A Fazenda Malaia

A Fazenda Malaia

“Eu tive uma fazenda na África, aos pés dos montes Ngong”. Assim Isak Dinesen inicia seu livro autobiográfico, Out of Africa. Assim também, na versão cinematográfica, ouvimos pela primeira vez Meryl Streep, impondo-nos aquilo que somos solicitados a aceitar como sotaque dinamarquês. A tão célebre frase, porém, quase foi bem diferente.

Em fevereiro de 2020, recém-chegado a Kuala Lumpur, conheci o embaixador da Dinamarca. Ele me contou que sua compatriota Isak Dinesen — ou Karen Blixen — e o marido, o barão Bror von Blixen, antes de irem plantar café no que hoje é o Quênia, e era então a África Oriental Britânica, quase tinham vindo plantar seringueiras no que hoje é a Malásia, e era então a Malaia Britânica.

Cinco meses depois, ao receber a mudança, quis verificar a informação na biografia de Isak Dinesen por Judith Thurman. De fato, a biógrafa nos conta que um tio dos noivos os convidou para administrar sua plantação de seringueiras na Malaia Britânica. O casal se entusiasmou. Judith Thurman cita uma frase da autobiografia de Bror von Blixen: “Aceitei a oferta sem um momento de hesitação”. Esse projeto, porém, não se concretizou. Outro tio voltou tão fascinado de um safári na África Oriental Britânica, tanto encorajou os noivos a irem viver lá, que eles mudaram de plano. Partiram da Europa para a África em 1913 e, no ano seguinte, casaram-se em Mombaça.

Além de demonstrar o alcance do colonialismo britânico, a história, para um amante da simetria, apresenta paralelismos irresistíveis. Karen Dinesen, apaixonada por um primo, Hans von Blixen, rejeitada por ele se casa com seu irmão gêmeo, Bror. Um parente recomenda aos noivos e primos, ele sueco, ela dinamarquesa, que vivam em um protetorado britânico na Ásia. Outro os incentiva a partir para um protetorado britânico na África.

O título de Out of Africa poderia então ter sido Out of Malaya, e a tradução para o português do livro, em vez de A Fazenda Africana poderia ter sido A Fazenda MalaiaO filme de Sydney Pollack com Meryl Streep, Robert Redford e Klaus Maria Brandauer, de 1985, precisaria também ter tido outro título, só que haveria, como no caso do livro, outro enredo, com outros cenários, outros personagens. A esse filme, porém, eu teria, quem sabe, assistido, ao contrário do que aconteceu com Out of Africa, que nunca quis ver. Tanto antipatizei com os anúncios do filme, que evitei inclusive, até hoje, ler o livro, embora eu tenha uma afeição particular pelas histórias de Isak Dinesen, sobretudo as do volume Seven Gothic Tales. É possível também que a Malásia tivesse inspirado Karen Blixen menos do que o Quênia, e que ela não tivesse escrito a respeito.

A edição original de A Fazenda Africana foi publicada em 1937. Sete anos antes, lançara-se na França um romance cuja história se passa em uma plantação de seringueiras na Malaia Britânica. Malaisie é o livro escrito por um francês, Henri Fauconnier, que chegou à Península Malaia em 1905 para ser plantador. Ao escrever seu único romance, ele já não morava na colônia britânica, e sim em uma colônia francesa, a Tunísia, assim como Karen Blixen escreveu Out of Africa quando já voltara à Dinamarca.

Se eu não tivesse vindo trabalhar em Kuala Lumpur no ano passado, é certo que jamais teria lido Malaisie e, possivelmente, nunca ouviria falar em Henri Fauconnier. Assim como foi o embaixador da Dinamarca quem abriu meus olhos para a real possibilidade de que a experiência colonial de Isak Dinesen pudesse ter sido no Sudeste Asiático, foi o embaixador da França quem me ofereceu um exemplar de Malaisie.

Hoje esquecidos, romancista e romance tiveram seu momento de fama. Pois acontece que Malaisie foi, em 1930, o ganhador daquele que é, incontestavelmente, o mais prestigioso prêmio literário francês, o Goncourt. Derrotou naquele ano, entre outros candidatos, La Voie Royale, de André Malraux. Este seria recompensado com o prêmio em 1933, com La Condition humaine. Como o de Henri Fauconnier, esses dois romances de Malraux são passados na Ásia.

Criança, roubei na biblioteca de meus pais uma história da literatura francesa de 1947. É bem possível que tenha pertencido antes a algum de meus avós. Fauconnier e seu livro não são citados, assim como não encontro referência a eles em nenhum de meus dicionários de literatura francesa. No manual de 1947, leio que “o romance exótico recebeu encorajamento, logo após a Primeira Guerra Mundial, por causa do novo interesse surgido por regiões distantes que haviam participado do grande conflito, por causa da atualidade dos problemas coloniais e também por causa do desejo por uma mudança de cenário” (“le désir d´un dépaysement”).

Teria sido uma pena eu nunca ler Malaisie, porque é um livro com um estilo único, particularmente envolvente. O leitor visualiza os cenários descritos, ouve as conversas narradas, entende a psicologia dos personagens. Na contracapa da edição que recebi de presente, há elogios de Georges Bernanos e Maurice Maeterlinck. Este último afirma: “Considero-o o melhor ganhador do Goncourt desde a fundação do prêmio”. Sorri ao ler esse exagero; em 1919, onze anos antes de Henri Fauconnier, Marcel Proust fora premiado com o Goncourt por À l´ombre des jeunes filles en fleurs.

O enredo de Malaisie é simples. Um francês jovem, Lescale, que lutara na Primeira Guerra Mundial e é o narrador, chega à Malaia Britânica para tentar fazer dinheiro. Nas trincheiras, na Picardia, ele conhecera Rolain, mais velho do que ele e plantador de seringueiras e que lhe falara da vida na colônia inglesa. É por causa dos relatos de Rolain que, a guerra terminada, Lescale parte para a Península Malaia. Um dia, eles se reencontram por acaso na varanda de um clube. A amizade é retomada. Lescale aceita ser o administrador do seringal de Rolain. Além deles, há dois outros personagens relevantes, irmãos malaios que trabalham cada um com um dos dois franceses, na condição de empregados domésticos.

Até às últimas páginas, quando dois crimes acontecem, há pouca ação. Os dois amigos conversam sobre questões filosóficas, sobre a natureza ao seu redor, sobre o espírito dos malaios. A realidade europeia é mencionada mais de uma vez de forma crítica, como quando Rolain diz ser a Europa “uma terra onde eu já não poderia viver, uma terra desumana, pois lá não há seres humanos, apenas marionetes”. Há comentários sobre a extração da borracha, sobre a relação entre as três comunidades — malaia, indiana e chinesa — e entre estas e o colonizador europeu e sobre a dureza, para os trabalhadores, da vida nas plantações. Lescale trabalha, Rolain parece sempre estar refletindo e emitindo opiniões sibilinas. Estas são recebidas como oráculos pelo mais jovem. Os diálogos entre os dois mostram uma relação de mestre e discípulo.

Recentemente, conversei com um casal de amigos que também leram o livro. Eles especularam sobre a sexualidade de Rolain e Lescale. De fato, as poucas mulheres no livro fazem somente figuração. Lescale começa um caso com a mulher de um dos empregados do seringal, mas pouco nos é dito sobre ela. É possível que essa relação meramente sexual sirva para ilustrar ou condenar o poder arbitrário dos plantadores sobre os que deles dependem financeiramente; ou para embaralhar as indagações do leitor sobre a relação entre os dois franceses e entre eles e seus empregados.

Há referência breve e isolada ao fato de que, na vizinhança da plantação de Rolain, só há “duas senhoras”, que não se suportam: “Mais il n´y avait que deux dames dans le district, et qui ne s´aimaient pas”. Veio-me o pensamento de que haveria aí material para um romance diferente. Quem são elas? Quais as suas nacionalidades? Os seus nomes? Por que não são amigas? Qual é sua situação familiar? Como vieram parar na Península Malaia? Nunca saberemos, e eu teria gostado de saber.

Dois elementos me prenderam ao curto romance de Henri Fauconnier. O primeiro é a descrição das paisagens, particularmente da floresta em volta à plantação. A propriedade de Fauconnier — como também a de seu personagem Rolain — era no sultanato de Selangor, em cujo território está encravada Kuala Lumpur. Já estive muitas vezes em Selangor, que preserva, apesar da urbanização e de ser hoje o estado mais rico da Malásia, vastas florestas.

A natureza luxuriante é, na verdade, o personagem principal do romance, como mostram as suas elaboradas descrições. Traduzo um trecho: “Há um momento onde nada permite adivinhar a chegada da manhã e, de repente, uma pequena brisa, que parece sair do solo, roça as folhas com o barulho como que de uma cortina que se levanta. E em seguida eis o ´te-te-goh´, o pássaro dos crepúsculos, que semeia no ar suas três notas claras […] outros pássaros, pouco a pouco, intervêm. Um numeroso coro se organiza. À medida que cresce a luz e que as brumas da manhã se evaporam, um longo crescendo de indagações cada vez mais altas, rápidas, apaixonadas, se levanta. E quando o sol finalmente jorra das montanhas, isso tudo desabrocha em uma longa aclamação. É o hino grandioso dos gibões”.

Fiquei me perguntando o que seria esse pássaro apelidado por Fauconnier, entre aspas, de “te-te-goh”. Quero crer que se trata do koel asiático, fonte do primeiro som novo que ouvi ao chegar a Kuala Lumpur; a espécie frequenta o parque em frente ao edifício onde moro, desenhado por Roberto Burle Marx. O koel só oferece seu canto belo, alto e peculiar de manhã ou no final da tarde, encaixando-se assim na definição de “pássaro dos crepúsculos”. Vive na copa das árvores, e nunca consegui ver um exemplar.

O outro ponto fascinante no livro é o espaço dado a uma versificação oral tipicamente malaia, o pantum, de que Fauconnier dá numerosos exemplos. Essa forma poética já havia sido mencionada por Victor Hugo em uma nota em sua coleção de poemas de 1829 com sabor de exotismo, Les Orientales, onde ele explica o pantum como sendo um “canto malaio”, e dá um exemplo que ele considera “deliciosamente original”. Depois dele, vários poetas franceses se interessaram pela forma. Verlaine, em 1871 ou 1872, escreveu um “Pantum negligenciado”, publicado pela primeira vez em 1884, em Jadis et naguère. Henri Fauconnier, porém, foi além. Em Malaisie, ele utiliza o pantum como elemento essencial do livro.

Logo no início do primeiro capítulo, um pantum anuncia o próprio enredo do romance:

Jikalau tidak karna bintang
masakan bulan terbit tinggi

Jikalau tidak karna abang
masakan datang adek k-mari

Dou uma versão da tradução francesa livre de Fauconnier, sem a preocupação, que ele tampouco teve, de respeitar as rimas, o que já deturpa o espírito do pantum, onde a graça parecem ser as rimas em formato ABAB e a repetição de palavras e de sons:

Se não fosse pelas estrelas
por que a lua brilharia no céu?

Se não fosse pelo mais velho
por que o caçula viria?

No romance, ficamos com a impressão de que os malaios, mesmo o mais humildes, usam o pantum a torto e a direito na vida cotidiana. Ao menos o empregado doméstico de Rolain o faz, e este diz a seu respeito: “Smaïl est un poète, et il a trop d´imagination”. Perguntei a alguns amigos malásios se o pantum ainda é corrente nas interações sociais. De todos, ouvi que não, o que me causou pena, como prova de um empobrecimento, uma homogeneização cultural. De um, ouvi que, no contexto de “eventos tradicionais, como casamentos”, o noivo, ou sua família, ainda elabora pantuns para a noiva. Outro indicou que membros do Parlamento, no plenário, às vezes improvisam pantuns para iniciar a fala dirigida a um colega, e que este idealmente deveria também responder com outro pantum, como uma forma de “cortesia malaia”. Não ficou claro se apenas noivos e congressistas malaios constroem ainda pantuns ou se membros das outras comunidades malásias, a chinesa e a indiana, também.

O clube onde se dá o reencontro entre Rolain e Lescale é claramente inspirado, pela descrição, em um local verdadeiro, que lá está até hoje, o Royal Selangor Club. Em estilo falso Tudor, situa-se no coração da Kuala Lumpur colonial. Em frente a ele, está o enorme espaço verde hoje conhecido como Merdeka, que em malaio significa “independência”. Ali, onde os ingleses costumavam fazer paradas militares e jogar cricket, em 1957 levantou-se pela primeira vez a bandeira do novo país. Além do clube, que era frequentado pela elite colonial, estão ao redor da praça os prédios da administração inglesa e da antiga corte de justiça, construídos no final do século XIX em estilo teoricamente mourisco, e a catedral anglicana de 1894, seguindo o estilo gótico inglês inicial.

Pouco depois de chegar à Malásia, tornei-me membro do Royal Selangor, mas lá nunca pudera ir, por causa das constantes e sucessivas regras de isolamento social. Em um domingo de abril, convidei dois amigos e a mulher de um deles, todos estrangeiros, para almoçar no clube. Sentados na varanda onde ocorre o reencontro entre Lescale e Rolain, admiramos a vista, com o gramado verde da Praça da Independência e, além dele, bem em frente ao clube, a antiga sede da administração britânica. Atrás, os prédios modernos pelos quais Kuala Lumpur é famosa. Víamos diante de nós como um resumo da história da Malásia nos últimos 140 anos.

Imaginei Karen Blixen, de volta à Escandinávia, rememorando os dias em seu seringal. Imaginei-a sentada em sua casa de campo senhorial, pegando a caneta e começando um livro: “Eu tive uma fazenda na Península Malaia, na curva do rio Selangor”.

Esta IX Carta da Malásia foi primeiro publicada, em 29 de maio, em versão mais curta, em Estado da Arte

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As pedras falam

As pedras falam

Quando eu estudava em Londres, muitas vezes pude ir ao British Museum. Durante a semana, as galerias não ficavam cheias, e frequentemente era possível estar sozinho frente aos Mármores do Partenon ou na longa sala egípcia, com o busto monumental de Ramsés II e a Pedra de Roseta. Esse era para mim o objeto mais fascinante do museu. Uma descoberta casual no Egito pelo exército de Napoleão, em 1799, permitiu o acesso à escrita de toda uma civilização. A Pedra nos explicou como ler hieróglifos, depois que essa capacidade havia sido perdida há séculos. Vê-la pela primeira vez, aos 19 anos, foi como encontrar um animal que só existisse em fábulas pois, na infância, por algum tempo, Champollion havia sido meu herói.

As salas egípcias, gregas, romanas, assírias costumavam ocupar meu tempo. Andava pelo museu procurando minhas peças prediletas, como o Vaso de Portland, o qual, além de sua beleza intrínseca, despertava meu interesse por ter pertencido ao rei dos colecionadores, Sir William Hamilton, embaixador em Nápoles de 1764 a 1800. Se gosto tanto do romance de Susan Sontag The Volcano Lover é, em parte, pela descrição cativante que ela faz de Hamilton e de suas duas mulheres. A primeira, Catherine, era uma competente cravista que tocou para Mozart quando o compositor, então com 14 anos, passou por Nápoles em 1770. A segunda Lady Hamilton, Emma, é bem mais célebre, como amante de Lord Nelson; como amiga influente da rainha de Nápoles, Maria Carolina da Áustria, irmã de Maria Antonieta; e como musa do pintor George Romney. Emma parece ter sido o que os artistas da época consideravam uma beleza clássica. Goethe, em sua passagem por Nápoles, em 1787, conviveu com o casal — eles eram ainda amantes apenas, e o escritor conheceu Emma como Miss Hart — e nos diz em seu Viagem à Itália que ela era vista pelos artistas como “o modelo perfeito para todas as heroínas e semideusas” da Antiguidade que eles gostavam de pintar em seus quadros. Ler o livro de Susan Sontag, na idade adulta, foi como recuperar aqueles momentos passados frente ao Vaso de Portland.

