Guerra, ontem e hoje

Guerra, ontem e hoje

Há uma guerra em curso. Na verdade, há mais de uma, como costuma acontecer. Mas você sabe a qual delas estou me referindo. E se acha que a violência atual no Oriente Médio e no Golfo Pérsico nada tem a ver conosco no Brasil, é melhor pensar de novo. É preciso avaliar as novidades no noticiário internacional e analisar seus múltiplos desdobramentos.  

Quando a terceira guerra mundial se iniciar, ninguém nos avisará. Não haverá uma declaração formal. Entenderemos aos poucos. O volume de mísseis disparados, navios afundados, cidades destruídas, tesouros artísticos arruinados, países envolvidos e, principalmente, vidas inocentes perdidas acabará por nos fazer compreender.

A Segunda Grande Guerra, em todo caso, esteve por estes dias muito presente para mim. Em janeiro, comprei no Rio um livro publicado em 2025, O tenente: Cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial, de que Celso Furtado (1920-2004) aparece como único autor. Rosa Freire d´Aguiar é responsável pela organização, a apresentação e as notas.

Revela-se aí a modéstia característica de Rosa Freire d´Aguiar. Embora a obra seja uma nova edição de um livro de Celso Furtado de 1946, De Nápoles a Paris: Contos da vida expedicionária, a concepção do volume lançado ano passado pela Companhia das Letras é da organizadora, que anexou a esse núcleo de contos quantidade de elementos iluminadores para a compreensão da obra. Há cartas do autor enviadas a parentes e amigos no Rio de Janeiro, enquanto esteve na Itália, e por ele recebidas no mesmo período. Há material sobre como a crítica recebeu os contos, quando foram lançados. Há textos avulsos do autor sobre o fascismo e sobre sua experiência como expedicionário.

Sobretudo, há uma verdadeira joia de apresentação por Rosa Freire d´Aguiar sobre o conjunto dos textos, contextualizando-os e explicando o momento histórico em que foram escritos. O grande economista brasileiro, então jovem de 24 anos, viajou para a Itália em fevereiro de 1945, “integrando o quinto, e último, escalão da Força Expedicionária Brasileira”. Viajavam no navio “General Meigs” cerca de 5 mil homens.

Rosa Freire d´Aguiar lembra que, por aquela época, Roma já estava libertada desde junho de 1944. A frente de batalha se situava então no rio Arno. Furtado foi enviado a Florença, de onde “comandou comboios para levar a tropa até a linha de frente”. Mais tarde, ele lembraria que, na guerra, não se morria apenas lutando, pois “os acidentes eram muitos”, por exemplo com minas.

Em setembro de 1945, o futuro ministro de estado e embaixador estava de volta ao Rio de Janeiro. Decidiu relatar suas impressões da guerra em forma de ficção e no ano seguinte publicava os contos. Falemos, justamente, desses contos.

Celso Furtado, como ficcionista, não possui a mesma densidade do autor de livros de pensamento econômico, notavelmente do clássico Formação econômica do Brasil, de 1959, que faz dele um dos grandes analistas da realidade brasileira. Seus contos não devem ser abordados na expectativa de que encontraremos um novo Machado de Assis, um novo Tchekhov. No entanto, não podem ser descartados. Literariamente, são satisfatórios: bem escritos e uniformes no estilo elegante, transmitem uma atmosfera própria.

São também perturbadores. Não somente porque o tema tratado é a guerra, mas porque se concentram sobre seus efeitos na vida cotidiana das pessoas, particularmente as mulheres.

Em vários contos, há um namoro ou uma atração emocional, física ou sensual entre algum soldado brasileiro e uma mulher italiana. De início, isso me pareceu um conceito excessivo, falar-se tanto de amor ou de sensualidade naquelas circunstâncias de combate e de reconstrução após a guerra. Depois, percebi que os textos revelam um padrão; em muitos casos, por causa da guerra as personagens femininas perderam família e bens. Tornaram-se desvalidas. É sobre o seu desespero que estamos lendo, essa é a tônica. O soldado estrangeiro é, em maior ou menor grau, um invasor. Pode porém parecer uma tábua de salvação. Em um dos melhores contos, “Terra prometida”, Mariucha, abandonada pelo namorado brasileiro, exclama: “Eu quero ir para o Brasil. É o meu sonho. Aqui não há futuro para mim”.

O conto mais intrigante é “Um intelectual em Florença”. Aborda uma questão já destrinchada por Henry James, a do americano — no caso, brasileiro — confrontado, na Europa, com as sutilezas das relações sociais e as tradições culturais de velhas famílias. Em uma recepção em um palacete florentino, Mário flerta com uma jovem aristocrata. Mas acredita perceber em si mesmo “a fragilidade da própria erudição, que se lhe afigurou como absolutamente postiça”,  pois não detém “os oito séculos de sedimentação que ele sentia nas paredes do castelo e no olhar das criaturas”. O protagonista discorre sobre Goethe, sobre Horácio. A jovem se volta para ele e opina: “Para vocês, o mundo e as coisas são simplesmente o mundo e as coisas. Vocês não têm a deformação monstruosa de oito séculos de tradição”. E aí, algo extraordinário acontece: ela explica Goethe e Horácio para Mário exatamente como ele acabara de fazer.

Em uma carta de abril de 1945, Celso Furtado prenuncia a apatia que hoje muitos parecem sentir diante de mais um conflito bélico: “Muito cedo nos acostumamos com as destruições”. A violência em repetição gera um sentimento de banalidade.

Em outra carta, escrita da Toscana na mesma época, comenta estar presenciando, como resultado da guerra, “a cabal decomposição de uma sociedade”, formada por “milhares de criaturas sem programa de vida, sem escala de valores, guiadas pelo medo que lhes traz o estado de insegurança. Camadas inteiras estão expostas aos ventos de qualquer ideologia, promessa ou utopia”. 

Li o volume editado por Rosa Freire d´Aguiar sob o impacto do bombardeio de uma escola primária no Irã. Um dos contos é sobre a morte de uma menina de seis anos, também vítima de um bombardeio.

Esse é um caso em que preferiríamos que o mundo não obedecesse tão fielmente à arte.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 16 de março

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O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Passeando pela Espanha

Passeando pela Espanha

Novos conflitos, temor de alguns de que seja iminente a terceira guerra mundial, revelações sobre a rede de contatos de alto nível de um predador de mulheres, crianças e adolescentes: há uma sinistra intensidade no noticiário internacional ao longo das últimas semanas.

Parece ter sido há uma eternidade a alegria trazida por Lucas Pinheiro Braathen ao obter a primeira medalha em Jogos Olímpicos de Inverno não só para o Brasil, mas para a América do Sul e a América Latina. Dói acompanhar os desabamentos e alagamentos que vêm causando mortes na Zona da Mata, terra da minha mãe e com a qual me identifico, particularmente em Juiz de Fora, onde moram tantos primos.

A rápida sucessão de novidades acelera o tempo. Foi ontem, em dezembro, que minha filha anunciou, em Bruxelas, que vai se casar. Foi no Natal que ouvi a missa em Lisboa com um belo e inquietante sermão sobre as relações internacionais. Foi em janeiro que comemorei com minha mulher, no Rio, nossos aniversários. Mas a sensação é de que esses acontecimentos recentes ocorreram há anos.

No turbilhão cotidiano de notícias, terá talvez passado despercebido o falecimento aos 92 anos, agora em fevereiro, do escritor neerlandês Cees Nooteboom. Retirei da estante um de seus livros, Caminhos para Santiago, de 1992. Reler sobre suas andanças pela Espanha, considerei, levaria a mente para longe dos problemas da atualidade.

