The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

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Em 1885, venderam-se em leilão, em Londres, 35 cartas escritas por John Keats à sua noiva, Fanny Brawne. Após a morte do poeta aos 25 anos, em 1821, Fanny casara-se, tivera filhos e morrera em 1865, aos 65 anos. Um de seus filhos vendeu as cartas, as quais aliás já haviam sido publicadas em 1878. Alguns admiradores de Keats condenaram a publicação e a venda, julgando que as cartas jogavam luz menos sublime sobre sua personalidade. Estimaram que a transparência com que Keats escrevera a Fanny Brawne não se podia compartilhar com as multidões.

Oscar Wilde assistiu ao leilão e, aparentemente, comprou ao menos uma das cartas. Isso não o impediu de escrever, um dia antes, um famoso soneto, intitulado On the Sale by Auction of Keats’ Love Letters, onde critica a venda, declarando: “I think they love not art/Who break the crystal of a poet’s heart/That small and sickly eyes may glare and gloat”. O soneto, além de sua beleza intrínseca, permanece relevante como apelo ao direito à vida privada do artista.

Três anos depois, em 1888, Henry James publicou uma de suas melhores novelas, The Aspern Papers. Na estória, um Narrador americano, nunca nomeado, fervoroso admirador e estudioso da obra de um poeta, compatriota seu, Jeffrey Aspern, visita Veneza em busca de cartas ou documentos escritos pelo seu ídolo. Aspern, como inventado por Henry James, é um poeta da Era Romântica, contemporâneo de John Keats, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley e que, como eles, morrera jovem, cerca de sessenta anos antes. Mantivera na Europa um romance com uma americana, Juliana Bordereau, que vive, anciã e solteira, em um palazzo em Veneza, na companhia de uma sobrinha, também solteira, nomeada Tita em 1888, e Tina nas edições posteriores. O Narrador acredita que os documentos inéditos de Aspern conservados por Juliana contribuiriam para um maior conhecimento da personalidade do poeta e compreensão de sua obra.

O conto de Henry James pode ser visto como uma crítica ao fato de o limite entre o privado e o público tornar-se fluido por causa da fama — no caso, a literária, pois essa era uma época em que poetas e romancistas podiam ser verdadeiras celebridades. A quem pertencem as cartas escritas por Jeffrey Aspern a Juliana Bordereau? A ela própria; à imagem do poeta a ser preservada; ou ao seu público de idólatras, dos quais o Narrador do conto é o sacerdote? Claramente, o Narrador acredita que ele, ao menos, tem o direito de ler as cartas, na qualidade de principal especialista em Aspern. Questões ligadas à privacidade são um dos temas da novela, a qual, como sempre no caso de Henry James, possui vários níveis de leitura.

Sabemos de onde veio a inspiração para a redação de The Aspern Papers. Nos cadernos onde anotava ideias para futuras obras, em janeiro de 1887 Henry James, que estava então em Florença, relata ter ouvido uma estória ocorrida naquela cidade anos antes. Um crítico de arte e “Shelley-worshipper” americano, Edward Silsbee, soubera que Claire Clairmont, a ex-amante de Byron — e talvez também de Shelley, casado com sua hermanastra, Mary Godwin, a autora de Frankenstein — morava, aos 80 anos, em Florença, na companhia de uma sobrinha de cerca de 50 anos. O admirador de Shelley introduziu-se como locatário na casa de tia e sobrinha, na esperança de, quando Claire Clairmont morresse, colocar as mãos em cartas de Shelley e Byron que ela guardava. Claire morreu em 1879; a sobrinha declarou que daria as cartas a Silsbee se eles se casassem. Silsbee fugiu. Comenta Henry James nos seus cadernos: “Certainly there is a little subject there: the picture of the two faded, queer, poor and discredited old English women — living on into a strange generation, in their musty corner of a foreign town — with these illustrious letters their most precious possessions“.

A novela segue o mesmo roteiro. Henry James a escreveu em Veneza, ao longo de 1887, o que contribuiu para tornar particularmente crível a evocação da cidade no texto. Minha frase predileta talvez seja a seguinte, referente a um passeio noturno de gôndola que fazem Tina Bordereau e o Narrador, inclusive pelo Canal Grande: “She had forgotten how splendid the great water-way looked on a clear, hot summer evening, and how the sense of floating between marble palaces and reflected lights disposed the mind to sympathetic talk. We floated long and far […]“. A novela, para padrão de Henry James, possui estilo e diálogos diretos. Como, além disso, trata da apropriação que admiradores de um artista fazem de sua obra e de sua vida pessoal, entende-se que The Aspern Papers tenha inspirado escritores, músicos e diretores de cinema. A estória já foi levada às telas de cinema ao menos cinco vezes e já gerou ao menos duas peças de teatro, além de duas óperas.

Há muitos anos, em 1984, assisti em Londres a uma das versões teatrais da novela. No palco, Vanessa Redgrave interpretava a sobrinha, Tina Bordereau. Christopher Reeve, no auge da fama hollywoodiana, por causa da série de filmes em que interpretava o papel de Super-Homem, fazia o Narrador. Juliana Bordereau era interpretada por Wendy Hiller, famosa em seu tempo, nas telas como nos palcos. Essa adaptação teatral fora produzida originalmente em 1959, e seu autor era o pai de Vanessa, Michael Redgrave, que interpretara o Narrador na produção original. Na versão teatral, o Narrador ganhava um nome, Henry Jarvis, tendo portanto as mesmas iniciais de Henry James, misturando assim criador e personagem.

Guardo ainda o programa da produção londrina de 1984, onde vejo que escrevi ter preferido versão cinematográfica da novela, intitulada Aspern, a que assistira pouco tempo antes, dirigida por Eduardo de Gregorio e estrelada por Alida Valli como Juliana, Bulle Ogier como Tina e Jean Sorel como o Narrador. Eu era então muito, muito jovem, e sentia uma paixonite por Bulle Ogier. Além disso, desde sempre admiro o talento de Alida Valli e seus olhos profundos e acariciantes. A Arte, porém, nos prega peças. Passadas tantas décadas, eu já nem me lembrava dessa versão cinematográfica, até ler, há poucos dias, meus comentários a respeito no programa da peça. Mesmo agora, nenhuma imagem do filme me vem à cabeça. Da produção teatral, de que manifestei no programa não ter gostado, nunca me esqueci.

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The Aspern Papers chega às telas novamente, em uma versão dirigida por Julien Landais, baseada em uma adaptação francesa, para o teatro, de Jean Pavans, que colaborou com Landais e Hannah Bhuiya no roteiro do filme. Vanessa Redgrave, que vi no palco como a sobrinha, na versão teatral escrita por seu pai, vive agora a tia. Sua filha, Joely Richardson, vive a sobrinha. Jonathan Rhys Meyers faz o papel do Narrador.

Como a crítica tem sido severa com o filme, direi imediatamente que gostei da versão de Landais. Em seu primeiro longa-metragem, o ex-modelo — de que eu nunca ouvira falar até assistir ao filme — foi ambicioso e é provável que não possuísse ainda a experiência para reciclar uma obra tão complexa e já mastigada por tantos artistas antes dele. Há, contudo, muito a ser recomendado nesta nova adaptação da obra-prima de Henry James. Antes de mais nada, os diálogos são fiéis à novela, da qual frases inteiras foram transpostas ao filme. Landais manteve a ação no período histórico em que a estória de Henry James se desenvolve, os anos 80 do século XIX. O palazzo veneziano ajardinado que inspirou James para descrever a residência das Bordereau foi usado como cenário. Algumas inovações de Julien Landais são bem-vindas, como atribuir papel maior à amiga do Narrador, Mrs. Prest, em uma brilhante atuação de Lois Robbins. O diretor criou novos personagens  — como uma filha e uma amiga para Mrs. Prest, e uma filha para essa amiga — que nada acrescentam ao desenrolar do enredo, mas permitem a inserção de novos cenários e diálogos e rompem a claustrofobia das cenas no palazzo das senhoras Bordereau. Alguns puristas, aliás, se irritarão com isso, pois o aspecto claustrofóbico é importante na novela.

Outra inovação foi decididamente pouco benéfica para o filme. Julien Landais insere cenas em flashback mostrando o romance entre Jeffrey Aspern e Juliana Bordereau. Vai além, e cria a figura de um “segundo poeta”, que vive com o casal um triângulo amoroso. Essas cenas são banais e desnecessárias. Vemos o trio beijando-se, dançando, os três com ar melancólico, suspirando. No final do filme, quando Tina Bordereau sente-se rejeitada pelo Narrador, queima as cartas de Aspern mas antes lê algumas em voz alta. Seu teor, totalmente inventado pelos roteiristas, mostra que Aspern, nesta versão cinematográfica, amava o “segundo poeta” ao menos tanto quanto amava Juliana Bordereau. Os roteiristas parecem assim ter querido fazer, na figura de Jeffrey Aspern, um condensação de Byron, Keats e Shelley. Inventam a forma como morreu Aspern, afogado como Shelley. Ele é bissexual, como Byron. E quando vemos seu rosto em uma miniatura, reconhecemos imediatamente a pose de Keats em um famoso retrato.

Este é um filme que parece ter sido feito para que Julien Landais se divertisse com seus amigos. Nos créditos, entre os produtores aparecem o príncipe Charles-Henri de Lobkowicz, François Sarkozy (irmão do ex-presidente da França) e James Ivory, que no passado dirigiu adaptações melhores de obras de Henry James, inclusive, em 1984, The Bostonians, com Vanessa Redgrave e Christopher Reeve. Entre os atores, nos pequenos papéis inventados pelos roteiristas, ou fazendo apenas uma breve aparição, há outros sobrenomes ilustres: Daphne Guinness, Poppy Delevingne, Morgane Polanski (filha de Roman Polanski e de Emmanuelle Seigner), além de modelos aparentemente muito famosos. Em resumo, se você pertence à elite social, econômica, cinematográfica ou do mundo da moda na Europa, suas chances de estar envolvido nesse projeto de Julien Landais eram bem grandes. É fácil, porém, tratar tudo isso com esnobismo intelectual. A verdade é que a participação de Poppy Delevingne no papel, criado para essa adaptação, de amiga de Mrs. Prest, signora Colonna, é irresistível. Morgane Polanski e Barbara Meier, nos papéis de filhas da signora Colonna e de Mrs. Prest, trazem um pouco de brisa e esperança a uma estória que é, também, sobre as desilusões acumuladas em toda vida humana ao longo do tempo.

Além da infeliz ideia de mostrar flasbacks do triângulo amoroso inventado por ele, Landais tomou outra iniciativa que prejudicou o filme: escalar Jonathan Rhys Meyers como o Narrador. O ator aparece em praticamente todas as cenas. Irlandês de nascimento, deram-lhe um acento americano carregado, nunca ouvido antes em filme algum. Sua atuação é artificial, pouco convincente, empostada, e parece a de um adolescente sem talento em produção teatral em final de ano na escola. Estamos longe do talento que aparentara ter em 2005, em Match Point, dirigido por Woody Allen. Ele é um dos muitos produtores executivos listados nos créditos em The Aspern Papers. Terá Julien Landais sido obrigado a aceitar essa terrível interpretação? Ou terá a atuação de Jonathan Rhys Meyers sofrido as consequências da inexperiência de Julien Landais atrás da câmera?

Em compensação, temos direito à presença na tela de Vanessa Redgrave e Joely Richardson. Mãe e filha dominam o filme. Justificam a ida ao cinema. No palco no papel de Tina, em Londres, há tantos anos, Vanessa Redgrave não me convenceu. Era uma presença forte demais para representar uma mulher desinteressante. Na tela, como Juliana, ela é impressionante. É magistral a forma como, em uma cena, dialogando com o Narrador, apenas levantando um dos dedos ela cativa a atenção. Estamos na presença de uma atriz excepcional, mítica, com décadas de experiência nos palcos e nas telas, herdeira de ilustre tradição familiar e que não decepciona. Ao contrário, ela recompensa o público que, há muitos anos, acompanha sua carreira, e dá a entender que tudo o que vimos até aqui era apenas uma preparação para a sua Juliana Bordereau.

