Joël Dicker e seu Enigma

Joël Dicker e seu Enigma

Poucas leituras me ajudaram tanto a enfrentar a pandemia como o romance mais recente de Joël Dicker, L’Énigme de la chambre 622, agora disponível no Brasil graças à editora Intrínseca, em tradução de Carolina Selvatici e Dorothée de Bruchard. O livro veio na hora certa, em 2020, para distanciar meus pensamentos do novo coronavírus.  

Tenho dificuldade em entender algumas críticas que foram dirigidas ao romance de Dicker, segundo as quais a história é inverossímil e a leitura excessivamente fácil. De fato, eu mesmo devorei com avidez as 574 páginas da edição francesa. Sem dúvida, O Enigma do Quarto 622 é considerado mais leve do que o livro que lançou a carreira internacional de Dicker, La Vérité sur l´affaire Harry Quebert. No entanto, do livro de 2012 não guardo lembrança alguma. É como se eu não o tivesse lido. O livro de 2020, que me deu talvez os únicos momentos de escapismo diante da realidade criada pelo novo coronavírus, permanecerá na minha imaginação por muito tempo.     

A cronologia não é linear, e há mais de uma história no enredo. Há primeiro o momento atual, 2018, em que o narrador, um escritor chamado Joël Dicker, que devemos considerar um personagem fictício inspirado no autor real, está enlutado pela morte, poucos meses antes, aos 91 anos, de seu amigo e editor, Bernard de Fallois, a quem o livro é dedicado.

Personalidade de peso no mundo das letras na França, Fallois em 1987 criou sua própria editora, após trabalhar na Gallimard, na Hachette e na Presses de la Cité, de que foi diretor-geral. Era um estudioso de Proust, sobre cuja obra escreveu e de quem possuía páginas manuscritas inéditas. Ao se tornar editor de Joël Dicker em 2012, modificou a vida do escritor suíço, então com 27 anos. Já na primeira página do capítulo I de L’Énigme de la chambre 622, Dicker nos diz (as traduções são minhas): “Bernard de Fallois era o homem a quem eu tudo devia. Meu sucesso e minha notoriedade vieram graças a ele. Chamavam-me escritor, graças a ele. Liam-me, graças a ele”. “Editor, amigo e mestre”, como diz a dedicatória do novo romance de Dicker, Bernard de Fallois aparece como figura tutelar do texto, pois somos informados de que tudo o que vamos ler decorre da tentativa do autor de escrever um livro sobre ele.

Sentindo-se pouco valorizada, porque o narrador se dedica em tempo integral ao livro, sua namorada e vizinha o abandona. Como reação, Joël Dicker, o personagem do romance do escritor suíço de mesmo nome, decide sair de Genebra e espairecer em um hotel de luxo na aldeia e estação de esqui de Verbier.

Lá, ele conhece uma inglesa, Scarlett Leonas. Como tantos elementos do livro, o nome é uma homenagem adicional a Bernard de Fallois, pois mais adiante somos informados de que Gone with the Wind era “le roman préféré de Bernard”. Escolher Margaret Mitchell como autor predileto é uma opção curiosa para um editor francês especialista em Proust e amigo, entre outros escritores do século XX, de Marguerite Yourcenar.

Provavelmente, há exagero na frase de Dicker, e seu livro de qualquer forma não é uma biografia de Bernard de Fallois, mas uma homenagem. O apreço por Gone with the Wind parece ter tido início quando, fugindo de automóvel com a família durante a Segunda Guerra Mundial, o futuro editor, então adolescente, isolara-se emocionalmente do perigo de um iminente bombardeio aéreo mergulhando na leitura do livro no banco traseiro do carro. Preocupava-o mais o destino de Scarlett O´Hara do que o seu próprio. Queria terminar E o Vento Levou, pois não desejava morrer sem saber o final.

O jovem Fallois pode ter se refugiado nas aventuras de Scarlett O’Hara, mas o nome do editor é ligado ao de Marcel Proust. Foi Fallois quem descobriu e editou pela primeira vez, na década de 1950, os manuscritos de Jean Santeuil e de Contre Sainte-Beuve. Após sua morte, em 2018, descobriu-se que ele guardara, durante décadas, outros manuscritos proustianos. Alguns foram publicados em 2019, pela sua editora, com o título de Le Mystérieux Correspondant et autres nouvelles inédites. Agora em março, a Gallimard publicará Les Soixante-quinze feuillets, páginas escritas por Proust aparentemente em 1908, precursoras de À la recherche du temps perdu.

Só se sabia da existência desse texto por uma breve referência, antiga, do próprio Bernard de Fallois. Pensava-se que estivesse extraviado: “dessas folhas, atualmente desaparecidas, Fallois publicou dois trechos”, dizia Jean-Yves Tadié, em 1996, em sua biografia de Proust. A descoberta do texto nos arquivos deixados pelo editor é, nos diz a Gallimard em sua página eletrônica, “un coup de tonnerre”. A edição ficou a cargo de Nathalie Mauriac Dyer, acadêmica, sobrinha-bisneta de Proust — e neta de François Mauriac; pode haver dinastias literárias, como há as da realeza — com prefácio de Jean-Yves Tadié. No aparecimento repentino desses manuscritos nos arquivos deixados por Bernard de Fallois, sem que ele os tivesse publicado, há um mistério digno do enigma no livro de Joël Dicker, ainda que menos sanguinolento.

Em Verbier, Joël, o escritor-narrador, e Scarlett logo descobrem que, alguns anos antes, um assassinato fora cometido no hotel onde se hospedam. Decidem investigá-lo.

A partir daí, há ao menos três enredos que se desenvolvem simultaneamente, mas em momentos diferentes. Há a história da amizade entre o verdadeiro Joël Dicker e Bernard de Fallois; há a relação, fictícia, entre o personagem Joël Dicker e Scarlett Leonas e a busca dos dois por mais detalhes sobre o crime ocorrido anos antes; e há o romance propriamente dito, objeto do volume que temos nas mãos, O Enigma do Quarto 622, que relata os eventos em torno do crime. A cronologia vai e vem, em diferentes tempos, pois mesmo a narrativa sobre o assassinato, que já aconteceu há alguns anos, requer frequentes voltas a um passado anterior a ele, para explicar o histórico e as motivações dos personagens envolvidos nessa trama.

As cenas entre Dicker e Fallois, devemos supor, aconteceram de fato e possuem valor documental. Servem como testemunho sobre como era e como trabalhava um editor francês importante. São tocantes. Ninguém pode acusar Joël Dicker de ser ingrato. L´Énigme de la chambre 622 é, em grande parte, uma celebração dessa amizade. Vejam esta frase sobre o falecido editor: “Na floresta dos seres humanos, ele era uma árvore mais bela, mais forte, maior. Uma essência única, que não crescerá novamente”. Dicker nos conta como Bernard de Fallois sentiu o potencial de La Vérité sur l´Affaire Harry Quebert, que se tornou sucesso mundial e vendeu “milhões de exemplares em quarenta idiomas”.

Já a relação entre o personagem Joël Dicker e Scarlett Leonas serve a dois propósitos: permitir diálogos onde é descrita a amizade do escritor com seu editor, e introduzir o enredo principal, ligado ao assassinato no hotel em Verbier. Em sua investigação como detetives amadores, Joël e Scarlett interagem com os próprios personagens ligados ao crime.  

Só no final descobrimos quem é o assassino e, na verdade, quem foi assassinado. Alguns críticos e muitos leitores consideraram a história excessivamente rocambolesca. Esse não foi meu caso. Ou melhor, achei que o poder de atração do livro reside precisamente nos seus aspectos rocambolescos.

São muitos os personagens. Os principais são um herdeiro de banco em Genebra, Macaire, sua mulher, Anastasia, e o amante dela, Lev, brilhante jovem banqueiro, diretor na empresa familiar de Macaire. Mesmo para herói de romance, Lev é irreal de tão cintilante. Fala dez línguas, possui “une beauté insolente”, cativa todas as mulheres, tem uma personalidade segura e bem-humorada, é bom filho, gênio das finanças e conselheiro do presidente da França e de organismos multilaterais em Genebra. O próprio texto admite que ele é irritante de tão perfeito (“agaçant de perfection”). Alguns leitores, de fato, poderão antipatizar com ele. Para mim, ele se tornou um amigo, como podem ser nossos amigos os personagens de quem gostamos. Suas aventuras — e elas são muitas e variadas; Dicker não coibiu a imaginação enquanto escrevia — me prenderam em casa, durante um fim de semana prolongado. Lamentei chegar às últimas páginas e ter de abandonar os personagens, mesmo os menos agradáveis.  

São muitos os acenos prestados por Dicker a outros escritores. Basta dizer que o motorista de Lev se chama Alfred Agostinelli, o que, para um admirador de Proust, soa francamente ridículo, de tão transparente. A escolha do nome terá sido mais uma homenagem a Bernard de Fallois, por meio de seu apego a Proust.

O novo romance de Dicker é uma mistura, a meu ver bem-sucedida, de vários subgêneros literários: livro policial, livro de aventuras, livro de espionagem, comédia picaresca e também uma história de amor intenso e incontrolável. Lembra, em alguns trechos, folhetins do século XIX de ação frenética e revelações surpreendentes. Pensei bastante, enquanto o lia, em Le Bossu, famoso romance de capa e espada de Paul Féval, serializado primeiro, em 1857, em um jornal, e que eu adorava quando criança. 

Sobretudo, o livro é uma homenagem a outro escritor suíço de língua francesa, Albert Cohen, e a sua obra-prima, Belle du Seigneur, publicada em 1968 e cuja ação se passa na década de 1930. O triângulo amoroso formado por Lev, Anastasia e Macaire é claramente inspirado em Solal, Ariane e Adrien, personagens principais de Albert Cohen. As semelhanças de situações e personalidades entre L´Énigme de la chambre 622 e Belle du Seigneur são numerosas. Se o romance de Albert Cohen nunca tivesse sido escrito, o de Joël Dicker teria sido diferente.

Por coincidência, fui ler pela primeira vez a obra de Albert Cohen em janeiro, cinco meses depois de terminar L´Énigme de la chambre 622. Fica contudo a dúvida se terá sido mesmo uma coincidência. Talvez o livro de Dicker tenha trazido à minha consciência tudo o que eu sabia do enredo do romance de Cohen e tenha me dado vontade de lê-lo, algo que eu sempre protelara fazer.

A leitura de Belle du Seigneur fez com que eu gostasse ainda mais, em retrospecto, de L´Énigme de la chambre 622. Por um paradoxo, o livro mais forte, o clássico, aumentou meu apreço pelo mais leve. Não há nisso enigma algum. Valorizei a maneira como Dicker adapta a história de Albert Cohen aos nossos tempos, suavizando-a, apesar do assassinato. Percebi o trabalho necessário por trás da leveza. A complexidade da cronologia, que irritou alguns, fascinou-me. Entendi que os personagens de Joël Dicker e suas aventuras mirabolantes viverão muito tempo em mim, como vivem, ainda que por razões diferentes em cada caso, os de Paul Féval, de Albert Cohen e de Marcel Proust.

Bernard de Fallois dizia que um grande romance é como um quadro: “Um mundo que se oferece ao leitor, o qual se deixa prender por essa imensa ilusão feita de pinceladas”. Foi assim que, em um fim de semana de agosto, no meio da pandemia, eu me senti grato de conseguir ficar preso ao mundo de um livro, à sua imensa ilusão.  

Este texto foi primeiro publicado, em 22 de fevereiro, na revista literária São Paulo Review

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Uma biblioteca em estado puro

Uma biblioteca em estado puro

Alguns dos acontecimentos literários mais importantes no Brasil, no surpreendente ano de 2020, foram sem dúvida os lançamentos da coleção de cartas de Clarice Lispector e da nova edição da obra de João Cabral de Melo Neto. Todas as Cartas, pela editora Rocco, vem com prefácio e notas de Teresa Montero, biógrafa de Clarice, e posfácio de Pedro Karp Vasquez. Poesia completa, pela Alfaguara, é organizado por Antonio Carlos Secchin.

Vivendo e trabalhando na Malásia, não pude comprar nenhum dos dois volumes. Por causa deles, fiquei tentado a finalmente aceitar a modernidade e encomendar um kindle. Cheguei a escolher o modelo, a cor da capa, mas na hora de terminar o pedido hesitei.

Faria sentido, para alguém na minha profissão, parar de comprar livros físicos e tê-los todos em um aparelhinho cômodo, fácil de carregar, que não ocupa espaço, e que tornaria obsoleta a centena de caixas que carrego por todo lado. Mas por favor, não me digam que o kindle é um bom substituto para o livro como objeto. Nada pode se sobrepor às delícias de segurar um volume, tocá-lo, cheirá-lo, sentir a textura do papel — ainda que de má qualidade — e abrir uma página ao acaso.

Se você, leitor amigo, vier me visitar quando a pandemia terminar e as fronteiras da Malásia reabrirem, por favor coloque na mala, além das cartas de Clarice e os poemas de João Cabral, a biografia de Paulo Rónai por Ana Cecilia Impellizieri Martins, O homem que aprendeu o Brasil, publicado pela Todavia. Se houver espaço na bagagem, traga também dois romances, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, também pela Todavia, e Marrom e Amarelo, de Paulo Scott, com o selo da Alfaguara. Quando os dois foram lançados, em 2019, eu já me preparava para partir para a Malásia e achei que não seria difícil encomendá-los daqui. Não podia prever o novo coronavírus, motivo pelo qual, aparentemente, as livrarias brasileiras na Internet não estão aceitando encomendas do exterior.

Sem acesso aos lançamentos no Brasil no ano passado, e embora ninguém tenha me perguntado nada, vou comentar alguns livros que, lidos ou relidos, estiveram ao alcance da minha mão em 2020.

Os contos de Clarice Lispector em Laços de Família nos fazem, como poucos outros, entrar no sentimento de seus personagens. Isso me permitiu sair da minha experiência pessoal que tem sido, como a de todo mundo, de luto e preocupação. Se eu tivesse de escolher apenas um, seria A Imitação da Rosa, no qual, ao remoer a condescendência com que é tratada pelo marido, pelo médico, pela melhor amiga, uma jovem percebe que a condição psiquiátrica de que acaba de se tratar em um sanatório está voltando. “A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais”, pensa Laura. Talvez a doença mental que ela sente regressar seja causada por sua noção apurada das regras de dominação ou indiferença que ditam os relacionamentos humanos.

Em setembro de 2019, o historiador Philip Mansel lançou na Inglaterra King of the World, biografia de um homem, Luís XIV, acostumado a encarar a todos com condescendência. Em O Delacroix de Chelsea contei como cheguei a comprar o livro para oferecê-lo de presente, em Londres, mas acabei trazendo-o na mala ao voltar para o Brasil.

Nas nossas estantes, a bibliografia sobre Luís XIV é extensa. Pensei nunca ler a contribuição de Philip Mansel, mais uma entre tantas; achei que não haveria tempo útil de vida, e que ela nada acrescentaria ao que já sei. Em 2020, porém, tradução publicada na França causou sensação entre os franceses que sigo no Twitter. Decidi então ler o original, mas descobri que ele estava em Singapura. Como minha mulher e eu ficamos, por causa da pandemia, quase o ano todo sem poder ver um ao outro, o Mansel estava inacessível. Autorizada pelo governo malásio a vir passar o Natal, ela desembarcou em Kuala Lumpur com o Rei do Mundo..

A erudição acadêmica do texto não impede que o autor construa uma narrativa empolgante, que não é uma elegia ao rei e tenta ser um relato objetivo. Deixou-me consciente da dificuldade, no caso de vidas longas e agitadas, dedicadas à política, de julgar se foram exitosas ou não. Toda carreira pública, se dura muito, só pode ser um contraste de erros e acertos. No livro de Philip Mansel, isso fica claro tanto no que diz respeito ao próprio rei quanto ao cardeal Jules Mazarin, padrinho, mentor e primeiro-ministro de Luís XIV no começo de seu reinado. Figura célebre da história da França, o cardeal nascera porém na Itália, com o nome de Giulio Mazzarino. Uma hora Mansel parece elogiá-lo, noutras é mais severo, particularmente quando fala na venalidade do cardeal, de fato gritante até para os padrões da época.

Sou adepto da doutrina segundo a qual Mazarin muito contribuiu, como seu predecessor, o cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII, para projetar o poder francês na Europa e, no plano interno, eliminar a autonomia da nobreza, ajudando a transformar a França em um país centralizado, uma nação com um executivo forte. A aura do cardeal, em seu tempo um dos homens mais poderosos e famosos da Europa, já não brilha tanto fora de seu país adotivo. Há poucos anos, em Brasília, quando um grupo de amigos jantava em nossa casa, citei-o e notei com surpresa que meu comentário caíra no vazio. Nenhum dos presentes sabia quem ele era. Em seu livro World Order, Henry Kissinger menciona mais de uma vez Richelieu, mas não Mazarin, embora a perseverança do cardeal tenha sido determinante para a Paz da Vestfália em 1648, e tenha sido ele o negociador do Tratado dos Pirineus com a Espanha em 1659.

