O Sonho do Louvre

O Sonho do Louvre

Em 14 de maio de 1717, às seis horas da manhã, Pedro, o Grande, foi à Grande Galerie do Louvre, onde então ficavam expostos mapas em alto relevo de praças-fortes francesas. Quem nos conta isso é o duque de Saint-Simon em suas Memórias. Lá ele nos diz, sem dar mais detalhes, que o czar, depois de “examinar por muito tempo” os mapas, “visitou depois vários lugares do Louvre, e saiu ao jardim das Tulherias, do qual todo mundo havia sido retirado”.

Essa anedota não é mencionada pelo crítico de arte e de arquitetura americano James Gardner em seu livro sobre o palácio-museu publicado em 2020, The Louvre: The Many Lives of the World´s Most Famous Museum. A associação que Gardner prefere fazer entre o czar e o Louvre remete a outra observação encontrada nas Memórias de Saint-Simon, embora a fonte usada pelo autor americano não seja o duque diretamente, mas L´Histoire du Louvre, obra em três volumes, de 2016, editada por Geneviève Bresc-Bautier e Guillaume Fonkenell.

Ao chegar a Paris, uma semana antes da visita aos mapas, o czar considerara excessivamente luxuoso (“trop magnifiquement tendu et éclairé”) o apartamento reservado para ele no palácio, ocupado no século XVII pela rainha Ana d´Áustria, mãe de Luís XIV, e preferira hospedar-se em uma residência particular.

Quando o soberano russo esteve no Louvre, este não era ainda um museu, mas um palácio desertado pela realeza. Nele viviam e trabalhavam artistas e acadêmicos, em apartamentos e ateliês cedidos pela monarquia. James Gardner aponta que muitos dos quadros e das esculturas de artistas franceses expostos hoje em dia no museu foram criados ali mesmo. Chardin, Hubert Robert, Quentin de La Tour, Fragonard, David, Pigalle e Falconet, entre outros, moraram no Louvre.

Luís XV, então com sete anos de idade, residia perto, no palácio das Tulherias, conectado ao Louvre pela Grande Galerie. Em 1722, o rei faria a corte retornar a Versailles, abandonado desde a morte de Luís XIV, seu bisavô, em 1715.

O Louvre visitado por Pedro, o Grande era menor do que a construção que vemos hoje. O edifício é um resumo da história da França e com ela se identifica. Inúmeros arquitetos, pintores, escultores trabalharam nele, ao longo de 800 anos. Nesse período, se poucos reis moraram no palácio, vários se dedicaram a embelezá-lo e ampliá-lo.

Construído no final do século XII por Felipe Augusto como uma fortaleza, em uma área que hoje representa apenas uma quarta parte, o quadrilátero sudoeste, da atual Cour Carrée, o Louvre foi no século XIV uma das residências do rei Carlos V. No Renascimento, a Cour Carrée ganhou uma fachada ilustre, do arquiteto Pierre Lescot. James Gardner comenta que a ala edificada por Lescot influenciou não somente a arquitetura subsequente do Louvre, mas também o classicismo francês, “which in turn inspired the Beaux-Arts idiom of Baron Haussmann that is so integral to what we imagine when we think of Paris today”.

Passou a ser necessário, no século XVI, transformar o castelo medieval em palácio imponente, mas o fato é que o Louvre foi crescendo apenas aos poucos. Uma das muitas histórias contadas por Gardner é a de que, ao chegar a Paris em 1601, como segunda mulher de Henrique IV, a rainha Maria de Médicis, que crescera em Florença, achou espantoso que “os reis da França em geral, e ela mesma em particular, tivessem de residir em algo de tanto mau gosto e tão degradado”. Parece-me uma das ironias da longa existência do Louvre que um dos períodos de maior embelezamento do palácio tenha acontecido na primeira metade do reinado do neto de Henrique IV e Maria de Médicis, Luís XIV, que abandonaria Paris por Versalhes.

Até o século XVIII, ainda existiam habitações modestas, ocupadas por particulares, no centro da Cour Carrée. Em meados do século XIX, vias públicas e casas particulares ocupavam o espaço onde hoje estão a Cour Napoléon e a Cour du Carrousel. Isso foi antes de Napoleão III terminar a ala norte e dar ao prédio a aparência uniforme que ele possui aos nossos olhos, quando o vemos do Arco do Carrossel e do jardim das Tulherias. Autores que escrevem sobre o Louvre costumam lembrar que, em La Cousine Bette, de Balzac, publicado em 1846, a personagem principal mora em uma viela obscura e perigosa nesse bairro hoje extinto que o palácio como que abrigava.

Quando, há muitos anos, li o livro de Balzac, fiquei intrigado. Não conseguia imaginar de que forma, nos pátios hoje circundados pelo esplendoroso edifício do palácio-museu, onde estão a pirâmide de I. M. Pei e a cópia em chumbo da estátua equestre de Luís XIV por Bernini, houvera anteriormente casas, albergues e tavernas. Em La Cousine Bette, Balzac descreve o bairro no capítulo 13 e já o apresenta como condenado a desaparecer, considerando sua sobrevivência até então como um atentado “contre le bons sens”. Afirma o escritor: “nossos sobrinhos, que sem dúvida verão o Louvre completado, se recusarão a acreditar que uma tal barbárie tenha subsistido” por tantos anos no coração de Paris. Napoleão I começara a demolir o bairro; trinta anos depois, em 1838, quando tem início o romance de Balzac, sobravam ainda uma rua e uma via sem saída. A descrição feita das casas pelo escritor é lúgubre. Dramático, ele faz o Louvre gritar: “Extirpem essas verrugas do meu rosto!”.