Joely Richardson é surpreendente como Tina Bordereau. Mostra a força, a capacidade de sedução da personagem, mas também sua vulnerabilidade, a inocência, a retidão. Enquanto que a novela termina reiterando a frustração do Narrador, tempos depois, pelo fato de nunca ter colocado as maõs nas cartas de Aspern, no filme o que vemos na última cena é a libertação de Tina. Partindo de Veneza em uma gôndola, ela joga na laguna o anel que fora da tia e, antes dela, de Jeffrey Aspern. Sorrindo, abandona o passado. Recomeçará a vida em outra parte, sozinha mas talvez feliz de não ter tido êxito na tentativa de amarrar o seu destino ao do medíocre Narrador.

The Aspern Papers – Ficha técnica IMDb

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O Mar por toda parte

O Mar por toda parte

Passei este ano o melhor Carnaval do mundo: com a minha mulher, na casa onde nos casamos, na beira da praia, acompanhados por silêncio e tranquilidade, rodeados pelo oceano de um lado e pela Mata Atlântica do outro.

Levei comigo alguns livros, mas isso não teria sido necessário, pois a casa contém, ainda intacta, a biblioteca secundária de meus sogros. Na postagem O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks aludi a essa casa. O que não disse, naquela ocasião, é que o prazer de lá estar, ao longo dos anos, inclui o de mergulhar em sua biblioteca. Fico lendo na praia, na varanda, à beira da piscina ou na sala onde me casei, de onde observo, pelas paredes de vidro, o sol se levantar ou cair no horizonte, ouvindo e vendo o mar.

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Ao longo de sucessivos férias e feriados na praia, passei dos romances de F. Scott Fitzgerald — foi nessa casa que aprendi a gostar dele — à monumental biografia, em quatro volumes, do primeiro duque de Marlborough, John Churchill, escrita por Winston Churchill, seu descendente, e publicada entre 1933 e 1938. Um volume, aliás, o segundo, desapareceu. Sempre me pergunto onde terá ido parar. No Carnaval, toquei no assunto com a minha mulher, que respondeu, meditativamente: “Não sei. Ninguém sabe. Sumiu faz muito tempo”. Isso só confirmou minha opinião de que os livros possuem vida própria.

Marlborough: His Life and Times voltou a despertar minha atenção recentemente, porque o duque e sobretudo sua mulher, Sarah Jennings, são personagens do extraordinário filme de Yorgos Lanthimos, The Favourite, que era meu preferido na corrida ao Oscar. O filme oferece uma visão pessoal do diretor sobre a relação entre Sarah e a rainha Anne, que reinou de 1702 a 1714. Lembrando que a amizade entre elas começara na infância e fora durante décadas “deep and strong“, Churchill nos diz que em 1709 essa relação já estava desgastada: “Nothing remained of that remarkable partnership except the opportunities of quarrel“, o que atribui à personalidade forte e difícil de sua antepassada.

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Winston Churchill, neto do sétimo duque de Marlborough — e nascido no palácio de Blenheim, a pouco modesta casa de campo da família, construída pelo primeiro duque e Sarah — ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1953, escreveu com a biografia de seu antepassado uma obra monumental. A edição da casa de praia, embora tenha cerca de mil páginas, é abreviada. O original chega ao dobro. É uma leitura fascinante. John Churchill foi um celebérrimo e vitorioso general na Guerra de Sucessão da Espanha. Na visão de seu descendente, suas vitórias fizeram do reinado de Anne um dos momentos mais ilustres da história inglesa.

Churchill examinou nos arquivos de Blenheim as cartas de amor escritas por John Churchill a Sarah, entre 1675 e 1677. Os dois eram então jovens, solteiros, vivendo o início da paixão e, embora exercessem ambos cargos na Corte do rei Carlos II, tio da futura rainha Anne, não detinham ainda o poder e o prestígio que teriam mais tarde. É comovente ler as cartas onde expõe seu coração o futuro duque e general, que chegou a ser, durante algum tempo, o homem público mais importante do país. Escreve John Churchill à ainda adolescente Sarah Jennings: “É cruel, minha Alma, ser forçado a estar em um lugar sem que eu possa ter a esperança de vê-la”; “Assim que eu soube de seu mal-estar, juro, sem afetação, que também fiquei doente”; “Se você não for gentil comigo, eu a amo tanto que não poderei sobreviver, pois você é minha vida, minha alma, tudo que eu mais valorizo neste mundo”.

Há muito tempo, outras cartas chamavam minha atenção na biblioteca. Elas estão contidas em um volume de capa dura que, com a lombada branca meio surrada, na foto abaixo aparece na prateleira do meio, ao lado de Galápagos, de Kurt Vonnegut, um dos autores de predileção de minha sogra. Trata-se de uma edição de 1949, na coleção Clássicos Jackson, das cartas do Padre Antonio Vieira.

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O pregador, grande favorito de minha mulher, começou a me interessar no início do nosso namoro, pois ela já possuía então a edição de 1959 dos Sermões, em cinco volumes, em papel bíblia, pela editora Lello & Irmão, do Porto. É nessa edição que acabo de ler, por exemplo, o Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma de 1644, em que o autor disseca os sentimentos de amor, amizade e ódio e suas correlações. Diz ele: “Isto que no mundo se chama amor, é uma coisa que não há, nem é: é quimera, é mentira, é engano; é uma doença da imaginação e por isso basta para ser tormento”. De maneira geral, os sermões de Vieira que abordam os temas de amor ou amizade postulam que todo afeto terrestre é uma ilusão. Um argumento frequente seu, pode-se resumir, é que só Jesus sabe amar e, por isso, só ele merece o nosso amor.

Entre as setenta cartas incluídas no livro da biblioteca da praia, porém, vemos em várias um Vieira afetuoso. Carta escrita em 1653, do Maranhão, ao Padre Francisco de Morais termina da seguinte maneira: “Ah amigo, quem pudera trasladar-vos aqui o coração, para que lêsseis nele as mais puras e as mais importantes verdades, não só escritas ou impressas, senão gravadas”. Trinta anos depois, em 1683, da Bahia, Vieira escreve ao Cônego Francisco Barreto: “A falta de carta de V. Mcê, em tanta continuação de navios, me tinha muito sentido, posto que não desconfiado, como quem tão seguro está na verdade do afeto de V. Mcê”.

Dependendo do interlocutor, do momento, do local onde foram escritas, das circunstâncias históricas, as cartas mostram Antonio Vieira preocupando-se com política, economia, diplomacia, religião, catequese e direitos de indígenas brasileiros, etnografia, profecias, amizade. O que nunca vemos nas cartas é Antonio Vieira frio, indiferente. Há uma intensidade constante. Nas cartas, como nos sermões, há no tom uma teatralização do mundo.

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Vieira era um temperamento peripatético. Em uma ocasião, há alguns anos, lendo as cartas na praia, listei os muitos lugares onde esteve, além de Portugal: Bahia, Maranhão, Pará, Ceará, Olinda, Cabo Verde, Roma, Haia, Dover, Florença, Paris, Rouen, Açores.

Ouvindo as ondas morrerem quase que no muro do jardim, eu ficava maravilhado com a coragem com que Vieira, no século XVII, subia aos barcos frágeis do seu tempo. Sete vezes, ele atravessou o Atlântico; sofreu tempestades, naufrágios e o desconforto de viagens que podiam durar dois meses, e bem mais se surgiam contratempos. Ao menos duas vezes, ele foi recolhido por piratas.

Em dezembro de 1652, o barco em que ia de Portugal ao Maranhão precisou, por razões de mau tempo, aportar por larga temporada em Cabo Verde. Escreve Vieira em carta ao Padre André Fernandes: “Faço esta em Cabo Verde, aonde chegamos com trinta dias de viagem, obrigados dos ventos contrários e de todos os outros trabalhos de tempestades, calmarias e corsários, que em mais compridas navegações se costumam padecer”. Em 1654, indo do Maranhão a Portugal, sofre novo naufrágio e aporta nos Açores. No Sermão de Santa Teresa, pregado na Ilha de São Miguel, declara: “Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas, como a em que eu e os companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar, e nós fora dele, pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus, e de sua Mãe. Não apareceu ali baleia que nos tragasse…”

Várias cartas comprovam o desejo de Antonio Vieira de estar no centro dos eventos e revelam as controvérsias em que, por causa de seu interesse pela política, ele se envolveu. O sublime orador, cujos textos alcançam a maior profundidade mística, não era desligado das coisas terrestres. Tinha sede de influenciar os rumos de seu país e foi próximo de D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança e restaurador, em 1640, da independência portuguesa após sessenta anos de jugo espanhol. A viagem ao Maranhão de 1652 é relevante para esta discussão, porque deveu-se a intrigas e ao ocaso de sua proximidade com o rei.

A edição dos Sermões da editora Lello & Irmão inclui biografia do orador pelo Padre Gonçalo Alves. Diz este sobre a viagem de Vieira de 1652 ao Maranhão: “afinal o rei, também já trabalhado fortemente pelos inimigos do grande pregador, e aguilhoado talvez pela desconfiança de que fora ele o conselheiro do príncipe [Teodósio, filho mais velho do rei, que com ele estava indisposto], não continuou a impedir-lhe a partida, e quando Antonio Vieira, a 22 de novembro de 1652, embarcou, esperando encontrar a bordo alguma nova ordem para não sair, não encontrou coisa alguma, e teve de partir”.  Severo, o padre prossegue: “Foi esse o justíssimo castigo de sua duplicidade, porque, fingindo sempre que todo o seu desejo era ir servir a causa sagrada da religião católica, e que só muito constrangido obedecia às ordens reiteradas de el-rei que não podia passar sem ele, afinal foi vítima da sua própria comédia, e teve de partir, ferido cruelmente no seu amor-próprio, ao ver que o rei se desprendera com facilidade dos laços em que ele julgara tê-lo perpetuamente preso”. De fato, a carta já citada ao Padre Francisco de Morais, de 1653, começa com a frase: “Enfim, amigo, pôde mais Deus que os homens, e prevaleceram os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas. A primeira vez vinha contra a vontade de El-Rei; desta segunda vim até contra a minha, para que nesta obra não houvesse vontade mais que a de Deus”.

Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e faleceu em Salvador em 1697. Essa longevidade, em si atípica no século XVII, surpreende ainda mais em alguém que viveu em condições tantas vezes desconfortáveis, viajando no Brasil a aldeias indígenas distantes, sofrendo o antagonismo das autoridades coloniais, fazendo inimigos poderosos em Portugal ao se imiscuir em temas políticos e, por algum tempo, sendo processado pela própria Inquisição. Vieira morou no Brasil nos seguintes períodos: de 1615 — nessa primeira viagem transatlântica já quase naufragou na Paraíba — a 1640; de 1653 a 1654; de 1655 a 1661; e de 1681 até morrer. O resto do tempo, viveu na Europa, inclusive em Roma por seis anos. Conviveu com D. João IV e a rainha Luísa de Guzmán, com os filhos do casal, Teodósio, D. Afonso VI, D. Pedro II e Catarina, que foi rainha de Inglaterra por ter se casado com o rei Carlos II — um casamento famoso na História, porque a noiva levou Bombaim em dote à Inglaterra. Em Roma, Antonio Vieira conviveu com a rainha Cristina da Suécia e pregou em seu palácio. Em Paris, negociou com a rainha e regente Ana d’Áustria e com o cardeal e primeiro-ministro Julio Mazarino.

Talvez o trecho mais cativante na correspondência esteja contido em carta escrita em 1654, do Pará. Descreve uma viagem sua de Belém ao rio Tocantins, pela foz do “rio das Amazonas”, em missão de catequese de povos indígenas. Diz a carta: “[…] cada um em sua canoa, e começamos a navegar por um mar de água doce. Derrotou-nos a escuridão da noite, e o Padre Antonio Ribeiro e eu a passamos amarrados às árvores de uma ilha, que nos serviram de âncoras e amarras”. Seduz a imaginação pensar no interlocutor dos reis e ator da cena política europeia navegando, quase só, pelos rios amazônicos, sob as estrelas de noite, e de dia vendo a mata, ouvindo apenas os barulhos da natureza. No justamente célebre Sermão de Santo Antonio aos Peixes, escrito em 1654, Vieira alude ao trecho anterior dessa viagem, de São Luís a Belém, ao dizer: “Navegando daqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa) vi correr pela tona da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia”.

