Edla van Steen, estória sobre a amizade

Edla van Steen, estória sobre a amizade

Aos 18 anos de idade, conheci Edla van Steen e Sábato Magaldi. Meu pai e eu, voando de Foz do Iguaçu para o Rio de Janeiro, paramos em São Paulo com o único objetivo de almoçar com eles em sua casa no Morumbi.

A foto, tirada por meu pai, registra esse encontro.

20180407_211629.jpgEra março e o sol brilhava. A conversa foi fascinante e lembro-me com perfeição do que foi discutido. Senti-me em casa e tratado como um adulto. Esse almoço me marcou. Se pareço sério na foto, é porque estava de luto, tendo meu irmão morrido violentamente apenas três meses antes.

No ano seguinte, fui morar e estudar em Londres, como já relatei no blog, particularmente em Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo. Nunca porém perdi contato com Edla e Sábato. Dos dois, é com Edla que mantive contato mais assíduo, embora em geral por carta e por e-mail, por causa da distância geográfica. Seu desaparecimento, em 6 de abril, foi uma surpresa e provocou em mim uma tristeza grande. Troquei mensagens sobre ela com um amigo mais recente, o cineasta Sylvio Back, que eu sabia ter sido seu colega de juventude quando, embora catarinenses ambos, foram se conhecer em Curitiba. Escreveu-me Sylvio, parafraseando Guimarães Rosa: “que horrível e triste notícia o encantamento da nossa amada Edla van Steen, bela e talentosa escritora e atriz”.

Gosto da ideia de que a morte é um “encantamento”: uma nova forma de ser e uma instalação duradoura, saudosa, positiva na mente daqueles que nos conheceram. Já em vida, tudo em Edla era encantamento: o talento, a beleza, a forma segura e direta com que se dirigia ao interlocutor e o tempo que dedicava aos amigos. Escritora, foi também editora e publicou várias antologias de escritores brasileiros, das quais uma das mais conhecidas é O Papel do Amor, de 1979:

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Três anos depois desse primeiro almoço no Morumbi, revi Edla e Sábato em Londres. Estavam de passagem pela cidade, e minha mãe os convidou para almoçar em casa. Vinham de Paris e ouvi, seduzido, enquanto discorriam sobre as peças a que haviam assistido na França. Eu tinha 21 anos e, apaixonado por artes cênicas, escutava atentamente o que  eles tinham a dizer a respeito. Não era pouca coisa, ouvir o maior crítico de teatro do Brasil discorrer, com a sua mulher escritora, sobre a temporada teatral em Paris. Lembro particularmente do tom entusiasmado com que falaram de uma produção de L´Illusion Comique de Corneille, naquele tempo um de meus autores prediletos, e de cujas peças eu sabia de cor vários versos. Olhando agora na Internet, deduzo que devia tratar-se da famosa produção montada por Giorgio Strehler no Odéon.

Houve alguns outros encontros, ao longo dos anos, mas não tantos, pois nunca moramos na mesma cidade.

Ao conhecer minha mulher, aos 25 anos, não fiquei tão surpreso de descobrir que meu sogro fora professor de Edla em Curitiba, pois a vida, bem sei, tende a ser circular e eu aceito esse fato.

Quando meu pai morreu, em 1999, foi um grande consolo poder conversar com Edla, provavelmente sua melhor amiga. Nessa ocasião, de tudo o que ela me disse fiquei particularmente impressionado com o comentário de que meu pai nunca superara a morte de meu irmão e de que passara  a vida tentando exorcizar – sem êxito, na avaliação dele – o sucesso profissional de meu avô. Essas duas observações tornavam meu pai, notoriamente arredio à auto-análise e a revelações sobre si próprio, mais humano, mais comovente. Edla e Sábato, de resto, continuaram a ser amigos leais de meu pai, mesmo depois de sua morte.  Ela publicou esta coletânea de contos seus, em 2010:

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 Vi Edla e Sábato pela última vez, creio, em 2006. Naquele ano, minha mulher, nossa filha – então criança – e eu fomos visitá-los em seu apartamento no Rio. Naquela época, eles dividiam o tempo entre São Paulo e Rio, o que era prático, sendo Sábato membro da Academia Brasileira de Letras. Estavam com a neta, Bianca, que ficou brincando com nossa filha enquanto conversávamos. Terá sido então que ela autografou para nós este seu livro de contos?

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É um livro cativante, onde as personagens femininas são mais fortes do que as masculinas. No conto mais longo – uma novela, na verdade – que dá o título à coleção, a personagem principal é dona de uma livraria e alguns autores de sua predileção são citados, entre eles meu pai.

Em 2007, minha família e eu fomos morar em Bruxelas, mas o contato permaneceu. Há um ano, Edla enviou-me pelo correio um conto inédito de meu pai – que estava em suas mãos por ser ela sua editora na Global – e o testemunho que Sábato fizera sobre ele na Academia Brasileira de Letras, quando meu pai morrera. Houve algumas trocas de mensagens no Facebook ao longo de 2017. Escrevi para Edla pela última vez em janeiro de 2018, querendo saber se podia ligar para dar a ela uma boa notícia pessoal, mas ela não respondeu e não sei se terá visto minha mensagem.

No ano passado, dois ex-alunos me disseram, na mesma conversa, que o meu blog é sobretudo sobre os relacionamentos humanos, mesmo quando escrevo sobre um livro, um filme, uma viagem. Embora eu nunca tivesse pensado nesses termos sobre minhas postagens, percebi que tinham razão.

Muitas vezes, até recentemente, meditei com pesar sobre a transitoriedade das pessoas em nossas vidas. Nos últimos meses, comecei a pensar de forma um pouco diferente. Vejo hoje que as pessoas não entram e saem de nossas vidas aleatoriamente. Damos a elas espaço para que entrem e depois, por causa do trabalho, de compromissos familiares, de diversas ocupações, da própria falta de tempo, de mudanças de cidade ou de país, permitimos que haja um afastamento. As pessoas vão e vêm, em um fluxo constante e natural.

Fico pensando nas conversas que – por causa de minha vida apressada, errante, tão lotada, como a deles também era – eu não pude ter com Sábato e Edla sobre teatro, atores, escritores, entre eles meu pai, sobre quem eles teriam tido muito a me dizer. Agora, isso não será possível. Sábato partiu em 2016, e Edla há uma semana.