Parece inconcebível, e somente muitas leituras sobre a expansão do Louvre me fizeram entender a evolução daquele terreno ao longo do tempo. James Gardner, de resto, sofre das mesmas inquietações. Já na introdução do seu volume, ele nos diz que “no final do período galo-romano, nos primeiros séculos da Era Comum, duas fazendas, uma na Cour Napoléon, a outra no lugar da praça do Carrossel, criavam gado e porcos, e eram fartas em ameixoeiras, pereiras e macieiras, assim como vinhedos”.

Não sei porém se podemos dizer que foi Napoleão III quem terminou a construção do Louvre. Digamos que ele concluiu as fachadas e o processo secular de interligar o Louvre ao palácio das Tulherias. Desde então, houve acréscimos, como o projeto do Grand Louvre de François Mitterrand, que incluiu a Pirâmide de I. M. Pei, inaugurada em 1989. Em 2012, abriu-se em um dos pátios o pavilhão de arte islâmica, cujo teto é coberto por uma tela dourada, ondulada, a meu ver, como um tapete voador. James Gardner prefere considerá-lo inspirado de “uma tenda beduína”.

Uma vez, em 2014, visitei a coleção de arte islâmica por acaso. Nunca mais consegui chegar até ela. O Louvre é assim, um universo próprio, onde parte do prazer é ir andando, sem rumo certo, descobrindo salas que nem sabíamos existir, ou que foram modificadas desde a última visita. Mais problemático é quando queremos ver ou rever salas ou peças específicas. Pode haver dificuldade em encontrar o caminho certo pelos meandros do museu. Em A culpa foi da Mona Lisa narrei minha frustração de não poder, em 2019, chegar até a Galerie Médicis para ver as grandes telas de Rubens narrando a vida de Maria de Médicis. Há muitos anos, não visito a coleção egípcia, que abriga duas das minhas peças prediletas, o famoso Escriba Sentado e o gigantesco busto de Akhenaton.

No último dia de setembro, almocei no Museu de Arte Islâmica de Kuala Lumpur — sobre o qual escrevi em novembro uma Carta da Malásia, “Os Bois de Mirza Babur” — com seu fundador e diretor, Syed Mohamad Albukhary, que me disse considerar o Louvre confuso. Falou com mais apreço de outros museus, os Uffizi e o Gulbenkian, e posso entender a razão. O Gulbenkian, especialmente, é compacto, agradável, fácil de visitar, apesar de sua coleção abrangente e extraordinária. A opinião de Albukhary sobre o museu parisiense não é isolada. Em um livro intitulado O Louvre e seus Visitantes, de 2009, que reúne algumas das fotos tiradas por Alécio de Andrade, ao longo de quase quatro décadas, retratando o público frente a obras de arte no museu, o sociólogo Edgar Morin nos diz, no prefácio que “luxe, immensité, étrangeté, poids du pouvoir et de la richesse” são parte integrante do palácio-museu, “labirinto acachapante” (“labyrinthe écrasant“), todas elas características que podem criar “desestabilização” no visitante.

Ninguém nunca considerou o museu mais famoso do mundo fácil de visitar. Outro “biógrafo” do Louvre, Pierre Rosenberg, que foi seu diretor de 1994 a 2001 e publicou, em 2007, pela editora Plon, um Dictionnaire amoureux do museu, comenta, no prefácio, que “apenas uma longa prática do lugar impede que a pessoa se perca nele. Mas será que é tão desagradável assim perder-se no Louvre?”.

O livro de James Gardner, de início, frustrou-me. Localizei nele algumas imprecisões sobre a história da França que me decepcionaram. Um ano depois, com o prolongamento da pandemia, e o continuado fechamento das fronteiras na Malásia, passei a ver suas qualidades. Uma viagem a Paris e uma visita ao Louvre soam, por enquanto, como um sonho não impossível, mas de realização incômoda, por causa das novas regras impostas pela Covid-19. Mergulhar na história do prédio como ela é narrada por Gardner, aliás de forma cativante, é uma boa substituição. Reconciliei-me com o livro, também, por causa de uma observação de Pierre Rosenberg no prefácio de seu Dictionnaire amoureux, a de que alguns o criticarão “pelas negligências e as imprecisões, os erros e os desconhecimentos. Il faudrait tout savoir, tout connaître…”.

A questão com o Louvre é que a arquitetura e a história do prédio são tão fascinantes quanto as suas coleções. Uma época, quando eu era estudante em Londres, e de vez em quando podia ir a Paris, o que eu mais admirava no exterior do palácio era a Colonnade, a fachada leste encomendada por Luís XIV e terminada na década de 1670 em estilo clássico. Sua influência sobre a arquitetura foi grande. Essa fachada é famosa também porque Bernini foi convidado a vir de Roma a Paris, em 1665, para apresentar projetos para sua construção. Seus planos foram rejeitados, embora ele tenha sido tratado na França como uma celebridade do mundo do cinema hoje seria. Da sua visita, sobrou um renomado busto em mármore de Luís XIV, que podemos admirar em Versalhes. Mais tarde, de Roma, ele enviou uma estátua equestre do rei que desagradou, e cuja cópia em chumbo é a que vemos perto da Pirâmide, na Cour Napoléon.

A fachada leste é também conhecida como Colonnade Perrault, por causa de um dos arquitetos que trabalharam na sua concepção, Claude Perrault, irmão de Charles Perrault, o autor de contos de fadas. Lembro nitidamente que, ao menos uma vez, aos 20 anos, foi frente a essa fachada que fiz fila para entrar no museu. Hoje, muitos turistas nem percebem que a Colonnade existe, apesar da sua imponência, simplesmente porque nunca passam diante dela. Outro crítico de arte americano, John Russell, em seu belo livro sobre Paris em formato grande, ilustrado, publicado em 1983, nos diz, no capítulo dedicado ao palácio: “The colonnade has become, in fact, the disregarded back door of the Louvre”. Concebida para ser a entrada principal, virou, nas palavras de Russell, “an ordinary gateway through which disoriented sightseers occasionally pass”. Ele cita a respeito a frase de um comentarista de 1856 que nos mostra que já era assim em meados do século XIX.

