de volta em São Petersburgo, após ausência de seis meses. Em 1861, voltaria a Paris por um mês.

A carta a Botkin de 6 de abril de 1857 antecipa o Tolstoi da idade madura, o mesmo que se tornaria pregador da não-violência — influenciando Mahatma Gandhi —, o contestador que se oporia ao Estado tsarista e à Igreja Ortodoxa, a qual o excomungaria em 1901. O mesmo pensador que escreveria, em 1900, um ensaio intitulado A escravidão em nossos tempos, propondo o fim dos governos; o texto Não matarás, também de 1900, em que considera as guerras como um assassinato autorizado, determinado pelos chefes de estado; e o panfleto Não posso me calar, de 1908, em que, aos 80 anos, dois anos antes de morrer, cinquenta e um anos depois de assistir ao guilhotinamento em Paris, Tolstoi condena a pena de morte e as execuções então sendo efetuadas pelo regime tsarista. Esses textos podem ser lidos neste pequeno volume, editado em 2003 pelo Professor canadense Éric Lozowy, que escreveu uma apresentação de clareza exemplar:

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Ao escrever sua autobiografia espiritual, Uma Confissão, entre 1879 e 1881, portanto vinte e dois anos após a execução de François Richeux, Tolstoi lembra que ela abalara sua crença no progresso, por ter sido um ato “desnecessário e mau”. Ver a cabeça ser separada do corpo e ver os dois caírem separadamente na caixa embaixo da guilhotina demonstrara a ele que “o árbitro do que é o Bem e o que é o Mal não é o que as pessoas fazem ou dizem, e nem o progresso, mas sim o meu coração e eu mesmo”.

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Edla van Steen, estória sobre a amizade

Edla van Steen, estória sobre a amizade

Aos 18 anos de idade, conheci Edla van Steen e Sábato Magaldi. Meu pai e eu, voando de Foz do Iguaçu para o Rio de Janeiro, paramos em São Paulo com o único objetivo de almoçar com eles em sua casa no Morumbi.

A foto, tirada por meu pai, registra esse encontro.

20180407_211629.jpgEra março e o sol brilhava. A conversa foi fascinante e lembro-me com perfeição do que foi discutido. Senti-me em casa e tratado como um adulto. Esse almoço me marcou. Se pareço sério na foto, é porque estava de luto, tendo meu irmão morrido violentamente apenas três meses antes.

No ano seguinte, fui morar e estudar em Londres, como já relatei no blog, particularmente em Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo. Nunca porém perdi contato com Edla e Sábato. Dos dois, é com Edla que mantive contato mais assíduo, embora em geral por carta e por e-mail, por causa da distância geográfica. Seu desaparecimento, em 6 de abril, foi uma surpresa e provocou em mim uma tristeza grande. Troquei mensagens sobre ela com um amigo mais recente, o cineasta Sylvio Back, que eu sabia ter sido seu colega de juventude quando, embora catarinenses ambos, foram se conhecer em Curitiba. Escreveu-me Sylvio, parafraseando Guimarães Rosa: “que horrível e triste notícia o encantamento da nossa amada Edla van Steen, bela e talentosa escritora e atriz”.

Gosto da ideia de que a morte é um “encantamento”: uma nova forma de ser e uma instalação duradoura, saudosa, positiva na mente daqueles que nos conheceram. Já em vida, tudo em Edla era encantamento: o talento, a beleza, a forma segura e direta com que se dirigia ao interlocutor e o tempo que dedicava aos amigos. Escritora, foi também editora e publicou várias antologias de escritores brasileiros, das quais uma das mais conhecidas é O Papel do Amor, de 1979:

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Três anos depois desse primeiro almoço no Morumbi, revi Edla e Sábato em Londres. Estavam de passagem pela cidade, e minha mãe os convidou para almoçar em casa. Vinham de Paris e ouvi, seduzido, enquanto discorriam sobre as peças a que haviam assistido na França. Eu tinha 21 anos e, apaixonado por artes cênicas, escutava atentamente o que  eles tinham a dizer a respeito. Não era pouca coisa, ouvir o maior crítico de teatro do Brasil discorrer, com a sua mulher escritora, sobre a temporada teatral em Paris. Lembro particularmente do tom entusiasmado com que falaram de uma produção de L´Illusion Comique de Corneille, naquele tempo um de meus autores prediletos, e de cujas peças eu sabia de cor vários versos. Olhando agora na Internet, deduzo que devia tratar-se da famosa produção montada por Giorgio Strehler no Odéon.

Houve alguns outros encontros, ao longo dos anos, mas não tantos, pois nunca moramos na mesma cidade.

Ao conhecer minha mulher, aos 25 anos, não fiquei tão surpreso de descobrir que meu sogro fora professor de Edla em Curitiba, pois a vida, bem sei, tende a ser circular e eu aceito esse fato.

Quando meu pai morreu, em 1999, foi um grande consolo poder conversar com Edla, provavelmente sua melhor amiga. Nessa ocasião, de tudo o que ela me disse fiquei particularmente impressionado com o comentário de que meu pai nunca superara a morte de meu irmão e de que passara  a vida tentando exorcizar – sem êxito, na avaliação dele – o sucesso profissional de meu avô. Essas duas observações tornavam meu pai, notoriamente arredio à auto-análise e a revelações sobre si próprio, mais humano, mais comovente. Edla e Sábato, de resto, continuaram a ser amigos leais de meu pai, mesmo depois de sua morte.  Ela publicou esta coletânea de contos seus, em 2010:

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 Vi Edla e Sábato pela última vez, creio, em 2006. Naquele ano, minha mulher, nossa filha – então criança – e eu fomos visitá-los em seu apartamento no Rio. Naquela época, eles dividiam o tempo entre São Paulo e Rio, o que era prático, sendo Sábato membro da Academia Brasileira de Letras. Estavam com a neta, Bianca, que ficou brincando com nossa filha enquanto conversávamos. Terá sido então que ela autografou para nós este seu livro de contos?

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É um livro cativante, onde as personagens femininas são mais fortes do que as masculinas. No conto mais longo – uma novela, na verdade – que dá o título à coleção, a personagem principal é dona de uma livraria e alguns autores de sua predileção são citados, entre eles meu pai.

Em 2007, minha família e eu fomos morar em Bruxelas, mas o contato permaneceu. Há um ano, Edla enviou-me pelo correio um conto inédito de meu pai – que estava em suas mãos por ser ela sua editora na Global – e o testemunho que Sábato fizera sobre ele na Academia Brasileira de Letras, quando meu pai morrera. Houve algumas trocas de mensagens no Facebook ao longo de 2017. Escrevi para Edla pela última vez em janeiro de 2018, querendo saber se podia ligar para dar a ela uma boa notícia pessoal, mas ela não respondeu e não sei se terá visto minha mensagem.

No ano passado, dois ex-alunos me disseram, na mesma conversa, que o meu blog é sobretudo sobre os relacionamentos humanos, mesmo quando escrevo sobre um livro, um filme, uma viagem. Embora eu nunca tivesse pensado nesses termos sobre minhas postagens, percebi que tinham razão.

Muitas vezes, até recentemente, meditei com pesar sobre a transitoriedade das pessoas em nossas vidas. Nos últimos meses, comecei a pensar de forma um pouco diferente. Vejo hoje que as pessoas não entram e saem de nossas vidas aleatoriamente. Damos a elas espaço para que entrem e depois, por causa do trabalho, de compromissos familiares, de diversas ocupações, da própria falta de tempo, de mudanças de cidade ou de país, permitimos que haja um afastamento. As pessoas vão e vêm, em um fluxo constante e natural.

Fico pensando nas conversas que – por causa de minha vida apressada, errante, tão lotada, como a deles também era – eu não pude ter com Sábato e Edla sobre teatro, atores, escritores, entre eles meu pai, sobre quem eles teriam tido muito a me dizer. Agora, isso não será possível. Sábato partiu em 2016, e Edla há uma semana.

É triste pensar nas ocasiões perdidas de mais convívio com amigos, mas esse não é o pensamento correto. O que é surpreendente é que ainda consigamos, no mundo em que vivemos hoje, fazer e preservar amizades, apesar da distância física.

Guardo as cartas de vários correspondentes, recebidas na era pré-internet:

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A pilha da direita, embaixo, é a das cartas que recebi de meu pai enquanto eu morava em Londres. Para ler as que eu enviava a ele – meu principal correspondente durante todos os anos em que fiquei na Inglaterra – tenho hoje em dia de pedir autorização à Fundação Casa de Rui Barbosa, pois ele doou, alguns meses antes de morrer, todos os seus papéis, inclusive a correspondência recebida, à Fundação. Naquela ocasião, essa sua decisão me decepcionou, tomei-a como uma quebra de confiança. Julguei também que, presumivelmente, seriam as cartas escritas pelo meu pai, e não as recebidas por ele, que interessariam aos estudiosos, e essas estão comigo e com seus demais correspondentes.

Mantenho contato, vejo e converso, ainda que às vezes isso possa ser apenas ocasional, com amigos que conheço desde a infância, e alguns, leitores deste blog, reconhecerão suas letras nos envelopes na foto acima.