A biografia de Mansel, porém, é sobre Luís XIV, não Mazarin. Em seu balanço do reinado, aponta que, depois da morte do cardeal, em 1661, tendo herdado o país mais poderoso e o maior exército da Europa, Luís XIV, imaginava-se, se tornaria o monarca mais importante da História. Mansel lembra no entanto que, quando o rei morreu, em 1715, a França já não era a maior potência europeia, e “sua própria personalidade fora uma causa disso”, em razão de seu amor excessivo pela guerra e de tantos erros de julgamento. O título do último capítulo, “The Shadow of Versailles”, dá a entender que o principal legado do rei teria sido o palácio que mandou construir, mas sugere também que a Cinquième République atual — democrática, com um chefe de Estado eleito pelo voto popular, mas de espírito monárquico — seria a herdeira e beneficiária da política centralizadora de Luís XIV e portanto, concluo, também dos dois cardeais, Richelieu e Mazarin, que prepararam o terreno para o rei.

É bem provável que a obra de Philip Mansel seja traduzida no Brasil, após as críticas entusiasmadas que vem recebendo. Além da tradução francesa, soube em janeiro por meu amigo Hélio, escrevendo de Roma, que o livro acaba de ser lançado também na Itália. Gostei de ler a biografia. É academicamente impecável, mas não acho que seja melhor do que outros volumes sobre o rei. As biografias de Luís XIV ou os estudos sobre sua época são numerosíssimos, em inglês como em francês. Já em 1751, com Le Siècle de Louis XIV, Voltaire produziu uma análise excelente e ainda válida. Na França, é raro o ano em que não saia livro sobre “o faraó de Versalhes”, como o denominava o historiador Philippe Erlanger, ou sobre algum aspecto de seu reinado, o qual, tendo durado 72 anos, é o mais longo por enquanto da história europeia. Elizabeth II terá de viver três anos adicionais para suplantar esse recorde. A biografia de Mansel não me pareceu melhor do que outra mais antiga produzida no universo anglófono, a do americano John B. Wolf, de 1968.

O objetivo de Richelieu e de Mazarin de dar supremacia à França requereu diminuir o peso na Europa de uma dinastia conhecida no século XVII como a Casa d´Áustria e depois, mais usualmente, como os Habsburgos. Outro historiador inglês, Martyn Rady, em um livro lançado em 2020, nos faz acompanhar as origens obscuras da família no século X, sua ascensão, seus revezes e o ocaso final em 1918. Em The Habsburgs: The Rise and Fall of a World Power, Rady transmite bem a ambição universalista da dinastia. O world power do subtítulo eram eles, os Habsburgos, e não um Estado soberano. O autor nos mostra como, ao longo dos séculos, a família se firmou como uma força na Europa e, com o ramo que reinou na Espanha e em suas colônias, no mundo inteiro — tendo sido inclusive a soberana, de 1580 a 1640, do Brasil.

Martyn Rady tem o dom de encontrar a frase que encapsula uma vida, uma personalidade. Francisco José I da Áustria, Habsburgo que reinou de 1848 a 1916, é outro exemplo de que a longevidade pode deixar uma marca ambivalente na reputação do indivíduo. É impossível visitar Viena sem notar o culto a ele devotado, mantido vivo pelos saudosistas da monarquia e da era em que a Áustria foi uma potência. O imperador é também lendário pelas tragédias pessoais que viveu: fuzilamento do irmão, o efêmero imperador do México, Maximiliano, em 1867, ainda lembrado hoje por causa das versões pintadas por Manet de sua morte; suicídio do filho e herdeiro, Rodolfo, em 1889; assassinato em Genebra, em 1898, da mulher, Elisabete, famosa sob o apelido de Sissi; e, finalmente, o assassinato, em 1914, em Sarajevo — tornado célebre na História pelas suas consequências — do novo herdeiro, o sobrinho, Francisco Ferdinando.

O reinado de Francisco José, apesar da imagem mítica que ainda irradia, foi, no plano externo, catastrófico para o país. Rady nos diz sobre o penúltimo imperador da Áustria e rei da Hungria: “he was inept but convinced in his own superior wisdom”.  Em menos de vinte anos, Francisco José perdeu a Lombardia, Veneza e a Confederação Alemã. Dois anos depois de sua morte, como resultado da I Guerra Mundial para cuja eclosão a Áustria-Hungria contribuíra, a família deixou de reinar, e o próprio império se esfacelou.

Sobre Sissi, Martyn Rady escreve uma frase irônica e sucinta: “she luxuriated in her own beauty”. Sempre lembro de uma frase de Marguerite Yourcenar, que fala do “mélancolique narcissisme” da imperatriz e julga que Sissi era “tão ausente do mundo e da vida”, que sequer compreendeu que seu assassino a golpeara de morte. Já a duquesa de Guermantes, com sua condescendência habitual, que não poupa ninguém, e que conhecera a imperatriz, define Sissi, depois de morta, como “un peu folle, un peu insensée”, mas “muito boazinha, uma louca muito amável”.

O avô de Francisco José, Francisco I, primeiro imperador da Áustria e último imperador do Sacro Império Romano-Germânico — dissolvido em 1806 — foi um dos mais lastimáveis dos Habsburgos, embora politicamente um dos mais bem-sucedidos, graças, paradoxalmente, à sua longevidade. Ao morrer em 1835, vira vir e passar a Revolução francesa e Napoleão, tendo sido humilhado por ambos nos planos político, territorial e militar. Em 1793, nada fez para salvar sua tia, Maria Antonieta. Em 1810, deu de presente a filha mais velha a Napoleão. Então com 18 anos, Maria Luísa crescera no ódio ao “ogro corso”, mas foi entregue a ele como uma presa, quando isso foi visto como útil, e instada pelo pai a abandoná-lo, em 1814, quando a estrela napoleônica se apagou. Em 1817, Francisco I colocou em um navio outra filha, Leopoldina, para que atravessasse o Atlântico e passasse a dividir a cama de nosso futuro Pedro I, que tanto a humilharia.

De forma alguma foram os Habsburgos a única dinastia a sacrificar, para fins políticos, a felicidade pessoal de seus membros, e nem Rady os acusa disso. Sobre o casamento de Leopoldina, o historiador apenas menciona que as cores da camisa da seleção brasileira juntam o verde dos Braganças ao amarelo dos Habsburgos. A mim, porém, a atitude de Francisco I com as filhas sempre pareceu de um certo cinismo, pois ele procurava passar aos súditos uma imagem de homem simples, burguês, devotado à família. Fraco e medíocre, foi bem assessorado por um chanceler poderoso e viveu o suficiente para ver superadas suas derrotas. É sintomático que o capítulo dedicado ao seu reinado se intitule “Metternich and the Map of Europe”. Os admiradores do célebre estadista, entre os quais está Henry Kissinger, que fez de Metternich o tema de sua tese de doutorado, encontrarão no livro de Rady uma visão favorável de sua atuação. Mesmo a repressão política e a censura implantadas por Metternich, que já na época marcavam o seu nome tanto quanto a capacidade diplomática, são minimizadas pelo historiador.

Martyn Rady oferece um retrato tradicional de outro Habsburgo, Felipe II de Espanha. O Felipe de Rady é o rei dos manuais escolares, católico intransigente, soturno perseguidor de protestantes, judeus e muçulmanos, trancado no sombrio Escorial. O rei tenebroso que inspirou a Verlaine o poema La Mort de Philippe II e a Verdi a ópera Don Carlos. Esse homem existiu, mas trata-se do Felipe II envelhecido. Antes disso, houve um príncipe jovem, viajante e, como tantos Habsburgos, protetor das artes. É esse o Felipe que aparece no catálogo de uma exposição recente, Love Desire Death, que chegou a ser aberta na National Gallery de Londres, mas teve de ser interrompida por causa da pandemia.

Love Desire Death expôs as sete telas, conhecidas como poesie, encomendadas por Felipe II a Ticiano sobre temas mitológicos inspirados em Ovídio. Entre os sete quadros, hoje espalhados por museus na Inglaterra, na Escócia, na Espanha e nos Estados Unidos, está um dos mais famosos do mundo, O Rapto de Europa, que mora em Boston, para onde foi levado após ter sido celebremente comprado, em 1896, pela colecionadora de arte Isabella Stewart Gardner, amiga de Henry James.

O catálogo contém ensaios excelentes, de diferentes autores, e belíssimas reproduções dos quadros. Seu coordenador, Mathias Wivel, nos explica como Felipe, aos 21 anos, ainda príncipe e herdeiro do pai, o imperador Carlos V, de passagem por Milão em 1548 pediu a Ticiano que viesse de Veneza encontrá-lo. O pintor, que tinha Carlos V entre seus patronos, era quarenta anos mais velho do que o príncipe. Wivel mostra um Felipe “enérgico e ambicioso”, desenvolvendo com o pintor tão mais velho uma relação “de grande respeito mútuo”. Ticiano recebera total liberdade sobre o formato dos quadros e as cenas a serem representadas; escolheu para a série de poesie temas que pudessem atender a “Philip´s ardent interest in women and his lifelong obsession with hunting”. Aparece assim a imagem de um Felipe namorador, patrono sensível de Ticiano, por quem nutria “genuine affection”.

O ano de 2020 foi trágico para todas as manifestações artísticas e para todos os artistas. Como catálogo de uma exposição interrompida, Love Desire Death simboliza para mim as experiências intelectuais, culturais e sensoriais de que fomos privados em razão da pandemia.

Talleyrand, contemporâneo, amigo e rival de Metternich, é objeto de um estudo que li do historiador francês Emmanuel de Waresquiel e que não deve ser confundido com sua biografia do diplomata. Mas foi graças a Stendhal que comecei a gostar dos livros de Waresquiel, que publicou em 2020 curto volume sobre o escritor, de quem é a bela frase do título, J´ai tant vu le soleil. O livrinho é apresentado por Waresquiel de forma desmerecidamente modesta, como algo “rápido e sucinto demais para ter qualquer valor científico”. Seu propósito é comentar, sem pretensões, aspectos da vida de Stendhal, mas nesse processo Waresquiel ilumina sua própria personalidade e o ato de escrever. “Para quem provou da profunda atividade que é escrever”, diz ele por exemplo, “ler se torna um prazer apenas secundário”.

O livro sobre Stendhal despertou em mim grande interesse pelo estilo do historiador. Li, em seguida, sua visão sobre o processo de Maria Antonieta, Juger la reine, de 2017, e seu livro sobre a Revolução, também publicado em 2020, Sept Jours: 17-23 juin 1789. Neste último, ele desmonta a fábula sobre a suposta bondade e a tolerância de Luís XVI. Mostra, ao contrário, um soberano aferrado aos seus direitos e à herança absolutista, mas sem a firmeza de personalidade necessária para enfrentar o desafio do momento histórico. Waresquiel demonstra que a Revolução se tornou um fato irreversível em decorrência de eventos ocorridos naquela semana de 17 a 23 de junho. Mais do que propor uma história da Revolução, ele se concentra sobre esses sete dias cruciais, apresentando as motivações, as falhas, os êxitos dos diversos atores. Trata de maneira original um tema analisado já tantas vezes, jogando sobre ele uma luz nova. Sua análise sobre o processo de Maria Antonieta, em Juger la reine, mostra as múltiplas razões sociais e políticas por trás de sua condenação e o paralelismo da execução, pelo Terror, da maioria de seus próprios acusadores, cuja vida e personalidade Waresquiel detalha.

Ao arrumar as prateleiras de livros em Kuala Lumpur, após abrir a mudança em maio, pensei um pouco em Walter Benjamin. Em artigo de 1931 intitulado “Desembalo a minha biblioteca”, ele narra a experiência de tirar os livros das caixas e de colocá-los nas estantes, tendo tido que ficar dois anos sem vê-los. Uma frase lembra a de Emmanuel de Waresquiel no estudo sobre Stendhal. Benjamin diz que os escritores escrevem “por insatisfação em relação aos livros que eles poderiam comprar, mas que não os agradam”.

Pensei muito mais, porém, no nosso próprio delegado Espinosa. Seu criador, o psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza, morreu em abril de 2020, aos 83 anos. É uma tristeza pensar que já não teremos novos romances policiais intrinsecamente cariocas com o seu detetive de nome e índole filosóficos. Garcia-Roza é um desses escritores que eu teria gostado de conhecer pessoalmente, o que teria sido fácil, pois tínhamos amigos em comum. Mas ele partiu sem que eu nunca tenha feito nada a respeito. Fica então o arrependimento.

Espinosa mora no bairro Peixoto, ao lado do qual, na rua Anita Garibaldi, vivia minha avó, e no coração do qual, na Décio Vilares, em frente à pracinha, morava e clinicava uma psicanalista grande amiga de minha mãe, Imelde Farah, que foi para meus irmãos e para mim mais do que uma tia. Neste momento, passo os olhos por Espinosa sem saída e vejo que Irene, namorada do detetive, inspirou a personagem de um conto que escrevi em francês, há dez anos, e que nunca publiquei. Percebo agora, aliás, que em outro conto meu em francês o personagem principal, detetive carioca introspectivo, sofreu clara influência de Espinosa.

Em Perseguido, o detetive de Garcia-Roza sai mais cedo da delegacia para caçar mais livros em um sebo. Lemos que em sua casa não há estantes ou prateleiras, mas sim “uma singular obra de engenharia doméstica”. Espinosa amontoa os volumes contra a parede, em sucessivas camadas, alternadas, de livros deitados e de livros na vertical: “uma biblioteca em estado puro, sem nenhum elemento que não fosse livro”.

Sozinho em Kuala Lumpur durante a maior parte do ano de 2020, com a presença apenas de Kiki, a gata persa dourada, muitas vezes olhei para as montanhas de livros no chão, sem ânimo para arrumá-los nas estantes, e pensei em Espinosa e na morte de seu criador. A ambos dedico estas páginas.

As fotos nas capas dos livros de Garcia-Roza são de Bel Pedrosa

Este texto foi primeiro publicado em Estado da Arte, em 30 de janeiro de 2021

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Um dia em Lisboa

Um dia em Lisboa

Como Titina mora em Lisboa há muitos e muitos anos, visitá-la não é para mim tão fácil ou corriqueiro, mas o resultado é que a cidade está sempre presente na minha imaginação. Ir a Lisboa ver minha irmã nunca foi, por outro lado, um sacrifício, pois gosto muito de estar lá. A cidade se tornou, de uns anos para cá, um centro artístico e gastronômico. A cada visita percebo diferenças que fazem dela um destino sempre mais atraente. Devo supor que as motivações dos turistas e dos residentes estrangeiros são iguais às minhas: o clima ameno no inverno, o charme de seus bairros históricos, a segurança nas ruas e a sensação transmitida de que a vida pode ser fácil e ensolarada. Um passeio simples pelas ruas do Chiado, do Bairro Alto, da Alfama, da Mouraria e de tantos outros bairros já basta para nos fazer sentir a delícia de estar vivo.

Fator adicional, para mim, é a excelência das livrarias. Um dia ideal, em Lisboa, inclui visitar as minhas prediletas.

Na minha primeira viagem a Portugal, aos 19 anos, adotei a Bertrand. Como eu quase sempre me hospedo no Chiado, ela me serve como uma mistura de livraria e de espaço prático para fazer uma pausa do sol, do calor, do frio, da agitação; para entrar, isolar-me do mundo por alguns minutos em um ambiente conhecido, seguro, e voltar a sair, com renovado entusiasmo. Na sala principal, a primeira, passei já muitas horas da minha vida. Mais adiante, a cavernosa enfileirada de arcos sugere a promessa de tesouros a serem descobertos. Mesmo uma livraria fundada em 1732 e instalada em 1773 no local atual, na Rua Garrett, pode nos reservar surpresas. Em 2017, descobri que os sucessivos ambientes desembocam agora em um café, com um mural representando Fernando Pessoa.  

Saindo da Bertrand, se desço a Rua Garrett e viro à direita na Rua Nova do Almada, chego à Livraria Ferin, a segunda mais antiga da capital. Esse é, por excelência, um lugar elegante, e me lembra duas de minhas livrarias preferidas, a Galignani em Paris e a Hatchards em Londres. O ambiente é acolhedor, e a oferta de livros, inclusive franceses, é sempre interessante, particularmente na área de história. Minha única queixa não é culpa da livraria: é que sonho, até hoje inutilmente, em conseguir fotografar sua fachada sem carros estacionados em frente. Já me aconteceu de ficar longos momentos na calçada oposta, celular à mão, esperando poder captar um momento em que a rua estivesse despejada. Já me aconteceu também de pensar, nessas horas, que os funcionários da Ferin, se me notaram alguma vez, pela vitrine, parado na rua, olhando insistentemente em direção ao prédio, devem ter estranhado ou mesmo ficado preocupados. A rigor, a fachada da livraria em nada se diferencia, arquitetonicamente, das demais nessa rua pombalina. É bem mais sóbria do que a da Bertrand com seus azulejos azuis. Mas algo ali me atrai, talvez o que sei do ambiente atrás da porta; ou talvez a forma arqueada como a palavra “Librairie” é gravada, na pedra do lado esquerdo da porta, sobre o resto da inscrição, “de A. Ferin”. No pilar do outro lado da porta está gravado “Atelier de reliure”, com a palavra “Atelier” também arqueada.