Há poucos dias, a Colonnade apareceu em um dos meus sonhos: parado frente a ela, eu a olhava e sentia felicidade. Claramente, estava aí simbolizada minha ambição, apesar da pandemia e do fechamento das fronteiras na Malásia, e do transtorno em que as viagens de avião se transformaram, de voltar a viajar. É um belo sonho, perfeitamente inocente, penso eu, querer estar em Paris para rever a fachada leste do Louvre.

Devemos a Henry James a descrição de um sonho famoso sobre o edifício. Em 1855, aos 12 anos, ele entrou pela primeira vez no museu, que aparece algumas vezes em sua obra de ficção. É porém em um de seus livros autobiográficos, A Small Boy and Others, publicado em 1914, que pode ser lida sua impressão do prédio: “O Louvre é, de forma geral, o mais povoado de todos os cenários, mas também o mais silencioso dos templos”. Suponho que o termo “povoado” refira-se aos muitos personagens retratados nas pinturas, pois para Henry James — como seria também para Marcel Proust algumas décadas mais tarde — o Louvre era sobretudo a coleção de pinturas, embora ele mencione o Escravo Morrendo de Michelângelo em outro livro autobiográfico.

É a Galerie d’Apollon que Heny James descreve de maneira mais detalhada e com mais afeto em A Small Boy and Others. A galeria é talvez a mais luxuosa de todo o Louvre; sua decoração foi iniciada no reinado de Luís XIV e terminada sob Napoleão III, quando Delacroix dela participou, com uma pintura no teto. Henry James nos conta que, durante anos, a galeria tornou-se para ele “a splendid scene of things”. Viria a ser porém o cenário do pesadelo — “the most appalling yet most admirable nightmare of my life” — que ele teria muitos anos depois de visitar o museu pela primeira vez. O pesadelo, descrito em detalhe pelo escritor, é maçante, como costumam ser os sonhos alheios, mas tornou-se célebre, por pertencer a Henry James e por ter a Galerie d’Apollon como palco.

Naturalmente, o espaço predileto de todo mundo é a Salle des États, onde está a Mona Lisa. A célebre florentina obscurece os outros quadros expostos em torno a ela. No entanto, há nessa sala obras famosas, de Ticiano, de Veronese, que pintou o maior quadro do museu, As Bodas de Canaã, pendurado frente à tela de Leonardo da Vinci. As Bodas de Canãa sempre exerceu sobre mim um total fascínio. Sobre essa pintura, Cynthia Saltzman publicou este ano o livro Plunder: Napoleon’s Theft of Veronese’s Feast, que descreve como ela foi extraída da parede em Veneza para a qual fora pintada, no século XVI, e levada para a França em 1797.

A Salle des États foi redecorada em 2019, e hoje está pintada de um azul escuro, não mais da cor areia com que a vi nas minhas últimas visitas. Ela abre, por uma de suas duas portas, sobre a Grande Galerie. Acho que ninguém continua a ser a mesma pessoa, depois de seguir os passos de Pedro, o Grande e caminhar pela galeria que corre ao longo do Sena e é hoje povoada por obras-primas da pintura italiana. Ela inspira livros e filmes, alguns medíocres, como é o caso de The Da Vinci Code. No filme, vendo de madrugada o cadáver do avô estendido no chão da galeria, e sabendo que ele, antes de morrer, deixara uma pista sobre seu assassinato na Mona Lisa, o personagem de Andrey Tatou diz ao de Tom Hanks: “Professor, the Mona Lisa is right over here!”. Inocente criatura. Ela acha de verdade que alguém pode não saber disso?

Algumas das numerosas referências contemporâneas ao Louvre e aos seus tesouros na literatura e nas artes contribuem para revitalizar nossa percepção sobre o museu. Em 2018, Beyoncé e Jay-Z lançaram o vídeo de uma música, “Apeshit”, que se passa no Louvre, frente a algumas de suas peças mais famosas, fazendo-nos vê-las de uma maneira impactante. A Vitória de Samotrácia, o Escalier Daru que leva a ela, As Bodas de Canãa, e duas telas de David — o retrato de Madame Récamier e a Coroação de Napoleão I — ganham uma vida mais rica e novo significado, ao se tornarem cenário da música e da coreografia. Diante das obras do Louvre, é impossível não pensar nos milhões de seres humanos, geração após geração, cujo olhar já se pousou sobre elas, nos muitos autores que já as mencionaram, e nos pintores que já as retrataram.

Nas últimas vezes em que fui ao museu, meu lugar predileto foram as salas enfileiradas de estatuária romana no apartamento de Ana d’Áustria, o mesmo que Pedro, o Grande, achou de um luxo excessivo. É uma sucessão ilustre de estátuas e bustos de imperadores, imperatrizes, generais e seres anônimos ou não-identificados. Não passo por acaso por essas salas. Busco-as de forma determinada, para rever o busto de Germânico, a quem admiro simplesmente porque ele é uma das poucas figuras descritas de forma empática por Tácito em seus Anais.

Depois dos primeiros anos do reinado de Luís XIV, nenhum soberano voltou a morar no Louvre. Os reis que residiram em Paris a partir daí moraram no palácio das Tulherias, na outra ponta da Grande Galerie. As Tulherias foram incendiadas em 1871, durante a Comuna, porque era esse o prédio, cuja construção fora iniciada em meados do século XVI por Catarina de Médicis, que ficara associado, no imaginário popular, à monarquia. De 1882 a 1883, a estrutura chamuscada do palácio foi destruída por ordem do governo republicano.