Inversamente, era por causa de um livro que, a cada ida ao British Museum, eu ansiava por rever as estelas assírias com baixos-relevos mostrando as caçadas e as campanhas militares de Assurbanipal. Em Proust, eu lera aos 11 anos uma breve alusão ao rei assírio. Em À l´ombre des jeunes filles en fleurs, o narrador nos diz ter ficado, criança, “merveilleusement surpris” ao ler que há registro dos nomes dos acompanhantes de Assurbanipal em suas caçadas. É um prodígio que possamos conhecer, ainda hoje, os nomes dos membros da corte de um rei que viveu seiscentos anos antes de Cristo. Mais recentemente, em 2008 minha mulher, minha filha e eu passamos um fim de semana em Londres especificamente para visitar uma exposição no mesmíssimo British Museum sobre o imperador Adriano. Talvez Adriano chamasse menos minha atenção se eu não tivesse, aos 18 anos, lido o romance sobre ele escrito por Marguerite Yourcenar, em forma de livro fictício de memórias do próprio imperador. Nunca poderei me cansar de refletir sobre o poder da arte para eternizar figuras, fatos ou momentos históricos.

Agora mesmo, gostaria que não houvesse pandemia e eu pudesse tirar férias, pegar um avião e ir a Londres com um propósito concreto: visitar, no British Museum, os artefatos descobertos em Sutton Hoo, em Suffolk, em escavações iniciadas em 1938 em túmulos anglo-saxões do século VII. Ali, possivelmente, foi enterrado um rei, talvez Redualdo da Ânglia Oriental, dentro de um barco do qual sobravam, quando o sítio foi escavado, apenas as marcas no solo. A página eletrônica do museu informa ter sido essa “one of the most spectacular and important discoveries in British archaeology”. Na época em que eu podia visitar assiduamente o museu, essas peças, que cheguei a ver, não despertavam tanto meu interesse. Sua importância cultural e histórica era sutil demais para um jovem inclinado a se impressionar com a imponência dos Mármores do Partenon, das esculturas do Mausoléu de Halicarnasso, do busto de Ramsés II, da cabeça de Amenhotep III, dos baixos-relevos assírios. Ou com a beleza refinada do Vaso de Portland e as revelações trazidas pela Pedra de Roseta.

Isso hoje mudou, por causa de um filme magnífico, distribuído em fevereiro pela Netflix, The Dig (A Escavação). Extraído de um romance de 2007 de John Preston, com o mesmo título e baseado em fatos históricos, o filme, dirigido por Simon Stone, mostra como uma rica viúva, Edith Pretty, contrata um homem apaixonado por arqueologia, Basil Brown, para escavar os montículos em sua propriedade rural, em um lugar conhecido como Sutton Hoo. Dessa iniciativa viria a descoberta de um tesouro que modificou a visão do que era a Inglaterra no início da Idade Média.

O filme condensa a história em poucos meses de 1939; termina com o início da Segunda Guerra Mundial. O diretor não está tão interessado nas consequências das escavações em Sutton Hoo para o estudo da história da Inglaterra. Seu objetivo é apresentar uma reflexão sobre a continuidade do ser humano, como a História nos molda, como a arte une os homens e pode mesmo nos aproximar da natureza, como sugere a fala de um dos personagens, Peggy. Ela narra a história, verídica, de uma violoncelista inglesa, Beatrice Harrison, que, ao tocar no jardim de sua casa, atraía rouxinóis, que cantavam para acompanhá-la. Nas últimas cenas, o Reino Unido está entrando em guerra com a Alemanha, após a invasão da Polônia pelos nazistas. Um personagem menor, o motorista de Edith, diante da iminência do conflito armado, faz pensativamente um dos comentários mais marcantes para entender o espírito do filme: “We´re in for another bloody mess”. A palavra “another” é importante. A guerra e o sofrimento são fatores constantes na experiência humana. De Redualdo, cujo nome nem é citado no filme, sabemos apenas que foi um chefe guerreiro, naquele canto de uma ilha, a Inglaterra, em uma era sobre a qual há poucos registros. Dificilmente ele terá sido um homem bom. Não terá tido as condições para isso. Podemos imaginar a violência em que viviam os súditos dos vários reis que guerreavam entre si, na Inglaterra daquele tempo. Além do seu elmo cerimonial em ferro e bronze, um dos objetos mais famosos extraídos de Sutton Hoo, Redualdo foi enterrado com outros artefatos de grande beleza, trazidos de regiões distantes da Europa, do Egito, da Ásia Meridional e do império bizantino, provando que havia comércio e arte e preocupação em tornar a vida menos rude.

O filme pode ser dividido em duas partes. Primeiro, há o relacionamento entre Basil Brown e Edith Pretty; entre ele e seus superiores do museu local, em Ipswich; e entre Brown e Edith com os arqueólogos profissionais enviados pelo British Museum a Sutton Hoo, quando se espalha o rumor de que um amador está escavando o sítio arqueológico. A tônica nessa primeira metade é o choque entre visões e ambições conflitantes, que acontece no ambiente sereno do campo inglês e do jardim de Edith, extenso e idílico.

Preparado o terreno, Simon Stone nos dá, na segunda parte, a dimensão filosófica da obra. O tema passa a ser a inserção do ser humano no momento histórico em que vive, algo sempre maior do que o indivíduo, e a questão da continuidade dos sucessivos momentos históricos. Temos responsabilidade com o legado de nossos antecessores no mundo, e cada um de nós deve decidir o que fazer com esse legado.

O enredo traça um paralelismo: o tesouro descoberto faz os personagens conhecerem melhor o passado, mas promove também, em vários deles, um grau maior de autoconhecimento. Vemos na tela, em pouco menos de duas horas, como eles amadurecem. Essa não é uma ideia gratuita do filme ou do romance do qual foi extraído. Sigmund Freud — ele próprio colecionador de objetos e estatuetas da Antiguidade — já considerava as escavações da arqueologia como uma metáfora para o trabalho psicanalítico. Há várias observações dele nesse sentido. “Saxa loquuntur!”, ele já escreveria em um ensaio de 1896: “as pedras falam!”. Peter Gay, seu biógrafo, nos lembra de um comentário em particular: “Não há melhor analogia do que é a repressão, a qual ao mesmo tempo torna algo inacessível na mente mas também o preserva, do que o soterramento de Pompeia, do qual a cidade só pôde ressurgir pelo trabalho arqueológico”. A frase aparece no final de um ensaio em que Freud, em 1907, analisa uma novela de 1903, Gradiva, do autor alemão Wilhelm Jensen, lembrado hoje sobretudo por causa do interesse de Freud pelo seu livro, que aliás intrigava também André Breton.

Na história de Jensen, um arqueólogo, em Roma, vê um baixo-relevo da Antiguidade — que existe realmente, está em um dos museus do Vaticano e hoje é conhecido como “Gradiva”, por causa da novela; Freud expunha uma cópia em seu consultório — representando uma moça, à qual ele atribui o nome de Gradiva, por razões latinistas que não interessam aqui. Em um sonho, ou pesadelo, o arqueólogo se vê em Pompeia, na erupção do Vesúvio, onde encontra Gradiva e presencia a sua morte. O arqueólogo decide ir a Pompeia e lá acredita ter visto Gradiva, que é na verdade uma amiga de infância, Zoé, nome que significa “vida”. Toda a situação permite que ele compreenda que vinha reprimindo um sentimento de amor por Zoé. Ela diz a ele: “Você está achando estranho que alguém precise morrer para se tornar vivo. Mas para um arqueólogo, isso não deveria ser estranho”. Lendo o ensaio de Freud, sinto, como ele, o impacto de que uma obra de ficção, já em 1903, pudesse ser tão psicanalítica.    

O crítico de arte Donald Kuspit, em um ensaio intitulado “A Mighty Metaphor: the Analogy of Archaelogy and Psychoanalysis”, publicado em 1989 no catálogo de uma exposição sobre a coleção de Freud, examina a fundo a questão da ligação entre arqueologia e psicanálise e observa: “both deal with the unexpected presence and power of the past. Both are means of remembering it”.

Donald Kuspit alerta, porém, para os limites dessa analogia, como também faz o psicanalista e escritor francês J.-B. Pontalis. Este, no livro que escreveu com Edmundo Gómez Mango, Freud avec les écrivains, em um texto em que examina o ensaio sobre Gradiva, aponta que mesmo o pai da psicanálise “oscilava em seu julgamento sobre a analogia”. Pontalis opina, de forma ela própria ambígua, sobre a relação entre arqueologia e psicanálise: “Mieux vaut lui laisser son statut de métaphore improbable”. A ideia de que “as pedras falam”, porém, é facilmente assimilável. É isto que se busca diante de esculturas, objetos, ruínas e monumentos da Antiguidade, que eles nos transmitam o que significaram, comunicaram aos que os admiraram antes de nós, às vezes há milênios.     

Em A Escavação, Ralph Fiennes, como Basil Brown, mostra um homem simples socialmente, mas de grande sofisticação como ser humano. Monica Dolan é a sua mulher compreensiva e forte, May. Com poucas cenas na tela, a atriz consegue transmitir ao espectador a individualidade de caráter da personagem. Carey Mulligan, como Edith Pretty, cria uma figura com a qual todos podemos empatizar, sensata, sensível, firme, desprendida apesar da riqueza. Lily James, insuportável no recente Rebecca, está perfeita como Peggy, uma arqueóloga que vem, de Londres, participar do projeto. A personagem existiu e era tia do romancista John Preston. Representando os meios acadêmicos e o British Museum, está o ator Ken Stott, no papel de Charles Phillips, tentando obter para o museu o tesouro de Sutton Hoo, às vezes por meio do autoritarismo, às vezes pela bajulação.

No final, a guerra vai começar. Milhões nela morrerão. Já era assim muito antes de Redualdo, como mostram as estelas no British Museum com as campanhas militares de Assurbanipal, que viveu 1200 anos antes do rei da Ânglia Oriental. As pessoas desaparecem, mas o que tornou sua vida mais bela e suportável fica. Em uma conversa com Brown, no carro, Edith perde o controle emocional; sabe que está doente e vai morrer. Os túmulos encontrados em sua propriedade, onde nem o corpo nem o barco do chefe guerreiro sepultado perduraram, são uma parábola para a sua própria mortalidade. Ela diz: “We die and we decay. We don´t live on”. Basil Brown discorda. Faz isso da maneira mais caricaturalmente inglesa, dizendo: “Oh, I´m not sure I agree”. Ele acredita que, desde que o homem primeiro deixou a marca de sua mão nas cavernas pré-históricas, somos todos, nas sucessivas gerações, parte de algo contínuo e que, por isso, não morremos de verdade. Pouco depois, a história acabando, acontece a cena mais emocionante. O filho de Edith, Robert, ainda criança — interpretado inteligentemente por Archie Barnes — compartilha com ela a sua ideia poética do que significa partir, enquanto os dois estão deitados na área da escavação, de noite, olhando as estrelas. Contando uma história de ficção científica, de viagem interplanetária, Robert explica e suaviza para sua mãe a ideia da morte dela, e acalma seus temores.

Um vaso romano nos faz gostar de um livro americano, um romance francês nos faz procurar baixos-relevos assírios, e um filme dirigido por um australiano nos revela, em retrospecto, a beleza de objetos que vimos, muitas décadas antes, em Londres. Uma obra de arte nos faz entender outra. A narração ficcional da descoberta real de um tesouro do século VII cumpre seu papel artístico e nos faz aceitar a vida, a humanidade e a morte.

Este texto é dedicado a Vera Pedrosa, chefe, colega e amiga excepcional, que partiu enquanto eu o terminava, mas que continuará sempre presente para mim

Publicado anteriormente, em 6 de fevereiro, em Estado da Arte

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Um dia em Lisboa

Um dia em Lisboa

Como Titina mora em Lisboa há muitos e muitos anos, visitá-la não é para mim tão fácil ou corriqueiro, mas o resultado é que a cidade está sempre presente na minha imaginação. Ir a Lisboa ver minha irmã nunca foi, por outro lado, um sacrifício, pois gosto muito de estar lá. A cidade se tornou, de uns anos para cá, um centro artístico e gastronômico. A cada visita percebo diferenças que fazem dela um destino sempre mais atraente. Devo supor que as motivações dos turistas e dos residentes estrangeiros são iguais às minhas: o clima ameno no inverno, o charme de seus bairros históricos, a segurança nas ruas e a sensação transmitida de que a vida pode ser fácil e ensolarada. Um passeio simples pelas ruas do Chiado, do Bairro Alto, da Alfama, da Mouraria e de tantos outros bairros já basta para nos fazer sentir a delícia de estar vivo.

Fator adicional, para mim, é a excelência das livrarias. Um dia ideal, em Lisboa, inclui visitar as minhas prediletas.

Na minha primeira viagem a Portugal, aos 19 anos, adotei a Bertrand. Como eu quase sempre me hospedo no Chiado, ela me serve como uma mistura de livraria e de espaço prático para fazer uma pausa do sol, do calor, do frio, da agitação; para entrar, isolar-me do mundo por alguns minutos em um ambiente conhecido, seguro, e voltar a sair, com renovado entusiasmo. Na sala principal, a primeira, passei já muitas horas da minha vida. Mais adiante, a cavernosa enfileirada de arcos sugere a promessa de tesouros a serem descobertos. Mesmo uma livraria fundada em 1732 e instalada em 1773 no local atual, na Rua Garrett, pode nos reservar surpresas. Em 2017, descobri que os sucessivos ambientes desembocam agora em um café, com um mural representando Fernando Pessoa.  

Saindo da Bertrand, se desço a Rua Garrett e viro à direita na Rua Nova do Almada, chego à Livraria Ferin, a segunda mais antiga da capital. Esse é, por excelência, um lugar elegante, e me lembra duas de minhas livrarias preferidas, a Galignani em Paris e a Hatchards em Londres. O ambiente é acolhedor, e a oferta de livros, inclusive franceses, é sempre interessante, particularmente na área de história. Minha única queixa não é culpa da livraria: é que sonho, até hoje inutilmente, em conseguir fotografar sua fachada sem carros estacionados em frente. Já me aconteceu de ficar longos momentos na calçada oposta, celular à mão, esperando poder captar um momento em que a rua estivesse despejada. Já me aconteceu também de pensar, nessas horas, que os funcionários da Ferin, se me notaram alguma vez, pela vitrine, parado na rua, olhando insistentemente em direção ao prédio, devem ter estranhado ou mesmo ficado preocupados. A rigor, a fachada da livraria em nada se diferencia, arquitetonicamente, das demais nessa rua pombalina. É bem mais sóbria do que a da Bertrand com seus azulejos azuis. Mas algo ali me atrai, talvez o que sei do ambiente atrás da porta; ou talvez a forma arqueada como a palavra “Librairie” é gravada, na pedra do lado esquerdo da porta, sobre o resto da inscrição, “de A. Ferin”. No pilar do outro lado da porta está gravado “Atelier de reliure”, com a palavra “Atelier” também arqueada.

Sempre frustrado na minha tentativa de fotografar a fachada da Ferin sem carros estacionados diante dela, retomo meu passeio.

A concentração de livrarias nessa área de Lisboa, na verdade, é impressionante, pois logo ali, ao lado da Ferin, nos Armazéns do Chiado, está a moderna FNAC. E se eu voltar à Rua Garrett e subi-la, um ou dois quarteirões depois da Bertrand encontro a Sá da Costa, que deve ser o maior receptáculo de livros de segunda mão que conheço, depois da Strand em Nova York. Um dos charmes de Lisboa são os vários sebos que podem ser visitados confortavelmente em um passeio a pé. Caminha-se vendo apenas ruas harmoniosas, fachadas do século XVIII, e entra-se aqui ou ali em um alfarrabista. A Sá da Costa lembra vagamente um daqueles lugares de Bruxelas que aparecem nos álbuns do Tintin, misteriosos, mágicos. Feira da Ladra ou casa de algum antropólogo ancião, sentimos ao entrar que lá terá início uma aventura. Além dos livros, há por ali, espalhados pelas vitrines ou pelas salas, estátuas de madeira, porcelanas antigas, globos terrestres e mapas emoldurados nas paredes, inclusive um representando, na Antiguidade, o que hoje é o Oriente Médio. 

Saindo da Sá da Costa e andando até a Praça Luís de Camões, posso tomar a Rua da Misericórdia, onde grandes felicidades me esperam.

