Sou um diplomata carioca e mineiro. Outras informações sobre mim estão dispersas nas postagens.
Você encontrará nesta página reflexões sobre o tempo, a memória e minhas opiniões sobre arte, livros, filmes. Juntas, as postagens formam meu livro de memórias. Minha família e meus amigos são personagens recorrentes.
Seus comentários são muito bem-vindos. Não hesite em fazê-los. Serão respondidos.
Transcrevo abaixo minha terceira coluna quinzenal para o jornal Estado de Minas, publicada ontem, sábado 15 de fevereiro:
“Quando vocês lerem esta coluna, caras leitoras e caros leitores, eu já não estarei fisicamente na Malásia. Depois de trabalhar cinco anos em Kuala Lumpur, minha profissão estará me levando a caminho de um novo continente, de novas tarefas, de novos deveres.
Neste momento, escrevo ainda de casa em Kuala Lumpur, na reta final do meu tempo aqui, olhando pela janela para o Parque KLCC, projetado por Roberto Burle Marx.
Há poucos dias, uma jornalista malásia me perguntou o que eu considerava ser meu maior êxito como embaixador do Brasil no seu país. Respondi, de maneira previsível — mas nem por isso menos verdadeira —, que o principal resultado da minha gestão terá sido a participação do primeiro-ministro Anwar Ibrahim na Cúpula do G20 no Rio de Janeiro, em novembro de 2024, e o convite malásio para que o presidente Lula participe da Cúpula da ASEAN em outubro deste ano. Lembrei que nunca antes um presidente brasileiro participou de Cúpulas da ASEAN.
Minha interlocutora me olhou surpresa e disse: “Pensei que você diria: o livro”. Admiti que eu pensara em responder a ela mencionando o livro a que se referia, Um brasileiro em Kuala Lumpur: Roberto Burle Marx e o Parque KLCC, publicado pela Embaixada do Brasil nos últimos dias de 2023.
O parque, o mais central da capital, estende-se aos pés das famosas torres gêmeas, as Petronas, sede da estatal de petróleo da Malásia. A sigla KLCC significa “Kuala Lumpur City Centre” e é o nome do bairro, do parque e do centro comercial situado entre as torres.
Burle Marx era certamente, na década de 1990, e vinha sendo há muito tempo, o arquiteto paisagista mais famoso do mundo. É natural, portanto, que a Malásia, embora em termos geográficos tão distante do Brasil, tenha decidido escolhê-lo para projetar o parque KLCC, no coração do novo centro financeiro da capital. No final da vida, o grande arquiteto paisagista brasileiro visitou a Malásia duas vezes para trabalhar no projeto, que foi concluído após o seu falecimento, acontecido em 1994. É sua única obra na Ásia.
Desde minha chegada a Kuala Lumpur, eu desejava celebrar esse elo — vivo, nítido, tão eloquente — entre o Brasil e a Malásia. Depois de quatro anos de esforços, atingi meu objetivo, graças ao apoio do Instituto Guimarães Rosa, unidade do Itamaraty responsável pela diplomacia cultural e educacional. O IPHAN cedeu material sobre o Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro, que, ao encerrar o volume, ilustra a trajetória do paisagista. Os desenhos, fotos e documentos fornecidos pelo Instituto Burle Marx são muitos deles inéditos, já que sua catalogação ocorreu especificamente para poder ilustrar o livro. A Vale Malásia, empresa que é a maior investidora latino-americana no país, garantiu a impressão em capa dura.
O trabalho diplomático apresenta a característica, às vezes ingrata, de que muito do empenho, das tarefas exaustivas realizadas gera frutos apenas meses, anos depois que partimos para novas funções. A diplomacia é uma atividade de longo prazo. É uma aula constante de que o ser humano não é eterno. Eu já não estarei em Kuala Lumpur quando o presidente Lula vier à Malásia para a Cúpula da ASEAN. Vários acordos bilaterais a que me dediquei, nas áreas por exemplo de saúde, investimentos, semicondutores, só poderão ser finalizados após a minha partida.
Os resultados são frequentemente imateriais, mas nem por isso menos importantes. O cotidiano é árduo, e no entanto pode-se chegar ao final do dia sem nada de concreto a mostrar. Mas sementes foram plantadas, que o futuro verá florescer.
Já o livro sobre o parque de Burle Marx em Kuala Lumpur, bilíngue em português e inglês, será sempre um resultado tangível. Cumpriu o propósito de tornar o nome do Brasil mais presente no imaginário malásio. Foi distribuído a políticos, jornalistas e formadores de opinião. Em janeiro de 2024, quando comecei a divulgar o volume, eu estava completando quatro anos como embaixador na Malásia. Podia, com confiança, acreditar conhecer bem o país. Quanto mais você trabalha, porém, mais seus horizontes se abrem, mais você aprende, e surge mais trabalho. O livro trouxe-me novas amizades, novas atividades profissionais, gerou novos interesses, mais acesso à mídia, fez-me conhecer mais gente relevante para o meu trabalho. Abriu portas.
Os mineiros têm sorte. Burle Marx projetou, na década de 1940, quando era ainda muito jovem, jardins na Pampulha. Os belorizontinos podem assim usufruir em casa do seu talento, podem passear por sua obra. Cinquenta anos depois, a trajetória do paisagista encerrou-se com o Parque KLCC. De família da Zona da Mata, há anos não vou à Pampulha. Da mesma forma, talvez venham a passar anos até eu poder sonhar em caminhar novamente pelo Parque KLCC.
Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro, o livro de ensaios Geografia do tempo.
As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do autor”.
Depois de trinta horas de viagem, porta a porta, do apartamento em Kuala Lumpur à casa da minha mãe no Rio de Janeiro, foi uma alegria ver meu livro Geografia do tempo esperando por mim.
Se você está apaixonado (a), esse livro é para você. Se você gosta de viajar, esse livro é para você. Se você tem gato ou cachorro, esse livro é para você. Se você tem amigos, esse livro é para você.
Espero você na noite de autógrafos, terça-feira 26 de novembro, a partir das 19:00, na Livraria da Travessa do Leblon.
Foi assim que o Rio de Janeiro apareceu, do mar, em janeiro de 1839, a um viajante inglês a caminho de Singapura, que via a cidade pela primeira vez: “A costa mais pitoresca que jamais vi — montanhas empilhadas, embaralhadas e torturadas em todos os formatos — entalhes profundos e numerosas ilhotas e cenários arborizados”. Destinada a um amigo, a carta foi retomada dois dias depois: “Visitei ontem o Jardim Botânico, perto do qual há um lago de água doce. E lá contemplei, pela primeira vez, o beija-flor, em toda a sua diminuta beleza, esvoaçando entre as flores como as mais resplandecentes abelhas — a árvore que ele frequenta é de Malaca! Plantas exóticas são cultivadas — a jaca, a árvore-do-pão, a mangueira”.
Nosso viajante menciona serem essas árvores velhas conhecidas suas, pois afinal ele nascera em 1803 na Índia, onde seu pai era juiz a serviço da East India Company, e lá morara até os doze anos de idade. De 1819 a 1825, voltara à Índia para servir, em Bengala, ao exército da Companhia das Índias Orientais e participara da Primeira Guerra Anglo-Birmanesa, na qual fora ferido.
Algumas árvores podiam parecer familiares, mas o Rio apresentava novidades para ele: “a vegetação é peculiar”. Na carta seguinte ao mesmo amigo, escrita em março da Cidade do Cabo, ele afirma: Rio is a lovely place, and I left it with regret. Diz inclusive não estar gostando do Cabo, que segundo ele, after the tropical vegetation and luxuriant verdure of Rio, presents few features of attraction.
A beleza das montanhas verdes do Rio de Janeiro sobre o mar parece ter causado sempre grande impacto sobre os viajantes daquela época. Textos de dois artistas franceses que, como nosso viajante inglês, vieram ao Brasil na primeira metade do século XIX, confirmam essa impressão.
Em 1835, Jean-Baptiste Debret, que morara no Brasil de 1816 a 1831, nos fala, relembrando a sua chegada à Baía de Guanabara: “o conjunto encantador desse lugar delicioso, recoberto em toda parte por um verdor escuro, geralmente cintilante” e aponta que o cenário revelava “um aspecto de abundância universal”. Édouard Manet, aos 17 anos, escreve, em carta à sua mãe, em fevereiro de 1849, ainda do barco no qual acabara de ancorar no Rio de Janeiro: “o porto do Rio é encantador, rodeado de montanhas verdes”. Em cartas posteriores, queixa-se das chuvas, constantes durante dias seguidos; afinal, era verão.
Há muitos anos eu não vejo a cidade desde a baía, e fico me perguntando se, apesar dos arranha-céus, o impacto do verde seria o mesmo hoje. Joseph Brodsky não viu o Rio do mar, em sua única visita, em 1979, e mesmo assim ficou impressionado com a vegetação, diferente de tudo com o que um europeu pudesse se identificar, criando “a sensação de uma fuga total da realidade conhecida”.
“As montanhas empilhadas e embaralhadas”
Voltemos ao nosso viajante inglês, voltemos ao ano de 1839. Assim como nas cartas, também em seu diário ele demonstra entusiasmo pelo Rio de Janeiro, notando que a cidade “apresenta aspectos de beleza natural raramente igualados”. Menciona porém “o calor extremo” e, como faria Manet dez anos mais tarde, as chuvas “que estragaram, até certo ponto, a satisfação que eu poderia ter obtido ao deambular por este pitoresco país. Passei porém dez dias muito agradavelmente”. Em vez de descrever, como as cartas, o Jardim Botânico, os pássaros e a natureza, o diário nos faz lembrar que as maravilhas do Rio de Janeiro de então escondem, como hoje, muita violência. Em um de três navios ancorados no porto do Rio com sua carga de africanos escravizados, o inglês vê a realidade de um “navio negreiro” como o descrito em todo o seu horror pelo poema de Castro Alves.
O viajante chegara ao Rio a bordo de sua própria escuna, Royalist, que ele comprara três anos antes, usando parte da herança que recebera com a morte do pai. A escala no Brasil não era necessária, pois seu barco transportava água suficiente para fazer diretamente a viagem da Inglaterra até o Cabo. A vontade de ver o Rio parece ter sido a razão da triangulação marítima. Impossível, portanto, contraste maior entre a realidade do inglês rico e independente e a dos africanos escravizados. Diz ele: “é uma visão odiosa e repugnante. Homens, mulheres e crianças — os anciãos e os infantes — confinados em um espaço mínimo”, condenados a “permanecer ali, deteriorando-se por semanas ou meses, até serem lançados a uma escravidão perpétua e sem esperança”.
Passados dez dias, o Royalist zarpa novamente, levando nosso viajante inglês, James Brooke, até Singapura, com escalas na Cidade do Cabo e em Java.
Em anos anteriores, viagens pela Ásia, que o haviam levado, além da Índia, a Penang, Malaca, Singapura, Cantão, haviam despertado em Brooke curiosidade pelo Arquipélago Malaio, particularmente Bornéu. Em 1838, ele publicara artigo na Inglaterra intitulado “Exploring Expedition to the Asiatic Archipelago”, em que anunciava sua viagem.
O tom é o de um explorador britânico da época, com uma boa dose de espírito de aventura, misturado com imperialismo, cobiça e a certeza de que seu país era o melhor do mundo e merecia exercer influência em toda parte. Há sinais de uma certa ingenuidade, e também sede de conhecimento; falta saber se esses dois sentimentos são verdadeiros ou teatrais, incluídos para tornar o imperialismo mais palatável. Uma frase chama a atenção: I embark upon the expedition with great cheerfulness. São palavras bonitas, na aparência inocentemente juvenis, mas é impossível não ter consciência, em retrospecto, de que essa era a reação que o autor do artigo desejava despertar nos leitores.
O texto trata com admiração de Sir Stamford Raffles, graças a quem Singapura, a partir de 1819, transformara-se em um posto avançado do Império Britânico. Raffles, como modelo, aparece de forma particularmente nítida em versão mais longa do artigo de Brooke, dada a conhecer pelo destinatário das cartas sobre o Rio de Janeiro, John Charles Templer, em livro de 1853. Ato de amizade, um dos muitos testemunhos da devoção que James Brooke era capaz de despertar, o volume de Templer, ao publicar o manuscrito do artigo, deixa transparecer ideia bem mais clara dos objetivos de Brooke com a sua empreitada no Arquipélago Malaio. A região, afirma: “apresenta terreno extenso para a Cristandade e o comércio, rica bem mais do que as Américas em produção mineral, de uma beleza natural incomparável, mas ainda inexplorada e que, apesar das vantagens que certamente ocasionaria, não atraiu ainda a atenção merecida”.
Brooke condena a “timidez” da Companhia das Índias Orientais no Arquipélago, a “vacilação e a fraqueza” da política inglesa para a região e a “ignorância e indiferença” de sucessivos governos britânicos. Lamenta que não tivesse sido seguida “a linha de conduta proposta por Sir Stamford Raffles”, de criação de entrepostos que “interligassem as colônias britânicas no Oriente”, o que teria assegurado “o predomínio do Reino Unido” no Arquipélago. A consequência desse descaso, afirma, é a exclusão do Reino Unido das vantagens do comércio na região, de que se aproveitava a Holanda. É a luta colonial entre países europeus que a versão mais longa coloca em evidência.
Em resumo, é um defensor do imperialismo falando, apesar de toda a mística de aventuras heroicas envolvendo seu nome.
Em Singapura, Brooke ouve falar do vice-rei de Sarawak, Hassim, tio e herdeiro do sultão de Brunei, soberano de toda a costa norte da ilha de Bornéu. Hassim, pouco antes, ajudara naufragados britânicos, e Brooke recebe a incumbência de entregar-lhe uma carta de agradecimento. Mas em Singapura, Brooke ouve também dizer que o território de Sarawak é rico em antimônio, e é bem possível que seu interesse em se instalar ali tenha começado antes mesmo de chegar a Bornéu.
