A Fazenda Malaia

A Fazenda Malaia

“Eu tive uma fazenda na África, aos pés dos montes Ngong”. Assim Isak Dinesen inicia seu livro autobiográfico, Out of Africa. Assim também, na versão cinematográfica, ouvimos pela primeira vez Meryl Streep, impondo-nos aquilo que somos solicitados a aceitar como sotaque dinamarquês. A tão célebre frase, porém, quase foi bem diferente.

Em fevereiro de 2020, recém-chegado a Kuala Lumpur, conheci o embaixador da Dinamarca. Ele me contou que sua compatriota Isak Dinesen — ou Karen Blixen — e o marido, o barão Bror von Blixen, antes de irem plantar café no que hoje é o Quênia, e era então a África Oriental Britânica, quase tinham vindo plantar seringueiras no que hoje é a Malásia, e era então a Malaia Britânica.

Cinco meses depois, ao receber a mudança, quis verificar a informação na biografia de Isak Dinesen por Judith Thurman. De fato, a biógrafa nos conta que um tio dos noivos os convidou para administrar sua plantação de seringueiras na Malaia Britânica. O casal se entusiasmou. Judith Thurman cita uma frase da autobiografia de Bror von Blixen: “Aceitei a oferta sem um momento de hesitação”. Esse projeto, porém, não se concretizou. Outro tio voltou tão fascinado de um safári na África Oriental Britânica, tanto encorajou os noivos a irem viver lá, que eles mudaram de plano. Partiram da Europa para a África em 1913 e, no ano seguinte, casaram-se em Mombaça.

Além de demonstrar o alcance do colonialismo britânico, a história, para um amante da simetria, apresenta paralelismos irresistíveis. Karen Dinesen, apaixonada por um primo, Hans von Blixen, rejeitada por ele se casa com seu irmão gêmeo, Bror. Um parente recomenda aos noivos e primos, ele sueco, ela dinamarquesa, que vivam em um protetorado britânico na Ásia. Outro os incentiva a partir para um protetorado britânico na África.

O título de Out of Africa poderia então ter sido Out of Malaya, e a tradução para o português do livro, em vez de A Fazenda Africana poderia ter sido A Fazenda MalaiaO filme de Sydney Pollack com Meryl Streep, Robert Redford e Klaus Maria Brandauer, de 1985, precisaria também ter tido outro título, só que haveria, como no caso do livro, outro enredo, com outros cenários, outros personagens. A esse filme, porém, eu teria, quem sabe, assistido, ao contrário do que aconteceu com Out of Africa, que nunca quis ver. Tanto antipatizei com os anúncios do filme, que evitei inclusive, até hoje, ler o livro, embora eu tenha uma afeição particular pelas histórias de Isak Dinesen, sobretudo as do volume Seven Gothic Tales. É possível também que a Malásia tivesse inspirado Karen Blixen menos do que o Quênia, e que ela não tivesse escrito a respeito.

A edição original de A Fazenda Africana foi publicada em 1937. Sete anos antes, lançara-se na França um romance cuja história se passa em uma plantação de seringueiras na Malaia Britânica. Malaisie é o livro escrito por um francês, Henri Fauconnier, que chegou à Península Malaia em 1905 para ser plantador. Ao escrever seu único romance, ele já não morava na colônia britânica, e sim em uma colônia francesa, a Tunísia, assim como Karen Blixen escreveu Out of Africa quando já voltara à Dinamarca.

Se eu não tivesse vindo trabalhar em Kuala Lumpur no ano passado, é certo que jamais teria lido Malaisie e, possivelmente, nunca ouviria falar em Henri Fauconnier. Assim como foi o embaixador da Dinamarca quem abriu meus olhos para a real possibilidade de que a experiência colonial de Isak Dinesen pudesse ter sido no Sudeste Asiático, foi o embaixador da França quem me ofereceu um exemplar de Malaisie.

