Passeando pela Espanha

Passeando pela Espanha

Novos conflitos, temor de alguns de que seja iminente a terceira guerra mundial, revelações sobre a rede de contatos de alto nível de um predador de mulheres, crianças e adolescentes: há uma sinistra intensidade no noticiário internacional ao longo das últimas semanas.

Parece ter sido há uma eternidade a alegria trazida por Lucas Pinheiro Braathen ao obter a primeira medalha em Jogos Olímpicos de Inverno não só para o Brasil, mas para a América do Sul e a América Latina. Dói acompanhar os desabamentos e alagamentos que vêm causando mortes na Zona da Mata, terra da minha mãe e com a qual me identifico, particularmente em Juiz de Fora, onde moram tantos primos.

A rápida sucessão de novidades acelera o tempo. Foi ontem, em dezembro, que minha filha anunciou, em Bruxelas, que vai se casar. Foi no Natal que ouvi a missa em Lisboa com um belo e inquietante sermão sobre as relações internacionais. Foi em janeiro que comemorei com minha mulher, no Rio, nossos aniversários. Mas a sensação é de que esses acontecimentos recentes ocorreram há anos.

No turbilhão cotidiano de notícias, terá talvez passado despercebido o falecimento aos 92 anos, agora em fevereiro, do escritor neerlandês Cees Nooteboom. Retirei da estante um de seus livros, Caminhos para Santiago, de 1992. Reler sobre suas andanças pela Espanha, considerei, levaria a mente para longe dos problemas da atualidade.

Não é um livro leve. Nooteboom não era guia de turismo. Era um intelectual interessado pela história, a  filosofia, a religião católica, as artes. Lá vai ele, de carro, atravessando a Espanha de lado a lado. Delicia-se com a ideia de visitar, em algum distrito isolado e desabitado, uma igreja românica, pouco conhecida, de difícil acesso. Quando o livro parece prestes a se tornar excessivamente melancólico, surge um pensamento inesperado, estimulante, jogado em frase curta, trazendo uma revelação.

Zurbarán, pintor de sua predileção, é querido por ele sobretudo pelos retratos de santos, monges e mártires. Sobre os trajes das figuras representadas nesses quadros, Cees Nooteboom afirma ser possível “ver como o tecido era sentido no toque”. Conheço várias dessas pinturas de Zurbarán. Presentes em muitos museus, elas revelam, pelo ascetismo, uma grande espiritualidade. A obra do artista de que mais gosto, porém, eu só vi uma vez, no Museu Norton Simon, em Pasadena, há mais de vinte anos: é a “Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa”, cuja reprodução em um livro me impressionava desde a infância, como conto em Geografia do tempo. Conhecer o original concretizou uma ambição de décadas.

Nooteboom nos fala de disputas entre príncipes irmãos no início da Idade Média; da ditadura franquista; de mortes atribuídas ao ETA, o grupo separatista basco; da bandidagem de Francisco Pizarro no Império Inca, de sua generosidade com Atahualpa, ao permitir que este morresse estrangulado, em vez de queimado na fogueira. Lembrei-me de uma frase de Voltaire: “todos os séculos se parecem pela maldade dos homens”.

Com o livro na mão, perguntei-me se fora uma boa ideia utilizá-lo como descanso da violência contemporânea. Encontrei nele próprio resposta à minha indagação. Nooteboom estava na Espanha quando, em 1986, morreu Jorge Luis Borges. Ele comenta que, durante a Segunda Guerra Mundial, em vez de acompanhar os jornais para saber como evoluía aquele conflito, Borges optou por ler Tácito e sua descrição de “uma guerra diferente, mais antiga”.

Velázquez é outro objeto da admiração do escritor, que examina ora seus últimos retratos de Felipe IV, ora um da rainha Mariana d´Áustria, ora Las Meninas, onde o personagem central é a filha desse casal de tio e sobrinha. Nooteboom registra o ar de fatalidade que emana, nessas telas, de Felipe IV no final de seu reinado, quando a Espanha cedera a primazia à França, perdera Portugal, e a quantidade de casamentos endogâmicos, para não dizer incestuosos, fazia pressentir o próximo fim da dinastia. Das crianças reais dependiam, ele aponta, “expansões territoriais, alianças, vastas extensões de terras” e “o destino de continentes”. Esperava-se “de seus corpos adolescentes que produzissem herdeiros do trono”. Eram “gado de pedigree a serviço do Estado”.