De Edla van Steen, encontrei nessa coleção uma carta apenas, escrita quando eu morava em Londres e que termina da seguinte maneira:

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Outras cartas estarão em outras pilhas, em outros baús aqui em casa. Muitos e-mails terão se perdido, pois em cada país em que morei, desde o início da Internet, antes da vitória final do gmail, criei um endereço eletrônico local, que era eliminado na partida. Houve também endereços eletrônicos profissionais, que eram descartados automaticamente quando eu me mudava. Em geral, eu me preocupava em gravar meus mails em discos, disquetes e pen drives, mas recuperá-los hoje daria um trabalho a que não quis ainda me dedicar.

Esse é o milagre, que possamos não só guardar no coração e na memória os amigos distantes mas que possamos também seguir interagindo com eles, ano após ano, década após década, mesmo que, por longos períodos, de maneira virtual. E assim foi com Edla.

 

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Mahatma Gandhi em Birla House

Mahatma Gandhi em Birla House

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Em recente viagem a Nova Delhi, ao terminar um compromisso de trabalho no domingo, vi que teria ainda cerca de duas horas de luz antes do anoitecer. Era início de outubro, a tarde estava quente e límpida. Sem hesitar, sem parar – apesar do calor – para tirar o terno e a gravata, decidi visitar a casa onde Gandhi passou seus últimos meses de vida e onde foi assassinado.

Esse era um velho sonho, de muitos anos. Fui plenamente recompensado.

Em setembro de 1947, Mohandas Gandhi, o Mahatma – ou “Grande Alma” – chegou a Delhi, vindo de Calcutá, onde passara quatro semanas. A capital, como Calcutá, enfrentava distúrbios entre hindus e muçulmanos. A independência, consagrada um mês antes, levara à partição do território até então sob domínio britânico, criando dois países, o Paquistão, constituído por territórios povoados majoritariamente por muçulmanos, e a Índia, onde a população era majoritariamente hindu.

Gandhi sofrera com a ideia da Partição mas decidiu aceitá-la. Tornou-se uma voz em favor da conciliação entre os dois países e os dois grupos religiosos. As tensões, a violência e as mortes eram elevadas, assim como o número de refugiados de parte a parte. Gandhi propugnava a tolerância mútua, decepcionando hindus mais radicais.

Naquela que seria sua última estada em Delhi, o Mahatma – praticante do ascetismo – hospedou-se na casa de um dos membros da milionária família Birla, da qual ele era amigo há muitos anos:

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A escolha surpreendeu alguns de seus admiradores, mas não fora feita por ele. Embora Gandhi já tivesse antes frequentado a casa dos Birla, nos últimos tempos vinha se hospedando, na capital, em um bairro mais humilde, que estava, em setembro de 1947, recebendo numerosos refugiados hindus oriundos do Paquistão, e onde o Governo considerou que sua segurança não poderia ser garantida. Birla House era também facilmente acessível para membros do Governo que visitavam Gandhi.

Quatro meses depois, em janeiro de 1948, as tensões e os distúrbios continuavam. Em meados daquele mês, Gandhi iniciou um jejum, o que era para ele uma prática recorrente há décadas, por razões filosóficas e espirituais, mas que servia também, ocasionalmente, propósitos políticos. Tinha 78 anos. Como recusar-lhe algo, correndo o risco de vê-lo morrer de fome? Em poucos dias, o Governo prometeu que a segurança dos muçulmanos seria garantida e que o Paquistão receberia indenização que lhe era devida.

Jawaharlal Nehru, Primeiro-Ministro da Índia, vinte anos mais jovem do que Gandhi e a ele ligado por laços antigos e profundos, mais próximo do Mahatma talvez do que os próprios filhos deste, ao visitá-lo em Birla House viu refugiados hindus gritando na rua: “Que morra Gandhi!”. Poucas horas após a morte de seu pai espiritual, Nehru faria no rádio um notável – e hoje célebre – discurso, para comunicar à Nação o assassinato, iniciando-o com a frase: “The light has gone out of our lives”.

Gandhi ocupava um quarto mobiliado com grande simplicidade, no térreo da casa:

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Dormia em uma varanda ligada ao quarto, fechada por portas-janelas, ainda mais despojada e que é, hoje, a entrada principal para a visitação à casa:

Sua vida em Birla House era pública. Durante o jejum, as pessoas passavam, no jardim, em frente a essa varanda e viam Gandhi deitado, como mostra esta foto de Henri Cartier-Bresson:

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A legenda está errada: o jejum de cinco dias terminou não na véspera de sua morte, mas doze dias antes.

Fora o período de jejum, Gandhi conduzia orações diárias no imenso jardim posterior da casa, presenciadas por centenas de pessoas. Em 20 de janeiro, uma bomba explodiu no jardim durante a oração. Ninguém ficou ferido.  A morte de Gandhi se daria no dia 30, tão movimentado quanto aparentemente costumavam ser todos os dias em Birla House. Seu secretário, V. Kalyanam, deixou um registro das atividades do Mahatma nesse último dia de vida, mas a informação no texto não é exaustiva,  pois entre os visitantes que não cita está Cartier-Bresson.

Talvez o senso de oportunidade seja fundamental para um artista. Cartier-Bresson viajava pela Índia em janeiro de 1948, e ia frequentemente a Birla House ver ou fotografar Gandhi e com ele conversar, inclusive no dia de sua morte. As fotos que tirou nos últimos dias do Mahatma e logo depois, inclusive da cremação, são hoje icônicas.

A página eletrônica da agência Magnum, de que Cartier-Bresson foi co-fundador, expõe algumas de suas fotos desse período, como esta, tirada no dia anterior ao assassinato, na qual vemos Gandhi tomando sol em Birla House: 

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Outros visitantes não citados por V. Kalyanam são a filha de Nehru, Indira Gandhi, e seu filho de três anos e meio, Rajiv – ambos futuros Primeiros-Ministros e que seriam também assassinados. As fontes porém divergem sobre se visitaram Gandhi no dia 30 ou na véspera. Em seu livro sobre a independência da Índia e a Partição, Indian Summer – comprado em Islamabad, em março, como narrei em  Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi – Alex von Tunzelmann conta que Rajiv pegou umas violetas e brincou de colocá-las em volta dos pés de Gandhi, que o interrompeu, dizendo: “One only puts flowers around dead people´s feet”. A cena, além de premonitória, cria uma imagem de grande espontaneidade.

Às 17:12 do dia 30, o Mahatma saiu de seu quarto e dirigiu-se ao jardim, para as orações. Estava atrasado; quinhentas pessoas já esperavam por ele, indianos e estrangeiros. Hoje, o museu em sua homenagem em que Birla House se transformou coloca marcas de passos, da porta-janela do quarto até o local do assassinato, para que possamos visualizar o trajeto:

A pérgola é uma construção posterior ao assassinato, para encobrir a “Coluna do Mártir”, que marca o local exato onde os três tiros foram dados, no meio da multidão, por um hindu, Nathuram Godse:

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A inscrição dá a data e as últimas palavras de Gandhi: “Oh, Deus”. Em seu julgamento, Godse declarou ter cometido o crime porque Gandhi “favorecia os muçulmanos”, porque “seu último jejum fora pro-muçulmano” e porque sua atuação pacifista favorecia o Paquistão. Godse foi julgado, condenado e enforcado. O pronunciamento que fez durante o julgamento trai igualmente sua admiração e seu rancor por Gandhi, sobre quem faz a seguinte análise: “Essas insanidades e obstinações infantis, junto com uma forma extremamente austera de vida, um labor incessante e um caráter superior tornavam Gandhi gigantesco e invencível”.

Mesmo hoje, na Índia, Gandhi não é uma figura consensual, como informa Sunil Khilnani em seu livro publicado em 2016, Incarnations, a History of India in 50 Lives, onde consegue, em apenas onze páginas, nos dar uma excelente biografia do Mahatma:

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Khilnani relata que, há poucos anos, assistiu no Estado natal de Gandhi, Gujarat, na capital que carrega seu nome, Gandhinagar, um filme sobre o assassinato do Pai da Nação, e que, na hora dos tiros, “the audience erupted into wild applause and cheers”.

O filme dirigido por Richard Attenborough sobre a vida de Gandhi, de 1982, onde Ben Kingsley o encarna de forma impressionante, começa com a cena do assassinato, filmada em Birla House.

Birla House, aliás, já não se chama assim. Seu nome hoje é Gandhi Smriti, ou, em inglês Gandhi Remembrance. No térreo, além do quarto ocupado pelo Mahatma vemos painéis explicando sua vida e, no quarto, emoldurados, alguns objetos pessoais:

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Por alguma razão, fiquei fascinado com o relógio, parado na hora em que os tiros aconteceram:

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Ao voltar da Índia, li um texto em que o relógio de Gandhi faz uma aparição. O diplomata Natwar Singh, sobre quem já falei em Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi, por causa de seu livro Walking with Lions, publicou em 2014 uma autobiografia, One Life is not Enough – quem discordaria? – em que relata a única vez em que viu Gandhi, em 1945, quando tinha 14 anos. Sabendo que um trem no qual viajava o Mahatma pararia em Bharatpur, Natwar Singh correu até a estação, conseguiu – apesar da multidão sequiosa por uma visão do ídolo –  grudar na janela do compartimento de terceira classe onde se sentava Gandhi e: “There he was, shaven-headed, watch nucked into the waistline of his loincloth”. Será o mesmo relógio que Gandhi usava. dois anos e meio depois, em Birla House e que hoje está exposto na vitrine? Faz sentido acreditar que sim.