Não é um livro leve. Nooteboom não era guia de turismo. Era um intelectual interessado pela história, a  filosofia, a religião católica, as artes. Lá vai ele, de carro, atravessando a Espanha de lado a lado. Delicia-se com a ideia de visitar, em algum distrito isolado e desabitado, uma igreja românica, pouco conhecida, de difícil acesso. Quando o livro parece prestes a se tornar excessivamente melancólico, surge um pensamento inesperado, estimulante, jogado em frase curta, trazendo uma revelação.

Zurbarán, pintor de sua predileção, é querido por ele sobretudo pelos retratos de santos, monges e mártires. Sobre os trajes das figuras representadas nesses quadros, Cees Nooteboom afirma ser possível “ver como o tecido era sentido no toque”. Conheço várias dessas pinturas de Zurbarán. Presentes em muitos museus, elas revelam, pelo ascetismo, uma grande espiritualidade. A obra do artista de que mais gosto, porém, eu só vi uma vez, no Museu Norton Simon, em Pasadena, há mais de vinte anos: é a “Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa”, cuja reprodução em um livro me impressionava desde a infância, como conto em Geografia do tempo. Conhecer o original concretizou uma ambição de décadas.

Nooteboom nos fala de disputas entre príncipes irmãos no início da Idade Média; da ditadura franquista; de mortes atribuídas ao ETA, o grupo separatista basco; da bandidagem de Francisco Pizarro no Império Inca, de sua generosidade com Atahualpa, ao permitir que este morresse estrangulado, em vez de queimado na fogueira. Lembrei-me de uma frase de Voltaire: “todos os séculos se parecem pela maldade dos homens”.

Com o livro na mão, perguntei-me se fora uma boa ideia utilizá-lo como descanso da violência contemporânea. Encontrei nele próprio resposta à minha indagação. Nooteboom estava na Espanha quando, em 1986, morreu Jorge Luis Borges. Ele comenta que, durante a Segunda Guerra Mundial, em vez de acompanhar os jornais para saber como evoluía aquele conflito, Borges optou por ler Tácito e sua descrição de “uma guerra diferente, mais antiga”.

Velázquez é outro objeto da admiração do escritor, que examina ora seus últimos retratos de Felipe IV, ora um da rainha Mariana d´Áustria, ora Las Meninas, onde o personagem central é a filha desse casal de tio e sobrinha. Nooteboom registra o ar de fatalidade que emana, nessas telas, de Felipe IV no final de seu reinado, quando a Espanha cedera a primazia à França, perdera Portugal, e a quantidade de casamentos endogâmicos, para não dizer incestuosos, fazia pressentir o próximo fim da dinastia. Das crianças reais dependiam, ele aponta, “expansões territoriais, alianças, vastas extensões de terras” e “o destino de continentes”. Esperava-se “de seus corpos adolescentes que produzissem herdeiros do trono”. Eram “gado de pedigree a serviço do Estado”.

Esses são os pensamentos despertados no autor pelo retrato hierático da jovem Mariana, de ar infeliz, rainha desde que, aos quatorze anos, fora enviada da Áustria à Espanha para se casar com o tio trinta anos mais velho. Nooteboom se insere assim, de maneira heterodoxa, em uma tradição de estudo sobre a representação da realeza. Dois dias antes de eu puxar seu livro da prateleira, tornara-se imediatamente famosa a fotografia do irmão do rei da Inglaterra sendo retirado, no banco de trás de um automóvel, da delegacia de polícia onde fora interrogado por dez horas sobre sua relação com o predador no centro de uma rede internacional de influência econômica e poder político.

Pensei se a foto, de início mero registro documental, não se tornaria com o tempo uma espécie de obra de arte, vetora de uma nova visão da realeza; uma sucessora a repudiar seus antecedentes, aquelas esculturas e pinturas mostrando-nos versões idealizadas dos faraós egípcios, de Alexandre Magno, de Augusto, de Luís XIV. No dia seguinte, obtive a confirmação. Ativistas haviam afixado a imagem, emoldurada, a uma parede do Louvre, sacrossanto repositório da iconografia do poder.

Procurei a resenha publicada no Book World, suplemento literário, extinto este mês, do Washington Post que, em 1997, me fizera comprar o livro de Cees Nooteboom. Uma surpresa me esperava. Seu autor é Colm Tóibín, de quem eu acabara de ler, na véspera, o romance sobre Henry James. Havia algo natural nessa coincidência. A maldade dos homens é, na história do mundo, o dado seguro, o fator sempre presente. E no entanto, também é verdade que a arte e a literatura oferecem um contraponto constante, tornando a vida menos incompreensível.

Iluminam, de alguma forma, a escuridão.

Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 28 de fevereiro

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Fantasia de Carnaval

Fantasia de Carnaval

As recentes notícias sobre as demissões no jornal The Washington Post viajam o mundo. Um terço dos jornalistas demitidos, inclusive vários correspondentes internacionais. Seções inteiras eliminadas, como a de esportes e, do meu ponto de vista mais tragicamente, o caderno literário, Book World. A morte de um periódico de literatura sinaliza que o interesse por livros é considerado pouco relevante.

Na segunda metade da década de 1990, trabalhei em Washington. Foi meu primeiro posto. Assim que alugamos casa e nos instalamos, fazer uma assinatura do Washington Post foi prioridade. Ao encontrá-lo na soleira da porta, de manhã, considerávamos não estar apenas recolhendo um jornal; participávamos de um pedaço da história dos Estados Unidos e, por conseguinte, do mundo.

Era impossível não lembrar que aquele jornal defendera a democracia e o direito das pessoas à informação. Em 1971, lutara para publicar os “Pentagon Papers” sobre a Guerra do Vietnã e contribuíra para a eclosão, em 1972, do escândalo de Watergate, que levaria dois anos depois à renúncia de Richard Nixon. Durante nosso tempo em Washington, esses eram fatos relativamente recentes, de pouco mais de vinte anos. Watergate era muito presente na mente de todos. Lembro de ir uma noite a um compromisso social, por causa do meu trabalho, e de um conhecido, americano, me apontar um convidado, no outro lado do salão, e sussurrar: “Ele esteve envolvido em Watergate”.

Naturalmente, era aos domingos que o jornal chegava mais polpudo. Nesse dia, vinham inúmeros cadernos. Book World era o primeiro a receber minha atenção. Criado em 1972, fazia autoridade no meio literário e entre leitores. Na nossa biblioteca de mais de seis mil volumes, muitos foram comprados por causa de resenhas ali publicadas. Ler as do crítico Michael Dirda era um prazer especial. É possível encontrar, na internet, textos bem-humorados seus, publicados nos últimos anos, narrando suas experiências na redação do suplemento. 

Meu exemplar da autobiografia da então proprietária do jornal, Katharine Graham, Personal History, está inencontrável. Suponho que o livro, publicado em 1997 e ganhador de um Prêmio Pulitzer em 1998, esteja em uma das caixas até hoje não abertas, por falta de espaço, depois da última mudança, a do ano passado. Lembro que a autora conta como foi ter de passar a comandar um jornal, em uma época em que era raro, como aliás em todas as épocas e ainda hoje, ver mulheres em posições de poder.

Katharine Graham também fala no diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, casado com sua tia Elise Meyer, que foi embaixador na França durante a Segunda Guerra Mundial, e um dos dois únicos brasileiros reconhecidos como “Justo entre as Nações” — sendo a outra Aracy Guimarães Rosa. Souza Dantas é objeto de uma biografia pelo historiador Fábio Koifman, de 2002, Quixote nas trevas. O autor retrata os preconceitos dos colegas do embaixador, críticos de seu casamento em 1933 com Elise Meyer, por ela já não ser jovem. Depreende-se das fontes citadas que a fortuna da nova embaixatriz incomodava o Itamaraty.