É triste pensar nas ocasiões perdidas de mais convívio com amigos, mas esse não é o pensamento correto. O que é surpreendente é que ainda consigamos, no mundo em que vivemos hoje, fazer e preservar amizades, apesar da distância física.

Guardo as cartas de vários correspondentes, recebidas na era pré-internet:

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A pilha da direita, embaixo, é a das cartas que recebi de meu pai enquanto eu morava em Londres. Para ler as que eu enviava a ele – meu principal correspondente durante todos os anos em que fiquei na Inglaterra – tenho hoje em dia de pedir autorização à Fundação Casa de Rui Barbosa, pois ele doou, alguns meses antes de morrer, todos os seus papéis, inclusive a correspondência recebida, à Fundação. Naquela ocasião, essa sua decisão me decepcionou, tomei-a como uma quebra de confiança. Julguei também que, presumivelmente, seriam as cartas escritas pelo meu pai, e não as recebidas por ele, que interessariam aos estudiosos, e essas estão comigo e com seus demais correspondentes.

Mantenho contato, vejo e converso, ainda que às vezes isso possa ser apenas ocasional, com amigos que conheço desde a infância, e alguns, leitores deste blog, reconhecerão suas letras nos envelopes na foto acima.

De Edla van Steen, encontrei nessa coleção uma carta apenas, escrita quando eu morava em Londres e que termina da seguinte maneira:

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Outras cartas estarão em outras pilhas, em outros baús aqui em casa. Muitos e-mails terão se perdido, pois em cada país em que morei, desde o início da Internet, antes da vitória final do gmail, criei um endereço eletrônico local, que era eliminado na partida. Houve também endereços eletrônicos profissionais, que eram descartados automaticamente quando eu me mudava. Em geral, eu me preocupava em gravar meus mails em discos, disquetes e pen drives, mas recuperá-los hoje daria um trabalho a que não quis ainda me dedicar.

Esse é o milagre, que possamos não só guardar no coração e na memória os amigos distantes mas que possamos também seguir interagindo com eles, ano após ano, década após década, mesmo que, por longos períodos, de maneira virtual. E assim foi com Edla.

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Ary, o Anjo da Meia-Noite e Machado de Assis

Devo meu prenome a uma peça de teatro. Criança, ouvia que meu trisavô – a quem mencionei na postagem sobre Papai Noel e a amizade, por causa de seu espírito bon vivant e sua interação com Machado de Assis – teria dado ao filho mais velho, o meu bisavô, o nome de Ary por causa de uma peça francesa que fizera sucesso no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Meu avô e meu pai carregaram o mesmo prenome e pareceu muito natural, no meu nascimento, por causa da consideração que cercava meu avô, o matemático, então ainda vivo, que eu fosse o quarto Ary. Simplesmente, não ocorreu a ninguém que eu pudesse ter outro nome.

Cresci convencido de que a estória da peça francesa era apenas uma lenda familiar. Adulto, pesquisei e descobri, para minha surpresa, que efetivamente, em 1866, estreou no Rio de Janeiro uma peça importada da França que fez durante anos enorme sucesso, intitulada O Anjo da Meia-Noite, cujo personagem principal se chamava Doutor Ary Koerner. O tradutor da peça no Brasil foi… Machado de Assis.

A peça pode ser lida na Internet, na página Gallica, mantida pela Bibliothèque nationale de France, verdadeiro tesouro, onde se encontram milhões de livros e manuscritos em francês. L’Ange de Minuit estreou em Paris em 1861; foi escrita por Théodore Barrière e Édouard Plouvier. Os dois autores são hoje perfeitamente esquecidos, mas parecem ter sido ambos fecundos e famosos em sua época. 

L’Ange de Minuit, hoje tão esquecida quanto seus autores, é um dramalhão passado na Alemanha. O Docteur Ary Koerner é um médico jovem e brilhante, adorado pelos pobres, aos quais se dedica. Mora com a mãe e os dois sobrevivem com grande dificuldade pecuniária. Logo no primeiro Ato, o  médico declara que ele e a mãe são “mais pobres até do aqueles a quem ajudamos”. Apesar de boníssimo e caridoso, o médico enfrenta adversários. Tem um grande amigo, Karl, filho do Conde de Stramberg, estudante de medicina e seu discípulo. Um dia, em passeio pelo campo, Ary adoece e, no seu delírio, conhece duas mulheres. Uma é Marguerite de Stramberg, irmã de Karl, secretamente apaixonada por ele. A outra é o Anjo da Morte, que dá o título à peça. O Anjo detesta Ary – e não é sem susto que escrevo isto – sentimento que a ele explica com a seguinte fala: “Tua ciência perturba a ordem indicada… Onde eu chego e te encontro, tenho de partir e voltar mais tarde”. Isso não deixa de ser um belo elogio ao talento do médico. Sem perceber, por causa da febre, Ary faz um pacto com o Anjo: quando este aparecer e assim determinar, o médico terá de deixar morrer o paciente, caso contrário o Anjo levará sua mãe. Ao passar a febre, Ary pensa ter tido dois sonhos, um belíssimo, com a linda mulher – Marguerite – a olhá-lo, e outro terrível, sobre a Morte.

Infelizmente, não era um sonho. A peça prossegue. Ary e Marguerite (minha avó, mulher do matemático, curiosamente se chamava Margarida) ficam noivos; o casamento é facilitado porque ele salva a vida do Conde de Stramberg e porque herda uma fortuna de um tio-avô. Amigo leal e ideal – como todo Ary, naturalmente – salva a vida de Karl, quando este duela com um Barão que quer se casar à força com Marguerite, por ser dono de um segredo prejudicial à reputação do Conde. E acontece o que tinha de acontecer, sendo este um dramalhão: no dia do casamento, Marguerite adoece e está morrendo, a caminho da igreja. O Anjo aparece e pede seu preço. Apenas Ary pode vê-lo. Há diálogo intenso, amargurado e dramático entre Ary e o Anjo: quem o médico deixará morrer, a mãe ou a noiva? Uma hora ele escolhe uma; de repente, opta pela outra. A Religião salva tudo. O Conde de Stramberg, desesperado de ver a filha moribunda, se ajoelha e reza. Os pobres fazem o mesmo. Karl explica ao amigo haver poderes mais altos do que a ciência. Deus se apieda e faz retroceder o Anjo. Marguerite e a mãe do médico ambas sobrevivem. A noiva se levanta e segue feliz para a igreja. Fim da peça.