Duas salas exibem caixas de madeira, com a frente de vidro, como se fossem casas de bonecas, mostrando cenas da vida de Gandhi que ajudaram a formar seu mito. Fotografei apenas uma das caixas, a da célebre entrevista que, em Londres –  vestido de forma simples, como sempre fazia, apesar do frio – ele manteve em Buckingham Palace com o Rei George V:

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No segundo andar de Gandhi Smriti está o Eternal Gandhi Multimedia Museum, onde aspectos da vida do Mahatma são recriados de forma moderna e tecnológica. Entramos em uma locomotiva, para sentir o que ele sentia viajando de trem; brincamos com um tabuleiro onde figurinhas representam contemporâneos seus, que nos repetem o que disseram como reação ao seu assassinato; em uma bacia, colhemos sal, como fez Gandhi em 1930, quando organizou a famosa Marcha do Sal até o Mar da Arábia, para protestar contra o imposto sobre o produto cobrado pelos ingleses; vemos um aro colocado contra a parede que, se aproximarmos a mão, emite o som de uma cítara:

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Há uma harpa representando, contra as cores da bandeira da Índia, a silhueta de Gandhi:

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O objeto menos tecnológico, porém, é o que mais chamou minha atenção:

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Essa escultura é uma recriação dos Três Macacos Sábios, que nos ensinam a não ver o mal, não falar mal e não ouvir o mal. Gandhi tinha frente a ele, no quarto em Birla House, apesar de seu despojamento, uma versão em madeira dos Três Macacos Sábios:

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Visitei Gandhi Smriti com dois colegas, que haviam participado comigo da reunião de trabalho naquele domingo. Ela, residente em Nova Delhi, e que já conhecia bem o museu, teve a paciência de me acompanhar, pois somos amigos há vinte anos. Ele, que estava em Delhi de passagem, é um ex-aluno e me explicou a importância filosófica dos Três Macacos Sábios para Gandhi, confirmando, como mencionei em Tagore, que aprendo sempre muito com meus alunos.

Ao sair, já quase de noite, reparei no portão:

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e na forma como o museu se apresenta ao visitante, na fachada para a rua: “O local do Martírio de Mahatma Gandhi”:

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O assassinato – o “martírio” – concluiu o processo de consolidação de Gandhi no imaginário coletivo.

Antes de partir, fiquei por vários minutos sozinho no jardim, vendo a imponente fachada traseira, ouvindo os pássaros, impressionado com a vastidão do terreno e a altura das árvores, imaginando aquele dia, 69 anos atrás, quando o gramado estava coberto de seres humanos, um deles, escondendo um revólver, já sabendo que aquele seria o último momento de vida do Pai da Nação, que vinha, frágil mas sereno, caminhando em sua direção:

 

Para Claudia Vieira Santos

 

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De carro pela Provença

De carro pela Provença

Quando criança, morei em Rhode-St-Genèse durante quase cinco anos, como registrei em O Triunfo da Cor e em Papai Noel e a amizade.  O que não contei ainda é que, todo verão, íamos ao Sul da França visitar meu avô materno. Todo ano, ele passava uma temporada em Cannes, hospedado no Carlton. Íamos vê-lo de carro, da Bélgica, atravessando a França, com várias paradas, meus irmãos e eu sentados no banco de trás, frequentemente com algum dos nossos animais domésticos no colo.

Meu amor pelo mar vinha desde sempre, já que sou carioca e, durante a minha mais tenra infância, antes da mudança para a Bélgica, morávamos em frente à praia de Copacabana, justamente com meu avô materno, o que se hospedava no Carlton. A precisão é importante, porque meus irmãos e eu tivemos dois avós maternos.  Eram ambos homens boníssimos e superiores, cada um no seu estilo: um, baiano morando no Rio de Janeiro e francófilo; o outro, fazendeiro mineiro na Zona da Mata. Eles jamais se viram ou se falaram, mas estavam perfeitamente cientes da existência um do outro. Eram pessoas sem excentricidades, fora o fato de que tinham amado – e possivelmente ainda amavam – a mesma mulher, minha avó, amaldiçoada por rara beleza e poder de atração, que provocara um escândalo na família ao se separar, aos 19 anos de idade, do primeiro marido, meu avô mineiro. Bahiano e mineiro ambos adoravam a filha que compartilhavam, minha mãe.

Na Avenida Atlântica, à noite, eu ficava na cama, acordado, ouvindo o barulho das ondas. A vista da praia de Copacabana provoca ainda em mim uma forte sensação de segurança e felicidade, embora hoje em dia eu veja o oceano mais usualmente de São Conrado, como ilustrei com esta foto, em Minha vista no Rio de Janeiro:

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Este ano, em julho, ao passar uma semana em Aix-en-Provence para o Festival de Ópera, aluguei um carro e decidi dedicar ao menos um dia ao Mediterrâneo; o calor estava intenso na Provença e eu queria dar um mergulho. A Côte d´Azur seria longe, para ir e voltar no mesmo dia – ainda mais porque iria ao teatro de noite – mas Cassis, que conheço bem, fica perto de Aix:

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A intensidade do azul no mar estava marcante naquele dia:

Mediterrâneo

Perto da praia, porém, havia tonalidades verdes:

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As expedições anuais à Côte d´Azur na minha infância incluíam passeios pela Provença. Começou aí o meu amor pela região, o que é comprovado pelo fato de que um dos primeiros livros que comprei na infância – ou pedi que comprassem para mim – foi este:

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Assim como preservo ainda muitos amigos da infância, guardo com carinho meus primeiros livros.

Em julho, com o carro alugado, fiz outros passeios, além da ida a Cassis para um mergulho. Sobretudo, realizei uma ambição de anos, até então nunca realizada: contornar a Montagne Sainte-Victoire. Celebrada por Cézanne – que era nascido e criado em Aix e lá faleceu – em dezenas de quadros, o morro é quase um ser vivo para os provençais, de tão mítico. Cézanne o via desta forma:

20170104_172334Tirei a foto acima em Paris, em janeiro, ao visitar na Fondation Louis Vuitton  a exposição sobre a coleção Shushkin, sobre a qual falei em Paris – Moscou – Paris. Intitulado Montagne Sainte-Victoire vue des Lauves, pintado entre 1904 e 1905, o quadro pertence hoje ao Museu Pushkin, em Moscou.           

Comecei a visita à montanha pela vertente Sul, seguindo a estrada D 17, conhecida como Route Cézanne, pois ela passa, em seu início, por vilarejos frequentados pelo pintor.  Fui parando em aldeias ou no meio do campo, para fotografar a Sainte-Victoire:

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A estrada estava vazia; desliguei o ar condicionado e abaixei o vidro, para ouvir as cigarras enquanto dirigia. Reservara mesa para almoçar no restaurante Relais de Saint-Ser, perto da aldeia de Puyloubier. Quase encostado na montanha, o restaurante olha para um vale e da minha mesa, no terraço, eu tinha a seguinte vista:

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Essa é uma região vinícola, a Côtes-de-provence Sainte-Victoire, e o Saint-Ser é também um domaine, produzindo o seu próprio vinho. Como eu estava guiando, não quis ir parando de vinícola em vinícola, provando vinho. Apenas, tomei no almoço um copo de rosé, de um produtor vizinho, o Domaine Sainte Lucie. É, provavelmente, o melhor rosé que já tomei.

Esta foto, que tirei na beira da estrada, coloca em uma mesma imagem vários clichés da Provença – o cipreste, o campo de lavanda, as videiras e a Montagne Sainte-Victoire:

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Ao sair do restaurante, antes de entrar no carro, gravei este vídeo, para registrar o canto das cigarras:

Segui meu caminho… continuei parando, tirando fotos, sempre acompanhado pelas cigarras:

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Gradualmente, cheguei à vertente Norte, onde se encontra aquele que era um de meus objetivos principais no passeio: o castelo de Vauvenargues, o qual, da estrada, aparece assim:

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Como mencionei em Tracey Emin e eu, Luc de Clapiers, marquês de Vauvenargues, oficial do exército morto em 1747 aos 31 anos, é hoje meu moralista predileto:

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Nascido em Aix, faleceu em Paris desconhecido, pobre, desfigurado pela varíola, tendo levado uma existência triste e frequentado na capital apenas uns poucos amigos, entre eles Voltaire, vinte anos mais velho do que ele.  Após a morte de Vauvenargues – que ao deixar o exército não conseguira ser diplomata por causa de sua sáude combalida – Voltaire escreveu: “Foi graças a um excesso de virtude que você não foi infeliz, e essa virtude não te custava esforço algum. Sempre reconheci em você o mais desafortunado dos homens, e o mais tranquilo”.