Hoje esquecidos, romancista e romance tiveram seu momento de fama. Pois acontece que Malaisie foi, em 1930, o ganhador daquele que é, incontestavelmente, o mais prestigioso prêmio literário francês, o Goncourt. Derrotou naquele ano, entre outros candidatos, La Voie Royale, de André Malraux. Este seria recompensado com o prêmio em 1933, com La Condition humaine. Como o de Henri Fauconnier, esses dois romances de Malraux são passados na Ásia.

Criança, roubei na biblioteca de meus pais uma história da literatura francesa de 1947. É bem possível que tenha pertencido antes a algum de meus avós. Fauconnier e seu livro não são citados, assim como não encontro referência a eles em nenhum de meus dicionários de literatura francesa. No manual de 1947, leio que “o romance exótico recebeu encorajamento, logo após a Primeira Guerra Mundial, por causa do novo interesse surgido por regiões distantes que haviam participado do grande conflito, por causa da atualidade dos problemas coloniais e também por causa do desejo por uma mudança de cenário” (“le désir d´un dépaysement”).

Teria sido uma pena eu nunca ler Malaisie, porque é um livro com um estilo único, particularmente envolvente. O leitor visualiza os cenários descritos, ouve as conversas narradas, entende a psicologia dos personagens. Na contracapa da edição que recebi de presente, há elogios de Georges Bernanos e Maurice Maeterlinck. Este último afirma: “Considero-o o melhor ganhador do Goncourt desde a fundação do prêmio”. Sorri ao ler esse exagero; em 1919, onze anos antes de Henri Fauconnier, Marcel Proust fora premiado com o Goncourt por À l´ombre des jeunes filles en fleurs.

O enredo de Malaisie é simples. Um francês jovem, Lescale, que lutara na Primeira Guerra Mundial e é o narrador, chega à Malaia Britânica para tentar fazer dinheiro. Nas trincheiras, na Picardia, ele conhecera Rolain, mais velho do que ele e plantador de seringueiras e que lhe falara da vida na colônia inglesa. É por causa dos relatos de Rolain que, a guerra terminada, Lescale parte para a Península Malaia. Um dia, eles se reencontram por acaso na varanda de um clube. A amizade é retomada. Lescale aceita ser o administrador do seringal de Rolain. Além deles, há dois outros personagens relevantes, irmãos malaios que trabalham cada um com um dos dois franceses, na condição de empregados domésticos.

Até às últimas páginas, quando dois crimes acontecem, há pouca ação. Os dois amigos conversam sobre questões filosóficas, sobre a natureza ao seu redor, sobre o espírito dos malaios. A realidade europeia é mencionada mais de uma vez de forma crítica, como quando Rolain diz ser a Europa “uma terra onde eu já não poderia viver, uma terra desumana, pois lá não há seres humanos, apenas marionetes”. Há comentários sobre a extração da borracha, sobre a relação entre as três comunidades — malaia, indiana e chinesa — e entre estas e o colonizador europeu e sobre a dureza, para os trabalhadores, da vida nas plantações. Lescale trabalha, Rolain parece sempre estar refletindo e emitindo opiniões sibilinas. Estas são recebidas como oráculos pelo mais jovem. Os diálogos entre os dois mostram uma relação de mestre e discípulo.

Recentemente, conversei com um casal de amigos que também leram o livro. Eles especularam sobre a sexualidade de Rolain e Lescale. De fato, as poucas mulheres no livro fazem somente figuração. Lescale começa um caso com a mulher de um dos empregados do seringal, mas pouco nos é dito sobre ela. É possível que essa relação meramente sexual sirva para ilustrar ou condenar o poder arbitrário dos plantadores sobre os que deles dependem financeiramente; ou para embaralhar as indagações do leitor sobre a relação entre os dois franceses e entre eles e seus empregados.