Esses são os pensamentos despertados no autor pelo retrato hierático da jovem Mariana, de ar infeliz, rainha desde que, aos quatorze anos, fora enviada da Áustria à Espanha para se casar com o tio trinta anos mais velho. Nooteboom se insere assim, de maneira heterodoxa, em uma tradição de estudo sobre a representação da realeza. Dois dias antes de eu puxar seu livro da prateleira, tornara-se imediatamente famosa a fotografia do irmão do rei da Inglaterra sendo retirado, no banco de trás de um automóvel, da delegacia de polícia onde fora interrogado por dez horas sobre sua relação com o predador no centro de uma rede internacional de influência econômica e poder político.

Pensei se a foto, de início mero registro documental, não se tornaria com o tempo uma espécie de obra de arte, vetora de uma nova visão da realeza; uma sucessora a repudiar seus antecedentes, aquelas esculturas e pinturas mostrando-nos versões idealizadas dos faraós egípcios, de Alexandre Magno, de Augusto, de Luís XIV. No dia seguinte, obtive a confirmação. Ativistas haviam afixado a imagem, emoldurada, a uma parede do Louvre, sacrossanto repositório da iconografia do poder.

Procurei a resenha publicada no Book World, suplemento literário, extinto este mês, do Washington Post que, em 1997, me fizera comprar o livro de Cees Nooteboom. Uma surpresa me esperava. Seu autor é Colm Tóibín, de quem eu acabara de ler, na véspera, o romance sobre Henry James. Havia algo natural nessa coincidência. A maldade dos homens é, na história do mundo, o dado seguro, o fator sempre presente. E no entanto, também é verdade que a arte e a literatura oferecem um contraponto constante, tornando a vida menos incompreensível.

Iluminam, de alguma forma, a escuridão.

Natureza-morta com limões, laranjas e uma rosa

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 28 de fevereiro

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas:

Fantasia de Carnaval, em 14 de fevereiro

Hitchcock em Pernambuco, em 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

As pedras do Louvre , 25 de outubro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

O presente malásio, 12 de abril

Grandes diplomatas, 15 de março

Da Pampulha para Kuala Lumpur, 15 de fevereiro

O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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Fantasia de Carnaval

Fantasia de Carnaval

As recentes notícias sobre as demissões no jornal The Washington Post viajam o mundo. Um terço dos jornalistas demitidos, inclusive vários correspondentes internacionais. Seções inteiras eliminadas, como a de esportes e, do meu ponto de vista mais tragicamente, o caderno literário, Book World. A morte de um periódico de literatura sinaliza que o interesse por livros é considerado pouco relevante.

Na segunda metade da década de 1990, trabalhei em Washington. Foi meu primeiro posto. Assim que alugamos casa e nos instalamos, fazer uma assinatura do Washington Post foi prioridade. Ao encontrá-lo na soleira da porta, de manhã, considerávamos não estar apenas recolhendo um jornal; participávamos de um pedaço da história dos Estados Unidos e, por conseguinte, do mundo.

Era impossível não lembrar que aquele jornal defendera a democracia e o direito das pessoas à informação. Em 1971, lutara para publicar os “Pentagon Papers” sobre a Guerra do Vietnã e contribuíra para a eclosão, em 1972, do escândalo de Watergate, que levaria dois anos depois à renúncia de Richard Nixon. Durante nosso tempo em Washington, esses eram fatos relativamente recentes, de pouco mais de vinte anos. Watergate era muito presente na mente de todos. Lembro de ir uma noite a um compromisso social, por causa do meu trabalho, e de um conhecido, americano, me apontar um convidado, no outro lado do salão, e sussurrar: “Ele esteve envolvido em Watergate”.

Naturalmente, era aos domingos que o jornal chegava mais polpudo. Nesse dia, vinham inúmeros cadernos. Book World era o primeiro a receber minha atenção. Criado em 1972, fazia autoridade no meio literário e entre leitores. Na nossa biblioteca de mais de seis mil volumes, muitos foram comprados por causa de resenhas ali publicadas. Ler as do crítico Michael Dirda era um prazer especial. É possível encontrar, na internet, textos bem-humorados seus, publicados nos últimos anos, narrando suas experiências na redação do suplemento. 