Sempre frustrado na minha tentativa de fotografar a fachada da Ferin sem carros estacionados diante dela, retomo meu passeio.

A concentração de livrarias nessa área de Lisboa, na verdade, é impressionante, pois logo ali, ao lado da Ferin, nos Armazéns do Chiado, está a moderna FNAC. E se eu voltar à Rua Garrett e subi-la, um ou dois quarteirões depois da Bertrand encontro a Sá da Costa, que deve ser o maior receptáculo de livros de segunda mão que conheço, depois da Strand em Nova York. Um dos charmes de Lisboa são os vários sebos que podem ser visitados confortavelmente em um passeio a pé. Caminha-se vendo apenas ruas harmoniosas, fachadas do século XVIII, e entra-se aqui ou ali em um alfarrabista. A Sá da Costa lembra vagamente um daqueles lugares de Bruxelas que aparecem nos álbuns do Tintin, misteriosos, mágicos. Feira da Ladra ou casa de algum antropólogo ancião, sentimos ao entrar que lá terá início uma aventura. Além dos livros, há por ali, espalhados pelas vitrines ou pelas salas, estátuas de madeira, porcelanas antigas, globos terrestres e mapas emoldurados nas paredes, inclusive um representando, na Antiguidade, o que hoje é o Oriente Médio. 

Saindo da Sá da Costa e andando até a Praça Luís de Camões, posso tomar a Rua da Misericórdia, onde grandes felicidades me esperam.

A primeira livraria a aparecer é a Bizantina. Na última vez em que lá estive, fiquei maravilhado, porque vi em uma prateleira a primeira edição inglesa de Justine, de Lawrence Durrell, que tenho em casa. Há muitos anos, retirei da estante de meu pai, no Rio, o seu exemplar e nunca o devolvi. Nem gosto particularmente do romance, mas há algo de lúdico no volume: a grossura e o cheiro do papel, a textura da capa. Sobretudo, há a minha constante ingenuidade de achar surpreendente ver em um sebo edições que já possuo. Nunca falha, sempre fico feliz quando isso acontece.

Em 2018, considerei algo extraordinário encontrar na Livraria Antiquária do Calhariz a edição em cinco tomos dos Sermões do Padre António Vieira pela Lello & Irmão, que minha mulher tem desde sempre. Chega a ser engraçado, eu me encantar de ver em um alfarrabista lisboeta a edição clássica e famosa, mas não muito antiga — é de 1959 — de um grande autor português, publicada por uma casa editorial portuguesa.

Poucos metros depois da Bizantina, no Largo Trindade Coelho, esteve até 2020 a Olisipo, onde, ao longo dos anos, comprei vários livros. Seu interior era sedutor. O ambiente era arejado, entrava a luz do sol e eles vendiam também gravuras e mapas antigos. Algumas encadernações eram estupendas. Na última vez em que lá estive, em julho de 2017, senti falta da presença do proprietário e fundador, José Ferreira Vicente, que nunca, anteriormente, eu deixara de ver. Descobri depois que ele morrera em janeiro daquele ano. Era um homem educado. Quando estou sozinho, costumo ficar mergulhado nos meus pensamentos; por isso, creio nunca termos trocado palavras muito distintas de “boa tarde” e “obrigado”. Sinto seu desaparecimento, no entanto, como o de uma presença bem familiar, de que sentirei falta. A Olisipo mudou-se para outro endereço. Não sei quando poderei voltar a Lisboa e ver como ficou instalada a livraria, agora na Avenida Infante Santo. O antigo espaço ficará para sempre gravado em mim.

Pouco depois do Largo Trindade Coelho, chega-se ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, com a sua vista famosa sobre Lisboa, o Castelo de São Jorge e o Tejo ao fundo. Essa e outras vistas sempre me fazem pensar em um melancólico e marcante filme de 1983 de Alain Tanner, A Cidade Branca, em que Bruno Ganz faz o papel de um marinheiro suíço desembarcado em Lisboa. Na vida real, as portas e as fachadas coloridas ou azulejadas de alguns bairros, como o Chiado e o Bairro Alto, dão uma visão bem diferente, a de uma cidade cálida, vibrante e receptiva aos viajantes.

Em um dia de férias típico meu em Lisboa, a esta altura terei já comprado vários livros e irei adiante até o Jardim do Príncipe Real, para lê-los sentado em um banco sob o sol.

Em 2019, pude passar apenas vinte e quatro horas em Lisboa. Meu roteiro habitual de visitas a livreiros não pôde ser cumprido. Além da Bertrand e da Ferin, onde entrei somente para ver as novidades, respirar o ambiente, ter certeza de que essas duas velhas amigas estavam bem — preocupação inútil, pois elas seguirão existindo quando eu desaparecer — estive em um sebo apenas.

Existe, na Rua de O Século, um alfarrabista que ocupa dois espaços pequenos. Sei hoje que ele se chama Alexandria, mas só em 2019 notei haver placa discreta com o nome. Nos anos anteriores, podia-se passar pela rua, aliás bem tranquila, sem perceber haver naquele ponto uma livraria. Se minha irmã não fosse freguesa, nunca eu a teria descoberto. É um lugar especial, sobre o qual já escrevi anteriormente, em uma crônica de 2018, O Embrulho Vermelho, cujo fio condutor é justamente um livro que Titina lá comprou, naquele ano, para me dar de presente. O sebo é forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. O nome da rua me intrigava muito, e eu a incluía entre os muitos logradouros lisboetas cuja denominação me soa poética, como Travessa da Água-da-Flor, Travessa da Boa Hora, Travessa da Espera, Rua da Horta Seca e Rua das Flores, que faz pensar imediatamente em Eça de Queiroz. Um dia, descobri não haver nenhuma intenção metafísica no nome O Século. Trata-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia.

Na Alexandria, o livreiro é prestativo, mas discreto. Deixa-me à vontade, no espaço pequeno. Os preços são honestos. Uma vez, quis mostrar o sebo a um primo português, o escritor e biógrafo José Norton. Este me convenceu a comprar uma edição barata e surrada, em três volumes pequenos, vermelhos, de capa dura, dos Mistérios de Lisboa. Devo assim a ele meu primeiro contato com Camilo Castelo Branco. Em 2018, vi empilhados no chão 8 dos 21 volumes da correspondência de Proust editada por Philip Kolb. Fiquei tentado. Não os comprei. Nas minhas 24 horas lisboetas em setembro de 2019, voltei lá para sondar se os volumes tinham sido vendidos. De fato, tinham. Arrependi-me bastante.

Em 2020, com as fronteiras da Malásia fechadas por causa da pandemia, não visitei minha irmã. Pelo que já pude ver de 2021, neste mês de janeiro tão parecido com o ano passado, parece improvável que eu consiga consiga vê-la antes de 2022. Pergunto-me se a feira de livros ao ar livre, aos sábados, na Rua Anchieta — com as mesas do lado esquerdo, nos primeiros metros da calçada, colocadas ao longo dos azulejos da Bertrand — tem acontecido, nestes tempos atípicos para todos. Poderia perguntar à Titina. Mas há algo lúdico em permanecer na dúvida. Prefiro sonhar com os livros expostos na calçada, em pleno Chiado. Esperam a minha volta, quando passarei novamente pela Rua Anchieta, transformada todo sábado em um corredor de deleites. Esperam seduzir-me.  

Versão atualizada de texto primeiro publicado na revista literária Pessoa, em 19 de outubro de 2020

Todas as fotos foram tiradas pelo autor

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As frutas de Perak

As frutas de Perak

Foi do Sultão de Perak que recebi, neste Natal, o meu primeiro presente. Na verdade, fui eu quem, ao recebê-lo no final de novembro, decidi considerá-lo assim. Fiquei bem contente de poder antecipar a época natalina, pois esse é, para mim, o momento mais esperado e desejado do ano.

Certamente, isso é um resquício da infância. Durante anos, na Bélgica, descer as escadas com meus irmãos, na manhã do dia 25 de dezembro, ainda de pijama, para ver os presentes sob a árvore decorada na sala, com a neve cobrindo o quintal e o ambiente rural ao redor da casa, era a experiência mais mágica do ano inteiro. Abro neste minuto um livro de 2019 de Jean-Yves Tadié de artigos ou ensaios curtos seus sobre Proust, um dos presentes de Natal que, complacentemente, em dezembro dei a mim mesmo. Caio em uma citação de La Recherche a respeito de adultos rememorando a infância: “eles se perguntam se, naqueles anos felizes, o inverno não era a mais bonita das estações”.

Há outras razões, pessoais e filosóficas, para minha continuada veneração pelo Natal. Minha mulher e eu fazemos aniversário na mesma data, em meados de janeiro, e assim o Natal é um conceito abrangente, que engloba pelo menos todo o mês de dezembro e vai até a terceira semana de janeiro. Essa é a época das comemorações, da sensação de leveza, do sentimento de que pode haver harmonia entre os seres humanos. É a época da felicidade. Todo ano, prolongo ao máximo esse estado de espírito. Duvido que alguém queira me criticar por isso.

Quanto ao aspecto filosófico da questão, direi que o Natal, independentemente da importância religiosa da data, de que nesse dia se celebra um nascimento, parece ser como um resumo, uma explicação do sentido da vida. É algo que espero o ano inteiro, na expectativa de alegrias sem fim; mas depois que ele chega, termina rápido demais. Mal me preparei para festejá-lo, e ele acabou. Acredito que a data ainda está por vir, e ela já é passado.

O Sultão de Perak, Nazrin Shah, com graduação em Oxford e mestrado e doutorado em Harvard, deve ser o único soberano e a única alteza real no mundo com competência para escrever obras de história econômica. Seus livros, publicados pela Oxford University Press, têm títulos como Charting the Economy: Early 20th Century and Contemporary Malaysian Contrasts (2017) e Striving for Inclusive Development: From Pangkor to a Modern Malaysian State (2019). Pangkor é uma ilha em Perak, e é também o nome do tratado pelo qual, em 1874, o Reino Unido assinou com o Sultão de Perak de então o acordo que iniciou o processo pelo qual, em poucas décadas, toda a Península Malaia passou a estar sob controle britânico. Até 1874, o Reino Unido estava presente apenas em Penang, Malaca e Singapura, que juntas formavam a colônia conhecida como Straits Settlements.

Na capa de Charting the Economy, os dois “o” do título são representados por uma semente de seringueira e grânulos de estanho. Como toda criança brasileira aprende na escola, a exitosa inserção na Península Malaia de sementes de hevea brasiliensis roubadas da Amazônia pelos britânicos, nos anos 1870, pôs fim ao ciclo da borracha no Brasil. Uma ironia é que, hoje, importamos borracha da Malásia.

Nos dois livros, vemos como os seringais e as minas de estanho sustentaram, durante décadas, a economia da Malaia britânica. Após a independência, em 1957, o novo país começou a diversificar sua produção. Explica o Sultão de Perak: “dependence on a limited number of primary commodities with highly volatile prices had been recognised as being an unsustainable economic strategy”. O estanho é um produto não-renovável, e a borracha natural é substituível. A Malásia se transformou. Passou a exportar produtos elétricos e eletrônicos e maquinaria. Desde 1971, a política econômica, voltada para a eliminação da pobreza, inclusive por meio de ações afirmativas, de ampliação do acesso à educação e de políticas de transferências diretas à população menos favorecida, pode ser sintetizada com a frase “growth with equity”. É surpreendente ver uma alteza real — que, pelo sistema rotativo entre os sultões para a ascensão ao trono malásio, deverá se tornar em janeiro de 2029 o XVIII Rei da Malásia — citar Thomas Piketty como fonte para seu pensamento sobre a questão da distribuição de renda.   

Do Sultão Nazrin Shah, eu já havia recebido seus dois volumes sobre a história econômica da Malásia. Fiquei então intrigado com o novo presente, de que foi portador um amigo comum, Timor, que, de partida para a Califórnia, onde passaria longos meses com sua família, veio, exemplarmente, se despedir de mim. O presente real é um livro, com texto e fotografias de Omar Ariff Kamarul Ariffin, intitulado The Incredible Fruits of Perak. Nazrin Shah e sua mulher, a princesa Zara Salim, contribuíram para a publicação da obra. Como outros bonitos livros promovidos por eles, o volume ajuda a divulgar Perak, conferindo-lhe uma personalidade própria frente aos outros estados malásios.

Lançada em 2019, a obra descreve as características de cem frutas, a maioria nativas de Perak, mas algumas também exóticas. Dezenas de outras são mencionadas. Há no estado de Perak, segundo explica a princesa Zara Salim no prefácio, ao menos cinquenta cidades ou vilarejos cujos nomes celebram frutas nativas.

Em minha primeira Carta da Malásia — as cinco cartas publicadas anteriormente estão coletadas em Ilhas Misteriosas — relatei viagem que fiz à ilha de Penang e contei que a paisagem de Perak, vista do trem, lembrou-me a da Mata Atlântica. Folheando o livro sobre as frutas do estado, constatei sem surpresa que algumas existem no Brasil. Quem poderia imaginar que a pitangueira, originária da América do Sul e de que temos um exemplar no quintal em Brasília, adaptou-se na Malásia com o nome de cermai belanda? O autor nos dá a informação de que a fruta também é conhecida como “pitanga” ou Brazil cherry. A brasileiríssima e corriqueira carambola aparece logo no início do livro, com o nome de belimbing manis, e aprendo que ela é na verdade originária do Sudeste asiático e do subcontinente indiano. A carambola é conhecida na Malásia também como kembola e, sim, “carambola”.

A maioria das frutas descritas no livro é, porém, desconhecida para mim. Há muitos anos, em Belém, na praça do Theatro da Paz, tomei pela primeira vez um suco de cacau. Das lembranças mais fortes que guardo da cidade está a surpresa que tive então diante da variedade de frutas de que eu nunca ouvira falar. The Incredible Fruits of Perak causa em mim a mesma sensação. Pensar que vivi até hoje sem provar melinjau, rawa e tampoi, entre muitas outras. A melinjau parece particularmente apetecível.

Uma das anedotas itamaratianas de que mais gosto é a história, acontecida não faz tantos anos, em que um estadista indiano visita Brasília. Como é costume, é homenageado com um jantar. Como sempre acontece, na hora da sobremesa trazem à mesa não só o doce, como também uma bandeja de frutas, onde há inclusive mangas fatiadas. O visitante exclama, acredito que de boa-fé e sem ironia: “Que ótima surpresa! Vocês foram atenciosos a ponto de mandar me servir uma fruta indiana”. Ele tinha razão, a manga é originalmente da Índia. É tão adaptada à realidade brasileira, porém, que cresce sozinha por todo canto em Brasília, e eu mesmo durante muito tempo acreditei ser ela originalmente brasileira. No nosso quintal no Lago Sul, ao lado da pitangueira, há duas enormes mangueiras. No final de dezembro, elas atingem o auge da produção. Seus galhos, no Natal, devem ter ficado pesados, carregados de mangas rosadas, de diferentes tonalidades avermelhadas, que me fazem sempre pensar, quando as vejo de longe, nas maçãs estilizadas que, criança, eu colocava em toda árvore que desenhava.  

Graças assim à visita de despedida que me fez Timor, trazendo em um único volume, como presente real, uma centena de frutas de Perak, entrei cedo no clima natalino.

Menos de quatro semanas depois, tive de lidar com preocupações mais transcendentais do que a economia malásia ou as semelhanças entre a flora brasileira e a da Península Malaia. No domingo antes do Natal, vi-me caminhando, à noite, pelo gigantesco aeroporto internacional de Kuala Lumpur, vazio e abandonado. Eu lá não pisava desde abril, quando fora me despedir dos brasileiros sendo repatriados por causa da COVID-19. Naquela ocasião, já havia menos voos, mas os que se mantinham estavam lotados, por causa do novo coronavírus, de malásios voltando ao seu país ou de estrangeiros regressando aos seus. A própria alegria dos meus compatriotas de poder voltar para casa e enfrentar a pandemia com seus familiares tornava o ambiente, para mim, eletrizante. No domingo logo antes do Natal, pareceu-me o aeroporto, que eu conhecera tão movimentado, lúgubre no seu abandono.

Como eu sabia, os problemas filosóficos que passavam pela minha cabeça, enquanto eu circulava pelo aeroporto entristecido, logo receberiam resposta: “Ela vai me achar bem ou envelhecido? Magro ainda? Aprovará esta camisa?”. Pois se eu lá estava, era para esperar minha mulher, que chegava de Singapura. Recebera ela autorização da Malásia, apesar das fronteiras fechadas nos dois países, para vir passar uns dias de férias. Teríamos de fazer quarentena, mas, felizmente, em casa.