A primeira livraria a aparecer é a Bizantina. Na última vez em que lá estive, fiquei maravilhado, porque vi em uma prateleira a primeira edição inglesa de Justine, de Lawrence Durrell, que tenho em casa. Há muitos anos, retirei da estante de meu pai, no Rio, o seu exemplar e nunca o devolvi. Nem gosto particularmente do romance, mas há algo de lúdico no volume: a grossura e o cheiro do papel, a textura da capa. Sobretudo, há a minha constante ingenuidade de achar surpreendente ver em um sebo edições que já possuo. Nunca falha, sempre fico feliz quando isso acontece.

Em 2018, considerei algo extraordinário encontrar na Livraria Antiquária do Calhariz a edição em cinco tomos dos Sermões do Padre António Vieira pela Lello & Irmão, que minha mulher tem desde sempre. Chega a ser engraçado, eu me encantar de ver em um alfarrabista lisboeta a edição clássica e famosa, mas não muito antiga — é de 1959 — de um grande autor português, publicada por uma casa editorial portuguesa.

Poucos metros depois da Bizantina, no Largo Trindade Coelho, esteve até 2020 a Olisipo, onde, ao longo dos anos, comprei vários livros. Seu interior era sedutor. O ambiente era arejado, entrava a luz do sol e eles vendiam também gravuras e mapas antigos. Algumas encadernações eram estupendas. Na última vez em que lá estive, em julho de 2017, senti falta da presença do proprietário e fundador, José Ferreira Vicente, que nunca, anteriormente, eu deixara de ver. Descobri depois que ele morrera em janeiro daquele ano. Era um homem educado. Quando estou sozinho, costumo ficar mergulhado nos meus pensamentos; por isso, creio nunca termos trocado palavras muito distintas de “boa tarde” e “obrigado”. Sinto seu desaparecimento, no entanto, como o de uma presença bem familiar, de que sentirei falta. A Olisipo mudou-se para outro endereço. Não sei quando poderei voltar a Lisboa e ver como ficou instalada a livraria, agora na Avenida Infante Santo. O antigo espaço ficará para sempre gravado em mim.

Pouco depois do Largo Trindade Coelho, chega-se ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, com a sua vista famosa sobre Lisboa, o Castelo de São Jorge e o Tejo ao fundo. Essa e outras vistas sempre me fazem pensar em um melancólico e marcante filme de 1983 de Alain Tanner, A Cidade Branca, em que Bruno Ganz faz o papel de um marinheiro suíço desembarcado em Lisboa. Na vida real, as portas e as fachadas coloridas ou azulejadas de alguns bairros, como o Chiado e o Bairro Alto, dão uma visão bem diferente, a de uma cidade cálida, vibrante e receptiva aos viajantes.

Em um dia de férias típico meu em Lisboa, a esta altura terei já comprado vários livros e irei adiante até o Jardim do Príncipe Real, para lê-los sentado em um banco sob o sol.

Em 2019, pude passar apenas vinte e quatro horas em Lisboa. Meu roteiro habitual de visitas a livreiros não pôde ser cumprido. Além da Bertrand e da Ferin, onde entrei somente para ver as novidades, respirar o ambiente, ter certeza de que essas duas velhas amigas estavam bem — preocupação inútil, pois elas seguirão existindo quando eu desaparecer — estive em um sebo apenas.

Existe, na Rua de O Século, um alfarrabista que ocupa dois espaços pequenos. Sei hoje que ele se chama Alexandria, mas só em 2019 notei haver placa discreta com o nome. Nos anos anteriores, podia-se passar pela rua, aliás bem tranquila, sem perceber haver naquele ponto uma livraria. Se minha irmã não fosse freguesa, nunca eu a teria descoberto. É um lugar especial, sobre o qual já escrevi anteriormente, em uma crônica de 2018, O Embrulho Vermelho, cujo fio condutor é justamente um livro que Titina lá comprou, naquele ano, para me dar de presente. O sebo é forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. O nome da rua me intrigava muito, e eu a incluía entre os muitos logradouros lisboetas cuja denominação me soa poética, como Travessa da Água-da-Flor, Travessa da Boa Hora, Travessa da Espera, Rua da Horta Seca e Rua das Flores, que faz pensar imediatamente em Eça de Queiroz. Um dia, descobri não haver nenhuma intenção metafísica no nome O Século. Trata-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia.

Na Alexandria, o livreiro é prestativo, mas discreto. Deixa-me à vontade, no espaço pequeno. Os preços são honestos. Uma vez, quis mostrar o sebo a um primo português, o escritor e biógrafo José Norton. Este me convenceu a comprar uma edição barata e surrada, em três volumes pequenos, vermelhos, de capa dura, dos Mistérios de Lisboa. Devo assim a ele meu primeiro contato com Camilo Castelo Branco. Em 2018, vi empilhados no chão 8 dos 21 volumes da correspondência de Proust editada por Philip Kolb. Fiquei tentado. Não os comprei. Nas minhas 24 horas lisboetas em setembro de 2019, voltei lá para sondar se os volumes tinham sido vendidos. De fato, tinham. Arrependi-me bastante.

Em 2020, com as fronteiras da Malásia fechadas por causa da pandemia, não visitei minha irmã. Pelo que já pude ver de 2021, neste mês de janeiro tão parecido com o ano passado, parece improvável que eu consiga consiga vê-la antes de 2022. Pergunto-me se a feira de livros ao ar livre, aos sábados, na Rua Anchieta — com as mesas do lado esquerdo, nos primeiros metros da calçada, colocadas ao longo dos azulejos da Bertrand — tem acontecido, nestes tempos atípicos para todos. Poderia perguntar à Titina. Mas há algo lúdico em permanecer na dúvida. Prefiro sonhar com os livros expostos na calçada, em pleno Chiado. Esperam a minha volta, quando passarei novamente pela Rua Anchieta, transformada todo sábado em um corredor de deleites. Esperam seduzir-me.  

Versão atualizada de texto primeiro publicado na revista literária Pessoa, em 19 de outubro de 2020

Todas as fotos foram tiradas pelo autor

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As frutas de Perak

As frutas de Perak

Foi do Sultão de Perak que recebi, neste Natal, o meu primeiro presente. Na verdade, fui eu quem, ao recebê-lo no final de novembro, decidi considerá-lo assim. Fiquei bem contente de poder antecipar a época natalina, pois esse é, para mim, o momento mais esperado e desejado do ano.

Certamente, isso é um resquício da infância. Durante anos, na Bélgica, descer as escadas com meus irmãos, na manhã do dia 25 de dezembro, ainda de pijama, para ver os presentes sob a árvore decorada na sala, com a neve cobrindo o quintal e o ambiente rural ao redor da casa, era a experiência mais mágica do ano inteiro. Abro neste minuto um livro de 2019 de Jean-Yves Tadié de artigos ou ensaios curtos seus sobre Proust, um dos presentes de Natal que, complacentemente, em dezembro dei a mim mesmo. Caio em uma citação de La Recherche a respeito de adultos rememorando a infância: “eles se perguntam se, naqueles anos felizes, o inverno não era a mais bonita das estações”.

Há outras razões, pessoais e filosóficas, para minha continuada veneração pelo Natal. Minha mulher e eu fazemos aniversário na mesma data, em meados de janeiro, e assim o Natal é um conceito abrangente, que engloba pelo menos todo o mês de dezembro e vai até a terceira semana de janeiro. Essa é a época das comemorações, da sensação de leveza, do sentimento de que pode haver harmonia entre os seres humanos. É a época da felicidade. Todo ano, prolongo ao máximo esse estado de espírito. Duvido que alguém queira me criticar por isso.

Quanto ao aspecto filosófico da questão, direi que o Natal, independentemente da importância religiosa da data, de que nesse dia se celebra um nascimento, parece ser como um resumo, uma explicação do sentido da vida. É algo que espero o ano inteiro, na expectativa de alegrias sem fim; mas depois que ele chega, termina rápido demais. Mal me preparei para festejá-lo, e ele acabou. Acredito que a data ainda está por vir, e ela já é passado.

O Sultão de Perak, Nazrin Shah, com graduação em Oxford e mestrado e doutorado em Harvard, deve ser o único soberano e a única alteza real no mundo com competência para escrever obras de história econômica. Seus livros, publicados pela Oxford University Press, têm títulos como Charting the Economy: Early 20th Century and Contemporary Malaysian Contrasts (2017) e Striving for Inclusive Development: From Pangkor to a Modern Malaysian State (2019). Pangkor é uma ilha em Perak, e é também o nome do tratado pelo qual, em 1874, o Reino Unido assinou com o Sultão de Perak de então o acordo que iniciou o processo pelo qual, em poucas décadas, toda a Península Malaia passou a estar sob controle britânico. Até 1874, o Reino Unido estava presente apenas em Penang, Malaca e Singapura, que juntas formavam a colônia conhecida como Straits Settlements.

Na capa de Charting the Economy, os dois “o” do título são representados por uma semente de seringueira e grânulos de estanho. Como toda criança brasileira aprende na escola, a exitosa inserção na Península Malaia de sementes de hevea brasiliensis roubadas da Amazônia pelos britânicos, nos anos 1870, pôs fim ao ciclo da borracha no Brasil. Uma ironia é que, hoje, importamos borracha da Malásia.

Nos dois livros, vemos como os seringais e as minas de estanho sustentaram, durante décadas, a economia da Malaia britânica. Após a independência, em 1957, o novo país começou a diversificar sua produção. Explica o Sultão de Perak: “dependence on a limited number of primary commodities with highly volatile prices had been recognised as being an unsustainable economic strategy”. O estanho é um produto não-renovável, e a borracha natural é substituível. A Malásia se transformou. Passou a exportar produtos elétricos e eletrônicos e maquinaria. Desde 1971, a política econômica, voltada para a eliminação da pobreza, inclusive por meio de ações afirmativas, de ampliação do acesso à educação e de políticas de transferências diretas à população menos favorecida, pode ser sintetizada com a frase “growth with equity”. É surpreendente ver uma alteza real — que, pelo sistema rotativo entre os sultões para a ascensão ao trono malásio, deverá se tornar em janeiro de 2029 o XVIII Rei da Malásia — citar Thomas Piketty como fonte para seu pensamento sobre a questão da distribuição de renda.   

Do Sultão Nazrin Shah, eu já havia recebido seus dois volumes sobre a história econômica da Malásia. Fiquei então intrigado com o novo presente, de que foi portador um amigo comum, Timor, que, de partida para a Califórnia, onde passaria longos meses com sua família, veio, exemplarmente, se despedir de mim. O presente real é um livro, com texto e fotografias de Omar Ariff Kamarul Ariffin, intitulado The Incredible Fruits of Perak. Nazrin Shah e sua mulher, a princesa Zara Salim, contribuíram para a publicação da obra. Como outros bonitos livros promovidos por eles, o volume ajuda a divulgar Perak, conferindo-lhe uma personalidade própria frente aos outros estados malásios.

Lançada em 2019, a obra descreve as características de cem frutas, a maioria nativas de Perak, mas algumas também exóticas. Dezenas de outras são mencionadas. Há no estado de Perak, segundo explica a princesa Zara Salim no prefácio, ao menos cinquenta cidades ou vilarejos cujos nomes celebram frutas nativas.

Em minha primeira Carta da Malásia — as cinco cartas publicadas anteriormente estão coletadas em Ilhas Misteriosas — relatei viagem que fiz à ilha de Penang e contei que a paisagem de Perak, vista do trem, lembrou-me a da Mata Atlântica. Folheando o livro sobre as frutas do estado, constatei sem surpresa que algumas existem no Brasil. Quem poderia imaginar que a pitangueira, originária da América do Sul e de que temos um exemplar no quintal em Brasília, adaptou-se na Malásia com o nome de cermai belanda? O autor nos dá a informação de que a fruta também é conhecida como “pitanga” ou Brazil cherry. A brasileiríssima e corriqueira carambola aparece logo no início do livro, com o nome de belimbing manis, e aprendo que ela é na verdade originária do Sudeste asiático e do subcontinente indiano. A carambola é conhecida na Malásia também como kembola e, sim, “carambola”.

A maioria das frutas descritas no livro é, porém, desconhecida para mim. Há muitos anos, em Belém, na praça do Theatro da Paz, tomei pela primeira vez um suco de cacau. Das lembranças mais fortes que guardo da cidade está a surpresa que tive então diante da variedade de frutas de que eu nunca ouvira falar. The Incredible Fruits of Perak causa em mim a mesma sensação. Pensar que vivi até hoje sem provar melinjau, rawa e tampoi, entre muitas outras. A melinjau parece particularmente apetecível.

Uma das anedotas itamaratianas de que mais gosto é a história, acontecida não faz tantos anos, em que um estadista indiano visita Brasília. Como é costume, é homenageado com um jantar. Como sempre acontece, na hora da sobremesa trazem à mesa não só o doce, como também uma bandeja de frutas, onde há inclusive mangas fatiadas. O visitante exclama, acredito que de boa-fé e sem ironia: “Que ótima surpresa! Vocês foram atenciosos a ponto de mandar me servir uma fruta indiana”. Ele tinha razão, a manga é originalmente da Índia. É tão adaptada à realidade brasileira, porém, que cresce sozinha por todo canto em Brasília, e eu mesmo durante muito tempo acreditei ser ela originalmente brasileira. No nosso quintal no Lago Sul, ao lado da pitangueira, há duas enormes mangueiras. No final de dezembro, elas atingem o auge da produção. Seus galhos, no Natal, devem ter ficado pesados, carregados de mangas rosadas, de diferentes tonalidades avermelhadas, que me fazem sempre pensar, quando as vejo de longe, nas maçãs estilizadas que, criança, eu colocava em toda árvore que desenhava.  

Graças assim à visita de despedida que me fez Timor, trazendo em um único volume, como presente real, uma centena de frutas de Perak, entrei cedo no clima natalino.

Menos de quatro semanas depois, tive de lidar com preocupações mais transcendentais do que a economia malásia ou as semelhanças entre a flora brasileira e a da Península Malaia. No domingo antes do Natal, vi-me caminhando, à noite, pelo gigantesco aeroporto internacional de Kuala Lumpur, vazio e abandonado. Eu lá não pisava desde abril, quando fora me despedir dos brasileiros sendo repatriados por causa da COVID-19. Naquela ocasião, já havia menos voos, mas os que se mantinham estavam lotados, por causa do novo coronavírus, de malásios voltando ao seu país ou de estrangeiros regressando aos seus. A própria alegria dos meus compatriotas de poder voltar para casa e enfrentar a pandemia com seus familiares tornava o ambiente, para mim, eletrizante. No domingo logo antes do Natal, pareceu-me o aeroporto, que eu conhecera tão movimentado, lúgubre no seu abandono.

Como eu sabia, os problemas filosóficos que passavam pela minha cabeça, enquanto eu circulava pelo aeroporto entristecido, logo receberiam resposta: “Ela vai me achar bem ou envelhecido? Magro ainda? Aprovará esta camisa?”. Pois se eu lá estava, era para esperar minha mulher, que chegava de Singapura. Recebera ela autorização da Malásia, apesar das fronteiras fechadas nos dois países, para vir passar uns dias de férias. Teríamos de fazer quarentena, mas, felizmente, em casa.

Após uma separação forçada de dez meses, por causa da pandemia e o consequente fechamento das fronteiras, era um verdadeiro milagre natalino que eu estivesse ali, esperando por ela. Pensei ser personagem de algum filme ingênuo, típico da estação, It´s a Wonderful Life talvez, ou Love Actually

Não direi que a ceia de Natal foi a melhor que já tivemos, porque faltou nossa filha, que mora em Bruxelas, e para quem as fronteiras malásias e singapurenses permanecem fechadas. Mas foi deliciosa. Após as incertezas de todo o ano, compartilhadas com a humanidade inteira, e uma prolongada separação, era possível pensar que, afinal, a nossa era uma história que terminava bem. Como devem terminar os contos natalinos.

Esta minha VI Carta da Malásia foi primeiro publicada, como as cinco anteriores, em Estado da Arte, em 7 de janeiro de 2021

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Desprezo em Veneza

Desprezo em Veneza

Aos 21 anos, fui a Veneza pela primeira vez. Era verão, havia muitos turistas, a cidade estava suja, vi apenas seu aspecto de parque de diversões. Minha reação principal foi de decepção. Pensei nunca mais voltar.

O contrário aconteceu. Revisitei a Serenissima várias vezes desde então. Gosto cada vez mais do que seu apelido reflete — a imponência serena sobre a água. Chego, surpreendo-me novamente com a beleza à minha volta, abstraio as multidões e fico me perguntando como pode haver no mundo um lugar assim. Minha razão habitual para ir é a Bienal de Arte.