Vauvenargues viveu, na juventude, no castelo paterno, que ganhou súbita fama na segunda metade do século XX por ter sido comprado, em 1958, por Picasso, que lá passou relativamente pouco tempo, mas nunca dele se desfez. Enterrado no parque da propriedade, Picasso acabou lá ficando para a eternidade. O castelo pertence ainda aos herdeiros de sua última mulher, Jacqueline Roque, e não é visitável, como mostra a placa pouco simpática, mas de certa forma engraçada, colocada no portão:

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Ri particularmente com a frase: “O museu fica em Paris”.

Picasso parece ter comprado o castelo sobretudo para se associar a Cézanne, a quem não conheceu pessoalmente, mas que admirava, que o influenciara e de quem possuía obras. John Richardson escreve no segundo volume de sua biografia de Picasso, com quem conviveu, que os sentimentos do artista por Cézanne não eram puramente reverenciais. Picasso via Cézanne como “a mentor whose shadow he wanted to assimilate as well as escape”, enquanto ao mesmo tempo o chamava de “mother, father and even grandfather”. Como um pai, “Cézanne had to be transcended – exorcised – metaphorically killed”. No catálogo da sensacional exposição Picasso, the Mediterranean years, 1945-1962 que organizou para a galeria Gagosian, em Londres, em 2010, e que tive a sorte de visitar, Richardson escreve: “Vauvenargues might also have proved a mixed blessing in regard to Cézanne. Picasso had devoured Cézanne at the time of Cubism, but after poaching on his favourite motif he may well have felt in danger of being devoured himself”.

O  catálogo – cuja qualidade faria, como a exposição na Gagosian, muito museu empalidecer –  inclui esta foto tirada por Edward Quinn de Picasso e Jacqueline Roque, olhando pela janela de uma sala de Vauvenargues:

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Fico imaginando o moralista dois séculos antes, olhando melancolicamente pela mesma janela do castelo do pai, com quem mantinha relações difíceis, sem poder prever a Revolução de 1789 e as seguintes, as duas Guerras Mundiais e a chegada na propriedade paterna do espanhol genial – que era também um pai difícil.

Outro amigo de Picasso, David Douglas Duncan, publicou em 1961 livro surpreendente, Picasso’s Picassos, sobre o que eram até então centenas de obras desconhecidas do artista, guardadas no castelo de Vauvenargues e em outra de suas propriedades, La Californie, perto de Cannes. O livro apresenta fotos preciosas tiradas por Duncan, como estas duas, de Picasso diante da fachada de Vauvenargues e sentado no salão transformado em estúdio:

20170812_205103Duncan se orgulha, com alguma razão, de ter conseguido capturar o arco-íris coroando o castelo e o artista: “the most remarkable combination of natural phenomenon with newsbreak timing”. Segundo ele, “No single landmark is more renowned in modern art than Sainte-Victoire”, por causa de Cézanne.

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Duncan menciona no livro ter ouvido de Picasso o comentário de que, com a compra do castelo, parte da montanha, inclusive o pico, agora lhe pertencia. Isso me faz lembrar ter ouvido de uma amiga em Quito, proprietária da melhor livraria da cidade, que a escritura de posse da fazenda familiar especificava: “Incluye el cerro”. O “cerro” em questão era nada menos que o magnífico Chimborazo, vulcão de mais de 6.200 metros de altitude.

O castelo fica entre a montanha e a aldeia de Vauvenargues, Aqui, a rua principal:

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Da aldeia, há vistas excelentes do castelo:

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Vendo a cena acima, lembrando que o escritor e o artista viveram nessa casa e que a montanha, atrás, inspirou Cézanne,  pensei que  o modesto vilarejo de Vauvenargues acabou sendo um farol da cultura ocidental.

Era tempo de regressar a Aix. Retomei a estrada, sempre bela, quase sempre vazia:

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Pouco após Vauvenargues, notei que eu passava entre a Sainte-Victoire à esquerda e, à direita, um campo de lavanda. Parei o carro e saltei. O campo de lavanda ficava em uma propriedade particular, mas não havia cerca e a casa era distante.  Andei pelas flores, fixando a montanha, impressionado com o silêncio – quebrado apenas pelas cigarras – com o isolamento, com a beleza do lugar.

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Seria poético eu dizer que ali, naquele campo de lavanda, encarando a Sainte-Victoire, pensei nas inúmeras vezes em que, criança e adulto, passeara de carro pela Provença; dizer que meditei sobre o tempo, as incoerências da vida, a impermanência das pessoas e das coisas, que deve nos fazer valorizar o que se revela permanente; dizer que refleti sobre o poder da arte e da literatura para dar sentido à vida, e que se Vauvenargues, Cézanne e Picasso, seus sonhos, decepções e experiências vieram e se foram, eles ao menos nos deixaram obras que ajudam a tornar nossas vidas mais ricas, suportáveis.

Mas nada disso aconteceu. Parado sozinho naquele momento, naquele lugar, pensei apenas na felicidade que era ver a imponência da montanha, sentir o perfume da lavanda, ouvir as cigarras, viver plenamente aquelas sensações, exercitar os meus sentidos, atento somente ao que me rodeava.

Enviei a foto da lavanda aos pés da Sainte-Victoire à minha mulher e à minha filha e regressei a Aix. Ainda pude visitar uma exposição antes da ópera.

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De Taxila a Panam Nagar

De Taxila a Panam Nagar

Em 2010, recebi de um amigo belga um presente extraordinário: os volumes completos da versão de 1963 da 14ª edição revista da Enciclopédia Britânica. Ele estava se desfazendo de parte da biblioteca. Perguntou-me se eu queria a Enciclopédia e sabia a resposta de antemão. Morávamos no mesmo bairro em Bruxelas; passei em sua casa, recolhi os 24 volumes (um deles com o índice e mapas) e coloquei-os no carro.

Cresci namorando na estante do meu pai a sua edição da Enciclopédia Britânica – ano de 1957 – que hoje está guardada em um depósito no Rio. Adulto, passava horas lendo a edição dos meus sogros, que hoje está em um depósito em Curitiba.

Já mencionei várias vezes neste blog – por exemplo em O Amor, em Papai Noel e a amizade e na crítica ao filme O Plano de Maggie – o papel que os livros podem exercer em minha relação com as pessoas. Valorizei muitíssimo receber uma edição completa da Enciclopédia Britânica, que hoje aparece assim na estante, rodeada aliás de livros que recebi de outros amigos e de parentes:

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Minha relação amorosa com a Enciclopédia Britânica sofreu um duro baque há poucos dias, quando li o verbete sobre Alexandre, o Grande. Na minha postagem anterior, fui severo com aquele que tantos consideram um herói. Apontei a sua crueldade e a falta de propósito prático de suas conquistas. Senti curiosidade em ver como o Rei da Macedônia era tratado na Enciclopédia: descobri páginas e páginas escritas em tom de fervor juvenil. Para os editores, ainda em 1963, Alexandre era um homem inigualável. Fiquei surpreso com a falta de espírito crítico do texto.

Apesar de meus comentários, algo da admiração que sentia na infância por Alexandre sobreviveu, pois minha passagem por Taxila, no Paquistão, há um mês, me marcou por sua causa. Desde sempre, associo o nome do lugar a ele. Em Taxila, visitando as ruínas da cidade e as dos mosteiros budistas, eu olhava a paisagem ao meu redor e pensava: “Ele também por aqui andou… ele também viu essas montanhas, essa grama, esse horizonte…”. Já mostrei anteriormente cenas de paisagem e das ruínas de Taxila, mas não resisto a mostrar mais.

No caminho entre Rawalpindi e Taxila, meu carro enfrentou a seguinte dificuldade, como aliás outro também, vindo na direção oposta:

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O centro urbano que visitei em Taxila é Sirkap, fundado cerca de 150 anos após a passagem de Alexandre. Estas são portanto ruínas de edifícios que, embora antiquíssimos, o conquistador não viu:

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Fiquei me perguntando se a paisagem seria mais duradoura do que os prédios:

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Taxila é famosa pelas ruínas de mosteiros budistas, como o de Jaulian, que serviu também de universidade e foi destruído no século V por invasores da Ásia Central denominados Hunos Brancos. Tive muito no que pensar, vendo estes três restos de colunas em Jaulian:

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Há muita poesia nesses três fragmentos. Eles evocam a transitoriedade das coisas, das religiões – o Budismo já não é a principal religião da Índia, sendo praticado apenas por 0,7% da população. Pensei nos monges que aqui vieram morar ou estudar e meditar; lamentei que conquistadores destruam não somente impérios e cidades e vidas humanas, mas também centros de pensamento e de espírito religioso. O mosteiro foi destruído, mas o que terá acontecido com os monges que lá ainda estavam quando os Hunos Brancos chegaram? Provavelmente, algo nada invejável.