Meu exemplar da autobiografia da então proprietária do jornal, Katharine Graham, Personal History, está inencontrável. Suponho que o livro, publicado em 1997 e ganhador de um Prêmio Pulitzer em 1998, esteja em uma das caixas até hoje não abertas, por falta de espaço, depois da última mudança, a do ano passado. Lembro que a autora conta como foi ter de passar a comandar um jornal, em uma época em que era raro, como aliás em todas as épocas e ainda hoje, ver mulheres em posições de poder.

Katharine Graham também fala no diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, casado com sua tia Elise Meyer, que foi embaixador na França durante a Segunda Guerra Mundial, e um dos dois únicos brasileiros reconhecidos como “Justo entre as Nações” — sendo a outra Aracy Guimarães Rosa. Souza Dantas é objeto de uma biografia pelo historiador Fábio Koifman, de 2002, Quixote nas trevas. O autor retrata os preconceitos dos colegas do embaixador, críticos de seu casamento em 1933 com Elise Meyer, por ela já não ser jovem. Depreende-se das fontes citadas que a fortuna da nova embaixatriz incomodava o Itamaraty.

Na ausência da autobiografia de Katharine Graham, contento-me com a de Ben Bradlee, A Good Life, de 1995. Editor do Washington Post de 1965 a 1991, Bradlee narra a ascensão do jornal à posição de um dos mais importantes do mundo, contribuindo para esse resultado o papel que desempenhou nas revelações de Watergate. Bradlee se pergunta qual teria sido, “exatamente”, o papel do Post. A resposta, explica, é que “a energia do jornal, e especialmente o talento e a persistência de Bob Woodward e Carl Bernstein, fixaram Watergate para sempre na história. Juntos, deixamos o assunto na agenda nacional. E assim, a arrogância e a imoralidade dos homens em volta de Richard Nixon ficaram gradualmente patentes”. Segundo Bradlee, durante o desenrolar da cobertura do escândalo, uma vez Katharine Graham lhe perguntou, com bastante propriedade: “se essa história é tão importante, cadê o resto da imprensa?”.

Bradlee nada fala, infelizmente, da criação do suplemento literário nem menciona seus editores. Criado no mesmo ano em que homens a mando da Casa Branca forçaram a porta, no edifício Watergate, do escritório do Comitê Nacional Democrata para espioná-lo, o Book World talvez tenha parecido ao editor um dado menor frente às circunstâncias políticas de então.

Enquanto eu, na minha inocência, mergulhava em Washington, contente, nas páginas do jornal e de seu caderno literário, o futuro assomava-se timidamente. A internet engatinhava. Em 1995, Jeff Bezos criava a página eletrônica da Amazon. De início, a empresa vendia apenas livros. Em 1996, lá fiz a minha primeira compra eletrônica, uma obra sobre a história cultural da Rússia. É mais tarde que a Amazon passa a fornecer martelo, areia de gato, roupa e liquidificador; basicamente, qualquer produto.

O oligarca americano possui hoje uma fortuna estimada em 250 bilhões de dólares. Em 2013, adquire o Washington Post; em 2026, demite a terça parte dos seus jornalistas. Nas páginas do Estado de Minas, o jornalista João Renato Faria mencionou outro dia a ironia de alguém fazer fortuna vendendo livros, e décadas depois eliminar o suplemento literário de seu jornal. O Estado de Minas preserva, aliás, o seu renomado caderno Pensar.

No Globo de domingo passado, Dorrit Harazim analisava as razões financeiras e políticas para a mutilação do grande jornal. Quanto a mim, eterno otimista, penso com alguma esperança em Book World. O caderno havia deixado de ser impresso anteriormente, em 2009, ainda na gestão do filho de Katharine Graham, continuando porém a existir na versão eletrônica, o que não acontecerá mais agora. Curiosamente, foi na mão de Jeff Bezos que ressurgiu como suplemento impresso, em 2022.

Quem sabe se, daqui a alguns anos, o Book World não voltará, de alguma maneira, permitindo fantasiar que os livros, afinal, não são apenas uma mercadoria dispensável.