Vi em julho de 2023, em Kuching, capital do estado malásio de Sarawak, no museu dedicado à família Brooke, um modelo do Royalist. Veículo do Império, a escuna atravessou o Atlântico com seus pequenos canhões, aportou no Rio de Janeiro, navegou pelo Índico e o Pacífico, e serviu de instrumento para o estabelecimento de Brooke como soberano de Sarawak, fundador de uma dinastia, o primeiro dos três “rajás brancos”.
O Royalist faz parte também do universo de um célebre escritor, embora por um equívoco seu.
Em 1920, Margaret de Windt, viúva de Charles Brooke, sobrinho e sucessor de James como rajá de Sarawak, escreveu a Joseph Conrad uma carta elogiosa a respeito de seu romance The Rescue, recentemente publicado.
Em sua resposta a Margaret, o escritor menciona que James Brooke era one of my boyish admirations, a feeling I have kept to this day strengthened by the better understanding of the greatness of his character and the unstained rectitude of his purpose. Conrad acrescenta que as aventuras do rajá inglês, por quem afirma sentir “familiaridade mental”, haviam em parte inspirado o enredo de The Rescue. Como é sabido, alguns aspectos da segunda parte de Lord Jim também remetem à vida de James Brooke. Conrad termina a carta afirmando ter visto, na Ásia, o Royalist, o qual, segundo ele, was still in 1887 running between Kuching and Singapore. She was a venerable old relic of the past.
A escuna, porém, vendida por Brooke em 1844, afundara na costa da Nova Zelândia dez anos depois. O Royalist visto por Joseph Conrad no Sudeste Asiático era um navio a vapor, encomendado por Brooke na Escócia em 1867, e não era portanto o barco histórico que permitira ao primeiro “rajá branco” instalar-se como soberano em Sarawak.
A vida de James Brooke, iniciada em 1803 e terminada em 1868, foi a de um aventureiro. Ele parece ter sido um homem sequioso por novos ares, insatisfeito com as restrições sociais do século XIX. Ao chegar a Sarawak, viu-se mergulhado em rivalidades políticas contra o soberano da região, o sultão de Brunei. Segundo a narrativa dos amigos que escreveram sobre ele, e perpetuada pela sua família, Brooke, tendo ajudado o vice-rei, Hassim, a debelar uma revolta, recebeu como recompensa o título de governador de Sarawak. Outorgou a si próprio o título de rajá, que o sultão de Brunei reconheceu. Nascia assim a lenda do “rajá branco” e de sua curiosa dinastia.
O historiador malásio Farish Noor analisa de forma crítica, em vários de seus livros e artigos, a atuação de James Brooke em Bornéu. Com alguma propriedade, aponta ser pouco provável que a família real de Brunei tenha voluntariamente cedido parte do seu território a um aventureiro inglês. Em um ensaio de 2019 intitulado “Don’t Mention the Corpses: the Erasure of Violence in Colonial Writings on Southeast Asia”, Farish Noor comenta ser esse enredo a sanitised account, o qual borders on the fantastical.
Em carta a Templer de agosto de 1839, Brooke descreve suas primeiras impressões da terra que logo viria a governar. O Royalist, vindo do mar, jogou âncora na entrada do rio Sarawak, antes de subi-lo até Kuching, então uma aldeia. Sua primeira impressão do cenário acentua, como no caso do Rio de Janeiro, a intensidade do verde na montanha: The scenery at the entrance of the Sarawak is noble, the peak of Santobong, clothed in richest verdure, rises close to the right bank.
Em Sarawak, James Brooke lutou contra aqueles que considerava piratas, sem aparentemente nunca ter entendido que talvez fosse ele próprio um deles. Passou de navio, gostou do que viu, tomou para si o território e governou as populações locais, de culturas, idiomas, religiões e etnias totalmente diferentes dos seus. Ele e o sobrinho, herdeiro e sucessor, Charles Brooke, ostensivamente combateram os caçadores de cabeça, pelo quais a ilha de Bornéu era então conhecida e temida, mas deixavam seus aliados entre os povos locais cortar as cabeças dos inimigos da nova dinastia.
O declarado combate à pirataria traria a Brooke dissabores. Membros do Parlamento britânico, entre 1850 e 1855, questionaram a violência com que eliminava “piratas”, sendo ele próprio quem determinava quem assim podia ser classificado. Até então, Brooke pudera contar com o apoio de navios da Marinha britânica. Uma comissão de inquérito o exonerou, em 1855, mas determinou que já não caberia a ele decidir quem era pirata, e que a Marinha real britânica não poderia mais defender Sarawak.
Mas na década de 1840, os questionamentos no Parlamento e as decisões da comissão de inquérito, que diminuiriam o prestígio de James Brooke, pertenciam ainda ao futuro. Antes disso, entre 1847 e 1848, ele fez uma viagem triunfal à Inglaterra, após uma ausência de nove anos. Festejaram-no. Atingiu aí, por alguns anos, o ápice da fama. Outro amigo e biógrafo, o diplomata Sir Spenser St. John, que na juventude havia sido seu secretário particular em Sarawak, escreveu sobre esse retorno à Inglaterra, em livro intitulado: Rajah Brooke: the Englishman as ruler of an eastern state, publicado em 1897. Relata St. John as muitas demonstrações de adoração e reconhecimento públicos recebidas por Brooke — “cujos compatriotas reconheciam os serviços que ele prestara à Inglaterra”, diz ele — inclusive honrarias concedidas pela Universidade de Oxford, onde “os alunos enlouqueciam de entusiasmo com a simples menção de seu nome, pois ele era preeminentemente um líder apto a despertar esse sentimento entre os jovens“.
Como demonstração mais inequívoca da admiração que despertava, Brooke hospedou-se no castelo de Windsor com a rainha Vitória e o príncipe consorte, Alberto. Longa carta sua a uma sobrinha descreve a experiência entusiasticamente. Um trecho diz, sobre a hora do jantar com o casal real e seus convidados em Windsor, que ele foi conducted along a splendid gallery, resplendent with lights, and pictures, and statues, decorated with golden ornaments, the richest carpets, and bouquets of fresh flowers, and ushered into a drawing-room as fine as mortal eye could wish to see. Há um arrivismo comovente no tom do “rajá branco”, e ao mesmo tempo temos a sensação de ler um conto das Mil e Uma Noites.
Existe na National Portrait Gallery, em Londres, um célebre retrato de James Brooke por Sir Francis Grant, de 1847. O artista escocês pintava a elite social. Há vários quadros seus representando a rainha Vitória, o príncipe Alberto, o príncipe de Gales, os políticos mais poderosos. Em 1866, seria eleito presidente da Royal Academy. Nossa edição da Enciclopédia Britânica, de 1963, considera que, em geral, suas obras were not of the highest artistic rank. Devemos supor que o retrato de James Brooke é uma das exceções. O pintor quis claramente retratar a imagem de uma personalidade independente. Há algo de Lord Byron no retrato.
“Brooke em uma paisagem oriental idealizada”, diz o catálogo da National Portrait Gallery
O quadro, estranhamente, parece nunca ter viajado a Kuching. Ficou na Inglaterra. Após a morte de Brooke, foi herdado pelo seu cunhado, o pai de Charles, e depois comprado em leilão, em 1877, por Sir Spenser St. John, que o doou à National Portrait Gallery em 1910.
Gravuras desse retrato foram imediatamente expostas nas vitrines de lojas em Londres, sinal usual de fama, na época. Alguns anos mais, e seriam fotografias de celebridades a decorar vitrines. Na adolescência, tomei conhecimento desse fato, que me surpreendeu, ao ler The Tragic Muse, de Henry James (1890). A personagem principal, uma atriz cuja ascensão acompanhamos, diz a uma certa altura: the shops were full of my photographs.
A obra de Francis Grant, portanto, oferecida pelo artista ao retratado, ilustra a celebridade do modelo naqueles anos, e ao mesmo tempo, por meio de reproduções, contribui para cultivá-la. É o caso de se perguntar a razão da popularidade de James Brooke no final da década de 1840.
Um artigo acadêmico nos dá a resposta. Publicado em 2010 pelo professor inglês Alex Middleton, Rajah Brooke and the Victorians explica como a Grã-Bretanha encarava sua realidade como potência colonial, no período da viagem triunfal de Brooke à Inglaterra, em 1847. Essa era uma época em que havia dúvidas, entre os britânicos, sobre a capacidade do país de gerenciar suas colônias. Comenta Alex Middleton: Since 1840, Britain had lost thousands of troops in the disastrous retreat from Afghanistan, seen the Niger expedition fail abjectly, and been responsible for appalling blunders in the colonization of South Australia and New Zealand, while the West Indies continued to decline. Nesse contexto, aparece em Londres James Brooke, apto a eliminar inquietações sobre o talento imperialista do país, com sua aura de aventuras, precedido por uma reputação de herói disseminada por amigos e propagandistas.
Em 1846, o capitão da Marinha britânica e futuro almirante Henry Keppel publicara um livro intitulado The Expedition to Borneo of HMS Dido for the Suppression of Piracy. Comandante do navio Dido, Keppel — tio-tetravô da rainha Camilla, mulher de Carlos III — era amigo de Brooke, com quem cometera em Bornéu algumas das violências classificadas como “guerra aos piratas”. O seu livro de 1846 contém trechos dos diários de Brooke, dados assim ao conhecimento público. Como comenta um dos mais recentes biógrafos do “rajá branco”, Nigel Barley (2002), James Brooke, em seus diários, can posture and dramatise himself Byronically, as a passionate creature of delicate scruple, tendo provavelmente sempre contado com que seriam publicados.
Em fevereiro de 1848, Brooke embarca de volta a Bornéu, desta vez em uma fragata da Marinha britânica, Meander. O comandante do navio é o mesmo Henry Keppel. Mais uma vez, há escala no Rio de Janeiro, mas não encontrei cartas publicadas de Brooke sobre suas novas impressões do Brasil. Apenas Keppel, em um livro de 1852, A Visit to the Indian Archipelago, in H.M. Ship Meander, nos diz: “O Rio de Janeiro estava tão sujo como sempre, com o comércio de escravos em pleno vigor”.
Spenser St. John participa da viagem, tendo sido pouco antes, em Londres, apresentado ao rajá, e por ele contratado. Em sua biografia de Brooke de 1879, narra ter ficado, ao conhecê-lo, “impressionado com a sua maneira cativante, que naquela época transformava em amigos seus todos os que dele se aproximavam”. Mas condena também a familiaridade com que o rajá, a bordo, tratava os cerca de vinte aspirantes da Marinha, os quais considered themselves at liberty to use Mr Brooke’s cabin as a sort of club, rindo, cantando, divertindo-se, jogando-se sobre sua cama, careless whether Mr Brooke was there or not.
Um desses aspirantes no Meander merece menção à parte. Charles Grant tinha 16 anos e era sobrinho do pintor Francis Grant. O rajá estava com 44 anos. Eles haviam se conhecido em 1846, no Sudeste Asiático, quando o aspirante tinha 14 anos, e já então começaram a se corresponder. Durante a viagem no Meander, Grant foi convencido por Brooke a abandonar a carreira para se tornar seu secretário particular em Sarawak. Nigel Barley especula sobre essa relação, como especula sobre a relação de Brooke com várias figuras masculinas, frequentemente mais jovens, que gravitaram ao seu redor. Platônico ou não, o relacionamento soa inaceitável, por causa da idade do aspirante. A carta de Brooke, escrita do Rio de Janeiro, ao pai de Charles Grant, pedindo autorização para que o filho se torne seu secretário particular faz promessas como: I shall be a leading actor in these political advances in the East, and I shall have both the will and the power to push Charlie’s fortune if you allow him to cast his lot with mine. É incompreensível que a família do aspirante da Marinha, rica pelo lado do pai — beneficiando-se de trabalho escravo na Jamaica — e aristocrática pelo lado da mãe tenha dado seu beneplácito. Com o tempo, haveria um afastamento. Grant se casaria, voltaria à Escócia para cuidar das terras que herdou, mas estaria presente, anos depois, no enterro de James Brooke.
Um dado anedótico sobre Charles Grant é que seu avô materno foi o sétimo Lord Elgin, lembrado hoje por ter decidido, em 1801, retirar esculturas da Acrópole e trazê-las para a Inglaterra. As estupendas obras de arte, às vezes chamadas de “Elgin Marbles”, residem no British Museum desde 1817. Podem hoje ser vistas como um símbolo da manutenção do espírito colonialista britânico, pela recusa do Reino Unido de atender pedidos reiterados da Grécia, há quarenta anos, de que sejam devolvidas a Atenas.
Desde o início, o reinado de James Brooke em Sarawak caracteriza-se por ser uma empresa familiar. Muitos dos jovens a quem ele distribui funções no novo estado são seus parentes ou contraparentes. A irmã de Charles Grant, por exemplo, viria a se casar com o sobrinho mais velho do rajá, Brooke Johnson. Nomeado príncipe herdeiro, esse sobrinho adotou o sobrenome materno e passou a se chamar Brooke Brooke. Ele e o tio terminariam por se desentender. Os últimos anos de vida do rajá foram passados em confusas recriminações contra o sobrinho, finalmente deserdado em favor do irmão caçula, Charles Johnson, mais próximo do tio, que também adotaria o sobrenome materno e se tornaria o segundo “rajá branco”. Há algo odioso nesse ato pelo qual um tio faz o sobrinho favorito suplantar o irmão mais velho caído em desgraça.