Há referência breve e isolada ao fato de que, na vizinhança da plantação de Rolain, só há “duas senhoras”, que não se suportam: “Mais il n´y avait que deux dames dans le district, et qui ne s´aimaient pas”. Veio-me o pensamento de que haveria aí material para um romance diferente. Quem são elas? Quais as suas nacionalidades? Os seus nomes? Por que não são amigas? Qual é sua situação familiar? Como vieram parar na Península Malaia? Nunca saberemos, e eu teria gostado de saber.

Dois elementos me prenderam ao curto romance de Henri Fauconnier. O primeiro é a descrição das paisagens, particularmente da floresta em volta à plantação. A propriedade de Fauconnier — como também a de seu personagem Rolain — era no sultanato de Selangor, em cujo território está encravada Kuala Lumpur. Já estive muitas vezes em Selangor, que preserva, apesar da urbanização e de ser hoje o estado mais rico da Malásia, vastas florestas.

A natureza luxuriante é, na verdade, o personagem principal do romance, como mostram as suas elaboradas descrições. Traduzo um trecho: “Há um momento onde nada permite adivinhar a chegada da manhã e, de repente, uma pequena brisa, que parece sair do solo, roça as folhas com o barulho como que de uma cortina que se levanta. E em seguida eis o ´te-te-goh´, o pássaro dos crepúsculos, que semeia no ar suas três notas claras […] outros pássaros, pouco a pouco, intervêm. Um numeroso coro se organiza. À medida que cresce a luz e que as brumas da manhã se evaporam, um longo crescendo de indagações cada vez mais altas, rápidas, apaixonadas, se levanta. E quando o sol finalmente jorra das montanhas, isso tudo desabrocha em uma longa aclamação. É o hino grandioso dos gibões”.

Fiquei me perguntando o que seria esse pássaro apelidado por Fauconnier, entre aspas, de “te-te-goh”. Quero crer que se trata do koel asiático, fonte do primeiro som novo que ouvi ao chegar a Kuala Lumpur; a espécie frequenta o parque em frente ao edifício onde moro, desenhado por Roberto Burle Marx. O koel só oferece seu canto belo, alto e peculiar de manhã ou no final da tarde, encaixando-se assim na definição de “pássaro dos crepúsculos”. Vive na copa das árvores, e nunca consegui ver um exemplar.

O outro ponto fascinante no livro é o espaço dado a uma versificação oral tipicamente malaia, o pantum, de que Fauconnier dá numerosos exemplos. Essa forma poética já havia sido mencionada por Victor Hugo em uma nota em sua coleção de poemas de 1829 com sabor de exotismo, Les Orientales, onde ele explica o pantum como sendo um “canto malaio”, e dá um exemplo que ele considera “deliciosamente original”. Depois dele, vários poetas franceses se interessaram pela forma. Verlaine, em 1871 ou 1872, escreveu um “Pantum negligenciado”, publicado pela primeira vez em 1884, em Jadis et naguère. Henri Fauconnier, porém, foi além. Em Malaisie, ele utiliza o pantum como elemento essencial do livro.

Logo no início do primeiro capítulo, um pantum anuncia o próprio enredo do romance:

Jikalau tidak karna bintang
masakan bulan terbit tinggi

Jikalau tidak karna abang
masakan datang adek k-mari

Dou uma versão da tradução francesa livre de Fauconnier, sem a preocupação, que ele tampouco teve, de respeitar as rimas, o que já deturpa o espírito do pantum, onde a graça parecem ser as rimas em formato ABAB e a repetição de palavras e de sons:

Se não fosse pelas estrelas
por que a lua brilharia no céu?

Se não fosse pelo mais velho
por que o caçula viria?