O Louvre, assim, beneficiou-se de já não ser a casa dos reis. Foi poupado pelos communards. Outro dos “biógrafos” do grande museu, Jean-Pierre Babelon, em ensaio sobre o palácio na coleção dirigida por Pierre Nora Les Lieux de Mémoire – e o fato de o palácio-museu merecer um texto na coleção demonstra sua centralidade para a identidade francesa – aponta a ironia de que as Tulherias tenham sido destruídas poucos anos depois de ter sido finalmente completada, em 1857, a interligação entre os dois edifícios, esforço de 250 anos e de vários governantes.

O incêndio e a demolição trouxeram porém uma compensação. Abriram o Louvre para a cidade, para os jardins do palácio queimado, fizeram dele parte da perspectiva em direção à Place de la Concorde, aos Champs-Elysées, ao Arco do Triunfo e ao Arco da Défense. Babelon estima que o palácio das Tulherias deixou de ser monumento histórico para dar lugar, “dans la mémoire collective, à un palais fantôme”. Deixou a lembrança de “un destin maléfique”, sendo o “palácio das revoluções, o palácio dos reis fugitivos”. De fato, dos soberanos que nele residiram a partir de 1789, Luís XVI, Carlos X, Napoleão I, Napoleão III perderam todos o trono; o primeiro foi guilhotinado, e os demais morreram no exílio. A exceção foi o irmão de Luís XVI, Luís XVIII, que agonizou em sua cama nas Tulherias, em 1824. Mas  também ele perdera o trono por três meses, em 1815, durante os Cem Dias da volta de Napoleão ao poder, e tivera de fugir das Tulherias e se exilar em Gand.

Para o turista que passeia pelos arredores do Louvre, pelos seus pátios ou as suas salas, nada disso tem importância. Não é preciso saber que o cortejo de núpcias de Napoleão I e sua segunda mulher, a arquiduquesa Maria Luísa da Áustria, passou pela Grande Galerie em 1810, a caminho da capela montada no Salon Carré; que pela mesma galeria a imperatriz Eugénie fugiu, em 1870, vindo do palácio das Tulherias a caminho da saída pela Colonnade e do exílio, após a queda de seu marido, Napoleão III.

Em seu filme de 2015 sobre o Louvre, Francofonia, Alexander Sokurov toma a Ocupação alemã e o temor que ela ocasiona sobre o futuro das obras-primas no palácio-museu como base para suas reflexões sobre a arte (“quem seríamos sem os museus”?). O cineasta russo opina que o Louvre deve valer mais do que toda a França.

James Gardner termina seu livro com uma citação de A Small Boy and Others, uma frase na qual Henry James escreve que a Galerie d´Apollon — e, devemos presumir, por extensão o Louvre — representa “não só beleza e arte, e concepção suprema, mas história, fama e poder, o mundo in fine elevado à sua expressão mais rica e nobre”.

Existirá o Louvre para sempre? Voltará a servir de pastagem para “gado e porcos”? Virará um arranha-céu? Será poupado de incêndios? As obras-primas que contém permanecerão culturalmente valiosas até o fim dos tempos? Tudo isso, ou nada, pode acontecer.

Um dos quadros mais surpreendentes sobre o edifício, exibido em uma de suas salas, é o de Hubert Robert, de 1796, intitulado Vista Imaginária da Grande Galeria do Louvre em Ruínas. E é exatamente o que vemos: a Grande Galerie como se fosse uma ruína romana, sem teto, com colunas ainda em pé, pessoas sentadas em blocos de pedras. Apenas uma obra de arte sobreviveu, a versão em bronze da célebre escultura romana Apolo do Belvedere. O original em mármore era, no final do século XVIII, nos diz Kenneth Clark em seu livro The Nude: a study of ideal art, de 1956, “one of the two most famous works of art in the world”. A cópia em bronze possui uma origem ilustre. Encomendada por Francisco I, ficou no castelo de Fontainebleau do século XVI até a Revolução, quando foi levada para o Louvre, onde permaneceu até 1967. Naquele ano, voltou para Fontainebleau. A própria escultura original chegaria de Roma a Paris em 1797, parte do botim obtido pelo exército de Napoleão, então ainda general, na Campanha da Itália. Foi devolvida ao Papa em 1815, após a derrota final do imperador.

As obras de arte viajam; desaparecem; ganham ou perdem importância. Os nomes de seus criadores são esquecidos. Se uma fortaleza, um palácio, uma estação de trem viram museus, o contrário deve também ser passível de acontecer. Mas, por enquanto, o Louvre e suas coleções continuarão a existir à beira do Sena. Serão ainda visitados por milhões, de forma física, virtual ou onírica.

O museu e suas obras vivem em mim desde que, criança, prestes a iniciar a subida da escadaria Daru pela primeira vez, vi no seu topo a Vitória de Samotrácia, bela, imponente mas etérea, prestes a voar, parecendo convidar-me e simbolizando, para sempre, a independência e os sonhos que a arte traz.

As fotos são todas do autor

Versão mais curta deste texto foi publicada originalmente na revista de cultura, artes e ideias Estado da Arte, em 9 de outubro de 2021

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Uma edição mágica

Uma edição mágica

A coleção literária Bibliothèque de la Pléiade, editada pela Gallimard, é a mais prestigiosa do mundo. Nenhuma outra se compara a ela, em razão da qualidade do aparato crítico que acompanha cada volume. Poucos escritores entram ainda em vida na coleção. Até o momento, apenas dezoito receberam essa consagração. O mais recente foi Philip Roth, em outubro de 2017, alguns meses antes de morrer em maio de 2018. Em setembro de 2018, houve notícias de que António Lobo Antunes seria incluído. Isso foi celebrado pelo escritor e gerou felicitações oficiais a ele do Presidente de Portugal, o que dá a dimensão do prestígio da coleção. Por enquanto, a publicação não se concretizou.

Nenhum escritor brasileiro, vivo ou morto, integra até hoje esse panteão.  O único lusófono é Fernando Pessoa, com um volume de obras poéticas — o que exclui Bernardo Soares — publicado em 2001, de 2.176 páginas.

