O encontro de Avignon

O encontro de Avignon

No último sábado de agosto, Esther reapareceu em minha vida. Ela possui a capacidade de se materializar assim, quando eu menos espero. Esbarrei nela na Livraria da Travessa de Ipanema, enquanto eu procurava a antologia bilíngue de poemas de Primo Levi, Mil sóis.

Fiquei mudo de surpresa. Nós nos conhecemos em julho de 2011, no Festival de Avignon. Penso nela com frequência e vinha querendo restabelecer contato, pois cada encontro me transporta para uma esfera superior. Nunca imaginei que ela, uma estrangeira, estivesse logo ali, tão perto, que eu fosse revê-la de repente em uma famosa livraria de Ipanema. Simples assim, e ao mesmo tempo inconcebível.

Quando primeiro a vi, eu estava passando uns dias em Aix-en-Provence. Costumo, quando vou a Aix em julho, ir a Avignon por algumas horas. A atmosfera nas duas cidades, no verão, não poderia ser mais diferente. O Festival de Aix, dedicado à Ópera, cria uma agitação comedida, erudita. O Festival de Avignon, voltado para o teatro, com centenas, se não milhares de produções fora da programação oficial, lota a ex-capital dos Papas com uma multidão variada, barulhenta e muitas vezes divertida. As pequenas companhias de teatro desfilam pelas ruas, divulgando as suas peças, com os atores vestindo os trajes usados nos palcos. A programação oficial costuma ter um caráter intelectual, mas as produções no “off” variam enormemente em qualidade e público-alvo. Há peças inteligentes contemporâneas, recriações de grandes clássicos (Molière e Tchekhov são recorrentes) e comédias banais. Gosto, por um dia, de fugir da serenidade de Aix e frequentar a balbúrdia de Avignon, indo de teatro em teatro, vendo quatro ou cinco peças curtas em poucas horas, em salas pequenas.

Meu primeiro encontro com Esther foi inesperado, marcante e inesquecível. Transformou a forma como vejo o mundo. Nunca mais deixei de pensar nela.

Naquele dia de verão, ao chegar a Avignon de manhã e pegar um exemplar do programa do Festival, que contém sempre centenas de páginas, notei uma produção intitulada “Etty Hillesum: l’espace intime du monde”. O nome nada me dizia, mas a descrição da peça era fascinante: tratava-se de um monólogo interpretado por uma jovem atriz, Sandrine Chauveau, que em cerca de uma hora recriava trechos do Diário de Etty Hillesum, holandesa, judia, que morava em Amsterdã e foi deportada e morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Uma crítica incluída no programa do Festival dizia que “no final da peça o público precisa superar a emoção antes de sair da sala, porque a experiência dessa vida nos toca a todos”. O comentário era piegas, mas intrigante.

Comprei meu ingresso. Entrei. O auditório era pequeno, mas as poltronas vermelhas confortáveis. Começou o monólogo. Víamos a atriz andar no palco, pelo cenário, “vivendo” Etty Hillesum. O texto era intenso. A jovem dirigia-se a Deus, a ele buscava. Ouvíamos sua narração de como a perseguição aos judeus holandeses, durante a ocupação alemã, ia gradualmente se agravando. Etty mantinha a coragem e o amor à vida. Sabíamos como aquilo terminaria, mas não víamos desespero na personagem. Uma frase, particularmente, foi dita com grande efeito pela atriz: “Deus, não é você que tem de nos ajudar, nós é que temos de ajudá-lo a nos ajudar”. Quando saí do teatro, uma hora depois, eu estava meditativo. Nenhuma das outras peças que vi em Avignon naquele dia marcou-me tanto. Acabo de verificar que a última produção a que assisti foi de três peças curtas, divertidas, de Tchekhov. Era uma montagem excelente, lembro-me bem agora, e aquela que é talvez a sua peça curta mais famosa, O Urso, estava incluída. O que ficou na minha memória para sempre, porém, foi esse meu primeiro contato com Esther Hillesum — a quem todos chamavam Etty — embora eu nem sequer soubesse quem ela era até poucas horas antes.