Na estupa – monumento que abriga os restos mortais de algum monge importante ou sábio budista – principal de Jaulian, admirei os restos de esculturas, como estes:

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Ao sair de Jaulian, reparei nestes degraus ao longo de um muro, que pareciam levar ao Infinito:

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Igualmente evocadoras são as ruínas de Dharmarajika, estupa e mosteiro particularmente famoso, pois os restos mortais que ele acolhia eram de uma parte do corpo do próprio Buda:

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Havia poucos visitantes:

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E alguns guias, como este:

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Como em Jaulian, as ruínas evocavam paz e serenidade:

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Reparem nas figuras humanas abaixo:

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O museu de Taxila é famoso pela sua coleção de moedas e de estátuas encontradas nas ruínas e nos vales ao seu redor, representativas da arte de Gandara:

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Assim como Alexander Sokurov fez, em Francofonia, uma declaração de amor ao Louvre e focalizou algumas das peças daquele mega-museu – e talvez eu venha a fazer o mesmo, em uma escala naturalmente bem menor, em uma próxima postagem, mostrando fotos que tirei no Louvre em janeiro – quero mostrar alguns exemplos da coleção do museu de Taxila, como já fiz com o Museu de Arte Islâmica de Doha.

As estátuas abaixo são dos séculos II ou III depois de Cristo:

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Acima, o Buda no estado de Abhaya Mudra (sem medo). Abaixo, a estátua de que os guardas do museu mais se orgulham, o Bodhisattva Maitreya (o buda do futuro):

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Quase todas as peças no museu são mostradas dentro de vitrines de vidro, o que dificulta a reprodução fotográfica, pelos reflexos.

A minha escultura predileta talvez tenha sido esta, do Buda meditando:

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Se, no Paquistão, Rawalpindi e seu parque onde dois Primeiros-Ministros foram assassinados e Taxila, suas ruínas e seu museu me fizeram pensar sobre a transitoriedade dos impérios, dos homens e do poder, e também sobre o consolo que as religiões frequentemente trazem às pessoas, bem diferente foi minha atitude com relação a Panam Nagar, em Bangladesh, poucos dias depois.

Panam Nagar – ou Panam City, o que já soa mais prosaico – é um distrito, desenvolvido no final do século XIX, durante o domínio britânico, da antiquíssima cidade de Sonargaon, a cerca de uma hora de Daca. Povoada sobretudo por prósperos comerciantes bengalis de religião hindu, foi abandonada em 1964, após os massacres contra aquela minoria efetuados pelos muçulmanos no que era então o Paquistão Oriental.

Panam Nagar e Sonargaon eram apenas vagos nomes para mim, antes de eu chegar a Bangladesh. Pude assim visitá-los sem idéias preconcebidas. Sobram em Panam Nagar as ruínas, em variado estado de conservação, de 52 prédios, todos situados nos dois lados de uma rua.

Cheguei cedo e encontrei o local quase deserto:

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Fui ciceroneado pelo administrador do sítio, que me mostrou praticamente todas as casas:

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Esta é uma das casas mais bem conservadas:

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As mais prósperas possuem todas um andar térreo no mesmo formato, com arcadas:

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Essas casas eram ao mesmo tempo residências e depósitos comerciais.

De outras, sobra apenas uma parede, ou pedaço da fachada:

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O administrador me levou à casa mais preservada – ou reformada, na qual ele e sua família moram. Embora a casa esteja em bom estado, fiquei imaginando como seria ficar ali à noite, naquela cidade fantasma:

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Do terraço da casa, vi mais ruínas, que me lembraram sítios arqueológicos em Roma:

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O administrador me explicou que, durante anos, os habitantes da região dilapidavam os prédios, roubando os tijolos para construir suas próprias residências.

Vi, do terraço, que a cidade já não estava tão vazia como quando eu chegara:

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Descemos e seguimos caminhado pela única rua. Pouco a pouco, uma multidão animada e alegre, em trajes coloridos, encheu a rua, os gramados e as ruínas. O administrador me explicou que visitam Panam Nagar cerca de 150.000 turistas por ano, dos quais 3.000 são estrangeiros.

As cores foram tomando o espaço:

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Um visitante tira um selfie no topo de uma casa em ruínas:

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Havia grupos de estudantes:

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E vários vendedores ambulantes:

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A variedade e a riqueza de cores nos trajes era surpreendente, em uma aldeia abandonada:

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Os espaços que eu vira vazios, estavam agora ocupados por turistas:

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E as ruas estavam agora agitadas:

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Embora aquela região do que hoje é Bangladesh tenha, como todo o país, uma história rica, carregada de beleza mas também de violência – como provam as casas em ruínas – a alegria dos turistas e as cores chamativas me contaminaram e senti-me bem menos meditativo do que em Rawalpindi e em Taxila.

Escrevo este texto no Rio de Janeiro, olhando o mar:

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O que haverá nesta casa daqui a 1.000 anos? Ruínas? Prédios? Nada? Quem verá o Oceano Atlântico e essas ilhas deste mesmo ponto em que me encontro? Às vezes, quando estou no meu jardim à noite, penso nas muitas pessoas que, ao longo dos séculos, também passearam por seus jardins, em diferentes continentes, com preocupações e alegrias semelhantes às minhas. Olho a Lua e medito sobre algum babilônio que, séculos antes de Cristo, também possuía um jardim e admirava o satélite da Terra, certo de que sua casa, sua grama, suas árvores, sua religião e o império a que estava submetido durariam para sempre. Taxila, Julian, Dharmarajika, Panam Nagar parecem longe, no tempo e no espaço. Lá também, contudo, viveram seres humanos, com seus sonhos e suas ambições. Um dia, o que hoje conhecemos e consideramos eterno e natural não existirá mais, será uma ruína ou talvez nem isso.

Gravei o vídeo abaixo no rio Buriganga – ou Velho Ganges – em Daca. Os grandes rios asiáticos viram já todo tipo de civilização; uma multidão de seres humanos e de construções passaram por suas margens ao longo da História. Às vezes, eles tiveram seu curso modificado, pela natureza ou pelo Homem, e encontram-se frequentemente poluídos. Continuam, porém, a correr – se não imutáveis, ao menos eternos – até o fim dos tempos.

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Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi

Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi

Em uma manhã de primavera, libertei 200 pássaros em Rawalpindi.

O sol brilhava e o gesto, que pouco dinheiro me custou, deu sequência a uma linha de pensamento sobre a História e a fragilidade dos impérios e do poder. Isso aconteceu na semana passada quando, em Islamabad a trabalho, fui levado a Rawalpindi, cidade de 3 milhões de habitantes vizinha  da capital.

Para o longo trajeto de avião até Islamabad, eu levara isto:

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Eu lera uma crítica positiva sobre o livro no ano passado e estava decidido a comprá-lo quando, surpreendentemente, ganhei-o de presente de Natal de um amigo indiano, poeta de renome. Lembrei-me da amiga psicanalista que parecia ler todos os meus pensamentos mas, como naquele caso, não era a demonstração de um poder de adivinhação da minha mente, e sim de amizade e da capacidade de entender como penso e por quê me interesso.

Natwar Singh, diplomata, hoje com 85 anos, teve uma carreira ilustre: foi Ministro das Relações Exteriores de 2004 a 2005 e parlamentar. Aristocrata, casou-se com a filha de um Marajá. O livro é uma coleção de artigos publicados por ele entre 2011 e 2012 no jornal Mail Today. São textos curtos, de três páginas em média, que ilustram a sua vida pessoal e profissional. O que salta aos olhos, na leitura, é de um lado a competência e o dinamismo da diplomacia indiana desde a Independência e, de outro, a capacidade do velho Embaixador de fazer amigos nas mais diferentes esferas. Sua longevidade na vida pública deveu-se à ligação com a família de Jawaharlal Nehru, particularmente com as duas irmãs do Primeiro-Ministro e, posteriormente, com sua filha, a também Primeira-Ministra Indira Gandhi, de quem foi próximo. O elo manteve-se com Rajiv Gandhi e sua viúva, Sonia Gandhi, embora eu tenha lido em outras fontes haver agora distanciamento entre Singh e a família política mais longeva e poderosa da Índia.

Natwar Singh fala dos Presidentes, Primeiros-Ministros e outros políticos que conheceu. Vemos desfilar, nas sucessivas anedotas, entre outros, Fidel Castro, Nelson Mandela, Vladimir Putin, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Indira Gandhi, Rajiv e Sonia Gandhi, Lord Mountbatten, Yasser Arafat, Haile Selassie, a viúva de Zulfikar Ali Bhutto, Nusrat Bhutto,  e o homem que garantira a execução de seu marido, Zia-ul-Haq. A foto na capa do livro representa o Imperador da Etiópia, Haile Selassie, e a Imperatriz  – e também os leões de estimação do casal imperial, que participavam das cerimônias de apresentação de credenciais dos Embaixadores, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, e que explicam o título da obra. Cada capítulo revela algo da personalidade do retratado e também do autor, em tom bem-humorado.