Charles Grant em momento algum aparece em um filme recente sobre James Brooke, Edge of the World, de 2021. O filme é estrelado por um ator sobre cujo talento costumo manifestar ceticismo, Jonathan Rhys Meyers, no papel principal. Financiado em parte pelo governo do estado de Sarawak e tendo recebido consultoria técnica do Brooke Heritage Trust, ou seja, dos descendentes de Charles Brooke, o filme é uma versão “oficialista”, autorizada da vida de James Brooke e é, por isso, bastante medíocre e convencional. É um Brooke compenetrado que nos é mostrado. Não entendemos, vendo o filme, a razão pela qual o personagem despertava tanta admiração entre seus contemporâneos. Elimina-se também toda ambiguidade sobre sua sexualidade. Há uma mulher ao seu lado, inspirada em uma princesa de Brunei que parece ter existido e, estimam alguns, com a qual ele pode ter se casado discretamente, por razões políticas, em uma cerimônia muçulmana. Mas tudo isso pode ser uma fabulação, e ela certamente não teve na sua vida a importância fantasiada pelo filme.
A partir de 1863, cinco anos antes de morrer, James Brooke retirou-se definitivamente a sua casa de campo no Devon, comprada em 1859, Burrator, e não voltou mais a Sarawak, que Charles Brooke passou a governar em seu nome. Foi sendo enfraquecido e envelhecido por derrames cerebrais, o primeiro deles ocorrido em 1858. Uma boa fonte para esses últimos anos é a sua correspondência, editada em 1935 por Owen Rutter, com Angela Burdett-Coutts — de quem se tornou amigo em 1857 — mulher mais rica do Reino Unido e que o ajudou financeiramente em suas empreitadas.
As cartas de Brooke a Angela Burdett-Coutts abordam desde assuntos pessoais a temas de Estado. Discute com sua correspondente seus projetos, a vida econômica de Sarawak, as disputas com Brooke Brooke. Em 1863, ele chega a nomeá-la sua sucessora ao território na ilha de Bornéu. Ela era então, depois do próprio rajá, o maior credor de Sarawak. Esse é um período em que Brooke esboça vários planos para o futuro de seu reino. Pensa em ceder o território à Coroa britânica, em troca de compensação financeira. Estuda a possibilidade de fazer de Sarawak um protetorado francês ou belga. As discussões com o herdeiro do trono da Bélgica, o futuro rei Leopoldo II, foram relativamente prolongadas; os dois chegaram a se encontrar. Em fevereiro de 1862, Brooke escreve a Angela Burdett-Coutts: I am quite agreeable about the Belgian question. É assustador imaginar que a população de Sarawak esteve perto de ser vítima da mesma brutalidade e selvageria que se abateria sobre os habitantes do Congo sob o domínio de Leopoldo II.
Em março de 1863, Brooke escreve de Sarawak, aos 60 anos: “Eu não quero ter de começar o mundo de novo”. E continua, mostrando saudades de “casa”, associada agora à Inglaterra, não mais a Kuching: “a solidão de Burrator, a xícara de chá, — oh! essa gratificante xícara de chá — os prazeres da lareira, ou dos dias de sol, mesmo raros, são relembrados e desejados, e sonhar com repouso não é trair Sarawak”. O “repouso” seria sempre relativo, mesmo em Burrator. Depois dessa carta, na edição de Owen Rutter da correspondência há ainda cem páginas mais de planos, frustrações, intrigas familiares, preocupações. A “gratificante xícara de chá” e os “prazeres da lareira” terão sido obtidos, mas toda vida humana é, até o fim, povoada de aborrecimentos.
É na Biblioteca Nacional de Singapura, que frequento quando estou passando alguns poucos dias de férias na ilha-estado, que costumo manusear o volume com a correspondência de Brooke com Angela Burnett-Coutts. Quando tomei pela primeira vez conhecimento dessa desejada xícara de chá perto da lareira, precisei me levantar da mesa de trabalho, ir até a parede de vidro, no décimo-primeiro andar, debruçada sobre a cidade e pensar sobre o que acabara de ler.
Vendo aos meus pés o quarteirão ocupado pelo histórico hotel Raffles — o Copacabana Palace de Singapura — e, mais longe, o trânsito marítimo no Estreito de Singapura, por onde passa boa parte do comércio mundial a caminho do Estreito de Malaca, lamentei ter lido a carta. Ela é penosa por nos revelar muito sobre as inúteis agitações de todo ser humano. Nascemos, crescemos, ambicionamos, sonhamos, corremos o mundo, perturbamos a paz das pessoas ao nosso redor, alguns criam até um reino nos trópicos, mas no fim queremos apenas a calma oferecida por uma lareira no Devon.
Apenas quinze, dezesseis anos haviam transcorrido desde o quadro heroico pintado por Francis Grant em 1847. Mas a viagem triunfal à Inglaterra daquele ano era já uma lembrança distante. As muitas aventuras, a fama, os problemas de saúde, as comissões de inquérito, as demandas sobre o governante, a revolta violenta dos mineiros chineses em Kuching, em 1857 — que quase custara a sua vida — as decepções e mesmo os triunfos haviam cobrado o seu preço. Dezesseis anos, aparentemente, representam um espaço de tempo longo demais em uma existência humana. Spenser St. John, em sua biografia de 1879, nos diz que o retrato, do qual era já então o proprietário: “mostra como ele era em seus dias brilhantes, quando a esperança ainda iluminava seus olhos, e doença e tristeza não haviam ainda curvado a sua aparência”.
A figura byroniana de 1847, o “líder apto a despertar entusiasmo entre os jovens”, que encobria suas ambições sob uma aura de idealismo transformara-se, em 1863, em um homem apequenado, sem brilho, envelhecido, ranzinza.
O carismático rajá branco, o fundador de impérios, o colonizador autopropagandista sedento por aventuras desejava somente, agora, a sua reconfortante xícara de chá.
O hotel Raffles e o Estreito de Singapura, vistos da Biblioteca Nacional
A Praia do Flamengo vista da varanda do Pen Clube do Brasil
Tomei posse, em 27 de junho, no Rio de Janeiro, como sócio do Pen Clube do Brasil. Na ocasião, fiz este discurso sobre a tradição literária do Rio:
Sr. presidente do Pen Clube do Brasil, professor Ricardo Cravo Albim,
Caros amigos, caros colegas do Itamaraty,
Quero antes de mais nada agradecer ao nosso presidente, Ricardo Cravo Albim, por esta cerimônia. Como sou Embaixador do Brasil na Malásia, eu não pudera ainda tomar posse como membro do Pen Clube do Brasil. Nosso Presidente acolheu favoravelmente que a cerimônia se desse esta semana, a única que passarei no Rio de Janeiro nestes poucos dias de férias no Brasil.
Quero também agradecer ao editor Carlos Leal, meu amigo, pelas palavras generosas com que me saudou.
Há muitos amigos e primos presentes aqui hoje. Quero registrar, em especial, a presença de minha mãe, Embaixadora Thereza Quintella. Minha mulher, Eugênia Barthelmess, por ser Embaixadora do Brasil em Singapura, não pôde estar presente. Por intermédio da minha mãe e da minha mulher, quero homenagear todas as mulheres profissionais do Brasil, e não somente as diplomatas, que enfrentam toda série de dificuldades para o bom êxito de suas carreiras.
Quero, desde já, prestar homenagem a uma personalidade ímpar, meu pai, Ary Quintella, que pertenceu ele também a esta instituição. Em setembro, serão 25 anos desde seu falecimento.
Não é à toa que começo este discurso mencionando meu pai e minha mãe. Eles foram, sem dúvida, e como seria natural, as maiores influências na minha formação. Minha formação emocional, psicológica e também intelectual.
Criança e adolescente, minha maior alegria, meus melhores momentos eram passados lendo os volumes que eu retirava da biblioteca familiar. Havia, naturalmente, os livros infantis e juvenis que meus pais ofereciam a mim e aos meus irmãos. Este ano, em abril, vimos partir o Ziraldo. Guardo com carinho a primeira edição de Flicts, que ganhei aos seis anos de idade. Ou melhor, Eugênia o guarda com carinho, pois o livro está em Singapura. Essa separação involuntária da biblioteca conjugal é, desde 2020, um dos elementos da nossa realidade de casal de diplomatas.
Havia portanto os livros oferecidos pelos pais, mas havia os livros pertencentes aos pais, em suas estantes no Rio, em Bruxelas, em Montevidéu, em Brasília, em Londres. Há algo de mágico no fato de uma biblioteca viajar. Ao nos acompanhar, ela torna nossa vida nômade mais estável, mais aceitável. A casa da gente é onde nossos livros estão. Filho de diplomata, desde sempre tive de aceitar que tudo seria impermanente: os amigos, a escola, o idioma, a cultura e os hábitos locais.
Mas a biblioteca dos meus pais era um dado permanente, era algo sólido, em que eu podia confiar. Era um refúgio. Um refúgio contra as impermanências da vida, as incertezas que eu percebia ao meu redor, inclusive as incertezas quanto à durabilidade do casamento dos meus pais.
Em dezembro de 2023, na qualidade de Embaixador na Malásia, participei do Festival Literário de George Town, na ilha de Penang, na costa ocidental da Malásia. É um celebrado evento anual. A edição de 2023 contou com a presença de famosos autores europeus, entre outros Geoff Dyer e Édouard Louis. E também, e sobretudo, com a presença de Clarice Lispector. Graças a recursos fornecidos pelo Instituto Guimarães Rosa, que é o departamento cultural do Itamaraty, a Embaixada em Kuala Lumpur montou, para o Festival de George Town, uma exposição sobre a vida e a obra de Clarice. O material nos foi cedido gratuitamente pelo Instituto Moreira Salles, e a exposição em Penang era uma versão reduzida da mostra realizada pelo Instituto Moreira Salles, “Constelação Clarice”, em São Paulo e no Rio, entre 2021 e 2022. Em Penang, o espaço era apenas um ambiente, transformado pelo curador malásio como se fosse uma sala no apartamento de Clarice. Era um espaço intimista. Visitantes me disseram que, ao tomar conhecimento pela primeira vez da existência de Clarice naquela exposição, haviam se sentido estimulados a ler sua obra. Seus livros, aliás, em traduções para o inglês, estavam à venda na livraria oficial do Festival, e saíram rapidamente.
Ao abrir a exposição, eu disse algumas palavras sobre Clarice Lispector e citei uma carta sua muito famosa a Olga Borelli, que muitos dos aqui presentes já conhecem. É a primeira carta; Clarice e Olga Borelli acabavam de se conhecer, por isso o tom pessoal e franco usado por Clarice causa ainda mais impacto. A carta diz: “Sou uma pessoa sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes, tenho esperança”.
Eu gosto muito dessa carta. Frequentemente penso nela. A meu ver, ela sintetiza a razão pela qual lemos e escrevemos. Lemos e escrevemos para ter um rumo na vida, um leme que nos guie. Lemos e escrevemos para descobrir o que queremos fazer de nós mesmos.
Ler e escrever são duas facetas da mesma atividade, a busca de si mesmo. Ajuda no processo que um bonito poema de Jorge Luis Borges, “Tríada”, define como la triste costumbre de ser alguien. E eu vejo que essa é a grande aventura de todo ser humano, descobrir como somos, como ser alguém. E é isso que ler e escrever nos permitem fazer.
O Rio de Janeiro é um lugar privilegiado. Não só por causa da sua inigualável beleza natural, mas por ser um celeiro da escrita. Terra natal ou de moradia de escritores. Podemos acompanhar sua evolução ao longo do tempo por meio da literatura, a que serve de fonte de inspiração. O Rio iguala-se então a outras cidades literárias, como Paris, Londres, São Petersburgo. Quando, em posto no exterior, leio a descrição que Machado de Assis faz, em Quincas Borba, da praia de Botafogo ao luar, o coração se aquece. Escreve Machado: “A lua estava então brilhante; a enseada, vista pelas janelas, apresentava aquele aspecto sedutor que nenhum carioca pode crer que exista em outra parte do mundo”.
Estrangeiros citam o Rio em suas obras. Há três anos, escrevi um ensaio intitulado “Joseph Brodsky no Corcovado”. Pois Brodsky aqui esteve, em 1979, justamente para participar de um congresso do Pen Clube Internacional, então presidido por Mario Vargas Llosa. O texto de Brodsky é ambíguo e até preconceituoso; ele não entendeu o Rio de Janeiro. Achou mesmo haver aqui um rio chamado Janeiro. Mas mesmo ele ficou boquiaberto com a nossa paisagem. Vendo a cidade do alto do Corcovado, estima que: “Em um dia claro, você sente que tudo o que seu olhar já viu antes são apenas as sobras miseráveis e sem brio de uma imaginação interrompida”. O Rio, assim, embora visto com ressalvas por Brodsky, e sem muita compreensão, e, como eu disse, com preconceito, causou um impacto pela sua beleza. É uma das três cidades sobre as quais se detém em sua obra, junto com sua cidade natal, São Petersburgo, e sua cidade preferida, Veneza.
Mas o Rio não é apenas um celeiro de escritores. É também o depositário de instituições literárias. Temos aqui na cidade o Pen Clube do Brasil, e também a Academia Brasileira de Letras e a Biblioteca Nacional. Visitei esta semana o presidente da Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, que é aliás membro do Pen Clube do Brasil, para fazer doação à Biblioteca de um exemplar do livro que a Embaixada do Brasil na Malásia publicou, em janeiro, sobre a obra realizada por um gênio brasileiro, Roberto Burle Marx, em Kuala Lumpur. A capital malásia tem a distinção de ser a única cidade asiática a conter um parque projetado por Burle Marx.
A Biblioteca Nacional impressiona. Na juventude, passei muitas horas em seu salão de leitura. O prédio está em perfeito estado de conservação, é um tesouro nacional, depositário de muitos outros tesouros.