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Às vezes acontece de uma pessoa ou um livro de cuja existência não estávamos cientes começar a aparecer frente a nós por toda parte. Poucas semanas depois de Avignon, em Bruxelas onde eu então trabalhava, visitei o ateliê de um artista plástico belga, Fabrice Samyn. Durante a conversa, ele citou Etty Hillesum. Tirou da estante uma edição em francês do Diário, que folheei ali mesmo. Meu interesse por Esther ficou assim cristalizado, para usar um conceito stendhaliano.

O que vi na Livraria da Travessa, no último sábado de agosto, foi uma nova tradução para o português dos diários, lançada pela Editora Âyiné. Trata-se da versão reduzida, intitulada Uma vida interrompida, a primeira a ser publicada, em 1981, na Holanda, que inclui algumas cartas de Etty Hillesum. Essa versão é a mais difundida. O texto completo publicou-se em holandês pela primeira vez em 1986, e foi traduzido para o inglês em 2002, o francês em 2008, o alemão em 2014, e nunca para o português.

A tradução de Mariângela Guimarães para a Editora Âyiné, feita diretamente do holandês, é construída em português correto e elegante. Passa toda a intensidade daquela vida curta e dramática. Começa-se a lê-la e não se consegue parar.

O Diário começa em 9 de março de 1941, com as palavras: “Então vamos lá! Este é um momento doloroso e quase intransponível para mim: confiar meu coração inibido a um tolo pedaço de papel pautado”. Termina em 13 de outubro de 1942, com a frase: “Gostaria de ser um bálsamo para tantas dores”. Nesse período curto de um ano e meio, Esther viu o mundo ao seu redor modificar-se, tornar-se ainda mais sombrio. De agosto a setembro de 1942, ela permaneceu, voluntariamente, no campo de triagem de Westerbork, na Holanda, para prestar ajuda aos judeus prestes a serem deportados. A partir de setembro, doente, voltou por alguns meses a Amsterdã. Ao regressar a Westerbork, podia no início, e até junho de 1943, ir a Amsterdã ocasionalmente. Em setembro de 1943, ela, seus pais e um de seus irmãos foram deportados para Auschwitz. Etty morreu no campo de concentração em novembro, sem que saibamos se de doença, de fome, de exaustão ou na câmara de gás.

A leitura do Diário é uma experiência espiritual. Ou ao menos, a alma que o escreveu era intensa e impregnada de misticismo. Ela esclarece já nas primeiras páginas, em 15 de março de 1941: “O ódio não é da minha natureza”. Na sua opinião, basta haver “um alemão decente” que, por respeito a ele, “o povo alemão não pode ser odiado como um todo”. São numerosos os pensamentos que demonstram rejeição à dor moral, à raiva, à mágoa. Ciente do “grande sofrimento humano, que se acumula e se acumula” e do “enorme sadismo” de sua época, Etty continua a considerar a vida como algo “bondoso e misericordioso”. Fala no “pedacinho de eternidade que as pessoas trazem em si”.

O Diário é o veículo para uma constante autoanálise. Ela frequentava, aliás, um psicoquirólogo, Julius Spier, alemão, judeu, refugiado na Holanda. O tratamento que ele oferecia incluía luta corporal e leitura da palma da mão. Soa, aos ouvidos de hoje, como charlatanismo, mas aparentemente ele exercia grande influência sobre seus pacientes. Os dois desenvolveram uma relação afetiva — ao menos da parte dela; Spier tinha uma noiva que emigrara para a Inglaterra. A morte inesperada do psicoquirólogo, em setembro de 1942, causou nela grande sofrimento, mas nem isso foi suficiente para abalar sua coragem. Poucas horas depois, ela já pensa nele nestes termos: “Você buscou Deus em toda parte, em cada coração humano que se abria para você — e foram tantos — e por toda parte você encontrou um pedacinho de Deus”.