Após uma separação forçada de dez meses, por causa da pandemia e o consequente fechamento das fronteiras, era um verdadeiro milagre natalino que eu estivesse ali, esperando por ela. Pensei ser personagem de algum filme ingênuo, típico da estação, It´s a Wonderful Life talvez, ou Love Actually

Não direi que a ceia de Natal foi a melhor que já tivemos, porque faltou nossa filha, que mora em Bruxelas, e para quem as fronteiras malásias e singapurenses permanecem fechadas. Mas foi deliciosa. Após as incertezas de todo o ano, compartilhadas com a humanidade inteira, e uma prolongada separação, era possível pensar que, afinal, a nossa era uma história que terminava bem. Como devem terminar os contos natalinos.

Esta minha VI Carta da Malásia foi primeiro publicada, como as cinco anteriores, em Estado da Arte, em 7 de janeiro de 2021

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Mozart desaparecido

Mozart desaparecido

Existe em Veneza uma placa de pedra, colada na parede de uma casa de cor ocre situada ao lado de uma pequena ponte. Sempre que passeio sem rumo pela cidade, em algum momento vejo a placa, em geral quando menos espero. Há momentos em que a procuro, não encontro a ponte de onde poderia vê-la, desisto e, no dia seguinte, por acaso, passo por ela. A cada vez, é a mesma surpresa. Fico sem entender que caminhos circulares me levaram até ali.

A placa comemora a estada de Mozart naquela casa por um mês, em 1771, quando ele tinha quinze anos. Leopold, seu pai, o acompanhava, mas é ignorado nos dizeres na pedra. Quando minha mulher e eu estivemos em Veneza pela última vez, em setembro de 2019, a placa estava decorada com uma guirlanda de folhas secas, e assim eu a fotografei. Parecia uma janela barroca.

O texto transmite justamente aquilo que, desde minha leitura das Memórias de Casanova, na adolescência, associo ao espírito veneziano do século XVIII. Caracteriza a cidade como sendo a de Vivaldi e Goldoni. Diz que Mozart, “il fanciullo salisburghese”, passou em Veneza, de forma festiva — “festevolmente” — o carnaval daquele ano. Só de ler essas palavras, os olhos comunicam à alma uma sensação de leveza.

Como todos nós, eu jamais poderia ter previsto naquele dia de setembro em Veneza, há mais de um ano, enquanto atravessava a ponte e fotografava a placa, que uma pandemia surgiria pouco tempo depois. Os meses imediatamente anteriores a fevereiro de 2020 parecem-me, hoje, mais inocentes do que até mesmo os anos da minha primeira infância. Revestem-se de uma aura de alegria, liberdade e despreocupação. Isso é, naturalmente, apenas uma fantasia post facto, mas demonstra o impacto causado pela Covid-19.   

À medida que a pandemia se eterniza, a atitude filosófica com que eu a encaro parece-me mais e mais estoica. Fiquei quase dez meses sem ver minha mulher; são já onze sem ver minha filha ou minha mãe. No meio do caminho, em julho, minha tia, também madrinha de batismo, morreu de Covid-19. Inúmeros amigos contraíram o vírus mas sobreviveram. A vida cotidiana mudou para todos.

Em maio, mergulhado no confinamento compulsório na Malásia, afirmei em Roma não está mais em Roma que, no meio do isolamento social, não precisamos ficar tristes pela saudade de amigos, de nossa família ou de lugares, pois eles estão em nós e nos acompanham aonde vamos. Quase oito meses transcorreram desde então. As fronteiras da Malásia, de Singapura e da União Europeia continuam fechadas, o vírus segue presente entre nós; as festas de final de ano fazem ver que 2020 termina, e as reuniões familiares estão ainda prejudicadas.

Durante o confinamento na Malásia, entre março e maio, uma válvula de escape foram as transmissões gratuitas pela Internet de espetáculos gravados meses ou anos antes, por diferentes teatros, companhias ou orquestras. Avaliei em Cleópatra no Escritório que, por mais lúdico que fosse para o público acessar essas transmissões, para os intérpretes a pandemia criava uma situação insustentável a longo prazo. Por razões financeiras, e também porque o artista precisa de plateia tanto quanto de ar.

De meu conhecimento, apenas a Metropolitan Opera continua transmitindo gratuitamente, de forma regular, alguns de seus espetáculos. A mesma produção de Don Pasquale já passou ao menos três vezes desde março. Essa é uma ópera que me acompanha desde os vinte anos. Não há tédio e tensão que sobrevivam às risadas que ela provoca. Gosto infinitamente do libreto e da música. Endosso o comentário de Zito Batista Filho, em seu livro A Ópera: “Tudo termina bem, como convém a uma ópera bufa que é, aliás, uma das mais belas em seu gênero”.

Quantas vezes, porém, pode um admirador de Donizetti assistir à mesma produção de Don Pasquale, ainda que excelente, e ver Anna Netrebko no papel de Norina, no mesmo cenário, com as mesmas roupas, na mesma gravação? Netrebko esteve hospitalizada, em setembro, com Covid-19, mas li que se recuperou bem. Ela pode voltar a cantar nas casas de ópera da Europa que venham a reabrir ou novamente fechar em função dos meandros da pandemia. Já a Met Opera permanecerá ociosa até setembro de 2021, e não paga desde abril aos seus músicos — ao menos um dos quais morreu de Covid-19 logo no início da pandemia. Um dos parceiros de Anna Netrebko em Don Pasquale, o barítono polonês Mariusz Kwiecien, anunciou, também em setembro, que, embora ainda jovem, já não cantaria nos palcos, por um problema de coluna. No mundo eternizado dos vídeos da Metropolitan, porém, nada mudou. A orquestra está intacta. Donizetti nos encanta. Anna, no papel de Norina, e Mariusz, no de Dr. Malatesta, estão saudáveis, e ela se casa em todas as transmissões com Ernesto, personificado pelo tenor Matthew Polenzani.

No futuro, haverá análises acadêmicas sobre como a repetição incessante pela Met Opera, ao longo de 2020, das mesmas gravações de algumas de suas produções terá influenciado a estética teatral no mundo. Em setembro de 2019, em Covent Garden, assisti a uma estupenda produção de Agrippina, de Handel, com Joyce DiDonato no papel-título, como mencionei em O Delacroix de Chelsea. Uma das últimas apresentações pela Metropolitan, em março de 2020, antes de seu fechamento, foi justamente a de outra produção da mesmíssima Agrippina, com a mesmíssima Joyce DiDonato. A montagem do Lincoln Center já foi transmitida duas vezes nas últimas semanas e, a esta altura, virou minha referência, suplantando a de Covent Garden, embora esta talvez fosse melhor.

Nunca pensei que teria a sorte de assistir a Nixon in China, que meu amigo Hélio sempre me recomendara. John Adams, como compositor, e Alice Goodman, como libretista, conseguem a façanha de tornar interessante uma ópera contemporânea (1987) sobre um tema de política externa — que é agora também, tantos anos depois do evento descrito, um tema de história diplomática. É uma obra artística que talvez estimule o estudo das relações internacionais. Duas noites, ao longo dos meses de pandemia, pude ver e ouvir a soprano Janis Kelly cantar a ária This is prophetic, em que Pat Nixon, em Beijing, prevê um mundo mais simples e portanto, nessa visão, mais feliz:

and everywhere the simple virtues root
and branch and leaf and flower.

Uma ópera que não morava no meu coração é Idomeneo. Não guardo lembrança alguma da única vez em que a vi no palco, em Bruxelas, há dez anos. Assistir no computador duas vezes, em pouco tempo, à produção da Met Opera deixou-me agora entusiasmado por essa opera seria mozartiana. Luxuosamente barroco, montado por Jean-Pierre Ponnelle em 1971, e parecido com a sua produção de La Clemenza di Tito, esse Idomeneo revela belezas na música que eu anteriormente não notara.

Matthew Polenzani, que poucas noites antes parecera ser o simplório Ernesto apaixonado pela esperta Norina, reaparece transformado em figura mitológica, majestática, o heroico Rei de Creta, ele mesmo, Idomeneo, regressando da Guerra de Troia. A ária final de Electra — em que ela enlouquece de amor não correspondido — tal como interpretada pela soprano Elza van den Heever é uma grande cena de teatro. Arrasta-se ela pelo chão, com olhar alucinado, afastando freneticamente do vestido de Corte do século XVIII, com as mãos, as Fúrias que somente ela vê, enquanto a elas suplica: “Squarciatemi il cuore, ceraste, serpenti”. Na estreia da ópera em 1781, em Munique, essa foi uma das árias cortadas por Mozart, para encurtar a produção, e isso já é motivo para pensar como é bom estar vivo em 2020, em vez de no século XVIII. Na produção de Ponnelle, Electra morre no palco, contorcendo-se, ao terminar a ária. Menos dramaticamente, o libreto nos diz que ela “parte, infuriata”.   

Desde outubro, o aumento no número de casos de COVID-19 na Malásia criou novas restrições à vida social. Em novembro, impossibilitado de ver minha família, condenado de noite, ao voltar do trabalho, a ver uma vez mais no computador Anna Netrebko ou Joyce DiDonato nos mesmos papéis em que já as vi várias vezes desde março, senti um dia que precisava recuperar alguma lembrança da infância, de repente transformada, na minha fantasia, em época em que tudo era perfeito.

Foi então que pensei no disco de Mozart.

Aos 8 anos de idade, ganhei de presente dos meus pais, na Bélgica, um disco de vinil com duas sinfonias do “fanciullo salisburghese”, a Nº 40 em sol menor e a “Júpiter”. Durante muitos anos, esse disco foi um dos meus tesouros. Mesmo hoje, pego-me frequentemente cantarolando as duas sinfonias. A própria composição gráfica da capa era sedutora, com uma moldura azul celeste e, no centro, a reprodução de um quadro barroco repleto de personagens em uma cena rural.

A música de Mozart parecia revelar as complexidades, portanto as decepções, que aguardam todo ser humano, mas trazia também a cura mágica. Quando, na mesma época, entendi que um dia eu já não respiraria, não pensaria, não sentiria, saber que o compositor de dons terapêuticos também se extinguira tornou a perspectiva menos assustadora. O que consolava antecipadamente da morte era lembrar que Mozart morrera um dia. Hoje, como vivi já bem mais do que ele, que morreu tão jovem, esse pensamento produz um efeito menos benéfico. Comparo quem ele foi com quem eu sou, com tantos anos a mais na Terra, e considero-me insatisfatório. É cruel, injusto com Mozart, que eu viva mais do que ele e não produza algo como Don Giovanni ou Così fan Tutte ou a Sonata para Piano K.331.   

Nada ilustra mais a maldade representada pelo desaparecimento do compositor aos 35 anos, em 1791, do que um trecho das Conversações com Goethe de Johann Peter Eckermann. Quarta-feira 3 de fevereiro de 1830: “Jantei em casa de Goethe. Falamos de Mozart. Goethe disse: ‘Eu o vi, garoto de sete anos, quando ele dava um concerto em uma de suas viagens. Eu mesmo tinha então cerca de catorze anos, e me lembro ainda muito nitidamente daquele garotinho de peruca e espada na cintura’. Fiquei boquiaberto. Pareceu-me prodigioso que Goethe fosse velho o suficiente para ter visto Mozart criança”. Como Eckermann, fico eu também “boquiaberto” com isso. O romancista, poeta, dramaturgo, cientista e membro da Corte de Weimar tinha 80 anos na noite desse jantar em 1830.

Em outra conversa, Goethe afirma que só Mozart teria sabido transformar em ópera o seu Fausto, publicado em 1808, dezessete anos depois da morte do compositor. Para mim, o comentário é doloroso, porque traz à tona outro sentimento muito presente na minha adolescência, o da perda de obras magníficas que nunca escutaremos, porque Mozart morreu cedo demais para compô-las.

No apartamento em Kuala Lumpur, ansiei pelo consolo do disco da minha infância com as duas sinfonias. Guardo com carinho os meus antigos LPs. Fui até a estante onde eu os colocara, ao abrir a mudança em junho. Embora eu não tenha ainda conectado aquilo que se costumava chamar de vitrola, era possível ao menos olhar e segurar o disco de Mozart, admirar a capa, alisar o vinil. Isso não apresentava qualquer problema.

Só que sim.

Simplesmente, o disco desapareceu. Estão todos lá, os LPs que me acompanharam na infância e na adolescência, antes da chegada do CD, e que ajudaram a formar minha personalidade. Todos, não. Do disco com as duas sinfonias, não há sinal. Não consigo lembrar em que momento ele sumiu. Terá quebrado? Ou ficado tão arranhado que, em um ato de desapego pouco característico, eu o joguei fora? Vai ver, simplesmente desapareceu, como tudo na vida desaparece, assim, sem razão, como o próprio Mozart partiu um dia.  

Quis verificar o nome do regente e da orquestra na gravação. Uma busca na Internet, em poucos minutos, mostrou-me a capa. Vi então que a cena rural no centro é um quadro de Rubens. Meu apreço pelo pintor é sólido, resquício da infância passada na Bélgica. Houve a decisão, em setembro de 2019, já que eu estava de férias na Europa, de ir até Antuérpia apenas para revisitar sua casa; há as costumeiras tentativas, que consigo sempre frustrar, de rever no Louvre seu ciclo sobre a vida de Maria de Médicis.

A verdadeira surpresa da capa porém era outra. O regente, Karl Ritter, e a Orchestre de la Société des Concerts de Vienne nada me diziam. E nem poderiam. Nunca existiram. No século XIX houve um compositor menor, com esse nome, que foi aluno de Schumann. Somente uma busca intensa na Internet permitiu-me colher essa informação. Esse aluno de Schumann obviamente não poderia ter gravado um disco na segunda metade do século XX. Em resumo, meu disco de Mozart, descobri em Kuala Lumpur tantas décadas depois, era um genérico, copiando uma gravação fidedigna, mas modificando os nomes do regente e da orquestra para evitar direitos autorais ou problemas legais. Era um disco pirateado.

Essa descoberta propiciou o consolo desejado, ainda que não da forma prevista. A falsidade nos nomes dos artistas, na capa do vinil desaparecido, fez-me perceber o deslocamento que eu promovera ao longo do tempo. Atribuíra poderes encantatórios a um objeto material, em vez de à música nele gravada. O importante não era o disco, aquele fetiche que sobrara, por alguns anos, da infância. A música é o que conta. Um disco de vinil quebra. Não deixa rastros. Como as sucessivas idades da infância, ele se desvanece. Mozart morre. O que ele teve tempo de criar permanece, dando sentido à vida.

A infância não foi bonita e segura porque vivida na era pré-pandemia ou por causa da forma como transcorreu. Ela teve, a bem da verdade, os seus dramas. Preservar ou perder o disco não muda nem o passado e nem o presente. Depende só de nós valorizar a música, em vez do objeto. Depende só de nós, mesmo nos momentos mais difíceis, como este longo 2020, criar felicidade onde poderia haver tristeza. O velho LP, como Mozart, desapareceu; como as duas sinfonias, o que ele representava pode para sempre perdurar.

Este ensaio foi primeiro publicado, em outra versão, em Estado da Arte, em 5 de dezembro.

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Clarice, de Montevidéu a Malaca

Clarice, de Montevidéu a Malaca

Malaca é um nome mítico, que na minha imaginação parece exclusivamente ligado a alguma obra de ficção. Desperta tanta fantasia que não poderia ser um lugar no mundo conhecido, concreto. É porém uma cidade bem real, de tamanho médio, a menos de duas horas de carro de Kuala Lumpur. Preserva um centro histórico e ruínas de seu passado glorioso como entreposto comercial. Elo de ligação entre China, Índia e Oriente Médio, foi durante quatro séculos objeto de cobiça de potências europeias.

Malaca, onde Camões esteve em pessoa, é citada três vezes no Canto X de Os Lusíadas. Na estrofe 44 é classificada de “opulenta”. Versos na estrofe 123 resumem sua reputação:

Mais avante fareis que se conheça
Malaca por empório ennobrecido,
Onde toda a província do mar grande
Suas mercadorias ricas mande.

Nos restos da opulência do empório enobrecido, passei um sábado, em setembro. Minha curiosidade maior era visitar a Porta de Santiago, único pedaço remanescente de A Famosa, fortaleza que os portugueses erigiram após sua conquista do sultanato de Malaca, em 1511; e, em um morro logo atrás, as ruínas da igreja de São Paulo. A igreja foi originalmente construída a mando de Duarte Coelho, que seria anos mais tarde o primeiro donatário da capitania de Pernambuco. Nela esteve enterrado São Francisco Xavier, o santo cujo corpo teve sucessivamente três túmulos — Macau (mais precisamente a ilha de Sanchoão), Malaca e Goa, onde vi seu jazigo em 2016. Como Afonso de Albuquerque, que conquistou o sultanato para os portugueses, Luís de Camões também passou tanto por Malaca quanto por Goa. Sempre causa em mim forte impressão pensar na facilidade com que os portugueses andavam de um oceano a outro, um pouco como nós podemos morar no Leme e decidir almoçar no Flamengo.