Há outra instituição literária no Rio, além das que já citei. Existe, na Casa de Ruy Barbosa, o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. Vou ao AMLB com frequência, quando estou no Rio, e já escrevi mais de uma vez sobre essa instituição. O arquivo do meu pai está lá. É algo estranho para mim que as cartas bastante francas, transparentes que escrevi ao meu pai não estejam comigo, mas sim no AMLB. Ele assim quis. Hoje mesmo, de manhã, fui à rua São Clemente, para visitar a nova diretora do Arquivo-Museu, Maria de Andrade, cuja presença nesta cerimônia agradeço. Rever no AMLB a poltrona de Manuel Bandeira, os óculos de Carlos Drummond de Andrade é também uma forma de pensar na tradição literária do Rio de Janeiro e, por extensão, do Brasil. Uma vez, há alguns anos, foi-me lá mostrado o manuscrito de Menino de engenho, de José Lins do Rego. Esse livro, cuja ação se passa no Nordeste, marcou minha adolescência de menino meio carioca e meio mineiro. Esse é o poder da literatura. José Lins do Rego, paraibano, escreve um romance sobre um menino nordestino, com o qual um adolescente no Sul do país pode se identificar. Ver o manuscrito no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira foi por isso uma experiência cativante para mim.
Ao agradecer uma vez mais esta cerimônia, senhor presidente, quero cumprimentá-lo pela iniciativa de organizar também esta semana um evento comemorativo de Guimarães Rosa. É por meio de iniciativas como essa que o Pen Clube do Brasil se equipara às outras instituições literárias. Contribui a fazer do Rio de Janeiro, terra lúdica, também um palco literário.
Viajo de férias ao Brasil este fim de semana. Não poderei rever, em Brasília, um grande amigo, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
Em 29 de janeiro, Samuel partiu.
Uma semana depois, o jornal Estado de Minas publicou artigo em que exponho seu pensamento diplomático, como ele via a inserção do Brasil no Mundo, sua importância para a formulação de ideias verdadeiramente nacionais, e sua força de caráter. Um grande brasileiro, um grande diplomata, um grande pensador.
Copio abaixo o artigo, como publicado pelo jornal.
Estado de Minas
06/02/2024
Samuel: uma despedida
Pensador visionário e corajoso, grande patriota, soube apontar em que consistem os interesses brasileiros no tabuleiro internacional e, ao mesmo tempo, trabalhar com sucesso para obter sua implementação.
Ary Quintella
Embaixador do Brasil na Malásia
Uma frase de Jorge Luis Borges resume o que poderia ser toda a experiência da vida. Segundo ele, o Buda nos ensina que uma das piores dores do mundo é “não estar com as pessoas de quem gostamos”. É a sina do diplomata deixar de acompanhar muitos momentos felizes ou tristes da família e dos amigos. Amigos e parentes casam-se, separam-se, mudam de emprego ou de profissão, prosperam ou decaem, morrem, seus filhos terão nascido e se casado também. O diplomata, porém, perderá muito disso.
O mais penoso é não estar por perto quando chega o momento da despedida. Escrevo isto, Samuel, na esperança de conseguir voltar a dormir, tentando me consolar da tristeza de não ter podido dizer adeus. Dói saber que já não conversaremos; dói saber que em seus últimos meses a doença esteve presente, visitante insidiosa; dói saber que sem sua companhia cativante, estimulante, a vida perderá tanto de seu encanto.
É muito triste não ter podido me despedir de você. Todas as coisas boas, porém, permanecerão para sempre. Três frases suas, que ouvi incessantemente ao longo dos anos, contribuem para pautar meu cotidiano profissional e pessoal. Você dizia: “A pessoa precisa ter a coragem das suas convicções”; “Quem quer trabalhar só das nove às cinco, de segunda a sexta, não deve ser diplomata”; e “Como Aristóteles dizia, a gratidão é algo raro na natureza”. Você vivia intensamente essas máximas. Nunca o vi ceder a pressões para que abandonasse algum princípio seu. No exercício do trabalho diplomático, você era incansável. Muitas vezes, vi você entristecido com alguma ingratidão, mas aceitando-a filosoficamente.
Pelas dimensões de seu território, sua população e sua economia, por sua enorme capacidade de articulação política regional e global, o Brasil ocupa um lugar de destaque no cenário mundial e está fadado a ser cada vez mais influente. Por mais que determinadas correntes de opinião desejem que o país permaneça condenado a uma posição periférica, esse não é o seu destino. Era assim que você pensava, essa era a sua convicção maior. O projeto de integração sul-americana, a soma de forças representada pelo Mercosul, que você ajudou a criar, são instrumentos regionais para a obtenção desse fim mais amplo, você explicava.
Outra preocupação sua: o papel que o diplomata deve desempenhar, no dia a dia, para corresponder à ambição legítima da sociedade brasileira de progresso econômico com justiça social e democracia efetiva, afluência interna e influência externa. Uma vez, você me escreveu ser nossa obrigação contribuir para a construção de um país justo, soberano e democrático. Isso se faz com estudo aprofundado dos temas, construção de redes de contato com interlocutores estrangeiros, divulgação insistente do peso real do Brasil, dedicação, patriotismo, trabalho cotidiano.
Vi, desde Kuala Lumpur, fotos e vídeos da cerimônia fúnebre que aconteceu no Itamaraty. Achei que a cerimônia foi, assim como você, digna e emocionante. Havia algo justo na presença do presidente Lula. Nunca, em duas décadas de convivência, vi você esmorecer na admiração e na confiança pelo Lula. Lá estavam Celso Amorim e Mauro Vieira – o qual, como chanceler, abriu as portas do Itamaraty para a cerimônia – em demonstração de amizade e lealdade, qualidades que, no seu coração, eram algo importantíssimo.
Outra de suas frases regulares era, ao pedir opinião sobre uma aula ministrada, um artigo em preparação, um livro a ser concluído: “Ary, todo mundo quer ser querido, todo mundo precisa de carinho. Seja moderado nas críticas, seja efusivo nos elogios”.
Por isso, dói pensar nas palavras que não falei. Por pudor, nunca lhe disse que você era grande amigo, mentor admirado e figura paterna. Mas não era necessário. Você sabia. Maria Maia e você são, para Eugênia e para mim, os amigos mais próximos, mais queridos. Já não haverá a ida ao seu restaurante predileto ou as sessões de cinema nos fins de semana, já não haverá as festas acolhedoras na sua casa, e você já não irá lá em casa jantar. Todas essas coisas, que formam uma amizade, não voltarão a acontecer. Agora, percebo que elas eram a essência mesmo da minha vida em Brasília.
Uma amizade de vinte anos cresce, muda, evolui. Nos seus últimos anos de vida, a relação não era mais como no começo, quando trabalhei com você na Secretaria-Geral do Itamaraty, durante quatro anos, em todo o primeiro mandato do presidente Lula. A amizade foi frutificando. Tanta coisa aconteceu desde 2003, que aqueles parecem tempos bem longínquos.
Eram, em todo caso, tempos bem difíceis. Prefiro não falar aqui da resistência, das injustiças, da incompreensão que você enfrentou na sua tarefa de apoiar transformações importantes na organização da carreira diplomática e na política externa brasileira. Você não aprovaria que eu fizesse isso. Não guardava rancores. Possuía o dom de perdoar.
Poucas horas depois de você ter partido na manhã de 29 de janeiro, já de noite aqui na Malásia, fiquei pensando como eu reagiria se me perguntassem como resumir a sua personalidade tão única. Eis o que eu diria:
Samuel Pinheiro Guimarães era um homem de rara inteligência, de enorme capacidade de trabalho, de grande brilho político e intelectual. Sua obra, na qual se destaca Quinhentos Anos de Periferia, é um marco no pensamento brasileiro, na medida em que formula de maneira sistemática, pela primeira vez, um arcabouço teórico genuinamente nacional sobre o que está em jogo nas relações entre os países. Pensador visionário e corajoso, grande patriota, homem que amava o Brasil como poucos e que, como poucos, soube apontar em que consistem os interesses brasileiros no tabuleiro internacional e, ao mesmo tempo, trabalhar com sucesso para obter sua implementação. No plano pessoal, era um homem afetuoso, capaz de grande empatia, sentindo a dor alheia, mas também a alegria. Ele gostava do ser humano.
O seu desaparecimento cria um vácuo, para o Brasil e para quem o conhecia, que não pode ser preenchido.
Samuel Pinheiro Guimarães e Eugênia BarthelmessSamuel Pinheiro Guimarães e Ary Quintella
Aconteceu na Embaixada da França em Kuala Lumpur, uma noite de abril. O convite dizia que o mágico Anson Chen, de Hong Kong, faria uma apresentação pela primeira vez na Malásia. Éramos pouco menos de trinta convidados, acomodados em fileiras na sala de jantar.
O cenário
O primeiro truque já causou impacto. O mágico tirou do bolso um papel dobrado e explicou: “há aqui uma mensagem, dirigida a um membro específico do público”. Escreveu, sem nos mostrar, um número no papel, que entregou a um dos convidados na primeira fila, recomendando que o escondesse. Pediu que todos pensássemos em um número na faixa de 1 a 100.
O primeiro que me veio à mente foi 39, o que é coerente, porque tenho forte predileção por múltiplos de 3, desde que não sejam também múltiplos de 2. Gosto de 15, 27, 33, 45 e assim por diante. Anson Chen olhou em volta para a plateia. Acredito que tenha se detido sobre cada um de nós. Escolheu seis dos presentes para que se levantassem e anunciassem que número haviam escolhido.
Revelado em seguida o número escrito pelo mágico, que era 23, uma moça francesa, que dissera 21 —um dos meus favoritos, diga-se de passagem — era quem chegara mais perto de adivinhar corretamente. Anson Chen recuperou o papel, entregou-o à francesa e pediu que o lesse em voz alta. O texto iniciava com as palavras: “A pessoa que está lendo este bilhete usa calças pretas, e uma jaqueta amarelada”. Era uma boa descrição do traje da moça. Sobre os recados que o texto continha para ela, curiosamente não consigo me lembrar. Consultei por whatsapp o próprio mágico, que declarou-me também já haver esquecido.
Muitos dos truques eram inexplicáveis. Um casal malásio que conheço, Wei-Ling, galerista de arte, e Yohan, advogado, foi convidado a se sentar de frente para o público. Ambos vendados, estavam separados por uns dois metros. Anson Chen segurava uma mecha do cabelo de Wei-Ling e passava-o pela ponta do nariz da galerista. Perguntava então a Yohan se sentira algo. “Sim”, respondia o marido, “algo leve, como uma pluma, alisou meu nariz”. O experimento continuou, na testa de Wei-Ling, na face, no ombro, e sempre Yohan sentia o toque no mesmo lugar. Terminada a sessão na Embaixada, ao me despedir deles comentei: “Vocês foram submetidos a um teste de amor verdadeiro, e passaram”.
Uma mulher de verde, também francesa, recebeu nas mãos um livro. Foi-lhe pedido que o abrisse ao acaso, escolhesse uma palavra na primeira linha da página e a memorizasse. Fechado o volume, Anson Chen começou, frente à plateia, a procurar adivinhar a palavra, escrevendo as letras pouco a pouco sobre uma folha de papel. Talvez para aumentar ainda mais o nível de interesse, escreveu-as fora de ordem, formando um termo que nada significava. Colocando-as por fim na ordem correta, mostrou-nos a palavra court, que a mulher de verde admitiu ter sido a que pinçara no livro.
Na segunda ou terceira mágica, fui eu o escolhido como colaborador. Anson Chen pediu que eu me levantasse. Estendeu a mão, oferecendo-me um baralho imaginário. Ao entregá-lo, comentou aliás que eu não o estava segurando da maneira correta. Disse-me que embaralhasse as cartas. A esta altura, eu estava às gargalhadas, em pé, segurando as cartas invisíveis. De um lado, constrangido com a atenção da pequena plateia sobre mim, de outro curioso em ver o que me esperava, e achando graça naquele diálogo sobre um baralho inexistente, mas que adquiria, pela atenção a ele concedida, uma existência bem real.
Nunca fui adepto de jogos de cartas. Apenas no final da infância e na adolescência, na fazenda do meu avô materno, na Zona da Mata em Minas Gerais, muitas vezes joguei biriba. Não era porém do jogo que eu gostava, mas do acesso que me dava ao mundo adulto. Lembro com carinho das tardes passadas à mesa quadrada com tampo de feltro, em um canto do salão principal, onde meu avô, minha mãe, a irmã dela e eu jogávamos partidas que eram, para mim, enciclopédicas. Na infância e na adolescência, eu era calado. Por isso, falava pouco enquanto ouvia os três adultos. Observava. Analisava.
Frequentemente escrevo sobre meu avô e a fazenda. Ele não era muito loquaz, como certamente já tive ocasião de dizer em algum texto. Homem imponente, verdadeiro gigante silencioso, sua presença física comandava respeito, assim como seu olhar. Mas jogando biriba, em um ambiente familiar restrito às duas filhas e a um dos netos, transformava-se. Contava histórias, ria, dava detalhes, às vezes tenebrosos, da vida dos fazendeiros vizinhos, relembrava seus pais e o curso de sua vida, naquela fazenda e em outras onde crescera.
Meu avô quase sempre ganhava nas cartas, e por isso mesmo, nas duplas, era uma tranquilidade atuar como seu parceiro. Hoje, quando estou em salas de espera de dentistas ou médicos e jogo biriba no celular com robôs, lembro sempre de uma de suas regras, que era nunca deixar passar um ás. Adquiri dele, também, o hábito de comprar a mesa com frequência, algo irritante para o jogador subsequente.
Ele era fruto de uma intensa endogamia, o que só vim a entender mais tarde, ao examinar sua genealogia. Não sei até que ponto ele tinha consciência disso. Há algum tempo, perguntei a uma de suas sobrinhas se meu bisavô, Bertoldo, e minha bisavó, Olívia, com os quais ela convivera, tinham presente que eram primos múltiplas vezes, em graus variados de proximidade.