Natwar Singh é fascinado com Indira Gandhi; trabalhou com ela por cinco anos. Minha anedota preferida talvez seja a que relata visita da Primeira-Ministra ao Afeganistão, em 1969. Com algumas horas vagas na programação oficial, Indira Gandhi decide fazer passeio de carro pelos arredores de Cabul. Na estrada, vê em uma colina árida um canto verde e descobre que naquele local está o túmulo do primeiro Imperador Mughal da Índia, Babur, descendente de Tamerlão e morto em 1530. No Brasil, Babur é, se tanto, um nome, mas como todo fundador de império, sua memória é viva no território – o Subcontinente indiano – onde implantou sua dinastia; foi trisavô do Imperador construtor do Taj Mahal, Shah Jahan. Entende-se assim a emoção de Indira Gandhi, que decide visitar o túmulo, acompanhada de Natwar Singh. Vi fotos na Internet que mostram ser o local, hoje, bem cuidado. Em 1969, o jardim tinha virado um matagal. A comitiva da Primeira-Ministra demora para achar o túmulo. Indira Gandhi fica em silêncio, contemplando o lugar onde repousa o ilustre Imperador, e então comenta: “Tivemos nosso encontro com a História”. Natwar Singh, sem pestanejar, declara então a ela: “Eu tive dois; ver o túmulo de Babur é um acontecimento histórico, mas fazê-lo na companhia de Indira Gandhi é em si um segundo momento histórico”.

Outra anedota reveladora é a que descreve a visita em 2005 de Sonia Gandhi, Presidente do Partido do Congresso, a São Petersburgo, acompanhada por Natwar Singh, então Ministro das Relações Exteriores. Sonia Gandhi levara o Partido do Congresso a ganhar as eleições gerais no ano anterior e só não se tornara Primeira-Ministra por que não quisera, tendo escolhido Manmohan Singh para ocupar o cargo. Estava, portanto, no auge de seu poder e prestígio. Ela e Natwar Singh fazem passeio de barco pelo Golfo da Finlândia, em uma bela manhã de junho. Vladimir Putin os acompanha. Escreve o autor: “A informalidade afável e o ambiente descontraído eram uma alegria”. Indagado por Putin há quanto tempo conhece a família Nehru-Gandhi, Natwar Singh responde modestamente que desde 1944 – portanto antes mesmo da Independência da Índia.

Desembarquei em Islamabad pensando nas figuras poderosas descritas por Singh e nos seus destinos. No meu primeiro dia na cidade, em um intervalo no trabalho, fui à livraria principal, Saeed Book Bank:

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A livraria é um paraíso, onde é possível encontrar enorme bibliografia sobre a história, a economia, a vida política, as relações internacionais, a vida cotidiana do Paquistão, da Índia e de Bangladesh – país que eu visitaria logo após minha passagem por Islamabad:

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Comprei estes livros:

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O livro de Oriana Fallaci é uma coletânea de algumas de suas mais famosas entrevistas, feitas nas décadas de 60, 70 e 80, quando sua islamofobia não era ainda tão evidente e ela podia ser admirada pela coragem em fazer com que os poderosos se revelassem ingenuamente.

Uma coisa marcante no livro é o escancarado machismo de vários dos entrevistados masculinos. Declara o Xá do Irã, Reza Pahlavi, em 1973: “As mulheres só são importantes na vida de um homem se são bonitas e encantadoras […] as mulheres não são iguais aos homens em termos de habilidade […] vocês nunca nem sequer produziram um grande chef”. A partir daí, o Rei dos Reis perde todo auto-controle e fulmina: “As mulheres, quando governam, são muito mais cruéis e sedentas de sangue do que o homens. Vocês são o Mal, todas vocês”.

Zulfikar Ali Bhutto, em 1972, passa boa parte do tempo em sua entrevista a Falacci defendendo-se de ter tido qualquer participação na violência ocasionada pelo processo de independência de Bangladesh em relação ao Paquistão, concluído no ano anterior. De repente, deixa-se levar pela vaidade e afirma ser, apesar de suas duas mulheres legítimas, um “romântico”, claramente confundindo promiscuidade sexual com romantismo. Declara: “Não dá para ser um político sem ser um romântico. E como romântico, creio não haver nada mais inspirador do que um caso de amor. Não há nada de errado em se apaixonar e conquistar o coração de uma mulher. E dá para se apaixonar cem vezes. Mas eu sou um homem muito, muito moral”.

A entrevista mais famosa de todas talvez seja a de Henry Kissinger, também de 1972, considerada um modelo de como o entrevistador pode fazer com que o entrevistado faça revelações que não desejava fazer. Declara Kissinger, então divorciado: “Quando estou com garotas, sei o que devo fazer com garotas […] As mulheres não são uma preocupação central para mim. Elas são uma distração, um hobby. Ninguém passa muito tempo com seus hobbies”. 

Golda Meir e Indira Gandhi saem-se com louvor de suas respectivas entrevistas. Ao lê-las, sentimos admiração por elas. A de Indira Gandhi, porém, foi feita dois anos antes de ela decretar o Estado de Emergência na Índia, que prejudicou de forma duradoura a sua imagem.

Muitos dos entrevistados nessa coletânea foram assassinados, executados ou exilados, o que já é uma observação sobre a transitoriedade e os riscos do poder. Comentei sobre isso com um amigo, que opinou: “Muitas dessas entrevistas foram feitas com líderes de países em desenvolvimento, no contexto da Guerra Fria. As instituições nesses países eram ainda frágeis e submetidas às evoluções da situação internacional”. É uma boa explicação, mas a primeiríssima entrevista na coletânea é com um futuro assassinado que não se enquadra nesse contexto, Robert Kennedy.

Voltemos a Rawalpindi. Já que eu fora levado à cidade, pedi para visitar o parque onde, em 2007, realizou-se o último comício de Benazir Bhutto, que voltara do exílio há apenas dois meses. Ao sair do comício, Benazir Bhutto foi assassinada em um atentado suicida. O parque é denominado Liaquat Bagh, em homenagem ao Primeiro-MInistro paquistanês Liaquat Ali Khan, também  ali assassinado, em 1951.

No parque, filmei a seguinte cena:

Eu sabia que, ao sair do parque em Rawalpindi, seria levado a outra localidade próxima, Taxila, onde em 326 a. C. Alexandre o Grande fora homenageado pelo Rei local, em sua passagem pelo Norte da Índia e do que hoje é o Paquistão. Tirei a primeira foto neste texto nas ruínas de Taxila. Minha postagem sobre Os Bragança de Chandor, Goa, India termina com o comentário de que a Índia é “desde sempre objeto das cobiças e devaneios alheios”. Ao escrever essa frase, era também em Alexandre que eu pensava.

O que fora Alexandre fazer em Taxila? Terá visto a mesma paisagem que lá vi?

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Que compulsão sentia Alexandre em movimentar seu exército sem cessar, levando-o uma hora ao Egito, outra à Pérsia, outra à Índia, como alguns apenas levantam as peças no tabuleiro de xadrez? Que propósito essa hiperatividade cumpria? No Paquistão, fiquei me perguntando se suas conquistas teriam tido algum objetivo econômico, que pudesse justificá-las. Encontrei esta resenha, publicada em janeiro na Bryn Mawr Classical Review sobre um livro intitulado The Treasures of Alexander the Great. Livro e resenha aniquilam qualquer ilusão de que a epopéia de Alexandre tenha tido um objetivo econômico ou uma consequência nessa área.

Aos 7 ou 8 anos de idade, recebi de presente de meus pais uma biografia de Alexandre, que li avidamente e onde vi pela primeira vez o nome Taxila, sem imaginar que um dia lá iria:

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Na infância, é possível que eu admirasse as proezas de Alexandre. Hoje, vejo-o como mais um personagem vão, egoísta e cruel, que gostava de brincar de guerra e via os seres humanos como mero instrumento para atingir sua inútil ambição. Admito que foi mais bem-sucedido, como ambicioso, do que a maioria, pois seu nome parece destinado a perdurar na eternidade.

Encostado em uma árvore em Liaquat Bagh, pensei na ilusão dos poderosos, que sistematicamente acreditam na sua importância e na perpetuação de seus projetos, seu nome, sua dinastia, seu regime político. Pensei em Alexandre, em Tamerlão, em Babur, em como tudo passa e tudo termina. Lembrei-me do trecho em que Plutarco descreve como, bêbado, Alexandre matara um de seus melhores amigos, Clito, porque este, também inebriado, lhe dissera duras verdades, sempre um risco em toda Corte. Clito, que um dia salvara a vida de Alexandre, cometera o erro de considerar-se seu amigo e não seu cortesão. Pensei no paradoxo de que Tamerlão, possivelmente um psicopata, em todo caso o mais sanguinolento dos conquistadores, tivesse inspirado a Christopher Marlowe a mais soberba das peças, em verso branco e com imagens inesquecíveis.

Esse contraste me fez recordar que aquele parque onde eu estava, tão acolhedor, fora o cenário do assassinato de dois Primeiros-Ministros. O que eu via – o gramado verde, os pássaros cantando, as crianças brincando, as árvores – era o que vira Benazir Bhutto segundos antes de ser morta. O pensamento sobre como a beleza às vezes convive com a violência me fez entender que Alexandre não precisava de objetivo prático algum para conquistar o mundo. Atravessara o Helesponto, para nunca mais voltar, porque essa era sua razão de viver. Como todo ser humano, fizera o que julgara necessário para atingir a felicidade. Que seu sonho de felicidade significasse o sofrimento e a morte de milhares dificilmente deteria um monarca do século IV a. C.