Uma das mais belas cartas é a que escreveu à rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, em 1695. Viúva sem filhos do rei Carlos II, com quem se casara em 1662, Catarina regressara a Portugal em 1693. Durante as suas décadas na Inglaterra, não fora feliz. Antagonizada por ser católica em um país de religião anglicana, tivera de conviver publicamente, na Corte, com as numerosas amantes do marido e seus filhos ilegítimos. Ao não ter ela própria filhos, Catarina falhara, na visão da época, na única missão destinada a uma rainha. Vieira a conhecera criança. Escreve ele, aos 87 anos, da Bahia: “Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades”.

Na carta à rainha Catarina, entramos na intimidade da família de D. João IV. Vieira cita diálogo que tivera sobre ela com sua mãe, a rainha D. Luísa de Guzmán, nascida nobre espanhola. Sendo ele “o correio fiel dos recados e lembranças da mãe e das saudades da filha”, relata que D. Luísa lhe dissera, a respeito de um presente que enviara a Catarina:  “Estoy muy mal con Catalina, porque, enviándole unas perlas, me las agradeció“. Comenta Vieira: “Onde o agradecimento é ofensa, bem se podia ser secretário destes corações”. É notável que a carta resgate uma frase verdadeira, pronunciada há quase quatrocentos anos: podemos ouvir a voz da rainha de Portugal, que traduz seu sentimento de afeição pela rainha de Inglaterra, sua filha.

Terminava o feriado de Carnaval. Um pensamento antigo voltou à minha mente: seria errado eu retirar o livro das cartas de Antonio Vieira da casa e levá-lo comigo? Isso não estragaria a harmonia da biblioteca, conservada durante anos pelos meus sogros? Quando eu passava pelas estantes, porém, o olhar sempre se dirigia ao volume de capa dura, encadernado com tela branca, um pouco manchada pelo tempo. A própria tela me fazia pensar nas viagens marítimas de Antonio Vieira. As janelas perpendiculares às estantes mostravam o mar e as ondas.

No dia da partida, saímos cedo, pois iríamos ainda subir a serra até o aeroporto. Vendo o sol nascer no horizonte marítimo, eliminei minha hesitação, pousei as malas na porta de entrada, corri pelas escadas até a biblioteca e extraí da estante o livro branco.

Guardo-o comigo desde então.

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Keira Knightley e os escândalos de Colette

Keira Knightley e os escândalos de Colette

Uma vez, em Londres, eu vi a Keira Knightley. Minha mulher, minha filha e eu fomos ao teatro, e lá estava a atriz, no foyer, esperando para assistir à peça. Rodeavam-na três ou quatro amigos. Para uma estrela do cinema hollywoodiano, ela pareceu simples, sem afetação  e despretensiosa.

A peça era apresentada em um de meus teatros prediletos — pela programação e pela qualidade das produções — o Donmar Warehouse. Com capacidade para 250 espectadores apenas, sentados em três lados ao redor do palco, esse teatro de arena permite o máximo de proximidade entre plateia e atores e entre os membros do público. Naquela noite, cerca de dez anos atrás, três peças curtas eram apresentadas, todas lidando com situações absurdas e reunidas em uma produção intitulada, não por acaso, Absurdia. Duas eram de um mesmo autor, N. F. Simpson. A terceira mini-peça, The Crimson Hotel, era de Michael Frayn, escritor de minha predileção, por causa de seu senso de humor consistente.

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Em The Crimson Hotel, um teatrólogo e a atriz de sua nova peça, ambos casados, fogem a um lugar deserto, para poderem consumar fisicamente a paixão que sentem um pelo outro. Enfrentam todo tipo de vicissitudes, na tentativa de cometer adultério. A farsa de Michael Frayn é curta, intensa e divertida. Um dos personagens — jamais visto em cena e citado apenas esta única vez — é “the Brazilian with bad breath“.

Keira Knightley pareceu gostar da produção. Riu bastante.

Adultério não era um mistério para a escritora francesa Colette (1873-1954), interpretada brilhantemente por Keira Knightley no filme homônimo, recém-lançado, dirigido por Wash Westmoreland. Fui ao cinema sem nada saber do filme, atraído pelo meu interesse pela vida — variada e escandalosa — de Colette e pelo talento da atriz inglesa. Ao final da projeção, saí cativado pela obra do diretor, excelente reconstituição de época. Colette aborda um período específico da vida da escritora, a relação com Henry Gauthier-Villars, seu primeiro marido — houve três — que era treze anos mais velho do que ela e publicava livros com o pseudônimo de Willy. Eles se casaram em 1893 e se divorciaram em 1910, mas estavam já separados desde 1906.

Existe um registro escrito do que foi esse casamento, pois Colette publicou, em 1936, um livro a respeito, intitulado Mes apprentissages. O texto é altamente condenatório de Willy, que morrera em 1931 e não podia assim se defender, e omite detalhes que poderiam transmitir ao leitor visão menos inocente do comportamento da escritora. Mes apprentissages silencia, por exemplo, sobre as relações mantidas por Colette nesse período com outras mulheres, algumas delas incentivadas pelo próprio marido. Em inglês, a biografia mais importante da escritora é a de Judith Thurman, publicada em 1999.

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O filme de Wash Westmoreland — o diretor é também co-roteirista —reconstitui com maestria não somente o ambiente rural em que vivia Colette até se casar, como também o meio literário, sofisticado, em que se desenvolvia a existência de Willy em Paris. Vemos Colette, na figura de Keira Knightley, bela, jovem e com ar perfeitamente ingênuo, transplantada de sua Borgonha natal para os vícios da capital. Descobrimos, pelos olhos da protagonista, que o marido cosmopolita vivia em condições precárias, apesar da celebridade, de suas origens burguesas e do círculo social e literário em que se movia. Vemos o surgimento das desilusões amorosas, quando a provinciana recém-casada descobre que o marido é um adúltero contumaz. Sobretudo, somos confrontados com o fato de que Willy já não escreve, mas utiliza os talentos de outros escritores, contratados para redigir os textos — romances, crítica musical, artigos de jornal — que ele assina. No filme, ele declara: “Willy is a brand”. Colette começa ela também a escrever livros para o marido. Graças ao talento dela, Willy obtém seu maior sucesso financeiro e de público, a série de romances protagonizados por uma personagem feminina, Claudine. Lendo Mes apprentissages — e a autora passa, efetivamente, por vários aprendizados nesse período fica difícil decidir se o que pesou mais na decepção sentida por Colette em relação a Willy foi a descoberta de que ele a traía, ou o fato de que ele não escrevia de verdade as obras publicadas com o seu nome, ou a facilidade com que ele se apropriava dos louros proporcionados pelo talento da mulher. Um dia, sem consultá-la, ele cede a um editor, em troca de significativa soma de dinheiro, os direitos autorais dos livros protagonizados por Claudine.

A crítica elogiou a atuação, no filme, de Dominic West como Willy. Pessoalmente, antipatizei com o personagem, e talvez isso demonstre o talento do ator. Fiquei, de forma decidida, do lado de Keira Knightley; quero dizer, de Colette. Se eu tivesse de apontar um defeito no filme, seria o fato de que aparece pouco na tela a mãe da escritora, Sido, de forte personalidade, e que Colette professava adorar. Interpretada por uma grande atriz, Fiona Shaw, a personagem nos seduz e sentimos falta de uma participação mais longa sua no enredo.

Nas cenas que mostram o meio dos escritores parisienses, por duas ou três vezes aparece brevemente um personagem denominado Madame Arman. Trata-se de Léontine Arman de Caillavet, amante de Anatole France, que mantinha um importante salão literário. Seu filho Gaston e sua nora Jeanne chegam a ser mencionados na história. Senti, porém, a ausência no filme do jovem Marcel Proust, amigo nessa época do casal Colette e Willy e da família Arman de Caillavet — tendo Jeanne sido um modelo para o personagem proustiano de Gilberte Swann.

Em 2013, em Paris, nos jardins do Palais-Royal, vi ao ar livre uma exposição de fotos sobre Jean Cocteau, que morou em um apartamento debruçado sobre os jardins.

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Havia várias fotos suas com Colette, amiga de longa data, que também morou, no fim da vida, no Palais-Royal.

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Como Colette morreu aos 81 anos, temos dela a visão de uma senhora sábia, de bengala ou em cadeira de rodas, com o cabelo curto e branco, enrugada, grande dama das letras francesas de sua época. Cocteau escreveu, em 1947, quando a escritora tinha 74 anos: “Da minha janela, converso com Colette, que atravessa o jardim com a sua bengala”. A escritora foi enterrada com honras nacionais e dá nome, desde 1966, àquela que considero a praça principal de Paris, ladeada pela Comédie-Française e pelo Palais-Royal e seus jardins, por um de meus restaurantes preferidos, a Brasserie du Louvre, e pela livraria Delamain e que fica a um quarteirão do Louvre, como mostra este curto vídeo que fiz em julho:

Colette ganhou um ar sóbrio, com o tempo. Vê-la sob a aparência de Keira Knightley, jovem, bela, sensual, é um choque. Wash Westmoreland nos traz a Colette da faixa dos vinte aos trinta e poucos anos, primeiro inocente e comportada, e depois descobrindo a vida e a si própria, errando, acertando, sofrendo e tentando ser feliz.

São abordadas na tela duas das relações homoafetivas da escritora. A primeira, com uma milionária americana casada com um francês, e cujas atenções Colette descobre um dia estar dividindo com o próprio Willy. A segunda relação — com uma mulher de aparência masculina conhecida como Missy — merece comentário mais demorado. Missy, interpretada no filme pela atriz irlandesa Denise Gough, foi presença marcante para Colette. Estimulou-a a fazer transformações radicais em sua vida, incentivando-a, por exemplo, a virar atriz de music-hall. Nessa fase, a escritora aparecia frequentemente seminua no palco, gerando grande comoção na França da Belle Époque. O nome verdadeiro de Missy era Mathilde de Morny, marquesa de Belbeuf.

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Socialmente, Missy não era pouca coisa. Era mesmo muita coisa. Seu pai, o primeiro duque de Morny, morreu quando ela era criança. Morny era meio-irmão do imperador Napoleão III e filho ilegítimo de uma das figuras mais atraentes da saga napoleônica, Hortense de Beauharnais, enteada de Napoleão I e casada por ele com seu irmão Louis, que Napoleão transformou em rei da Holanda. Morny nascera da relação adulterina da rainha Hortense com Charles de Flahaut, ele próprio filho ilegítimo de Talleyrand. O pai de Missy, portanto, era um duque, filho da rainha Hortense, irmão do imperador Napoleão III, neto da imperatriz Josefina e neto do mais célebre dos diplomatas, Talleyrand. A mãe de Missy era uma princesa russa, Sofia Trubetskoy, que, viúva do duque de Morny, casou-se com um duque espanhol. Este, segundo Judith Thurman, teria abusado sexualmente de Missy na infância.

Uma boa e curta biografia em francês de Colette, acompanhada, como sempre acontece nessa coleção, de farto material iconográfico, é o  Album da Pléiade a ela dedicado.

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Folheando o volume, fico impressionado em constatar como o filme de Wash Westmoreland é fiel à realidade. Há cenas que parecem extraídas de fotos da época. O Album da Pléiade nos mostra Colette aos 18, portanto dois anos antes de seu casamento com  Willy.