A questão para eles, avaliou minha prima, provavelmente não se colocava assim; terão sabido apenas que pertenciam ao mesmo grupo, e que seus pais se conheciam. Fora, aliás, um casamento arranjado mas, tudo indica, feliz. Na noite de núpcias, Olívia, de 12 anos, queria brincar com suas bonecas. Bertoldo respeitou seu desejo, devolveu-a ao pai e voltou alguns anos mais tarde para recuperá-la. A história soa triste, e parece tirada de algum livro de Gilberto Freyre, mas ilumina, a meu ver, de maneira positiva o caráter do meu bisavô.
Bertoldo e Olívia Machado, anos depois da noite de núpcias
Ocasionalmente, enquanto jogávamos biriba, meu avô fazia perguntas sobre minha avó, que se separara dele aos 18 ou 19 anos, grávida da minha mãe, deixando para trás a filha mais velha, de um ano e meio. Aludi ao fim desse casamento em Minha avó e seus dois maridos, sem porém mencionar o sofrimento decorrente da separação, para todos os envolvidos. Naturalmente, a dor maior coubera às duas meninas, crescendo uma sem o pai, a outra sem a mãe. As irmãs só iriam se conhecer dez anos após a partida da minha avó para o Rio de Janeiro.
Mais tarde, depois da morte da sua segunda mulher, surgiu para meu avô a era das namoradas nas cidades da redondeza. Conheci uma delas. Era casada. Aos 14 ou 15 anos, eu ficava boquiaberto ao presenciar a cordialidade com que meu avô tratava o marido, jovem o suficiente para ser seu filho.
Mais uns anos, e meus avós, que não se viam há décadas, iniciariam um namoro. Ele ia ao Rio, ela ia à fazenda. Em retrospecto, já mais velho, vejo que esse reencontro era natural, pois a vida é assim, em ciclos que se cruzam. Na obra teatral que é toda existência humana, em que cada um é diretor, produtor, cenógrafo, autor e ator principal da sua própria peça, as outras personagens aparecem, somem, reaparecem. Há períodos em que algumas são importantes, e permitimos que influenciem nossos rumos, em outros mal chegam a ser coadjuvantes. Minha avó e meu avô, após um afastamento de 45 anos, durante os quais praticamente nunca se viram, nunca se falaram, voltaram a namorar, a querer bem um ao outro. Mas não voltaram a se casar, e nem creio que essa reaproximação haja durado mais do que alguns meses. Terá servido porém para eliminar o rancor mútuo.
Nesse canto, costumava ficar a mesa com tampo de feltro
Abandonemos a fazenda de Sant’Anna em Minas Gerais, os seus morros, o verde que eu via por toda parte pelas janelas abertas enquanto ia ouvindo a conversa dos adultos e cometendo erros com as cartas. Voltemos a Kuala Lumpur, voltemos à sala de jantar da Embaixada da França, onde o mágico chinês me acusa de não saber embaralhar as cartas.
Ali, em pé, com os outros convidados me olhando, estou rindo, manuseando o baralho imaginário, como eu fazia com as cartas verdadeiras, em Sant’Anna. Separava as cartas em dois blocos, colocava os dois verticalmente, um sobre o outro, e empurrava as cartas do maço superior sobre as de baixo. Bem diferente dos adultos, do meu avô em especial, que sabia embaralhar como um profissional, e com extrema rapidez. Anson Chen me pergunta, em tom de crítica, olhar surpreso: “É assim que você faz?”. Respondo: “Não tenho muita prática. Nunca jogo cartas”. Mas enquanto digo isso, meu avô está bem presente na minha imaginação, e minha mãe, Thereza Quintella, que veio me visitar na Malásia, está aliás fisicamente ali, sentada ao meu lado, na sala de jantar da Embaixada da França.
Anson Chen instrui-me a retirar uma carta do monte invisível e dizer qual é. Com a mão direita fazendo o gesto de quem segura um baralho, com a esquerda interpreto o ato de extrair uma carta. Imediatamente, visualizo o 8 de Copas, o que anuncio em voz alta.
Devolvo o baralho fictício ao mágico e me sento. Ele tira do bolso da calça cartas verdadeiras, que entrega a outro membro do público, a quem pede para verificar se o 8 de Copas está incluído. Não está. Sobe da plateia um som de surpresa e suspense. Anson Chen então coloca a mão em outro bolso, do qual retira o 8 de Copas. Choque na assistência, incompreensão minha. Como ele pudera adivinhar, de antemão, que eu escolheria aquela carta especificamente?
Muito da sua atuação como mágico parece-me baseado em um poder de sugestão da mente alheia. Terá ele, ao me olhar e ao pedir que eu escolhesse uma carta, me induzido a selecionar o 8 de Copas? Mas isso existe? Um indivíduo que se apresenta também como hipnotista pode, ao olhar para outra pessoa, conduzir seu pensamento, levá-la a optar?
Minha própria escolha, na hora, surpreendeu-me. Contradizia minha preferência pelos números ímpares múltiplos de três. Em um baralho, faria sentido eu escolher o 3 ou o 9, ou talvez o 7, que, embora não seja múltiplo de 3, é um número favorito. O 8 nada significa para mim. Tampouco saberia explicar por que copas, e não um dos outros naipes.
Dias depois, ainda intrigado com a escolha do 8, descobri ser esse um número auspicioso na cultura chinesa. A informação veio por acaso. Selecionando em uma loja abotoaduras para dar de presente a meu genro, notei que o único par representando números era um 8. Não havia 5, ou 9 ou 4, só 8. Perguntei a razão à vendedora, e considerei a resposta reveladora: “esse é um número importante para os chineses, representa prosperidade, é um número de sorte”. Sem dúvida, estará mais vivo na mente de Anson Chen, o surpreendente mágico chinês, do que costuma estar na minha.
No carro, voltando para casa, pensei que Anson Chen, tendo ocupado minha mente para me fazer escolher o 8 de Copas, bem poderia ter também instalado nela a solução aos meus problemas. Na infância e na adolescência, na época em que eu jogava biriba na fazenda, essa era uma fantasia recorrente, de que alguém, magicamente, tudo resolveria para mim.
Logo depois, ao deitar, eu já aceitara que isso não aconteceria. Mais uma vez, caberia a mim tomar minhas próprias decisões. Senti-me mais poderoso do que o mágico chinês.
Visitando um pequeno museu em Kuching, cidade à beira do Rio Sarawak, na Malásia, deparei-me com o sobrenome Rastignac. Para o leitor apaixonado por Balzac, foi como ser atingido por um raio. Eu me via confrontado, em plena ilha de Bornéu, com a existência bem real de uma família com o mesmo sobrenome de um dos personagens mais famosos do escritor, Eugène de Rastignac, símbolo do jovem ingênuo transformado em ambicioso calculista. Ler aos quatorze ou quinze anos Le Père Goriot (1835), obra cruel até para os padrões de Balzac, gerou em mim uma impressão permanente.
Despertada minha curiosidade sobre como o nome – tão francês – de Rastignac fora aparecer na parede de um museu em Bornéu, acabei mergulhado em uma história muito inglesa – a de Charles e Margaret Brooke. Passei quase um ano lendo e pesquisando com estupefação biografias, memórias, volumes de história e genealogias em busca de explicação sobre como uma família de classe média do interior da Inglaterra chegara a se transformar em dinastia de rajás à frente de um vasto entreposto do império britânico na Ásia.
Margaret nos conta ela própria a sua vida. Casada com seu parente Charles Brooke, o segundo “Rajá Branco” de Sarawak, perdeu em seis dias os três filhos, mortos de cólera no navio, em viagem de Kuching à Inglaterra via Singapura. Os corpos foram atirados ao Mar Vermelho. Uma quarta criança havia nascido morta, uns meses antes. Era 1873 e ela tinha 24 anos. Estava casada desde 1869 apenas. Décadas depois, Margaret Brooke se tornaria amiga da escritora inglesa Marie Belloc Lowndes. Em suas memórias, The Merry Wives of Westminster (1946), esta conta que apenas uma vez ouviu Margaret referir-se à morte dos filhos, e mesmo assim de forma vaga, “de uma maneira tal que, se eu já não tivesse sabido a respeito, não teria entendido a alusão”. Três filhos adicionais viriam a nascer, chegariam à idade adulta, e o mais velho, Vyner, reinaria em Sarawak depois do pai.
Charles Brooke era o administrador colonial de Sarawak, que governava como chefe de Estado hereditário. Sucedeu ao tio, James Brooke, o primeiro Rajá Branco, e legou por sua vez o território ao filho. Metodicamente, em detrimento do sultão de Brunei, foi acrescentando terras ao seu domínio, que acabou ficando tão extenso quanto a própria Inglaterra. Margaret Brooke era a Rani de Sarawak, a mulher do Rajá. O casamento não era feliz. Em seu livro de memórias My Life in Sarawak (1913) — que Joseph Conrad elogiaria em uma carta à autora escrita em 1920 — e na autobiografia Good Morning and Good Night (1934), Margaret descreve o marido como homem silencioso e metódico, totalmente voltado para a administração do território que comandava em Bornéu, e quite incapable of showing sympathy or feeling about anything that did not touch Sarawak.
Charles Brooke em meados da década de 1860
Good Morning and Good Night revela-nos a falta de opções à disposição da autora quando solteira, apesar do dinheiro da mãe. Nascera em Paris, crescera até os dez anos no castelo da avó na França, em Épinay, e desde a morte do pai de uma queda de cavalo, que a deixara órfã aos quatorze anos, levava uma vida errante pela Europa, com a mãe, Elizabeth Sarah de Windt, conhecida como Lily, os dois irmãos e umas amigas antigas de Lily, parasitical spinsters, como Margaret as classifica: From Paris to Florence – from Florence to Rome – Switzerland – the Tyrol, on we would move, always living in hotels.
Charles Brooke era primo-irmão de sua mãe. Um dia, aos 42 anos, solteiro, ele aparece na casa de campo da família, na Inglaterra, em busca de uma noiva rica cuja fortuna pudesse saldar as dívidas de Sarawak. Ele próprio não tinha conhecidos na Europa, pois desde os 13 anos estivera na Marinha britânica, e a partir dos 23 vivera em Sarawak, a serviço do tio, de quem herdara o poder em 1868.
Não é impossível que Margaret tenha tido alguma noção romântica da figura de Charles. Antes de conhecê-lo, ela lera já o livro, publicado em 1866, em que ele relata sua vida em Sarawak, onde morara dez anos em fortes à beira de algum rio, na floresta, controlando etnias inimigas entre si e jogando uns contra os outros os caçadores de cabeças. O aparecimento do primo mais velho, soberano em uma terra distante, sobrinho de uma figura mítica como fora James Brooke, deve ter sido acompanhado de uma aura de mistério e aventura.
Não faltam certos trechos de algum valor literário no livro de Charles, como este, inserido no meio da descrição de um ataque que ele organiza e lidera à terra dos Kayans, que estavam depredando bens dos Dayaks e prejudicando o comércio: the only sounds to be heard were those of nature alone, – the murmuring of the jungle insects, the low rumbling of the distant rapids, and the stream pouring over the pebbles close to us. Charles sentia-se inteiramente adaptado à vida em Sarawak e pouco à vontade no país onde nascera. Na floresta, costumava andar descalço como os Dayaks. Tendo de viajar à Inglaterra, após dez anos ininterruptos na Malásia, ele comenta: little did I care for the prospect of European pleasures, so much thought of and sought after as an Elysium by many living so far away. They are invariably found disappointing when England is reached.
Mapa da Malásia
Nas memórias e biografias dos diferentes atores envolvidos, há frequentes referências ao fato de que Charles pode ter primeiro pensado em se casar com a mãe de Margaret, Lily de Windt, então com 43 anos. A escolha acaba recaindo sobre a filha, que, aos 19 anos, lhe permitiria o mesmo nível de acesso aos recursos financeiros da família. A oferta de casamento e sua aceitação não refletiam sentimentos amorosos. No hotel em Innsbruck, aonde acompanhara os primos, Charles atira sobre as teclas do piano, no qual a moça supostamente teria estado tocando um noturno de Chopin, um poema sobre casamento – mas não sobre amor. I do not imagine the poor dear man could ever have been madly in love with me, admite ela; on my side, although I respected him and admired his achievements, I was never in love with him.
Desde o início, o marido foi parcimonioso com dinheiro, inclusive o da mulher. Com o tempo, o casamento torna-se uma ficção. Margaret vive na Europa, sob o pretexto de cuidar da educação dos filhos. A partir de 1880, os períodos que ela passa na Malásia são cada vez mais raros e curtos. Em 1887, esteve em Sarawak por poucos meses. A viagem seguinte a Bornéu aconteceria somente em 1896. Seria a última. Quando My Life in Sarawak foi publicado, fazia dezessete anos que a Rani não via sua terra de adoção. Ela morreria em 1936, sem ter voltado a Bornéu nos últimos quarenta anos de vida. Durante alguns anos, em Londres, morou com os filhos ainda pequenos em Cornwall Gardens. Minha mãe, minha irmã e eu moraríamos na mesma pequena rua cem anos depois. Entre os dois períodos, lá viveu também Joaquim Nabuco.
A história contada em My Life in Sarawak é a de uma jovem vitoriana que descobre aos vinte anos, com fascinação, a realidade tropical de Bornéu. Ela se adapta às suas novas circunstâncias, faz amizades locais. Viaja no iate do marido e em pequenas embarcações fluviais, acompanhando o Rajá Branco em seus roteiros de inspeção. Enfrenta sem o marido, sozinha em um forte longe da capital, querreiros Kayans, que teria conseguido apaziguar. Passa a usar trajes típicos de Sarawak. Aprende a língua malaia. Descobre que o canto do bulbul é mais bonito que o do rouxinol.