Dirigi-me ao portão e saí para o burburinho da rua. Gradualmente, dei-me  conta de que, enquanto eu refletia no parque sobre a História, a realidade cotidiana fazia-se bem presente na calçada. Eis o que vi:

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Aproximei-me e entendi a situação: um mulher ocidental negociava, por meio de intérprete, com um vendedor de passarinhos a libertação de alguns deles.

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Perguntei à mulher quantos pássaros ela ia libertar, e ela respondeu que seis. Colocou a mão em um das duas gaiolas e pouco a pouco foi capturando e soltando seis animais, um após o outro. A cena me deu muito no que pensar. Refleti sobre critérios como justiça e sorte na vida. Havia duzentos passarinhos nas duas gaiolas. Seis, em um contexto de duzentos, parecia um número irrisório. Imaginei o destino dos outros cento e noventa e quatro. De certa forma, o enclausuramento daqueles pássaros e a libertação acidental de uns poucos simbolizava a arbitrariedade das circunstâncias que ocorre em toda existência.

Indiquei à mulher que seria melhor soltarmos todos os pássaros. Apontei que não cabia a nós transformar a vida de seis animais, deixando os outros à própria sorte. Fazer isso era praticar uma injustiça, disfarçada de generosidade. Mencionei que havia aí uma questão filosófica. Ela concordou. Ocorreu então negociação com o vendedor, o qual, depois de algum tempo, aceitou entregar-nos todos os animais pelo equivalente a 72 dólares. Dividimos os custos. Abrimos as duas gaiolas. Alguns dos pássaros mostraram-se estranhamente reticentes a escapulir e voar. Tivemos de ajudá-los. Entrementes, a cena era observada:

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O  olhar em minha direção do homem de barba, de marrom, enquanto eu tirava a foto acima, me incomodou. Tomei consciência de que ajudar duzentos pássaros a recobrar a liberdade era bem mais fácil do que contribuir para a felicidade de seres humanos.

Consolei-me, porém, com a idéia de que, se eu nada podia fazer por esse indivíduo desconhecido, posso ao menos tentar tornar mais agradável a vida dos que me cercam. Um homem com esse sonho não cria impérios vastos e efêmeros, como Alexandre e Tamerlão, mas talvez se torne um ser menos cruel e egoísta do que eles.

Entrei no carro e parti para Taxila.

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Sevilha: Palacio de las Dueñas e Casa de Pilatos

Sevilha se caracteriza por seus bairros antigos bem preservados, suas cores, suas laranjeiras carregadas de frutas mesmo no inverno, suas ruas pitorescas, pelo céu azul e pela luz peculiar. Some-se a isso o clima ameno no outono e no inverno, os excelentes e inúmeros restaurantes e a boa educação da população local e tem-se a explicação de por que a capital da Andaluzia é destino apreciado pelos turistas. Lá passei a virada do ano.

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Quando a conheci pela primeira vez em 2007, Sevilha já possuía fortes conotações culturais para mim. Desde sempre, era o local que eu associava a Carmen, a Velázquez -que nasceu na cidade – à figura de Figaro (que já mencionei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro) e à estória de Don Juan, que inspirou Molière e Mozart. Até hoje, não posso passar ao longo do muro da antiga Real Fábrica de Tabacos, atualmente sede da Universidade, e frente à sua entrada monumental sem pensar que é lá onde trabalha a fictícia Carmen e cantarolar alguma ária da ópera de Bizet:

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A dama de ficção mais querida para os sevilhanos é porém a figura de bronze do século XVI que adorna o topo do campanário (e ex-minarete) da Catedral, representando a Vitoriosa. Originalmente conhecida como Giralda, porque ela gira de acordo ao vento, a escultura passou a se chamar Giraldillo quando o nome original, por extensão, foi atribuído ao campanário. Aparentemente, há quem use os dois termos, de maneira indiferente, para se referir a ela.

Para um fotógrafo amador, conseguir uma boa imagem da Giralda e do Giraldillo é um desafio, por causa da altura do campanário, de quase 100 metros. Tirei várias fotos; acho que esta, onde coloquei um filtro para tornar os detalhes mais nítidos, mostra melhor a imponência da torre, embora a figura de bronze pareça distante:

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Felizmente, frente a uma das portas da Catedral há uma réplica também em bronze da escultura – que já esteve no topo da torre de 1999 a 2005, enquanto o original era restaurado – e assim pode-se apreciar de perto a beleza da figura renascentista:

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Cervantes, que morou em Sevilha, menciona a escultura no Don Quijote, como lembra placa em uma fachada na praça em torno à Catedral, mais precisamente no trecho conhecido como Plaza del Triunfo:

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Cervantes menciona Sevilha frequentemente em sua obra. Caminhando pela cidade, vi duas outras placas, ambas de azulejos, comemorando o escritor.

Na famosa Calle Sierpes, tradicional rua de comércio, vi esta:

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A Cárcel Real é onde Cervantes esteve preso por três meses, em 1597.

Em 1999, em entrevista publicada pela revista Sibila, João Cabral de Melo Neto, que morou em Sevilha mais de um vez e dedicou a ela os poemas recolhidos no livro Sevilha Andando, perguntado sobre que imagem lhe vinha à cabeça quando pensava na cidade, respondeu: “Acho que é a calle Sierpes, a rua principal. Chama-se Sierpes por isso, porque ela não é reta”.

Haverá forma mais bonita de celebrar uma cidade do que o famoso poema de João Cabral Sevilhizar o mundo ?

Como é impossível, por enquanto,
civilizar toda a terra,
o que não veremos, verão,
de certo, nossas tetranetas,

infundir na terra esse alerta,
fazê-la uma enorme Sevilha,
que é a contra-pelo, onde uma viva
guerrilha do ser, pode a guerra.

Voltemos a Cervantes. Em um muro, ao lado de portão de acesso ao recinto da Catedral, há esta placa:

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A referência às Novelas Ejemplares me traz boas lembranças, pois tenho particular afeição por esse livro. Vejam a placa em mais detalhe:

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Intrigado pela confecção harmoniosa das placas de azulejos referentes à obra de Cervantes, fiz pesquisa na Internet, onde descobri texto interessante do escritor José Carlos Canalda, no qual explica que, em 1916, para comemorar o tricentenário da morte de Cervantes – e o ano de 1616 é também, quero lembrar, pois é uma coincidência marcante, aquele em que morreu Shakespeare – as autoridades sevilhanas encomendaram vinte placas de azulejos em que seriam lembradas as menções feitas pelo escritor à cidade.

Falemos, porém, não mais de uma heroína de ficção, como Carmen ou a Giralda ou Giraldillo, mas de uma mulher de carne e osso.

No final do século XV, vivia en Sevilha uma dama nobre de nome Catalina de Ribera, que faleceu em 1505, com cerca de 55 anos de idade. Catalina casou-se com o viúvo de sua irmã, Pedro Enríquez de Quiñones. Os dois iniciaram a construção da Casa de Pilatos e, em 1483, adquiriram outro imóvel em Sevilha, o Palacio de las Dueñas. E é assim que o casal, que deve ter sido uma potência imobiliária na Sevilha da virada dos séculos XV e XVI, possuiu as primeiras versões das duas residências que, hoje, modificadas e ampliadas, são consideradas os mais importantes bens imóveis de Sevilha, após o Alcázar, residência real.

Catalina de Ribera é amplamente homenageada na Sevilha contemporânea. Na continuação dos Jardines de Murillo estão os Jardines de Catalina de Ribera, onde está, ao longo da muralha do Alcázar, o Paseo de Catalina de Ribera, no qual existe uma fonte do começo do século XX celebrando-a. Abaixo, mostro a fonte e sua inscrição, em sucessivos graus de detalhes:

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Tirar essa foto de lado não foi uma boa ideia, obviamente. O detalhe abaixo, tirado de frente, ficou melhor:

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E finalmente, a inscrição, que faz referência ao fato de Catalina ter sido a “egregia fundadora” do Hospital de las Cinco Llagas:

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Pelas vicissitudes das sucessões, os dois palácios do casal Pedro e Catalina, embora estejam ambos ainda nas mãos de seus descendentes, pertencem a proprietários diferentes. Os Duques de Alba são os donos do Palacio de las Dueñasos Duques de Medinaceli são os donos da Casa de Pilatos.

Em uma visita anterior a Sevilha, há muitos anos, eu visitara a Casa de Pilatos. Em 2016, pela primeira vez, o Palacio de las Dueñas foi aberto à visitação, em função da morte, em 2014, de Cayetana, 18ª Duquesa de Alba, célebre por seu espírito independente e anti-conformista, que lhe rendeu, entre os espanhóis, enorme popularidade, rara talvez em alguém nesse nível de riqueza – há avaliações de que deixou, ao morrer, fortuna de cerca de 2,8 bilhões de euros. A imagem da Duquesa de Alba está associada à casa em Sevilha, aparentemente sua preferida. Os jornais com frequência declaravam que ela detinha 46 títulos de nobreza e que essa cifra seria um recorde. A 18ª Duquesa de Medinaceli, porém, falecida em 2013, um ano antes de Cayetana (e não deixa de ser curioso que os numerais das duas fossem idênticos) parece ter detido 51 títulos. Quando a mesma pessoa possui 6, 7, 8 ou 9 Ducados, como era o caso das duas, aparentemente a precisão fica mais difícil.