Estamos bem longe de Shakespeare ou de Racine. Há clara inspiração, empobrecida, no mito de Fausto, marcante no século XIX por causa de Goethe; a ópera de Charles Gounod, Faust, onde o objeto do amor do personagem principal se chama Marguerite, estreara em 1859, dois anos antes de L’Ange de Minuit

Encontrei na página de Gallica uma nota publicada na edição do jornal Le Figaro de 10 de dezembro de 1863, onde se afirma que Verdi – um de meus ídolos – estava compondo, naquele momento, uma ópera baseada em L’Ange de Minuit. Nunca existiu tal ópera. Théodore Barrière merece uma nota de rodapé na história da Ópera por outra razão, pois colaborou com Henry Murger em uma peça que, junto com uma novela e estórias do mesmo autor, geraria La Bohème de Puccini.

A edição da Nova Aguilar com as Obras Completas de Machado de Assis não fornece suas versões de peças francesas. Estas parecem ter sido numerosas, segundo artigo publicado em 2010 pelo Professor de Literatura Brasileira da USP, João Roberto Faria, na revista eletrônica Machado de Assis em linha. Segundo o autor,  “O Anjo da Meia-Noite surpreende no conjunto das traduções, pois é uma peça sem nenhuma qualidade literária”. Posso apenas concordar.

O Dicionário de Machado de Assis, de Ubiratan Machado, publicado pela Academia Brasileira de Letras (e que contém verbete sobre meu trisavô, Francisco José Corrêa Quintella) diz o seguinte, entre outras coisas, sobre O Anjo da Meia-Noite: “Drama fantástico […] foi representado pela primeira vez no Teatro Ginásio, em 5 de julho de 1866, pela Companhia de Furtado Coelho […] Repetindo o que acontecera em Paris, obteve um êxito retumbante”. O verbete menciona que a peça “deu rios de dinheiro a Furtado Coelho, sendo a responsável pelo grande número de crianças batizadas com o nome de Ari, como o herói”. 

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Em artigo que publicou na Semana Ilustrada, em 8 de julho de 1866, o próprio tradutor da peça, Machado de Assis, se encarregou de elogiá-la, com a assinatura “A”, que utilizava às vezes. A crítica não aparece nas Obras Completas, mas pode ser lida na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Escreve Machado, sem pudor, que “o público tem na representação deste drama tudo quanto se pode oferecer de belo e de grandioso” e “o público entusiasmado redobra de aplausos e de admiração a cada cena que aparece. Seria temeridade afirmar qual dos Atos é o melhor”.

Explicada a origem do prenome na minha família, fica a pergunta de por que dois autores franceses atribuíram ao seu herói alemão, em 1861, o nome de Ary. A única teoria que me ocorre é que seja uma homenagem ao pintor holandês de origem alemã, muito famoso no século XIX, Ary Scheffer, que fez carreira em Paris. Scheffer morreu em 1858, três anos portanto antes da estréia em Paris de L’Ange de Minuit. Era extremamente ligado aos círculos artísticos e literários franceses – sua sobrinha casou-se com o filósofo Ernest Renan, e o filho de ambos chamou-se Ary – e sua casa é hoje um dos mais interessantes pequenos museus de Paris, o Musée de la vie romantiqueScheffer era também ligado à família de Louis-Philippe, Rei dos Franceses (e não da França, pois o chamado “rei-burguês” queria se distanciar de seus antecessores absolutistas) e a abdicação e o exílio do Rei prejudicaram posteriormente a imagem do pintor.

Um dos temas principais de Scheffer em sua pintura eram cenas extraídas do Fausto de Goethe. Um importante crítico de arte do século XIX, Baudelaire – sim, ele mesmo, o poeta – detestava a obra de Scheffer e escrevia que ele pintava seus Faustos como se fossem o Cristo e seus Cristos como se fossem Fausto. De fato, a primeira foto nesta postagem retrata Fausto e Margarida no Jardim, quadro de Scheffer onde Fausto se parece à representação tradicional de Cristo.  Na página 475 do volume II das Oeuvres Complètes de Baudelaire na Bibliothèque de la Pléiade, dedicado aos seus textos como crítico literário e de arte, leio a seguinte frase: “A moda passageira do Sr. Ary Scheffer foi uma homenagem à obra de Goethe”. Paradoxalmente, acaba de terminar em Paris, no Musée de la vie romantique, que, como disse acima, foi a casa de Ary Scheffer, exposição sobre a atividade de Baudelaire como crítico, “L’Oeil de Baudelaire”, por ocasião da qual foi lançado este livro, que serviu também de catálogo:

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Procurei em documentos no Galicca  confirmação de que Ary Scheffer foi amigo de Barrière ou de Plouvier, mas nada encontrei. Olhei no Journal dos irmãos Goncourt, os maiores fofoqueiros do mundo artístico e literário no século XIX. Há lá referências a Théodore Barrière e a Ary Scheffer, e também a um quadro do pintor intitulado Marguerite, mas nada há sobre L’Ange de Minuit

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Não consigo, porém, pensar em explicação alternativa a essa de uma homenagem a Scheffer, para que Barrière e Plouvier dessem ao seu herói perfeito um nome, na época, tão inusual.

E é assim que, pelos meandros da pintura e do teatro, e o tempo perdido por Machado de Assis traduzindo uma peça hoje esquecida, e a relação de meu trisavô com ele, e a boa reputação do meu avô e a mania familiar de repetir nomes, que vim a ser registrado.

