Paterson III

Em dezembro de 2015, no Rio de Janeiro, vi pela primeira vez um filme da série Guerra nas Estrelas. Naquele mês, foi lançado o episódio Star Wars: o Despertar da Força e, para agradar à minha família, fui ao cinema assisti-lo. Parecerá surpreendente para muitos, mas nunca antes eu desejara ver os filmes da série, partindo do princípio de que teriam uma psicologia primária, muita ação e pouca substância.

Continuo sem saber como são os filmes anteriores. Star Wars: o Despertar da Força, porém, apresenta ao menos um personagem de forte impacto psicológico: Kylo Ren, interpretado por Adam Driver. Na tela gigantesca de uma sala de cinema do Rio, em projeção 3D, estava recriado o tema da rivalidade de um filho com o pai. O ato mais bárbaro, mais cruel, que faria Sófocles e Freud tremerem de prazer e se sentirem precursores, era repentinamente mostrado, sem aviso prévio.

Kylo Ren, que poderia ter sido um mero vilão, ganhava, graças ao roteiro e ao talento do ator, uma dimensão complexa. Adam Driver nos mostra em Star Wars: o Despertar da Força um personagem que poderia ter optado pelo Bem mas decide-se pelo Mal em toda a sua vitalidade e todo seu tormento. É ainda um mistério como evoluirá Kylo Ren, mas uma redenção parece pouco crível,  à luz do que fez em seu filme de estreia.

Em Paterson, o novo filme de Jim Jarmusch, o ator nos mostra um personagem totalmente oposto a Kylo Ren em termos psicológicos, confirmando sua competência. Paterson é, ao mesmo tempo, o nome de um motorista de ônibus interpretado por Adam Driver, e o nome da cidade de Nova Jersey onde ele mora com sua mulher, Laura, interpretada com maestria por Golshifteh Farahani. Vimos a atriz iraniana, anteriormente, no papel de Mona, a presidiária atormentada do filme Dois Amigos, de Louis Garrel. Como Laura, Golshifteh Farahani mostra uma luminosidade e uma alegria de viver a anos-luz da infelicidade de Mona.

Este é um filme que faz forte uso da binariedade. Acompanhamos uma semana na vida de Laura e Paterson. Ao iniciar-se cada dia, vemos de cima os dois dormindo juntos na cama, frequentemente abraçados, com o dia da semana especificado na tela. Na primeira cena, quando os dois acordam na segunda-feira, Laura narra ao marido o sonho que tivera: tinham-se tornado pais de gêmeos. Frequentemente, nas cenas seguintes, gêmeos aparecerão no caminho de Paterson.

O casamento dos dois personagens principais é idílico. Um apoia o outro em sua rotina, seus sonhos, suas esperanças e também suas frustrações. Este é, em grande parte, um filme sobre duas pessoas boníssimas, que se amam e são felizes juntas, de forma calma e satisfeita. Quase toda noite, Paterson, enquanto passeia o cachorro, encontra no bar onde faz uma pausa antes de voltar para casa um casal que vive às turras e faz contraste claro – estabelecendo nova binariedade – com o casamento perfeito dos dois protagonistas.

Paterson é poeta nas horas vagas. Escreve quando pode, em um caderno. Laura possui também uma veia artística, para a qual procura dar vazão cozinhando cupcakes, fazendo cortinas para a casa, desenhando suas roupas e tentando se tornar cantora country. Esta foto, extraída da conta twitter do filme, mostra as quatro facetas artísticas de Laura:

Paterson

Como a colagem acima revela, Laura gosta do contraste entre as cores branca e preta – outra binariedade do filme – e até o violão, os cupcakes, a decoração da casa e parte de suas roupas, e mesmo  a coleira do cachorro, refletem essa preferência. Até mesmo quando o casal vai ao cinema, é para assistir a um filme em preto e branco.

Os apaixonados por poesia saberão que Paterson é também o nome de um longo poema de William Carlos Williams, homenagem à cidade. A obra de Williams é uma bíblia para o personagem de Adam Driver.

Tiro da estante nosso exemplar da coletânea de poemas de Williams publicada pela Penguin:

20170507_225029

Procuro o Prefácio do poema Paterson – do qual o volume oferece longos extratos – e vejo os seguintes versos:

20170507_225139

Justamente, os dois personagens principais do filme convivem bem – a ponto de parecerem simples – com suas próprias complexidades. As de Laura são evidentes, pois ela tenta encontrar um caminho para suas pulsões artísticas. As de Paterson, talvez mais maduro do que Laura, são menos óbvias, a não ser pelo fato de ele ser um motorista de ônibus que possui uma visão poética da vida. O que Jarmusch postula é que a beleza está em toda parte, mesmo nas atividades mais prosaicas, e que uma profissão manual, como a de motorista de ônibus, oferece a possibilidade de observar, pensar, meditar e de transformar em poesia o cotidiano. Em suas andanças, Paterson encontrará uma adolescente – ela tem aliás uma irmã gêmea – que escreve, como ele, poemas em um caderno. Ela lê uma de suas obras para Paterson, não percebe ser ele também poeta mas vê que gosta de poesia e ao partir, exclama: “Imagina, um motorista de ônibus que lê Emily Dickinson!”.

