Museu de Arte Islâmica, Doha

Em minha viagem à Índia, fiz escala em Doha, onde meditei sobre o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan, a forma como ele canta Full Moon and Empty Arms  e se Alfred de Musset tinha ou não razão em achar que a lua cheia, vista sobre uma torre, se parece a um pingo no “i”. Houve também tempo suficiente para eu conhecer o extraordinário Museu de Arte Islâmica.

Como salientou Alexander Sokurov em seu Francofonia, os grandes museus – e o Louvre, objeto do seu ensaio filmado, é provavelmente o mais famoso e maior dos museus – passam a simbolizar a cidade onde se situam e se tornam os depositários da arte, da história, da civilização, da própria vida humana.

Esse é o caso do Museu de Arte Islâmica, conhecido como MIA (acrônimo de seu nome em inglês), obra do arquiteto I.M. Pei – o mesmo, cabe recordar, da pirâmide do Louvre – e inaugurado em 2008.

O edifício, inspirado na arquitetura islâmica tradicional e que, por parecer emergir do mar, faz-me pensar também em um palazzo veneziano, é, em si, uma obra-prima:

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Vejam agora o interior, mais especificamente o café (no último andar, há também um restaurante do Alain Ducasse):

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A coleção, compacta, é extremamente variada, as peças são, muitas delas, excepcionais, e o museu tem o claro propósito de preservar uma civilização. Um painel, que me arrependo de não ter fotografado, avisa que o MIA pretende oferecer um panorama sobre “as diferentes culturas que formaram a civilização islâmica”.

Fiz a visita usando a câmera do celular profusamente… Não há restrição à fotografia. Depois de um certo tempo, dei-me conta de que estava favorecendo peças onde a escrita tem um lugar importante. Hábito de apreço por textos ou fascínio pela arte da caligrafia?

Vejam o exemplo abaixo, um Alcorão chinês do século XVII:

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O museu possui numerosos manuscritos, muitos antiquíssimos, onde a junção da imagem e do texto forma obras de arte de uma beleza impenetrável.

Às vezes, a simples escrita produz um impacto forte, como no belíssimo manuscrito abaixo do Alcorão, da Península Arábica, do século VII ou do começo do século VIII, portanto talvez contemporâneo de Maomé, na escrita hijazi. Podemos imaginar a fé do escriba, as condições em que produziu o texto, talvez seu orgulho com a beleza da sua caligrafia.

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Quando eu era estudante em Londres, frequentava assiduamente a National Gallery e passei muitas tardes nas salas dos primitivos italianos, pelos quais sentia na época forte atração. Vendo os quadros de temática religiosa de Cimabue, Duccio e seus contemporâneos, eu me perguntava até que ponto eles eram acessíveis aos turistas orientais. Eu mesmo – embora criado em um ambiente cultural católico e ocidental – ia ao museu, frequentemente, com meu exemplar do Dictionary of Subjects and Symbols in Art, de James Hall, debaixo do braço, para ler sobre conceitos misteriosos como a Transfiguração, bem menos claros para mim do que para pintores italianos do século XIII.

Hoje, quando visito exposições ou coleções de arte oriental ou arte islâmica, tenho consciência de só estar captando parte da mensagem ou mesmo da beleza de cada obra. De museu em museu, porém, o grau de conhecimento – ou ao menos de curiosidade – vai aumentando. Com toda manifestação artística é assim: quanto mais se vê, mais se aprende e mais se quer saber.

As duas jarras abaixo, por exemplo, não criam questionamentos. São belíssimas em sua simplicidade, oriundas do Iraque e feitas no século VIII ou no século IX. Podem ser admiradas sem indagações filosóficas.

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Outros objetos, embora mais elaborados, podem, como os jarros, ser admirados apenas pela sua beleza, como o galo de bronze abaixo, folheado a ouro, espanhol, dos séculos X ou XI,  que provém de uma fonte:

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O falcão abaixo, indiano do século XVII, é uma das peças famosas do museu, por causa de seu luxo absurdo: é feito de ouro, esmalte, rubis, esmeraldas, diamantes, safiras e ônix. Trata-se de uma jóia, que provocará cobiça em alguns, mas certamente não dúvidas existenciais. Vê-lo em Doha faz algum sentido, por causa da obsessão no Catar com os falcões, transformados em animais domésticos e símbolos de status. Há toda uma ala do souq, em Doha, voltada à venda de falcões, que possuem lá mesmo o seu próprio hospital.

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Há mais poesia nesta cabeça de uma estátua iraniana do século XII:

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O  azulejo abaixo coloca algum grau de questionamento. É turco ou sírio, do século XVI. Fiquei intrigado com o tom de azul, que a foto não reproduz corretamente. Também surpreendentes são os desenhos. Quão usual é esse modelo? Simboliza algo ou é apenas  tirado da imaginação individual do artista?