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Sleep No More – Minha noite com o casal Macbeth

Sleep No More – Minha noite com o casal Macbeth

A cena se passa em Nova York, em 21 de janeiro deste ano. São 21h45 e eu saio do taxi em Chelsea, na Rua 27, para me juntar à fila ao longo de um prédio dentro do qual, estou convencido, passarei por uma experiência transcendental. Faz frio, mas eu nem noto. Um homem com cara de poucos amigos, que trabalha no prédio, começa a circular pela fila, pedindo, em alguns casos, para ver documentos de identidade. O pedido é perfeitamente inútil, todos na fila sabemos que vamos entrar, mas a expressão feroz do homem ajuda a criar o clima adequado. A mim, ele pede a mão direita e, depois de eu retirá-la da luva, nela carimba algo ilegível, sem dizer uma palavra. Ainda não estou plenamente recuperado do acidente que sofrera em Sevilha, três semanas antes, a que aludi em O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks. Até poucos dias atrás, minha mão direita estava enfaixada e é desagradável a pouca cerimônia com que o homem a puxa e a carimba.

A função do homem parece ser a de anunciar, da forma menos simpática possível, que a porta do prédio está prestes a se abrir. Pouco atrás de mim, dois casais brasileiros riem, nervosamente. E o nervosismo não é fora de propósito. Todos na fila compramos ingresso para assistir a Sleep No More, versão de Macbeth montada pelo grupo teatral britânico Punchdrunk – pioneiro do teatro de imersão – que estreou em Londres em 2003 e em Nova York em 2011.

Como mencionei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro, as artes cênicas me atraem desde sempre. Minha primeira experiência com teatro de imersão aconteceu no Festival de Edimburgo, em 2010. Festivais de teatro me parecem irresistíveis: poder assistir a três ou quatro peças por dia – às vezes duas seguidas, quase sem intervalo – é uma das formas maiores de felicidade. Normalmente, prefiro a programação não-oficial, conhecida como off em Avignon e, em Edimburgo, como fringe.

Na capital da Escócia, em 2010, registrei que uma peça intitulada Sub Rosa, escrita e dirigida por David Leddy, e montada por sua companhia teatral, Fire Exit, seria apresentada em uma antiga Loja Maçônica, transformada durante o Festival em local para peças do fringe, com o nome de Hill Street Theatre, por causa do endereço. Hill Street, situada no coração da área georgiana da cidade, é uma rua com casas todas iguais, cinzentas, baixas, sem maior distinção arquitetônica. Sub Rosa estava sendo apresentada tarde e terminava em torno da meia-noite. Minha mulher e minha filha, por essa razão, preferiram não ir.

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A peça transcorria em vários ambientes da casa. Os espectadores íamos andando, guiados, de cômodo em cômodo, e em cada um víamos atores representar partes da estória. No Reino Unido, esse tipo de espetáculo é chamado também de promenade theatre. Lembro pouco do texto, mas tenho vívida lembrança de que o tema era tenebroso e envolvia crimes transcorridos em um teatro, na era vitoriana, bem evocada pela decoração da casa e pelos trajes dos atores. A cada cômodo, a inquietação aumentava, o terror e a repulsa com o que ouvíamos e víamos era maior. Depois de uma hora, ou hora e meia, fomos repentinamente deixados em uma rua paralela, sombria. Fazia frio – estive três vezes na Escócia, sempre no verão, e nunca passei calor – a noite era escura, as ruas estavam desertas, se comparadas à agitação diurna do Festival, e caminhei em direção ao hotel sob o impacto da peça e do ambiente ao meu redor.

Punchdrunk é talvez o pai do teatro de imersão. Em 2007 e 2008, em sucessivas viagens a Londres, eu me sentira frustrado ao não conseguir ingressos para uma famosa produção do grupo, Masque Of The Red Death, inspirada na obra de Edgar Allan Poe.

Sobre Sleep No More, baseada em Macbeth, eu ouvira recomendações de primeira mão de minha filha e minha irmã, que haviam assistido ao espetáculo juntas em Nova York, em outubro. Antes de mais nada, é preciso esclarecer que tenho apreço especial por Macbeth, uma das obras mais perturbadoras de Shakespeare em termos psicológicos. A relação entre o marido e a mulher, a de ambos com diversos outros personagens e o papel das bruxas são objeto de fascinação.

A primeira vez em que assisti à peça foi em Londres, quando lá estudava, em uma produção da Royal Shakespeare Company. Lendo o que escrevi no programa na época, vejo o seguinte comentário: “A grande tragédia de Lady Macbeth é ter se casado com o homem errado. Ela fica desesperada ao reparar que o marido não é forte o suficiente para enfrentar as consequências do crime. Ela não acha errado o assassinato do Rei, mas fica desesperada de ver que ela e o marido estão perdidos, porque ele não está à altura”. Já não posso imaginar o que, na produção, me fez chegar a essa análise, que mais se parece a uma declaração de amor por Lady Macbeth e a uma tentativa de me apresentar como parceiro mais sólido do que seu marido.

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Mais recentemente, em 2009, assisti em Namur, em inglês, à estréia de produção da peça pela notável companhia britânica Cheek by Jowl.

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Quanto à ópera de Verdi tirada da peça, assisti a três produções diferentes ao longo dos anos, em Londres, Bruxelas e Liège. A montagem em Bruxelas, em 2010, no La Monnaie – teatro que marcou minha vida, pois foi a primeira Casa de Ópera que conheci, quando era criança – era de Krzysztof Warlikovski, o mais iconoclasta dos diretores de teatro, que já vi ser vaiado na Ópera de Paris, por sua ousadia. No entanto, já não me lembro de detalhe algum de sua produção de Macbeth em Bruxelas. Esse é um ponto notável das artes cênicas: nunca sabemos o quanto aquilo que vemos naquele momento nos afetará, a longo prazo.

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Pude assistir a Sleep No More apenas na nossa última noite em Nova York. O espetáculo é apresentado cinco ou seis vezes por dia, do final da tarde até de noite. Só havia entrada para o último horário, 21h45. No dia seguinte, cedo, pegaríamos o voo de volta para o Brasil. Por isso, minha mulher decidiu não ir. Seu bom senso indicou que ficar até à meia-noite subindo e descendo escadas incessantemente, na penumbra, para acordar poucas horas depois e ir ao aeroporto não seria razoável. Delicadamente, comentou: “E afinal, alguém tem de fazer as malas”.

A porta do prédio se abre e a fila anda. Entro em um corredor, ao longo do qual está o vestiário. Ao fundo, na bilheteria, eu me identifico e recebo esta carta:

Naturalmente, a carta adiciona elemento a mais de mistério mas se revelará tão inútil quanto a agitação do homem do lado de fora. Em momento algum ela me será solicitada.