Na ausência da autobiografia de Katharine Graham, contento-me com a de Ben Bradlee, A Good Life, de 1995. Editor do Washington Post de 1965 a 1991, Bradlee narra a ascensão do jornal à posição de um dos mais importantes do mundo, contribuindo para esse resultado o papel que desempenhou nas revelações de Watergate. Bradlee se pergunta qual teria sido, “exatamente”, o papel do Post. A resposta, explica, é que “a energia do jornal, e especialmente o talento e a persistência de Bob Woodward e Carl Bernstein, fixaram Watergate para sempre na história. Juntos, deixamos o assunto na agenda nacional. E assim, a arrogância e a imoralidade dos homens em volta de Richard Nixon ficaram gradualmente patentes”. Segundo Bradlee, durante o desenrolar da cobertura do escândalo, uma vez Katharine Graham lhe perguntou, com bastante propriedade: “se essa história é tão importante, cadê o resto da imprensa?”.

Bradlee nada fala, infelizmente, da criação do suplemento literário nem menciona seus editores. Criado no mesmo ano em que homens a mando da Casa Branca forçaram a porta, no edifício Watergate, do escritório do Comitê Nacional Democrata para espioná-lo, o Book World talvez tenha parecido ao editor um dado menor frente às circunstâncias políticas de então.

Enquanto eu, na minha inocência, mergulhava em Washington, contente, nas páginas do jornal e de seu caderno literário, o futuro assomava-se timidamente. A internet engatinhava. Em 1995, Jeff Bezos criava a página eletrônica da Amazon. De início, a empresa vendia apenas livros. Em 1996, lá fiz a minha primeira compra eletrônica, uma obra sobre a história cultural da Rússia. É mais tarde que a Amazon passa a fornecer martelo, areia de gato, roupa e liquidificador; basicamente, qualquer produto.

O oligarca americano possui hoje uma fortuna estimada em 250 bilhões de dólares. Em 2013, adquire o Washington Post; em 2026, demite a terça parte dos seus jornalistas. Nas páginas do Estado de Minas, o jornalista João Renato Faria mencionou outro dia a ironia de alguém fazer fortuna vendendo livros, e décadas depois eliminar o suplemento literário de seu jornal. O Estado de Minas preserva, aliás, o seu renomado caderno Pensar.

No Globo de domingo passado, Dorrit Harazim analisava as razões financeiras e políticas para a mutilação do grande jornal. Quanto a mim, eterno otimista, penso com alguma esperança em Book World. O caderno havia deixado de ser impresso anteriormente, em 2009, ainda na gestão do filho de Katharine Graham, continuando porém a existir na versão eletrônica, o que não acontecerá mais agora. Curiosamente, foi na mão de Jeff Bezos que ressurgiu como suplemento impresso, em 2022.

Quem sabe se, daqui a alguns anos, o Book World não voltará, de alguma maneira, permitindo fantasiar que os livros, afinal, não são apenas uma mercadoria dispensável.

 

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 14 de fevereiro

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Missa em Lisboa

Missa em Lisboa

Em Lisboa, no domingo 28 de dezembro, ouvi, no cenário mais improvável, uma análise sobre política internacional. Nesse dia, minha mulher e eu acompanhamos minha mãe à sua igreja preferida na capital portuguesa, no Chiado. Fomos à missa do meio-dia. Minha mãe nos prevenira que a frequentação é elegante. O comentário era destinado a mim, como uma mensagem codificada, porque ela sabe que ambientes excessivamente sociais me causam tédio. Podia ser tomado como uma recomendação, ou advertência, se quisermos, de que eu fosse tolerante e paciente e me comportasse bem. Mães são assim, nunca nos veem como adultos.

A observação materna permitiu que eu me preparasse com antecedência. De resto, este Natal foi particularmente reflexivo para mim, pois acompanhou-me o sentimento da incongruência entre a abundância e as trocas de presentes características da estação, para alguns, e a celebração do nascimento de alguém que viveu sem qualquer conforto material e foi morto de maneira tão cruel.

O domingo de inverno estava ensolarado, não havia no céu uma nuvem sequer, contrastando com o frio e as chuvas da véspera. A igreja lotou rapidamente. A atmosfera era de contemplação. Ali reinava o espírito religioso, não o desejo de ser visto. Há muitos anos eu não entrava naquele recinto lisboeta que foi, no passado, cômodo para mim, já que minha irmã morou durante décadas ali perto. Em termos arquitetônicos, é um belo exemplo de templo em estilo neoclássico, ainda com elementos barrocos, de fachada relativamente simples e interior marmóreo e imponente. A pintura no teto da nave representa a Anunciação.  

O sermão pegou-me de surpresa. De início, tudo pareceu transcorrer placidamente, dentro de parâmetros previsíveis e edificantes. Houve primeiro referência a uma família presente, na qual o pai e a mãe estavam comemorando cinquenta anos de casados. Perguntei-me se eu viveria tempo suficiente para comemorar o mesmo aniversário. A seguir, o Evangelho a que recorreu o padre como inspiração foi o de Mateus. Narrou a fuga para o Egito. Mencionou a maldade de Herodes, a sua soberba. Explicou como devem ser vistos Maria, José e o Menino Jesus no contexto da viagem ao Egito. Sem usar esta palavra, fez seu auditório pensar em refugiados. E então, mudando a entonação de voz, o padre causou um sobressalto. Declarou: “Eu não deveria, talvez, abordar temas políticos, mas não posso evitá-lo. Fico com o estômago embrulhado ao ver as coisas que acontecem hoje”. Os fiéis ouviam-no atentamente. Ao menos minha mulher, minha mãe e eu, com nosso interesse profissional despertado. Mas certamente não apenas nós. Havia na igreja, entre os ouvintes, como um silêncio de expectativa, bastante perceptível.

Continuou o padre o seu sermão: “Se não leram o recente documento americano de Estratégia de Segurança Nacional, recomendo que o façam. A Europa ocupa três páginas das trinta do texto. Somos chamados ali a implementar uma política de exclusão, em vez de uma política de inclusão. É a negação do espírito cristão que estão a nos exigir. Jesus não pregava o repúdio ao que é estrangeiro a nós”. Apenas a voz do pregador ressoava e, ocasionalmente, abafado, algum ruído de buzina ou motor vindo da rua. As palavras que nos chegavam de perto do altar-mor eram enunciadas em tom calmo, mas firme, seguro. Não havia drama nem teatralidade. Por isso mesmo, era uma oratória que capturava a atenção dos fiéis. Atento ao sermão, com o corpo dobrado para a frente de forma a ouvir melhor, permiti-me olhar à minha volta. Ninguém parecia surpreso ou desagradado. Afinal, se aquela numerosa congregação vai à missa naquela igreja e naquele horário é porque aprecia os sermões daquele padre.

Deduzi que um pároco com tamanha habilidade é bem capaz de promover conversões ou despertar vocações religiosas. Em todo caso, sua segurança e serenidade, a própria modéstia com que conduzia a missa estariam promovendo na plateia reflexões sobre temas de política externa a que muitos ali talvez fossem alheios no dia a dia. A voz continuava. Condenou a guerra na Palestina e a guerra na Ucrânia. Lembrou que Jesus gosta dos humildes, dos desvalidos, não necessariamente dos poderosos.

Depositei um bilhete no saquinho, durante a coleta. Ofereci o braço à minha mãe para que comungasse. Cumprimentamos o padre à porta da igreja. O dia continuava ensolarado e, ao nosso redor, na rua, a vida prosseguia, com os transeuntes bem agasalhados agitando-se em seus afazeres, felizes. Os frequentadores habituais daquela igreja se cumprimentavam afetuosamente na calçada. Tinham sabido guardar a sociabilidade para os momentos após a missa. Caminhamos os três em direção ao restaurante, ali mesmo no Chiado, onde minha irmã juntou-se a nós.