Em setembro de 2019, Georges Duby (1919-1996) entrou para a Pléiade, com um volume denso — 1.972 páginas — que reúne parte de sua obra. É o primeiro historiador contemporâneo a ser publicado na coleção. Antes dele, o historiador mais recente incluído no catálogo era Jules Michelet (1798-1874).

O editor do volume com obras de Duby é o brasileiro Felipe Brandi, que obteve na França, em 2017, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, seu doutorado em História e Civilização, com uma tese sobre o reverenciado historiador francês.

Entrevistei Felipe Brandi sobre seu trabalho de edição do volume da Pléiade nos últimos dias de abril, quando o mundo aprendia ainda a lidar com a pandemia. A entrevista foi publicada em Estado da Arte, em 5 de junho.

I- Essa foi certamente a primeira vez que um brasileiro editou um volume da Pléiade. É significativo um estrangeiro preparar, na França, a edição da obra de um monstro sagrado como Georges Duby. A escolha de seu nome o consagra como um dos maiores especialistas da obra do historiador. Como aconteceu de você ser escolhido? Qual foi sua reação diante da responsabilidade?

O convite para preparar a edição das obras de Georges Duby na Pléiade foi, para mim, uma grande surpresa. Fui contatado por Hugues Pradier, Diretor literário da coleção, no momento em que havia entregado a minha tese de doutorado e antes mesmo de defendê-la em junho de 2017. Eu estava bem situado. Estava na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), que oferece uma projeção importante, e já pesquisava há muitos anos o trabalho de Georges Duby. A minha pesquisa, antes mesmo de encerrada, já era conhecida, não apenas por parte dos professores da EHESS, mas também por outros pesquisadores e editores na França graças a alguns artigos que eu havia publicado. Creio que uma expectativa havia se formado em torno do meu trabalho de tese, como costuma acontecer com teses elaboradas pacientemente ao longo de muitos anos. Pelos contatos que são feitos durante a preparação, e também pelos artigos publicados, as pessoas acabam ouvindo falar de sua pesquisa e se interessam por ela muito antes que ela esteja concluída.

Gostaria primeiramente de agradecer a você, Ary, pelo convite e pela oportunidade de conversar com você e de poder falar um pouco sobre o meu trabalho e sobre a preparação do volume Œuvres de Georges Duby, editado pela Bibliothèque de la Pléiade em setembro de 2019.  

Pierre Nora havia descoberto há muito a minha pesquisa através de um artigo que eu publicara, e desde então acompanhava o seu desenvolvimento. É possível que Hugues Pradier tenha tomado conhecimento do meu trabalho através de Nora. O projeto de uma edição de Georges Duby na Pléiade é uma ideia antiga. Desde a acolhida de Claude Lévi-Strauss na coleção, em 2008, falou-se de uma eventual edição de Duby. Rumores circularam, mas nada de concreto. Considerado autor “de la maison” pela Gallimard, ele já havia sido homenageado com dois volumes da coleção Quarto, em 1996 e 2002. No entanto, Hugues Pradier estava convencido, parece-me com razão, da relevância da entrada de Duby na Pléiade, pela incontestável qualidade literária de seus escritos, que fez de sua obra uma das grandes expressões do mundo das letras francesas do final do século XX. Sou infinitamente grato a Hugues Pradier pela confiança que ele depositou em mim, ao me escolher. Outros pesquisadores tinham nomes muito mais conhecidos do que o meu, ademais de terem o francês como língua materna. Durante os primeiros meses (eu ainda não havia defendido a minha tese), ia visitá-lo regularmente no belíssimo Pavilhão da Pléiade para falar do projeto e pensar o perfil do volume, discutindo a seleção dos textos e revendo inúmeros detalhes. Conversávamos durante horas até tarde da noite, quando as edições Gallimard já estavam fechadas. Acho que rapidamente se instaurou uma cumplicidade, uma boa relação entre nós. Creio que a minha visão do volume o agradou, indo na direção do projeto que ele havia inicialmente idealizado. Para mim, o desafio foi considerável. Desde jovem, admiro as edições da Pléiade e me senti honrado de poder participar delas.  

II – Das 1.972 páginas do volume, cerca de 340 são suas: introdução de 56 páginas, notas e comentários sobre cada uma das obras de Georges Duby incluídas no volume. O resultado é um trabalho de extrema erudição, como aliás é usual na Pléiade. Isso é notável, considerando que francês não é a sua língua materna. Por quanto tempo você trabalhou na edição? Entre surgir a ideia de inclusão de Duby na coleção e o livro ficar pronto, quanto tempo se passou?

O tempo total de preparação do volume foi de dois anos e alguns meses. Fui contatado na primavera de 2017 (abril/maio) e já em nosso primeiro encontro, Hugues Pradier me disse que o lançamento do livro seria em finais de setembro de 2019, para celebrar o centenário do nascimento de Georges Duby. A data de lançamento não era, portanto, negociável. Dito isto, o prazo de dois anos representa um tempo curto de preparação para um volume desse tamanho e com essa densidade — é o que todos me dizem na Pléiade. Trabalhei com dedicação total. Durante esses dois anos. De outro modo, não teria sido possível respeitar o prazo estabelecido.