Continuo por outro corredor escuro, forrado de preto, em zigue-zague, e chego a uma sala:

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Aqui, cabe explicar o cenário de Sleep No More em Nova York. O prédio onde as representações acontecem é um conjunto de antigos depósitos, mas os produtores o apresentam, de forma fantasiosa, como sendo um velho hotel abandonado e restaurado para servir de local para a peça. O hotel inventado pela produção se chama McKittrick e os cinéfilos maníacos por Hitchcock talvez reconheçam ser esse o nome do hotel onde  Madeleine, uma das duas personagens vividas por Kim Novak em Um Corpo Que Cai, entra para criar confusão na mente de Scottie, o personagem de James Stewart, que, da rua, a observa na janela mas, ao entrar no hotel e subir até o quarto, não a encontra.

Junto à sala ilustrada acima, há um bar, o Manderley, cujo nome remete a outro filme de Hitchcock, Rebecca, pois assim se chama a casa palaciana em que vai morar a heroína, vivida por Joan Fontaine, ao se casar com o rico viúvo Maxim de Winter – uma das melhores interpretações de Laurence Olivier no cinema –  e onde vive obcecada pela figura de sua falecida predecessora.

Eis o bar, que é realmente usado como tal, e onde acontecem apresentações musicais:

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Por uma porta, localizada à esquerda da foto, entra-se na parte do hotel onde são apresentadas as cenas de Sleep No More e a partir deste ponto já não são autorizadas fotografias. A porta se abre, cada espectador recebe uma máscara branca – que é obrigado a usar – entra e mergulha em um novo universo. Minha filha e minha irmã tinham me dito que começava-se o percurso entrando em um elevador, o que amigos, semanas depois, no Rio, me confirmaram. No meu caso, não houve elevador. A porta se abriu, o grupo em que eu fora colocado passou o umbral. Vimos uma escada e ouvimos de um funcionário que era possível subir ou descer, como quiséssemos. Hesitei um segundo e decidi subir.

Sleep No More é um espetáculo sem falas. Os atores emitem, no máximo, onomatopéias e grunhidos. Na verdade, são mais bailarinos do que atores, pois há em muitas cenas uma forte preocupação coreográfica. A produção recria, por meio de mímica e gestos e danças, algumas cenas de Macbeth. Cada espectador, usando sua máscara branca, anda por onde quer, livremente, sobe ou desce escadas sem parar – sozinho ou juntando-se a um grupo que segue um dos atores – caminha por longos corredores, entra em cômodos que estarão vazios ou povoados por outros espectadores, dependendo do que neles esteja ocorrendo. Não há uma sequência pré-estabelecida na forma como assistimos às cenas. Estas, aliás, ocorrem repetidamente e podem ser vistas várias vezes na mesma noite. Minha filha e minha irmã, quando foram, ficaram quase quatro horas. Não tive essa sorte, pois à meia-noite, os funcionários do “hotel”, todos de preto e usando máscaras pretas, começaram a bloquear o acesso a determinados andares ou salas, obrigando os espectadores a gradualmente dirigir-se à saída.

Os trajes dos atores são da década de 30; a música, constante, contém ecos da mesma época, mas também de filmes de Hitchcock. Reconheci evocações da trilha sonora de Um Corpo Que Cai. A decoração é a de uma casa da alta burguesia britânica do final do século XIX. Alguns cômodos porém recriam ambientes que não seriam os de uma casa particular. Há uma farmácia, o ateliê de um taxidermista e o de um alfaiate, que vemos trabalhar, quase encostando nele no espaço pequeno, embora ele nos ignore totalmente. Há um quarto de hospital, com várias camas de metal. Há também a recriação da floresta evocada na peça. Como alguns dos ambientes, há cenas que nada têm a ver com Macbeth, criando eventos paralelos. Em alguns momentos, eu tinha a impressão de passar sempre pelos mesmos cômodos ou atores. Cruzei várias vezes, em diferentes corredores, com uma moça de chapéu, carregando uma mala de couro, despertando em mim a indagação de quem era e para onde ia, naquela constante movimentação. De repente, eu descobria um espaço ou um andar novo. Há dois bares. Um deles é o cenário da profecia das bruxas a Macbeth. Só que eram duas bruxas e um feiticeiro, todos vestidos em trajes de gala da década de 30. Macbeth usava um paletó de veludo roxo. A expressão corporal, nessa cena, é particularmente sensual, para ilustrar o quanto as bruxas e o feiticeiro dominam a mente de Macbeth. Em um dos cômodos, fora do eixo principal de circulação, vi um casal de espectadores – reconhecíveis pelas máscaras brancas – em uma cadeira de balanço, ela sentada sobre ele. Minha entrada no quarto gerou desconforto, e ela se levantou o mais rapidamente possível. Às vezes, eu me via sozinho em ambientes escuros e estranhos e pensava, inquieto, em romances de Agatha Christie.

Logo no início do meu percurso, cheguei ao quarto do casal Macbeth e assisti à cena em que Lady Macbeth convence o marido a matar o Rei. O amplo aposento – que inclui uma banheira no meio do ambiente, onde veremos Macbeth tomar banho, nu, frágil, tremendo, para retirar o sangue após a morte do Rei – continha numerosos espectadores, em pé, observando, mascarados, Macbeth sendo seduzido pela mulher. Era um espetáculo de alta carga erótica. Em Sleep No More, o sexo entre o casal Macbeth é figurado como sendo enérgico, quase violento. Macbeth começa rejeitando a mulher, por causa de seu pedido insistente de que ele mate o Rei. Gradualmente, cede à tentação física, joga a mulher contra a parede e a ela se junta. Depois, leva-a para a cama.