Frequentemente, Paterson escreve em seu caderno na hora do almoço, olhando as cataratas da cidade, celebradas por William Carlos Williams no poema Paterson: the Falls. Após um drama doméstico, Paterson estará, na última cena, sentado uma vez mais frente às cataratas, desta vez sentindo-se desencorajado em sua vocação como poeta. Sendo o filme de Jim Jarmusch celebratório da poesia e da beleza nas pequenas coisas, Paterson manterá, sentado no banco, uma conversa inesperada, com um personagem que até então não aparecera no filme e que dará a ele ânimo renovado para escrever. No universo criado por Jarmusch, artistas e poetas aparecem de forma corriqueira, e um dos prazeres do filme é constatar a facilidade com que surjem frente a Paterson almas parecidas com a sua.

Em casa, Paterson possui pequena biblioteca, no porão. A câmera, quando mostra os livros, passa por eles rapidamente. O único mostrado mais assiduamente é uma coletânea de primeiros poemas de William Carlos Williams, em capa dura, que Paterson folheia com frequência, por exemplo na cozinha, e da qual lê para Laura o que é aparentemente o poema predileto de sua mulher, This Is Just To Say:

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

Durante o filme, vários poemas do personagem de Adam Driver nos são mostrados na tela e lidos. Seu verdadeiro autor é o poeta Ron Padgett. Como o filme de Jarmusch e os versos acima de William Carlos Williams, de predileção de Laura, os poemas escritos por Padgett especialmente para o filme mostram a beleza das coisas ou dos momentos simples, que podem porém servir de parábola para sentimentos fortes. Estão disponíveis na página eletrônica de  The Poetry School.

Em determinado momento do filme, enquanto Paterson escreve no porão e a câmera passa rapidamente por sua pequena biblioteca, reconheci um livro de que possuímos  exemplar em casa. Trata-se da coletânea de contos do escritor irlandês William Trevor, lançada pela Penguin em 1993:

20170508_004412

O que se vê na prateleira de Paterson, na verdade, é a lombada do livro, que na nossa estante aparece assim:

20170509_102903

A imagem passa com pouca nitidez na tela e a câmera não se detém em nenhum título em particular. Quem não conhece essa edição da obra de Trevor, ou o nome do autor, não tem como reparar na presença do volume na prateleira de Paterson. Reconhecer em um filme um livro que possuo provoca em mim processo de identificação com os personagens, como registrei em meu comentário sobre O Plano de Maggie, e não foi diferente desta vez.

Alguns anos atrás, eu lia assiduamente os contos de William Trevor, morto em 2016 aos 88 anos. Vê-lo celebrado como uma das fontes da inspiração de Paterson surpreendeu-me. Se de um lado Trevor fala do cotidiano, como o filme de Jarmusch, de outro seus personagens são em geral sofridos e frustrados. Raramente, uma história de amor termina bem em Trevor. Seus personagens vivem em galáxia diferente daquela onde Laura e Paterson compartilham, com serenidade, sua felicidade. A presença do livro de William Trevor no filme pode ser apenas uma homenagem do diretor a um escritor de sua predileção. Fica em mim, porém, a indagação: talvez Jarmusch tenha querido mostrar, em seu filme, uma certa superioridade sobre Trevor, criando uma obra de arte onde o amor triunfa e onde os dois personagens principais têm vocação para a felicidade. “Superioridade”, porque deixar o espectador interessado é mais difícil quando se trata de uma história feliz.

Laura e Paterson são seres humanos intrinsicamente bons, de uma pureza admirável e inspiradora. Jim Jarmusch nos mostra a vida como ela pode ser, se assim quisermos: bela, rica, variada, reta, transparente e simples.

Paterson – ficha técnica

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6 comentários sobre “Paterson – Jim Jarmusch

  1. Ary,

    Quando vejo os livros em suas estantes fico a pensar que há verdadeiramente muitos “mundos”. Talvez por ter passado alguns anos (ou muitos) na Inglaterra, tem um conhecimento abrangente de autores britânicos e se interessa por um tipo particular de literatura.

    Cada estante de livros em uma casa conta um pouco a história daquela casa. E esta diversidade é muito rica.

    Eu não consigo entender como alguém pode afirmar não gostar da leitura.

    Ler pode nos fazer ver o que nem imaginamos existir, como o último livro que li: “Cartas de Herat, Meus anos no Afeganistão”, da escritora inglesa Christina Lamb, ou apenas te fazer vivenciar outras histórias, de coragem, otimismo, tristeza, esperança, alegria, amor, paz, revolta, guerra, liberdade, sonhos…

    As palavras para mim sempre foram mágicas, elas juntas tem a força de nos transmitir todo tipo de sentimento, de pontos de vistas, de aprendizado.

    Realmente adoro os seus escritos.

    Um abraço carinhoso,

    Cláudia

    >

    Curtido por 1 pessoa

  2. Me encancto Paterson y su forma suave de enfocar la belleza de las cosas simples a través de la poesía. Coincido plenamente con la crítica. Un abrazo, Helena.

    Curtido por 1 pessoa

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