A Porta de Santiago e a carcaça da igreja de São Paulo não me desapontaram. Ambas estão bem cuidadas. Do alto do morro, vê-se o Estreito de Malaca. Lápides em diferentes línguas comprovam a sequência de potências coloniais que ocuparam o território do sultanato: Portugal, Países Baixos, Reino Unido. Da janela de uma parede branca da igreja, olhei longamente a natureza; imaginei todas as gerações de diferentes nacionalidades que, ao longo dos séculos, terão visto a mesma paisagem por aquele quadrado.

A ida a Malaca concedeu-me o que eu procurava, uma reflexão sobre a sucessão dos impérios. As ruínas de uma igreja perduram, enquanto os seres humanos que por elas andam desaparecem; onde antes se rezou, passeia-se agora. O mesmo local serve de cenário para diferentes e sucessivas culturas ou repetidas práticas coloniais.

A cidade, porém, reservava-me uma surpresa.

Caminhando por uma das ruas do centro histórico, vi um muro caiado, no centro do qual havia um portão fechado por uma grade. Parei. Atravessei a rua. Acima do arco do portão, estava escrito: “Makam Hang Kasturi”. Pelo celular, vi que “makam” significa “túmulo”. A grade não estava trancada. Entrei. O recinto ao ar livre era pequeno e, embora imprensado entre um estacionamento e um templo chinês, encantador. Era uma sepultura pintada de branco, com uma pequena coluna em cada canto. Árvores floridas ocupavam o espaço mínimo entre o túmulo e o muro que o circundava. Pela cerca por cima do muro de trás, eu podia ver os carros no estacionamento, mas o lugar parecia um universo próprio, distinto da agitação e do calor da rua. Havia ali paz, sombra, vegetação e pássaros cantando. Era um oásis no coração de Malaca.

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De noite, em casa em Kuala Lumpur, tentando entender de quem era aquela sepultura, mergulhei em uma das lendas mais duradouras do imaginário malaio.

Era uma vez cinco amigos de infância que, ao crescer, se tornaram os guerreiros mais famosos, valentes e respeitados a serviço do sultão de Malaca, na segunda metade do século XV. Todos usavam o termo “Hang” antes de seus nomes, o que faz pensar ser esse um título militar ou de reconhecimento de seu valor; malásios de origem chinesa gostam de ver nisso a prova de que eles eram nascidos na China. Eles se chamavam Hang Tuah, Hang Jebat, Hang Kasturi, Hang Lekir e Hang Lekiu, sendo os três primeiros os mais famosos. Hang Tuah, particularmente, é figura central do imaginário malaio. Existe no estado de Malaca, no campo, um museu dedicado à sua história. Mais de uma aldeia é apresentada como seu lugar de nascimento. Há dois túmulos antigos no país apontados como seu jazigo. No estado de Negeri Sembilan, a marca de um pé na pedra é considerada como tendo sido deixada por ele.

Os cinco amigos — ou ao menos Hang Tuah — parecem ter sido personagens históricos, em torno aos quais diferentes lendas foram desenvolvidas. Há duas fontes principais para acompanhar as suas peripécias: o épico A Saga de Hang Tuah (Hikayat Hang Tuah) e os Anais Malaios (Sejarah Melayu), obra sobre a qual escrevi em uma de minhas Cartas da Malásia.

Há um tema fundamental na saga, com variações dependendo da fonte. Hikayat Hang Tuah nos ensina que, um dia, Hang Tuah foi injustamente acusado de manter um caso com uma das favoritas do sultão, que por isso ordena ao primeiro-ministro que mande executá-lo. Hang Jebat, decidido a vingar a morte de seu melhor amigo, entra no palácio do sultão e começa a liquidar seus guardas. O monarca se dá conta de que apenas Hang Tuah teria sido capaz de contê-lo. Mas Hang Tuah morreu, por ordem sua. Como em alguma tragédia clássica, tal qual um Deus ex machina, o primeiro-ministro anuncia que não cumpriu a ordem do sultão, e que o famoso guerreiro continua vivo. Hang Tuah é trazido ao palácio, enfrenta seu amigo Hang Jebat, derrota-o e o mata.

Em Sejarah Melayu, é Hang Kasturi que, acusado, como Hang Tuah, de ter um caso com uma favorita do sultão, se revolta, é derrotado por Hang Tuah — o qual, como na outra versão, fora secretamente poupado pelo primeiro-ministro — e morre pelas suas mãos. Falta aí o elemento da revolta que tem por origem a lealdade ao amigo. Aglutino, na minha imaginação, as duas versões. Uso o enredo de Hikayat Hang Tuah, dando a Hang Kasturi o papel atribuído no épico a Hang Jebat, apenas porque acho bonito o seu túmulo, em plena Malaca. Por apreciar o túmulo, quero dar ao homem ali enterrado um papel heroico. Naturalmente, não há prova de que ali esteja mesmo enterrado Hang Kasturi, e este pode aliás nem ter existido.

O amigo de Hang Tuah revoltou-se contra o sultão para vingar sua execução injusta. No entanto, Hang Tuah mata esse amigo que se rebelou por lealdade a ele. Há, nessa história trágica, uma moral política: o herói coloca a sua fidelidade ao soberano acima de qualquer outra consideração. O Sejarah Melayu ensina que a lealdade ao soberano é o dever principal de todo malaio. Em troca, o soberano promete ser justo, o que, aliás, não fizera no caso de Hang Tuah.

Nos anos 60 e 70 do século XX, uma corrente de pensamento propugnou que o verdadeiro herói seria Hang Jebat — supondo que tenha sido ele o amigo desejoso de vingar Hang Tuah. Após a independência da Malásia, em 1957, havia desejo entre os intelectuais, nos diz um estudioso contemporâneo do assunto, o poeta Muhammad Haji Salleh, de dar ao país um modelo, que pudesse “champion the rights and the integrity of his people”. Hang Tuah, porém, venceu Hang Jebat até postumamente, e é hoje novamente proposto como o mais admirável, forte e valente dos cinco guerreiros. Avalio que recuperou sua posição de prestígio por simbolizar a conformidade com o status quo social e político.

Um domingo, tendo terminado a leitura de Sejarah Melayu, fui à melhor livraria de Kuala Lumpur, disposto a ver se encontrava exemplar em inglês do épico Hikayat Hang Tuah. Não havia. Em compensação, comprei um pequeno volume lançado em 2020, intitulado Seeking Hang Tuah, no qual Muhammad Haji Salleh discorre sobre a história dos cinco guerreiros, analisando sobretudo o grande épico. No mesmo andar da livraria, está um restaurante japonês de que gosto. Era a hora do almoço. Sentei-me e pedi meu prato predileto. Enquanto esperava a chegada do unagi gozen, folheei o livro do poeta.

Ao abri-lo ao acaso, li o seguinte parágrafo: “Fiction is a crowded universe. Hundreds of literary characters jostle in Murasaki Shikibu’s ‘Genji Monogatari’, Tolstoy’s ‘War and Peace’, Márquez’s ‘A Hundred Years of Solitude’ and also in Pablo Neruda, Octavio Paz and Clarice Lispector”. Pensei estar diante de uma miragem. Esfreguei os olhos. Mas, não. O nome era bem esse. Lá estava a autora brasileira, em uma lista inequivocamente ilustre, preparada por um escritor malásio.

Controlei a tempo meu espanto. Não havia razão para surpresa em ver Clarice Lispector na lista, aliás um tanto arbitrária. Graças sobretudo a Hélène Cixous e, mais recentemente, a Benjamin Moser, Clarice entrou definitivamente no cânone literário internacional, lugar a que ela pertence de direito. Não preciso ver sua consagração no exterior para ser capaz de avaliar seu mérito, mas impressionou-me constatar que sua fama chegou à Malásia, ou ao menos a círculos literários malásios. Ela parece ter se tornado, aos olhos dos estrangeiros, o escritor brasileiro por excelência.

Muitas vezes, eu me pergunto que escritor brasileiro deveria entrar primeiro para o panteão representado pela coleção da Pléiade, da Gallimard. Há algumas semanas, conversando ao telefone sobre isso com um amigo, ex-aluno meu no Instituto Rio Branco, que hoje trabalha em Buenos Aires, ele opinou que Machado de Assis. Tenho dúvidas a respeito, embora eu considere ser Machado, certamente, o melhor escritor brasileiro. Hudson Caldeira, em um ensaio recente sobre a tradução de Flora Thomson-DeVeaux de Memórias Póstumas de Brás Cubas, alude a algumas razões que dificultariam a entrada de Machado de Assis, a esta altura, no imaginário de leitores estrangeiros.

Na conversa com meu ex-aluno, sugeri Jorge Amado, pensando que, aos olhos da editora francesa, ele teria valor comercial mais elevado. Representaria também, creio, todo o exotismo que leitores estrangeiros podem associar ao Brasil. Ali no restaurante japonês em Kuala Lumpur, lendo o comentário do poeta malásio, comecei a me perguntar se o lugar de escritor brasileiro mais consagrado nos meios literários estrangeiros já não foi ocupado, na verdade, por Clarice Lispector. André Bernardo, em artigo publicado esta semana na BBC Brasil, nos dá alguns elementos que provam o seu reconhecimento no exterior: “traduzida para 32 idiomas, do mandarim ao croata, do norueguês ao russo, do turco ao hebraico, Clarice já foi publicada em 40 países”.

Terminado o almoço, voltei à livraria. Examinei se algum volume de Clarice estava nas prateleiras, na seção em língua inglesa. Encontrei quatro títulos: A Hora da Estrela, A Paixão segundo G.H, O Lustre e A Cidade Sitiada. Vi apenas dois outros autores brasileiros, Paulo Coelho, com numerosos exemplares, em diferentes edições, de vários livros seus, e O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa. Mesmo a nova e já famosa tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas por Flora Thomson-DeVeaux não se podia achar. Sim, sim, tenho certeza. Procurei por “Machado” e por “Assis” nas prateleiras organizadas por rigorosa ordem alfabética.

No começo da adolescência, convivi, em Montevidéu, com Maury Gurgel Valente, ex-marido de Clarice Lispector e pai de seus dois filhos. Tenho uma lembrança vívida dele, como um homem boníssimo e extraordinariamente afável. Na Fotobiografia da escritora por Nádia Battella Gotlib, ele aparece bem mais jovem do que quando o conheci e, no entanto, é perfeitamente reconhecível. Pedro, um dos filhos, bem mais velho do que eu, morava com o pai e dele também tenho lembrança. Por isso, Clarice não era uma referência distante para mim. Parecia próxima, bem real, embora eu nunca a tenha visto. Guardo com carinho meu exemplar da primeira edição de A Mulher que Matou os Peixes, com ilustrações de Carlos Scliar, lido no final da infância. Ano passado mesmo, ainda em Brasília, passei bons momentos relendo A Via Crucis do Corpo. Uma das brincadeiras entre minha filha e eu, há muitos anos, quando um de nós vê que o outro está preocupado, é perguntar, fazendo referência ao conto Um dia a menos: “O que houve? É a xícara de chá ruim que estraga a tarde, o dia ou a vida?”. Clarice, assim, faz parte do meu cotidiano familiar. Ao mesmo tempo, talvez eu pensasse conhecê-la bem demais e não entrei na sua literatura com a assiduidade ou com o estado de espírito necessários.

Tudo mudou com a visão de seu nome, em um restaurante japonês de Kuala Lumpur, nas páginas do livro de um poeta local que disseca uma famosa lenda do povo malaio. Foi como um aviso de que eu estava deixando passar algo importante. Tive a percepção de que ter crescido ouvindo falar nela e ter lido suas obras de vez em quando não era suficiente.

No fim de semana seguinte, lendo Laços de Família, na edição dos contos completos da editora Rocco organizada por Benjamin Moser, fiquei sem vontade de sair de casa. Nada lá fora poderia ser tão instigante quanto aquela escrita. Devorei-os todos. Alguns dias depois, conversando ao telefone com outro amigo, Gilberto Morbach, mencionei três a ele: A imitação da rosa, O crime do professor de matemática e O búfalo. O segundo, opinei com Gilberto, diz em oito páginas o que Dostoiesvki diz em centenas.

Nova tentativa, porém, de ler A Paixão segundo G.H, a terceira ou quarta ao longo da vida, foi uma vez mais infrutífera. O momento certo não chegou. Nunca sabemos, na verdade, quando virá esse momento. De repente, lemos sem aviso prévio o livro de que estávamos justamente precisando. Algo acontece que nos aproxima de um autor ou de uma obra na hora certa.

Não pude ainda encomendar do Brasil, para entrega na Malásia, o volume Todas as Cartas lançado pela Rocco em setembro, sem dúvida um dos grandes acontecimentos literários do ano. Tampouco posso, por causa da pandemia, viajar a Singapura onde, na casa da minha mulher, está um livro mais enxuto, Correspondências, de 2002, organizado para a Rocco por Teresa Montero. Contento-me, assim, com as duas cartas par Olga Borelli incluídas na minha edição de A Paixão segundo G.H., da Coleção Archivos, preparada por Benedito Nunes, com extenso material crítico. Muitas vezes, nas últimas décadas, diante da tentativa malsucedida de ler o romance, acabei relendo, no volume, as duas cartas. A primeira delas, de 11 de dezembro de 1970, portanto um dia após o aniversário da autora, é famosa, e com razão. É surpreendente de franqueza e vulnerabilidade, considerando que a remetente e a destinatária, que viriam a ser amigas, tinham se conhecido apenas poucos dias antes. Toda a Clarice parece estar contida naquelas poucas linhas cativantes. Diz ela: “Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo […] Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança”.

Eu estava precisando dos contos de Clarice. O estranho é perceber que, se não me aguardasse naquele pequeno canto de Malaca o túmulo tido como sendo o de um guerreiro semi-lendário, se minha curiosidade pela sua história não tivesse sido despertada, se um poeta malásio que escreveu a respeito não lançasse o nome de Clarice Lispector solto assim em seu livro, talvez essa busca tivesse ficado soterrada em mim por um bom tempo ainda. O fascínio iniciado em Montevidéu cristalizou-se, tantos anos depois, como consequência da visão de um túmulo secular na mítica Malaca.

Primeira versão, mais curta, deste texto foi publicada em Estado da Arte, em 10 de outubro.

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Ilhas Misteriosas

Ilhas Misteriosas

Reis, rainhas, sultões, elefantes reais, ilhas misteriosas, frutas exóticas, praias desertas, epopeias, o Mar do Sul da China e mesmo Proust — sim, mesmo ele — estão todos lá, nas cinco Cartas da Malásia que já publiquei, desde julho, em Estado da Arte.

Elas podem agora ser lidas também aqui, em qualquer ordem, pois cada uma é independente.

Carta I: A Ásia em Penang

  • Na ilha de Penang, a Malásia revela ser uma condensação da Ásia

Carta II: Juru Damang, o Elefante Real

  • Descubro Malaca e um elefante do século XVI

Carta III: A Petrópolis dos Mares do Sul

  • A herança britânica na Malásia

Carta IV: A Viagem a Balbec

  • Uma praia no Mar do Sul da China me faz pensar em Proust

Carta V: As Cartas em Istana Negara

  • Com o rei e a rainha, converso sobre futebol e banana com canela

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Desprezo em Veneza

Desprezo em Veneza

Aos 21 anos, fui a Veneza pela primeira vez. Era verão, havia muitos turistas, a cidade estava suja, vi apenas seu aspecto de parque de diversões. Minha reação principal foi de decepção. Pensei nunca mais voltar.

O contrário aconteceu. Revisitei a Serenissima várias vezes desde então. Gosto cada vez mais do que seu apelido reflete — a imponência serena sobre a água. Chego, surpreendo-me novamente com a beleza à minha volta, abstraio as multidões e fico me perguntando como pode haver no mundo um lugar assim. Minha razão habitual para ir é a Bienal de Arte.

Uma tarde, em setembro de 2019, saí do hotel para visitar, no Palazzo Grassi, a mostra do pintor belga Luc Tuymans, intitulada La Pelle. Quando vou ao Palazzo Grassi, penso, além do poder da arte, no poder do dinheiro. Colossal, situado à beira do Canal Grande, o Palazzo foi comprado em 2005 por François Pinault. Lá são montadas exposições de grande repercussão.

O que fazer quando você é um dos homens mais ricos do mundo, um dos mais importantes colecionadores de arte contemporânea e já possui um palácio veneziano? Muito simples, você procura obter a concessão de mais um marco histórico em Veneza. Em 2007, Pinault obteve o uso, por trinta anos, da antiga aduana na Punta della Dogana, na boca do Canal Grande. Ele dispõe, portanto, de dois espaços fenomenais onde expor parte de sua coleção e mostras temporárias. Não há crítica de minha parte nesse comentário. Veneza, arquétipo da cidade europeia bem preservada, de palco para uma volta ao passado, ganhou nova vida, ganhou novas facetas ao evoluir para um local de celebração da arte contemporânea. Não é um monumento inerte a um passado glorioso, como Bruges, que foi cenário, já em 1892, de um romance simbolista do escritor belga Georges Rodenbach intitulado Bruges-la-Morte

De Luc Tuymans eu vira em Bruxelas, em 2011, uma excelente retrospectiva, termo aliás que ele questiona, pois suas exposições não seguem necessariamente uma ordem cronológica. É certamente o artista com a obra mais cerebral do mundo. Seus quadros parecem simples, muitos de uma beleza plástica à primeira vista inofensiva, e podem ser apreciados assim, mas possuem na verdade elevada carga histórica e cultural.

