É “o velho Itamaraty”, o do Rio de Janeiro, que mostro neste álbum. O de Brasília é, certamente, um dos prédios mais fotografados e conhecidos do Brasil. O do Rio, inaugurado em 1854 como residência particular do conde de Itamaraty, viveu momentos ilustres, mas já não é tão presente no imaginário nacional. Nele morreu, em 1912, o barão de Rio Branco. Nas primeiras décadas do século XX, foram construídos anexos, particularmente a biblioteca. É no Itamaraty do Rio que, até 1970, trabalharam pela política externa gerações de diplomatas brasileiros.

Antes de mais nada, sanemos uma dúvida: Palácio Itamaraty ou Palácio do Itamaraty? O do Rio ostenta um dos dois nomes, o de Brasília o outro. Antigamente, eu considerava o assunto digno da corte bizantina. Depois, memorizei qual era qual. Agora, já não me lembro. Pesquisando, vejo páginas oficiais, e mesmo textos assinados por autoridades, usando os dois nomes indistintamente, o que a rigor é um equívoco. Raciocinemos. O prédio do Rio emprestou o nome ao Ministério das Relações Exteriores, que lá esteve sediado de 1898 a 1970. Existia antes de o Ministério instalar-se nele. O de Brasília pegou o nome do Ministério que o ocupa, que chegou do Rio à nova capital habituado já à tradição de ser chamado pelo nome do prédio no Rio. A lógica faria supor, portanto, que o do Rio é o Palácio Itamaraty, enquanto que o de Brasília é o Palácio do Itamaraty, ou seja o prédio que pertence a uma instituição conhecida como Itamaraty. Faz sentido; tem lógica. Se me disserem que o oposto é o correto, espero que possam me dar uma razão igualmente razoável.

Aos 11 ou 12 anos, visitei pela primeira vez o Palácio Itamaraty. Na época, nós morávamos em Montevidéu, mas estávamos de férias no Brasil. Os meses de verão eram passados sobretudo na fazenda do meu avô materno, na Zona da Mata em Minas, que era o paraíso, mas minha avó e meu outro avô materno, Alfredo Curvello, viviam, separados mas amigos, no Rio de Janeiro, e lá íamos por alguns dias.

Naquele ano, minha mãe decidiu mostrar-me o Itamaraty. Para que o dia fosse o mais interessante possível para mim, fomos primeiro à Livraria Leonardo da Vinci, que era então um marco cultural na cidade, pelas seções de livros estrangeiros. Tenho até hoje, manuseado, gasto, o Livre de Poche que comprei nesse dia, uma das biografias escritas por Philippe Erlanger, a do Regente, sobrinho de Luís XIV.

Naquele tempo, eu não pensava em ser diplomata. Meu sonho era ser advogado. Talvez estivesse influenciado pela figura do meu pai, formado em Direito, que nunca advogou mas começava a pensar em preparar com Sobral Pinto, a quem ele admirava muito, o primeiro dos dois livros do jurista com os quais colaborou, Lições de Liberdade. Sobral Pinto era bem mais velho do que meus avós. Lembro dele perfeitamente como um homem educado, afável, vestido de terno escuro, de aparência frágil e espírito firme. Exercia influência sobre meu pai, e por isso eu o via, criança ainda, como uma figura exemplar.

Nessa primeira visita ao Palácio Itamaraty, minha mãe, Thereza Quintella, apontou o anexo do palácio, paralelo ao espelho d´água, onde ela trabalhara nos primeiros anos da carreira. Contou-me de maneira natural, sem mágoa alguma, como uma verdade a ser encarada sem temor, como era difícil, para uma mulher, ascender em uma profissão ainda essencialmente masculina.

A verdade é que sua promoção a embaixadora, que aconteceria em 1987, foi na época celebrada como uma rara vitória das mulheres no Brasil. Hoje, quando é evidente que as mulheres devem ocupar os cargos mais elevados, não temos mais consciência do quanto era escassa, há apenas 30 anos, a presença feminina nos altos escalões, em Brasília. Parece, em 2021, incompreensível que a promoção da minha mãe ao cargo mais alto da carreira diplomática tenha despertado tanta notoriedade, tenha sido vista como algo tão excepcional. É suficiente dizer que, durante seis anos, ela foi a única embaixadora brasileira na ativa, até a promoção seguinte de uma mulher, Vera Pedrosa, sobre quem escrevi em um ensaio evocando meu tempo no Equador, O Vulcão.

O palácio e seus anexos abrigam, além da representação do Itamaraty no Rio de Janeiro, o Museu Histórico e Diplomático. Sua mapoteca é famosa, seu arquivo importante.

Uma palavra sobre a galeria de próceres americanos. Guardei no celular fotos dos bustos de George Washington, James Monroe, Antonio José de Sucre e José Artigas. Este último é, artisticamente falando, excelente. Destaca-se dos demais, e por isso o escolhi para o álbum de fotografias. Os quatro bustos, porém, representam algo mais. Lembram etapas da minha vida, Montevidéu na adolescência, Washington e Quito na idade adulta.

Minha mais recente ida ao Itamaraty do Rio aconteceu em junho de 2018. Fui com a minha mãe. Helen Verraes Alves, gentilmente, nos ciceroneou. As fotos foram todas tiradas nesse dia.

Dedico este álbum ao embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, com quem trabalhei em meu primeiro posto, a embaixada em Washington, e que se despediu de nós há poucos dias. Sua personalidade se distinguia pela determinação. Nunca o vi bater em retirada diante de dificuldades. Ao mesmo tempo, tinha uma lúcida visão política do mundo, e sabia reconhecer quando um projeto era irrealizável. Liderava com absoluto autocontrole e uma calma segurança.