A internet, tantas vezes utilizada para ataques entre as pessoas, revelou-se uma vez mais, para mim, um instrumento educativo. Quis saber o nome do padre cujo sermão me surpreendera pelo conteúdo e me impressionara pelo calor humano. Levei apenas um ou dois minutos para colher a informação. Trata-se de um religioso conhecido pela intelectualidade, autor de livros e artigos. Notei que outro padre na mesma paróquia é, curiosamente, um primo distante pelo meu lado paterno.

O almoço foi delicioso, na pequena sala bem aquecida. Dava gosto estar ali. Bem mais tarde, à noite, três de nós embarcaríamos em um mesmo voo.

O Natal, os últimos dias de dezembro e a virada do ano formam sempre esse momento abençoado, fugaz mas tão belo, em que a humanidade parece apta a viver em paz. Passeando com minha mulher pelo Chiado, pela Baixa, pela Praça do Comércio, onde o sol, aquecendo-nos, ainda tudo iluminava, olhando as gaivotas sobrevoando o Tejo, caminhando depois ao longo do rio, íamos os dois conversando sobre a beleza de viver, de estar juntos ali, intercambiando sonhos simples para 2026.

E é o que desejo também para vocês, caros leitores e leitoras, um Feliz Ano Novo.  

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 3 de janeiro

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Minas e as formigas

Minas e as formigas

Os mineiros são um povo privilegiado, ao poder contar com a Universidade Federal de Minas Gerais. Alguns dos diplomatas brasileiros mais preparados e competentes que conheço nas novas gerações do Itamaraty lá estudaram. Para minha sorte, alguns já trabalharam comigo.

Pela editora da UFMG, lançou-se este ano o livro De Bonifácio a Amorim, de Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada naquela universidade. Antes de encomendar a obra, eu supusera que se trataria de uma história da política externa brasileira. Não tinha ainda tomado conhecimento do subtítulo: “Elementos de uma teoria social da política externa brasileira”.

Foi uma boa surpresa constatar que o enfoque adotado é diferente de uma análise histórica, porque a obra que será o texto clássico, nesta geração, sobre a história da política externa já existe — trata-se do estupendo livro do embaixador Rubens Ricupero, A diplomacia na construção do Brasil, de 2017, que mereceu no ano passado uma segunda edição.

Diferentes pontos de vista sobre a evolução da política externa brasileira serão sempre úteis e bem-vindos, e Dawisson Belém Lopes está plenamente preparado para um dia apresentar o seu, se assim quiser, mas a tarefa a que ele se dedicou em De Bonifácio a Amorim é outra e é igualmente importante. O autor do prefácio é justamente Rubens Ricupero e ele o inicia com a frase: “Originalidade é a impressão predominante de quem abre e folheia este livro”. Recolhi da leitura o mesmo sentimento.

É  uma análise sociológica da diplomacia brasileira e do Itamaraty o que nos propõe Dawisson Belém Lopes, e é daí que decorre o ineditismo de seu novo livro.

Discute o autor como a diplomacia brasileira tem-se adaptado, ao longo dos duzentos anos desde a Independência, para lidar com fatores internos e circunstâncias externas que provocaram, com maior ou menor sucesso, mudanças ou permanências no Itamaraty. É na Conclusão que encontro a definição mais clara do objetivo do livro, em frase colocada em itálico pelo próprio autor: pensar o bicentenário do Brasil a partir das raízes sociais de sua política exterior.

Cito um trecho que me parece ilustrar bem o sabor da singularidade do estudo de Belém Lopes: “Embora a fama meritocrática do Itamaraty não fosse infundada, dado seu histórico de recrutamento rigoroso e excelência profissional, a era pós-golpe [de 64] viu essa imagem ser manipulada para servir aos interesses do regime militar. O Ministério propalou imagem de neutralidade e eficiência burocrática para o mundo externo, o que ajudou a mascarar a natureza profundamente política de suas operações reestruturadas”.  

Um tema, sobretudo, o do elitismo e conservadorismo, serve para que o autor analise o longo processo de continuidades no Itamaraty. Em coluna anterior neste jornal, que intitulei “Um Brasil consciente e forte”, tratei de uma entrevista que meu pai conduziu, em 1970, com o senador e ex-chanceler Afonso Arinos, em que o político mineiro explicitava a frustração que experimentara ao chefiar o Itamaraty. “Só encontrei resistências, incompreensões e obstáculos às minhas ideias”, relatava Afonso Arinos, que enfrentou da parte dos diplomatas brasileiros, e apesar de suas impecáveis credenciais aristocráticas, obstinada oposição para implementar a chamada “Política Externa Independente”.

Na avaliação de Belém Lopes, há uma “interação entre interesses econômicos dominantes e a gestão diplomática”. Entende, por exemplo, que “Não se explica o comportamento histórico do Brasil na arena internacional, tampouco as orientações contemporâneas do Itamaraty ao chefe de Estado, sem recorrer à base econômica do poder nacional, responsável, ademais, por construir uma identidade de país exportador da periferia capitalista global”.

Em vários momentos de sua narrativa, Dawisson Belém Lopes insere “estudos de caso”, todos fascinantes, nos quais examina de maneira mais concreta até que ponto fatores domésticos podem afetar a formulação da política externa. Ao frisar nossa “identidade de país exportador de gêneros agrícolas”, importador de fertilizantes, sustenta que a resposta brasileira à guerra na Ucrânia seria “profundamente informada pelo desproporcional peso político da velha elite agrária”. Esse é um ponto em que não compartilho inteiramente de seu diagnóstico, pois vejo razões geopolíticas sólidas para embasar a posição brasileira tendente ao apaziguamento das tensões. O próprio autor matiza sua opinião ao comentar, corretamente, que o Brasil “vê a paz e a estabilidade como pré-requisitos para o desenvolvimento econômico e a prosperidade global”.  

Os “estudos de caso” criados pelo professor Belém Lopes, particularmente apropriados, permitem que ele se debruce de forma profunda e detalhada sobre determinado fato ou momento para iluminar aspectos da práxis externa brasileira. Gostei particularmente do estudo de caso referente ao BRICS, em que ele apresenta uma verdade fundamental, mas nem sempre assim percebida, sobre a história da política externa brasileira: “As mudanças de direção que houve, via de regra, resultaram de cálculo e determinantes estruturais, não de idiossincrasias e frivolidades”. Sua conclusão é de que termina geralmente por prevalecer, no caso brasileiro, um componente de neutralidade e não-alinhamento às superpotências e de universalismo diplomático do país.  

Se eu tivesse de fazer alguma crítica a uma obra de análise tão rica, oportuna e inovadora como a do professor Dawisson Belém Lopes, seria a de que, considerando ser a sua uma abordagem sociológica, ele poderia talvez ter investigado de maneira mais extensa as ramificações de dois outros temas que aborda, as questões de gênero e raça.

Ao final da leitura, fica a dúvida se o livro é elogioso ou crítico em relação ao Itamaraty. Ao refletir a respeito, chego à conclusão de que os admiradores e os detratores da diplomacia brasileira se sentirão igualmente justificados com essa obra, e nisso reside um de seus méritos. 