Uma tarde, em setembro de 2019, saí do hotel para visitar, no Palazzo Grassi, a mostra do pintor belga Luc Tuymans, intitulada La Pelle. Quando vou ao Palazzo Grassi, penso, além do poder da arte, no poder do dinheiro. Colossal, situado à beira do Canal Grande, o Palazzo foi comprado em 2005 por François Pinault. Lá são montadas exposições de grande repercussão.

O que fazer quando você é um dos homens mais ricos do mundo, um dos mais importantes colecionadores de arte contemporânea e já possui um palácio veneziano? Muito simples, você procura obter a concessão de mais um marco histórico em Veneza. Em 2007, Pinault obteve o uso, por trinta anos, da antiga aduana na Punta della Dogana, na boca do Canal Grande. Ele dispõe, portanto, de dois espaços fenomenais onde expor parte de sua coleção e mostras temporárias. Não há crítica de minha parte nesse comentário. Veneza, arquétipo da cidade europeia bem preservada, de palco para uma volta ao passado, ganhou nova vida, ganhou novas facetas ao evoluir para um local de celebração da arte contemporânea. Não é um monumento inerte a um passado glorioso, como Bruges, que foi cenário, já em 1892, de um romance simbolista do escritor belga Georges Rodenbach intitulado Bruges-la-Morte

De Luc Tuymans eu vira em Bruxelas, em 2011, uma excelente retrospectiva, termo aliás que ele questiona, pois suas exposições não seguem necessariamente uma ordem cronológica. É certamente o artista com a obra mais cerebral do mundo. Seus quadros parecem simples, muitos de uma beleza plástica à primeira vista inofensiva, e podem ser apreciados assim, mas possuem na verdade elevada carga histórica e cultural.

Temáticas recorrentes, embora não exclusivas, são o nazismo, os campos de concentração, o passado colonial belga, o nacionalismo flamengo, o uso do poder pelos governantes, a intolerância religiosa, todos denunciados sem histrionismo. Vemos uma de suas pinturas — frequentemente, elas são em tom pastel, e costuma haver pouca variedade de cor em cada tela — representando uma sala vazia. Trata-se de uma câmara de gás da era nazista. Um senhor de óculos, de ar paternal, é na verdade algum célebre criminoso. Uma maçã mordida é inspirada da foto tirada pela polícia da fruta deixada para trás por um assassino.

O livro do crítico de arte e romancista Gordon Burn publicado postumamente em 2009, Sex & Violence, Death & Silence: Encounters with Recent Art, inclui texto de 2000 sobre Tuymans. Burn fora entrevistá-lo em Antuérpia, onde o artista mora, e ouviu dele: “Violence is the only structure underlying my work“.

Tuymans pinta cada tela em um só dia. Ele antes pensa sobre a temática, lê para se informar ou se inspirar, faz desenhos preparatórios, mas o quadro é terminado no mesmo dia em que é iniciado. Sua exposição no Palazzo Grassi, montada pela curadora da Coleção Pinault, Caroline Bourgeois, e por ele próprio, foi mostrada de março de 2019 a janeiro deste ano. Terminando logo antes de a pandemia afetar o mundo inteiro, ela pôde ser visitada pelo público, ao contrário de tantas outras.

Caminhando pelas salas do Palazzo Grassi, tomando pouco a pouco consciência do conjunto de obras, lendo o folheto que eu segurava nas mãos, surgia uma iluminação sobre a intenção do pintor. Cada quadro passava a ser parte de sua visão, sem ilusões, sobre o efeito cruel que seres humanos podem ter sobre outros.

O rosto de mulher que ilustrava o cartaz é uma pintura inspirada de uma série brasileira da Netflix, 3%, de que eu nunca ouvira falar. Descreve, eu soube depois, uma sociedade onde as desigualdades sociais são incentivadas, em vez de combatidas.

Meu quadro preferido foi talvez uma natureza-morta, de 2002, pertencente a François Pinault, que, medindo quase três metros e meio por cinco, é enorme.

A influência de Cézanne é clara. O espírito é sereno. Os objetos e frutas parecem flutuar. A tela porém está associada aos atentados de 11 de setembro de 2001, porque foi exposta pela primeira vez em Kassel, em 2002, na Documenta 11, na qual muitos artistas apresentaram obras que faziam referência aos atos terroristas. O que terá querido dizer Luc Tuymans? Evitou falar dos atentados? Ou, ao contrário, optou por uma natureza-morta — lembrete tradicional de nossa impermanência — para a eles aludir sutilmente? O folheto da exposição informa que talvez ele tenha querido mostrar que a vida resiste às catástrofes e renasce. Naturalmente, como toda natureza-morta, a tela pode, e talvez deva, ser vista pelo que, de forma objetiva, é: uma belíssima composição, em tons suaves, eternizando alimentos perecíveis, assim como um retrato registra para sempre um indivíduo que fenecerá.

A obra de arte que nos traz mais prazer estético não é necessariamente a que nos marca mais. Na exposição de Tuymans em Veneza, foi outra a tela a que dediquei mais tempo, a que mais me intrigou. Ela é a razão pela qual decidi escrever sobre a exposição, o que comecei a fazer em outubro, sem até este momento poder concluir. Uma obra de arte pode inibir a imaginação e a inteligência, ao provocar associações complexas, difíceis de examinar.

A tela se chama Le Mépris.

Como foi pintada em 2015, eu não a vira em 2011 em Bruxelas. No vídeo sobre a exposição disponível na página do Palazzo Grassi, Tuymans diz que, se o quadro — pertencente a Mimi Haas, que vive em São Francisco e é viúva de um dos herdeiros da Levi Strauss — não pudesse ter sido cedido para a exposição, ele talvez pintasse nova versão, por causa de sua importância como “significante”. Trata-se de uma simples chaminé, mas carregada de numerosas conotações culturais, históricas e metafóricas. É a chaminé da sala de estar da casa de Curzio Malaparte na ilha de Capri. Malaparte fala nela, rapidamente, em La Pelle, livro lançado em 1949 que empresta seu título à mostra de Luc Tuymans e no qual, como em uma obra anterior, Kaputt, o escritor mistura realidade e ficção. Os dois livros narram situações em parte imaginárias, dentro de eventos bem reais — a II Guerra Mundial em Kaputt e, no caso de La Pelle, o período imediatamente posterior à libertação de Nápoles pelas forças aliadas em 1943. Malaparte descreve a decadência moral dos napolitanos, de que participam alguns soldados e oficiais estrangeiros, enquanto outros mantêm a retidão. Mostra que a população, após a guerra, desejava sobreviver a todo custo, sem considerações de princípios, tendo como único objetivo salvar a própria pele. Malaparte e Tuymans revelam ambos a corrupção moral por baixo da superfície — pele no caso do italiano, tela no caso do belga.

Malaparte nos oferece esta descrição, em La Pelle: “é uma imensa chaminé e, ao fundo da lareira, há um cristal de Iena. Por entre as chamas, vemos o mar sob a Lua, os Faraglioni surgindo das ondas, os rochedos de Matromania, e o bosque de pinheiros e de carvalhos atrás da minha casa”. Capri, por si, já é desde a Antiguidade um conceito carregado de significados, sinônimo de beleza natural e de decadência humana, por ter sido cenário do refúgio de Tibério, cuja vida na ilha foi descrita por Tácito e Suetônio, por este último de forma tristemente detalhada.

A Villa Malaparte, sobre um promontório, olhando de três lados o mar Tirreno, é um famoso exemplo de arquitetura moderna. Foi construída por encomenda do escritor no final da década de 1930. Sua celebridade ficou comprovada, e foi consolidada, pelo fato de Jean-Luc Godard a ter usado como cenário do terço final de seu filme de 1963, Le Mépris (O Desprezo). No vídeo onde explica a exposição, Tuymans confirma seu amor pela obra de Godard, dizendo ser Le Mépris “um desses filmes épicos, que já não serão mais feitos”.

Godard extraiu o roteiro de um romance de Alberto Moravia, com o mesmo título. A história trata do fim da relação de um casal de franceses morando em Roma, interpretados por Michel Piccoli — cuja morte, em maio de 2020, aos 94 anos, talvez tenha me incentivado a terminar este ensaio — e Brigitte Bardot, então no auge da beleza e da fama. O personagem de Michel Piccoli, um dramaturgo, é sondado por um produtor americano, interpretado por Jack Palance, para refazer o roteiro de um filme, a ser dirigido por Fritz Lang — fazendo o papel dele mesmo — que recontará a Odisseia. O título alude ao fato de que a personagem de Brigitte Bardot percebe, ou supõe, que seu marido quer empurrá-la para os braços do produtor, por razões de interesse profissional e financeiro. Passa então a desprezá-lo, e com isso deixa de amá-lo. Em momento anterior seu marido já havia demonstrado desprezo social e intelectual por ela. Ao esbofeteá-la, irritado porque ela não quer ir à casa do produtor em Capri — a Villa Malaparte — ele diz: “Por que eu fui me casar com uma datilógrafa de 28 anos?”.

O filme de Godard é uma obra de arte talvez perfeita, pelas referências culturais, os diálogos, as atuações, a beleza plástica, a tonalidade das cores, a música de Georges Delerue e certas inovações do diretor. Entre os temas que aborda estão o processo de criação artística, a relação do ser humano com Deus (“O homem criou os deuses, não foram os deuses que criaram o homem”, diz Fritz Lang), o desprezo como um dos motores nas relações humanas, e o poder do dinheiro — no caso, o do produtor americano — no mundo da arte. Esse último ponto de Godard parece, em retrospecto, curiosamente relevante, considerando que vi a tela de Tuymans, pertencente a uma milionária americana, no palácio veneziano de um bilionário francês protetor das artes, e cujo gosto e cuja coleção sem dúvida influenciam, de mais de uma maneira, obras de novos artistas. A chaminé aparece em uma cena curta mas determinante do filme, quando o personagem de Michel Piccoli se senta, em um banco colocado frente a ela, entre Brigitte Bardot e Jack Palance, afinal disposto, mas tarde demais, a afastá-los e a salvar seu casamento.

Ao ver a tela de Tuymans em Veneza, não tive como escapar do conjunto de suas múltiplas referências culturais. Vira o filme na infância, na televisão, e lera La Pelle na adolescência. Em um dos salões do Palazzo Grassi, eu estava diante de uma pintura inspirada em parte por um filme de Godard, por sua vez extraído de um romance de Moravia; a chaminé, presente no quadro e no filme, existe realmente no interior de uma casa em Capri, construída pelo autor de La Pelle, livro que emprestava o título à exposição onde eu via o quadro.

Ao voltar ao Brasil das férias na Europa, eu reveria o filme e releria La Pelle, confirmando assim o impacto que o quadro me provocara. Enquanto visitava a exposição, em Veneza, voltei três ou quatro vezes à sala onde ele estava exposto. Em todas elas, demorei-me a examiná-lo. Admirei sua simplicidade, que contrastava com o luxo do palácio. Era, contudo, uma simplicidade ilusória, pelo aspecto maciço da chaminé e pelo número de camadas de referência que a obra sempre portará consigo. Tuymans, no vídeo, diz com relação ao seu quadro: “So, everything is not really what it seems“.

Além das culturais, razões pessoais, trazidas à tona naquele instante, grudavam-me em frente à pintura. Rememorei uma cena da primeira viagem a Veneza.

Naquele verão, paro uma tarde para comprar sorvete em um quiosque perto do Canal Grande. Na minha frente, há apenas um veneziano já de idade, a quem a vendedora sugere o sabor kiwi. Ele pergunta: “Kiwi? Cos’è, kiwi?”, ao que ela responde: “È una frutta esotica“. A fruta inicia então a sua surpreendente — existe sabor mais sem graça? — popularização pelo mundo e ninguém imagina ainda que um dia a Itália será um dos principais produtores daquele símbolo de “exotismo”. O veneziano deve ser bastante mal-humorado; ao se virar e me ver, pensando que sou francês, solta gratuitamente uma frase ofensiva sobre a França; quando eu lhe digo que sou brasileiro, o desprezo aumenta (“isso é pior ainda”) e vem a ofensa contra o Brasil. Aparentemente, ele acredita haver uma hierarquia no apreço devido aos países. Só a Itália fica no topo, e o Brasil abaixo da França.

Essa anedota sempre simbolizou, condensou, para mim, o desapontamento sentido naquela primeira ida a Veneza.   

Vendo e revendo mais de uma vez a tela de Luc Tuymans, pensei naquela outra tarde de verão, de tantos anos antes. Perguntei-me como teria sido a vida daquele homem. Feliz, ele não me parecera ser. Provavelmente, sequer estaria mais vivo. Perguntei-me se aquela amostra de desprezo nacionalista do italiano servira de impulso para que eu virasse diplomata — na época, minha ambição profissional parecia ser outra. Percebi que eu nunca saberia a razão pela qual a cena tivera, na hora, importância, mas que, de alguma maneira, ela contribuíra, junto com tantas outras, para minha presença ali, naquele momento, no Palazzo Grassi. Nossas vidas são o resultado de uma soma de fatores, acumulados ao longo do tempo, muitas vezes desapercebidos. Entendi que, entre a longínqua tarde na primeira passagem por Veneza e a tarde da visita à exposição de Tuymans, diferentes existências haviam transcorrido, haviam se superposto em mim, e que de muitas delas eu talvez nem tivesse consciência. Ao mesmo tempo, algumas haviam sido buscadas. Ao mudar nossa própria vida, acabamos modificando também a nossa personalidade. Ao entender, frente a Le Mépris, que eu sentira desprezo por Veneza na primeira viagem, surpreendi-me. Pensava ter havido apenas, sempre, a admiração que hoje sinto. E então, em vez de saudosismo ou tristeza, senti reconforto de não ter mais 21 anos.

Começava a anoitecer. A galeria ia fechar. Além de mim e dos guardas, já não havia ninguém. Saí. Minha mulher me esperava no hotel. Com pressa, peguei um vaporetto que parecia desejar meu embarque. No Canal Grande, os últimos raios de sol se extinguiam. Luzes se acendiam nos palácios e nas casas, nos hotéis e nos bares, refletindo-se na água. Os edifícios iam passando, sucedendo-se uns aos outros, enquanto o barco, implacável, avançava pelo canal. Sorri comigo mesmo, diante de um tão ostensivo simbolismo.

Este texto foi publicado em Estado da Arte, em 3 de julho de 2020

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Gérard Philipe e a Fama

Gérard Philipe e a Fama

Albert Camus sugere, em Le Mythe de Sisyphe, que toda fama é passageira; do ponto de vista da estrela Sirius, mesmo o renome de Goethe será efêmero, ainda que perdure por dez mil anos. Poucas horas antes de sua morte, em novembro de 1959, o ator Gérard Philipe releu o livro de Camus. Não sabemos se viu o comentário sobre a transitoriedade da fama. Não sabemos se ele suspeitava que estava morrendo. Tinha 36 anos.

Seu desaparecimento foi abrupto, causado por uma forma aparentemente rara de câncer no fígado, descoberto durante uma operação banal, duas semanas antes de ele falecer. Jovem, carismático, talentoso, o ator era extremamente popular. Sua celebridade era mundial.

Nos palcos, ele teve como mentor Jean Vilar, lendário diretor do Festival de teatro de Avignon e do Théâtre National Populaire em Paris. Foi particularmente incensado o seu desempenho como Rodrigue em Le Cid, que interpretou pela primeira vez em Avignon, em 1951, dirigido por Vilar.

Explica-se assim o título do livro sobre Gérard Philipe, Le dernier hiver du Cid, publicado em 2019 por seu genro, o jornalista e escritor Jérôme Garcin. Trata-se de uma crônica, dia após dia, das últimas semanas de vida do ator. A leitura do curto volume — menos de duzentas páginas — é fascinante. O texto é um ato de devoção de Jérôme Garcin. O amor pela sua mulher, Anne-Marie, filha do ator e personagem do livro, motivou sem dúvida a redação. Não há aqui revelações constrangedoras. O Gérard Philipe descrito por Garcin — que não o conheceu — é aquele de quem gostamos, cuja imagem valorizamos: intenso, vivendo de forma febril, bom pai de família, marido apaixonado, amigo leal, profissional dedicado à sua arte. O que nos é oferecido é a figura de um ser humano apto a ser idealizado.