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Com pouco tempo de casada, a insatisfação da futura escritora com o casamento, ou com Willy, já aparece nesta foto dos dois:

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O filme captura bem o sucesso fenomenal da série dos romances Claudine e o aparecimento, na vida do casal, da atriz Polaire, que interpretou nos palcos a versão teatral de um dos livros. Willy fez Colette cortar os cabelos, para ficar parecida com Polaire, e associou a autora à atriz. Levava-as para jantar ou ao teatro, juntas, vestindo roupas iguais, chamando-as de suas “gêmeas”. Embora a relação do casal com Polaire pareça ter sido apenas profissional, está claro que Willy, para ajudar o sucesso da peça, desejava passar a ideia de que eles formavam um ménage à trois. Segundo Colette, em Mes apprentissages, isso chocava Polaire. A habilidade de Willy para o marketing é ilustrada por esta caricatura, publicada na imprensa da época:

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Neste cartaz, vemos como apenas o nome de Willy aparecia como autor dos romances e como o rosto de Polaire passou a representar a personagem Claudine:

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Em 1907, o maior escândalo protagonizado por Colette até então deu-se quando Missy montou para ela no Moulin Rouge uma pantomima intitulada Rêve d’Égypte, em que as duas apareciam juntas no palco. Colette, quase nua, fazia o papel de uma múmia pela qual se apaixonava um arqueólogo, representado por Missy vestida de homem — portanto, em seus trajes habituais:

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O público, claramente, fora à estreia no Moulin Rouge na expectativa de saborear um escândalo, pois o cartaz publicitário prenunciava o que aconteceria no palco:

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“Yssim” era um claro anagrama de Missy, e o brasão da marquesa aparecia no cartaz. Uma cena de beijo entre múmia e arqueólogo causou tumulto na plateia, que já vaiara desde o início da representação a presença da marquesa no palco. Em parte, o escândalo foi facilitado pela atitude da família de Missy e dos círculos bonapartistas, chocados com a exibição pública e desejosos de impedir a continuação do espetáculo. Nossa geração, acostumada à divulgação constante dos amores de artistas famosos e a declarações auto-reveladoras na imprensa, não se impressionaria com a pantomima. Em 1907, porém, não era comum ver a neta de uma rainha e bisneta de uma imperatriz ostentando no palco sua relação homoafetiva com a mulher de um célebre escritor. Willy, co-autor da pantomima, separado de Colette mas ainda formalmente casado com ela, assistiu à estreia, acompanhado de sua própria amante. Sua presença complacente chocou a plateia e, contribuiu para criar a comoção.

O jornal Le Figaro, no dia seguinte, publicaria artigo violento condenando a apresentação: “A sala do Moulin Rouge estava arquicheia, e estava além disso ultra-elegante”; “Durante os quinze minutos que durou a pantomima, o tumulto não cessou nem um minuto sequer, e as intérpretes, enfrentando a tempestade, seguiram atuando com uma teimosia digna de uma causa melhor”; “Uma exibição deplorável que, esperamos, não se repetirá”.

No filme, a cena no Moulin Rouge é tratada com grande veracidade. Vemos Keira Knightley no palco com o ar de determinação, sensualidade e vontade de chocar que Colette terá certamente demonstrado naquela noite. Esse é talvez o ponto mais alto da carreira de Keira Knightley até o momento. A cena mostra não só o caminho ousado percorrido por Colette, ex-provinciana ingênua, mas também a evolução da atriz, dona agora de um talento claro, que ela ostenta com segurança.

E assim, encerrando-se o casamento de Colette e de Willy, o filme vai terminando. Seu propósito, mostrar o percurso da escritora no início da vida adulta, por meio da relação com o primeiro marido, está concluído.

Uma indagação colocada pelo filme, e pela existência levada pela própria escritora, diz respeito ao papel reservado a uma mulher talentosa na Belle Époque. Aparentemente, a única oportunidade à disposição de Colette para escapar de um casamento infeliz era a quebra de tabus. Fiquei me perguntando se haverá algum dia um filme mostrando a etapa seguinte da trajetória de Colette. De 1912 a 1924, ela foi casada com o barão, jornalista e político Henry de Jouvenel, com quem teve uma filha. Consagrou-se, nesse período, publicando livros, como Chéri, que demonstram poder de análise psicológica e capacidade de descrever a vida como uma experiência sensorial. Valeria a pena ver na tela Colette baronesa, mulher de senador e escritora famosa e respeitada? Esse segundo filme, porém, teria também de mostrar sua relação afetiva e sexual com o enteado, Bertrand de Jouvenel, iniciada quando ele tinha 16 anos e ela 46. Wash Westmoreland, provavelmente, termina seu excelente filme no momento certo.

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Minhas Aventuras com Tintin

Minhas Aventuras com Tintin

Uma vez, li em algum lugar que a vida é aquilo que precisamos fazer para ocupar o tempo entre o café da manhã e o almoço e entre o almoço e o jantar. Em julho, quando passei alguns dias em Bruxelas, senti que a vida acontecia durante as refeições, quando podia estar com minha filha, que lá vive e trabalha. O resto do tempo era apenas a espera tediosa do momento de revê-la.

Desde que Julia saiu de casa, em 2011, para fazer faculdade, e passamos a morar em países diferentes, cada reencontro torna tudo mais vivo, mais vibrante, mais colorido ao meu redor. Ao mesmo tempo, cada separação traz, nos primeiros dias, um sabor de vazio e de incompletude. Como preencher os momentos em Bruxelas entre o café da manhã, o almoço e o jantar? Como tornar menos entediantes as horas sem minha filha? Tive sorte de que os dias estavam quentes e ensolarados. Choveu apenas em um final de tarde.

Um de meus primeiros destinos foi La Boutique Tintin, o paraíso de todo admirador do jovem repórter que nunca escreve para jornal algum. Tintin é provavelmente o belga mais famoso que jamais existiu. No aeroporto de Bruxelas, Zaventem, na área central por onde passam todos os passageiros, estejam eles embarcando ou desembarcando, é ostentado o foguete que figura em duas de suas aventuras mais conhecidas:

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Assexuado, sem família, ar de adolescente e rosto sem traço distintivo — o topete é sua única característica física notável — Tintin é aquilo que cada um de nós quer que ele seja e todos podemos nos projetar nele. Mais recentemente, o personagem tem-se revestido de uma forma nova de prestígio: é um dos poucos heróis de histórias em quadrinhos famosos a não ser americano, em uma espécie de resistência cultural franco-belga.

No longínquo ano de 2016, meus alunos no Instituto Rio-Branco ofereceram uma festa a fantasia com o tema “Quadrinhos”. Fiquei me perguntando se algum iria vestido de personagem das BD franco-belgas. Quantos se fantasiariam de Lucky Luke, o cowboy “mais rápido do que a própria sombra”? Quantos de Astérix ou Obélix? Quantos de Spirou, o camareiro que vira jornalista, ou de Fantasio, seu melhor amigo? E quantos de Iznogoud, aquele que queria “ser califa no lugar do califa”?

Ao ver nas redes sociais as fotos da festa, fiquei desapontado. Havia apenas personagens de comics americanos. Notei uma única exceção: um aluno fora disfarçado de Tintin, levando inclusive no braço um Milou de pelúcia. O jornalista belga aparentemente escapa da relativa obscuridade atual de outros heróis de quadrinhos de língua francesa, como demonstra o filme The Adventures of Tintin, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2011.

No Brasil, conheço ao menos uma pessoa fanática por Tintin: Chicô Gouvêa. Minhas férias de julho haviam começado em Lisboa, onde eu fora visitar minha irmã, e logo no primeiríssimo dia ela e eu jantamos no apartamento de Chicô e Paulo Reis, amigos que já mencionei em  O Embrulho Vermelho. Reparei que, como também acontece em sua casa do Rio de Janeiro, os personagens tintinescos faziam-se presentes na decoração em Lisboa:

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Chicô e Paulo colecionam máscaras africanas. Uma vez, no Rio, aconteceu de eu elogiar uma delas. Da maneira mais generosa, eles imediatamente a retiraram da parede como um presente para mim. Essa máscara está hoje em casa em Brasília:

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Voltemos a Lisboa, ao jantar em casa de Chicô e Paulo, onde me deparo com uma máscara com os traços do herói belga, o que eu nunca havia visto antes:

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Dias mais tarde, em Bruxelas, dirijo-me a La Boutique Tintin. Conheço bem a loja, da época em que morei na cidade pela segunda vez, e sei que ela não é barata. Fica perto da Grand’Place:

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Dentro, o foguete é onipresente, e mesmo os modelos menores são caros, em função das leis de oferta e demanda, já que esse é provavelmente o objeto mais reconhecível, mítico das aventuras do nosso amigo belga:

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Vários objetos fazem referência a outras aventuras:

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O criador de Tintin, Georges Remi (1907-1983), conhecido pelo nome artístico Hergé (foneticamente, suas iniciais invertidas), é figura controvertida. Trabalhava, no começo da vida, em um jornal conservador, católico. É em um dos suplementos do jornal que primeiro foram publicadas, de forma seriada, as aventuras de seu principal personagem. Hergé é visto por alguns como tendo sido colaboracionista, durante a ocupação alemã da Bélgica, na Segunda Guerra Mundial.

As aventuras de Tintin começaram a ser publicadas em 1929. As primeiras prestam-se facilmente a acusações de racismo e antissemitismo. Ler Tintin au Congo (1931) é uma experiência constrangedora. A partir de um determinado momento, contudo, as aventuras mudam de tom e tornam-se cativantes, embora haja, em L’Étoile mystérieuse, publicado durante a Ocupação alemã, ao menos uma página com alusões antisemitas.

Em casa, temos todos os volumes, exceto justamente Tintin au Congo. Mostro na foto os meus prediletos, sendo que na maioria dos casos são ainda os exemplares que meus irmãos e eu líamos avidamente na infância:

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Os volumes onde aparece o famoso foguete são estes:

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A mudança na visão de mundo de Hergé é atribuída à forte amizade que desenvolveu, a partir de 1934, com um estudante de arte chinês então residente na Bélgica, Chang Chong-chen, que colaborou no álbum Le Lotus Bleu. A convivência entre os dois durou apenas um ano, pois em 1935 Chang Chong-chen regressou à China. Eles só voltariam a se ver em 1981.

Hergé escreveu outras séries de histórias em quadrinhos, além da que é dedicada a Tintin, mas este, ao se tornar mais famoso do que seu próprio criador, ofusca o resto da obra. Criança, eu gostava também de Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, que mostram as peripécias de dois irmãos e seu chimpanzé:

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Em 2009, a viúva do artista criou na cidade de Louvain-la-Neuve, perto de Bruxelas, o Musée Hergé, belíssimo prédio concebido pelo arquiteto Christian de Portzamparc, mas desconfio que os visitantes vão ao museu para saber mais sobre Tintin, não sobre o criador ou o resto de sua obra. Em janeiro de 2017, visitei em Paris, no Grand Palais, exposição dedicada a Hergé:

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Na exposição, organizada pelo Musée Hergé, as críticas ao antisemitismo, racismo e espírito colonialista de alguns álbuns foram abordadas de forma superficial, como que por mero desencargo de consciência. Com relação a Tintin au Congo, por exemplo,  um cartaz explicava que: “A ingenuidade caricatural com que ele descreve a população local e o país resulta de uma documentação sumária, cuja fonte é essencialmente o museu colonial de Tervueren”. E continuava: “Em Tintin au Congo, com frequência acusado, posteriormente, pelo seu tom colonialista, Hergé dá provas sobretudo do espírito de seu meio e de seu tempo”. Fácil assim…

A exposição dava exemplos do trabalho de Hergé como desenhista publicitário, por exemplo neste anúncio do jornal de direita onde primeiro trabalhou:

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Naturalmente, não podia faltar uma maquete do celebérrimo foguete, pois afinal Tintin e seus amigos Milou, Capitão Haddock e Professor Girassol e os irmãos detetives Dupond e Dupont caminharam na Lua em 1954, quinze anos antes de Neil Armstrong:

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Nada me interessou mais na exposição do que rever a “estatueta portadora de oferendas”, em madeira, oriunda do Peru, produzida pela Cultura Chimu, pré-colombiana, entre 1100 e 1450:

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É que conheço muito bem essa escultura, pois ela pertence à coleção do Musée Art et Histoire, em Bruxelas, onde — criança e adulto — eu a vi inúmeras vezes. A peça inspirou Hergé, que a conhecia, a escrever um de meus livros prediletos da série, L’Oreille cassée.  Graças ao álbum, a estatueta talvez seja hoje a peça mais famosa do museu.