No romance, ficamos com a impressão de que os malaios, mesmo o mais humildes, usam o pantum a torto e a direito na vida cotidiana. Ao menos o empregado doméstico de Rolain o faz, e este diz a seu respeito: “Smaïl est un poète, et il a trop d´imagination”. Perguntei a alguns amigos malásios se o pantum ainda é corrente nas interações sociais. De todos, ouvi que não, o que me causou pena, como prova de um empobrecimento, uma homogeneização cultural. De um, ouvi que, no contexto de “eventos tradicionais, como casamentos”, o noivo, ou sua família, ainda elabora pantuns para a noiva. Outro indicou que membros do Parlamento, no plenário, às vezes improvisam pantuns para iniciar a fala dirigida a um colega, e que este idealmente deveria também responder com outro pantum, como uma forma de “cortesia malaia”. Não ficou claro se apenas noivos e congressistas malaios constroem ainda pantuns ou se membros das outras comunidades malásias, a chinesa e a indiana, também.

O clube onde se dá o reencontro entre Rolain e Lescale é claramente inspirado, pela descrição, em um local verdadeiro, que lá está até hoje, o Royal Selangor Club. Em estilo falso Tudor, situa-se no coração da Kuala Lumpur colonial. Em frente a ele, está o enorme espaço verde hoje conhecido como Merdeka, que em malaio significa “independência”. Ali, onde os ingleses costumavam fazer paradas militares e jogar cricket, em 1957 levantou-se pela primeira vez a bandeira do novo país. Além do clube, que era frequentado pela elite colonial, estão ao redor da praça os prédios da administração inglesa e da antiga corte de justiça, construídos no final do século XIX em estilo teoricamente mourisco, e a catedral anglicana de 1894, seguindo o estilo gótico inglês inicial.

Pouco depois de chegar à Malásia, tornei-me membro do Royal Selangor, mas lá nunca pudera ir, por causa das constantes e sucessivas regras de isolamento social. Em um domingo de abril, convidei dois amigos e a mulher de um deles, todos estrangeiros, para almoçar no clube. Sentados na varanda onde ocorre o reencontro entre Lescale e Rolain, admiramos a vista, com o gramado verde da Praça da Independência e, além dele, bem em frente ao clube, a antiga sede da administração britânica. Atrás, os prédios modernos pelos quais Kuala Lumpur é famosa. Víamos diante de nós como um resumo da história da Malásia nos últimos 140 anos.

Imaginei Karen Blixen, de volta à Escandinávia, rememorando os dias em seu seringal. Imaginei-a sentada em sua casa de campo senhorial, pegando a caneta e começando um livro: “Eu tive uma fazenda na Península Malaia, na curva do rio Selangor”.

Esta IX Carta da Malásia foi primeiro publicada, em 29 de maio, em versão mais curta, em Estado da Arte

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A Concubina

A Concubina

Há em Kuala Lumpur um bairro chinês que foi, durante décadas, já na época da colonização britânica, o centro comercial da cidade. Durante as poucas semanas entre minha chegada à capital, em janeiro do ano passado, e o início do primeiro isolamento físico, em março, lá estive algumas vezes. Sempre ia, porém, visitar templos ou pontos turísticos específicos, atravessando as ruas principais. Nunca havia explorado as vias secundárias.  

No primeiro domingo de abril, passado um ano de pandemia, quis conhecer alguns murais ao ar livre que sabia existir ali. Decidi começar o passeio almoçando em um restaurante recomendado pelos guias, Old China Café. O lugar serve comida nyonya, ou peranakan, como são chamadas a culinária e a cultura desenvolvidas pelos imigrantes chineses que, já no século XV, mas de forma mais maciça a partir do século XIX, se instalaram no que hoje são Malásia, Indonésia e Singapura, misturando-se com as populações nativas.

Entrei no café. No estreito espaço, havia apenas famílias de origem chinesa, com uma exceção. Em uma mesa perto de mim estavam duas senhoras ocidentais, ambas com o cabelo branco, e que se pareciam fisicamente. 