Se reconstituo a cronologia da preparação, distingo três grandes etapas: primeiramente, a da construção do projeto e da seleção das obras, nos primeiros meses entre maio e setembro de 2017; em seguida, o início da leitura (ou releitura) de todos os textos e a elaboração do aparelho crítico, com a preparação das notas e a redação das notícias que acompanham cada obra. Enfim, de janeiro de 2019 até julho do mesmo ano, o trabalho de acabamento e de revisão de todo o volume — dessa vez, acompanhado de Henrianne Rousselle, da Pléiade, que me ajudou imensamente. Que contraste com a etapa precedente, extremamente solitária, e que alegria ter um interlocutor com quem discutir cada detalhe do trabalho! Fiquei muito impressionado com a sua generosidade, a sua experiência e o seu profissionalismo, relendo cada nota, cada citação, cada linha que escrevi com uma extraordinária atenção. Foi um prazer conhecer e ter tido a oportunidade de trabalhar com Henrianne Rousselle. Ela sempre me encorajando a ir ainda mais adiante, a buscar alguma nova informação, a enriquecer ainda mais a edição. Insisto que o seu trabalho por detrás dessa edição e das demais que ela supervisiona seja amplamente reconhecido.

O desafio da língua é imenso. A língua francesa, tão rica e saborosa, é repleta de sutilezas, de nuances e também de armadilhas. E os leitores franceses são particularmente atentos à qualidade da expressão, zelosos do emprego dessa língua que consideram o tesouro nacional. No caso de uma edição da Pléiade, eu tinha consciência de que precisaria preparar, tanto na introdução quanto nas notícias que acompanham cada uma das obras do volume, um texto capaz de interessar a uma audiência bastante heterogênea, composta pelo grande público culto dos leitores da Pléiade, mas também por historiadores de profissão, assim como pelos medievalistas mais severos e os estudiosos especialistas da obra de Duby, que a conhecem bem e estão atentos aos mínimos detalhes. São exigências e expectativas muito diversas, e foi um desafio preparar todos esses textos em uma edição que deveria conciliar interesses e leituras, não apenas muito distintos, mas muitas vezes também incompatíveis.          

III – Qual é grau de orientação que os editores de volumes da Pléiade recebem? Você teve, por exemplo, liberdade para escolher as obras de Duby que seriam incluídas? Qual foi o critério usado na seleção de obras? Houve algum livro ou texto de Duby que você lamentou ter de descartar, por falta de espaço?

Eu sinto ter trabalhado com grande liberdade, e sou mais uma vez muito grato à confiança de Hugues Pradier. Ele, a Pléiade e a Gallimard apostaram em mim, deixando-me único responsável pela edição científica de todo o volume. Imensa responsabilidade. Intimidante. Nos primeiros meses, quando ainda precisávamos “montar” a edição, Hugues Pradier e eu discutíamos vários detalhes em longas sessões de trabalho que eram muito prazerosas. Mas uma vez decidida a seleção das obras, me senti com carta branca para elaborar os meus próprios textos e preparar as notas de erudição à minha guisa. A seleção das obras nunca é fácil. Sobretudo no interior de uma produção tão rica e prolífica. A seleção, sim, foi feita junto com Hugues Pradier. Ele estava muito atento a essa etapa do processo. Há necessariamente sempre algo de subjetivo na seleção dos textos. O nosso critério foi o de privilegiar os textos que nos pareciam os mais representativos do Georges Duby escritor e que haviam sido também os seus maiores sucessos editoriais, como Le Temps des Cathédrales, Le Dimanche de Bouvines ou Guillaume le Maréchal. Outros importantes livros, todos admiráveis, como a sua tese sobre a região de Mâcon nos séculos XI e XII ou os seus estudos sobre a economia rural na Idade Média nos pareceram não se ajustar tão bem à ambição do volume. São obras mais austeras, que interessam a um público mais reduzido de especialistas da civilização medieval. Lembro de longas discussões sobre a inclusão do livro Les Trois Ordres ou l’imaginaire du féodalisme, de difícil leitura. No interior do volume, este é claramente o título mais austero. Nem Hugues Pradier nem Pierre Nora estavam convencidos da pertinência desse título. Denso, complexo, poderia desencorajar o leitor e se diferenciar do resto da edição. Eu defendi a sua causa e intervim a favor da sua inclusão no volume, pois estou convencido de que esse livro, admiravelmente escrito ainda que muito exigente, ocupa uma posição central dentro da produção de Georges Duby, como uma espécie de chave de abóbada do seu modelo de explicação da sociedade feudal dos séculos XI e XII.

Como leitor e admirador da obra de Duby, eu teria gostado de incluir ainda mais textos, mas não era possível. O volume atingiu o seu limite. Qualquer nova inclusão nos obrigaria a uma edição em dois volumes. O que significaria uma modificação importante do projeto inicial.             

IV – Georges Duby costumava publicar seus livros sem notas ou indicação de fontes. Para a edição na Pléiade, você preparou notas extensas, recuperou as fontes para cada um dos textos. Como se desenvolveu esse trabalho?

Essa foi, para mim, uma parte decisiva da edição da Pléiade. Sou leitor de Georges Duby há vinte e cinco anos e minha admiração aumenta a cada nova leitura. Lembro-me bem de minha primeira leitura do Tempo das Catedrais, aos 19 anos, ou do Domingo de Bouvines, ainda quando estudante de graduação na PUC-Rio. Desde então, sonhava ter algum dia em mãos uma edição especial, uma edição mágica, que contivesse as notas desaparecidas que me dessem acesso ao conjunto de autores medievais citados em suas páginas, assim como a todo o arcabouço invisível que preside à construção de seus livros. Sempre acreditei ser este um trabalho quase impossível de ser realizado. No entanto, quando recebi o convite de Hugues Pradier, decidi me aventurar nessa longa empreitada. A tarefa é singularmente árdua. Significa penetrar em algumas das literaturas mais difíceis da história ocidental, desde as referências bíblicas e da patrologia até os escritos de cléricos, monges, teólogos e trovadores dos séculos XI-XIII. Estão incluídos aí crônicas, sermões, homilias, tratados teológicos, epístolas, poemas, canções. Tudo em latim medieval ou em francês antigo. Isso se complica ainda mais por Georges Duby não dar, muitas vezes, qualquer indicação do autor ou da obra de onde extrai a passagem citada, geralmente por ele traduzida para o francês contemporâneo com muita liberdade — o que torna muito trabalhoso, às vezes extenuante, o esforço de reconstituição.