Em casa, temos uma mini-bibliografia sobre Tintin:

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Michael Farr —  autor inglês que publicou vários livros sobre o personagem e seu criador —  opina ser Tintin “um herói imaginário em um mundo real”. Daí derivaria seu “apelo universal”. Em The Complete Companion, Farr nos mostra como as aventuras são sistematicamente baseadas em fatos, eventos, prédios, pessoas, obras de arte, descobertas científicas reais.

O psicanalista e psiquiatra francês Serge Tisseron dedica grande parte de seu tempo a Hergé e a Tintin. Segundo sua teoria, Hergé transferiu para a série tintinesca o seu drama familiar. O pai do artista tinha um irmão gêmeo, como parecem ser gêmeos Dupond e Dupont, seus dois personagens detetives. O pai e o tio de Hergé eram filhos de uma mãe solteira, empregada doméstica na casa de um conde belga e sua mulher. Quando seus dois filhos gêmeos eram já adolescentes, a avó de Hergé casou-se com um operário, em um casamento arranjado pela condessa e graças ao qual os dois gêmeos adotaram o sobrenome — Remi — do padrasto. Essa união foi meramente de conveniência. Hergé nunca sequer viu o padrasto do pai, embora tivesse já 34 anos quando o “avô” morreu.

Quem teria sido o verdadeiro pai do pai de Hergé? Se ele sabia, nunca revelou. Serge Tisseron especula se poderia ter sido o conde, ou um de seus parentes ou talvez até mesmo o próprio Rei dos Belgas, Leopoldo II, notório mulherengo, que, segundo se sabe, frequentava as propriedades do conde e sua mulher.

Leopoldo II não era um monarca qualquer. Rei de um pequeno país, viu no imperialismo europeu na África a chance de aumentar seu patrimônio pessoal. Transformou o imenso território que é hoje a República Democrática do Congo em uma propriedade particular, à qual atribuiu-se, ironicamente, o nome de Estado Livre do Congo. Em 1908, o rei doou sua colônia à Bélgica, depois de ter amealhado grande fortuna graças a ela. O domínio de Leopoldo II sobre o Congo foi excepcionalmente cruel e sangrento. Alguns autores consideram que a presença belga no Congo constituiu, verdadeiramente, um genocídio. Joseph Conrad inspirou-se das crueldades cometidas pelos agentes de Leopoldo II para escrever Heart of Darkness, publicado em 1902. Devemos supor, porém, que, ao contrário de Kurtz, o vilão de Joseph Conrad, o Rei dos Belgas nunca sentiu arrependimento e nunca exclamou, ao morrer “The horror! The horror!”.

Seria Leopoldo II o avô de Hergé? Estaria aí a origem das falas e das atitudes revoltantes de Tintin e mesmo de seu adorável cachorrinho Milou em sua viagem ao Congo? De qualquer forma, o Tintin que sobrevive é o posterior, aquele encantador, inteligente, que ajuda os outros, vive aventuras em todas as partes do mundo, resolve vários enigmas, nunca comete maldades, é equilibrado e sensato, apesar da eterna figura de adolescente.

Saí de La Boutique Tintin, em Bruxelas, apressado, impaciente para ver Julia. Comprara um relógio de pulso. No dia seguinte, fiz um tuíte ostentando-o no braço. É, até hoje, meu tuíte mais popular.

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O Palazzo Spada e seus gatos

O Palazzo Spada e seus gatos

Para Fátima Ishitani

Ao chegar a Roma pela primeira vez, em 1786, aos trinta e sete anos, Goethe escreveu: “Todos os sonhos da minha juventude ganharam vida”. Visitando sua casa natal em Frankfurt, em 2013, constatei que o interior havia sido decorado pelo pai do escritor com gravuras representando Roma. Após um ano e meio viajando pela Itália, Goethe precisou partir, em abril de 1788. Triste, pensou em Ovídio, “o poeta que também foi obrigado a se exilar e a abandonar Roma, em uma noite enluarada”:

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Em abril de 1925, o futuro Senador e Chanceler do Brasil Afonso Arinos de Melo Franco visitou Roma pela primeira vez, aos dezenove anos de idade, sem saber que um dia seu nome estaria ligado ao de um período destacado da diplomacia brasileira, o da Política Externa Independente. Em 1982, publicaria um belo volume, Amor a Roma — belo palíndromoque é ao mesmo tempo livro de recordações, história de Roma, relato de viagem e ensaio literário, pois ali discorre sobre escritores que, como ele, se deixaram fascinar pela cidade. Meu exemplar de Amor a Roma foi presente que ganhei de um amigo, aos vinte e quatro anos:

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Quando ganhei o livro, eu já conhecia bem Roma, pois lá estivera pela primeira vez quatro anos antes, e havia regressado em duas ou três outras oportunidades. Desde então, não me canso de voltar. A cada vez, é a mesma surpresa de que possa no mundo existir um lugar assim. A cada vez, é a mesma estupefação diante daquele esplendor. Afonso Arinos, ao descrever o que seria o amor a Roma — considerado por ele “fecundo encantamento” — ensina que “o amoroso de Roma não se transfere para dentro da Cidade, antes transfere a Cidade para dentro de si”.

Como Afonso Arinos, cheguei a Roma pela primeira vez trazendo “no bolso um livro de Stendhal”. Ele não nos diz qual. Terá sido Promenades dans Rome, clara inspiração para Amor a Roma? No meu caso, foi Chroniques italiennes, e sobre isso já escrevi em Papai Noel e a amizade.

Foi em Roma, no Campo dei Fiori, que, pela primeira vez, em 2013, descobri as virtudes do suco de romã feito na hora. Pedro Nava criou para Afonso Arinos um “Palíndromo do amigo”:

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Afonso Arinos detém-se sobre a figura do poeta Joachim Du Bellay (1522-1560), que viveu em Roma de 1553 a 1557, mas não cita o verso de Du Bellay que mais me marcou, desde que primeiro o li em uma coletânea de poesia francesa que recebi de meus pais, na infância:

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O poema, iniciado com o célebre verso “Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage”, permite a Du Bellay declarar a saudade de sua terra natal, Liré, na província de Anjou, e dizer que gosta mais de lá do que do Monte Palatino: “Plus mon petit Liré que le mont Palatin”:

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Já criança, sem nunca ter ido a Roma — mas sim ao Anjou, embora não a Liré — eu ficava intrigado: como era possível uma aldeia de nada no interior da França (2.494 habitantes em 2010) carregar mais peso em um coração do que o Monte Palatino, onde Roma começou e onde moraram Augusto e muitos Imperadores, que lá construíram seus palácios? Isso, porém, foi só até eu começar a pensar nos morros na fazenda de meu avô, na Zona da Mata em Minas Gerais.

Em julho, minha filha e eu passamos um fim de semana em Roma. No domingo de manhã, fomos passear a pé, com uma amiga, pelo Campo dei Fiori e seu mercado. Tenho um fraco por feiras ao ar livre. Costumam ser lugares onde se sente o pulso de uma cidade, ouvem-se conversas de todo tipo à nossa volta, e as frutas e os legumes parecem deliciosos. Mercados trazem-me ecos de contos de As Mil e Uma Noites, uma de minhas leituras prediletas na adolescência. Frequentemente, perambulando por quiosques de frutas, mel, nozes, ervas e condimentos, penso nas aventuras do Califa Haroun-al-Rachid em Bagdá.

Tenho no meu celular fotos tiradas no Campo dei Fiori em diferentes viagens. As minhas prediletas são estas duas, de outubro de 2013:

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Quem será esse casal elegante, parado em pleno mercado? Nunca saberei, e fica a curiosidade. Penso frequentemente nessa foto, no momento em que a tirei, e nas vidas que ela revela.

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Quando publiquei no Facebook a foto acima, uma amiga que então morava em Roma, criou-se em Portugal e é uma purista do idioma me escreveu: “comprei orégano a esse homem ontem!”.

Na foto abaixo, de julho de 2017, conto ao menos dez variedades de tomate no diminuto espaço:

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Apesar do nome poético e da beleza arquitetônica, o Campo dei Fiori é também o local onde, no passado, aconteceram execuções públicas. Em 1600, o dominicano Giordano Bruno foi aqui queimado vivo pela Inquisição por, entre outras coisas, acreditar na existência de diversos sistemas solares. No centro, mesmo local onde ocorreu o suplício, há hoje um monumento em sua homenagem:

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O mercado se desenrola ao pé e ao redor da estátua. Como tantos lugares em Roma, a praça soma o belo ao prosaico:

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O nome do cinema é uma referência ao Palazzo Farnese, ali perto, sede da Embaixada da França.

No mês passado, ao chegarmos à praça, Julia, nossa amiga e eu tomamos um suco de romã. Pouco depois, tendo chegado ao último quiosque, ouvimos o vendedor, nascido em Bangladesh, nos dizer: “I can change your life”. Sorrimos e seguimos adiante, pelas ruas da vizinhança. Aquilo, porém, ficou me martelando. Meia-hora depois, pedi que voltássemos ao estande:

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Perguntei como ele poderia mudar nossas vidas. A resposta nos frustrou: “Fazendo vocês beberem um suco destas laranjas muito especiais. Laranjas darão às suas vidas mais energia, mais saúde”. Aceitamos. Tomamos cada um o seu copo de suco. A laranja era de fato excepcional, mas fiquei decepcionado. Isso era tudo bem banal. Esperava mais; talvez, a revelação do mistério da vida. O vendedor havia feito propaganda enganosa.

Tomado o suco de laranja, perguntei à nossa amiga se conhecia o Palazzo Spada, ali perto. Julia, eu sabia, nunca estivera lá. Diante da resposta negativa, sugeri que o visitássemos imediatamente.

O palácio, construído nos séculos XVI e XVII, contém uma coleção de arte formada por membros eclesiásticos da família Spada, particularmente o Cardeal Bernardino Spada (1594-1661). Menor e menos importante do que, por exemplo, a da Galleria Borghese ou a do Palazzo Doria Pamphilj, a coleção, conhecida como Galleria Spada, é porém atraente e compacta. A fachada externa do palácio e as fachadas no pátio interno, do século XVI, apresentam-se assim:

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O palácio não é todo visitável, pois é um prédio governamental, sede do Conselho de Estado. Por essa razão, a não ser excepcionalmente, não pode ser vista a estátua de Pompeu que ele abriga, descoberta no século XVI e que, por muito tempo — mas não mais — foi considerada aquela mesma a cujos pés caiu César, ao ser assassinado no Senado. Plutarco, em sua biografia de César, nos diz que a estátua ficou “toda ensanguentada; por isso, ela parecia presidir à vingança e à punição do inimigo de Pompeu, caído aos seus pés”. Não conheço a escultura, mas posso ver sua reprodução todo dia, se quiser, pois ela está na capa deste livro:

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A Galleria Spada compõe-se de apenas quatro salas, de tamanho mediano. Os quadros são expostos ao estilo do século XVII, cobrindo ao máximo possível as paredes. Nesta foto, o retrato cardinalício, na parede da esquerda, representa Bernardino Spada, pintado por Guido Reni (1575-1642):

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Guido Reni é um pintor cujas obras sempre noto, pois era um artista de predileção de Stendhal, que frequentemente fala nele, afrancesando seu nome para “le Guide”. A cada quadro de Reni que vejo, sinto-me mais próximo de um de meus escritores prediletos.