Para mim, como diplomata, foi uma curiosa sensação deparar-me com um estudo em que a instituição na qual se desenrola minha atividade profissional é observada e analisada com verdadeiro talento de entomologista.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 6 de dezembro

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O casamento em Berdichev, 8 de novembro

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O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

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Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

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Belém, capital do mundo

Belém, capital do mundo

“Belém é a cidade principal da Polinésia. Mandaram vir uma imigração de malaios e no vão das mangueiras nasceu Belém do Pará”. Assim brincava Mário de Andrade em maio de 1927, enquanto ia descobrindo a Amazônia com a riquíssima Olívia Guedes Penteado, a “Rainha do Café”, como ele diz, no que era então, para sulistas, uma viagem rara. Deslumbrou-se com a cidade. Fora a queixa do calor — calor também sentido, agora em novembro, pelos participantes da Conferência do Clima, a COP30 — todos os seus comentários são afetuosos: “Belém foi feita para mim e caibo nela que nem mão dentro de luva”. Depois de dois meses subindo os rios amazônicos, volta à capital do Pará no final de julho, no longo caminho de regresso a São Paulo. Suspira: “Belém gostosíssima, a milhor coisa do mundo”. No último dia, em 1º de agosto, resume: “nunca na minha vida encontrei uma cidade que me agradasse tanto” e “passei em Belém os melhores dias de minha vida, inesquecíveis”.

Garimpo as frases acima na mais recente edição de O turista aprendiz, de 2024, organizada por Flora Thomson-DeVeaux, que também traduziu para o inglês esse livrinho delicioso. O nosso poeta, um dos maiores intelectuais do país, foi ainda mais direto em uma carta a Manuel Bandeira de junho de 1927, enviada depois da primeira passagem por Belém. Escreve ao amigo: “Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim”. “Meu único ideal de agora em diante”, diz ele, “é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrasse em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí”.

Duas vezes estive em Belém. Na primeira, viajei de férias com minha irmã, quando éramos estudantes; na segunda, minha mulher e eu, ainda namorados e alunos do Instituto Rio Branco, fizemos uma viagem à Amazônia com os colegas, naquilo que era, naquela época, parte da formação na academia diplomática. Lembro bem do impacto sentido com a descida do rio Amazonas, de Manaus a Belém. É preciso viver essa experiência para ter a noção do que significa ser brasileiro, perceber a imensidão daquele rio e a imensidão do país. Como Mário de Andrade, também eu tomei ali pela primeira vez um sorvete de cupuaçu, na calçada, olhando para a fachada do Teatro da Paz.

Além de me fazer reler, em Luanda, O turista aprendiz, o noticiário sobre a COP30 me levou de volta a um filme de Bruno Murtinho, Amazônia Groove, lançado em 2018. Foi há dois anos que tomei conhecimento desse documentário sobre a variedade da produção musical no Pará. Querendo em 2023 realizar, pela primeira vez, um Festival de Cinema Brasileiro em Kuala Lumpur, decidi apresentar ao público malásio uma retrospectiva de Kleber Mendonça Filho. Tive a sorte de contar na Malásia com uma equipe excepcionalmente competente, inclusive meu colega Marcelo Hasunuma, que me ajudou a montar o Festival do zero, por ser uma iniciativa inédita. Foi ele quem me convenceu a incluir na programação, além de filmes do diretor recifense, também Amazônia Groove para inaugurar o Festival.

Na sessão de abertura, o convidado de honra foi o ministro de Turismo, Indústria Criativa e Artes Cênicas do estado de Sarawak, Abdul Karim bin Rahman Hamzah. Sarawak, situado na ilha de Bornéu, ocupa uma área equivalente à da Inglaterra. Produz 30% do petróleo malásio e preserva a maior cobertura de floresta nativa no país. Suas importações de produtos agropecuários são supervisionadas por serviços próprios, independentes dos da Malásia continental. Sentado ao meu lado, o ministro Abdul Karim viu na tela igarapés, a floresta, populações ribeirinhas, o Ver-O-Peso. Tomou conhecimento de estilos musicais como carimbó e tecnobrega. Ouviu o violão de Sebastião Tapajós tocar no Teatro da Paz e Dona Onete cantar “Banzeiro” em um barco. Em O turista acidental, leio que a palavra significa “movimento agitado das águas, quando o navio passa e deixa a esteira violando a mansidão do rio”.

Ao terminar o filme, o ministro virou-se para mim e exclamou, surpreso: “A Amazônia lembra demais Sarawak!”. Se eu tivesse relido Mário de Andrade antes do filme, teria citado a Abdul Karim a brincadeira de que Belém fora fundada por malaios. 

A realização da COP30 em Belém gerou críticas, por causa do custo da hospedagem. Não consigo imaginar, porém, onde mais, no Brasil, a reunião poderia ter acontecido, pelo peso simbólico daquela cidade, situada na vasta desembocadura do rio Amazonas. Como disse ao início da reunião o presidente Lula, nas duas semanas seguintes Belém seria “a capital do mundo”, ajudando a mostrar que a Amazônia é uma realidade, e não uma abstração.  

Mário de Andrade, então com 33 anos, conta que, em Porto Velho, explicou a um interlocutor local que ele e seus companheiros de viagem “éramos um grupo de amigos paulistas, curiosos de conhecer outros brasis, pela vaidade ou ventura de conhecer coisas”. Assim é nosso país, composto de tantos “brasis”, que apenas parcialmente conseguimos percebê-lo.

Como o poeta há cem anos, muitos dos 56 mil participantes da COP30 terão se apaixonado por Belém. Preparo estas palavras na reta final da Conferência, e os delegados estarão partindo quando elas forem impressas. Um primo mineiro, que participou na primeira semana, me escreve: “Gostei de Belém, gostei da COP. O saldo é positivo. No meu último dia, passeei um pouco pela cidade, foi ótimo. Talvez eu nunca tivesse ido lá se não fosse a COP”.

Afinal, uma conferência internacional serve também para isto: para revelar a multiplicidade de “brasis” não somente aos estrangeiros, mas também a nós brasileiros.

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 22 de novembro

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As pedras do Louvre

As pedras do Louvre

O roubo espetacular ocorrido no museu do Louvre no domingo 19 de outubro chama a atenção do mundo inteiro. Vejo várias razões para isso, a principal sendo que ele representa todos os seus pares. É o museu por excelência: o mais famoso, o maior em termos de espaço de exposição e o que mais visitantes recebe — nove milhões em 2024.

O filme Francofonia, de 2015, do diretor russo Aleksandr Sokurov, é uma divagação sobre o papel e a função dos museus. Muito naturalmente, é o Louvre o modelo utilizado. Sugere Sokurov, a meu ver corretamente, que o Louvre é o símbolo não somente de todos os museus, mas também da França em si. Não entendo o sentido do ditado “ir a Roma e não ver o papa”, pois já estive muitas vezes em Roma e nunca vi papa algum. Mas entenderia um ditado que soasse como “ir a Paris e não ver a Mona Lisa”, entendendo-se a Mona Lisa, aqui, como uma marca que englobaria o Louvre e ao mesmo tempo seus múltiplos tesouros, como o Escriba Sentado; a cabeça de Akhenaton; a Vênus de Milo; a Vitória de Samotrácia; o busto de Germânico — há mais de um nas salas romanas, eu tenho o meu predileto; o Escravo Morrendo, esculpido por Michelangelo; a Coroação de Napoleão por David; e todas as obras-primas das diferentes escolas de pintura.

Antigamente, décadas atrás, quando por exemplo eu era aluno universitário na London School of Economics, seria impensável eu ir de Londres a Paris, mesmo que apenas para o fim de semana, e não dar um pulo até o palácio-museu, para rever ao menos algumas das minhas peças prediletas. Hoje, visitá-lo tornou-se tarefa árdua, demonstração de persistência e resiliência. Já lá não vou há alguns anos. A fila de espera é longa e o museu, tentacular. Encontrar as obras de arte que procuramos é um exercício físico exaustivo e, às vezes, desesperador. Fiquei mais velho, mais sereno, menos influenciável esteticamente e o prazer de rever aquelas obras já é menos significativo, comparado ao esforço envolvido. Em 2019, escrevi uma crônica, A culpa foi da Mona Lisa, contando minha frustração ao não conseguir chegar até a galeria onde são exibidas pinturas do Rubens, porque a tela de Leonardo da Vinci que retrata, como eu dizia, “a florentina do sorriso misterioso”, estava temporariamente exposta ali, atraindo a multidão de sempre e criando caos.