Consistentemente, Etty valoriza os pequenos prazeres do cotidiano, sabendo que mesmo esses, um dia, ela não mais terá. Um dos trechos mais poéticos é a descrição de um passeio que faz, em março de 1942, com um amigo e ex-namorado, Max. Ela resume o encontro da seguinte maneira: “Foram indescritivelmente belos, Max, nossa xícara de café e o cigarro ruim, e nossa caminhada pela cidade escura, de braços dados, e o fato de que andávamos ali os dois juntos”. Percebe a alegria que pode haver em um reencontro, na transformação de um amor de juventude em amizade, e diz: “Foi indescritivelmente belo. Que nesse mundo dilacerado e ameaçado coisas assim ainda sejam possíveis. É um grande consolo”.

Etty fala frequentemente em flores, descreve-as com devoção e admiração. Parece ver nelas uma referência à fragilidade de sua própria vida ameaçada, e também a tudo que pode haver de belo, satisfatório. Um dia, observa a beleza de um jasmim branco, mergulhado na luz do sol e pelo qual passa a brisa: “Como é possível, meu Deus, ele está ali prensado entre o muro sem pintura dos vizinhos de trás e a garagem. Entre aquele cinza e aquele lodoso escuro, ele fica tão radiante, tão imaculado, tão exuberante e tão delicado, uma jovem noiva imprudente, perdida num bairro pobre”. Dez dias depois, a planta perdeu as flores, mas Etty sente que, dentro dela, o jasmim floresce ainda, “imperturbável, tão exuberante e delicado como sempre floresceu”.

Livros ocupam espaço importante em sua vida. Ela deseja ser escritora, e um tema recorrente nos diários é o debate interno sobre se tem talento, se conseguirá escrever, sobre a dificuldade de colocar o que sente no papel. Espera que algumas vítimas daquele momento na História, ao sobreviverem, escrevam sobre a terrível experiência vivida; ela deseja ser um dos futuros narradores. De Westerbork, escreve a uma amiga que gostaria de poder anotar ideias para histórias que surgem em sua mente de noite, deitada na escuridão forçada. Percebe ser excessivamente exigente consigo mesma no campo literário, sente-se obrigada a, no mínimo, escrever um novo Os Irmãos Karamazov. Etty Hillesum falava russo; sua mãe aliás nascera na Rússia. Dostoievski é um autor recorrente em seu Diário. Uma hora, percebe que só poderá levar consigo poucos livros, ao ser deportada. Pensa em uma lista sucinta, e O Idiota, de que ela já nos falara várias vezes antes, está incluído. Rilke é outro autor de sua predileção, ao qual se refere a cada instante. Avalia que um verso seu é mais real do que a vida cotidiana. A mala para o campo de concentração teria de incluir também a Bíblia e dois dicionários de russo. Em outro momento, acrescenta à lista planejada os contos populares de Tolstoi.

Há forte contraste, nos diários, entre o que acontece na vida interior de Etty — suas indagações sobre a relação com Julius Spier e com os amigos; suas leituras; a associação com as flores; o diálogo com Deus; a sensação de liberdade obtida com a visão do céu — e a tragédia da vida ao seu redor. Em 12 de junho de 1942, escreve estar “mergulhada em algo que acontece no meu íntimo”. Dois dias depois, comenta: “E agora parece que os judeus não podem mais entrar nas grandes lojas; e devem entregar as bicicletas; e não podem mais andar de bonde; e têm que se recolher antes das oito da noite”. Em julho de 1943, já definitivamente internada em Westerbork, ela descreve em uma carta a vida no campo de triagem como equivalente à de ratos em um esgoto. No entanto continua a mesma carta dizendo: “esta vida é algo lindo e grandioso, temos de construir um mundo inteiramente novo no futuro e contra cada delito, cada atrocidade a mais temos um pouquinho de amor e bondade a mais para compensar, que temos de conquistar em nós mesmos”.

Há relatos de que, em Westerbork, Etty foi de fato um bálsamo — como ambicionara — para os internados no campo. Um amigo, Jopie Vleeschhouwer, acompanhou-a até o trem em que ela e sua família partiriam para Auschwitz e a morte. Menciona que, a caminho do trem, ela foi “falando alegremente, rindo, uma palavra simpática para todo mundo que cruzava seu caminho, cheia de um humor cintilante”.

