Em uma manhã de primavera, libertei 200 pássaros em Rawalpindi.

O sol brilhava e o gesto, que pouco dinheiro me custou, deu sequência a uma linha de pensamento sobre a História e a fragilidade dos impérios e do poder. Isso aconteceu na semana passada quando, em Islamabad a trabalho, fui levado a Rawalpindi, cidade de 3 milhões de habitantes vizinha  da capital.

Para o longo trajeto de avião até Islamabad, eu levara isto:

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Eu lera uma crítica positiva sobre o livro no ano passado e estava decidido a comprá-lo quando, surpreendentemente, ganhei-o de presente de Natal de um amigo indiano, poeta de renome. Lembrei-me da amiga psicanalista que parecia ler todos os meus pensamentos mas, como naquele caso, não era a demonstração de um poder de adivinhação da minha mente, e sim de amizade e da capacidade de entender como penso e por quê me interesso.

Natwar Singh, diplomata, hoje com 85 anos, teve uma carreira ilustre: foi Ministro das Relações Exteriores de 2004 a 2005 e parlamentar. Aristocrata, casou-se com a filha de um Marajá. O livro é uma coleção de artigos publicados por ele entre 2011 e 2012 no jornal Mail Today. São textos curtos, de três páginas em média, que ilustram a sua vida pessoal e profissional. O que salta aos olhos, na leitura, é de um lado a competência e o dinamismo da diplomacia indiana desde a Independência e, de outro, a capacidade do velho Embaixador de fazer amigos nas mais diferentes esferas. Sua longevidade na vida pública deveu-se à ligação com a família de Jawaharlal Nehru, particularmente com as duas irmãs do Primeiro-Ministro e, posteriormente, com sua filha, a também Primeira-Ministra Indira Gandhi, de quem foi próximo. O elo manteve-se com Rajiv Gandhi e sua viúva, Sonia Gandhi, embora eu tenha lido em outras fontes haver agora distanciamento entre Singh e a família política mais longeva e poderosa da Índia.

Natwar Singh fala dos Presidentes, Primeiros-Ministros e outros políticos que conheceu. Vemos desfilar, nas sucessivas anedotas, entre outros, Fidel Castro, Nelson Mandela, Vladimir Putin, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Indira Gandhi, Rajiv e Sonia Gandhi, Lord Mountbatten, Yasser Arafat, Haile Selassie, a viúva de Zulfikar Ali Bhutto, Nusrat Bhutto,  e o homem que garantira a execução de seu marido, Zia-ul-Haq. A foto na capa do livro representa o Imperador da Etiópia, Haile Selassie, e a Imperatriz  – e também os leões de estimação do casal imperial, que participavam das cerimônias de apresentação de credenciais dos Embaixadores, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, e que explicam o título da obra. Cada capítulo revela algo da personalidade do retratado e também do autor, em tom bem-humorado.

Natwar Singh é fascinado com Indira Gandhi; trabalhou com ela por cinco anos. Minha anedota preferida talvez seja a que relata visita da Primeira-Ministra ao Afeganistão, em 1969. Com algumas horas vagas na programação oficial, Indira Gandhi decide fazer passeio de carro pelos arredores de Cabul. Na estrada, vê em uma colina árida um canto verde e descobre que naquele local está o túmulo do primeiro Imperador Mughal da Índia, Babur, descendente de Tamerlão e morto em 1530. No Brasil, Babur é, se tanto, um nome, mas como todo fundador de império, sua memória é viva no território – o Subcontinente indiano – onde implantou sua dinastia; foi trisavô do Imperador construtor do Taj Mahal, Shah Jahan. Entende-se assim a emoção de Indira Gandhi, que decide visitar o túmulo, acompanhada de Natwar Singh. Vi fotos na Internet que mostram ser o local, hoje, bem cuidado. Em 1969, o jardim tinha virado um matagal. A comitiva da Primeira-Ministra demora para achar o túmulo. Indira Gandhi fica em silêncio, contemplando o lugar onde repousa o ilustre Imperador, e então comenta: “Tivemos nosso encontro com a História”. Natwar Singh, sem pestanejar, declara então a ela: “Eu tive dois; ver o túmulo de Babur é um acontecimento histórico, mas fazê-lo na companhia de Indira Gandhi é em si um segundo momento histórico”.

Outra anedota reveladora é a que descreve a visita em 2005 de Sonia Gandhi, Presidente do Partido do Congresso, a São Petersburgo, acompanhada por Natwar Singh, então Ministro das Relações Exteriores. Sonia Gandhi levara o Partido do Congresso a ganhar as eleições gerais no ano anterior e só não se tornara Primeira-Ministra por que não quisera, tendo escolhido Manmohan Singh para ocupar o cargo. Estava, portanto, no auge de seu poder e prestígio. Ela e Natwar Singh fazem passeio de barco pelo Golfo da Finlândia, em uma bela manhã de junho. Vladimir Putin os acompanha. Escreve o autor: “A informalidade afável e o ambiente descontraído eram uma alegria”. Indagado por Putin há quanto tempo conhece a família Nehru-Gandhi, Natwar Singh responde modestamente que desde 1944 – portanto antes mesmo da Independência da Índia.