A primeira frase resume o espírito de todo o volume: When I remember Sarawak, its remoteness, the dreamy loveliness of its landscape, the childlike confidence its people have in their rulers, I long to take the first ship back to it, never to leave it again. Por um lado, a declaração de amor pela terra que não verá mais chega a ser tocante. Por outro, a referência à “confiança infantil que seu povo deposita nos governantes” irrita e nos faz lembrar estarmos diante de um casal inglês, representante do espírito colonialista britânico, transformado em rei e rainha nos trópicos asiáticos. Desde o início, em 1841, quando James Brooke passara a governar Sarawak, esta fora a ambiguidade da curiosa dinastia: reinavam na Ásia do Sudeste, mas não abandonavam a nacionalidade inglesa. Eram simultaneamente senhores e súditos.
O segundo livro, Good Morning and Good Night, é mais pessoal e revelador – e ainda assim de maneira relativa, como veremos. No texto de 1934, Margaret atribui o insucesso matrimonial aos ciúmes que o marido teria da sua popularidade em Sarawak: he wished to remain alone and supreme in the love and affection of his subjects. Ao mesmo tempo, depreende-se que, em Bornéu, ela estava sempre adoentada, talvez com depressão, talvez com malária. Há uma contradição entre o amor professado por Sarawak e suas constantes doenças. O médico britânico em Kuching entende que ela sofre de histeria, clássico “diagnóstico” do século XIX para deslegitimizar mulheres. Ela própria nos diz: Hysteria! – that blessed refuge of somewhat unskilful doctors who find themselves unable to diagnose a disease!.
Nos dois livros, Kuching, onde viviam 30 mil habitantes quando Margaret lá aportou pela primeira vez, é simultaneamente apresentada como uma espécie de paraíso, mas também com outras cores, como aldeia insalubre infestada de malária, mosquitos e ratos. No rio Sarawak, nadavam crocodilos. Se é verdade que a Rani teria sido acordada uma noite, como relata, por migração de “milhares” de ratos que atravessavam seu quarto, não sei. Mas posso testemunhar que na ilha de Bornéu a questão dos ratos não pode ser minimizada. O maior que vi em minha vida cruzou frente aos meus pés, em fevereiro de 2023, no mercado noturno de Kota Kinabalu, capital de Sabá, o outro estado malásio da ilha. Eu me preparava para acomodar-me em uma cadeira de plástico e jantar um peixe que vira ser preparado. A aparição do rato, grande como um gato e com sinais de doença na pelagem, me fez desistir.
Kuching na época de Margaret BrookeO Astana, ou palácio de Kuching, como o conheceu Margaret Brooke
Margaret de Windt passou proporcionalmente pouco tempo em Sarawak. Era porém seu título de Rani que lhe conferia prestígio na Europa. Frequentava a corte inglesa, junto à qual conseguiu diversas vantagens cerimoniais para Sarawak e o marido – para desgosto dele, que não apreciava suas interferências. Em 1901, obteve do novo rei, Eduardo VII, uma definição protocolar do status de Charles e, portanto, dela própria. O Rajá nascido na paróquia provinciana de Berrow, no interior de Somerset, ficava formalmente reconhecido como soberano de um Estado independente sob proteção britânica; os dois recebiam o título de altezas e eram inscritos, na ordem de precedência, logo após os príncipes reinantes indianos.
A facilidade com que Margaret, e, antes dela, o marido, construíam para si, por meio de suas memórias, uma imagem de exotismo e heroísmo tampouco atrapalhava sua popularidade. Próxima do príncipe Alberto I de Mônaco e sua mulher, a “soberana” de Sarawak frequentava artistas e escritores na França e na Inglaterra. Good Morning and Good Night narra episódios de sua amizade com Henry James, iniciada na década de 1890 e que durou até a morte do romancista. No primeiro encontro entre os dois, em Londres, na casa de uma conhecida comum, o escritor é descrito como um homem condescendente. A Rani afirma já haver então lido Roderick Hudson, Daisy Miller e The Princess Casamassima e elogia essas obras. Henry James levanta a mão ao ar e afirma: No, my dear lady, no, I can do better – I can do better than that. Margaret retruca: Oh, how can you say so? Surely they are quite perfect? A mão do escritor desce. Henry James olha para Margaret Brooke com sorriso de comiseração e responde: Well, as you will! But why are you here? You come from a land where the bulbul sings.
O livro menciona Pierre Loti – que dedicou um conto a Margaret – Maupassant, Rudyard Kipling, Swinburne, o pintor Edward Burne-Jones, a atriz Sarah Bernhardt. Parece haver consenso de que a Rani de Sarawak chegou a viver um romance, na década de 1890, com o jornalista americano William Morton Fullerton, quinze anos mais jovem, que não é mencionado em seus livros. Fullerton é hoje lembrado sobretudo pelo relacionamento amoroso com a escritora Edith Wharton e a amizade intensa que despertou em Henry James. Foi um desses personagens, como de uma certa forma a própria Margaret Brooke, que existem em toda parte, atraídos por escritores mais talentosos do que eles próprios. Ao fazerem parte da biografia alheia, preservam alguma fama após a morte.
Margaret Brooke em trajes malaiosA rani em trajes de Corte, na Inglaterra
Oscar Wilde, que lhe dedicou o primeiro conto de seu livro A House of Pomegranates (1891) – “To Margaret, Lady Brooke” – tampouco é mencionado, o que pode parecer estranho para nós, leitores do século XXI, cientes da perenidade de algumas de suas obras. Ocorre que quando Margaret escreveu seus livros de memórias, Wilde já morrera em desgraça, após o escândalo do seu processo e prisão. A mulher dele, Constance, precisara adotar outro sobrenome para si e os filhos, tal o constrangimento que passara a ser associado ao nome de Wilde. A Rani não viveu o suficiente para presenciar sua reabilitação.
Elemento constante na vida mutável de Margaret de Windt parece ter sido a busca por respeitabilidade, por afirmação de uma posição social. Não deixou, apesar disso, de prestar apoio a Constance, durante a prisão do escritor. Vyvyan Holland, filho de Wilde, escreve com gratidão a seu respeito, rememorando os dias passados perto de Gênova ao seu lado, e contando como sua mãe reencontrou alguma felicidade in the companionship of the Ranee, who was a comfort and a consolation to her until the time of her death three years later. Marie Belloc Lowndes afirma que o político trabalhista Richard Haldane visitou Oscar Wilde na prisão a pedido de Margaret. Foi graças a essa visita, é sabido, que o prisioneiro pôde receber livros e, mais tarde, caneta e papel, o que lhe permitiu escrever De Profundis, a longa carta da prisão de Reading.
É no afã de procurar demonstrar respeitabilidade que tem início Good Morning and Good Night. O castelo da avó em Épinay, onde Margaret crescera, é apresentado, nas primeiras páginas, como the home of the Rastignacs for generations. O “Reino do Terror” da Revolução Francesa, wreaking its hatred on the aristocrats, teria confiscado a propriedade e guilhotinado o marquês e a marquesa de Rastignac, “junto com tantos de seus amigos”. A única prole do casal, Elisabeth, bisavó de Margaret, teria sido “escondida pelos aldeões, que amavam os Rastignac”, e enviada à Holanda, para ser criada em segurança por um casal amigo, que a teria adotado. Mais tarde um filho do casal, Peter de Witt, casou-se com Elisabeth. Peter e Elisabeth de Witt teriam recuperado o castelo na França, onde foram viver, e o nome de Witt teria sido deturpado – pelos camponeses, afirma Margaret – em de Windt.
É um inteiro conto de fadas. Existem dois museus em Kuching celebrando o reinado de cem anos – de 1841 a 1946 – da dinastia Brooke. Ambos são administrados, com apoio do governo estadual, por uma entidade inglesa, Brooke Heritage Trust, presidida por Jason Brooke, descendente da família. Um dos museus, sediado no antigo Forte Marguerita, construído por Charles e nomeado em homenagem à mulher, é dedicado aos três Rajás Brancos. O outro, instalado no antigo Tribunal de Justiça, à vida de Margaret. O percurso pelas suas poucas salas começa com a reprodução de um quadro a óleo que representaria “o Marquês e a Marquesa de Rastignac, trisavós de Marguerite, por volta de 1780”.
As explicações do museu repetem, de forma acrítica, a versão fantasiosa oferecida por Margaret de suas origens. O tom esnobe da narrativa, com sua ingênua redução da Revolução Francesa ao “Reino do Terror”, ao “ódio pelos aristocratas” e à guilhotina é reproduzido pelo museu. Curiosamente, Margaret de Windt lembra nessa hora Lady Bracknell, personagem cômico de The Importance of Being Earnest, porta-voz assertivo, na peça, de valores sociais conservadores.
Forte MargueritaMuseu da Rani
A realidade é diferente do seu conto. Margaret fala da “bisavó Rastignac adotada pela família de Witt” como se a tivesse conhecido: “ela morreu quando eu tinha quatro anos”. Cita até, entre aspas, uma frase que a bisavó costumava dizer, falando dos casamentos da filha e da neta com ingleses: Ces Anglais, ces Anglais, toujours ces Anglais. Denomina-a “baronesa de Windt”. Essa pessoa, porém, nunca existiu. Ninguém usando o título de marquês ou marquesa de Rastignac jamais morreu guilhotinado. A avó materna de Margaret, Elisabeth, era uma de Windt adotada e transformada em herdeira pela tia, Judith de Windt. Esta, sim, enviuvara em 1817 de Jacques Gabriel Chapt, visconde de Rastignac. Os de Windt estavam instalados desde o início do século XVIII no Caribe – onde terão feito fortuna com lavoura de açúcar à base de trabalho escravo – e escreviam seu nome com essa grafia desde pelo menos o século XVII. A avó de Margaret, Elisabeth de Windt, casou-se com um inglês, que adotou seu sobrenome, e não com um holandês chamado Peter de Witt. Margaret não teve nem avô nem bisavô com esse nome. A sua bisavó de Windt, nascida Sarah Roosevelt, no Caribe — e não Elisabeth de Rastignac, na França —, morreu em Paris, em 1850, um ano após o nascimento da bisneta. Essas informações encontram-se em diferentes estudos genealógicos, todos de acesso público.
A história da família Chapt de Rastignac foi publicada em 1858 por sua última representante, Zénaïde, duquesa de La Rochefoucauld. Os Chapt de Rastignac são consistentemente descritos como de nobreza antiga. Pode-se deduzir a satisfação de Margaret de Windt em conseguir fazer crer, por meio das suas alegações, que descendia da família.
Terá Margaret sabido que na verdade não descendia dos Rastignac? Inventou ela própria essa fábula ou herdou-a da mãe ou da avó? A resposta pode estar em livro autobiográfico de seu irmão caçula, Harry de Windt, célebre em sua época como viajante incansável e também ele autor prolífico de narrativas de viagens. Vyvyan Holland é quem, mais uma vez, nos conta que Harry de Windt was a famous explorer at the end of the last century, his most remarkable feat being to travel from Pekin to Paris overland in 1887. É sobriamente, sem fantasias, que o irmão mais novo explica, em My Restless Life (1909), que o castelo em Épinay “tinha sido herdado de um parente, o visconde de Rastignac”.
O museu em Kuching perpetua no entanto as invencionices de Good Morning and Good Night. De um museu, mesmo um museu familiar, espera-se algum apego à realidade. Mais extraordinário ainda é que o mito dos antepassados aristocráticos franceses seja recolhido na obra da historiadora australiana Cassandra Pybus, que estudou as vidas de Charles e Margaret em The White Rajahs of Sarawak (1996) e compra, sem crivo, a versão de que Margaret de Windt descendia de “aristocratas franceses” e era por isso socialmente superior aos Brooke.
Viúva desde 1917, Margaret morreu em 1936, aos 87 anos. Foi poupada de ver o filho Vyner ter de renunciar, em 1946, ao reino de Sarawak, que se tornou formalmente apenas mais uma entre as colônias de um império britânico em declínio.
Em uma família onde cada um parece haver deixado seu próprio livro de memórias, sua nora, Sylvia Brett, mulher do terceiro e último Rajá Branco, também publicou as suas, com um título sensacionalista, Queen of the Headhunters (1970). Sylvia Brooke visitou a sogra poucos dias antes de sua morte e não foi por ela reconhecida. She had been a woman of note, escreve a nora, the friend of Henry James, H. G. Wells and Elgar. Now there was nobody; and she was just a lonely woman, living in a small flat, and already separated from life. There was something regal and tragic in her isolation.
Oscar Wilde não é a única omissão notável em Good Morning and Good Night. Quando Margaret descreve a morte de seus três filhos pequenos a bordo do navio – “aquelas flores belas e encantadoras cortadas em poucas horas, arrancadas de nós e jogadas ao mar” – e lista todos os presentes no seu grupo, “marido, irmão, os três bebês, a babá inglesa, a empregada doméstica”, deixa de lado uma pessoa.
Viajando com eles, ia uma outra criança, um menino de seis anos. Ele se chamava Esca Brooke e era filho de Charles Brooke com uma mulher malaia, de origem nobre, Dayang Mastiah. Charles e a mãe da criança podem ter se casado em um rito muçulmano. O garoto passou a ser criado no Astana, como é chamado o palácio em Kuching, e sua existência em Sarawak nunca foi um mistério.
Pode-se imaginar a reação de Margaret ao ver seus três filhos morrerem e serem atirados ao mar, enquanto o outro menino, que também adoeceu, sobrevivia. Cassandra Pybus especula ser possível que Esca, nascido na terra de Sarawak, filho mais velho do Rajá, fruto talvez de um casamento que as populações locais considerariam legítimo, viesse a ser um candidato sólido a suceder ao pai, em detrimento dos filhos da Rani. Cita uma frase de Margaret a um sobrinho, em carta de 1927: “Tive o bom senso de perceber que ele seria um problema se ficasse em Sarawak”.