 

Coluna publicada no Estado de Minas ontem, 14 de fevereiro

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas no último ano foram:

Hitchcock em Pernambuco, em 31 de janeiro

Teatro tropical, 17 de janeiro

Missa em Lisboa, 3 de janeiro

O inconfidente, 20 de dezembro

Minas e as formigas, 5 de dezembro

Belém, capital do mundo, 22 de novembro

O casamento em Berdichev, 8 de novembro

As pedras do Louvre , 25 de outubro

O Sudeste Asiático e suas verdades, 11 de outubro

Cem anos na Ásia do Leste, 27 de setembro

O embaixador decapitado, 2 de agosto

O espaço do diplomata, 19 de julho

Um Brasil consciente e forte, 24 de maio

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O inconfidente

O inconfidente

A um brasileiro que trabalha no exterior, se for atento, o Brasil aparece de maneiras inesperadas. Em meu livro Geografia do tempo (2024) menciono como o túmulo, em Malaca, de um herói malásio do século XV, Hang Kasturi, figura talvez mais mitológica do que real, me levou até Clarice Lispector.

Essas reações patrióticas respeitam somente a geografia e o tempo emocionais, não os factuais.  

Uma notícia na imprensa angolana chama minha atenção: leio sobre as obras de restauração da Fortaleza do Penedo, em Luanda. Construído no século XVII pelo colonizador português, o edifício já serviu de forte militar, lugar para reter pessoas escravizadas e prisão política. Foi um dos locais onde, em 4 de fevereiro de 1961, teve início a Guerra de Independência de Angola. Os portugueses o chamavam então de Casa de Reclusão Militar.

A restauração da fortaleza é apoiada financeiramente pelo governo português. Ela se tornará o  Museu da Luta de Libertação Nacional. É uma bonita ideia, que a recuperação do edifício seja uma ação conjunta dos dois países. À imprensa, o embaixador de Portugal, Francisco Alegre Duarte, declarou ser a obra “um gesto de maturidade na relação entre iguais”. O pai do próprio embaixador, Manuel Alegre, político e escritor, ganhador do Prêmio Camões em 2017, foi prisioneiro, na fortaleza, da ditadura salazarista.

Meu interesse principal, ao ler a notícia no jornal, decorreu do fato de que, em 1792, o inconfidente Inácio José de Alvarenga Peixoto, ao chegar a Angola em julho daquele ano, degredado pelos portugueses, foi primeiro aprisionado por algumas semanas, talvez cerca de um mês, na Fortaleza do Penedo, a caminho do presídio de Ambaca, no interior de Angola, onde morreria de uma doença tropical em agosto, poucos dias depois de lá chegar. Alvarenga Peixoto não aportou sozinho a Luanda. No mesmo navio foram obrigados a viajar, também degredados pela sua participação na conjuração, José Álvares Maciel e Luiz Vaz de Toledo Piza. Álvares Maciel permaneceu na enfermaria da Fortaleza do Penedo, doente, até ser trasladado a Massangano.

Cláudio Manuel da Costa, como sabemos, suicidou-se ou foi suicidado, preso em Vila Rica, já em 1789. Tomás Antonio Gonzaga foi degredado para Moçambique. 

Minha fonte principal para a história dos poetas da Inconfidência — ou Conjuração — Mineira é o volume A poesia dos inconfidentes, publicado pela Nova Aguilar em 1996 e organizado por Domício Proença Filho. O material crítico inclui os “Autos da devassa”, inclusive os dois interrogatórios de Alvarenga Peixoto, em novembro de 1789 e janeiro de 1790, na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, onde se encontrava detido. Em sua biografia sobre o poeta e inconfidente na edição da Nova Aguilar, M. Rodrigues Lapa nos conta que, preso no Rio, “sem o amparo da família, os afagos dos filhos e da mulher, aquele homem sentiu-se naufragar”. Em seu segundo interrogatório, delatou os companheiros, “desfazendo-se em mesuras e servilismos”.

O segundo interrogatório provê porém uma leitura fascinante. Trata-se de uma verdadeira obra literária, não pelo estilo, mas pela forma narrativa. É escrita, essa segunda inquirição, como um conto. Vemos Alvarenga Peixoto indo e vindo, ouvimos suas conversas com os amigos conjurados, somos informados de detalhes que tornam tudo vívido, quase 240 anos depois. O texto nos prende desde as primeiras linhas, quando nos contam que o “respondente”, nosso poeta, “se resolvia a narrar tudo com pureza, deduzindo tudo desde o seu princípio na forma seguinte: Que no princípio de janeiro do ano de 1789…”. O que lemos a seguir lembra mais uma conversa de compadres em algum lugarejo do que uma conjuração para tornar Minas independente e implantar a República. O “respondente” ouve, alguém lhe conta, outro lhe pergunta, uma noite ele fica jogando cartas até às três da manhã, um dia há no jantar “peixe fresco, raro em Vila Rica”, Claudio Manuel da Costa vem tomar café, Tiradentes é descrito como “feio” e “louco”.