Temáticas recorrentes, embora não exclusivas, são o nazismo, os campos de concentração, o passado colonial belga, o nacionalismo flamengo, o uso do poder pelos governantes, a intolerância religiosa, todos denunciados sem histrionismo. Vemos uma de suas pinturas — frequentemente, elas são em tom pastel, e costuma haver pouca variedade de cor em cada tela — representando uma sala vazia. Trata-se de uma câmara de gás da era nazista. Um senhor de óculos, de ar paternal, é na verdade algum célebre criminoso. Uma maçã mordida é inspirada da foto tirada pela polícia da fruta deixada para trás por um assassino.

O livro do crítico de arte e romancista Gordon Burn publicado postumamente em 2009, Sex & Violence, Death & Silence: Encounters with Recent Art, inclui texto de 2000 sobre Tuymans. Burn fora entrevistá-lo em Antuérpia, onde o artista mora, e ouviu dele: “Violence is the only structure underlying my work“.

Tuymans pinta cada tela em um só dia. Ele antes pensa sobre a temática, lê para se informar ou se inspirar, faz desenhos preparatórios, mas o quadro é terminado no mesmo dia em que é iniciado. Sua exposição no Palazzo Grassi, montada pela curadora da Coleção Pinault, Caroline Bourgeois, e por ele próprio, foi mostrada de março de 2019 a janeiro deste ano. Terminando logo antes de a pandemia afetar o mundo inteiro, ela pôde ser visitada pelo público, ao contrário de tantas outras.

Caminhando pelas salas do Palazzo Grassi, tomando pouco a pouco consciência do conjunto de obras, lendo o folheto que eu segurava nas mãos, surgia uma iluminação sobre a intenção do pintor. Cada quadro passava a ser parte de sua visão, sem ilusões, sobre o efeito cruel que seres humanos podem ter sobre outros.

O rosto de mulher que ilustrava o cartaz é uma pintura inspirada de uma série brasileira da Netflix, 3%, de que eu nunca ouvira falar. Descreve, eu soube depois, uma sociedade onde as desigualdades sociais são incentivadas, em vez de combatidas.

Meu quadro preferido foi talvez uma natureza-morta, de 2002, pertencente a François Pinault, que, medindo quase três metros e meio por cinco, é enorme.

A influência de Cézanne é clara. O espírito é sereno. Os objetos e frutas parecem flutuar. A tela porém está associada aos atentados de 11 de setembro de 2001, porque foi exposta pela primeira vez em Kassel, em 2002, na Documenta 11, na qual muitos artistas apresentaram obras que faziam referência aos atos terroristas. O que terá querido dizer Luc Tuymans? Evitou falar dos atentados? Ou, ao contrário, optou por uma natureza-morta — lembrete tradicional de nossa impermanência — para a eles aludir sutilmente? O folheto da exposição informa que talvez ele tenha querido mostrar que a vida resiste às catástrofes e renasce. Naturalmente, como toda natureza-morta, a tela pode, e talvez deva, ser vista pelo que, de forma objetiva, é: uma belíssima composição, em tons suaves, eternizando alimentos perecíveis, assim como um retrato registra para sempre um indivíduo que fenecerá.

A obra de arte que nos traz mais prazer estético não é necessariamente a que nos marca mais. Na exposição de Tuymans em Veneza, foi outra a tela a que dediquei mais tempo, a que mais me intrigou. Ela é a razão pela qual decidi escrever sobre a exposição, o que comecei a fazer em outubro, sem até este momento poder concluir. Uma obra de arte pode inibir a imaginação e a inteligência, ao provocar associações complexas, difíceis de examinar.

A tela se chama Le Mépris.

Como foi pintada em 2015, eu não a vira em 2011 em Bruxelas. No vídeo sobre a exposição disponível na página do Palazzo Grassi, Tuymans diz que, se o quadro — pertencente a Mimi Haas, que vive em São Francisco e é viúva de um dos herdeiros da Levi Strauss — não pudesse ter sido cedido para a exposição, ele talvez pintasse nova versão, por causa de sua importância como “significante”. Trata-se de uma simples chaminé, mas carregada de numerosas conotações culturais, históricas e metafóricas. É a chaminé da sala de estar da casa de Curzio Malaparte na ilha de Capri. Malaparte fala nela, rapidamente, em La Pelle, livro lançado em 1949 que empresta seu título à mostra de Luc Tuymans e no qual, como em uma obra anterior, Kaputt, o escritor mistura realidade e ficção. Os dois livros narram situações em parte imaginárias, dentro de eventos bem reais — a II Guerra Mundial em Kaputt e, no caso de La Pelle, o período imediatamente posterior à libertação de Nápoles pelas forças aliadas em 1943. Malaparte descreve a decadência moral dos napolitanos, de que participam alguns soldados e oficiais estrangeiros, enquanto outros mantêm a retidão. Mostra que a população, após a guerra, desejava sobreviver a todo custo, sem considerações de princípios, tendo como único objetivo salvar a própria pele. Malaparte e Tuymans revelam ambos a corrupção moral por baixo da superfície — pele no caso do italiano, tela no caso do belga.

Malaparte nos oferece esta descrição, em La Pelle: “é uma imensa chaminé e, ao fundo da lareira, há um cristal de Iena. Por entre as chamas, vemos o mar sob a Lua, os Faraglioni surgindo das ondas, os rochedos de Matromania, e o bosque de pinheiros e de carvalhos atrás da minha casa”. Capri, por si, já é desde a Antiguidade um conceito carregado de significados, sinônimo de beleza natural e de decadência humana, por ter sido cenário do refúgio de Tibério, cuja vida na ilha foi descrita por Tácito e Suetônio, por este último de forma tristemente detalhada.

A Villa Malaparte, sobre um promontório, olhando de três lados o mar Tirreno, é um famoso exemplo de arquitetura moderna. Foi construída por encomenda do escritor no final da década de 1930. Sua celebridade ficou comprovada, e foi consolidada, pelo fato de Jean-Luc Godard a ter usado como cenário do terço final de seu filme de 1963, Le Mépris (O Desprezo). No vídeo onde explica a exposição, Tuymans confirma seu amor pela obra de Godard, dizendo ser Le Mépris “um desses filmes épicos, que já não serão mais feitos”.

Godard extraiu o roteiro de um romance de Alberto Moravia, com o mesmo título. A história trata do fim da relação de um casal de franceses morando em Roma, interpretados por Michel Piccoli — cuja morte, em maio de 2020, aos 94 anos, talvez tenha me incentivado a terminar este ensaio — e Brigitte Bardot, então no auge da beleza e da fama. O personagem de Michel Piccoli, um dramaturgo, é sondado por um produtor americano, interpretado por Jack Palance, para refazer o roteiro de um filme, a ser dirigido por Fritz Lang — fazendo o papel dele mesmo — que recontará a Odisseia. O título alude ao fato de que a personagem de Brigitte Bardot percebe, ou supõe, que seu marido quer empurrá-la para os braços do produtor, por razões de interesse profissional e financeiro. Passa então a desprezá-lo, e com isso deixa de amá-lo. Em momento anterior seu marido já havia demonstrado desprezo social e intelectual por ela. Ao esbofeteá-la, irritado porque ela não quer ir à casa do produtor em Capri — a Villa Malaparte — ele diz: “Por que eu fui me casar com uma datilógrafa de 28 anos?”.

O filme de Godard é uma obra de arte talvez perfeita, pelas referências culturais, os diálogos, as atuações, a beleza plástica, a tonalidade das cores, a música de Georges Delerue e certas inovações do diretor. Entre os temas que aborda estão o processo de criação artística, a relação do ser humano com Deus (“O homem criou os deuses, não foram os deuses que criaram o homem”, diz Fritz Lang), o desprezo como um dos motores nas relações humanas, e o poder do dinheiro — no caso, o do produtor americano — no mundo da arte. Esse último ponto de Godard parece, em retrospecto, curiosamente relevante, considerando que vi a tela de Tuymans, pertencente a uma milionária americana, no palácio veneziano de um bilionário francês protetor das artes, e cujo gosto e cuja coleção sem dúvida influenciam, de mais de uma maneira, obras de novos artistas. A chaminé aparece em uma cena curta mas determinante do filme, quando o personagem de Michel Piccoli se senta, em um banco colocado frente a ela, entre Brigitte Bardot e Jack Palance, afinal disposto, mas tarde demais, a afastá-los e a salvar seu casamento.

Ao ver a tela de Tuymans em Veneza, não tive como escapar do conjunto de suas múltiplas referências culturais. Vira o filme na infância, na televisão, e lera La Pelle na adolescência. Em um dos salões do Palazzo Grassi, eu estava diante de uma pintura inspirada em parte por um filme de Godard, por sua vez extraído de um romance de Moravia; a chaminé, presente no quadro e no filme, existe realmente no interior de uma casa em Capri, construída pelo autor de La Pelle, livro que emprestava o título à exposição onde eu via o quadro.

Ao voltar ao Brasil das férias na Europa, eu reveria o filme e releria La Pelle, confirmando assim o impacto que o quadro me provocara. Enquanto visitava a exposição, em Veneza, voltei três ou quatro vezes à sala onde ele estava exposto. Em todas elas, demorei-me a examiná-lo. Admirei sua simplicidade, que contrastava com o luxo do palácio. Era, contudo, uma simplicidade ilusória, pelo aspecto maciço da chaminé e pelo número de camadas de referência que a obra sempre portará consigo. Tuymans, no vídeo, diz com relação ao seu quadro: “So, everything is not really what it seems“.

Além das culturais, razões pessoais, trazidas à tona naquele instante, grudavam-me em frente à pintura. Rememorei uma cena da primeira viagem a Veneza.

Naquele verão, paro uma tarde para comprar sorvete em um quiosque perto do Canal Grande. Na minha frente, há apenas um veneziano já de idade, a quem a vendedora sugere o sabor kiwi. Ele pergunta: “Kiwi? Cos’è, kiwi?”, ao que ela responde: “È una frutta esotica“. A fruta inicia então a sua surpreendente — existe sabor mais sem graça? — popularização pelo mundo e ninguém imagina ainda que um dia a Itália será um dos principais produtores daquele símbolo de “exotismo”. O veneziano deve ser bastante mal-humorado; ao se virar e me ver, pensando que sou francês, solta gratuitamente uma frase ofensiva sobre a França; quando eu lhe digo que sou brasileiro, o desprezo aumenta (“isso é pior ainda”) e vem a ofensa contra o Brasil. Aparentemente, ele acredita haver uma hierarquia no apreço devido aos países. Só a Itália fica no topo, e o Brasil abaixo da França.

Essa anedota sempre simbolizou, condensou, para mim, o desapontamento sentido naquela primeira ida a Veneza.   

Vendo e revendo mais de uma vez a tela de Luc Tuymans, pensei naquela outra tarde de verão, de tantos anos antes. Perguntei-me como teria sido a vida daquele homem. Feliz, ele não me parecera ser. Provavelmente, sequer estaria mais vivo. Perguntei-me se aquela amostra de desprezo nacionalista do italiano servira de impulso para que eu virasse diplomata — na época, minha ambição profissional parecia ser outra. Percebi que eu nunca saberia a razão pela qual a cena tivera, na hora, importância, mas que, de alguma maneira, ela contribuíra, junto com tantas outras, para minha presença ali, naquele momento, no Palazzo Grassi. Nossas vidas são o resultado de uma soma de fatores, acumulados ao longo do tempo, muitas vezes desapercebidos. Entendi que, entre a longínqua tarde na primeira passagem por Veneza e a tarde da visita à exposição de Tuymans, diferentes existências haviam transcorrido, haviam se superposto em mim, e que de muitas delas eu talvez nem tivesse consciência. Ao mesmo tempo, algumas haviam sido buscadas. Ao mudar nossa própria vida, acabamos modificando também a nossa personalidade. Ao entender, frente a Le Mépris, que eu sentira desprezo por Veneza na primeira viagem, surpreendi-me. Pensava ter havido apenas, sempre, a admiração que hoje sinto. E então, em vez de saudosismo ou tristeza, senti reconforto de não ter mais 21 anos.

Começava a anoitecer. A galeria ia fechar. Além de mim e dos guardas, já não havia ninguém. Saí. Minha mulher me esperava no hotel. Com pressa, peguei um vaporetto que parecia desejar meu embarque. No Canal Grande, os últimos raios de sol se extinguiam. Luzes se acendiam nos palácios e nas casas, nos hotéis e nos bares, refletindo-se na água. Os edifícios iam passando, sucedendo-se uns aos outros, enquanto o barco, implacável, avançava pelo canal. Sorri comigo mesmo, diante de um tão ostensivo simbolismo.

Este texto foi publicado em Estado da Arte, em 3 de julho de 2020

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Uma edição mágica

Uma edição mágica

A coleção literária Bibliothèque de la Pléiade, editada pela Gallimard, é a mais prestigiosa do mundo. Nenhuma outra se compara a ela, em razão da qualidade do aparato crítico que acompanha cada volume. Poucos escritores entram ainda em vida na coleção. Até o momento, apenas dezoito receberam essa consagração. O mais recente foi Philip Roth, em outubro de 2017, alguns meses antes de morrer em maio de 2018. Em setembro de 2018, houve notícias de que António Lobo Antunes seria incluído. Isso foi celebrado pelo escritor e gerou felicitações oficiais a ele do Presidente de Portugal, o que dá a dimensão do prestígio da coleção. Por enquanto, a publicação não se concretizou.

Nenhum escritor brasileiro, vivo ou morto, integra até hoje esse panteão.  O único lusófono é Fernando Pessoa, com um volume de obras poéticas — o que exclui Bernardo Soares — publicado em 2001, de 2.176 páginas.

Em setembro de 2019, Georges Duby (1919-1996) entrou para a Pléiade, com um volume denso — 1.972 páginas — que reúne parte de sua obra. É o primeiro historiador contemporâneo a ser publicado na coleção. Antes dele, o historiador mais recente incluído no catálogo era Jules Michelet (1798-1874).

O editor do volume com obras de Duby é o brasileiro Felipe Brandi, que obteve na França, em 2017, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, seu doutorado em História e Civilização, com uma tese sobre o reverenciado historiador francês.

Entrevistei Felipe Brandi sobre seu trabalho de edição do volume da Pléiade nos últimos dias de abril, quando o mundo aprendia ainda a lidar com a pandemia. A entrevista foi publicada em Estado da Arte, em 5 de junho.

I- Essa foi certamente a primeira vez que um brasileiro editou um volume da Pléiade. É significativo um estrangeiro preparar, na França, a edição da obra de um monstro sagrado como Georges Duby. A escolha de seu nome o consagra como um dos maiores especialistas da obra do historiador. Como aconteceu de você ser escolhido? Qual foi sua reação diante da responsabilidade?

O convite para preparar a edição das obras de Georges Duby na Pléiade foi, para mim, uma grande surpresa. Fui contatado por Hugues Pradier, Diretor literário da coleção, no momento em que havia entregado a minha tese de doutorado e antes mesmo de defendê-la em junho de 2017. Eu estava bem situado. Estava na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), que oferece uma projeção importante, e já pesquisava há muitos anos o trabalho de Georges Duby. A minha pesquisa, antes mesmo de encerrada, já era conhecida, não apenas por parte dos professores da EHESS, mas também por outros pesquisadores e editores na França graças a alguns artigos que eu havia publicado. Creio que uma expectativa havia se formado em torno do meu trabalho de tese, como costuma acontecer com teses elaboradas pacientemente ao longo de muitos anos. Pelos contatos que são feitos durante a preparação, e também pelos artigos publicados, as pessoas acabam ouvindo falar de sua pesquisa e se interessam por ela muito antes que ela esteja concluída.

Gostaria primeiramente de agradecer a você, Ary, pelo convite e pela oportunidade de conversar com você e de poder falar um pouco sobre o meu trabalho e sobre a preparação do volume Œuvres de Georges Duby, editado pela Bibliothèque de la Pléiade em setembro de 2019.  