Deixado na Inglaterra, em 1873, para ser criado por um reverendo anglicano, Esca Brooke emigrou com sua família adotiva para o Canadá. Ele nunca mais veria o pai; nunca receberia um bilhete sequer dele, apenas uma pequena pensão; nunca retornaria a Sarawak. Morreu em Toronto em 1953.
Quantas facetas cabem em um único personagem? Ao longo da história de Margaret de Windt, como ela a quis contar, vemos sucessivamente a jovem vitoriana ingênua, isolada embora de família rica; a soberana corajosa de uma terra tropical, distante do seu país de origem; a mulher infeliz no casamento e enlutada pela morte de vários filhos; a alteza detentora de um título espetacularmente insólito, amiga, na Europa, de príncipes e artistas; a personalidade pública ciosa de estabelecer uma posição de brilho para si, o marido e os filhos.
O que não vemos em momento algum, ao longo das suas memórias, é uma dimensão importante – que talvez seja o seu aspecto mais fascinante. Margaret entrou na vida do pequeno Esca Brooke, possível herdeiro de Sarawak, como presença nefasta, a clássica madrasta má. Com isso, conseguiu tornar-se, de fato, não uma Rastignac real, como fantasiou ser, mas uma personagem digna de Balzac.
Na primeira Carta da Malásia, descrevi um fim de semana passado em Penang. Esse é um estado malásio que compreende uma ilha de mesmo nome e uma faixa de território em terra firme. Na ilha situa-se a capital do estado, George Town.
Penang distingue-se por várias características, no contexto malásio. Dos onze estados na Malásia peninsular, é o único, com Malaca, e como os dois em Bornéu, Sabá e Sarawak, a não ser um sultanato. O chefe de estado local é um governador. Penang é o único estado onde a maioria da população é de origem chinesa e onde o primeiro-ministro, atualmente, não é malaio e muçulmano. George Town está listada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, mas Penang não parou no tempo, e é um dos centros econômicos e tecnológicos da Malásia, inclusive na indústria de semicondutores.
Com o apoio do governo estadual, George Town, há treze anos, sedia um respeitado festival literário. Na edição de 2023, Clarice Lispector foi uma das estrelas, por sugestão minha à sua diretora, Pauline Fan. Muitas vezes, ao longo do ano, conversei com Pauline sobre Clarice, de quem ela é admiradora. Que formato poderia ter a homenagem? O mais óbvio parecia ser uma mesa-redonda sobre sua obra.
Acontece que o Instituto Moreira Salles organizara, de 2021 a 2022, em São Paulo e no Rio de Janeiro, uma grande exposição, Constelação Clarice, coordenada pela escritora Veronica Stigger e o poeta Eucanaã Ferraz. Contactado pela Embaixada do Brasil em Kuala Lumpur, o Instituto aceitou ceder facsímiles de parte de seu material. O suficiente para, em Penang, montar uma sala evocando Clarice. Sobre móveis e paredes, cartas da autora, bilhetes seus, cadernos de anotações, páginas de manuscritos de seus livros, fotografias nos revelavam algo dela, mas não o suficiente para eliminar o fascínio, o mistério que sua personalidade e sua literatura provocam.
Fui a George Town para a abertura do Festival no dia 24 de novembro. Lá esteve presente o primeiro-ministro do Estado, Chow Kon Yeow. Não sei dizer se, alguma vez, algum governador do Rio de Janeiro abriu a FLIP em Paraty.
No dia seguinte, 25 de novembro, inaugurei a exposição sobre a vida e a obra de Clarice Lispector. O convidado de honra, representando o governo estadual, foi o secretário de Turismo e Economia Criativa. Em seu discurso, Wong Hon Wai elogiou o Rio de Janeiro, onde já esteve, focalizando particularmente o Jardim Botânico, que poderia servir, avaliou, de exemplo para o de Penang. Ele foi modesto ao dizer isso, porque o Jardim Botânico de Penang, que já visitei, é excelente.
Peguei o microfone. Tinha bem presente o que queria dizer. Mencionei a importância de Clarice Lispector na literatura não somente brasileira, mas universal. Citei o fato de sua obra já ter sido traduzida para mais de 30 idiomas e publicada em 40 países. Recomendei alguns de seus livros. Especulei que, se na minha adolescência A Paixão Segundo G.H. era sua obra mais célebre, hoje, possivelmente, esse papel cabe a Água Viva e A Hora da Estrela. Li, em inglês, trecho de sua primeira carta a Olga Borelli, que há muitos anos me intriga: “Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo […] Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança”.
Indiquei a importância do Instituto Moreira Salles na vida cultural brasileira, e seu papel na preservação de arquivos literários, inclusive o de Clarice Lispector, e fotográficos. Informei que a exposição havia sido financiada pela unidade do Itamaraty responsável por difusão cultural e educacional do Brasil no exterior, o Instituto Guimarães Rosa, cujo nome expliquei.
A direção do Festival evitara colocar qualquer outro evento naquele horário, o que garantiu o máximo possível de público na cerimônia. Alguns tiveram de ficar do lado de fora da sala onde fora montada a exposição, por falta de espaço. O curador instalara o material como se estivéssemos em um ambiente pessoal, talvez a sala da autora. Clarice Lispector, reservada como era, provavelmente teria ficado surpresa em receber simultaneamente tantos convidados no seu apartamento.
Todos os autores mais famosos participantes do Festival estiveram na abertura da exposição, inclusive o inglês Geoff Dyer, o francês Édouard Louis e o malásio Tash Aw. Ver Geoff Dyer e Tash Aw permitiu-me acrescentar, em minha fala, que nunca, quando começamos uma leitura, sabemos se aquele livro específico ou aquele autor terão importância para nós. Minha curiosidade pela Ásia do Sudeste, até certo ponto, ficou aguçada quando, há muitos anos, li Yoga for People who Can´t Be Bothered to Do It, evocação por Geoff Dyer de algumas viagens suas, inclusive por alguns países do Sudeste Asiático, aonde até então eu nunca havia viajado. The Harmony Silk Factory, de Tash Aw, tendo sido o primeiro romance malásio que li, confinado em casa em Kuala Lumpur durante a pandemia de Covid-19, logo ao chegar à Malásia em 2020, era a única forma de evasão, de eu viajar pelo país, no caso ao estado de Perak, onde se passa a ação. Provavelmente por causa do livro, Perak é uma região de particular afeição para mim na Malásia; graças ao romance, lá pude viajar por meio da imaginação, antes de poder conhecer qualquer lugar no país que não fosse minha casa, meu local de trabalho e o supermercado.
Da mesma forma, por razões e rumos tortuosos que já procurei explicar anteriormente, e mencionei na abertura da exposição em Penang, minha primeira visita a Malaca me levou a reler a obra de Clarice Lispector, quando seus livros tomaram para mim nova dimensão.
A maior livraria da Malásia, a Kinokuniya de Kuala Lumpur, montara balcão no espaço principal do Festival, onde os livros de Clarice traduzidos ao inglês, em diversas edições, foram, durante os quatro dias, expostos de maneira proeminente. Iam sendo vendidos rapidamente, e substituídos por novos exemplares.
Os livros de Clarice bem visíveis na livraria temporária montada no Festival de George Town.
As falas, no Festival, de Geoff Dyer, Tash Aw e Édouard Louis sobre suas vidas e suas obras foram valiosas. Lotaram o auditório. A plateia achou graça na forma como Édouard Louis e Tash Aw, hoje melhores amigos, discorreram, na mesma mesa-redonda, sobre como se conheceram, em um festival literário na Escandinávia. Por uma dessas coincidências que parecem ficção irrealista, Tash Aw fora pouco antes morar na aldeia tacanha, no Norte da França, onde nascera o escritor francês, e da qual este escapara na juventude. O escritor malásio, então menos célebre do que é hoje, apresentou-se no festival escandinavo a Édouard Louis, mencionando a aldeia onde morava. À plateia em Penang, o francês explicou: “Fiquei com medo. Pensei que ele fosse um desses malucos que ficam acossando escritores em festivais literários”.
Gostei particularmente do depoimento de Geoff Dyer, em sua fala, sobre John Berger. Admirador dos seus livros, Geoff Dyer teve, chegado o momento de conhecer o escritor mais velho, medo de se decepcionar. O contrário aconteceu, porque he was the most wonderful human being. Dyer considerava Berger uma figura paterna. As pessoas, vendo desenvolver-se a amizade entre eles, avisaram que, um dia, ele “passaria a criticar Berger, cometeria patricídio”. Qualquer estudante de psicologia sabe que esse é um fenômeno comum, em interações intergeracionais. Mata-se figurativamente não somente o pai biológico, mas também o amigo mais velho, na crença de que isso é indispensável para o crescimento individual. No caso da sua amizade com Berger, apontou Geoff Dyer em George Town, isso não aconteceu, o que a meu ver diz muito sobre as qualidades de ambos.
Geoff Dyer, falando sobre John Berger em Penang
Alguns dias depois, já de volta a Kuala Lumpur, eu convidaria o escritor inglês para jantar. Cito suas obras com frequência nos meus ensaios. Se alguém tivesse me dito, há cerca de vinte anos, quando comecei a ler Geoff Dyer em Washington, em Quito, em Brasília, que um dia ele jantaria na minha casa, e que essa casa seria em Kuala Lumpur, eu teria considerado a pessoa desnorteada.
Voltemos a Penang, voltemos a Clarice Lispector. Membros do público disseram-me, após a cerimônia de abertura, que a exposição dera-lhes vontade de ler os seus livros. Uma artista gráfica, que visitara a exposição dias antes, enquanto era montada, já desenhara marcadores de livros com um retrato famoso de Clarice e trecho de carta sua.
É muito raro, na experiência profissional de um diplomata, ele ou ela ver de forma imediata o resultado de seu esforço. A estrela chegara à Malásia, enriquecera o festival literário de George Town e, por seu intermédio, era a literatura brasileira como um todo que brilhava.
O dia seguinte era o último domingo de novembro. Voltei para Kuala Lumpur feliz. No caminho, pensando em Clarice, satisfeito, realizado, eu não tinha ideia de que a vida, da sua maneira característica, naquele momento mesmo já me preparava, sorrateiramente, algumas armadilhas.
O convite partiu do embaixador da Espanha. Perguntou-me se eu aceitaria ser incluído no grupo. Concordei sem hesitar. A ideia era celebrar em Kuala Lumpur o “Dia do Idioma Espanhol”. O cenário seria o pequeno palco da livraria Eslite Spectrum, inaugurada há pouco tempo e pertencente a uma cadeia de Taiwan. Cada participante leria um texto em espanhol, de sua escolha, por não mais do que cinco minutos.
Fiquei pensando sobre o que selecionar. Lembrei de um soneto de Jorge Luis Borges que é, de certo modo, um tributo à língua portuguesa, cuja data se celebraria dois dias depois da leitura na Eslite.
O embaixador da Argentina leu o prefácio de Ernesto Sabato (1911-2011) para seu livro de recordações, seu “testamento”, Antes del fin, publicado em 1998. A frase este complejo, contradictorio e inexplicable viaje hacia la muerte que es la vida de cualquiera, foi dita no tom certo, sem entonação melodramática.
O embaixador do México optou por “Hombres necios que acusáis”, de Sor Juana Inés de la Cruz (1651-1695), cuja primeira estrofe é:
Hombres necios que acusáis a la mujer sin razón, sin ver que sois la ocasión de lo mismo que culpáis
Chile escolheu o poema de Nicanor Parra (1914-2018) em homenagem à sua irmã, “Defensa de Violeta Parra”; Colômbia, parágrafos de uma das novelas de Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero, de Álvaro Mutis (1923-2013). Cuba leu o conto “Francisca y la muerte”, de Onelio Jorge Cardoso (1914-1986); Peru, o poema “Hallazgo de la vida”, de César Vallejo (1892-1938).
A embaixadora do Uruguai selecionou parágrafos de La insumisa, autobiografia romanceada, publicada em 2020, de Cristina Peri Rossi (1941- ), único autor vivo escolhido. Teria sido uma felicidade poder escutar a obra por mais do que cinco minutos.
Nascida em Montevidéu, Cristina Peri Rossi exilou-se em 1972 na Espanha. Autora prolífica, é também tradutora, inclusive de literatura brasileira: Clarice Lispector, Osman Lins, Ignácio de Loyola Brandão, Graciliano Ramos e Fernando Gabeira. Ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes em 2021. Havia, aliás, concentração de ganhadores do prêmio entre os autores selecionados: Borges o recebeu em 1979, Sabato em 1984, Álvaro Mutis em 2001, Nicanor Parra em 2011.
O trecho lido pela embaixadora uruguaia incluía a seguinte frase: Al exiliarnos juntas, fue, en realidad, como si no nos hubiéramos exiliado, como si transportáramos con nosotras todo aquello que amábamos hasta entonces. Na lista das coisas amadas em comum estavam las canciones de María Bethânia. Sobre a ruptura dessa relação amorosa, um ano depois, a autora diz: comprendí que el exilio no era solo cambiar de espacio, el exilio era separarse de la persona amada.
Assim vivi eu entre 2020 e 2022, por causa da pandemia e o fechamento das fronteiras no Sudeste asiático, sem nunca poder ver a mulher amada, eu morando na Malásia, ela em Singapura. No dia seguinte, telefonei para minha colega uruguaia e pedi emprestado seu exemplar do livro.