Noto a frequência com que livros aparecem. A casa de um dos inconfidentes, Francisco de Paula Freire de Andrade — que viria ele também a morrer em Angola — aparentemente possuía uma importante biblioteca. Alvarenga Peixoto, descobrimos, lá costumava ir pedir livros emprestados. Entra para devolver um e já sai com outro. Seria útil saber o que liam os poetas inconfidentes naquele momento, com que obras alimentavam os espíritos, enquanto conversavam sobre a conjuração.

Não sejamos severos com o depoimento de Alvarenga Peixoto. Fora o Alferes, o objetivo de todos os depoentes foi escapar com vida do malogro da conjuração. Já no caminho de Minas Gerais ao Rio de Janeiro, o poeta sofreu. Informa M. Rodrigues Lapa, de maneira desnecessariamente irônica, ter sido ele maltratado pela escolta: “os ferros, magoando as carnes mimosas, fizeram-lhe feridas no corpo”. Cecília Meireles, em Romanceiro da Inconfidência, é tolerante. Seus versos mostram a decadência — “tão tristemente covarde que só causava desprezo” — mas descreve uma figura humana merecedora de comiseração: “apagada a glória antiga, rolava em chãos de masmorra sua sorte perseguida”. Domício Proença Filho, em seu livro de 1989, Oratório dos inconfidentes, é igualmente amistoso em relação a ele. Cada verso do poema em sua homenagem se inicia com a palavra “Irmão”.  

Recentemente, decidi ir até à Fortaleza do Penedo. Hoje, ela está cercada pelo terminal de cargas do porto de Luanda. Falar em sua “restauração” é eufemismo. Sobraram apenas as fachadas do forte, a carapaça. É uma reconstrução o que está em curso. Lá voltarei quando os andaimes tiverem sido retirados. Será possível então entrar no prédio reconstituído e imaginar a dor intolerável sentida, entre aquelas paredes, pelos cativos à espera da partida para o Brasil, pelos inconfidentes mineiros ali aportados e pelos presos políticos da longa era colonial.     

Texto primeiro publicado no Estado de Minas, em 20 de dezembro

Algumas de minhas outras colunas no Estado de Minas no último ano foram:

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Hitchcock em Pernambuco

Hitchcock em Pernambuco

Em Paris, pouco antes do Natal, minha mulher e eu começamos a esbarrar em Wagner Moura na rua por toda parte. Aonde quer que fôssemos, lá estava ele. A afirmação não é delirante e reflete a verdade. Só não deve ser tomada de maneira absolutamente literal. O que víamos não era o ator em carne e osso, mas o pôster promovendo a próxima chegada de O agente secreto aos cinemas da capital.

A foto, onipresente, mostrava Marcelo, seu personagem, com ar enigmático, fazendo jus ao título de maneira mais direta do que o próprio filme. O pôster ostentava-se em várias das célebres “colonnes Morris”, as estruturas cilíndricas usadas em Paris para anunciar estreias de filmes e de peças de teatro.

Presentes na paisagem urbana parisiense há 150 anos, as colunas são citadas por Marcel Proust. Em Para o lado de Swann, o Narrador nos conta como, ainda criança, já amava o teatro, de um “amor platônico, pois meus pais nunca tinham me permitido ir” e como toda manhã “corria até a coluna Morris para examinar os espetáculos que ela anunciava”.

Sempre associo a Proust esses cilindros parisienses de topo verde escuro e quase quatro metros de altura. Vê-los é como comungar de um momento lúdico com o Narrador de À procura do tempo perdido. Na minha percepção, adquiriram, desde dezembro, valor adicional. 

Foi no Rio, algumas semanas depois, um Rio vibrante de turistas, de calor intenso, praias lotadas mesmo à noite e calçadões congestionados de pedestres, que assistimos ao filme de Kleber Mendonça Filho. Em coluna anterior, “Belém, capital do mundo“, publicada durante a COP30, lembrei que, em 2023, ao criar o Festival de Cinema Brasileiro na Malásia, escolhi uma retrospectiva dos filmes do cineasta para a primeira edição do evento.  