Pierre Nora havia descoberto há muito a minha pesquisa através de um artigo que eu publicara, e desde então acompanhava o seu desenvolvimento. É possível que Hugues Pradier tenha tomado conhecimento do meu trabalho através de Nora. O projeto de uma edição de Georges Duby na Pléiade é uma ideia antiga. Desde a acolhida de Claude Lévi-Strauss na coleção, em 2008, falou-se de uma eventual edição de Duby. Rumores circularam, mas nada de concreto. Considerado autor “de la maison” pela Gallimard, ele já havia sido homenageado com dois volumes da coleção Quarto, em 1996 e 2002. No entanto, Hugues Pradier estava convencido, parece-me com razão, da relevância da entrada de Duby na Pléiade, pela incontestável qualidade literária de seus escritos, que fez de sua obra uma das grandes expressões do mundo das letras francesas do final do século XX. Sou infinitamente grato a Hugues Pradier pela confiança que ele depositou em mim, ao me escolher. Outros pesquisadores tinham nomes muito mais conhecidos do que o meu, ademais de terem o francês como língua materna. Durante os primeiros meses (eu ainda não havia defendido a minha tese), ia visitá-lo regularmente no belíssimo Pavilhão da Pléiade para falar do projeto e pensar o perfil do volume, discutindo a seleção dos textos e revendo inúmeros detalhes. Conversávamos durante horas até tarde da noite, quando as edições Gallimard já estavam fechadas. Acho que rapidamente se instaurou uma cumplicidade, uma boa relação entre nós. Creio que a minha visão do volume o agradou, indo na direção do projeto que ele havia inicialmente idealizado. Para mim, o desafio foi considerável. Desde jovem, admiro as edições da Pléiade e me senti honrado de poder participar delas.  

II – Das 1.972 páginas do volume, cerca de 340 são suas: introdução de 56 páginas, notas e comentários sobre cada uma das obras de Georges Duby incluídas no volume. O resultado é um trabalho de extrema erudição, como aliás é usual na Pléiade. Isso é notável, considerando que francês não é a sua língua materna. Por quanto tempo você trabalhou na edição? Entre surgir a ideia de inclusão de Duby na coleção e o livro ficar pronto, quanto tempo se passou?

O tempo total de preparação do volume foi de dois anos e alguns meses. Fui contatado na primavera de 2017 (abril/maio) e já em nosso primeiro encontro, Hugues Pradier me disse que o lançamento do livro seria em finais de setembro de 2019, para celebrar o centenário do nascimento de Georges Duby. A data de lançamento não era, portanto, negociável. Dito isto, o prazo de dois anos representa um tempo curto de preparação para um volume desse tamanho e com essa densidade — é o que todos me dizem na Pléiade. Trabalhei com dedicação total. Durante esses dois anos. De outro modo, não teria sido possível respeitar o prazo estabelecido.

Se reconstituo a cronologia da preparação, distingo três grandes etapas: primeiramente, a da construção do projeto e da seleção das obras, nos primeiros meses entre maio e setembro de 2017; em seguida, o início da leitura (ou releitura) de todos os textos e a elaboração do aparelho crítico, com a preparação das notas e a redação das notícias que acompanham cada obra. Enfim, de janeiro de 2019 até julho do mesmo ano, o trabalho de acabamento e de revisão de todo o volume — dessa vez, acompanhado de Henrianne Rousselle, da Pléiade, que me ajudou imensamente. Que contraste com a etapa precedente, extremamente solitária, e que alegria ter um interlocutor com quem discutir cada detalhe do trabalho! Fiquei muito impressionado com a sua generosidade, a sua experiência e o seu profissionalismo, relendo cada nota, cada citação, cada linha que escrevi com uma extraordinária atenção. Foi um prazer conhecer e ter tido a oportunidade de trabalhar com Henrianne Rousselle. Ela sempre me encorajando a ir ainda mais adiante, a buscar alguma nova informação, a enriquecer ainda mais a edição. Insisto que o seu trabalho por detrás dessa edição e das demais que ela supervisiona seja amplamente reconhecido.

O desafio da língua é imenso. A língua francesa, tão rica e saborosa, é repleta de sutilezas, de nuances e também de armadilhas. E os leitores franceses são particularmente atentos à qualidade da expressão, zelosos do emprego dessa língua que consideram o tesouro nacional. No caso de uma edição da Pléiade, eu tinha consciência de que precisaria preparar, tanto na introdução quanto nas notícias que acompanham cada uma das obras do volume, um texto capaz de interessar a uma audiência bastante heterogênea, composta pelo grande público culto dos leitores da Pléiade, mas também por historiadores de profissão, assim como pelos medievalistas mais severos e os estudiosos especialistas da obra de Duby, que a conhecem bem e estão atentos aos mínimos detalhes. São exigências e expectativas muito diversas, e foi um desafio preparar todos esses textos em uma edição que deveria conciliar interesses e leituras, não apenas muito distintos, mas muitas vezes também incompatíveis.          

III – Qual é grau de orientação que os editores de volumes da Pléiade recebem? Você teve, por exemplo, liberdade para escolher as obras de Duby que seriam incluídas? Qual foi o critério usado na seleção de obras? Houve algum livro ou texto de Duby que você lamentou ter de descartar, por falta de espaço?

Eu sinto ter trabalhado com grande liberdade, e sou mais uma vez muito grato à confiança de Hugues Pradier. Ele, a Pléiade e a Gallimard apostaram em mim, deixando-me único responsável pela edição científica de todo o volume. Imensa responsabilidade. Intimidante. Nos primeiros meses, quando ainda precisávamos “montar” a edição, Hugues Pradier e eu discutíamos vários detalhes em longas sessões de trabalho que eram muito prazerosas. Mas uma vez decidida a seleção das obras, me senti com carta branca para elaborar os meus próprios textos e preparar as notas de erudição à minha guisa. A seleção das obras nunca é fácil. Sobretudo no interior de uma produção tão rica e prolífica. A seleção, sim, foi feita junto com Hugues Pradier. Ele estava muito atento a essa etapa do processo. Há necessariamente sempre algo de subjetivo na seleção dos textos. O nosso critério foi o de privilegiar os textos que nos pareciam os mais representativos do Georges Duby escritor e que haviam sido também os seus maiores sucessos editoriais, como Le Temps des Cathédrales, Le Dimanche de Bouvines ou Guillaume le Maréchal. Outros importantes livros, todos admiráveis, como a sua tese sobre a região de Mâcon nos séculos XI e XII ou os seus estudos sobre a economia rural na Idade Média nos pareceram não se ajustar tão bem à ambição do volume. São obras mais austeras, que interessam a um público mais reduzido de especialistas da civilização medieval. Lembro de longas discussões sobre a inclusão do livro Les Trois Ordres ou l’imaginaire du féodalisme, de difícil leitura. No interior do volume, este é claramente o título mais austero. Nem Hugues Pradier nem Pierre Nora estavam convencidos da pertinência desse título. Denso, complexo, poderia desencorajar o leitor e se diferenciar do resto da edição. Eu defendi a sua causa e intervim a favor da sua inclusão no volume, pois estou convencido de que esse livro, admiravelmente escrito ainda que muito exigente, ocupa uma posição central dentro da produção de Georges Duby, como uma espécie de chave de abóbada do seu modelo de explicação da sociedade feudal dos séculos XI e XII.

Como leitor e admirador da obra de Duby, eu teria gostado de incluir ainda mais textos, mas não era possível. O volume atingiu o seu limite. Qualquer nova inclusão nos obrigaria a uma edição em dois volumes. O que significaria uma modificação importante do projeto inicial.             

IV – Georges Duby costumava publicar seus livros sem notas ou indicação de fontes. Para a edição na Pléiade, você preparou notas extensas, recuperou as fontes para cada um dos textos. Como se desenvolveu esse trabalho?

Essa foi, para mim, uma parte decisiva da edição da Pléiade. Sou leitor de Georges Duby há vinte e cinco anos e minha admiração aumenta a cada nova leitura. Lembro-me bem de minha primeira leitura do Tempo das Catedrais, aos 19 anos, ou do Domingo de Bouvines, ainda quando estudante de graduação na PUC-Rio. Desde então, sonhava ter algum dia em mãos uma edição especial, uma edição mágica, que contivesse as notas desaparecidas que me dessem acesso ao conjunto de autores medievais citados em suas páginas, assim como a todo o arcabouço invisível que preside à construção de seus livros. Sempre acreditei ser este um trabalho quase impossível de ser realizado. No entanto, quando recebi o convite de Hugues Pradier, decidi me aventurar nessa longa empreitada. A tarefa é singularmente árdua. Significa penetrar em algumas das literaturas mais difíceis da história ocidental, desde as referências bíblicas e da patrologia até os escritos de cléricos, monges, teólogos e trovadores dos séculos XI-XIII. Estão incluídos aí crônicas, sermões, homilias, tratados teológicos, epístolas, poemas, canções. Tudo em latim medieval ou em francês antigo. Isso se complica ainda mais por Georges Duby não dar, muitas vezes, qualquer indicação do autor ou da obra de onde extrai a passagem citada, geralmente por ele traduzida para o francês contemporâneo com muita liberdade — o que torna muito trabalhoso, às vezes extenuante, o esforço de reconstituição.

Apesar das dificuldades enfrentadas, motivava-me a ideia de poder oferecer aos novos leitores e à comunidade científica essa edição anotada, essa edição única com a qual eu havia tanto sonhado. Outra motivação foi, para mim, o conjunto de críticas e ataques ferozes dos quais Duby foi objeto ao longo dos anos por causa dessa sua decisão de não revelar a referência de suas fontes. Encontrar essas referências e colocá-las agora à disposição dos leitores significa pôr em evidência a impressionante construção erudita por detrás de seus textos e, assim, refutar, de uma vez por todas, essas acusações que lhe foram feitas, alegando que a sua obra teria sacrificado a erudição da história em proveito do efeito literário. A dúvida consistia, então, em saber se essas notas, laboriosamente preparadas, não acabariam se opondo à intenção do próprio Duby, desrespeitando o projeto de escrita, o projeto formal, literário de seus textos. Certamente, exibir todas essas longas notas no pé de página acabaria por desfigurar a própria forma de seus escritos, tal como ele os havia concebido. Mas a Pléiade oferece a oportunidade de colocar as notas no final do volume, dando ao leitor a opção de consultá-las sem com isso comprometer o projeto narrativo, formal de Georges Duby. Dessa oportunidade, me servi.  

V – Você dedica a Introdução à memória da viúva do historiador, Andrée Duby, que faleceu em 2016. Nos agradecimentos, você relata que ela acompanhou suas pesquisas “durante anos”. Seu convívio com ela foi determinante em algumas decisões que você terá precisado tomar na preparação do volume?

Serei sempre grato à senhora Andrée Duby pelo apoio, o encorajamento, a atenção e a ajuda que recebi durante muitos anos enquanto preparava a minha pesquisa de tese. A dedicatória é um testemunho do meu reconhecimento, mas também uma lembrança do papel primordial que Andrée Duby exerceu ao longo da carreira de seu marido e na construção dessa obra que, de acordo com muitos amigos do casal, parecia em vários aspectos feita a quatro mãos. Andrée Duby teria gostado muito de ver a entrada de Duby na Pléiade. Em muitos aspectos, essa edição também é sua.

Pessoalmente, o convívio com ela foi determinante no desenvolvimento de minha abordagem e no amadurecimento do meu olhar, me permitindo adquirir uma maior proximidade com a obra e o seu autor. E acredito que essa proximidade e a abordagem mais pessoal transparecem do começo ao fim da edição. Em todo o caso, essa foi a minha intenção.    

VI –O Prefácio do volume que você editou é do historiador Pierre Nora, e começa com a afirmação de que a entrada de Georges Duby na coleção confere a ele uma “majestade solitária” entre os historiadores seus contemporâneos. Pierre Nora no Prefácio, e você na Introdução, ambos destacam que isso se justifica pela qualidade estilística, literária da obra de Duby. Tanto você quanto Nora, porém, apontam o seu domínio do grande instrumento midiático da época, a televisão. Ele era entrevistado, preparava emissões e presidiu um canal cultural. Isso fez dele, a partir da década de 1970, um intelectual famoso e muito presente e ativo na vida cultural francesa. Isso ainda é possível para um historiador hoje, mesmo na França?

De fato, você tem razão de chamar a atenção, ao mesmo tempo, para a qualidade literária dos livros de Georges Duby e para a sua extraordinária projeção social, muito além dos muros da universidade. Ambos os fenômenos estão ligados. Com efeito, uma das singularidades do trabalho de Duby reside no seu desejo de oferecer uma história de qualidade, uma história científica e, pode-se dizer, de vanguarda em sua época para uma audiência cada vez mais ampla. Um trabalho de divulgação, no sentido mais nobre da expressão. Georges Duby sempre concebeu a história como um “métier de communication”; a história devendo ser, do seu ponto de vista, simultaneamente um meio de formação, de evasão e de diversão. Portanto, trabalhou incansavelmente para ampliar o seu público, servindo-se dos mais diferentes meios de comunicação (rádio, televisão e cinema). Nos anos 1980, assumiu funções importantes em grandes empreendimentos culturais na França, presidindo o comitê do Grand Louvre e a rede de televisão cultural francesa, La Sept, ancestral da atual ARTE. Esse engajamento, sacrificando parte do tempo que poderia dedicar ao seu trabalho de historiador, se justifica pela sua convicção quanto à importância de oferecer ao maior número de cidadãos franceses o acesso à criação cultural de excelência (não apenas a história, mas também as letras, artes plásticas, música, espetáculos).

O seu trabalho junto à televisão — por exemplo, na série O Tempo das Catedrais, inspirada em seu livro, e, mais tarde, na presidência da Sept — lhe conferiu uma celebridade comparável à de um grande nome da literatura. Seus livros eram disputados pelos grandes editores. Suas aulas no Collège de France eram um acontecimento. Duas horas antes de seu curso, filas imensas, repletas de estudantes, intelectuais e membros da alta sociedade já se formavam, todas as quintas, na entrada da prestigiosa instituição no Quartier latin. Uma das grandes singularidades da geração de intelectuais franceses da segunda metade do século XX reside nessa extraordinária projeção social de trabalhos rigorosos e austeros, na vanguarda das ciências humanas e do pensamento filosófico. Esse é o caso, para citar apenas alguns nomes, de Claude Lévi-Strauss, de Georges Dumézil, de Michel Foucault, de Roland Barthes, de Pierre Bourdieu… Os franceses permanecem muito interessados pela produção de conhecimento. Os historiadores da geração de Duby viveram uma espécie de era de ouro. A comunidade historiadora não desfruta, na França de hoje, da mesma voga que conheceu nos anos 1970 e 1980. Mas a figura do intelectual continua ocupando um espaço importante, respeitado e admirado, no interior do debate social francês e também dentro da representação que a sociedade francesa faz de si mesma. Isso é invejável, quando vemos o descaso do qual são objeto, em boa parte do mundo, os professores, a ciência, as ideias, a educação e a cultura letrada. Creio que ainda hoje alguns intelectuais franceses, inspirados por essa geração feliz que os precedeu e se servindo de meios de comunicação cada vez mais desenvolvidos, logram exercer um papel ativo junto ao grande público. A sociedade francesa continua grande consumidora de exposições artísticas, de eventos literários e de emissões culturais, como as que oferecem o canal de televisão ARTE e, sobretudo, France Culture, que é a meu ver um verdadeiro patrimônio do qual todos os franceses têm o direito de se orgulhar.     

VII – A sua Introdução revela uma profunda admiração por Duby. Qual sua avaliação sobre ele, como ser humano, figura pública e historiador?

É verdade, deixo rapidamente transparecer a minha admiração por Georges Duby. Acredito no valor da sua obra. Admiro o modo com que a sua prática de historiador sempre esteve combinada a uma reflexão audaz acerca da própria história, da natureza do conhecimento que ela produz, do seu lugar em meio às nossas práticas culturais. Os grandes mestres, parece-me, são aqueles que conseguem desenvolver, em suas respectivas áreas, uma visão de conjunto, integrada, da própria atividade que exercem. Isso vale para escritores, cientistas, músicos, artistas e artesãos, grandes chefes de cozinha… Não apenas são grandes executantes, dominando plenamente a sua arte, mas ainda expressam, em cada trabalho que realizam, a maturidade de uma reflexão sobre a natureza de sua prática, o lugar social da mesma, o passado de suas tradições, assim como suas imperfeições, desvios e ciladas. O que admiro em Duby é um pensamento da história que é total, e que se preocupa tanto com os métodos mais modernos de leitura das fontes quanto com as condições de possibilidade do conhecimento histórico, tanto com o diálogo com as demais ciências sociais quanto com o ensino da história para as crianças do primário, tanto com o uso da memória social por parte dos poderes políticos quanto com a função cívica que o historiador, o professor de história deve exercer junto a uma sociedade democrática e emancipada.