La insumisa já começa de maneira surpreendente, com a frase: La primera vez que me declaré a mi madre, tenía tres años. É a história de uma infância e uma adolescência anticonformistas. Com ironia, Cristina Peri Rossi descreve um mundo soturno. Um hospital é palco de um estupro. O pai mantém com ela uma relação conflitiva; ele é agressivo, e sua vida, nos diz a autora, foi una larga, única y sostenida depresión. Um capítulo quase nos ilude, parecendo ser a poética descrição de uma estação de trem provinciana, no campo, chefiada por um tio-avô. A narradora tem agora quatro anos e atravessa um período feliz, correndo livre entre animais domésticos e avestruzes: El pueblo se llamaba Casupá, en honor a un cacique indio especialmente resistente a la Conquista.
Pesquiso e vejo que o povoado fica em terras que pertenceram ao avô do General Artigas. Chego a lamentar, a essa altura do livro, que, tendo vivido três anos em Montevidéu na infância, nunca tenha ido a Casupá, não tenha conhecido aquele cenário idílico.
Mas o tom logo muda. As vias ferroviárias são fechadas, os vagões abandonados no campo, alejados de cualquier camino y sin destino. Na ditadura militar uruguaia, serviram de campos de concentração, pois las cárceles y los cuarteles no fueron suficientes para encerrar a todos los presos políticos. Lemos detalhes do que significava viver trancado, amontoado, sem luz, sem banheiro, no ar rarefeito dos vagões. A narrativa, encantadora e bucólica poucos parágrafos atrás, torna-se agora terrível. Afinal, como observa a autora, los seres humanos tenemos una capacidad extraordinaria para hacer sufrir a los demás.
O príncipe Segismundo, esse Hamlet espanhol, teria também algo a nos contar sobre o sofrimento de viver, e na verdade contou-nos, aos ouvintes na livraria em Kuala Lumpur. Personagem principal da peça mais conhecida de Calderón de la Barca (1600-1681), La vida es sueño, ele foi interpretado pelo Embaixador da Espanha. Versos de suas duas falas mais famosas, habilmente mesclados, foram declamados, no pódio, com verdadeiro talento teatral.
Herdeiro do trono da Polônia, Segismundo cresce, por ordem do rei Basilio, seu pai, preso em uma torre nas montanhas. O rei é também astrólogo; os astros lhe comunicaram, ao nascer seu filho, que este — víbora humana del siglo — causaria grandes dores ao país e a ele próprio, o pai. O nascimento, de fato, dá-se sob algum signo infeliz: a rainha morre no parto, e isto coincide com um eclipse apocalíptico, descrito por Basilio em versos que me fazem pensar mais em outro fenômeno natural, as erupções vulcânicas que testemunhei em Quito:
Los cielos se oscurecieron, temblaron los edificios, llovieron piedras las nubes, corrieron sangre los ríos.
Com a consciência inquieta diante da longa prisão a que submeteu o filho, o rei decide um dia testar se os astros estavam certos. Manda trazerem Segismundo ao palácio real. Ao descobrir-se príncipe, e que apesar disso fora criado de maneira solitária, como um animal capturado, Segismundo torna-se violento, o que parece confirmar a profecia. É enviado de volta à torre. Convencem-no de que a ida ao palácio, o encontro com o rei, a revelação de sua verdadeira condição foram apenas cenas de um sonho.
Uma revolta de soldados, que querem aclamá-lo, liberta-o, no entanto, do enclausuramento. No final, pai e filho se reconciliam, Basilio abandona o trono, Segismundo se torna rei, deduzimos que governará com moderação, e seu casamento com a prima Estrella é anunciado.
La vida es sueño causou-me impacto quando a li pela primeira vez, aos 21 anos. Meu objetivo era familiarizar-me com o texto antes de assistir, em Londres, a uma produção da Royal Shakespeare Company, no The Pit, sala menor do Barbican Centre, teatro onde a companhia naquela época se apresentava na capital, em alternância com Stratford-upon-Avon. No meu programa da peça, anotei ter gostado das atuações e da produção, mas considerei o texto em inglês mais uma adaptação do que uma tradução. Nunca esqueci essa montagem.
Este ano, em abril, outra companhia de teatro, a fenomenal Cheek by Jowl, fez quatro apresentações da peça, em espanhol, e com atores espanhóis, na sala grande do Barbican. Essa produção, muito comentada, fora primeiro mostrada na Espanha, em turnê, nos últimos meses de 2022, e terminou no Festival de Edimburgo, em agosto. Uma das resenhas menciona que, na torre, o único consolo de Segismundo é ouvir Carmen Miranda cantando “Cuanto le gusta”, em uma gravação com as Andrews Sisters.
Se eu não tivesse, no começo de junho, rompido dois ligamentos no tornozelo direito, teria sonhado em tirar férias e viajar a Edimburgo em agosto. Fundada por Declan Donnellan e Nick Ormerod, Cheek by Jowl é uma companhia que apresenta peças em diversos idiomas, em diferentes países. Há muitos anos, assistimos à sua produção de Macbeth, em inglês, em Namur, e a Andromaque, em francês, em Bruxelas. A montagem da peça de Racine era particularmente notável.
Mas voltemos a Kuala Lumpur, onde o embaixador da Espanha declama versos do primeiro solilóquio de Segismundo na torre, no início de La vida es sueño:
Apurar, cielos, pretendo, ya que me tratáis así qué delito cometí contra vosotros, naciendo; aunque si nací, ya entiendo qué delito he cometido; bastante causa ha tenido vuestra justicia y rigor, pues el delito mayor del hombre es haber nacido.
Para emendar, em seguida, com as igualmente célebres linhas do regresso à prisão. Convencido por Clotaldo, seu tutor e cortesão do rei, de que as experiências que viveu no palácio foram apenas uma miragem, Segismundo conclui:
Es verdad, pues: reprimamos esta fiera condición, esta furia, esta ambición, por si alguna vez soñamos. Y sí haremos, pues estamos en mundo tan singular, que el vivir sólo es soñar; y la experiencia me enseña, que el hombre que vive, sueña lo que es, hasta despertar. Yo sueño que estoy aquí, de estas prisiones cargado; y soñé que en otro estado más lisonjero me vi. ¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño; que toda la vida es sueño, Y los sueños sueños son.
Borges menciona Calderón com alguma frequência em suas obras, e até Segismundo uma ou outra vez. É, porém, em uma entrevista concedida a Fernando Sorrentino e publicada por este em 1974 no livro Siete conversaciones con Jorge Luis Borges que encontro a opinião mais contundente, e surpreendentemente negativa: En cuanto a la versificación de Calderón, la encuentro excesivamente pobre y será, quizá, porque no lo he leído bien. Quem sou eu para condenar Borges? E no entanto, eu o faço.
La vida es sueño é uma peça filosoficamente complexa, e a qualidade poética do texto não é menos sofisticada. Relendo-a no amarelado exemplar comprado em Londres há tantos anos, duas ideias me capturam. Primeiro, a beleza estética que encontro na linguagem:
que hoy he de dar la batalla, antes que las negras sombras sepulten los rayos de oro entre verdinegras ondas.
Parece-me extraordinário que a língua espanhola possa acomodar um vocábulo específico, verdinegro, para definir uma cor indefinida, aquela tonalidade verde, quase negra que, de fato, o mar adquire, em um entardecer ensolarado, logo antes de ficar completamente escuro.
A segunda ideia é o dilema metafísico vivido por Segismundo. É curioso que Borges, cuja obra ilumina nossa leitura atual de Calderón, minimize o dramaturgo espanhol.
Mesmo Manuel Bandeira, em geral tão clarividente, oferece em Noções de História das Literaturas (1942) uma interpretação meramente moralista, ou talvez cristã, de La vida es sueño. Considera uma fala de Clotaldo a Segismundo — aun en sueños no se pierde el hacer bien — a síntese da peça, e comenta: “realidade ou sonho que seja a vida, o que importa é voltarmo-nos para o que é eterno”. Essa visão se aproxima daquela de Borges sobre a peça. Na entrevista de 1974, o escritor argentino afirma que, para Calderón, a frase la vida es sueño possui um sentido teológico, e não metafísico. Estima que, para o dramaturgo espanhol, a vida é apenas una breve parte de la realidad, pois lo verdadero son el cielo y el infierno. La idea de Calderón es una idea cristiana. Creo que Calderón le daba el énfasis a la idea de lo transitorio de la vida, comparado con lo transitorio de un sueño.
Na verdade, a peça do “Siglo de Oro”, montada pela primeira vez por volta de 1635, coloca em questão, de uma maneira muito borgiana, a própria realidade da realidade. Segismundo é um prisioneiro que sonha em ser príncipe? É um príncipe resgatado do pesadelo de uma prisão? A vida é real? Ou é um sonho? “Uma sombra”? “Uma ficção”?
O que significa estar vivo, existir? Os versos pues el delito mayor / del hombre es haber nacido são citados com reverência por Arthur Schopenhauer, que por sua vez foi uma forte influência intelectual sobre Borges. Este aliás opina, na entrevista supracitada, que Calderón es una invención de los alemanes. A resolução edificante do enredo — Segismundo vira um bom rei, pai e filho se reconciliam — era apropriada para a Espanha do século XVII, e em nada diminui a profundidade das questões metafísicas suscitadas.
Se Jorge Luis Borges tinha reticências em relação a Pedro Calderón de la Barca, eu nenhuma tenho quanto a seu soneto “A Luis de Camoens”, da coleção El hacedor (1960). É esse o poema que decidi ler, em 3 de maio, ao público presente na livraria em Kuala Lumpur.
Expliquei à plateia que o “Dia da Língua Portuguesa” seria logo em seguida, em 5 de maio. Mencionei ser Camões o poeta nacional de Portugal, e um dos pilares das literaturas de língua portuguesa. Comentei que a colonização do Brasil começara simultaneamente à derrocada pelos portugueses do Sultanato de Malaca (1511), quando Portugal se instalara naquela área da Península Malaia, primeira potência europeia a fazê-lo. Como consequência, o malaio contém vários vocábulos derivados do português. O próprio Luís de Camões vivera em Malaca. Apontei os versos em que Borges lembra ter o poeta voltado à patria nostálgica para morir en ella y con ella, já que em 1580, mesmo ano de sua morte, Portugal e suas colônias passaram sob o domínio espanhol.
É este o soneto:
Sin lástima y sin ira el tiempo mella las heroicas espadas. Pobre y triste a tu patria nostálgica volviste, oh capitán, para morir en ella y con ella. En el mágico desierto la flor de Portugal se había perdido y el áspero español, antes vencido, amenazaba su costado abierto. Quiero saber si aquende la ribera última comprendiste humildemente que todo lo perdido, el Occidente y el Oriente, el acero y la bandera, perduraría (ajeno a toda humana mutación) en tu Eneida lusitana.
Os últimos versos são uma celebração do ofício poético e, por extensão, da literatura como um todo, e da arte. Os grandes autores e artistas fazem perdurar, em nossas mentes, a experiência humana ao longo da história, e dão sentido ao que, sem eles, talvez não tenha sentido algum. Essa é uma constatação sempre presente para mim. Em 1580, Portugal perdeu el Occidente y el Oriente, a glória da espada e da bandeira. Mas tudo isso é resgatado, e magicamente sobrevive, em Os Lusíadas.
O evento na livraria chegava ao fim. Faltava contudo algo. Seria inconcebível que Dom Quixote, no “Dia do Idioma Espanhol”, não fosse lembrado. Uma aluna universitária malásia levantou-se, subiu ao pódio e leu parágrafos da obra de Cervantes, primeiro em castelhano, depois em malaio. Como convinha, um dos grandes mitos da literatura universal, o leitor de romances medievais que resolveu atacar moinhos de vento, surgira para encerrar a sessão.
Calderón de la Barca, Jorge Luis Borges e Cristina Peri Rossi
Este texto foi primeiro publicado, em 5 de agosto de 2023, no jornal de literatura Rascunho
O que faz um Embaixador brasileiro? Como ele e sua equipe promovem o Brasil?
O vídeo abaixo é para você, que talvez se pergunte como trabalham os diplomatas brasileiros no exterior.
Talvez uma curta explicação seja útil de como surgiu o vídeo.
Todo ano, em Kuala Lumpur, em setembro, é realizada a Feira de Produtos Halal (MIHAS, pelo seu acrônimo em inglês), possivelmente a mais influente do mundo. Como é sabido, o Brasil é o maior exportador do mundo de produtos halal de proteína animal.
Em 2023, o Brasil montou um pavilhão na MIHAS. A Embaixada em Kuala Lumpur decidiu também organizar um evento de confraternização no local da Feira. Um público numeroso compareceu. Somente produtos brasileiros, inclusive carne halal, foram servidos, como demonstração da sua alta qualidade. O evento brasileiro, único semelhante na MIHAS, despertou a atenção da imprensa malásia.
Existe na Malásia um importante semanário econômico, The Edge. O CEO do grupo que publica o semanário, Ho Kay Tat, é um dos mais famosos jornalistas do país. Ho Kay Tat é um contato habitual meu. Pedi a ele que o The Edge cobrisse o evento brasileiro na MIHAS. Ele fez mais. Sugeriu que eu desse uma entrevista ao canal de YouTube do The Edge, o que aceitei.
Fiz a entrevista no meu escritório. Em 22 de setembro, ela foi divulgada pelo The Edge TV. O canal transformara a entrevista em um excelente documentário, de apenas sete minutos, sobre as relações Brasil-Malásia. O vídeo aborda muitas das áreas em que a Embaixada em Kuala Lumpur vem trabalhando, embora não todas. Tenho a sorte de contar com colaboradores eficientes em Kuala Lumpur, e por isso várias frentes de atuação estão em curso, de promoção comercial a difusão da cultura brasileira, de ciência e tecnologia a assistência consular, de meio ambiente a saúde.
No fim das contas, é tudo uma questão de patriotismo.