Sobre O agente secreto, tudo já foi dito, no Brasil como no exterior. Independentemente do que acontecer na noite do Oscar, o longa-metragem brasileiro consagrou-se pelas múltiplas críticas elogiosas e indicações e prêmios recebidos. Tornou-se um fenômeno cultural. Minha opinião a respeito, portanto, soaria supérflua.

Mas não resisto a comentar uma cena. Muito já se falou do clima de angústia e opressão transmitido pelo filme. Um amigo mais velho, cinéfilo, me disse: “Kleber captura exatamente a experiência de viver no Brasil naquela época”. A cena que desejo mencionar, no último terço de O agente secreto, é uma das passagens em que se sente mais fortemente o suspense, a ameaça da violência física iminente.

Marcelo está no seu pretenso local de trabalho, um instituto de identificação, e examina fichas em armários de metal. Está mergulhado em luz. No outro extremo, mais escuro, da mesma sala, pessoas do público, em pé, esperam para recolher suas carteiras de identidade. Entre eles, um matador de aluguel — interpretado por Kaiony Venâncio — observa Marcelo, tentando comprovar se ele é de fato o alvo encomendado. Há, assim, dois ambientes bem definidos no mesmo recinto.   

A movimentação intimista, resguardada do personagem de Wagner Moura enquanto é visto por todos no espaço iluminado, a presença do assassino examinando a sua vítima, a tensão palpável, fizeram-me pensar em Alfred Hitchcock. Deduzi que Kleber Mendonça Filho estava, de alguma forma indefinível, conferindo ao ator ao mesmo tratamento que Hitchcock dera na tela, em diferentes obras, a James Stewart e a Cary Grant.

Isso me pareceu algo extraordinário, pois meu amor pela obra do diretor inglês é profundo, particularmente os filmes estrelados por esses dois atores. Na filmografia de Hitchcock há aliás um Agente secreto, de 1936. Em casa, após a sessão, pesquisando conjuntamente os nomes dos diretores, o inglês e o brasileiro, encontrei a observação de críticos franceses de que o momento inicial, quando Marcelo se depara no posto de gasolina com um cadáver abandonado, é uma referência a O terceiro tiro (The Trouble with Harry), de 1955.

Mais relevante foi descobrir, em entrevista de Kleber Mendonça Filho a um portal americano, que ele, durante as filmagens, conversara com Wagner Moura sobre o carisma de Cary Grant em Intriga internacional (North by Northwest, 1959), “um filme diferente, de tom diferente” do seu, mas onde o personagem central “nunca entende realmente o que está acontecendo à sua volta”, assim como “o de Wagner, em vários momentos, tampouco entende”. Em outra entrevista, o diretor declara ser Janela indiscreta (Rear Window, 1954), estrelado por James Stewart e Grace Kelly, um de seus filmes prediletos.

Nessa cena específica no instituto de identificação, quis ver também uma coreografia digna do teatro, o que me permitiu pensar em Hitchcock sob uma nova perspectiva. Somos, como o assassino, como as pessoas esperando suas carteiras de identidade, o público de uma peça estrelada por Wagner Moura, que, inquieto e procurando aparentar calma, move-se na luz, como em um palco. Quando o matador grita “Armando”, verdadeiro nome de Marcelo, para testar se é ele mesmo, o personagem hesita apenas um segundo e finge recuperar a placidez.

Suas mãos abrem ou fecham as gavetas nos armários metálicos com apenas uma sombra de nervosismo. Resiste à tentação de verificar quem conhece sua identidade real. Marcelo simultaneamente reage e não reage, com uma rápida expressão no rosto aqui, um gesto controlado ali. Ao sair pelo fundo da sala, contendo a ansiedade, acelerando levemente o passo, ele olha de relance para trás, em direção ao público que espera as identidades, em nossa direção, sem realmente nos encarar, mas nos revelando a expressão indagadora do seu rosto e nos permitindo, com isso, pela fração de um momento, uma interação com o personagem.   

Nem que fosse apenas por essa cena, a qual, tenho certeza, será objeto das análises dos estudiosos de cinema do futuro, Wagner Moura já mereceria todos os prêmios. Em O agente secreto, temos um artista em perfeito controle do seu ofício.   

Coluna quinzenal no Estado de Minas publicada ontem, 31 de janeiro

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O ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia, 18 de janeiro

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