Desembarquei em Islamabad pensando nas figuras poderosas descritas por Singh e nos seus destinos. No meu primeiro dia na cidade, em um intervalo no trabalho, fui à livraria principal, Saeed Book Bank:

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A livraria é um paraíso, onde é possível encontrar enorme bibliografia sobre a história, a economia, a vida política, as relações internacionais, a vida cotidiana do Paquistão, da Índia e de Bangladesh – país que eu visitaria logo após minha passagem por Islamabad:

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Comprei estes livros:

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O livro de Oriana Fallaci é uma coletânea de algumas de suas mais famosas entrevistas, feitas nas décadas de 60, 70 e 80, quando sua islamofobia não era ainda tão evidente e ela podia ser admirada pela coragem em fazer com que os poderosos se revelassem ingenuamente.

Uma coisa marcante no livro é o escancarado machismo de vários dos entrevistados masculinos. Declara o Xá do Irã, Reza Pahlavi, em 1973: “As mulheres só são importantes na vida de um homem se são bonitas e encantadoras […] as mulheres não são iguais aos homens em termos de habilidade […] vocês nunca nem sequer produziram um grande chef”. A partir daí, o Rei dos Reis perde todo auto-controle e fulmina: “As mulheres, quando governam, são muito mais cruéis e sedentas de sangue do que o homens. Vocês são o Mal, todas vocês”.

Zulfikar Ali Bhutto, em 1972, passa boa parte do tempo em sua entrevista a Falacci defendendo-se de ter tido qualquer participação na violência ocasionada pelo processo de independência de Bangladesh em relação ao Paquistão, concluído no ano anterior. De repente, deixa-se levar pela vaidade e afirma ser, apesar de suas duas mulheres legítimas, um “romântico”, claramente confundindo promiscuidade sexual com romantismo. Declara: “Não dá para ser um político sem ser um romântico. E como romântico, creio não haver nada mais inspirador do que um caso de amor. Não há nada de errado em se apaixonar e conquistar o coração de uma mulher. E dá para se apaixonar cem vezes. Mas eu sou um homem muito, muito moral”.

A entrevista mais famosa de todas talvez seja a de Henry Kissinger, também de 1972, considerada um modelo de como o entrevistador pode fazer com que o entrevistado faça revelações que não desejava fazer. Declara Kissinger, então divorciado: “Quando estou com garotas, sei o que devo fazer com garotas […] As mulheres não são uma preocupação central para mim. Elas são uma distração, um hobby. Ninguém passa muito tempo com seus hobbies”. 

Golda Meir e Indira Gandhi saem-se com louvor de suas respectivas entrevistas. Ao lê-las, sentimos admiração por elas. A de Indira Gandhi, porém, foi feita dois anos antes de ela decretar o Estado de Emergência na Índia, que prejudicou de forma duradoura a sua imagem.

Muitos dos entrevistados nessa coletânea foram assassinados, executados ou exilados, o que já é uma observação sobre a transitoriedade e os riscos do poder. Comentei sobre isso com um amigo, que opinou: “Muitas dessas entrevistas foram feitas com líderes de países em desenvolvimento, no contexto da Guerra Fria. As instituições nesses países eram ainda frágeis e submetidas às evoluções da situação internacional”. É uma boa explicação, mas a primeiríssima entrevista na coletânea é com um futuro assassinado que não se enquadra nesse contexto, Robert Kennedy.

Voltemos a Rawalpindi. Já que eu fora levado à cidade, pedi para visitar o parque onde, em 2007, realizou-se o último comício de Benazir Bhutto, que voltara do exílio há apenas dois meses. Ao sair do comício, Benazir Bhutto foi assassinada em um atentado suicida. O parque é denominado Liaquat Bagh, em homenagem ao Primeiro-MInistro paquistanês Liaquat Ali Khan, também  ali assassinado, em 1951.

No parque, filmei a seguinte cena:

Eu sabia que, ao sair do parque em Rawalpindi, seria levado a outra localidade próxima, Taxila, onde em 326 a. C. Alexandre o Grande fora homenageado pelo Rei local, em sua passagem pelo Norte da Índia e do que hoje é o Paquistão. Tirei a primeira foto neste texto nas ruínas de Taxila. Minha postagem sobre Os Bragança de Chandor, Goa, India termina com o comentário de que a Índia é “desde sempre objeto das cobiças e devaneios alheios”. Ao escrever essa frase, era também em Alexandre que eu pensava.

O que fora Alexandre fazer em Taxila? Terá visto a mesma paisagem que lá vi?