E assim termina Uma vida interrompida, com o trem partindo rumo ao campo de concentração e a carta do amigo de Etty narrando seus últimos momentos em Westerbork. Morta, ela continua bem presente para os que a leem, graças a uma intensidade e uma sinceridade muito peculiares. Seu Diário, suas cartas são a sua obra; não são os romances ou contos que ela poderia ter escrito, mas a história dos últimos meses de vida de uma mulher jovem eliminada pelo Holocausto. É uma voz individual. Sinto o quanto eu gostaria que essa voz, com sua lição de força interior e elevação espiritual, pudesse ser ouvida por mais pessoas. Ela certamente é bem menos lida do que Anne Frank, quinze anos sua caçula. Terão as duas jamais se visto nas ruas de Amsterdã? Não é impossível.

Em agosto, saí da Livraria da Travessa carregando os dois volumes, ambos publicados em 2019: os diários da holandesa que morreu em Auschwitz, e os poemas do italiano que sobreviveu fisicamente a Auschwitz. Na antologia poética de Primo Levi pela Editora Todavia, onde os poemas foram escolhidos e belissimamente traduzidos por Maurício Santana Dias, há versos que se referem a Anne Frank mas poderiam também, com alguma imaginação, aplicar-se a Esther, a quem conheci em Avignon e nunca pude esquecer. No poema A menina de Pompeia, Primo Levi fala-nos de uma menina petrificada pela erupção do Vesúvio no tão distante ano de 79, cuja presença física ficou eternizada como um “retorcido decalque de gesso”. E diz:

Mas nada entre nós permanece de sua irmã distante,
Da menina de Holanda murada entre quatro paredes
Que ali mesmo escreveu sua infância sem futuro:
Suas cinzas mudas se dispersaram no vento,
Sua vida breve encerrou-se num caderno gasto.

 

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(Este ensaio foi publicado primeiro, em 29 de novembro, na revista literária São Paulo Review)  

 

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Três Anúncios para um Crime – Martin McDonagh

Três Anúncios para um Crime – Martin McDonagh

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Em outubro de 2017, a caminho do Cazaquistão e da Índia  – aonde eu viajava a trabalho – mudei de avião no aeroporto de Heathrow. O voo Rio-Londres havia sido desconfortável e seriam muitas horas de espera pela conexão a Astana. Felizmente, encontrei uma filial da livraria WHSmith. Lá comprei três livros, dos quais este:

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Em histórias escritas nos anos 50, Flannery O´Connor nos mostra personagens que vivem – em geral, mas nem sempre – em um ambiente rural no sul dos Estados Unidos, oprimidos por preconceitos, pouca liberdade emocional, princípios religiosos mal compreendidos e um futuro financeiro sempre incerto. No voo noturno da Air Astana em direção ao Cazaquistão, li dois ou três dos contos, inclusive o que dá seu título à coleção, um dos mais violentos. Terei lido algum adicional, poucos dias depois, no longo trajeto de Astana a Nova Delhi – longo por incluir baldeação, de madrugada, em Almaty – e no voo que me trouxe, da Índia, de regresso ao Brasil.

O livro viajou bastante depois disso, pois esteve em Curitiba com a minha mulher e, no momento, está em Bruxelas com minha filha. Em fevereiro de 2018, em casa, em Brasília, li os contos restantes.

Poucos dias após ter terminado o livro de Flannery O´Connor, fui ao cinema assistir a Três Anúncios para um Crime, filme escrito e dirigido por Martin McDonagh. Saí com a sensação de ter estado, durante duas horas, em um conto de A Good Man is Hard to Find. A associação com o livro foi notada por alguns críticos. Li que, em uma das primeiras cenas do filme, quando a personagem principal, Mildred Hayes – em uma interpretação fabulosa de Frances McDormand, que lhe valeu o Oscar de melhor atriz – entra em um escritório, outro personagem, Red Welby (interpretado por Caleb Landry Jones), está lendo justamente A Good Man is Hard to Find. Confesso que não notei isso ao ver o filme mas, em minha defesa,  o livro é mostrado de forma tão rápida na cena, que se pestanejarmos perdemos a referência ou homenagem do roteirista-diretor à escritora.