A própria qualidade estilística de seus escritos, sobre a qual falamos aqui algumas vezes, não era, por exemplo, puro lirismo ou coqueteria. Mas sim o fruto de uma reflexão sobre a natureza (subjetiva) do conhecimento histórico, sobre as forças e as fraquezas do discurso que constrói o historiador e sobre a distância que o separa do ideal de objetividade científica. A história, para Duby, surge do ato criador do historiador e ela será tanto mais fértil quanto mais o historiador, apaixonado por seu labor, se entregar e der de si mesmo. A historiografia atual coloca hoje questões e enfrenta desafios que já não são os mesmos enfrentados pela geração de Duby, nos anos 1960 e 1970. O nosso conhecimento do passado não cessa de se renovar. No entanto, as questões a que Duby submeteu a história, a sua forma de pensar as armadilhas ideológicas que ameaçam o olhar que o historiador lança sobre o passado, a sua recusa de dogmatismos e de qualquer ferramenta teórica passe-partout continuam sendo, a meu ver, estímulos para se pensar a história de hoje e abrir os caminhos da pesquisa de amanhã. Georges Duby sempre defendeu — cada um de seus escritos o prova — os valores positivos do homem que desabrocham graças à cultura, à democracia e à liberdade. Valores humanistas que nos são tão caros. Sobretudo nos dias atuais.

VIIII – Quais são seus próximos projetos ou estudos como historiador?  A publicação do volume da Pléiade encerra um ciclo ou a obra de Georges Duby seguirá sendo sua área principal de interesse?

Eu mesmo me pergunto muitas vezes se, após a conclusão da minha tese, esta edição da Pléiade encerra, para mim, o ciclo Duby. De certa forma, sim, mas não completamente. Durante a longa preparação de minha tese, sempre esperei conseguir construir um trabalho com uma profundidade que me abrisse um campo de estudo, um campo de especialização e que também fosse uma base sólida na qual eu pudesse me apoiar ao longo da minha carreira. Reuni ao longo dos anos muito material que eu gostaria de poder utilizar, na forma de artigos e de livros. Não abandonarei, portanto, Georges Duby tão cedo, pois acho que não seria correto deixar de me servir de todo esse material coletado. No entanto há um ciclo que se encerra. Depois de duas longas pesquisas, que se sucederam cronologicamente mas que foram tão distintas uma da outra — a de minha tese de doutorado e a da preparação da edição da Pléiade — tenho a sensação de ter concluído a minha pesquisa sobre Georges Duby. Continuarei interessado por tudo a seu respeito, mas o que espero poder publicar sobre ele será feito a partir da pesquisa que já empreendi. A minha tese, que o teve por protagonista, não se limitou à sua obra, mas pretendeu ser também uma tese mais ampla sobre a história da escola histórica francesa ao longo do século XX, com o propósito de definir o meu campo de especialização. Desejo, então, poder inaugurar novas pesquisas, assentadas sobre parte do material de que já disponho, voltadas desta vez para outros aspectos (autores, grupos, tendências) da escola histórica francesa e para algumas questões teóricas do campo da Historiografia, inclusive para poder voltar a pesquisar também a historiografia brasileira, a produção histórica nacional, que eu tanto admiro. A Historiografia é o meu campo de estudo, e a produção intelectual francesa, a minha área de especialização. Neste momento, estou relendo muitas coisas, procurando construir um novo questionário. Há uma infinidade de caminhos e de temas a serem explorados. Na origem de qualquer pesquisa, acho que todo o pesquisador sente uma excitação e uma dose de medo. É muito excitante e desafiador iniciar uma pesquisa, se lançar numa aventura intelectual. Nunca se sabe aonde ela vai nos levar.

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Proust e as Petronas

Proust e as Petronas

Era uma noite de março, poucos dias antes de ser adotado na Malásia o confinamento por causa da pandemia. Eu voltava, de táxi, de um compromisso fora de Kuala Lumpur. Entrando na capital pela autoestrada, vi de longe, iluminadas, as duas grandes torres gêmeas. Daquele ângulo, elas pareciam isoladas na planície da cidade, majestáticas a uma altura de mais de quatrocentos metros. Desde sua inauguração em 1998, as torres Petronas, com sua estética retrofuturista, foram pouco a pouco sendo rodeadas por outros prédios, invisíveis para mim daquele ponto e naquele momento.

Moro em frente às torres; somos separados por um parque, desenhado por Roberto Burle Marx. Das minhas janelas, tenho delas visão completa, desimpedida. Vê-las de longe, iluminadas, brilhando, tocando o céu significou, naquela noite, a certeza de que eu estava no caminho de casa, de que dali a minutos estaria alimentando Kiki, a gata persa dourada, antes de ir dormir.

A visão das Petronas à distância fez-me pensar em Proust.

Uma das imagens mais presentes para mim, em À la recherche du temps perdu, é a da torre da igreja de Saint-Hilaire aparecendo ao longe, quando o narrador e sua família chegam de trem a Combray. Mário Quintana assim traduziu esse trecho de Du côté de chez Swann: “Desde muito longe já se reconhecia a torre de Santo Hilário, que imprimia seu vulto inesquecível no horizonte onde ainda não assomava Combray; na semana de Páscoa, quando meu pai avistava, do trem que nos trazia de Paris, aquela torre que deslizava por todos os campos do céu, fazendo correr em todos os sentidos seu pequeno galo de ferro, logo ia nos dizendo: ‘Andem, recolham as capas, que já chegamos’ “. No táxi, entrando em Kuala Lumpur, eu não tinha capa — Proust usa a palavra “couvertures”; Mário Quintana poderia ter preferido “mantas” ou “cobertores” — mas, ao avistar as torres no céu, instintivamente juntei minhas tralhas esparramadas no banco traseiro: estojo de óculos, celular, pasta, papéis, caneta.

A imagem que o narrador proustiano nos oferece da torre da igreja de Saint-Hilaire confunde-se, na minha memória, com uma lembrança da infância. Quando eu tinha sete ou oito anos, viajei de carro com meus irmãos, de Bruxelas até Chartres. Era primavera ou verão, pois lembro que estávamos sem mantas, cobertores ou capas, o sol brilhava, fazia calor e não havia nuvem no céu azul. De repente, nós as vimos, as duas torres dizigóticas da catedral, nítidas no horizonte, aparecendo por cima dos campos dourados da região da Beauce. Quando penso no trecho em que o narrador de Proust descreve a visão da torre de Saint-Hilaire, viajo sempre para essa primeira impressão das torres de Chartres, experiência que eu voltaria a ter décadas mais tarde, já adulto, com minha mulher e minha filha, dessa vez eu mesmo ao volante.

Costumo confundir a minha experiência com a do narrador de Proust. Meu primeiro pensamento é sempre acreditar que, nesse trecho de Du côté de chez Swann, o que é visto do trem são as torres da catedral de Chartres. Pego o primeiro dos quatro volumes da Recherche na edição da Pléiade, e sou uma vez mais surpreendido — é como um ritual — com o fato de que o autor fala, na verdade, da torre fictícia de Saint-Hilaire.

Na infância como na idade adulta, a catedral de Chartres não era meu único destino, na travessia dos campos da Beauce. Um pouco além está a pequena cidade de Illiers-Combray, com sua igreja de Saint-Jacques, que inspirou a de Saint-Hilaire, e onde pode ser visitada a casa da tia de Proust. Criança, durante alguns anos o escritor lá passou férias. Hoje é um museu conhecido como Maison de tante Léonie, nome da personagem de Proust em cuja casa em Combray o narrador e seus pais se hospedam.

Ao visitar museus associados a escritores, temos a impressão de que o autor está ali, como uma presença forte que nem a morte pode apagar. No caso de Proust, além da casa em Illiers-Combray há a recriação de seu quarto no Musée Carnavalet, a meu ver um dos pontos altos de qualquer visita a Paris. Ali vemos inclusive sua cama, onde ele gostava de escrever e na qual morreria em 1922. A França é pródiga na celebração de residências de escritores. Um dos mistérios da vida é por que nunca entrei, na Place des Vosges, na casa de Victor Hugo. Outra de minhas ambições é um dia ir a Bougival, visitar a datcha construída por Turgueniev, onde ele escreveu e morreu. A quinze quilômetros de Paris, Bougival parece perto fisicamente e, ao mesmo tempo, psicologicamente distante. Entrar em um museu dedicado à memória de um escritor significa ingressar na realidade de sua vida e de sua obra. Não é algo a ser feito levianamente. Requer disposição para passar por uma experiência emocional e intelectual exaustiva.

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A Rússia é outro país habituado a transformar em museu a casa de grandes escritores.  Lembro de já ter visitado, em Moscou, o apartamento em estilo neoclássico de Pushkin e a casa art nouveau de Maksim Gorki. Estive na datcha de Boris Pasternak em Peredelkino, perto da capital. Na minha lista de residências de escritores a serem conhecidas antes da morte estão a de Dostoievski em São Petersburgo e a de Tchekhov em Moscou, à qual cheguei a ir uma vez, para descobrir que já havia fechado.

Sobretudo, há a propriedade rural de Tolstoi, a 200 quilômetros de Moscou. Frequentemente, penso em Yasnaya Polyana, sonhando visitá-la. A distância, que parece intransponível, concede-lhe uma aura mágica, misteriosa, transforma-a em objeto de cobiça inalcançável. Em setembro de 2019, viajei de férias à Europa com a intenção específica de ir a Yasnaya Polyana. Contratempos se interpuseram, e não cheguei sequer até Moscou. Cultivo na mente imagens poéticas. Vejo-me caminhando, pela floresta, da casa até ao túmulo de Tolstoi, para recolher-me frente a ele, ouvindo o vento e os pássaros, rodeado apenas pelas árvores. Vejo-me dentro da casa, sentindo, ao ir de cômodo em cômodo, a presença do escritor.

Em Moscou, no bairro de Khamovniki, existe a casa onde Tolstoi passava os invernos. Se me perguntassem qual meu lugar predileto na cidade, eu diria haver dois: o Museu Pushkin de artes plásticas — por causa dos Matisse — e a casa de Tolstoi. A verdade é que seriam três, porque eu teria de incluir o Bolshoi. Aumentemos logo para quatro, porque haveria também o Café Pushkin, restaurante de atmosfera sedutora, decorado com livros antigos.

Guardo o impacto, das três ou quatro vezes em que estive em Khamovniki, da escrivaninha do escritor, das botas feitas por ele, de sua bicicleta, e do piano em uma das salas. Trata-se de uma excelente evocação do que seria, nos últimos anos do século XIX, a vida de uma família moscovita aristocrática, próspera, literária e artística.

Os ambientes, felizmente, nem sempre revelam seus segredos; entrei e saí da casa, todas as vezes, sem pensar nas crises ali vividas.

Em 1881, com os mais velhos de seus filhos prestes a iniciar a vida adulta, Tolstoi e a mulher, Sofia, decidem que a família deve começar a passar os invernos em Moscou. Assim farão quase todo ano, até 1901. Desde o casamento, em 1862, eles haviam vivido ininterruptamente em Yasnaya Polyana. A casa de Moscou foi comprada em 1882. Em suas memórias, Minha Vida, Sofia Tolstoi diz: “Ele encontrou uma casa com um jardim grande […] A imensidão dessa propriedade, que mais parece um sítio no campo, deixou-o encantado”. Segundo a condessa Tolstoi, a decisão de passar os invernos em Moscou foi tomada de comum acordo. Logo, porém, o escritor começa a manifestar insatisfação em seus Diários.

Esse é o período em que, escreveu seu filho Liev em A Verdade sobre meu Pai, Tolstoi “se transformava de romancista em profeta”. À medida que o conde-escritor vai dando primazia à sua espiritualidade, às suas inquietações de ordem moral, aquilo que considera a artificialidade, a futilidade da vida urbana e mundana faz aumentar o fosso entre ele e a mulher, respingando às vezes sobre o relacionamento com os filhos.

Choca-o o contraste, na cidade, entre o luxo e a miséria. Condena a mulher — ocupada criando os filhos, gerindo os bens do casal, administrando funcionários, babás, governantas e tutores, recopiando e corrigindo infinitas vezes os manuscritos do marido — por não o acompanhar em seu percurso espiritual. Já no primeiro inverno, em 1881, antes mesmo da compra da propriedade de Khamovniki, ele escreve, em 5 de outubro: “Um mês se passou — o mais torturante da minha vida. Instalação em Moscou. — Eles não param de se instalar. Quando começarão a viver? Tudo não para viver, mas porque é o que se deve fazer. Os infelizes! E sem vida.—”. O agravamento da crise matrimonial, que culminaria na fuga de Yasnaya Polyana no meio da noite em novembro de 1910, e na morte de Tolstoi na estação de trem de Astapovo, não foi uma linha contínua. Ao longo dos anos, às vezes a relação melhorava, para depois piorar.

Aos 13 ou 14 anos, li meu primeiro livro de Tolstoi, A Sonata a Kreutzer, que encontrei em francês na biblioteca de meus pais. Foi uma iniciação infeliz. Na novela, publicada em 1889, o narrador condena o sexo, inclusive no casamento. George Steiner considerava A Sonata a Kreutzer uma obra-prima, mesmo ciente de suas limitações. Quanto a mim, ler a novela na adolescência fez-me rejeitar Tolstoi por muitos anos. Postergou a entrada de Guerra e Paz, de Anna Karenina, de A Morte de Ivan Ilitch e de Padre Sérgio na minha vida. É cabível ver, nas ideias negativas do narrador sobre sexo, casamento e a relação entre homem e mulher, a tensão em que se encontrava o próprio autor. “Esse livro me rebaixava aos olhos do mundo inteiro e destruía definitivamente o nosso amor”, diz Sofia em Minha Vida.

“Quanto ao Tolstoi, basta ser russo para eu ter dificuldade em dar por ele”. Assim escreveu Fernando Pessoa em carta a João Gaspar Simões, em dezembro de 1931. De fato, ao consultar os títulos em sua biblioteca, preservada em grande parte na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, constato não haver um livro sequer do profeta de Yasnaya Polyana. De Proust, havia na sua estante um volume de Du côté de chez Swann, mais especificamente Un amour de Swann.

A proposta na Casa Fernando Pessoa, instalada no edifício onde o poeta morou de 1920 até morrer em 1935, não é recriar o ambiente original, que devia estar já descaracterizado quando o museu abriu em 1993. Todo o interior do prédio — eu o visitei em 2017; está sendo remodelado — é uma celebração do poeta e de sua obra, sem pretender mostrar com rigor o cenário em que ele vivia. Lá estão, no entanto, parte de sua mobília, inclusive a máquina de escrever, a estante e a cômoda.

Possivelmente, a escrivaninha de um escritor é o que mais nos fascina quando visitamos a casa onde morou. É lá, no tampo do móvel, que as ideias são colocadas no papel ou, hoje, no computador. É lá que a imaginação se transforma em criação, em obra. Na casa de Fernando Pessoa, falta a escrivaninha, mas a cômoda a substitui. Ela remete à criação dos heterônimos. Em carta a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, Pessoa escreveu, sobre o dia 8 de março de 1914:  “acerquei-me de uma cômoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé”. Nesse dia, no topo da cômoda, apareceu um de meus poetas prediletos, Alberto Caeiro, e surgiram “trinta e tantos” poemas de seu O Guardador de Rebanhos. Tolstoi teria aprovado o verso “Nas cidades a vida é mais pequena”.

Quarto Fernando Pessoa

Rubens Figueiredo, ficcionista premiado e celebrado tradutor de Tolstoi e de outros russos com os quais Pessoa tinha “dificuldade”, é um dos 36 autores brasileiros entrevistados e fotografados em casa por Eder Chiodetto em seu livro O lugar do escritor, publicado em 2002. O propósito, segundo Chiodetto, era descobrir “que ressonâncias desse mundo inventado eu encontraria no escritório, local, pelo menos em tese, onde irrompe a ficção?”. Dois deles, Ariano Suassuna e Cristovão Tezza, preferiram ser fotografados lendo, deitados, mas em sua maioria os escritores são apresentados no escritório, em fotos estupendas em preto e branco, muitos, previsivelmente, sentados frente à escrivaninha. Das casas mostradas, só estive, uma vez, há muitos anos, quando fui conhecê-lo para discutir sua obra, na de Bernardo Carvalho. Dos curtos depoimentos de escritores que acompanham as fotos, o mais contundente é o de João Cabral de Melo Neto: “Você quer me fotografar no meu escritório? Aqui não tem escritório. Não escrevo mais”.

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Uns dizem precisar de silêncio para escrever, outros não se incomodam com barulho. Uns são organizados e disciplinados, outros escrevem sem rotina. Muitos transformam qualquer aposento em escritório, outros escrevem em qualquer lugar. Uns usam caneta, outros computador; Lygia Fagundes Telles comenta usar máquina de escrever, e conta que o computador recebido de seu editor está ainda na embalagem, dentro do armário.

Cama de Proust, escrivaninha de Tolstoi, cômoda de Pessoa. A verdade é que se escreve onde se pode. Em todo lugar podem ser escritas as palavras que dão origem a um mundo próprio. E às vezes, basta a visão noturna das torres Petronas para nos trazer de volta à memória o universo peculiar de um criador.

Magicamente, o táxi que nos transporta por uma autoestrada malásia, perto da meia-noite, é o trem que leva a Combray. Com o tempo, os livros lidos se fundiram. Formaram na mente uma obra pessoal. Um segundo mais, e as espetaculares Petronas se transformarão na singela, provinciana torre de Saint-Hilaire.

 

Petronas

Este texto foi publicado na revista literária Pessoa em 28 de junho

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