Numa segunda vez em que assisti à cena, mais tarde na noite, sentei-me em um banco ao lado do leito matrimonial dos Macbeth, observando de perto a mímica sexual dos intérpretes – ambos estavam vestidos – e, se quisesse, poderia neles ter tocado. Uma das funções dos funcionários de máscara negra é coibir que membros do público tomem a iniciativa de interagir com os atores. Estes, porém, frequentemente se aproximam dos espectadores. Quando participei da cena da loucura, ao longo de um corredor, seguindo Lady Macbeth em sua caminhada alucinada, notei que ela frequentemente parava para cochichar palavras incompreensíveis no ouvido de alguns espectadores. Preferi evitar tanta proximidade com ela. Quando, porém, ela se jogou ao chão, pouco depois pediu com o olhar que eu a ajudasse a se levantar, o que fiz. Uma hora antes, Macbeth, ao voltar ensanguentado para o quarto depois do assassinato do Rei, esbarrara em mim.

A questão é que a presença física do casal era desagradável, pois a produção consegue criar um clima pelo qual sentimos, os espectadores, que estamos dentro da estória. As máscaras brancas fazem de nós fantasmas, que presenciam, ininterruptamente, as mesmas cenas, enquanto elas acontecem e se repetem. O espetáculo faz uma análise sutil sobre a noção de tempo, sobre a ideia de que o que aconteceu no passado continua acontecendo insistentemente. Testemunhamos, em 2017, em Nova York, uma estória ocorrida na Idade Média escocesa. Assim, quando o ator esbarrou em mim e quando dei minha mão à atriz que representava sua mulher para que se levantasse do chão, esses foram momentos gélidos, de pavor; não eram os intérpretes com os quais eu interagia, mas quase que literalmente com Macbeth e com Lady Macbeth, portanto um assassino em série e sua cúmplice e instigadora, que matam para subir ao trono e matam para nele se manter.

Não consegui, por mais que tentasse, ver todas as cenas. Perdi o segundo encontro de Macbeth com as bruxas. Simplesmente, não aconteceu de eu estar na hora certa no ambiente certo para testemunhar a cena. A morte do Rei me deu trabalho, mas pude vê-la, ao seguir Macbeth fora do quarto na segunda vez em que, sem querer, testemunhei a cena da sedução. O ator caminhou a passo veloz por corredores e escadas que eu até então não vira, e foi difícil acompanhá-lo. Nesta produção, Macbeth mata pessoalmente, estrangulando-a, Lady Macduff, que aparece grávida, para simplificar, pois na peça seu filho também é morto. A cena é muito bem levada: há um embate físico, particularmente vocal, entre Macbeth e sua vítima. Vemos que Macbeth já não demonstra hesitação, temor ou pudor na hora de cometer um crime.

O programa, vendido na saída, apresenta entrevista com os dois diretores, Felix Barrett – fundador de Punchdrunk – e Maxine Doyle:

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Barrett declara no final da entrevista que “Sleep No More é uma experiência visceral tanto para a mente como para o corpo. Algumas pessoas preferem explorar o espaço de forma metódica, enquanto outras seguem os atores. Algumas pessoas a vêem como teatro, outras como instalação artística”.

A primeira foto desta postagem é da minha máscara. Foi tirada no taxi, depois do espetáculo, a caminho do hotel. O fundo preto é meu sobretudo, dobrado no banco traseiro. Em sua entrevista, Felix Barrett informa que o uso das máscaras pelos espectadores garante que cada experiência será individual e que elas são parte importante “do mundo onírico que tentamos criar”.

Alguns comentários de espectadores, na Internet, fazem referência ao filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick. Como nesse filme, em Sleep No More há espectadores mascarados, tensão sexual e a percepção de que há um ambiente criminoso. Pessoalmente, pensei mais no filme Malpertuis, do diretor belga Harry Kümel e baseado em livro de Jean Ray, que meus irmãos e eu vimos inúmeras vezes na infância e na adolescência e que minha irmã e eu adoramos até hoje. O cenário de Sleep No More lembrou-me muito o da casa onde, em Malpertuis, todos os personagens – que são os deuses do Olimpo, caídos – são obrigados a viver como burgueses de Bruges do final do século XIX, aprisionados que foram pelo personagem malévolo de Orson Welles, que os encontrara perdidos em uma ilha.

Sleep No More é uma experiência forte e sei que as pessoas costumam voltar para revê-la. Consegue criar uma atmosfera única e transformar a nós, os espectadores mascarados, em participantes do enredo. Vemos Macbeth se rebelar contra a falta de escrúpulos da mulher, contestar seu pedido, mas gradualmente ceder, pela gratificação de um momento sexual e pela simples predominância da personalidade de Lady Macbeth. Logo após o ato sexual virão o primeiro crime, o trono e em seguida mais crimes, mais sangue… E nós, fantasmas atemporais, condenados a ser testemunhas recorrentes, para a eternidade, daqueles eventos, nada podemos fazer para impedi-los. É uma produção para dar calafrios.

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Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro

Noite chuvosa e fria de sábado no Rio de Janeiro. Tenho entradas para assistir A Importância de Ser Perfeito no Teatro do Leblon. Já assisti, creio que há dois anos, essa mesma produção da peça atemporal de Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest. Dirigida por Daniel Herz e traduzida e adaptada por Leandro Soares, é uma versão  brilhante e muito divertida. Conta com a presença inesquecível em cena de George Sauma, no papel de Gwendolen, que vira Patrícia nesta montagem. Sim, porque uma característica da produção é que mesmo os papéis femininos são representados por homens. O resultado é que o tom de escracho da peça aumenta; as roupas e a maquiagem de “grand guignol” usados pelos atores causam o mesmo efeito.

Abaixo, o cartaz da produção da peça no Rio de Janeiro. Não sei em que momento esteve no Teatro de Arena da Caixa Cultural. Foi já no Teatro do Leblon que a vi anteriormente, na Sala Marília Pêra. Atualmente, está na Sala Fernanda Montenegro. Esta é uma montagem que se presta particularmente bem a uma arena pequena.

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A peça de Oscar Wilde é verdadeiramente anárquica. Por intermédio de comédia e falas espirituosas questiona todos os princípios valorizados pela sociedade vitoriana: o casamento, o amor, a amizade, a relação entre pais e filhos, a igreja anglicana, o exército (Algernon é filho de um General), a posição social e a estabilidade política (quando a figura imperiosa e esnobe de Lady Bracknell, mãe de Gwendolen, condena a Revolução Francesa, o espectador automaticamente passa a ter a opinião contrária). A peça é um fenômeno porque usa a comédia para criticar o que não pode ser criticado. Em sua estréia, em 1895, estavam presentes representantes da elite social, política e econômica de uma Inglaterra no auge de seu prestígio e influência no mundo. Foram ao teatro para ver os seus valores serem gentilmente ridicularizados.