      

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27 comentários sobre “Álbum de fotos — Palácio Itamaraty

  1. Caro Ary, muito obrigado por mais um belissimo album de fotos. Belissimas imagens do Palacio Itamaraty do Rio, envoltas numa narrativa como sempre muito bem contada. Muito bonita a historia da sua mãe. De fato, é algo excepcional e admiravel uma mulher ter conseguido, ha não muito tempo, chegar a ocupar cargos elevados e de grande destaque. Você fez bem de lembrar. Que bom pensar que, no caminho rumo a uma maior igualdade, conseguimos dar alguns passos adiante (outros tantos ainda faltam). Como carioca que não teve a oportunidade de visitar o Palacio Itamaraty, fiquei com inveja ao ver as suas fotos. As fotos são esplêndidas. Achei belissima a bandeira do portão do hall de entrada – um dos componentes da arquitetura do Rio antigo que eu mais aprecio e com o qual mais me identifico. Ainda encontramos alguns vestigios, como nos casarões da rua do Catete. A foto que lembra Roma engana mesmo. Uma beleza! Assim como a do romantismo tropical (excelente expressão), que me deixa nostalgico de um Rio que eu não conheci, mas de cujas ruinas sou contemporâneo. Essa foto me fez imaginar a beleza, hoje demolida, da São Clemente, da Rua das Laranjeiras, de partes do Alto da Boa Vista e de como a arquitetura neo-classica casava bem com o entorno tropical. Um dos meus interesses no Rio são as fontes que ainda se preservam, dentre elas as das fundições Val d’Osne. Você tem um chafariz predileto no Rio? Imagino que, no voto popular, o chafariz das Musas no Jardim Botânico ganhe, ou o incrivel Chafariz Monroe na Praça Mahatma Gandhi. Eu escolho a fonte do Palacio do Catete, que acho lindissima, e o chafariz da Praça São Salvador. Mas quantos outros ainda podem ser vistos e admirados no Rio, mesmo que desativados ou parcialmente quebrados?Eis alguns: o da Praça Nicaragua, na Praia de Botafogo, a fonte dos Jacarés no Passeio Publico, a Sereia, no Campo de Santana, o Amor à Lira, no Centro, sem falar nas fontes hoje situadas em locais mais reservados ou menos frequentados e de dificil acesso, como a fonte do Palacio Guinle, o chafariz de Grandjean de Montigny, no Alto da Boa Vista, o belissimo chafariz Condessa, Praça Paulo de Frontin (se estivesse em Roma, todos os turistas fotografariam!), e ainda o da Praça Xavier de Brito, na Tijuca (que rivaliza, pela beleza, com o chafariz Monroe, com o do Palacio do Catete e com o chafariz das Musas, no Jardim Botânico). Me alonguei, desculpa. Mas a sua foto do romantismo tropical me fez pensar nesses monumentos de decoração urbana que o Rio ainda guarda. São exemplos, acredito, do romantismo tropical e de como a natureza exuberante do Rio, pelo seu colorido, a sua luz e as suas formas, tinha tudo para valorizar ainda mais peças de arquitetura neo-classica. Obrigado mais uma vez por um belo post e por um belo album de fotos. Um abraço, Felipe

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    1. Obrigado, Felipe. Seus comentários são super-interessantes. Vou ter de olhar na Internet as fontes que você menciona. Não conheço, ou não me lembro, de nenhuma delas. A arquitetura neoclássica combinava muito com o Rio, de fato. Pena ter sido em boa parte demolida.

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  2. Ary, passei a tarde lendo suas crônicas. São viciantes. Só parei agora, duas horas depois, para cuidar do jantar. Tuxaua veio perguntar se já não era hora de comer. Um abraço bem grande com um agradecimento pois você me proporciona possibilidade de viver aventuras. Como já estivemos em alguns dos lugares que você menciona, posso até revivê-los, Abração, Eliana Linhares

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  3. Querido Ary, Adorei, me faz reviver a minha infância e adolescência. Apesar de ter nascido em SP , meus pais são cariocas e o Rj era a minha referência nessa época. Tudo acontecia lá, SP era retrógrado e sem graça. Minha mãe odiava, íamos todos os finais de semana ao Rio. Obrigada. Beijos

    Cristina Barros-Greindl

    BR : M +55 (11) 99422 65 96

    BE : M +32 (0)486 32 32 21 T +32 (0)2 358 45 12

    http://be.linkedin.com/pub/cristina-barros-greindl/5/112/511

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  4. O Palácio do Itamaraty foi construído entre 1851 e 1855 por Francisco José da Rocha Leão, conde de Itamarati, filho do primeiro barão de Itamarati. Esta, de fato é a origem de seu nome. Serviu como primeira sede do governo republicado e, em 1899, nele veio a ser instalado o Ministério de Relações Exteriores, que tomou emprestado seu nome. Aliás o Conde de Itamarati, morava mesmo em um belo sobrado vizinho pelo lado do atual Ministério de Exército, e construiu este Palácio só para as festas e recepções de realizava.

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  5. Saudades de um tempo- eurocêntrico- mas com senso de estética. Sala dos “Índios” -pelo menos reconhecimento- o olhar foi para os móveis, com o perdão de Rugendas!
    Obs: Tem alguma publicação sobre as trajetórias das mulheres no Itamaraty? Ou mesmo algum relato impressionista? Agradeço, Elizabeth Farias da Silva.

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