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Quando o livro começa, é verão e a família está na Provença, na casa de férias em Ramatuelle, perto de Saint-Tropez. A atmosfera é de otimismo e felicidade, e o ator faz planos para o futuro próximo. Dentro de alguns meses, começará a rodar uma versão cinematográfica de Le Comte de Monte-Cristo. Estuda a possibilidade de interpretar Hamlet nos palcos. Uma constante dor no ventre, um cansaço contínuo criam indagações, mas não preocupação excessiva. Ele acaba de voltar do México, onde trabalhou em um filme de Buñuel, La Fièvre Monte à El Pao. A indisposição é atribuída aos hábitos alimentares adotados em Acapulco. Nos primeiros dias de setembro, ele faz uma rápida viagem a Paris, para participar do lançamento de seu penúltimo filme, Les Liaisons dangereuses, dirigido por Roger Vadim, no qual sua parceira é Jeanne Moreau. No começo de outubro, vai a Stratford-upon-Avon para ver uma montagem por Peter Hall de Coriolanus, com Laurence Olivier. Viramos as páginas, sonhando com esses nomes pertencentes à mitologia do século XX, esquecendo-nos de que construir essa existência, exitosa nos planos pessoal e profissional, terá requerido dedicação, esforço, trabalho.

Na volta a Paris, no começo do outono, o ritmo do texto se acelera. O mal é atribuído a uma ameba. Uma operação é marcada para 9 de novembro. A partir daí, seguimos o calendário cotidianamente. É uma leitura angustiante, pois sabemos como, em 25 de novembro, tudo terminará.

Ao se internar em 5 de novembro, Gérard Philipe leva uma pilha de livros com ele. “Essencialmente”, nos diz Jérôme Garcin, “peças de Racine, Molière, Marivaux”. Há também quatro traduções de Hamlet; três por escritores prestigiosos — André Gide, Marcel Schwob, Marcel Pagnol — e a de um renomado tradutor do inglês, Pierre Leyris. O ator quer interpretar o príncipe dinamarquês na primavera seguinte, dirigido por Peter Brook. Em uma caderneta, faz anotações de caráter pessoal: “Quando o ator não está atuando, ele se sente doente, deprimido, inquieto”. Consagrado em Le Cid, deseja atuar em outras peças de Corneille. Pensa em montar tragédias gregas, talvez como diretor. No dia 19 de novembro, após internação de dez dias, Gérard Philippe sai do hospital. Sua mulher decidiu, seguindo conselho do médico que o operou, não dizer a ele que lhe sobram apenas poucos dias ou semanas de vida. Esse médico, embora isto não seja dito em Le dernier hiver du Cid, é um tio-avô do próprio Jérôme Garcin. No carro conduzido por um amigo do casal, no trajeto da clínica até o apartamento na rue de Tournon, perto dos jardins do Luxembourg, Anne Philipe nota como a aliança ficou larga no dedo do marido. Em quatro dias, estará viúva.

Em casa, ao observador desatento tudo parece normal. O ator recupera-se da sua operação, vê os filhos, recebe na sala amigos, a mãe, faz planos de férias. Em seu último dia de vida, Gérard Philipe parece melhorar. O médico, ao visitá-lo, surpreende-se com sua vitalidade. Recebe um amigo e anota peças de Eurípides, além de reler Le Mythe de Sisyphe — para nós, que temos o dom do conhecimento retrospectivo, é estranho saber que Camus também morreria de forma repentina, aos 46 anos, seis semanas depois do ator. Em Le Mythe de Sisyphe, que li há alguns anos, Camus discorre bastante sobre o trabalho dos atores. Com senso teatral, Jérôme Garcin comenta que o sogro, ao reler o livro em suas últimas horas de vida, nota o seguinte trecho: “Para o ator, uma morte prematura é irreparável. Nada pode compensar a soma de rostos e de séculos que, sem isso, ele teria percorrido”. Ao reler essa frase de Camus no livro de Garcin, percebi ser ela crucial para a minha visão sobre as artes cênicas em geral. Nunca saberemos como teria sido o Hamlet de Gérard Philipe. Para quem gosta de teatro, isso é uma grande perda. Penso que, de alguma maneira, a história do personagem de Hamlet deixou de ganhar mais uma dimensão, porque um ator como Gérard Philipe não lhe deu vida. Se ele tivesse sobrevivido por mais trinta anos que fosse, e morrido digamos em 1989, aos 67 anos, novas gerações, a minha inclusive, poderiam tê-lo visto no palco e talvez suas vidas sofressem modificações por isso. Naturalmente, já não seria o mesmo Gérard Philipe de 1959. Interpretações suplementares, outras experiências de vida teriam feito evoluir sua personalidade e sua técnica dramática. Devemos porém supor que, em 1989, em 1995, seu talento teria sido ainda maior.

Gérard Philipe interpretara, aos 22 anos, em 1945, o papel-título na primeira produção de uma famosa peça de Camus, Caligula. Quando lemos que ele, em seu último dia de vida, estava com um livro de Camus nas mãos, um ciclo parece se fechar. Quase que obedecendo à necessidade futura de efeito literário de seu genro, o ator morre naquela madrugada.

Jérôme Garcin gosta de escrever sobre vidas breves. Anteriormente, eu lera um único livro seu, Olivier, em que fala de seu irmão gêmeo morto por atropelamento aos cinco anos. Foi uma leitura particularmente perturbadora para mim, ao me tocar de maneira direta. Outro volume seu é sobre o pai, morto aos 45 anos em um acidente de equitação.

Fiz a leitura de Le dernier hiver du Cid em um domingo no final de fevereiro, recém-chegado a Kuala Lumpur. Não conseguia largar o volume. Ao me aproximar do dia da morte do ator, caiu sobre mim uma tristeza. Gostaria que a vida não fosse assim, que as pessoas não morressem jovens, sem terminar aquilo que estão destinadas a fazer. Diante da iminência da morte do ator, precisei parar a leitura por algumas horas. O talento de Garcin, e seu envolvimento emocional na história narrada, tornavam a proximidade do desfecho algo quase insuportável. Saí de casa a pé. Passeei pelo parque desenhado por Roberto Burle Marx aqui em Kuala Lumpur. A pandemia era ainda uma ameaça vaga na Malásia, o isolamento social não havia sido decretado, a vida das pessoas, dos animais e das plantas ao meu redor seguia seu rumo usual. Seguia porém em direção ao Nada, já que toda existência é absurda e, afinal, do suor, das lágrimas e também das alegrias, um dia nada fica. Como outras vezes antes, perguntei-me o quanto do parque respeita, hoje, o desenho original de Burle Marx. Quanto tempo dura a obra de um artista?

Voltei para casa, impus-me a tensão de terminar o livro. Li sobre a morte, talvez sem sofrimento pois ocorrida durante o sono, li sobre a comoção nacional que ela provocou, li sobre o enterro em Ramatuelle, com o cadáver vestindo os trajes que o ator usava no palco para interpretar Rodrigue, incorporando assim o Cid até depois da morte.

Em outubro de 2019, Garcin participou, para falar de seu livro, de uma emissão do programa La grande librairie, intitulada “Assuntos de família: escrever sobre eles é uma traição?”. Sobre o programa e o entusiasmo de François Busnel ao conduzi-lo, escrevi há um ano em Um lugar encantado. Aos escritores convidados naquela noite, Busnel colocou a questão sobre se, ao escrevermos sobre as pessoas próximas a nós, estamos quebrando a sua confiança. No caso de Jérôme Garcin, o problema não se colocava já que Le dernier hiver du Cid não degrada a imagem do sogro do autor. Garcin respondeu que, para ele, escrever é um ato de amor, que seu objetivo nunca poderia ser o de ferir seus próximos. Ao terminar de escrever o texto, decidira mostrar o manuscrito à sua mulher, para que ela julgasse se ele podia publicá-lo.

No livro como na entrevista, Garcin aborda a questão da fama de Gérard Philipe. Na televisão, declarou sem rodeios já não ser o ator tão conhecido: “la nouvelle génération ne sait plus qui c’est“. Possivelmente, referia-se ao talento do sogro, não tanto ao seu rosto ou ao seu nome. Jean Vilar não permitia que as montagens do Théâtre National Populaire fossem filmadas. Não podemos, por isso, ver hoje como atuava Gérard Philipe em Le Cid, em Lorenzaccio, em O Príncipe de Homburgo, em Ruy Blas, em Richard II. Meu apreço grande por essa peça de Shakespeare me faz lamentar não poder ver uma gravação do ator no papel do rei decaído. Garcin admitiu a François Busnel sua contrariedade ao ir, no verão de 2019, ao Festival de Avignon e não ver uma referência sequer ao fato de que cumpriam-se sessenta anos da morte do sogro, que contribuiu para a celebridade do Festival, do qual foi, por muitos anos, a figura mais emblemática.

É possível que ninguém tenha pensado em Gérard Philipe em Avignon em 2019, mas eu lá pensei nele em 2014. Naquele ano, no Festival, com minha mulher e minha filha, assisti a uma nova produção de O Príncipe de Homburgo, de Heinrich von Kleist. Nessa peça, sob a direção de Jean Vilar, Gérard Philipe cobriu-se de louros interpretando o personagem principal, no Festival de Avignon de 1951, de 1952 e de 1956, ali mesmo onde minha família e eu víamos a nova produção, no pátio interno do Palácio dos Papas. Em 2014, achamos a peça tediosa, apesar dos elogios da crítica. Saí pensando se seria por causa da tradução ou da produção ou simplesmente por causa do texto em si, de sua temática, de sua argumentação. Como puderam Jean Vilar e Gérard Philipe brilhar com aquele material? Produções teatrais têm sua lógica própria; um detalhe pequeno, difícil de identificar, pode criar, aos olhos de um espectador específico, uma impressão favorável ou negativa. A sensibilidade coletiva de uma época tampouco é permanente, e diferentes gerações podem ter diferentes leituras de um mesmo fenômeno estético.

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Garcin não omite o mau conceito em que os diretores da Nouvelle vague tinham Gérard Philipe. François Truffaut parece ter tido especial antipatia pela sua persona nas telas. Le dernier hiver du Cid nos diz que Truffaut  escrevia sobre o ator coisas como: “terror dos bons diretores de cinema”, “comprometido com personagens melancólicos e tuberculosos de olhar marejado”, “ídolo do público feminino que tem entre 14 e 18 anos”. Na entrevista a François Busnel, Jérôme Garcin especula se essa atitude antagônica não era em parte causada por divergências ideológicas. O fato é que muitos dos filmes em que atuou Gérard Philipe estão esquecidos. Seu último, La Fièvre Monte à El Pao, é uma das obras mais obscuras de Buñuel. Nem a beleza imponente da atriz mexicana María Félix consegue salvá-la.

Criança, adolescente, vi alguns de seus filmes na televisão, ou em retrospectivas no  cinema. Sua aura perdurava ainda. É impossível, para mim, pensar em Julien Sorel e não visualizar o personagem tal como encarnado pelo ator na versão cinematográfica de Le Rouge et le Noir dirigida por Claude Autant-Lara em 1954. Para várias gerações, é inesquecível sua atuação em Fanfan la Tulipe, filme de 1952 dirigido por Christian-Jaque, onde representa um herói do século XVIII livre, sorridente, enérgico. Suponho que o personagem de Fanfan la Tulipe tenha contribuído para a fama de personalidade luminosa do ator.

Na Internet, encontrei com facilidade uma cópia integral, embora de má qualidade, de um filme de 1954 dirigido por René Clément e estrelado por Gérard Philipe, Monsieur Ripois, a que eu nunca assistira antes. Trata-se de uma história contemporânea, passada em Londres. É um excelente filme, e a interpretação do ator é bem diferente dos “personagens melancólicos de olhar marejado” denunciados por Truffaut. Seu papel é o de um casanova moderno. Na melhor cena, Ripois e a mulher por quem ele naquele momento está interessado são surpreendidos na rua pela chuva. Como quem não quer nada, ele menciona que mora ali perto. Ela finge não entender e sugere de eles irem à National Gallery. Nesse momento, encarnando Ripois e seu vazio interior, Gérard Philipe, que está de costas para o espectador, vira o rosto para trás, olha em direção a um ponto à nossa direita e retruca, com expressão amuada, olhar angustiado, voz contrariada: “La peinture me déprime“. É um grande momento cinematográfico.

Jérôme Garcin termina o livro deixando-nos na companhia de um antigo ator, e professor de arte dramática, que dera aulas a Gérard Philipe. Em seu apartamento, enlutado, Georges Le Roy pensa naquele que, com sua morte, deixara-o sentindo-se “órfão de um filho”. Um mês antes, os dois haviam se visto, e o ator mais jovem, feliz, dissera que proximamente encarnaria Hamlet. Sentado em sua poltrona, melancólico, o velho mestre lembra daquele momento. Afinal, Gérard Philipe nunca pôde dizer nos palcos “Ser ou não ser, eis a questão”.

Meu pensamento, ao terminar o livro, foi porém de consolo. Afinal, o ator tão celebrado “foi”; viveu, atuou, trouxe alegrias, inquietações, indagações, certezas ao seu público. Foi o que pôde ser, no tempo de vida, tão curto, a que teve direito. O importante é o que ele trouxe a quem o conheceu ou a quem pôde vê-lo no palco e o que pode trazer ainda a quem o vê nas telas. Questões sobre a durabilidade da obra são irrelevantes. O livro trata da rápida decadência física e da morte de Gérard Philipe para, no fundo, nos falar da beleza da vida.

(Versão deste texto foi anteriormente publicada, em 15 de abril, na revista literária São Paulo Review of Books)

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The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

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Em 1885, venderam-se em leilão, em Londres, 35 cartas escritas por John Keats à sua noiva, Fanny Brawne. Após a morte do poeta aos 25 anos, em 1821, Fanny casara-se, tivera filhos e morrera em 1865, aos 65 anos. Um de seus filhos vendeu as cartas, as quais aliás já haviam sido publicadas em 1878. Alguns admiradores de Keats condenaram a publicação e a venda, julgando que as cartas jogavam luz menos sublime sobre sua personalidade. Estimaram que a transparência com que Keats escrevera a Fanny Brawne não se podia compartilhar com as multidões.

Oscar Wilde assistiu ao leilão e, aparentemente, comprou ao menos uma das cartas. Isso não o impediu de escrever, um dia antes, um famoso soneto, intitulado On the Sale by Auction of Keats’ Love Letters, onde critica a venda, declarando: “I think they love not art/Who break the crystal of a poet’s heart/That small and sickly eyes may glare and gloat”. O soneto, além de sua beleza intrínseca, permanece relevante como apelo ao direito à vida privada do artista.

Três anos depois, em 1888, Henry James publicou uma de suas melhores novelas, The Aspern Papers. Na estória, um Narrador americano, nunca nomeado, fervoroso admirador e estudioso da obra de um poeta, compatriota seu, Jeffrey Aspern, visita Veneza em busca de cartas ou documentos escritos pelo seu ídolo. Aspern, como inventado por Henry James, é um poeta da Era Romântica, contemporâneo de John Keats, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley e que, como eles, morrera jovem, cerca de sessenta anos antes. Mantivera na Europa um romance com uma americana, Juliana Bordereau, que vive, anciã e solteira, em um palazzo em Veneza, na companhia de uma sobrinha, também solteira, nomeada Tita em 1888, e Tina nas edições posteriores. O Narrador acredita que os documentos inéditos de Aspern conservados por Juliana contribuiriam para um maior conhecimento da personalidade do poeta e compreensão de sua obra.

O conto de Henry James pode ser visto como uma crítica ao fato de o limite entre o privado e o público tornar-se fluido por causa da fama — no caso, a literária, pois essa era uma época em que poetas e romancistas podiam ser verdadeiras celebridades. A quem pertencem as cartas escritas por Jeffrey Aspern a Juliana Bordereau? A ela própria; à imagem do poeta a ser preservada; ou ao seu público de idólatras, dos quais o Narrador do conto é o sacerdote? Claramente, o Narrador acredita que ele, ao menos, tem o direito de ler as cartas, na qualidade de principal especialista em Aspern. Questões ligadas à privacidade são um dos temas da novela, a qual, como sempre no caso de Henry James, possui vários níveis de leitura.