Nesse sentido, The Importance of Being Earnest se parece com a peça de Beaumarchais Le Mariane de Figaro, sobre a qual a Baronesa d’Oberkirch diria em suas Memórias que a nobreza se precipitava em ir assisti-la, na estreia em 1784, e que depois se arrependeria (“Ils ont ri à leur dépens… ils s’ent repentiront plus tard“). Ela mesma não se eximiu de ir e escreveu que Le Mariage de Figaro era algo tão espirituoso, que chegava a ser “étincelant, un vrai feu d´artifice“, o que seria uma boa maneira de também resumir The Importance of Being Earnest.

No caso da peça de Wilde, foi o autor quem sofreu as consequências da sua tendência a debochar das convenções sociais. A estreia foi o canto do cisne de Wilde. Em seguida, viriam a denúncia, o processo, o escândalo, a infâmia e a prisão. Para o espectador minimamente bem-informado, portanto, o tom espirituoso da obra traz – ou deveria trazer – um elemento de tristeza. 

Assisti a The Importance of Being Earnest pela primeira vez em Londres, no National Theatre (hoje, Royal National Theatre, mas o nome original ainda é o mais usado, inclusive pelo próprio teatro), em uma  famosa produção dirigida por Peter Hall e na qual Judi Dench era uma soberba Lady Bracknell e Nigel Havers (vindo diretamente da sua então recente celebridade como um dos atores do filme Chariots of Fire) e Zoe Wanamaker estavam marcantes como Algernon e Gwendolen.

Em 2004, assisti a uma produção em Washington:

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O programa da produção em Washington cita frase de Borges, segundo quem The Importance of Being Ernest “é mais do que uma comédia, é uma forma verdadeira de felicidade”.

Assisti a outra produção em Londres, em 2008, no Vaudeville Theatre, muito satisfatória, com Penelope Keith como Lady Bracknell. O mesmo teatro apresentou nova montagem em 2015, que não vi, com um ator, David Suchet, no papel de Lady Bracknell. O programa da montagem de 2008 reflete o luxo daquela produção:

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Reparem, na foto abaixo, no cenário em que John, de joelhos, se declara a Gwendolen:

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Das versões cinematográficas, a de 1952, dirigida por Anthony Asquith, me agrada mais do que a de 2002, dirigida por Oliver Parker, luxuosa e com elenco estelar (Colin Firth, Rupert Everett e Judi Dench novamente como Lady Bracknell), mas talvez excessivamente solene, apesar da inclusão de uma cena picante: logo no início do filme, Algernon e Jack se encontram em um espetáculo de cancan.

Lendo o programa, que guardei, da produção no National Theatre, vejo que registrei sobretudo a beleza da atriz que fazia Cecily, Elizabeth Garvie. Eu era adolescente. O desenho revela um detalhe importante da trama:

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Na fria e chuvosa noite de ontem, sábado, fui então ao teatro com um pequeno grupo. Chegamos cedo. É sempre bom, na galeria onde estão as salas do Teatro do Leblon, sentar-se em um bar e entrar na livraria Sabor Literário.

E aí começaram as surpresas.

A livraria fechou. Porta trancada, tudo apagado. Grudei no vidro, olhei dentro. Havia apenas umas poltronas e umas mesas baixas. Nem estantes, nem livros. Vi umas poucas caixas de papelão, presumivelmente guardando o que sobrara dos livros. Quando uma livraria fecha, sempre me pergunto aonde foi parar o estoque. E questiono por que não foi parar em minha casa.

Tirei a foto abaixo:

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Posso ser visto segurando o celular, atrás do “L”. Noto agora que outro homem, de camisa cor-de-rosa, atrás do “T”, também olha para a cena desoladora. Fui pegar as entradas e perguntei sobre a livraria. “Fechou no mês passado”, me disseram.

Esta é a segunda livraria que encontro fechada, extinta e vazia em quatro dias. A primeira foi em Brasília, na terça-feira, dia 8 de novembro, quando me deparei com a desaparição da livraria do CCBB.

Leio em O Globo, na coluna do Ancelmo Gois de hoje, que “entre 12 de setembro e 9 de outubro, houve queda de 14,1% na venda de livros, na comparação com o mesmo período do ano passado”. Temo que em breve esbarrarei em outras livrarias fechadas.

Os pastéis e a lingüiça, no bar, estavam perfeitos. O suco de abacaxi com hortelã também.  Entradas de teatro, mesmo as mais simples, são a promessa de um mundo intenso, em que livrarias só fecham de mentirinha:

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São quase 21:00 h, o espetáculo vai começar. Entrar em uma sala de teatro é sempre uma experiência sedutora para mim. O fato de eu conhecer o texto praticamente de cor e de já ter visto essa produção não muda nada, talvez até aumente a expectativa. Entro e vejo a sala gradativamente lotando e tiro uma foto enquanto vamos aos nossos lugares:

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Naturalmente, não há programa, mas isso no Brasil é tão comum que já não espero que haja. A tensão aumenta, a peça vai começar, aliás já está um pouco atrasada.

Tenho tempo de tirar algumas fotos do cenário, fico me perguntando qual delas é melhor… Acho que esta:

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Presumivelmente, o  carrinho da direita servirá para que Algernon e seu mordomo sirvam o chá a Lady Bracknell e Gwendolen.

Nisso, aparecem quatro ou cinco dos atores em cena e se dirigem à beira do palco. Estão maquiados e vestidos para seus papéis e acompanhados de uma moça de preto que tem, somos informados, um aviso a nos comunicar. O choque é direto e abrupto: “gente, um dos atores tem um problema de saúde e não apareceu hoje… estamos tentando falar com ele o dia todo e nada… infelizmente o espetáculo hoje terá de ser cancelado”. Sorrio, encantado com o artifício da produção: causar uma má surpresa, para em seguida rir de contentamento por ter feito troça dos espectadores e começar o espetáculo. Infelizmente, estou equivocado. É tudo bem sério, os atores declaram estar tristes de não poderem, naquela noite, fazer o que mais amam, que é atuar. A gerente, a moça de preto, informa que podemos pedir o dinheiro de volta na bilheteria.