Apesar das dificuldades enfrentadas, motivava-me a ideia de poder oferecer aos novos leitores e à comunidade científica essa edição anotada, essa edição única com a qual eu havia tanto sonhado. Outra motivação foi, para mim, o conjunto de críticas e ataques ferozes dos quais Duby foi objeto ao longo dos anos por causa dessa sua decisão de não revelar a referência de suas fontes. Encontrar essas referências e colocá-las agora à disposição dos leitores significa pôr em evidência a impressionante construção erudita por detrás de seus textos e, assim, refutar, de uma vez por todas, essas acusações que lhe foram feitas, alegando que a sua obra teria sacrificado a erudição da história em proveito do efeito literário. A dúvida consistia, então, em saber se essas notas, laboriosamente preparadas, não acabariam se opondo à intenção do próprio Duby, desrespeitando o projeto de escrita, o projeto formal, literário de seus textos. Certamente, exibir todas essas longas notas no pé de página acabaria por desfigurar a própria forma de seus escritos, tal como ele os havia concebido. Mas a Pléiade oferece a oportunidade de colocar as notas no final do volume, dando ao leitor a opção de consultá-las sem com isso comprometer o projeto narrativo, formal de Georges Duby. Dessa oportunidade, me servi.  

V – Você dedica a Introdução à memória da viúva do historiador, Andrée Duby, que faleceu em 2016. Nos agradecimentos, você relata que ela acompanhou suas pesquisas “durante anos”. Seu convívio com ela foi determinante em algumas decisões que você terá precisado tomar na preparação do volume?

Serei sempre grato à senhora Andrée Duby pelo apoio, o encorajamento, a atenção e a ajuda que recebi durante muitos anos enquanto preparava a minha pesquisa de tese. A dedicatória é um testemunho do meu reconhecimento, mas também uma lembrança do papel primordial que Andrée Duby exerceu ao longo da carreira de seu marido e na construção dessa obra que, de acordo com muitos amigos do casal, parecia em vários aspectos feita a quatro mãos. Andrée Duby teria gostado muito de ver a entrada de Duby na Pléiade. Em muitos aspectos, essa edição também é sua.

Pessoalmente, o convívio com ela foi determinante no desenvolvimento de minha abordagem e no amadurecimento do meu olhar, me permitindo adquirir uma maior proximidade com a obra e o seu autor. E acredito que essa proximidade e a abordagem mais pessoal transparecem do começo ao fim da edição. Em todo o caso, essa foi a minha intenção.    

VI –O Prefácio do volume que você editou é do historiador Pierre Nora, e começa com a afirmação de que a entrada de Georges Duby na coleção confere a ele uma “majestade solitária” entre os historiadores seus contemporâneos. Pierre Nora no Prefácio, e você na Introdução, ambos destacam que isso se justifica pela qualidade estilística, literária da obra de Duby. Tanto você quanto Nora, porém, apontam o seu domínio do grande instrumento midiático da época, a televisão. Ele era entrevistado, preparava emissões e presidiu um canal cultural. Isso fez dele, a partir da década de 1970, um intelectual famoso e muito presente e ativo na vida cultural francesa. Isso ainda é possível para um historiador hoje, mesmo na França?

De fato, você tem razão de chamar a atenção, ao mesmo tempo, para a qualidade literária dos livros de Georges Duby e para a sua extraordinária projeção social, muito além dos muros da universidade. Ambos os fenômenos estão ligados. Com efeito, uma das singularidades do trabalho de Duby reside no seu desejo de oferecer uma história de qualidade, uma história científica e, pode-se dizer, de vanguarda em sua época para uma audiência cada vez mais ampla. Um trabalho de divulgação, no sentido mais nobre da expressão. Georges Duby sempre concebeu a história como um “métier de communication”; a história devendo ser, do seu ponto de vista, simultaneamente um meio de formação, de evasão e de diversão. Portanto, trabalhou incansavelmente para ampliar o seu público, servindo-se dos mais diferentes meios de comunicação (rádio, televisão e cinema). Nos anos 1980, assumiu funções importantes em grandes empreendimentos culturais na França, presidindo o comitê do Grand Louvre e a rede de televisão cultural francesa, La Sept, ancestral da atual ARTE. Esse engajamento, sacrificando parte do tempo que poderia dedicar ao seu trabalho de historiador, se justifica pela sua convicção quanto à importância de oferecer ao maior número de cidadãos franceses o acesso à criação cultural de excelência (não apenas a história, mas também as letras, artes plásticas, música, espetáculos).

O seu trabalho junto à televisão — por exemplo, na série O Tempo das Catedrais, inspirada em seu livro, e, mais tarde, na presidência da Sept — lhe conferiu uma celebridade comparável à de um grande nome da literatura. Seus livros eram disputados pelos grandes editores. Suas aulas no Collège de France eram um acontecimento. Duas horas antes de seu curso, filas imensas, repletas de estudantes, intelectuais e membros da alta sociedade já se formavam, todas as quintas, na entrada da prestigiosa instituição no Quartier latin. Uma das grandes singularidades da geração de intelectuais franceses da segunda metade do século XX reside nessa extraordinária projeção social de trabalhos rigorosos e austeros, na vanguarda das ciências humanas e do pensamento filosófico. Esse é o caso, para citar apenas alguns nomes, de Claude Lévi-Strauss, de Georges Dumézil, de Michel Foucault, de Roland Barthes, de Pierre Bourdieu… Os franceses permanecem muito interessados pela produção de conhecimento. Os historiadores da geração de Duby viveram uma espécie de era de ouro. A comunidade historiadora não desfruta, na França de hoje, da mesma voga que conheceu nos anos 1970 e 1980. Mas a figura do intelectual continua ocupando um espaço importante, respeitado e admirado, no interior do debate social francês e também dentro da representação que a sociedade francesa faz de si mesma. Isso é invejável, quando vemos o descaso do qual são objeto, em boa parte do mundo, os professores, a ciência, as ideias, a educação e a cultura letrada. Creio que ainda hoje alguns intelectuais franceses, inspirados por essa geração feliz que os precedeu e se servindo de meios de comunicação cada vez mais desenvolvidos, logram exercer um papel ativo junto ao grande público. A sociedade francesa continua grande consumidora de exposições artísticas, de eventos literários e de emissões culturais, como as que oferecem o canal de televisão ARTE e, sobretudo, France Culture, que é a meu ver um verdadeiro patrimônio do qual todos os franceses têm o direito de se orgulhar.     