A visita pela Galleria Spada continua:

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A última sala contém o quadro que mais me intrigou nesta visita recente, o maior de todos, visto abaixo na parede da esquerda:

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Vejamos a obra mais de perto. Não foi fácil fotografá-la, pois por mais que eu me movesse pela sala — retangular e relativamente estreita — sempre havia luz incidindo sobre alguma parte da tela:

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Trata-se de A Morte de Dido, pelo Guercino (1591-1666), outro pintor de predileção de Stendhal, que o chama de “le Guerchin”. A obra, teatral, representa o momento em que Dido, rainha e fundadora de Cartago, se suicida ao ser abandonada pelo amante, Eneas, que parte nos barcos vistos ao fundo da tela. A espada usada por Dido para se matar fora um presente de Eneas. O homem à direita na tela nos convida a assistir à cena, o que parece nos inserir em uma peça. Essa percepção é acentuada pela posição do corpo de Dido — que ainda está viva — pouco natural mas fortemente dramática. À esquerda, a irmã da rainha demonstra seu choque, com o gesto das mãos abertas. Barroco pelas roupas e as poses das personagens, o quadro é impressionante.

Era porém hora de sair para o jardim interno do palácio, onde já me esperavam Julia e nossa amiga, e onde queríamos ver a famosa perspectiva criada pelo arquiteto Francesco Borromini em 1653:

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Graças a um efeito de ilusão de ótica, a galeria de colunas parece ter 35 metros, mas na realidade há pouco menos de nove. A estátua de soldado ao fundo parece ser em tamanho natural, mas sua altura verdadeira é de apenas 60 centímetros.

A perspectiva de Borromini é um dos tesouros romanos mostrados em A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino, ganhador de numerosos prêmios, inclusive, em 2014, o Oscar de melhor filme estrangeiro. A Grande Beleza é, talvez, a mais bela homenagem que um filme já tenha prestado a qualquer cidade. O personagem principal, Jep Gambardella — em uma convincente atuação de Toni Servillo — nos revela, andando pela cidade, a vida cínica e ociosa que passa junto a membros decadentes da alta sociedade romana, em claros ecos de La Dolce Vita de Fellini. Na loja da Galleria Spada, ao sair, comprei um livro fascinante, do historiador da arte Costantino D’Orazio, que nos explica muito sobre os cenários de A Grande Beleza e o objetivo de Sorrentino ao realizar o filme:

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Segundo D’Orazio, “Os romanos já não sabem apreciar a beleza que os circunda”. O fio condutor do filme de Sorrentino seria o seguinte: “La grande bellezza di Roma, le sue architetture e opere d’arte vengono continuamente deturpate dalla volgarità degli uomini che le abitano”.

Em um filme repleto de cenas memoráveis, uma das melhores dura cinco minutos e mostra Jep e sua nova amiga, Ramona, em um passeio noturno por palácios, museus e jardins. Levaríamos dias, enfrentando multidões, para percorrer o trajeto daqueles cinco minuto de cena. Jep e Ramona estão acompanhados de Stefano, claudicante e de bengala, que carrega consigo uma pasta onde estão as chaves — enormes — dos lugares que contêm vários dos tesouros artísticos da cidade. Ramona pergunta a Jep: “Ele é o porteiro?”. A resposta: “Não, é o amigo das princesas”. A personagem de Ramona é a mais comovente do filme. Quando Jep a conhece, sabemos apenas que ganha a vida fazendo strip-tease na casa noturna do pai, que assiste ao seu show e explica: “Já disse a ela que, aos 42 anos, está velha para isso, mas ela diz que precisa do dinheiro”. Longe de ser mais uma personagem decadente do filme, Ramona é, na verdade, a mais inocente e atraente, e logo descobriremos a razão triste por que precisa do dinheiro.

O poético passeio noturno de Jep, Ramona e Stefano inclui uma visita à perspectiva de Borromini no Palazzo Spada. Ao contrário de nós, Ramona pode caminhar pela galeria de colunas e, chegando ao fim, exclama: “parecia longa, mas é curta!”, com ar de total surpresa e felicidade. Comenta D’Orazio: “Con il sorriso di una bambina… la sua sorpresa è quella che i romani non vivono più di fronte alla grande bellezza di Roma”. D’Orazio classifica a perspectiva como apta a provocar “stupore” e “meraviglia”.

O jardim de laranjeiras de onde se vê a obra de Borromini é silencioso e tranquilo:

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Admirei as laranjas, ouvi o canto de pássaros, senti o sol, reexaminei a galeria de colunas. A paz era profunda. Além de nós três, mais ninguém. Ou assim pensávamos. Logo, sentimos outra presença. Uma gata, grávida, circulava pelo jardim:

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Deitou-se sem cerimônia:

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Logo apareceu um segundo gato, e rapidamente elaboramos a teoria, romântica ou lúcida, de que seria o feliz papai dos filhotes prestes a nascer:

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Tivemos em seguida a certeza de que eram os animais de estimação da casa:

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Fiquei pensando sobre o fato de que, em um canto silencioso de Roma, o Palazzo Spada guarde a estátua antiga de Pompeu e os quadros de Guido Reni e Il Guercino ilustrando figuras da história ou cenas dramáticas da mitologia, ostente as suas nobres fachadas, mas abrigue também dois gatos e sua casinha. Talvez seja esse o mistério de Roma. A cidade é o espetáculo grandioso de várias épocas superpostas, formando ao mesmo tempo um conjunto coeso. Para sempre, porém, seu nome fará lembrar o do Império de que já foi o centro e que ruiu. Por isso, as noções de grandeza e decadência estão, em Roma, interligadas. E a vida continua, agitada mas também serena, espetacular mas também simples, alegre e também triste, e o mesmo espaço nos mostra, magnificamente, a morte de Dido — abandonada por Eneas, preocupado em partir para ir fundar Roma — e uma gata grávida e seu pequeno abrigo. Roma, assim, é todos nós.

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Ary

 

Waterloo

Waterloo

Há poucos dias, estive com minha filha no campo de batalha de Waterloo. Lá, em 18 de junho de 1815, Napoleão Bonaparte foi derrotado pelo Duque de Wellington e pelo Marechal prussiano Príncipe Blücher. Esse é um lugar especial para mim. Na postagem Papai Noel e a amizade, mencionei meu interesse constante, desde a infância, por Napoleão, despertado pelo fato de que Rhode-Saint-Genèse — onde morei criança — é uma localidade perto de Waterloo; de que visitei inúmeras vezes, ao longo da vida, o campo de batalha, seu Panorama, o museu de cera e a livraria cobrindo todo tipo de tema ligado à era napoleônica; e de que subi tantas vezes os 226 degraus do morro do famoso Leão.

Nos três dias que passei em Bruxelas, neste final de julho, o verão estava quente e ensolarado. Antes da ida a Waterloo, minha filha, seu namorado e eu nos encontramos em um café por eles frequentado, o Cup 28, em Ixelles, bairro de Bruxelas onde ela mora e onde ficava meu hotel. Sentamo-nos no pátio, embaixo de uma parreira. Sentar-se do lado de fora em restaurantes é, em Bruxelas, façanha relativamente rara:

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Reparei, ao receber meu café da manhã, que o suco de laranja vinha acompanhado de  canudo de metal, primeiro e único que vi até agora:

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Ao pagar, descobri que o funcionário que tinha nos servido, e que talvez fosse o gerente do café, era brasileiro, de Goiás, e que mora na Bélgica com os pais desde a infância.

A caminho de Waterloo, Julia e eu passamos por Rhode-Saint-Genèse, para eu rever a casa onde morei criança. O passeio quase termina aí, pois o táxi em que íamos por pouco não bateu, em uma rotatória, na entrada de Rhode, em outro carro, dirigido por uma mulher jovem, com o filho pequeno sentado no banco de trás.

De Ixelles a Rhode, o caminho é idílico. Passamos primeiro pelo Bois de La Cambre e, depois, pela Forêt de Soignes. De dentro do táxi, tirei a foto abaixo:

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Lembrei de quantas vezes, criança, eu andara a cavalo nessa floresta.

A rua onde morei em Rhode-Saint-Genèse continua intacta:

20180803_151655.jpgE também intacta continua a nossa casa, embora minha mãe e minha irmã, ao verem esta foto, não tenham aprovado a cerca de hera, única novidade:

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Fiquei pensando em quantas vezes meus irmãos e eu, na infância, nos dias de neve,  deslizáramos de trenó a rampa que leva às duas portas da garagem.

Julia foi impecável e não manifestou nenhuma impaciência com essas demonstrações de saudosismo relativo a uma época em que eu era ainda muito mais jovem do que ela é hoje. Aceitou bem, inclusive, a minha vontade de rever, ali perto, a minha escola:

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Ao contrário de minha filha, meus quatro leitores, a esta altura, devem pensar que abuso de sua paciência. Deixemos Rhode-Saint-Genèse, então, e prossigamos até Waterloo. Lá, algumas surpresas me esperavam.

Há quase sete anos eu não ia ao campo de batalha. O antigo museu de cera, onde as figuras, que acompanharam toda minha vida, começavam mais recentemente a perder bigodes e a escurecer, foi eliminado. Esta foto, em que apareço de casaco de couro, ladeado à esquerda pelo meu irmão e à direita pela minha irmã e, atrás, por Ângela, a amiga — querida até hoje — que nos meus sete anos me explicou que Papai Noel não existia, já não poderá ser replicada por futuras gerações de crianças. O boneco de grenadier atrás de Ângela terá sido preservado?

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Em 2015, como parte das celebrações pelos 200 anos da batalha, as atrações locais foram modificadas. Não só o museu de cera foi eliminado, como também — e isto é uma pena — o passeio de trenzinho pelo campo de batalha, que nos permitia andar pelos caminhos arborizados e bastante afundados em relação aos campos que atravessam, os famosos “chemins creux” frequentes na província do Brabant e que tiveram papel importante na batalha, ao menos na visão dos romancistas. Em La Chartreuse de Parme, Fabrice del Dongo entra, sai, caminha pelos “chemins creux”, sem chegar a compreender se estava participando ou não da batalha.

No lugar do envelhecido museu de cera, há agora um Mémorial 1815, subterrâneo mas arejado, cuja entrada apresenta-se assim:

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À direita dos degraus, estão listadas as subdivisões dos exércitos que participaram da batalha. À esquerda, o acesso ao Mémorial:

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Entra-se na recepção. À direita, está a entrada do museu e, à esquerda, a loja onde podem ser comprados bustos de Napoleão, chocolate em forma de grande medalha — envolto em alumínio dourado — chaveiros, pratos, objetos celebrando o Imperador dos Franceses ou a batalha:

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A loja inclui a livraria, reduzida com relação à do passado:

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São duas ou três estantes assim. Isso pode parecer suficiente, mas senti saudades da fartura da livraria anterior. Como tenho a fantasia de que as livrarias vão falir, se eu não comprar ao menos um livro ao visitá-las, escolhi esta biografia:

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Seria difícil supor que precisaríamos em casa de mais um volume sobre Napoleão, pois nossas estantes estão já fornidas de estudos, ensaios sobre ele e seu governo, e de biografias sobre seus inimigos, parentes e Ministros. Certamente, não conseguirei viver o suficiente para ler todos os volumes que venho reunindo, desde a infância, sobre essa figura, que será sempre controvertida.

O livro de Paul Johnson, publicado em 2002, começa da forma mais promissora:

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Passo para a segunda página, porém, e caio nos lugares-comuns habituais: o biografado era um “oportunista”, sedento por guerras infindáveis; deveria ter estudado o exemplo de George Washington, que trocou “o reino da força” pelo “reino da lei”; a Revolução Francesa era totalmente desnecessária em seu “terrível percurso”, pois bastava aos franceses terem feito as reformas necessárias de forma pacífica, “como a Grã-Bretanha e os países escandinavos”. Nas duas páginas seguintes da Introdução, o Congresso de Viena é elogiado como promotor da paz;  e lemos que “o Estado totalitário do século XX era filho de Napoleão”.

A última frase do livro é surpreendente: “todas as formas de grandeza, militar e administrativa, que construam uma nação ou um império,  nada são — são, na verdade, extremamente perigosas — sem um coração humilde e contrito”. Esse estilo “romance cor-de-rosa” é uma curiosa maneira de terminar uma biografia histórica, ainda mais tratando-se de um personagem tão pouco sentimental como Bonaparte.