Sabemos de onde veio a inspiração para a redação de The Aspern Papers. Nos cadernos onde anotava ideias para futuras obras, em janeiro de 1887 Henry James, que estava então em Florença, relata ter ouvido uma estória ocorrida naquela cidade anos antes. Um crítico de arte e “Shelley-worshipper” americano, Edward Silsbee, soubera que Claire Clairmont, a ex-amante de Byron — e talvez também de Shelley, casado com sua hermanastra, Mary Godwin, a autora de Frankenstein — morava, aos 80 anos, em Florença, na companhia de uma sobrinha de cerca de 50 anos. O admirador de Shelley introduziu-se como locatário na casa de tia e sobrinha, na esperança de, quando Claire Clairmont morresse, colocar as mãos em cartas de Shelley e Byron que ela guardava. Claire morreu em 1879; a sobrinha declarou que daria as cartas a Silsbee se eles se casassem. Silsbee fugiu. Comenta Henry James nos seus cadernos: “Certainly there is a little subject there: the picture of the two faded, queer, poor and discredited old English women — living on into a strange generation, in their musty corner of a foreign town — with these illustrious letters their most precious possessions“.

A novela segue o mesmo roteiro. Henry James a escreveu em Veneza, ao longo de 1887, o que contribuiu para tornar particularmente crível a evocação da cidade no texto. Minha frase predileta talvez seja a seguinte, referente a um passeio noturno de gôndola que fazem Tina Bordereau e o Narrador, inclusive pelo Canal Grande: “She had forgotten how splendid the great water-way looked on a clear, hot summer evening, and how the sense of floating between marble palaces and reflected lights disposed the mind to sympathetic talk. We floated long and far […]“. A novela, para padrão de Henry James, possui estilo e diálogos diretos. Como, além disso, trata da apropriação que admiradores de um artista fazem de sua obra e de sua vida pessoal, entende-se que The Aspern Papers tenha inspirado escritores, músicos e diretores de cinema. A estória já foi levada às telas de cinema ao menos cinco vezes e já gerou ao menos duas peças de teatro, além de duas óperas.

Há muitos anos, em 1984, assisti em Londres a uma das versões teatrais da novela. No palco, Vanessa Redgrave interpretava a sobrinha, Tina Bordereau. Christopher Reeve, no auge da fama hollywoodiana, por causa da série de filmes em que interpretava o papel de Super-Homem, fazia o Narrador. Juliana Bordereau era interpretada por Wendy Hiller, famosa em seu tempo, nas telas como nos palcos. Essa adaptação teatral fora produzida originalmente em 1959, e seu autor era o pai de Vanessa, Michael Redgrave, que interpretara o Narrador na produção original. Na versão teatral, o Narrador ganhava um nome, Henry Jarvis, tendo portanto as mesmas iniciais de Henry James, misturando assim criador e personagem.

Guardo ainda o programa da produção londrina de 1984, onde vejo que escrevi ter preferido versão cinematográfica da novela, intitulada Aspern, a que assistira pouco tempo antes, dirigida por Eduardo de Gregorio e estrelada por Alida Valli como Juliana, Bulle Ogier como Tina e Jean Sorel como o Narrador. Eu era então muito, muito jovem, e sentia uma paixonite por Bulle Ogier. Além disso, desde sempre admiro o talento de Alida Valli e seus olhos profundos e acariciantes. A Arte, porém, nos prega peças. Passadas tantas décadas, eu já nem me lembrava dessa versão cinematográfica, até ler, há poucos dias, meus comentários a respeito no programa da peça. Mesmo agora, nenhuma imagem do filme me vem à cabeça. Da produção teatral, de que manifestei no programa não ter gostado, nunca me esqueci.

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The Aspern Papers chega às telas novamente, em uma versão dirigida por Julien Landais, baseada em uma adaptação francesa, para o teatro, de Jean Pavans, que colaborou com Landais e Hannah Bhuiya no roteiro do filme. Vanessa Redgrave, que vi no palco como a sobrinha, na versão teatral escrita por seu pai, vive agora a tia. Sua filha, Joely Richardson, vive a sobrinha. Jonathan Rhys Meyers faz o papel do Narrador.

Como a crítica tem sido severa com o filme, direi imediatamente que gostei da versão de Landais. Em seu primeiro longa-metragem, o ex-modelo — de que eu nunca ouvira falar até assistir ao filme — foi ambicioso e é provável que não possuísse ainda a experiência para reciclar uma obra tão complexa e já mastigada por tantos artistas antes dele. Há, contudo, muito a ser recomendado nesta nova adaptação da obra-prima de Henry James. Antes de mais nada, os diálogos são fiéis à novela, da qual frases inteiras foram transpostas ao filme. Landais manteve a ação no período histórico em que a estória de Henry James se desenvolve, os anos 80 do século XIX. O palazzo veneziano ajardinado que inspirou James para descrever a residência das Bordereau foi usado como cenário. Algumas inovações de Julien Landais são bem-vindas, como atribuir papel maior à amiga do Narrador, Mrs. Prest, em uma brilhante atuação de Lois Robbins. O diretor criou novos personagens  — como uma filha e uma amiga para Mrs. Prest, e uma filha para essa amiga — que nada acrescentam ao desenrolar do enredo, mas permitem a inserção de novos cenários e diálogos e rompem a claustrofobia das cenas no palazzo das senhoras Bordereau. Alguns puristas, aliás, se irritarão com isso, pois o aspecto claustrofóbico é importante na novela.

Outra inovação foi decididamente pouco benéfica para o filme. Julien Landais insere cenas em flashback mostrando o romance entre Jeffrey Aspern e Juliana Bordereau. Vai além, e cria a figura de um “segundo poeta”, que vive com o casal um triângulo amoroso. Essas cenas são banais e desnecessárias. Vemos o trio beijando-se, dançando, os três com ar melancólico, suspirando. No final do filme, quando Tina Bordereau sente-se rejeitada pelo Narrador, queima as cartas de Aspern mas antes lê algumas em voz alta. Seu teor, totalmente inventado pelos roteiristas, mostra que Aspern, nesta versão cinematográfica, amava o “segundo poeta” ao menos tanto quanto amava Juliana Bordereau. Os roteiristas parecem assim ter querido fazer, na figura de Jeffrey Aspern, um condensação de Byron, Keats e Shelley. Inventam a forma como morreu Aspern, afogado como Shelley. Ele é bissexual, como Byron. E quando vemos seu rosto em uma miniatura, reconhecemos imediatamente a pose de Keats em um famoso retrato.

Este é um filme que parece ter sido feito para que Julien Landais se divertisse com seus amigos. Nos créditos, entre os produtores aparecem o príncipe Charles-Henri de Lobkowicz, François Sarkozy (irmão do ex-presidente da França) e James Ivory, que no passado dirigiu adaptações melhores de obras de Henry James, inclusive, em 1984, The Bostonians, com Vanessa Redgrave e Christopher Reeve. Entre os atores, nos pequenos papéis inventados pelos roteiristas, ou fazendo apenas uma breve aparição, há outros sobrenomes ilustres: Daphne Guinness, Poppy Delevingne, Morgane Polanski (filha de Roman Polanski e de Emmanuelle Seigner), além de modelos aparentemente muito famosos. Em resumo, se você pertence à elite social, econômica, cinematográfica ou do mundo da moda na Europa, suas chances de estar envolvido nesse projeto de Julien Landais eram bem grandes. É fácil, porém, tratar tudo isso com esnobismo intelectual. A verdade é que a participação de Poppy Delevingne no papel, criado para essa adaptação, de amiga de Mrs. Prest, signora Colonna, é irresistível. Morgane Polanski e Barbara Meier, nos papéis de filhas da signora Colonna e de Mrs. Prest, trazem um pouco de brisa e esperança a uma estória que é, também, sobre as desilusões acumuladas em toda vida humana ao longo do tempo.

Além da infeliz ideia de mostrar flasbacks do triângulo amoroso inventado por ele, Landais tomou outra iniciativa que prejudicou o filme: escalar Jonathan Rhys Meyers como o Narrador. O ator aparece em praticamente todas as cenas. Irlandês de nascimento, deram-lhe um acento americano carregado, nunca ouvido antes em filme algum. Sua atuação é artificial, pouco convincente, empostada, e parece a de um adolescente sem talento em produção teatral em final de ano na escola. Estamos longe do talento que aparentara ter em 2005, em Match Point, dirigido por Woody Allen. Ele é um dos muitos produtores executivos listados nos créditos em The Aspern Papers. Terá Julien Landais sido obrigado a aceitar essa terrível interpretação? Ou terá a atuação de Jonathan Rhys Meyers sofrido as consequências da inexperiência de Julien Landais atrás da câmera?

Em compensação, temos direito à presença na tela de Vanessa Redgrave e Joely Richardson. Mãe e filha dominam o filme. Justificam a ida ao cinema. No palco no papel de Tina, em Londres, há tantos anos, Vanessa Redgrave não me convenceu. Era uma presença forte demais para representar uma mulher desinteressante. Na tela, como Juliana, ela é impressionante. É magistral a forma como, em uma cena, dialogando com o Narrador, apenas levantando um dos dedos ela cativa a atenção. Estamos na presença de uma atriz excepcional, mítica, com décadas de experiência nos palcos e nas telas, herdeira de ilustre tradição familiar e que não decepciona. Ao contrário, ela recompensa o público que, há muitos anos, acompanha sua carreira, e dá a entender que tudo o que vimos até aqui era apenas uma preparação para a sua Juliana Bordereau.

Joely Richardson é surpreendente como Tina Bordereau. Mostra a força, a capacidade de sedução da personagem, mas também sua vulnerabilidade, a inocência, a retidão. Enquanto que a novela termina reiterando a frustração do Narrador, tempos depois, pelo fato de nunca ter colocado as maõs nas cartas de Aspern, no filme o que vemos na última cena é a libertação de Tina. Partindo de Veneza em uma gôndola, ela joga na laguna o anel que fora da tia e, antes dela, de Jeffrey Aspern. Sorrindo, abandona o passado. Recomeçará a vida em outra parte, sozinha mas talvez feliz de não ter tido êxito na tentativa de amarrar o seu destino ao do medíocre Narrador.

The Aspern Papers – Ficha técnica IMDb

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O Mar por toda parte

O Mar por toda parte

Passei este ano o melhor Carnaval do mundo: com a minha mulher, na casa onde nos casamos, na beira da praia, acompanhados por silêncio e tranquilidade, rodeados pelo oceano de um lado e pela Mata Atlântica do outro.

Levei comigo alguns livros, mas isso não teria sido necessário, pois a casa contém, ainda intacta, a biblioteca secundária de meus sogros. Na postagem O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks aludi a essa casa. O que não disse, naquela ocasião, é que o prazer de lá estar, ao longo dos anos, inclui o de mergulhar em sua biblioteca. Fico lendo na praia, na varanda, à beira da piscina ou na sala onde me casei, de onde observo, pelas paredes de vidro, o sol se levantar ou cair no horizonte, ouvindo e vendo o mar.

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Ao longo de sucessivos férias e feriados na praia, passei dos romances de F. Scott Fitzgerald — foi nessa casa que aprendi a gostar dele — à monumental biografia, em quatro volumes, do primeiro duque de Marlborough, John Churchill, escrita por Winston Churchill, seu descendente, e publicada entre 1933 e 1938. Um volume, aliás, o segundo, desapareceu. Sempre me pergunto onde terá ido parar. No Carnaval, toquei no assunto com a minha mulher, que respondeu, meditativamente: “Não sei. Ninguém sabe. Sumiu faz muito tempo”. Isso só confirmou minha opinião de que os livros possuem vida própria.

Marlborough: His Life and Times voltou a despertar minha atenção recentemente, porque o duque e sobretudo sua mulher, Sarah Jennings, são personagens do extraordinário filme de Yorgos Lanthimos, The Favourite, que era meu preferido na corrida ao Oscar. O filme oferece uma visão pessoal do diretor sobre a relação entre Sarah e a rainha Anne, que reinou de 1702 a 1714. Lembrando que a amizade entre elas começara na infância e fora durante décadas “deep and strong“, Churchill nos diz que em 1709 essa relação já estava desgastada: “Nothing remained of that remarkable partnership except the opportunities of quarrel“, o que atribui à personalidade forte e difícil de sua antepassada.

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Winston Churchill, neto do sétimo duque de Marlborough — e nascido no palácio de Blenheim, a pouco modesta casa de campo da família, construída pelo primeiro duque e Sarah — ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1953, escreveu com a biografia de seu antepassado uma obra monumental. A edição da casa de praia, embora tenha cerca de mil páginas, é abreviada. O original chega ao dobro. É uma leitura fascinante. John Churchill foi um celebérrimo e vitorioso general na Guerra de Sucessão da Espanha. Na visão de seu descendente, suas vitórias fizeram do reinado de Anne um dos momentos mais ilustres da história inglesa.

Churchill examinou nos arquivos de Blenheim as cartas de amor escritas por John Churchill a Sarah, entre 1675 e 1677. Os dois eram então jovens, solteiros, vivendo o início da paixão e, embora exercessem ambos cargos na Corte do rei Carlos II, tio da futura rainha Anne, não detinham ainda o poder e o prestígio que teriam mais tarde. É comovente ler as cartas onde expõe seu coração o futuro duque e general, que chegou a ser, durante algum tempo, o homem público mais importante do país. Escreve John Churchill à ainda adolescente Sarah Jennings: “É cruel, minha Alma, ser forçado a estar em um lugar sem que eu possa ter a esperança de vê-la”; “Assim que eu soube de seu mal-estar, juro, sem afetação, que também fiquei doente”; “Se você não for gentil comigo, eu a amo tanto que não poderei sobreviver, pois você é minha vida, minha alma, tudo que eu mais valorizo neste mundo”.

Há muito tempo, outras cartas chamavam minha atenção na biblioteca. Elas estão contidas em um volume de capa dura que, com a lombada branca meio surrada, na foto abaixo aparece na prateleira do meio, ao lado de Galápagos, de Kurt Vonnegut, um dos autores de predileção de minha sogra e, aliás, também de meu pai. Trata-se de uma edição de 1949, na coleção Clássicos Jackson, das cartas do Padre Antonio Vieira.

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O pregador, grande favorito de minha mulher, começou a me interessar no início do nosso namoro, pois ela já possuía então a edição de 1959 dos Sermões, em cinco volumes, em papel bíblia, pela editora Lello & Irmão, do Porto. É nessa edição que acabo de ler, por exemplo, o Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma de 1644, em que o autor disseca os sentimentos de amor, amizade e ódio e suas correlações. Diz ele: “Isto que no mundo se chama amor, é uma coisa que não há, nem é: é quimera, é mentira, é engano; é uma doença da imaginação e por isso basta para ser tormento”. De maneira geral, os sermões de Vieira que abordam os temas de amor ou amizade postulam que todo afeto terrestre é uma ilusão. Um argumento frequente seu, pode-se resumir, é que só Jesus sabe amar e, por isso, só ele merece o nosso amor.

Entre as setenta cartas incluídas no livro da biblioteca da praia, porém, vemos em várias um Vieira afetuoso. Carta escrita em 1653, do Maranhão, ao Padre Francisco de Morais termina da seguinte maneira: “Ah amigo, quem pudera trasladar-vos aqui o coração, para que lêsseis nele as mais puras e as mais importantes verdades, não só escritas ou impressas, senão gravadas”. Trinta anos depois, em 1683, da Bahia, Vieira escreve ao Cônego Francisco Barreto: “A falta de carta de V. Mcê, em tanta continuação de navios, me tinha muito sentido, posto que não desconfiado, como quem tão seguro está na verdade do afeto de V. Mcê”.

Dependendo do interlocutor, do momento, do local onde foram escritas, das circunstâncias históricas, as cartas mostram Antonio Vieira preocupando-se com política, economia, diplomacia, religião, catequese e direitos de indígenas brasileiros, etnografia, profecias, amizade. O que nunca vemos nas cartas é Antonio Vieira frio, indiferente. Há uma intensidade constante. Nas cartas, como nos sermões, há no tom uma teatralização do mundo.

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Vieira era um temperamento peripatético. Em uma ocasião, há alguns anos, lendo as cartas na praia, listei os muitos lugares onde ele esteve, além de Portugal: Bahia, Maranhão, Pará, Ceará, Olinda, Cabo Verde, Roma, Haia, Dover, Florença, Paris, Rouen, Açores.