VII – A sua Introdução revela uma profunda admiração por Duby. Qual sua avaliação sobre ele, como ser humano, figura pública e historiador?

É verdade, deixo rapidamente transparecer a minha admiração por Georges Duby. Acredito no valor da sua obra. Admiro o modo com que a sua prática de historiador sempre esteve combinada a uma reflexão audaz acerca da própria história, da natureza do conhecimento que ela produz, do seu lugar em meio às nossas práticas culturais. Os grandes mestres, parece-me, são aqueles que conseguem desenvolver, em suas respectivas áreas, uma visão de conjunto, integrada, da própria atividade que exercem. Isso vale para escritores, cientistas, músicos, artistas e artesãos, grandes chefes de cozinha… Não apenas são grandes executantes, dominando plenamente a sua arte, mas ainda expressam, em cada trabalho que realizam, a maturidade de uma reflexão sobre a natureza de sua prática, o lugar social da mesma, o passado de suas tradições, assim como suas imperfeições, desvios e ciladas. O que admiro em Duby é um pensamento da história que é total, e que se preocupa tanto com os métodos mais modernos de leitura das fontes quanto com as condições de possibilidade do conhecimento histórico, tanto com o diálogo com as demais ciências sociais quanto com o ensino da história para as crianças do primário, tanto com o uso da memória social por parte dos poderes políticos quanto com a função cívica que o historiador, o professor de história deve exercer junto a uma sociedade democrática e emancipada.

A própria qualidade estilística de seus escritos, sobre a qual falamos aqui algumas vezes, não era, por exemplo, puro lirismo ou coqueteria. Mas sim o fruto de uma reflexão sobre a natureza (subjetiva) do conhecimento histórico, sobre as forças e as fraquezas do discurso que constrói o historiador e sobre a distância que o separa do ideal de objetividade científica. A história, para Duby, surge do ato criador do historiador e ela será tanto mais fértil quanto mais o historiador, apaixonado por seu labor, se entregar e der de si mesmo. A historiografia atual coloca hoje questões e enfrenta desafios que já não são os mesmos enfrentados pela geração de Duby, nos anos 1960 e 1970. O nosso conhecimento do passado não cessa de se renovar. No entanto, as questões a que Duby submeteu a história, a sua forma de pensar as armadilhas ideológicas que ameaçam o olhar que o historiador lança sobre o passado, a sua recusa de dogmatismos e de qualquer ferramenta teórica passe-partout continuam sendo, a meu ver, estímulos para se pensar a história de hoje e abrir os caminhos da pesquisa de amanhã. Georges Duby sempre defendeu — cada um de seus escritos o prova — os valores positivos do homem que desabrocham graças à cultura, à democracia e à liberdade. Valores humanistas que nos são tão caros. Sobretudo nos dias atuais.

VIIII – Quais são seus próximos projetos ou estudos como historiador?  A publicação do volume da Pléiade encerra um ciclo ou a obra de Georges Duby seguirá sendo sua área principal de interesse?

Eu mesmo me pergunto muitas vezes se, após a conclusão da minha tese, esta edição da Pléiade encerra, para mim, o ciclo Duby. De certa forma, sim, mas não completamente. Durante a longa preparação de minha tese, sempre esperei conseguir construir um trabalho com uma profundidade que me abrisse um campo de estudo, um campo de especialização e que também fosse uma base sólida na qual eu pudesse me apoiar ao longo da minha carreira. Reuni ao longo dos anos muito material que eu gostaria de poder utilizar, na forma de artigos e de livros. Não abandonarei, portanto, Georges Duby tão cedo, pois acho que não seria correto deixar de me servir de todo esse material coletado. No entanto há um ciclo que se encerra. Depois de duas longas pesquisas, que se sucederam cronologicamente mas que foram tão distintas uma da outra — a de minha tese de doutorado e a da preparação da edição da Pléiade — tenho a sensação de ter concluído a minha pesquisa sobre Georges Duby. Continuarei interessado por tudo a seu respeito, mas o que espero poder publicar sobre ele será feito a partir da pesquisa que já empreendi. A minha tese, que o teve por protagonista, não se limitou à sua obra, mas pretendeu ser também uma tese mais ampla sobre a história da escola histórica francesa ao longo do século XX, com o propósito de definir o meu campo de especialização. Desejo, então, poder inaugurar novas pesquisas, assentadas sobre parte do material de que já disponho, voltadas desta vez para outros aspectos (autores, grupos, tendências) da escola histórica francesa e para algumas questões teóricas do campo da Historiografia, inclusive para poder voltar a pesquisar também a historiografia brasileira, a produção histórica nacional, que eu tanto admiro. A Historiografia é o meu campo de estudo, e a produção intelectual francesa, a minha área de especialização. Neste momento, estou relendo muitas coisas, procurando construir um novo questionário. Há uma infinidade de caminhos e de temas a serem explorados. Na origem de qualquer pesquisa, acho que todo o pesquisador sente uma excitação e uma dose de medo. É muito excitante e desafiador iniciar uma pesquisa, se lançar numa aventura intelectual. Nunca se sabe aonde ela vai nos levar.

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