Buscando, na Internet, alguma foto que comprovasse a presença física do volume de Flannery O´Connor no filme, encontrei isto no blog First Impressions, Notes on Films and Culture:

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Trata-se, portanto, desta edição, de 1977:

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Pela primeira vez em muitos anos, consegui assistir nos últimos meses a quase todos os candidatos ao Oscar de melhor filme. E esta era uma safra particularmente boa. Nenhum candidato ao prêmio, porém, me causou impacto tão grande quanto Três Anúncios para um Crime, com a possível exceção, por razões diferentes, de Trama Fantasma, o filme sobre as neuroses de um relacionamento a dois dirigido por Paul Thomas Anderson.

Quando Três Anúncios para um Crime começa, Mildred Hayes está de luto. Sua filha, Angela, foi estuprada, assassinada e queimada sete meses antes, sem que a polícia tenha conseguido encontrar o culpado, ou talvez sequer se esforçado para isso. Mildred tem a ideia de pagar anúncios em três painéis inutilizados no meio do campo, à beira de uma estrada por onde ela circula todos os dias, a caminho de casa. O cartazes financiados por Mildred, em sua visita ao escritório de Red Welby, responsável pela publicidade nos painéis da estrada, são altamente acusatórios contra o xerife da cidadezinha de Ebbing, Bill Willoughby, interpretado por Woody Harrelson, que foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por esse papel. Os cartazes dizem, sucessivamente, em letras garrafais: “Estuprada enquanto morria”, “E ainda nenhuma prisão”, “Como é possível, xerife Willoughby?”.

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A partir desse momento, o filme ganha sua lógica própria e não quero estragar o prazer de quem porventura não o viu ainda. Basta dizer que os cartazes financiados por Mildred trarão à tona a verdade presente dentro da alma dos habitantes de Ebbing, Missouri. Mostrarão seu pior lado o padre, o dentista, o médico e vários policiais, entre eles o racista principal do lugarejo, Jason Dixon, em uma magnífica interpretação de Sam Rockwell, ganhador por esse papel do Oscar de melhor ator coadjuvante. A própria Mildred nos revelará aspectos terríveis de sua personalidade, e comete vários atos condenáveis, e ao menos um crime – que não é um assassinato, mas quase provoca uma morte.

Poucas semanas antes da cerimônia de entrega dos Oscars, houve críticas de que o filme trataria de maneira apenas casual o racismo de alguns personagens, sobretudo o exercitado pelo policial interpretado por Sam Rockwell. Isso representa um erro grave de análise, ou talvez uma tentativa de diminuir as chances de o longa-metragem de Martin McDonagh ganhar o prêmio de melhor filme, que ele de fato não ganhou. Este não é um filme sobre o racismo, o machismo ou os maus tratos a minorias, embora esses sejam temas abordados. Não é um filme que deseja com que nos sintamos bem ao final e, por isso, não é a história de uma mulher enlutada, de nobres sentimentos, cuja persistência traz a justiça sobre a Terra. Como os contos de Flannery O´Connor, este é um filme sobre a mediocridade do ser humano e o desejo de uma comunidade de seguir adiante sem grandes preocupações morais ou intelectuais. O assassinato de Angela marca a coletividade, mas a reação de sua mãe, que não aceita mais ser tratada de forma condescendente, é um choque inaceitável para os demais. O padre revela-se pouco cristão (ele diz a Mildred: ” se você não tivesse parado de ir à igreja, talvez tivesse mais compreensão para com os sentimentos dos outros” – e tiraria os cartazes); o dentista, descumpridor da ética no exercício da profissão; e o policial, uma autoridade que usa violência física para abusar de seu pequeno poder.

Na segunda metade do filme, acompanhamos mudanças no caráter do policial de Sam Rockwell e alguns críticos falaram em “redenção”, o que é outro equívoco, ou ao menos uma simplificação. Vemos, isto sim, seu personagem tomar consciência da própria mediocridade – exacerbada até para os padrões locais – e do quanto isto o prejudica, nos planos pessoal e profissional.