Voltemos ao Mémorial 1815. Trata-se de um museu interativo. Vemos explicações de como a prensa móvel permitiu a divulgação dos ideais filosóficos do Século XVIII e dos panfletos da época da Revolução:

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Vemos a guilhotina:

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Vemos como eram os instrumentos dos cirurgiões dos exércitos da época, e pensamentos aterrorizados veem povoar nossas mentes:

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Há reproduções de quadros famosos retratando as grandes batalhas das tropas revolucionárias e napoleônicas, com a característica de que são animadas. Aqui, a Batalha de Fleurus, de 1794, vencida pelo General Jourdan:

Há uma grande galeria, onde vemos manequins ilustrando uniformes da época:

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Em uma vitrine paralela, deparo-me, de repente, com uma das cenas mais famosas do antigo museu de cera, que devo ter visto pela primeira vez aos 7 anos de idade, que revi em inúmeras ocasiões posteriormente, e que sempre me fascinou. A cena representa marechais e generais de Napoleão, poucas horas antes da Batalha de Waterloo, examinando mapas:

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As duas figuras centrais representam o Marechal Nicolas-Jean Soult, Duque da Dalmácia, e o General Henri Gatien Bertrand, “Grande Marechal do Palácio” de Napoleão e Conde imperial. Este último acompanharia Napoleão no exílio em Santa Helena. Essas figuras merecem ser vistas em detalhe, pela expressividade de seus rostos:

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Uma placa informa que há pequenos erros nos uniformes mas que, como esta cena “encantou gerações de crianças” que visitaram ao longo das décadas o museu de cera, decidiu-se poupá-la da extinção. Uma grande sorte para mim. E também para Julia, que conhece o campo de batalha desde os 13 anos, esteve lá várias vezes comigo e, conheceu, assim, o antigo museu e o trenzinho, cujo fim ela pareceu lastimar tanto quanto eu.

A cena termina, à direita, com a figura sorumbática de Napoleão, acompanhado de seu “mameluco”, o qual, em 1815, era na verdade um francês, Louis Étienne Saint-Denis, que Napoleão exoticamente chamava de “Ali”:

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No novo prédio do Mémorial, a última atração no percurso da visita é um curta-metragem de pouco mais de 10 minutos, dirigido por Gérard Corbiau em 2015 — portanto, como parte das celebrações do bicentenário — e projetado em 4D, intitulado Waterloo: au coeur de la bataille. Assisti-lo é uma experiência fabulosa. Tirei fotos durante a projeção; sem os óculos especiais, a imagem naturalmente perde nitidez, mas não resisto a publicar algumas, inclusive a que mostra o Imperador examinando a batalha com sua luneta:

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Terminada a visita ao novo museu, caminhamos até a Rotunda onde, há mais de 100 anos, encontra-se uma pintura panorâmica representando, em 360º graus, a batalha — o famoso Panorama de Louis Dumoulin:

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Quando criança, eu ficava impressionado com as figuras representando cavalos mortos, jogadas no espaço entre a pintura e os visitantes:

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Este vídeo que fiz dá uma ideia mais completa do Panorama:

Faltava agora o mais difícil, que é escalar os 226 degraus do célebre monte do Leão, uma das representações mais conhecidas da Bélgica:

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Quando criança, e na verdade até recentemente, isto não representava desafio maior. Desta vez, quase desisti de subir. Minha filha porém galopou escadas acima, alegremente. Pensei que não podia fazer feio diante dela, apesar da vertigem e do despreparo físico. Em um momento, parei e notei que ainda faltava um bocado de degraus para subir:

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Lá de cima, senti que meu esforço fora recompensado. Nunca concordei com o famoso verso de Victor Hugo, segundo o qual Waterloo é uma “planície triste” (“morne plaine“), mas possivelmente o poema quer dizer que a planície foi triste para Napoleão, pois lá terminou a aventura que fora sua vida até então. É verdade, também, que já visitei, no passado, o campo de batalha em dias menos ensolarados, e mesmo chuvosos, quando talvez o cenário pareça menos atraente. Olhando ao redor, aos pés do Leão, naquele dia de um verão excepcionalmente quente, com um céu azul, senti o impacto da beleza do lugar:

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Pensei que aqueles campos tão serenos presenciaram, há 200 anos, uma das batalhas mais sangrentas da história da Europa. Houve entre 10.000 e 11.000 mortos e entre 30.000 e 40.000 feridos naquele 18 de junho; milhares de feridos morreriam nos dias subsequentes. Pensei que por ali cavalgaram, temeram, gritaram, respiraram Wellington e Napoleão.

Os lugares não guardam lembrança do tempo em que ocupamos fisicamente aquele espaço. De manhã, eu revira a casa em Rhode, sem uma presença humana à vista frente à porta de entrada onde meus irmãos e eu — e nosso filhote de pastor alemão — nos sentamos alguma vez. O campo de batalha não tem registro de todas as pessoas que, ao longo dos séculos, por ali passaram. Todo espaço vazio, tranquilo, terá sido ocupado, em algum momento anterior, por corpos humanos, acompanhados de pensamentos, aflições, esperanças. Do drama humano vivido por dezenas de milhares de pessoas em 18 de junho de 1815, não sobra nada.

Era preciso regressar ao solo, tínhamos de almoçar. Para quem sofre de vertigem, como eu, a perspectiva da descida era pouco reconfortante:

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Pensei que talvez precisasse ficar ali em cima para sempre, mas naturalmente essa opção não era realista. Julia, a essa altura, já me esperava em baixo. Desci.

O almoço, excelente, foi, como em tantas vezes anteriores, no L´Estaminet de Joséphine:

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O restaurante fica logo no início da rua sem saída que leva ao campo de batalha. Sentamo-nos no terraço. Como entrada, pedi o que quase sempre peço na Bélgica, croquete de camarão cinza com salsa frita:

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O cinzeiro é testemunha de que ainda se fuma muito na Europa, coisa com a qual nunca canso de me chocar. Fumar em terraço é permitido nos bares, cafés e restaurantes. A bebida na taça é isso mesmo que você está pensando, querido leitor. Comprovar que eu era ainda capaz de subir — e de descer — o monte do Leão me enchera de orgulho; eu precisava comemorar.

Enquanto almoçávamos, íamos conversando sobre Napoleão e seu destino. Ele e seu principal vencedor em Waterloo, o Duque de Wellington, nunca se encontraram. Nunca aliás haviam antes se enfrentado em um campo de batalha. Para o Imperador, Waterloo significou o fim definitivo do poder e o exílio em Santa Helena, onde morreria em 1821, aos 51 anos. Para Wellington, a vitória foi uma consagração. Até a sua morte em 1852, aos 83 anos, viveu em constante glória, tendo chegado mesmo a ser Primeiro-Ministro do Reino Unido e tendo recebido, do Rei dos Países-Baixos, o título de Príncipe de Waterloo, que seus descendentes seguem usando. O atual Duque de Wellington recebe de renda, pelas terras ligadas ao principado, a quantia bastante satisfatória de 160 mil dólares por ano. É o caso de lembrar Machado de Assis: “ao vencedor, as batatas”.

Ou será que não? Um dos maiores historiadores da era napoleônica, Jean Tulard, lembra que, em 1815, quando Napoleão voltara do primeiro exílio na ilha de Elba, para retomar o poder durante os Cem-Dias, sua presença no cenário político simplesmente não era aceitável para as demais potências europeias e seus soberanos, entre os quais se incluía seu sogro, o Imperador da Áustria Francisco I. Em Napoléon, les grands moments d´un destin, publicado em 2006, Tulard examina cinquenta decisões de Bonaparte ou eventos em sua vida que, gradualmente, determinaram o curso de sua existência:

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A derrota em Waterloo é objeto do capítulo 47. Conclui Tulard, após analisar a batalha em detalhe: “Que Napoleão tivesse ou não ganhado em Waterloo, seu destino estava selado. As grandes potências [Áustria, Prússia, Reino Unido e Rússia] pareciam determinadas a não negociar uma paz isoladamente e dispunham de superioridade numérica acachapante […] A sorte não poderia estar sempre ao seu lado”.

Waterloo e o exílio em Santa Helena consagraram o mito napoleônico. Em seu rochedo no Atlântico Sul, o Imperador cuidou da própria lenda. A palavra final talvez caiba a Chateaubriand, que professava ser seu inimigo, mas claramente o admirava. Em Mémoires d´Outre-Tombe, o escritor-diplomata defensor dos Bourbons opina, julgando Napoleão, que “sua desgraça favoreceu a sua glória”. Ao mesmo tempo, admite: “Águia, deram a ele um rochedo, da ponta do qual permaneceu ao sol até a morte, e do qual era visto da Terra inteira”.

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Um americano em Paris: Picasso, Dora Maar e Giacometti retratam James Lord

Um americano em Paris: Picasso, Dora Maar e Giacometti retratam James Lord

Um dia, meu pai me apresentou a Jorge Amado. Eu tinha 21 anos, estudava em Londres e estava de férias no Rio. Era um evento literário em Ipanema. Meu pai me levou até o escritor e foi conversar com outros amigos. Afável, simpático, bonachão, Jorge Amado sorriu e me disse: “Seu pai é um grande homem, você tem muita sorte”. Intimidado – o romancista estava no auge da fama – agradeci e não soube mais o que dizer. Nunca mais o vi.

No mesmo evento, estava Carlos Drummond de Andrade, a quem meu pai também me apresentou. A conversa com o poeta foi igualmente sem consequência.

Para James Lord, timidez não era um problema. Desembarcado em Paris em 1944 como soldado, em sua primeira visita à cidade, com 22 anos apenas, o americano tocou a campainha, na rue des Grands-Augustins, do ateliê de Picasso – que tinha 63 anos e era considerado o maior artista vivo. Apresentou-se, foi bem recebido, sentiu-se à vontade e tornou-se amigo do artista por dez anos. Fácil assim. Iniciava-se ali sua carreira como frequentador do meio artístico e literário parisiense, em benefício dos leitores de hoje, pois os livros de memórias de Lord são incomparáveis. Amigo de Cocteau, Balthus, Giacometti, Gertrude Stein, Peggy Guggenheim e muitos outros, Lord possuía o dom de apreender a personalidade de seus interlocutores e de captar o detalhe que tudo revela.

Um de seus livros se intitula A Gift for Admiration, e isso explica a facilidade com que se tornou íntimo de tantos artistas ou mecenas célebres. Quando admirava alguém, o escritor se aproximava e manifestava o fascínio que sentia por aquela pessoa.

O memorialista era amigo de tantos artistas, que um de seus livros, publicado  em 2003, dedica-se exclusivamente a examinar como ele foi retratado ao longo dos anos por diferentes pintores ou fotógrafos, entre eles Lucian Freud, Picasso, Balthus, Cocteau, Giacometti, Dora Maar e Cartier-Bresson.

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A capa mostra o segundo retrato de Lord desenhado por Picasso, em março de 1945. O primeiro, feito um ou dois dias depois de eles se conhecerem, em dezembro de 1944, enquanto almoçavam em um restaurante com Dora Maar, decepcionou o escritor, que simplesmente pediu a Picasso, três meses depois, para fazer outro.

James Lord, morto em Paris em 2009, está prestes a atingir patamar superior de fama. Há poucos dias, estreou no Reino Unido – e, espero, logo será exibido no Brasil – um filme dirigido por Stanley Tucci, Final Portrait,  onde os personagens principais são o escritor, interpretado por Armie Hammer, e Alberto Giacometti, interpretado por Geoffrey Rush. O filme é inspirado em um curto livro de Lord, lançado em 1965:

20170902_154128 Ali, o autor descreve como transcorreram as dezoito sessões em que posou para Alberto Giacometti, em 1964, quando este pediu para pintar o seu retrato. Modelo e artista, durante as sessões, discorriam sobre arte, sobre formas de ver e de representar e sobre a crônica insatisfação de Giacometti com o seu próprio trabalho, e esses diálogos são reproduzidos no livro. Lord tirava fotos da tela todo dia, registrando sua evolução. O quadro foi vendido em um leilão da Christie´s, em Nova York, em 2015, por US$ 20,8 milhões. A estimativa era de que a venda alcançasse entre US$ 22 milhões e US$ 30 milhões.