Ouvindo as ondas morrerem quase que no muro do jardim, eu ficava maravilhado com a coragem com que Vieira, no século XVII, subia aos barcos frágeis do seu tempo. Sete vezes, ele atravessou o Atlântico; sofreu tempestades, naufrágios e o desconforto de viagens que podiam durar dois meses, e bem mais se surgiam contratempos. Ao menos duas vezes, ele foi recolhido por piratas.

Em dezembro de 1652, o barco em que ia de Portugal ao Maranhão precisou, por razões de mau tempo, aportar por larga temporada em Cabo Verde. Escreve Vieira em carta ao Padre André Fernandes: “Faço esta em Cabo Verde, aonde chegamos com trinta dias de viagem, obrigados dos ventos contrários e de todos os outros trabalhos de tempestades, calmarias e corsários, que em mais compridas navegações se costumam padecer”. Em 1654, indo do Maranhão a Portugal, sofre novo naufrágio e aporta nos Açores. No Sermão de Santa Teresa, pregado na Ilha de São Miguel, declara: “Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas, como a em que eu e os companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar, e nós fora dele, pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus, e de sua Mãe. Não apareceu ali baleia que nos tragasse…”

Várias cartas comprovam o desejo de Antonio Vieira de estar no centro dos eventos e revelam as controvérsias em que, por causa de seu interesse pela política, ele se envolveu. O sublime orador, cujos textos alcançam a maior profundidade mística, não era desligado das coisas terrestres. Tinha sede de influenciar os rumos de seu país e foi próximo de D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança e restaurador, em 1640, da independência portuguesa após sessenta anos de jugo espanhol. A viagem ao Maranhão de 1652 é relevante para esta discussão, porque deveu-se a intrigas e ao ocaso de sua proximidade com o rei.

A edição dos Sermões da editora Lello & Irmão inclui biografia do orador pelo Padre Gonçalo Alves. Diz este sobre a viagem de Vieira de 1652 ao Maranhão: “afinal o rei, também já trabalhado fortemente pelos inimigos do grande pregador, e aguilhoado talvez pela desconfiança de que fora ele o conselheiro do príncipe [Teodósio, filho mais velho do rei, que com ele estava indisposto], não continuou a impedir-lhe a partida, e quando Antonio Vieira, a 22 de novembro de 1652, embarcou, esperando encontrar a bordo alguma nova ordem para não sair, não encontrou coisa alguma, e teve de partir”. Severo, o padre prossegue: “Foi esse o justíssimo castigo de sua duplicidade, porque, fingindo sempre que todo o seu desejo era ir servir a causa sagrada da religião católica, e que só muito constrangido obedecia às ordens reiteradas de el-rei que não podia passar sem ele, afinal foi vítima da sua própria comédia, e teve de partir, ferido cruelmente no seu amor-próprio, ao ver que o rei se desprendera com facilidade dos laços em que ele julgara tê-lo perpetuamente preso”. De fato, a carta já citada ao Padre Francisco de Morais, de 1653, começa com a frase: “Enfim, amigo, pôde mais Deus que os homens, e prevaleceram os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas. A primeira vez vinha contra a vontade de El-Rei; desta segunda vim até contra a minha, para que nesta obra não houvesse vontade mais que a de Deus”.

Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e faleceu em Salvador em 1697. Essa longevidade, em si atípica no século XVII, surpreende ainda mais em alguém que viveu em condições tantas vezes desconfortáveis, viajando no Brasil a aldeias indígenas distantes, sofrendo o antagonismo das autoridades coloniais, fazendo inimigos poderosos em Portugal ao se imiscuir em temas políticos e, por algum tempo, sendo processado pela própria Inquisição. Vieira morou no Brasil nos seguintes períodos: de 1615 — nessa primeira viagem transatlântica já quase naufragou na Paraíba — a 1640; de 1653 a 1654; de 1655 a 1661; e de 1681 até morrer. O resto do tempo, viveu na Europa, inclusive em Roma por seis anos. Conviveu com D. João IV e a rainha Luísa de Guzmán, com os filhos do casal, Teodósio, D. Afonso VI, D. Pedro II e Catarina, que foi rainha de Inglaterra por ter se casado com o rei Carlos II — um casamento famoso na História, porque a noiva levou Bombaim em dote à Inglaterra. Em Roma, Antonio Vieira conviveu com a rainha Cristina da Suécia e pregou em seu palácio. Em Paris, negociou com a rainha e regente Ana de Áustria e com o cardeal e primeiro-ministro Julio Mazarino.

Talvez o trecho mais cativante na correspondência esteja contido em carta escrita em 1654, do Pará. Descreve uma viagem sua de Belém ao rio Tocantins, pela foz do “rio das Amazonas”, em missão de catequese de povos indígenas. Diz a carta: “[…] cada um em sua canoa, e começamos a navegar por um mar de água doce. Derrotou-nos a escuridão da noite, e o Padre Antonio Ribeiro e eu a passamos amarrados às árvores de uma ilha, que nos serviram de âncoras e amarras”. Seduz a imaginação pensar no interlocutor dos reis e ator da cena política europeia navegando, quase só, pelos rios amazônicos, sob as estrelas de noite, e de dia vendo a mata, ouvindo apenas os barulhos da natureza. No justamente célebre Sermão de Santo Antonio aos Peixes, escrito em 1654, Vieira alude ao trecho anterior dessa viagem, de São Luís a Belém, ao dizer: “Navegando daqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa) vi correr pela tona da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia”.

Uma das mais belas cartas é a que escreveu à rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, em 1695. Viúva sem filhos do rei Carlos II, com quem se casara em 1662, Catarina regressara a Portugal em 1693. Durante as suas décadas na Inglaterra, não fora feliz. Antagonizada por ser católica em um país de religião oficial anglicana, tivera de conviver publicamente, na Corte, com as numerosas amantes do marido e seus filhos ilegítimos. Ao não ter ela própria filhos, Catarina falhara, na visão da época, na única missão destinada a uma rainha. Vieira a conhecera criança. Escreve ele, aos 87 anos, da Bahia: “Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades”.

Na carta à rainha Catarina, entramos na intimidade da família de D. João IV. Vieira cita diálogo que tivera sobre ela com sua mãe, a rainha D. Luísa de Guzmán, nascida nobre espanhola. Sendo ele “o correio fiel dos recados e lembranças da mãe e das saudades da filha”, relata que D. Luísa lhe dissera, a respeito de um presente que enviara a Catarina: “Estoy muy mal con Catalina, porque, enviándole unas perlas, me las agradeció“. Comenta Vieira: “Onde o agradecimento é ofensa, bem se podia ser secretário destes corações”. É notável que a carta resgate uma frase verdadeira, pronunciada há quase quatrocentos anos: podemos ouvir a voz da rainha de Portugal, que traduz seu sentimento de afeição pela rainha de Inglaterra, sua filha.

Terminava o feriado de Carnaval. Um pensamento antigo voltou à minha mente: seria errado eu retirar o livro das cartas de Antonio Vieira da casa e levá-lo comigo? Isso não estragaria a harmonia da biblioteca, conservada durante anos pelos meus sogros? Quando eu passava pelas estantes, porém, o olhar sempre se dirigia ao volume de capa dura, encadernado com tela branca, um pouco manchada pelo tempo. A própria tela me fazia pensar nas viagens marítimas de Antonio Vieira. As janelas perpendiculares às estantes mostravam o mar e as ondas.

No dia da partida, saímos cedo, pois iríamos ainda subir a serra até o aeroporto. Vendo o sol nascer no horizonte marítimo, eliminei minha hesitação, pousei as malas na porta de entrada, corri pelas escadas até a biblioteca e extraí da estante o livro branco.

Guardo-o comigo desde então.

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Keira Knightley e os escândalos de Colette

Keira Knightley e os escândalos de Colette

Uma vez, em Londres, eu vi a Keira Knightley. Minha mulher, minha filha e eu fomos ao teatro, e lá estava a atriz, no foyer, esperando para assistir à peça. Rodeavam-na três ou quatro amigos. Para uma estrela do cinema hollywoodiano, ela pareceu simples, sem afetação  e despretensiosa.

A peça era apresentada em um de meus teatros prediletos — pela programação e pela qualidade das produções — o Donmar Warehouse. Com capacidade para 250 espectadores apenas, sentados em três lados ao redor do palco, esse teatro de arena permite o máximo de proximidade entre plateia e atores e entre os membros do público. Naquela noite, cerca de dez anos atrás, três peças curtas eram apresentadas, todas lidando com situações absurdas e reunidas em uma produção intitulada, não por acaso, Absurdia. Duas eram de um mesmo autor, N. F. Simpson. A terceira mini-peça, The Crimson Hotel, era de Michael Frayn, escritor de minha predileção, por causa de seu senso de humor consistente.

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Em The Crimson Hotel, um teatrólogo e a atriz de sua nova peça, ambos casados, fogem a um lugar deserto, para poderem consumar fisicamente a paixão que sentem um pelo outro. Enfrentam todo tipo de vicissitudes, na tentativa de cometer adultério. A farsa de Michael Frayn é curta, intensa e divertida. Um dos personagens — jamais visto em cena e citado apenas esta única vez — é “the Brazilian with bad breath“.

Keira Knightley pareceu gostar da produção. Riu bastante.

Adultério não era um mistério para a escritora francesa Colette (1873-1954), interpretada brilhantemente por Keira Knightley no filme homônimo, recém-lançado, dirigido por Wash Westmoreland. Fui ao cinema sem nada saber do filme, atraído pelo meu interesse pela vida — variada e escandalosa — de Colette e pelo talento da atriz inglesa. Ao final da projeção, saí cativado pela obra do diretor, excelente reconstituição de época. Colette aborda um período específico da vida da escritora, a relação com Henry Gauthier-Villars, seu primeiro marido — houve três — que era treze anos mais velho do que ela e publicava livros com o pseudônimo de Willy. Eles se casaram em 1893 e se divorciaram em 1910, mas estavam já separados desde 1906.

Existe um registro escrito do que foi esse casamento, pois Colette publicou, em 1936, um livro a respeito, intitulado Mes apprentissages. O texto é altamente condenatório de Willy, que morrera em 1931 e não podia assim se defender, e omite detalhes que poderiam transmitir ao leitor visão menos inocente do comportamento da escritora. Mes apprentissages silencia, por exemplo, sobre as relações mantidas por Colette nesse período com outras mulheres, algumas delas incentivadas pelo próprio marido. Em inglês, a biografia mais importante da escritora é a de Judith Thurman, publicada em 1999.

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O filme de Wash Westmoreland — o diretor é também co-roteirista —reconstitui com maestria não somente o ambiente rural em que vivia Colette até se casar, como também o meio literário, sofisticado, em que se desenvolvia a existência de Willy em Paris. Vemos Colette, na figura de Keira Knightley, bela, jovem e com ar perfeitamente ingênuo, transplantada de sua Borgonha natal para os vícios da capital. Descobrimos, pelos olhos da protagonista, que o marido cosmopolita vivia em condições precárias, apesar da celebridade, de suas origens burguesas e do círculo social e literário em que se movia. Vemos o surgimento das desilusões amorosas, quando a provinciana recém-casada descobre que o marido é um adúltero contumaz. Sobretudo, somos confrontados com o fato de que Willy já não escreve, mas utiliza os talentos de outros escritores, contratados para redigir os textos — romances, crítica musical, artigos de jornal — que ele assina. No filme, ele declara: “Willy is a brand“. Colette começa ela também a escrever livros para o marido. Graças ao talento dela, Willy obtém seu maior sucesso financeiro e de público, a série de romances protagonizados por uma personagem feminina, Claudine. Lendo Mes apprentissages — e a autora passa, efetivamente, por vários aprendizados nesse período fica difícil decidir se o que pesou mais na decepção sentida por Colette em relação a Willy foi a descoberta de que ele a traía, ou o fato de que ele não escrevia de verdade as obras publicadas com o seu nome, ou a facilidade com que ele se apropriava dos louros proporcionados pelo talento da mulher. Um dia, sem consultá-la, ele cede a um editor, em troca de significativa soma de dinheiro, os direitos autorais dos livros protagonizados por Claudine.

A crítica elogiou a atuação, no filme, de Dominic West como Willy. Pessoalmente, antipatizei com o personagem, e talvez isso demonstre o talento do ator. Fiquei, de forma decidida, do lado de Keira Knightley; quero dizer, de Colette. Se eu tivesse de apontar um defeito no filme, seria o fato de que aparece pouco na tela a mãe da escritora, Sido, de forte personalidade, e que Colette professava adorar. Interpretada por uma grande atriz, Fiona Shaw, a personagem nos seduz e sentimos falta de uma participação mais longa sua no enredo.

Nas cenas que mostram o meio dos escritores parisienses, por duas ou três vezes aparece brevemente um personagem denominado Madame Arman. Trata-se de Léontine Arman de Caillavet, amante de Anatole France, que mantinha um importante salão literário. Seu filho Gaston e sua nora Jeanne chegam a ser mencionados na história. Senti, porém, a ausência no filme do jovem Marcel Proust, amigo nessa época do casal Colette e Willy e da família Arman de Caillavet — tendo Jeanne sido um modelo para o personagem proustiano de Gilberte Swann.

Em 2013, em Paris, nos jardins do Palais-Royal, vi ao ar livre uma exposição de fotos sobre Jean Cocteau, que morou em um apartamento debruçado sobre os jardins.

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Havia várias fotos suas com Colette, amiga de longa data, que também morou, no fim da vida, no Palais-Royal.

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Como Colette morreu aos 81 anos, temos dela a visão de uma senhora sábia, de bengala ou em cadeira de rodas, com o cabelo curto e branco, enrugada, grande dama das letras francesas de sua época. Cocteau escreveu, em 1947, quando a escritora tinha 74 anos: “Da minha janela, converso com Colette, que atravessa o jardim com a sua bengala”. A escritora foi enterrada com honras nacionais e dá nome, desde 1966, àquela que considero a praça principal de Paris, ladeada pela Comédie-Française e pelo Palais-Royal e seus jardins, por um de meus restaurantes preferidos, a Brasserie du Louvre, e pela livraria Delamain e que fica a um quarteirão do Louvre, como mostra este curto vídeo que fiz em julho:

Colette ganhou um ar sóbrio, com o tempo. Vê-la sob a aparência de Keira Knightley, jovem, bela, sensual, é um choque. Wash Westmoreland nos traz a Colette da faixa dos vinte aos trinta e poucos anos, primeiro inocente e comportada, e depois descobrindo a vida e a si própria, errando, acertando, sofrendo e tentando ser feliz.

São abordadas na tela duas das relações homoafetivas da escritora. A primeira, com uma milionária americana casada com um francês, e cujas atenções Colette descobre um dia estar dividindo com o próprio Willy. A segunda relação — com uma mulher de aparência masculina conhecida como Missy — merece comentário mais demorado. Missy, interpretada no filme pela atriz irlandesa Denise Gough, foi presença marcante para Colette. Estimulou-a a fazer transformações radicais em sua vida, incentivando-a, por exemplo, a virar atriz de music-hall. Nessa fase, a escritora aparecia frequentemente seminua no palco, gerando grande comoção na França da Belle Époque. O nome verdadeiro de Missy era Mathilde de Morny, marquesa de Belbeuf.

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Socialmente, Missy não era pouca coisa. Era mesmo muita coisa. Seu pai, o primeiro duque de Morny, morreu quando ela era criança. Morny era meio-irmão do imperador Napoleão III e filho ilegítimo de uma das figuras mais atraentes da saga napoleônica, Hortense de Beauharnais, enteada de Napoleão I e casada por ele com seu irmão Louis, que Napoleão transformou em rei da Holanda. Morny nascera da relação adulterina da rainha Hortense com Charles de Flahaut, ele próprio filho ilegítimo de Talleyrand. O pai de Missy, portanto, era um duque, filho da rainha Hortense, irmão do imperador Napoleão III, neto da imperatriz Josefina e neto do mais célebre dos diplomatas, Talleyrand. A mãe de Missy era uma princesa russa, Sofia Trubetskoy, que, viúva do duque de Morny, casou-se com um duque espanhol. Este, segundo Judith Thurman, teria abusado sexualmente de Missy na infância.