Haveria muito a dizer sobre esta obra-prima, onde todos os elementos – trilha sonora, cenário, figurino, roteiro, interpretações – criam um conjunto harmônico e de grande impacto emocional sobre o espectador. Apesar de seus defeitos, Mildred Hayes nos cativa, por seu espírito destemido, sua luta contra o espírito acomodado que reina em Ebbing, sua tentativa de seguir vivendo apesar da dor. Três Anúncios para um Crime marcará sobretudo quem já sofreu perdas violentas, incompreensíveis. O que Mildred faz, tentar garantir que o responsável pelo seu luto seja punido, todos em sua situação já pensamos em fazer.

Se Três Anúncios para um Crime me fizesse pensar em um conto específico de A Good Man is Hard to Find, seria o intitulado The Displaced Person, de longe o mais longo, em que uma proprietária rural no sul dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, acolhe uma família – pai, mãe, filho e filha adolescentes – de imigrantes poloneses. O chefe de família vem para trabalhar como empregado na fazenda. A ironia do conto é que o polonês, embora deslocado de seu país de origem, é perfeitamente focado, funcional e competente. Sua patroa e outro casal branco que trabalha na propriedade são “deslocados” emocional e intelectualmente. Há um par de empregados negros, que aparecem para ilustrar o racismo dos demais personagens, e um padre católico que, ao contrário do padre do filme de Martin McDonagh, é boníssimo.

O filme me fez pensar também em outra obra literária, o diário de Etty Hillesum, a holandesa judia morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Em 2011, no “off” do Festival de teatro de Avignon, vi um monólogo notável, escrito e interpretado por Sandrine Chauveau. O espetáculo era todo montado com frases extraídas das cartas e dos diários de Etty Hillesum. A cena mais forte era quando esta dizia, referindo-se a Deus: “Não é você que tem de nos ajudar; cabe a nós ajudar você”.

A ideia de Deus, de fato, aparece na cena mais bela do filme de Martin McDonagh. Mildred, desanimada, sentada frente a um de seus três cartazes, no meio do campo, vê aproximar-se um cervo, tão solitário quanto ela, com o qual estabelece uma forma de diálogo – os cínicos dirão tratar-se de um monólogo. Mildred lamenta o fato de ninguém ter ainda sido preso pelo assassinato de sua filha e indaga como isso é possível: ” ‘Cause there ain’t no God and the whole world’s empty, and it doesn’t matter what we do to each other? I hope not. ” O conceito – sobre o qual Mildred especula mas que prefere descartar – de que ao renunciar a Deus o ser humano não possui mais freios em seus atos –  é puro Dostoiévski.

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Mildred chega a especular se o cervo seria a reencarnação de Angela, mas tem de aceitar a realidade: “you’re pretty but you ain’t her… She got killed. Now she’s dead forever”.

Um personagem do filme reflete visão mais positiva da humanidade. Trata-se do filho de Mildred, Robbie, interpretado por Lucas Hedges, ator que pode também ser visto em Lady Bird. Robbie tenta sobreviver à morte da irmã, à separação dos pais, aos conflitos entre eles e à animosidade que os cartazes colocados pela mãe despertam na cidade, inclusive entre seus colegas de escola. É um observador maduro, equilibrado, quieto, das falhas das pessoas ao seu redor.

Saí do cinema feliz de ser carioca e de não ter nascido em Ebbing, Missouri, com seu racismo, machismo, violência, ignorância e mediocridade. A cidade, de resto, não existe e Três Anúncios para um Crime foi filmado na Carolina do Norte, em uma cidade de 3.000 habitantes chamada Sylva. Duas semanas depois, a execução de Marielle Franco em uma rua do Estácio derrotou minha complacência e tive de aceitar esta realidade: Ebbing, Missouri é todo agrupamento humano, e seus habitantes somos nós e nossos vizinhos. Essa é a força do filme.

Três Anúncios para um Crime – ficha técnica

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