Outra razão para o fascínio do público com o roubo é, certamente, o fato de que são joias os objetos roubados. É inexistente minha sensibilidade para joias. Vejo-as como um amálgama de pedras coloridas, sem valor intrínseco a não ser aquele a elas atribuído, ilogicamente, pelas pessoas em geral. Da mesma forma, a realeza sobrevive em alguns países pela esdrúxula crença de alguns de que determinada família seria, magicamente, superior e merecedora de preservar um privilégio hereditário.

A proveniência das joias roubadas e o local onde eram expostas contribuem para o interesse sobre o roubo de 19 de outubro. Pertenceram a Maria Luisa da Áustria, segunda mulher de Napoleão I e irmã querida da imperatriz Leopoldina; a Eugenia de Montijo, mulher de Napoleão III, último soberano que a França teve; e a Maria Amélia de Bourbon-Sicílias, mulher do rei Luís Filipe e tia da imperatriz Teresa Cristina. A combinação entre joias caras e origem real cria um elemento de fascínio popular. Quanto ao local de onde os objetos foram subtraídos, a Galerie d´Apollon, renovada no século XVII, é talvez o espaço mais luxuoso do museu. Seu arquiteto foi Louis Le Vau e o teto é, em parte, de autoria do pintor Charles Le Brun. Ambos trabalharam no Palácio de Versalhes. Duzentos anos depois, Delacroix contribuiu com uma das pinturas no teto.

Em Geografia do tempo (2024), no qual o Louvre é bem presente, menciono um pesadelo de Henry James a respeito da Galerie d´Apollon, em que era vítima de uma perseguição, na galeria, por “uma criatura, uma presença”. Como digo no meu livro, “o pesadelo, descrito em detalhe pelo escritor, é maçante, como costumam ser os sonhos alheios, mas tornou-se célebre, por pertencer a Henry James e por ter a Galerie d´Apollon como palco”.

A galeria, agora, virou cenário de um pesadelo bem real, em que as deficiências de segurança do palácio-museu ficaram escancaradas, apesar das declarações em contrário da ministra da Cultura, Rachida Dati. Ao defender o museu, tenta preservar a imagem do ministério que chefia, e também a sua própria. É candidata, como política de direita, à prefeitura de Paris, nas eleições municipais de março de 2026, para suceder à atual prefeita, de esquerda, Anne Hidalgo. A arguição no Senado da diretora do Louvre, Laurence des Cars, em 22 de outubro, demonstrou o alto grau de politização em torno às percepções sobre o roubo.

Fora o aspecto histórico, as joias roubadas valeriam 88 milhões de euros. Os ladrões certamente desmontarão as peças formadas pelas pedras coloridas, que serão vendidas de maneira individual. A não ser que a polícia consiga rapidamente prender os Arsène Lupin de carne e osso, os objetos de vaidade de duas imperatrizes e de uma rainha, os símbolos de um luxo ostentatório se perderão para sempre. Paradoxalmente, essas joias adquirirão a partir de agora um aspecto mítico, como o célebre e também desmontado “colar da rainha”, que Maria Antonieta nunca possuiu, nunca desejou, desprezou mesmo, mas que contribuiu para desonrá-la.

O detalhe pitoresco é a coroa da imperatriz Eugenia ter sido abandonada na rua pelos ladrões. Acharam-na pesada? Difícil de desmontar? De mau gosto? Leio que ela é constituída por 1.354 diamantes e 56 esmeraldas. É muita pedrinha.

A Galerie d´Apollon, local do crime, como a fotografei há alguns anos. Por uma das janelas do lado esquerdo entraram os ladrões

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 25 de outubro.

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O Sudeste Asiático e suas verdades

O Sudeste Asiático e suas verdades

Em maio, viajando de Angola ao Brasil, assisti no avião ao filme americano Crazy Rich Asians, dirigido por Jon M. Chu. Era a primeira vez que o revia desde 2018, ano de seu lançamento, quando minha mulher e eu o vimos em Brasília, no cinema.

No Brasil, o título foi traduzido para Podres de ricos, o que não me parece uma escolha feliz. Passa uma ideia de leviandade, enquanto que o filme, divertido e leve como é — pode ser entendido, por quem assim quiser, como uma versão moderna, transplantada para a Ásia, do conto da Cinderela — trata, subliminarmente, de um tema sério, a força econômica do Sudeste Asiático.  

O filme é extraído de um romance de Kevin Kwan, autor nascido em Singapura, como seus personagens; como seus personagens, de origem chinesa; e naturalizado americano. O verbete sobre ele na Wikipedia melindrará autores brasileiros. Recomendo que não o leiam, a não ser como exercício de masoquismo. Todos os livros de Kevin Kwan são campões de vendas; todos parecem destinados a virar filmes hollywoodianos. Tudo isso significa dinheiro, muito dinheiro. Significa sucesso, muito sucesso. 

Em 2018, minha mulher nunca havia viajado à Ásia; eu, por razões de trabalho, lá estivera algumas vezes, sobretudo desde 2016, mas não no Sudeste Asiático. Quando terminou a sessão, julgamos que Crazy Rich Asians, fora a questão do padrão de vida exorbitante da maioria dos personagens, nos provara, de uma maneira mais impactante do que qualquer livro sobre economia ou relações internacionais conseguiria, a realidade sabida mas nunca antes tão fortemente visualizada do dinamismo do Sudeste Asiático. Presenciáramos no cinema a firme evolução daquela região como um dos centros mundiais do poder econômico e comercial.

Um detalhe sutil chamou minha atenção já em 2018. Trata-se de um filme americano, distribuído por estúdio americano, mas onde os personagens ocidentais são figurantes que transitam pela tela de relance. Se olharmos um segundo para o balde de pipoca no nosso colo, perderemos os raros momentos em que a câmera os mostrou rapidamente. Os ocidentais, nas cenas em Singapura, são apenas prestadores de serviço para os asiáticos. Não participam da trama.

Somente na primeira cena do filme, em Londres, cerca de vinte anos antes da ação principal, figuras ocidentais aparecem e têm falas próprias. Isso acontece, porém, para mostrar o seu ridículo. Empregados brancos e mesquinhos de um hotel destratam e humilham, por preconceito racial, a bilionária singapurense que lá deseja se hospedar. Na mesma hora, de Singapura, o marido compra o estabelecimento para vingar a mulher. A bilionária, que mais tarde se tornará a sogra em potencial da heroína e também sua antagonista, é interpretada pela cativante atriz malásia Michelle Yeoh. Por trás do humor da cena, esse momento inicial é profundamente político e carregado de simbologia. Ilustra a ascensão da Ásia e a decadência do Ocidente.

Ao assistir a Crazy Rich Asians em 2018, minha mulher e eu não sabíamos ainda que, no ano seguinte, pediríamos para trabalhar no Sudeste Asiático, ela em Singapura e eu em Kuala Lumpur, e que chegaríamos aos dois postos no início de 2020. Rever o filme no avião, em maio de 2025, depois de cinco anos na Malásia, de onde eu partira apenas três meses antes, proporcionou uma experiência mais rica. 

Em diferentes momentos dos meus cinco anos no Sudeste Asiático conversei, na Malásia e em Singapura, com ao menos quatro dos atores de Crazy Rich Asians. Inclusive, em 2023, com a própria Michelle Yeoh, quando visitou Kuala Lumpur depois de ganhar seu Oscar. Ao rever o filme, percebi sotaques, formas de falar, expressões corporais que observei muitas vezes nos dois países.