A plateia aceita tudo calmamente, um espectador sentado na segunda fileira, bem na minha frente, diz em tom gentil: “Bem, ficamos só tristes de saber que um dos atores está doente, não é culpa de ninguém”. Dentro de mim, concordo, mas fico me perguntando  se só eu sinto falta de uma figura fundamental em toda produção teatral. Penso: “mas como, não há um substituto? Não existe o understudy?”. Lembro de All about Eve (A Malvada), talvez o melhor filme jamais feito sobre a vida teatral, em que o personagem de Ann Baxter, Eve, amiga, confidente e assistente da atriz de teatro interpretada por Bette Davis, consegue fazê-la perder uma representação, para poder substituí-la no palco. Como tramou tudo, convidou críticos teatrais para assistirem justamente a essa representação. E como estudou bem o papel, sua atuação é excepcional e sua carreira deslancha. “Nada disso vai acontecer aqui hoje?”, penso na terceira fila. Por respeito aos atores, decido não fotografá-los, inclusive porque, por eliminação, posso deduzir qual deles está faltando hoje e não quero colocá-lo na berlinda.

Saio com meu grupo. Todos vão se sentar novamente no bar da galeria, enquanto faço a fila na bilheteria, triste e torcendo para que a doença do ator não seja grave.  Ouço a senhora da bilheteria explicar ao casal na minha frente que, nos casos de entradas compradas por um sítio na Internet, o cliente deve pedir o reembolso pelo sítio. Dirijo-me à mesa onde estão meus amigos, meditando sobre o fato de o teatro transferir para o público o ônus de conseguir seu dinheiro de volta e sobre o trabalho que isso vai me dar e avaliando ser remota a probabilidade de que eu recupere o dinheiro.

Sento-me à mesa. Uma amiga no grupo, psicanalista, olha para mim calmamente e declara: “Hora de ir ao brigite’s tomar um Bellini, para que tudo melhore”, pondo em palavras meu pensamento preciso naquele instante. Sei o que os dois leitores deste blog estarão a pensar: “Dar-se com psicanalistas é assim… eles olham para nós e adivinham o que sentimos, pensamos e queremos… um perigo, isso”. Não, caros leitores. A percepção de minha amiga psicanalista não foi nem mágica nem profissional. Apenas, ela foi ao Brigite’s pela primeira vez, há poucos meses, levada por mim, e lá expliquei-lhe que o Bellini daquele restaurante e bar é o melhor da cidade. Sabe, por isso, do meu apreço pelo local e pelo drinque. Como boa amiga, desejava levantar meu moral e curar minha decepção.

Vamos ao Brigite’s… lotado, gente na porta esperando. Acontece que havia duas senhoras no grupo, uma delas minha mãe; havia também uma de minhas sobrinhas, bela, simpática e charmosa. Usando o argumento das duas senhoras, a jovem magicamente conseguiu uma mesa para nós. O Brigite’s é o lugar no Rio mais parecido com Búzios, e se o vento da praia da Ferradura  já estragou um livro meu, não há de ser isso que vai mudar meu amor pelo balneário e por tudo que me faça pensar nele.

Chega o Bellini… menos bom do que o habitual, embora decente. A amiga psicanalista novamente me olha e comenta: “Com a idade, vai-se perdendo o paladar, acho”. Fico atônito e declaro: “Estava justamente pensando nisso”.  Como meus dois leitores, começo a pensar que a psicanálise dá a seus praticantes poderes mágicos de adivinhação… O drinque pode ter estado menos bom do que o original, mas estava bom o suficiente para ser  apreciado. Dos copos que aparecem na foto abaixo, o mais vazio é o meu:

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Chamo o garçom e digo: “o Bellini hoje está um pouquinho sem sabor. Foi feito pelo barman habitual?” O garçom, extremamente amável, diz que o barman de sempre, Leo, está no bar, mas que vai verificar se os drinques foram preparados por ele ou um dos ajudantes. Minha bela, simpática e charmosa sobrinha me diz: “Isso não foi gentil”. Fico surpreso: “Como, eu não fui gentil com ele?” Ela: “Ao contrário, você foi super-educado, mas reclamar, mesmo educadamente, nunca é um ato gentil”. Medito sobre essa filosofia, e nisso chegam os pratos. Divido com a amiga psicanalista (ela adivinhara o que eu ia pedir), um bacalhau à romana, excelente.

De repente, aparece Leo junto à nossa mesa. Pergunta, muito atenciosamente, com um sorriso, o que acontecera com os drinques e comenta que não os fizera ele próprio. A amiga psicanalista quer outro (eu também!), minha sobrinha está dizendo a Leo que o Bellini estava ótimo, que nunca tomara um tão bom (nunca tomara nenhum na vida, mas nada digo a respeito), então fico na dúvida sobre como responder ao barman. Leo tudo resolve, informando: “Vou eu mesmo fazer novos Bellinis para vocês todos, e esses serão por conta da casa”.

Enquanto esperamos, pedimos sobremesas. A minha, um suflê de chocolate com avelã, estava excepcional.

Chega a segunda rodada de Bellinis. Excelentes. Tudo parece estar voltando ao ponto certo. Todos estamos felizes. Na mesa ao nosso lado, um casal de namorados faz pensar no futuro.

Levantamo-nos para partir. Ao sair, paro no bar e agradeço a Leo. Ele nunca saberá, a não ser que eu comente com ele em uma próxima visita ao restaurante, mas seu profissionalismo e sua simpatia transformaram uma ida ao teatro decepcionante em uma noite agradável. Prestes a enfrentar a chuva e a disputa por taxis na rua, noto duas imagens novas na parede do Brigite’s, mostrando o Rio em seu esplendor. A foto da esquerda é da Pedra do Arpoador; a Praia do Arpoador é a que eu frequentava na adolescência e no começo da vida adulta, pois meu pai morava no bairro. Paro um segundo frente à foto, penso no meu pai com carinho e saudade.

Saímos todos. Chove forte, mas há vários taxis na porta do restaurante. A vida pode ser inacreditavelmente perfeita.

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