Tanta ostentação de nobreza e fortuna, nas famílias dos Duques de Alba e de Medinaceli, me faz pensar em duas coisas, relacionadas. Primeiro, penso no poema de Sophia de Mello Breyer Andresen, Retrato de uma princesa desconhecida:

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Em segundo lugar, lembro que o Duque de Alba mais destacado foi o terceiro, o celebérrimo  Governador dos Países Baixos – região então possessão dos Habsburgos espanhóis – que, sob o reino de Felipe II, reprimiu de forma cruel e sanguinária a revolta contra o domínio da Espanha, o que não impediu o Norte da província, os atuais Países Baixos, de se tornarem independentes. O Sul católico, a atual Bélgica, permaneceu sob domínio dos Habsburgos, primeiro do ramo espanhol e, depois, com a extinção desse, do ramo austríaco, até a Revolução francesa. O mesmo Duque de Alba se destacou também por ter conquistado Portugal para Felipe II e ter sido nomeado primeiro Vice-Rei da nova possessão da monarquia habsburguesa. Por mais condenável que seja o Duque de Alba, responsável por milhares de execuções nos Países Baixos – de fato, “um imenso desperdiçar de gente”- na Espanha ele parece ainda ser visto como herói. Nenhum Duque de Medinaceli chegou perto de sua fama.

No final de dezembro, visitei as duas propriedades, o Palacio de las Dueñas e a Casa de Pilatos, uma logo após a outra.

Vejamos primeiro o Palacio de las Dueñas. Este é o portão de entrada, com o brasão usado pela família no século XVIII:

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 O que se vê do portão, em direção à rua, é o seguinte:

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A placa de azulejos no muro da direita foi colocada em homenagem ao poeta Antonio Machado, nascido na propriedade em 1875, pois seu pai era advogado ou administrador dos Duques de Alba, que alugavam casas no recinto de seu palácio, como os Duques de Guermantes alugavam à família do Narrador um apartamento em seu hôtel particulier.

Ver essa homenagem a Machado foi comovente para mim porque, na adolescência, em Montevidéu, minha professora de espanhol na escola era admiradora de sua poesia e as aulas eram passadas dissecando obras suas. Vejam em detalhe a placa, que alude a poemas de Machado:

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A paródia da bandeira e do hino britânicos pintada em uma porta de garagem pode ser vista mais nitidamente na foto abaixo:

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Uma homenagem, portanto, frente ao seu palácio, à popularidade de Cayetana, descendente do Rei da Grã-Bretanha James II.

Entremos no recinto do Palacio de las Dueñas. Chama a atenção a profusão de pátios, o mais célebre dos quais talvez seja o Patio de los limoneros, ilustrado nas duas fotos abaixo:

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Segue-se a ele o pátio principal, com suas arcadas:

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Na foto abaixo, a placa no muro, à esquerda, presta mais uma homenagem a Antonio Machado.

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Reparem abaixo nos azulejos e na ornamentação dos muros e do arco da porta, no pátio principal, que dá acesso ao chamado Salón de la Gitana:

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E aqui, em mais detalhe:

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A decoração do Salón de la Gitana, como em todas as salas do Palácio, é pesada, sombria e carregada de objetos. Deve-se supor que era assim que gostava de viver Cayetana:

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A Capela possui quadros de boa qualidade, como o retábulo – bom, embora não inovador – de Santa Catarina entre Santos, de Neri di Bicci, que viveu no século XV:

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A biblioteca, mostrada em duas fotos abaixo, revela atmosfera do final do século XIX, embora talvez faltem livros. É importante lembrar, contudo, que o Palacio de las Dueñas é apenas uma das casas dos Duques de Alba e que a maioria de seus tesouros está no palácio madrilenho:

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Por fim, chega-se ao Patio del Aceite:

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Terminada a visita ao Palacio de las Dueñas, fui rever a Casa de Pilatos.

A entrada principal da residência sevilhana dos Duques de Medinaceli, típica do Renascimento italiano, é mais elaborada em termos artísticos mas possui soberba nobiliárquica mais sutil do que a de seus primos distantes, os Duques de Alba:

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O interior, porém, conta outra estória. Antes de mais nada, é preciso saber que não é permitido fotografar o interior do segundo andar da Casa de Pilatos, que possui quadros interessantes, particularmente de Luca Giordano, um favorito meu. O térreo apresenta-se assim, no pátio interno:

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Os bustos nas paredes são de Imperadores romanos e de personagens ilustres – Cícero, Marco Antonio, Aníbal – da Antiguidade. A exceção é o busto de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico e Rei de Espanha e de muitas outras terras. Fica claríssima a intenção de afirmar ser Carlos V o sucessor de Roma, na sua universalidade.

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Como se vê, a Casa de Pilatos é mais rica do que o Palacio de las Dueñas, em termos de   estuques e variedade nos azulejos. A casa deve muito, na sua aparência atual, ao filho de Catalina de Ribera e Pedro Enríquez, Fadrique Enríquez de Ribera, primeiro Marquês de Tarifa, que visitou Jerusalém (o que originou o atual nome da propriedade), entre 1518 e 1520. Seu sobrinho e herdeiro, o primeiro Duque de Alcalá, montou a coleção de estátuas antigas, muitas delas restauradas.

Ao redor do pátio principal, encontram-se diversas salasonde as influências mudéjar – Sevilha foi possessão árabe até 1248 – e do Renascimento italiano se coadunam:

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Algumas salas contêm peças da coleção de bustos, esculturas e baixos-relevos, muitos deles, como disse, da Antiguidade:

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Comparados com o pátio central e as salas, os jardins possuem caráter mais intimista:

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Como outros cantos do palácio, o jardim principal é representativo, com sua loggia, do Renascimento italiano:

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Nada mostra mais a diferença entre o Palacio de las Dueñas e a Casa de Pilatos do que as respectivas escadarias ao segundo andar (o qual, no caso da casa dos Duques de Alba, não é visitável). Abaixo, a escadaria do Palacio de las Dueñas:

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Sem dúvida, aristocrático e elegante, inclusive porque o retrato ao fundo representa a Imperatriz Eugenia, mulher de Napoleão III, que era espanhola de nascimento e cuja irmã foi Duquesa de Alba. Eugenia de Montijo é tratada, no Palacio de las Dueñas, como verdadeira heroína (e, sejamos justos, qualquer um que tivesse tido uma tia-trisavó Imperatriz dos Franceses provavelmente faria o mesmo); somos informados de que gostava particularmente do Patio de los limoneros e de que morreu, em 1920, na residência madrilenha dos Duques de Alba, o Palacio de Liria.

Vejamos abaixo, em duas fotos,  a escadaria da Casa de Pilatos:

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A variedade e a riqueza dos azulejos, todos do século XVI, elevam o refinamento a um nível superior. Aqui, não é necessário o retrato de uma tia-trisavó Imperatriz.

Qual das duas casas é mais bonita?

Elas se complementam.

O Palacio de las Dueñas se parece a uma casa onde as pessoas vivem. Com seu excesso de objetos e memorabilia em homenagem a uma celebridade, Cayetana de Alba (por exemplo, são expostos em uma vitrine, no centro de uma sala, o vestido e os sapatos com que dançava flamenco), apesar de secular dá a impressão de ter sido a casa de uma pessoa específica.

A Casa de Pilatos, mais impressionante, se parece a um museu, com seus bustos e esculturas e a multiplicidade de desenhos de azulejos. Embora os Duques de Medinaceli a usem frequentemente, é mais impessoal e não celebra uma pessoa específica.

A única regra seria, para um turista, não visitá-las depois de ir ao Alcázar (ou Reales Alcázares, no plural, como gostam os sevilhanos) que, por ser palácio real e fonte de inspiração para as duas casas particulares, as supera pelo requinte e a qualidade dos estuques e dos azulejos.

O que as duas casas fornecem é a percepção de como o Renascimento chegou a Sevilha e se juntou ao gótico moribundo e ao estilo mudéjar para formar conjuntos harmônicos, imponentes, luxuosos, mas onde havia a preocupação com conforto e de tornar a vida mais agradável, mais bela.

Antonio Machado, nascido no Palacio de las Dueñas e que depois de se mudar para Madri, em 1883, aos 8 anos de idade, nunca mais moraria em Sevilha, lembrou-se para sempre, como mostra sua poesia, dos “naranjos encendidos“,  do “limonero lánguido”, do “encanto de la fuente limpia”, da “tarde alegre y clara”. Seus versos fazem referência a Sevilha mas também à casa onde nasceu, fonte para ele de paz, beleza, harmonia: “Esta luz de Sevilla… es el palacio donde nací, con su rumor de fuente“. Desde o ano passado, com a abertura do Palacio de las Dueñas, todo visitante pode sentir o mesmo que o poeta.