No avião, reconheci locações. É uma história singapurense, mas muitos cenários de filmagem se encontram na verdade na Malásia. Como exemplo, direi que o “bar em Nova York” onde o casal protagonista decide viajar a Singapura é na verdade um restaurante em Kuala Lumpur, em frente ao prédio onde morei. Em uma coluna nestas páginas, Tempos de incerteza, escrita ainda em Kuala Lumpur, mencionei que, em um sábado de janeiro, eu fizera uma palestra intitulada “BRICS e ASEAN: Liderança Global de Brasil e Malásia em Tempos de Incerteza”. Cheguei ao instituto onde aconteceria minha apresentação vindo diretamente desse restaurante, onde almocei tantas vezes.

Assistindo ao filme, que é uma sátira, achamos graça nos excessos dos bilionários asiáticos. As risadas tornam fácil obliterar as verdades políticas, comerciais e econômicas que ele escancara. Por mais que seja repetida, é naturalmente difícil para brasileiros que nunca estiveram no Sudeste Asiático assimilar esta verdade: alguns dos países da região, notadamente Singapura e Malásia, são hoje destinos mais importantes para as exportações do Brasil do que a maioria dos países da União Europeia ou da América do Sul. Politicamente, é no Sudeste Asiático que é sentido mais nitidamente o sentimento de rivalidade dos Estados Unidos em relação à China.

Foi um privilégio trabalhar, até poucos meses atrás, para o estreitamento dos laços entre o Brasil e a Malásia e a Associação de Nações do Sudeste Asiático, a ASEAN. O ano de 2024 foi particularmente rico para esse fim e sobre isso já falei aqui mesmo no Estado de Minas, em O ponto de inflexão.

A Malásia é hoje uma nação próspera, prestes a se tornar um país de alta renda e que compartilha muitas das posições defendidas pelo Brasil. É esse o país que o presidente Lula descobrirá ao desembarcar em Kuala Lumpur, no final de outubro, para ser o primeiro chefe de Estado brasileiro a participar de uma cúpula da ASEAN. Um país onde o Brasil é hoje particularmente querido e admirado.

A Mansão azul, em Penang, Malásia, cenário do jogo de mahjong em Singapura entre sogra e nora

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 11 de outubro.

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Cem anos na Ásia do Leste

Cem anos na Ásia do Leste

Aldeia de Qing Xin Ling, perto de Ipoh

Em março de 2020, quando eu acabara de chegar à Malásia, a Covid-19 me fez presenciar um fenômeno: a multiplicidade de identidades.

Cidadãos brasileiros, nascidos no Brasil, onde moravam suas famílias, mas que residiam, por opção, na Itália, procuraram a embaixada em Kuala Lumpur. A pandemia capturara-os passeando pela Ásia. Voos para a Itália tornavam-se escassos; as passagens eram vendidas a preços proibitivos.

Queriam ser incluídos no voo de repatriação de brasileiros. Tinham, porém, deixado seus passaportes brasileiros na Itália. Viajavam apenas com os documentos italianos. A embaixada brasileira forneceu-lhes novos passaportes.

Pouco depois, souberam que haveria voo de repatriação para a Itália. Embora não gratuito como o brasileiro, era financeiramente mais acessível do que o comercial. Mesmo conferindo precedência novamente à sua identidade italiana, voltaram a procurar, mais de uma vez, nossa embaixada, para obter informações, por exemplo, de como podiam se submeter a teste de COVID-19, condição para a viagem no voo oferecido pelo governo italiano. Deduzo que a embaixada que eu chefiava era a mais amistosa das duas.

Sou imune aos conflitos – ou, se quiserem, às potencialidades – criados pela posse de nacionalidades múltiplas. Minha mulher e eu detemos apenas o passaporte brasileiro, por considerá-lo suficiente.

A leitura de um livro sobre a China lançado este ano me fez lembrar as inquietações desses compatriotas. Recebi-o de um amigo malásio, Liew Chin Tong, vice-ministro de Investimentos, Comércio e Indústria. Político respeitado, intelectual admirado, Liew Chin Tong fez visita de trabalho a Brasília e ao Rio de Janeiro em maio de 2024. Era a sua primeira viagem ao Brasil. No Rio, entre uma reunião e outra, quis conhecer a Biblioteca Nacional.

Há três meses, ao passar por Kuala Lumpur depois da minha palestra em Singapura sobre Roberto Burle Marx, experiência de que tratei nestas páginas em O espaço do diplomata, almocei com Liew Chin Tong, ocasião em que ele me ofereceu o livro.

A obra, do historiador Wang Gungwu, intitulada Roads to Chinese Modernity: Civilisation and National Culture, coleção de ensaios seus dos últimos anos, trata de vários temas. O principal é a análise dos desafios que se apresentam à China neste início de século XXI. Talvez eu comente em uma próxima coluna o tratamento do assunto por Wang Gungwu. Abordo hoje apenas o capítulo final, “Aceitando minhas múltiplas identidades”. Seu objetivo é analisar o que significa ser de origem chinesa mas cidadão de outros países, sobretudo no Sudeste Asiático.

Nascido de pais chineses em 1930 em Surabaya, no que era então as Índias Orientais Neerlandesas e hoje é a Indonésia, Wang Gungwu cresceu na cidade de Ipoh, no estado malásio de Perak, protetorado britânico. Sua escola era inglesa; os professores, “britânicos, indianos, cingaleses, chineses e malaios”. Em casa, falava-se mandarim. Amigos chineses comunicavam-se em cantonês, hakka e hokkien, sendo cantonês a língua franca. A ocupação japonesa na Península Malaia, de 1941 a 1945, foi, cabe lembrar, particularmente cruel para a população de origem chinesa.

Os estudos universitários iniciaram-se em 1947 em Nanjing, onde ele percebeu que os ensinamentos de seu pai em literatura clássica chinesa se contrapunham “à identidade moderna” dos colegas. A Guerra Civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista forçou-o a abandonar a China e voltar para Ipoh depois de um ano e meio. O conflito armado e ideológico fez com que perdesse “todo senso de identidade com a nova China”, por sentir-se crítico em relação aos dois lados.

Seu passaporte até então era o da República da China. Ao voltar a Perak, o pai o convenceu a se tornar cidadão da Federação Malaia, ainda uma colônia britânica. Os estudos universitários prosseguiram na Universidade Malaia, no campus de Singapura. Obteve o doutorado na Universidade de Londres. Regressando ao que pouco depois se tornaria a Malásia, lecionou na Universidade Malaia, no campus de Kuala Lumpur. “Possuir mais de uma identidade parecia normal”, comenta, e “ser malásio não me libertava da identidade como chinês”. Uma frase chama minha atenção: “o status legal conferido pela cidadania e o passaporte não captura as muitas camadas de identidade que todos possuem”.

Seu interesse maior como historiador é o estudo da diáspora chinesa, cerca de 60 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Sentia-se restringido intelectualmente na Malásia, onde livros chineses contemporâneos eram proibidos. Havia tensões étnicas entre os malaios e os malásios de origem chinesa, exemplificadas de maneira dramática pela expulsão de Singapura da Malásia em 1965 e os violentos motins de 1969 em Kuala Lumpur, “the riots”, citados ainda hoje como uma página soturna na história do país.

Em 1968, Wang Gungwu e sua família mudaram-se para Camberra, onde ele lecionaria na Universidade Nacional Australiana. Adquiriu a nacionalidade australiana, por duas razões: a boa adaptação de seus filhos no novo país e a liberdade acadêmica. Em 1986, mudou-se por dez anos para Hong Kong, como vice-reitor da universidade. Desde 1996, mora em Singapura, onde trabalha no Instituto de Ásia do Leste, ligado à Universidade Nacional.