O livro de Lord sobre o quadro reproduz esta foto sua posando no ateliê de Giacometti:

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E este é o resultado final do retrato, como reproduzido no livro monumental de Yves Bonnefoy sobre o artista:

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Aqui, temos um dos maiores artistas do século XX retratando um amigo, que viria a ser aquele que mais escreveria sobre sua obra; o processo de pintar esse quadro específico e as conversas decorrentes das sessões de pose geram um livro que, por sua vez, é transformado em um longa-metragem com atores e diretor hollywoodianos:

James Lord idolatrava Giacometti – vinte e um anos mais velho do que ele – e publicou, em 1985, dezenove anos após a sua morte, aquela que é ainda hoje considerada a melhor biografia do artista. O livro levou quinze anos para ser completado:

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Lord também merece ser lembrado por ter salvado da destruição o ateliê de Cézanne em Aix-en-Provence, que sempre visito quando lá estou:

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Seu texto mais célebre talvez seja Picasso and Dora:

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Trata-se de três histórias entrelaçadas: o caso de amor entre Picasso e Dora Maar – sua musa, modelo e namorada por quase dez anos – o qual estava terminando quando Lord os conheceu; a amizade vivida posteriormente por Maar e o próprio Lord; e o que devemos considerar como um curioso triângulo amoroso entre Lord, Maar e Picasso.

Dora Maar foi uma fotógrafa respeitada na juventude, amiga dos surrealistas, e posteriormente pintora.  O único registro que temos das sucessivas etapas da pintura de Guernica por Picasso são as fotos que ela foi tirando em seu ateliê. Isso pode ter inspirado Lord, quase trinta anos mais tarde, a fotografar todo dia a evolução de seu retrato por Giacometti.

Em 1941, aos 34 anos, Dora Maar foi fotografada por Rogi André:

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Picasso às vezes a retratava de forma quase romântica, como neste desenho de 1936, portanto no início da relação dos dois:

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Outras vezes, ela era retratada de forma francamente erótica, como neste desenho, também de 1936, Dora e o Minotauro:

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Como se sabe, Picasso se identificava com a figura do minotauro, e o desenho adquire assim contornos de sadismo e opressão sobre a figura da amante do artista.

Em geral, Picasso usava Dora – conhecida pela inteligência e a intensidade – como modelo de figuras torturadas, aflitas, particularmente na série A Mulher que Chora. O primeiro óleo da série é de junho de 1937:

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A fotografia, os dois desenhos e o óleo reproduzidos acima pertenceram a Dora Maar até sua morte.

O óleo mais famoso da série A Mulher que Chora é o último, pintado em outubro de 1937; ele pode ser visto em Londres, na Tate Modern:

É por ser representada como uma figura desesperada em vários quadros de Picasso que Dora Maar ganhou imortalidade.

A amizade entre James Lord e Dora Maar durou muitos anos, mas seu auge ocorreu na primavera e no verão de 1954, quando os dois passaram semanas juntos na casa que Picasso cedera à ex-amante, na Provença, na aldeia de Ménerbes.  Nesta foto, tirada por Lord, vemos Dora no umbral da casa:

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Em 2008, em um de nossos passeios pela Provença, fomos conhecer Ménerbes, para ver essa casa. Infelizmente, não consigo encontrar as fotos daquelas férias. A casa teria muito a contar, pois foi palco da relação entre Picasso e Dora, em 1945, quando essa estava terminando; testemunhou a amizade intensa entre Dora e Lord, em 1954; e, em uma temporada, presenciou os amores de Picasso e Françoise Gilot. Tendo substituído Dora por Françoise, Picasso achou perfeitamente natural, no verão de 1946, pedir à amante rejeitada que lhe emprestasse a casa para lá passar um tempo com sua sucessora. Anos mais tarde, Françoise Gilot diria a James Lord que ficara escandalizada com a atitude de Picasso e considerara Dora “fraca e masoquista” por ter aceitado emprestar a casa.

James Lord, que era gay, sempre afirmou que sua relação com Maar – quinze anos mais velha – nunca foi consumada fisicamente. Ao leitor de Picasso and Dora, fica claro, porém, que, naquelas semanas de isolamento em Ménerbes, a amizade se transformou em uma forma de amor. É uma história triste, de desencontro emocional, em que ficamos torcendo – embora cientes da sexualidade de Lord – para os dois assumirem que se amam, dormirem juntos, se casarem e viverem felizes para sempre. Em vez disso, paira sobre essa relação a sombra forte e destruidora de Picasso, que sentia ciúmes da proximidade dos dois e os humilhou publicamente quando, em 1954, encontrou-se com eles pela última vez, em um jantar no castelo provençal de Castille, que pertencia a Douglas Cooper, crítico de arte e colecionador milionário. A cena é contada por James Lord e também, em The Sorcerer´s Apprentice, por John Richardson, companheiro de Cooper, e a quem citei ao falar de Picasso em De carro pela Provença:

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Dora Maar e James Lord não sabiam que Picasso estaria no jantar. Picasso, por outro lado,  se fizera convidar sabendo que eles lá estariam e, com a cumplicidade malsã de Douglas Cooper, foi ao jantar com a  intenção – concretizada – de dizer-lhes coisas ofensivas, diante dos demais convidados. Picasso e o meio artístico parisiense como um todo não sabiam como interpretar a prolongada intimidade entre os dois. Indagavam-se se eram amantes e se iriam se casar.

Maar e Lord nunca mais o viram, mas o artista continuou presente em suas conversas. Dora, que fora internada em clínicas psiquiátricas e fizera uma análise com Lacan após a separação com Picasso, nunca superou totalmente ter sido abandonada por ele em favor de Françoise Gilot. A amante rejeitada e a espécie de filho postiço de Picasso em que Lord se transformara passavam o tempo, em Ménerbes, conversando sobre o artista. É o caso de se perguntar, lendo Picasso and Dora, se a lembrança de Picasso era o elo que os unia ou se, ao contrário, impedia a consumação física de sua amizade de cunho amoroso. O memorialista, sutilmente, insinua ter havido alguma atração subliminar entre o artista e ele. Em 1966, Françoise Gilot, já então separada de Picasso há muitos anos, disse a Lord que o artista o considerara um filho e que, embora tivesse partido dele a separação com Dora, tomara a relação de Lord com ela como uma dupla traição.

Esta foto de Picasso e James Lord, tirada por Dora Maar em 1945, mostra uma época em que a relação entre os três era menos complexa:

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O epílogo da amizade entre Dora Maar e James Lord foi melancólico. Dora gradualmente afastou-se de Lord, embora eles nunca tenham rompido totalmente. Já em novembro de 1954, portanto poucos meses depois do idílio em Ménerbes, Lord escreveu-lhe longa carta – que ocupa sete páginas no livro – que pode ser lida como tentativa de salvar a amizade, e também como uma declaração de amor.

Dora Maar não respondeu. Depois de 1958, eles só se reviram quatro vezes: em 1970, em 1973 e duas vezes em 1980. Dora isolou-se e refugiou-se na religião. Escreve Lord: “I was sorry not to see her. There were other people, however, other occupations, other aspirations. I traveled, I wrote and had love affairs”. Ao visitá-la em 1970, após doze anos sem se verem, Lord pensou no primeiro dia em Ménerbes, lembrou ter havido ali, na hora de eles se desejarem boa noite: “a palpable, prolonged, specific pause” e que se ele tivesse sido “different, forceful, effective” – ou seja, se tivesse passado aquela noite com ela – a vida dos dois teria sido diferente. Admite ter pensado em pedi-la em casamento várias vezes.

Pergunto-me se Maar não terá julgado que sua sina era para sempre ser vista por todos, inclusive na relação com Lord, como a ex-amante e musa de Picasso. Talvez tenha se conformado com isso e preferido ficar sozinha. Ou talvez tenha se cansado de esperar uma proposta concreta de Lord. Uma vez, quando mal se conheciam ainda, os dois almoçaram com Douglas Cooper e John Richardson no campo, na Provença. Cooper declarou: “Não é grave que nós aqui falemos tanto em Picasso. Ao fazer isso, estamos falando de nós mesmos, pois no futuro seremos lembrados apenas por causa de nossa conexão com ele”.

Dora Maar morreu em 1997, esquecida e solitária. Há tentativas recentes de recuperar sua individualidade como artista. Nos últimos anos, algumas biografias foram lançadas; o Centre Pompidou e o Getty Center planejam montar, em 2019, exposição sobre sua obra como fotógrafa.

Em janeiro, em Paris, visitei no Musée Picasso a exposição Picasso-Giacometti, que explicava a influência artística que eles exerceram um sobre o outro. A capa do catálogo é a junção de fotos dos dois artistas tiradas por Dora Maar individualmente, em torno de 1936:

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Fotografei, na exposição, uma sala em que três retratos de Dora pintados por Picasso dialogavam com várias esculturas de Giacometti que representam sua mulher, Annette:

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Em uma vitrine, estavam expostos juntos, em diagonal, o segundo retrato de James Lord por Picasso e um dos numerosos desenhos que dele fez Giacometti, ambos pertencentes ao Musée Picasso:

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A exposição mostrava trecho de um filme, em que Igor Stravinski conversa com Giacometti em francês, enquanto é desenhado por ele. Giacometti e Picasso haviam sido amigos próximos – embora o primeiro fosse vinte anos mais jovem – e durante anos viram-se quase todos os dias. Depois, desentenderam-se e passaram a se ignorar. Stravinski, que também havia sido amigo de Picasso, já não o via há mais de trinta anos. Giacometti declara, com mágoa: “a amizade com Picasso… você sabe como é, não é?”. Stravinski declara ser Picasso “um monstro”. Giacometti confirma e conclui: “E ele sabe que é um monstro”:

Não sabemos se Dora leu Picasso and Dora, publicado em 1993. Ao morrer, em 1997, possuía ainda dezenas e dezenas de obras de Picasso – quadros, desenhos, esculturas, cerâmicas, fotografias, gravuras, objetos e pedras pintados, cortados ou esculpidos, ao todo mais de 130 itens. Sem família, sem parentes, ela terá imaginado que sua coleção seria herdada pelo Estado francês e ficaria intacta, em um museu. Após sua morte, porém, duas primas de quem ela nunca ouvira falar, uma croata, a outra francesa,  apresentaram-se como herdeiras. Assim, aquela coleção de procedência única foi dispersada em um leilão, em Paris, em 1998.

Um amigo, na época, me mandou os três catálogos da venda:

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Havia dez óleos de Picasso na coleção de Dora Maar. Minha irmã os visitou, antes que fossem expostos ao público, no cofre-forte do banco parisiense onde esperavam o leilão.

Entre as peças, havia um desenho que Dora Maar fizera de Lord no verão de 1954, em Ménerbes, na fase mais intensa da relação dos dois. O comprador do desenho reconheceu no modelo James Lord quando jovem; por coincidência, era amigo do escritor e ofereceu-lhe de presente o retrato, que pôde assim  ser incluído em Plausible portraits of James Lord:

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Ao receber o presente, Lord ficou surpreso: já não se lembrava do desenho, feito quarenta e quatro anos antes. De todos os retratos que Dora dele fizera, esse fora o único que ela guardara para si. Ao examiná-lo, percebeu que ele só podia ser fruto de um sentimento forte, intenso: “Dora must have been astonished to see what she had done, for the model´s likeness is rendered with such a revelation of the artist´s own emotional tenderness that it is a disclosure which reaches frankly beyond affection”. Em resumo, Lord entende, em 1998, que fora amado por Dora Maar em 1954. Sobre seus próprios sentimentos declara que, em Ménerbes, muitas vezes ele se perguntara como fazer para transformar aquela amizade em algo perfeito e que, o tempo todo, a resposta estava disponível, mas que “sem perceber, despreparado, estava fadado a passar por ela sem notá-la”. Termina especulando que, se artista e modelo, em Ménerbes, tivessem dedicado tempo a examinar juntos o desenho, talvez sua amizade pudesse ter tido outra conclusão.

Para esse colecionador de imagens de si próprio, o retrato feito por Dora demonstra o poder da arte de provocar em um ser humano a auto-revelação.

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