Uma boa e curta biografia em francês de Colette, acompanhada, como sempre acontece nessa coleção, de farto material iconográfico, é o  Album da Pléiade a ela dedicado.

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Folheando o volume, fico impressionado em constatar como o filme de Wash Westmoreland é fiel à realidade. Há cenas que parecem extraídas de fotos da época. O Album da Pléiade nos mostra Colette aos 18, portanto dois anos antes de seu casamento com  Willy.

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Com pouco tempo de casada, a insatisfação da futura escritora com o casamento, ou com Willy, já aparece nesta foto dos dois:

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O filme captura bem o sucesso fenomenal da série dos romances Claudine e o aparecimento, na vida do casal, da atriz Polaire, que interpretou nos palcos a versão teatral de um dos livros. Willy fez Colette cortar os cabelos, para ficar parecida com Polaire, e associou a autora à atriz. Levava-as para jantar ou ao teatro, juntas, vestindo roupas iguais, chamando-as de suas “gêmeas”. Embora a relação do casal com Polaire pareça ter sido apenas profissional, está claro que Willy, para ajudar o sucesso da peça, desejava passar a ideia de que eles formavam um ménage à trois. Segundo Colette, em Mes apprentissages, isso chocava Polaire. A habilidade de Willy para o marketing é ilustrada por esta caricatura, publicada na imprensa da época:

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Neste cartaz, vemos como apenas o nome de Willy aparecia como autor dos romances e como o rosto de Polaire passou a representar a personagem Claudine:

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Em 1907, o maior escândalo protagonizado por Colette até então deu-se quando Missy montou para ela no Moulin Rouge uma pantomima intitulada Rêve d’Égypte, em que as duas apareciam juntas no palco. Colette, quase nua, fazia o papel de uma múmia pela qual se apaixonava um arqueólogo, representado por Missy vestida de homem — portanto, em seus trajes habituais:

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O público, claramente, fora à estreia no Moulin Rouge na expectativa de saborear um escândalo, pois o cartaz publicitário prenunciava o que aconteceria no palco:

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“Yssim” era um claro anagrama de Missy, e o brasão da marquesa aparecia no cartaz. Uma cena de beijo entre múmia e arqueólogo causou tumulto na plateia, que já vaiara desde o início da representação a presença da marquesa no palco. Em parte, o escândalo foi facilitado pela atitude da família de Missy e dos círculos bonapartistas, chocados com a exibição pública e desejosos de impedir a continuação do espetáculo. Nossa geração, acostumada à divulgação constante dos amores de artistas famosos e a declarações auto-reveladoras na imprensa, não se impressionaria com a pantomima. Em 1907, porém, não era comum ver a neta de uma rainha e bisneta de uma imperatriz ostentando no palco sua relação homoafetiva com a mulher de um célebre escritor. Willy, co-autor da pantomima, separado de Colette mas ainda formalmente casado com ela, assistiu à estreia, acompanhado de sua própria amante. Sua presença complacente chocou a plateia e, contribuiu para criar a comoção.

O jornal Le Figaro, no dia seguinte, publicaria artigo violento condenando a apresentação: “A sala do Moulin Rouge estava arquicheia, e estava além disso ultra-elegante”; “Durante os quinze minutos que durou a pantomima, o tumulto não cessou nem um minuto sequer, e as intérpretes, enfrentando a tempestade, seguiram atuando com uma teimosia digna de uma causa melhor”; “Uma exibição deplorável que, esperamos, não se repetirá”.

No filme, a cena no Moulin Rouge é tratada com grande veracidade. Vemos Keira Knightley no palco com o ar de determinação, sensualidade e vontade de chocar que Colette terá certamente demonstrado naquela noite. Esse é talvez o ponto mais alto da carreira de Keira Knightley até o momento. A cena mostra não só o caminho ousado percorrido por Colette, ex-provinciana ingênua, mas também a evolução da atriz, dona agora de um talento claro, que ela ostenta com segurança.

E assim, encerrando-se o casamento de Colette e de Willy, o filme vai terminando. Seu propósito, mostrar o percurso da escritora no início da vida adulta, por meio da relação com o primeiro marido, está concluído.

Uma indagação colocada pelo filme, e pela existência levada pela própria escritora, diz respeito ao papel reservado a uma mulher talentosa na Belle Époque. Aparentemente, a única oportunidade à disposição de Colette para escapar de um casamento infeliz era a quebra de tabus. Fiquei me perguntando se haverá algum dia um filme mostrando a etapa seguinte da trajetória de Colette. De 1912 a 1924, ela foi casada com o barão, jornalista e político Henry de Jouvenel, com quem teve uma filha. Consagrou-se, nesse período, publicando livros, como Chéri, que demonstram poder de análise psicológica e capacidade de descrever a vida como uma experiência sensorial. Valeria a pena ver na tela Colette baronesa, mulher de senador e escritora famosa e respeitada? Esse segundo filme, porém, teria também de mostrar sua relação afetiva e sexual com o enteado, Bertrand de Jouvenel, iniciada quando ele tinha 16 anos e ela 46. Wash Westmoreland, provavelmente, termina seu excelente filme no momento certo.

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Minhas Aventuras com Tintin

Minhas Aventuras com Tintin

Uma vez, li em algum lugar que a vida é aquilo que precisamos fazer para ocupar o tempo entre o café da manhã e o almoço e entre o almoço e o jantar. Em julho de 2018, quando passei alguns dias em Bruxelas, senti que a vida acontecia durante as refeições, quando podia estar com minha filha, que lá vive e trabalha. O resto do tempo era apenas a espera tediosa do momento de revê-la.

Desde que Julia saiu de casa, em 2011, para fazer faculdade, e passamos a morar em países diferentes, cada reencontro torna tudo mais vivo, mais vibrante, mais colorido ao meu redor. Ao mesmo tempo, cada separação traz, nos primeiros dias, um sabor de vazio e de incompletude. Como preencher os momentos em Bruxelas entre o café da manhã, o almoço e o jantar? Como tornar menos entediantes as horas sem minha filha? Tive sorte de que os dias estavam quentes e ensolarados. Choveu apenas em um final de tarde.

Um de meus primeiros destinos foi La Boutique Tintin, o paraíso de todo admirador do jovem repórter que nunca escreve para jornal algum. Tintin é provavelmente o belga mais famoso que jamais existiu. No aeroporto de Bruxelas, Zaventem, na área central por onde passam todos os passageiros, estejam eles embarcando ou desembarcando, é ostentado o foguete que figura em duas de suas aventuras mais conhecidas:

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Assexuado, sem família, ar de adolescente e rosto sem traço distintivo — o topete é sua única característica física notável — Tintin é aquilo que cada um de nós quer que ele seja e todos podemos nos projetar nele. Mais recentemente, o personagem tem-se revestido de uma forma nova de prestígio: é um dos poucos heróis de histórias em quadrinhos famosos a não ser americano, em uma espécie de resistência cultural franco-belga.

No longínquo ano de 2016, meus alunos no Instituto Rio-Branco ofereceram uma festa a fantasia com o tema “Quadrinhos”. Fiquei me perguntando se algum iria vestido de personagem das BD franco-belgas. Quantos se fantasiariam de Lucky Luke, o cowboy “mais rápido do que a própria sombra”? Quantos de Astérix ou Obélix? Quantos de Spirou, o camareiro que vira jornalista, ou de Fantasio, seu melhor amigo? E quantos de Iznogoud, o vizir que queria “ser califa no lugar do califa”?

Ao ver nas redes sociais as fotos da festa, fiquei desapontado. Havia apenas personagens de comics americanos. Notei uma única exceção: um aluno fora disfarçado de Tintin, levando inclusive no braço um Milou de pelúcia. O jornalista belga de ficção aparentemente escapa da relativa obscuridade atual de outros heróis de quadrinhos de língua francesa, como demonstra o filme The Adventures of Tintin, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2011.

No Brasil, conheço ao menos uma pessoa fanática por Tintin: Chicô Gouvêa. Minhas férias de julho haviam começado em Lisboa, onde eu fora visitar minha irmã, e logo no primeiríssimo dia ela e eu jantamos no apartamento de Chicô e Paulo Reis, amigos que já mencionei em  O Embrulho Vermelho. Reparei que, como também acontece em sua casa no Rio de Janeiro, os personagens tintinescos faziam-se presentes na decoração em Lisboa:

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Chicô e Paulo colecionam máscaras africanas. Uma vez, no Rio, aconteceu de eu elogiar uma delas. Da maneira mais generosa, eles imediatamente a retiraram da parede como um presente para mim. Essa máscara foi comigo para Brasília, e agora chegou a Kuala Lumpur:

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Voltemos a Lisboa, ao jantar em casa de Chicô e Paulo, onde me deparo com uma máscara com os traços do herói belga, o que eu nunca havia visto antes:

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Dias mais tarde, em Bruxelas, dirijo-me a La Boutique Tintin. Conheço bem a loja, da época em que morei na cidade pela segunda vez, e sei que ela não é barata. Fica perto da Grand’Place:

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Dentro, o foguete é onipresente, e mesmo os modelos menores são caros, em função das leis de oferta e demanda, já que esse é provavelmente o objeto mais reconhecível, mítico das aventuras do nosso amigo belga:

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Vários objetos fazem referência a outras aventuras:

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O criador de Tintin, Georges Remi (1907-1983), conhecido pelo nome artístico Hergé (foneticamente, suas iniciais invertidas), é figura controvertida. Trabalhava, no começo da vida, em um jornal conservador, católico. É em um dos suplementos do jornal que primeiro foram publicadas, de forma seriada, as aventuras de seu principal personagem. Hergé é visto por alguns como tendo sido colaboracionista durante a ocupação alemã da Bélgica, na Segunda Guerra Mundial.

As aventuras de Tintin começaram a ser publicadas em 1929. As primeiras prestam-se facilmente a acusações de racismo e antissemitismo. Ler Tintin au Congo (1931) é uma experiência constrangedora. A partir de um determinado momento, contudo, as aventuras mudam de tom e tornam-se cativantes, embora haja, em L’Étoile mystérieuse, publicado durante a Ocupação alemã, ao menos uma página com alusões antissemitas.

Em casa, temos todos os volumes, exceto justamente Tintin au Congo. Mostro na foto os meus prediletos, sendo que na maioria dos casos são ainda os exemplares que meus irmãos e eu líamos avidamente na infância:

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Os volumes onde aparece o famoso foguete são estes:

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A mudança na visão de mundo de Hergé é atribuída à forte amizade que desenvolveu, a partir de 1934, com um estudante de arte chinês então residente na Bélgica, Chang Chong-chen, que colaborou no álbum Le Lotus Bleu. A convivência entre os dois durou apenas um ano, pois em 1935 Chang Chong-chen regressou à China. Eles só voltariam a se ver em 1981.

Hergé escreveu outras séries de histórias em quadrinhos, além da que é dedicada a Tintin, mas este, ao se tornar mais famoso do que seu próprio criador, ofusca o resto da obra. Criança, eu gostava também de Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, que mostram as peripécias de dois irmãos e seu chimpanzé:

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Em 2009, a viúva do artista criou na cidade de Louvain-la-Neuve, perto de Bruxelas, o Musée Hergé, belíssimo prédio concebido pelo arquiteto Christian de Portzamparc, mas desconfio que os visitantes vão ao museu para aprender mais sobre Tintin, não sobre o criador ou o resto de sua obra. Em janeiro de 2017, visitei em Paris, no Grand Palais, exposição dedicada a Hergé:

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Na exposição, organizada pelo Musée Hergé, as críticas ao antissemitismo, racismo e espírito colonialista de alguns álbuns foram abordadas de forma superficial, como que por mero desencargo de consciência. Com relação a Tintin au Congo, por exemplo,  um cartaz explicava que: “A ingenuidade caricatural com que ele descreve a população local e o país resulta de uma documentação sumária, cuja fonte é essencialmente o museu colonial de Tervueren”. E continuava: “Em Tintin au Congo, com frequência acusado, posteriormente, pelo seu tom colonialista, Hergé dá provas sobretudo do espírito de seu meio e de seu tempo”. Fácil assim…

A exposição dava exemplos do trabalho de Hergé como desenhista publicitário, por exemplo neste anúncio do jornal onde primeiro trabalhou:

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Naturalmente, não podia faltar uma maquete do celebérrimo foguete, pois afinal Tintin e seus amigos Milou, Capitão Haddock e Professor Girassol e os irmãos detetives Dupond e Dupont caminharam na Lua em 1954, quinze anos antes de Neil Armstrong:

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Nada me interessou mais na exposição do que rever a “estatueta portadora de oferendas”, em madeira, oriunda do Peru, produzida pela Cultura Chimu, pré-colombiana, entre 1100 e 1450:

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É que conheço muito bem essa escultura, pois ela pertence à coleção do Musée Art et Histoire, em Bruxelas, onde — criança e adulto — eu a vi inúmeras vezes. A peça inspirou Hergé, que a conhecia, a escrever um de meus livros prediletos da série, L’Oreille cassée.  Graças ao álbum, a estatueta talvez seja hoje a peça mais famosa do museu.

Em casa, temos uma mini-bibliografia sobre Tintin:

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Michael Farr —  autor inglês que publicou vários livros sobre o personagem e seu criador —  opina ser Tintin “um herói imaginário em um mundo real”. Daí derivaria seu “apelo universal”. Em The Complete Companion, Farr nos mostra como as aventuras são sistematicamente baseadas em fatos, eventos, prédios, pessoas, obras de arte, descobertas científicas reais.

O psicanalista e psiquiatra francês Serge Tisseron dedica grande parte de seu tempo a Hergé e a Tintin. Segundo sua teoria, Hergé transferiu para a série tintinesca o seu drama familiar. O pai do artista tinha um irmão gêmeo, como parecem ser gêmeos Dupond e Dupont, seus dois personagens detetives. O pai e o tio de Hergé eram filhos de uma mãe solteira, empregada doméstica na casa de um conde belga e sua mulher. Quando seus dois filhos gêmeos eram já adolescentes, a avó de Hergé casou-se com um operário, em um casamento arranjado pela condessa e graças ao qual os dois gêmeos adotaram o sobrenome — Remi — do padrasto. Essa união foi meramente de conveniência. Hergé nunca sequer viu o padrasto do pai, embora tivesse já 34 anos quando o “avô” morreu.

Quem teria sido o verdadeiro pai do pai de Hergé? Se ele sabia, nunca revelou. Serge Tisseron especula se poderia ter sido o conde, ou um de seus parentes ou talvez até mesmo o próprio Rei dos Belgas, Leopoldo II, notório mulherengo, que, segundo se sabe, frequentava as propriedades do conde e sua mulher.

Leopoldo II não era um monarca qualquer. Rei de um pequeno país, viu no imperialismo europeu na África a chance de aumentar seu patrimônio pessoal. Transformou o imenso território que é hoje a República Democrática do Congo em uma propriedade particular, à qual atribuiu-se, ironicamente, o nome de Estado Livre do Congo. Em 1908, o rei doou sua colônia à Bélgica, depois de ter amealhado grande fortuna graças a ela. O domínio de Leopoldo II sobre o Congo foi excepcionalmente cruel e sangrento. Alguns autores consideram que a presença belga no Congo constituiu, verdadeiramente, um genocídio. Joseph Conrad inspirou-se das crueldades cometidas pelos agentes de Leopoldo II para escrever Heart of Darkness, publicado em 1902. Devemos supor, porém, que, ao contrário de Kurtz, o vilão de Joseph Conrad, o Rei dos Belgas nunca sentiu arrependimento e nunca exclamou, ao morrer “The horror! The horror!”.

Seria Leopoldo II o avô de Hergé? Estaria aí a origem das falas e das atitudes revoltantes de Tintin e mesmo de seu adorável cachorrinho Milou em sua viagem ao Congo? De qualquer forma, o Tintin que sobrevive é o posterior, aquele encantador, inteligente, que ajuda os outros, vive aventuras em todas as partes do mundo, resolve vários enigmas, nunca comete maldades, é equilibrado e sensato, apesar da eterna figura de adolescente.

Saí de La Boutique Tintin, em Bruxelas, apressado, impaciente para ver Julia. Comprara um relógio de pulso. No dia seguinte, fiz um tuíte ostentando-o no braço. É, até hoje, meu tuíte mais popular.

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