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Que compulsão sentia Alexandre em movimentar seu exército sem cessar, levando-o uma hora ao Egito, outra à Pérsia, outra à Índia, como alguns apenas levantam as peças no tabuleiro de xadrez? Que propósito essa hiperatividade cumpria? No Paquistão, fiquei me perguntando se suas conquistas teriam tido algum objetivo econômico, que pudesse justificá-las. Encontrei esta resenha, publicada em janeiro na Bryn Mawr Classical Review sobre um livro intitulado The Treasures of Alexander the Great. Livro e resenha aniquilam qualquer ilusão de que a epopéia de Alexandre tenha tido um objetivo econômico ou uma consequência nessa área.

Aos 7 ou 8 anos de idade, recebi de presente de meus pais uma biografia de Alexandre, que li avidamente e onde vi pela primeira vez o nome Taxila, sem imaginar que um dia lá iria:

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Na infância, é possível que eu admirasse as proezas de Alexandre. Hoje, vejo-o como mais um personagem vão, egoísta e cruel, que gostava de brincar de guerra e via os seres humanos como mero instrumento para atingir sua inútil ambição. Admito que foi mais bem-sucedido, como ambicioso, do que a maioria, pois seu nome parece destinado a perdurar na eternidade.

Encostado em uma árvore em Liaquat Bagh, pensei na ilusão dos poderosos, que sistematicamente acreditam na sua importância e na perpetuação de seus projetos, seu nome, sua dinastia, seu regime político. Pensei em Alexandre, em Tamerlão, em Babur, em como tudo passa e tudo termina. Lembrei-me do trecho em que Plutarco descreve como, bêbado, Alexandre matara um de seus melhores amigos, Clito, porque este, também inebriado, lhe dissera duras verdades, sempre um risco em toda Corte. Clito, que um dia salvara a vida de Alexandre, cometera o erro de considerar-se seu amigo e não seu cortesão. Pensei no paradoxo de que Tamerlão, possivelmente um psicopata, em todo caso o mais sanguinolento dos conquistadores, tivesse inspirado a Christopher Marlowe a mais soberba das peças, em verso branco e com imagens inesquecíveis.

Esse contraste me fez recordar que aquele parque onde eu estava, tão acolhedor, fora o cenário do assassinato de dois Primeiros-Ministros. O que eu via – o gramado verde, os pássaros cantando, as crianças brincando, as árvores – era o que vira Benazir Bhutto segundos antes de ser morta. O pensamento sobre como a beleza às vezes convive com a violência me fez entender que Alexandre não precisava de objetivo prático algum para conquistar o mundo. Atravessara o Helesponto, para nunca mais voltar, porque essa era sua razão de viver. Como todo ser humano, fizera o que julgara necessário para atingir a felicidade. Que seu sonho de felicidade significasse o sofrimento e a morte de milhares dificilmente deteria um monarca do século IV a. C.

Dirigi-me ao portão e saí para o burburinho da rua. Gradualmente, dei-me  conta de que, enquanto eu refletia no parque sobre a História, a realidade cotidiana fazia-se bem presente na calçada. Eis o que vi:

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Aproximei-me e entendi a situação: um mulher ocidental negociava, por meio de intérprete, com um vendedor de passarinhos a libertação de alguns deles.

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Perguntei à mulher quantos pássaros ela ia libertar, e ela respondeu que seis. Colocou a mão em um das duas gaiolas e pouco a pouco foi capturando e soltando seis animais, um após o outro. A cena me deu muito no que pensar. Refleti sobre critérios como justiça e sorte na vida. Havia duzentos passarinhos nas duas gaiolas. Seis, em um contexto de duzentos, parecia um número irrisório. Imaginei o destino dos outros cento e noventa e quatro. De certa forma, o enclausuramento daqueles pássaros e a libertação acidental de uns poucos simbolizava a arbitrariedade das circunstâncias que ocorre em toda existência.

Indiquei à mulher que seria melhor soltarmos todos os pássaros. Apontei que não cabia a nós transformar a vida de seis animais, deixando os outros à própria sorte. Fazer isso era praticar uma injustiça, disfarçada de generosidade. Mencionei que havia aí uma questão filosófica. Ela concordou. Ocorreu então negociação com o vendedor, o qual, depois de algum tempo, aceitou entregar-nos todos os animais pelo equivalente a 72 dólares. Dividimos os custos. Abrimos as duas gaiolas. Alguns dos pássaros mostraram-se estranhamente reticentes a escapulir e voar. Tivemos de ajudá-los. Entrementes, a cena era observada:

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O  olhar em minha direção do homem de barba, de marrom, enquanto eu tirava a foto acima, me incomodou. Tomei consciência de que ajudar duzentos pássaros a recobrar a liberdade era bem mais fácil do que contribuir para a felicidade de seres humanos.

Consolei-me, porém, com a idéia de que, se eu nada podia fazer por esse indivíduo desconhecido, posso ao menos tentar tornar mais agradável a vida dos que me cercam. Um homem com esse sonho não cria impérios vastos e efêmeros, como Alexandre e Tamerlão, mas talvez se torne um ser menos cruel e egoísta do que eles.

Entrei no carro e parti para Taxila.

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4 comentários sobre “Alexandre, o Grande e os pássaros de Rawalpindi

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