O historiador é modesto sobre sua carreira acadêmica, durante a qual ocupou posições prestigiosas. Manifesta apreço por Singapura, que considera uma das cidades verdadeiramente globais e multiculturais; mas nunca adquiriu a nacionalidade do país. Termina o livro dizendo: “estou feliz sendo um chinês pelo nascimento, admiro o êxito de Singapura e me sinto confortável tendo uma visão de mundo formada pelo fato de ser oriundo do Sudeste Asiático”.

Wang Gungwu, de quem tomei conhecimento graças ao presente do amigo malásio, passou a simbolizar para mim as impressionantes mutações políticas, militares, econômicas e sociais experimentadas pela Ásia do Leste nos últimos cem anos. Cresceu em meio a essas mutações. Resiliente, pode agora nos ajudar a pensar a respeito.

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 27 de setembro.

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O delírio do Chimborazo

O delírio do Chimborazo

Abro a biografia de João Cabral de Melo Neto escrita por Ivan Marques, publicada em 2021, para reler o capítulo sobre a sua experiência no Equador, onde foi embaixador de 1979 a 1981. Vinte anos depois, minha família e eu também moraríamos em Quito. Para minha mulher e para mim, foi o nosso segundo posto na carreira diplomática.

Nenhuma experiência humana pode ser replicada. O Equador do poeta pernambucano não foi o nosso. Mas o livro de Ivan Marques, verdadeiro modelo de como deve ser o estudo biográfico sobre um autor, me transporta à época em que lá vivi.

O centenário de nascimento, em 2020, foi profícuo para a memória de João Cabral, falecido aos 79 anos em outubro de 1999. Ao escrever isso, noto que meu pai morrera apenas um mês antes, embora bem mais jovem.

Além da biografia de Ivan Marques, houve pelo menos, no período do centenário, a “Fotobiografia” de 2021, organizada por Eucanaã Ferraz e coordenada por Valéria Lamego; e uma edição da obra integral, “Poesia completa”, lançada pela Alfaguara em 2020, com prefácio de Antonio Carlos Secchin.

Temos os três livros em casa. No início de 2022, reabertas as fronteiras na Malásia depois de dois anos de pandemia, eu os encomendei a um colega, diplomata mineiro que vinha trabalhar na embaixada em Kuala Lumpur. Selecionei também, entre outros, “Copo vazio”, de Natalia Timerman, “O som do rugido da onça”, de Micheliny Verunschk, e “O castiçal florentino”, de Paulo Henriques Britto, sobre o qual eu viria a escrever um ensaio, que publiquei no “Estado da Arte”.

Falta na nossa biblioteca a edição bilíngue, editada pela embaixada em Quito em 2020, quando João Almino lá era embaixador, dos dez poemas cabralinos sobre o Equador contidos em “Viver nos Andes”, seção do livro “Agrestes”, de 1985.

Na edição da Alfaguara, são vários os poemas, alguns inéditos, a mencionar o Chimborazo, imenso vulcão dormente, ponto no mundo mais distante do centro da Terra. Em três deles, há menção a Simón Bolívar.

O Libertador, que subiu a montanha em 1822, escreveu um poema em prosa, “Mi delirio sobre el Chimborazo”. O texto é mistura de postulado político e experiência metafísica. Há trechos bonitos, como este conselho — péssimo, a meu ver: “não escondas os segredos que o céu te revelou: diz a verdade aos homens”. A neve é um “imenso diamante que me servia de leito”. Termina o poema, que podemos tomar como a descrição de um transe, com os versos: “abro com minhas próprias mãos as pálpebras pesadas: volto a ser homem, e escrevo o meu delírio”.

Em “Bolívar e o Chimborazo”, João Cabral explica que “Bolívar viu no Chimborazo todo o enorme de sua missão”. Mas, de maneira muito característica da secura do nosso poeta, contrapõe-se em outro poema, “Sem retórica”, à noção de que o vulcão inspira grandiloquência; estima ser o Chimborazo “apenas geologia”, cuja altura “nenhuma grandeza anuncia”.

Trabalhei três anos e meio no Equador; visitei o páramo do Cotopaxi, a quase cinco mil metros de altitude; mas nunca subi às alturas do Chimborazo. O trajeto de 200 quilômetros pelos Andes, desde Quito, dura quase quatro horas. Nossa filha era pequena, não viajava confortavelmente, e isso restringiu os passeios pelo país. E no entanto, sou fascinado com o vulcão desde a infância, quando morávamos em Montevidéu e minha mãe viajou a Quito para uma reunião. Voltou trazendo-nos um livro sobre o Equador, de 1970. O autor era Arturo Eichler, nascido na Alemanha e, exilado do nazismo, naturalizado equatoriano.

As fotos revelavam uma vida distante, misteriosa. Eichler deixou fama como um dos primeiros conservacionistas ambientais, e a obra, registro de suas andanças pelo país de adoção, em estilo de romance de aventuras, focaliza a belíssima natureza equatoriana. Um dos capítulos narra sua ascensão ao Chimborazo em 1947. O prefácio é de Alfredo Pareja Diezcanseco, intelectual que seria mais tarde chanceler, no período em que João Cabral de Melo Neto foi embaixador em Quito; é, por isso, citado na biografia de Ivan Marques.

Para as crianças que nós éramos, o mais surpreendente era a capa, de cores intensas, desenhada por Oswaldo Guayasamín, mostrando plantas tropicais. Bem no centro está, límpido, azul, com o cone branco, um vulcão. Acarinhei-me ao livro. Guardo-o até hoje, com suas páginas já tão desgastadas. Na infância, eu não podia prever que um dia trabalharia em Quito, conheceria a família Guayasamín e passaria anos desejando conduzir o carro ao Chimborazo.

Um dia, no Equador, revelei à fotógrafa Marcela García essa antiga aspiração. Ela então me disse: “Quando meu avô comprou uma fazenda, no começo do século XX, o contrato especificava: ´Incluye el cerro´. O morro assim mencionado na escritura de posse da terra era o Chimborazo”. Pareceu-me extraordinário que um particular pudesse ter sido dono do maior dos vulcões equatorianos; julguei a história digna de ser contada em meu livro “Geografia do tempo”.

O Chimborazo, que o poeta-diplomata considera ser “só capaz de ensinar silêncio” e viver em “uma imensa espera”, simboliza todos os lugares cobiçados e que não conheci até hoje: Pantanal, Ceará, Porto Seguro, Hong Kong, Luang Prabang, Castel del Monte, Iasnaia Poliana. A lista é, na verdade, bastante longa. Forma uma geografia própria, fustigada pelo tempo, cada vez mais inalcançável.

Os anos passam, e os sonhos se eternizam. O vulcão serviu de inspiração grandiosa para Bolívar e monumental para João Cabral. De maneira bem mais simples, eu gostaria apenas de pegar um avião, satisfazer a ambição da infância, ver o Chimborazo e, diante de sua imponência, acreditar na noção de eternidade da Terra. Pensar na beleza do mundo e viver assim o meu delírio.

Esta coluna foi publicada no Estado de Minas ontem, 13 de setembro.

Para ler minhas colunas anteriores no Estado de Minas, clique nos links abaixo:

O diplomata robô, 30 de agosto

Botas diplomáticas, 17 de agosto

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Cenários do poder, 5 de julho

Memória diplomática, 21 de junho

Batuque na cozinha, 7 de junho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

Retrato de família, 10 de maio

Benção apostólica, 26 de abril

O presente malásio, 12 de abril

Eterna cobiça, 29 de março

Grandes diplomatas, 15 de março

Consternação europeia, 1º de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

Tempos de incerteza, 1º de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro  

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