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Com os manuscritos, a impenetrabilidade aumenta. Abaixo, vejam uma página do livro As Maravilhas da Criação e Curiosidades da Existência, escrito no século XIII, conhecido como a Cosmografia de Qazwini, do nome de seu autor. O MIA se orgulha de possuir o que é, provavelmente, o exemplar mais antigo ainda disponível (quatro páginas estavam expostas). A Biblioteca Digital Mundial informa ser esse “um dos livros mais conhecidos do mundo islâmico”. Coloquei um  filtro na foto, para tornar mais nítidos os detalhes da aquarela:

A pintura abaixo, ostensivamente, não apresenta mistérios. Seu título é O Mestre em Luta Livre Desafiado pelo seu Discípulo, o artista é Mahmud Muzahhib, de Bukhara, no Uzbequistão, e a obra é datada de 1560-1561. A plaquinha do museu nada mais diz a não ser que os materiais utilizados são tinta, aquarela e ouro em papel.

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Tentei vários filtros, nenhum torna os rostos mais nítidos, mas está claro que o vencedor foi o Mestre. O homem sendo levantado ao ar é mais jovem do que o outro. O Mestre foi desafiado por um discípulo e venceu.

Uma parábola sobre a arrogância da juventude e a sabedoria dos mais velhos? Certamente. Uma pesquisa na Internet, porém, revelou mais detalhes. A pintura foi leiloada em 4 de outubro de 2012 (quando, suponho, o MIA a comprou) pela Christie´s de Londres e o catálogo com informações sobre a obra ainda está na sua página eletrônica. A estimativa de preço era entre 100.000 e 150.000 libras esterlinas; a pintura foi vendida por 181.250 libras. Informa a Christie´s: “This miniature illustrates one of the best known stories from the Gulistan of Sa’di, (bab 1 hikayat 27)”. O Golestan (“Jardim de Rosas“), escrito por Sadi no século XIII, é talvez o livro em prosa mais importante da literatura persa. Em abril, em Teerã, eu visitei o Palácio de Golestan e fiquei me perguntando se o nome do Palácio é uma referência não só aos seus jardins, mas também ao livro.

Continuemos com a transcrição que o catálogo da Christie´s faz do conto sobre o mestre em luta livre no Golestan (resumo a estória): um grande mestre em luta livre conhecia 360 truques, dos quais ensinou 359 ao seu discípulo predileto, por quem tinha “uma particular afeição”. Graças ao aprendizado com seu mestre, o aluno tornou-se altamente hábil em luta livre, a ponto de declarar-se tão capaz quanto ele. O rei, chocado com a pretensão do discípulo, ordenou que eles disputassem uma luta, que o mestre venceu graças ao único truque que não ensinara. O aluno declarou-se injustiçado, por não ter recebido esse ensinamento do mestre, ao que este retrucou que fizera bem em não compartilhar todo o seu conhecimento, citando a seguir um poema: “Ou a fidelidade não existe neste mundo ou ninguém a pratica mais, pois todos aqueles a quem ensinei tiro com arco e flecha, em algum momento me tomaram como alvo”.

Sobre a pintura abaixo, indiana de 1595 e intitulada Um Poeta Sendo Descartado por um Príncipe (‘spurned’, na versão em inglês da placa no museu; o verbo pode ser traduzido também como ‘desprezado’ ou ‘rejeitado’), nada encontrei na Internet, e a mensagem subjacente à cena é obscura: a frieza dos poderosos frente às artes, a inocência sendo derrotada pelas artimanhas do poder ou uma estória de amor mal-sucedida? Devemos supor que um destino não muito bom espera a eloquente figura humana sendo retirada do cenário no canto inferior direito, mas o quê: a morte, a miséria, o exílio, penas de amor? A escrita na pintura deve elucidar tudo isso, e esta é a ilustração de algum conto ou poema conhecido no mundo islâmico, contido na coletânea (diwan) de poesia de Amir Shahi, mas para mim permanece o mistério.

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Prefiro terminar este passeio pelas coleções do MIA com uma pintura indiana do século XVI que apresenta uma visão mais serena da vida, sem conflitos ou rivalidades:

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A cena representa dois músicos sentados baixo uma árvore florida. Esperemos que pertencessem a uma corte ilustrada, onde houvesse espaço para que vários músicos  fossem valorizados e pudessem mostrar seu talento, sem intrigas ou competições.

Ao sair do museu, ao anoitecer, vi a seguinte imagem, tão serena quanto a dos músicos, embora povoada de vida; e com ela encerro:

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2 comentários sobre “Museu de Arte Islâmica, Doha

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