Hesitei se eu optaria pelo frango frito, que lera ser uma especialidade da casa, ou pelo peixe com molho agridoce. Escolhi o frango. Enquanto esperava, olhei à minha volta para formar uma opinião sobre o recinto. Eu o definiria como um café chinês da Belle Époque. Pequenas mesas redondas, de madeira escura, com tampo de mármore branco. Cadeiras também de madeira escura, de aparência antiga. Nas paredes, pinturas sobre papel, representando sábios e damas e caligrafia. Pensei que um chinês instruído que entrasse naquele café talvez reconhecesse cenas ou versos de poemas famosos. Senti uma vez mais o quanto as culturas orientais estão fora do nosso alcance, por não dominarmos as línguas em que elas se expressam. Podemos admirar a técnica, a beleza em uma pintura chinesa, mas esse prazer será estético, não intelectual. O que as cenas representam, o que a escrita revela, não podemos alcançar, a não ser que conheçamos a fundo aquela literatura e o idioma.

O frango frito chegou. Eram pedaços pequenos, com ossinho, de cor uniforme, acompanhados de uma tigela contendo um molho azedo. Usei as mãos para comer, depois de passar o álcool em gel que trouxera comigo. A primeira mordida me decepcionou. A temperatura do frango era abaixo de morna. Pensei em Kiki, a gata persa dourada. Lamentei ter saído de casa, deixando-a sozinha, para provar um frango frito no qual eu não via graça. Lembrei do olhar acusador, amuado, que dela recebera ao abrir a porta do apartamento para sair. Senti-me um traidor. Sentado ali, no Old China Café, segurando um pedaço de frango, pensar em Kiki sozinha no apartamento me fez ficar inquieto com minha mãe no Rio de Janeiro, minha irmã em Lisboa, minha filha em Bruxelas e minha mulher em Singapura. Percebi que eu estava prestes a me indagar sobre o sentido da vida.   

Controlei-me a tempo. Filosofar em torno a um frango frito não me levaria a parte alguma. A única conclusão possível sobre o novo coronavírus é a de que ele afetou negativamente a vida de todos. Isso já cria um ponto em comum entre nós. O vírus nos afasta fisicamente dos seres queridos, deixa-nos sós, mas o sofrimento e a preocupação que causa deveriam nos aproximar espiritualmente da humanidade. 

Considerei mais profícuo voltar minha atenção à refeição. Continuei mordiscando o frango. A carne na verdade era tenra e saborosa. A ave estava crocante por fora e macia por dentro. Mergulhada no molho, que era delicioso, ficava mesmo apetecível, apesar da baixa temperatura. Pensamentos positivos começaram a surgir. O ambiente no Old China Café me fez lembrar de minha primeira viagem fora da capital, em julho do ano passado, objeto da primeira Carta da Malásia, A Ásia em Penang. Um dos centros da imigração chinesa e da cultura Nyonya, a ilha de Penang abriga, no seu centro histórico, George Town, um bem conservado bairro chinês. O frango perfeitamente frito, macio, acompanhado daquele molho exótico, podia ser encarado como uma aventura gastronômica tão estimulante quanto as refeições que eu fizera na ilha em julho.

Terminado o almoço, saí do restaurante. As duas senhoras ocidentais lá continuavam. No dia seguinte, de manhã, ao sair para o trabalho, eu descobriria que uma delas é minha vizinha, pois passaria por mim na portaria do prédio onde moro, vestida ela também de maneira mais formal do que no domingo.

Na rua, meu espírito era já outro. O frango frito e seu molho me haviam deixado contente. Pensei em um comentário habitual de minha mulher, de que sempre sabe quando chega a hora do almoço porque, quando eu sinto fome, começo a ver tudo pelo lado mais sombrio.

Em termos geográficos, eu me encontrava na parte ocidental do trecho menos movimentado da rua mais turística do bairro chinês, chamada Petaling, que é um verdadeiro bazar, onde são vendidos roupas e acessórios de marca a preços acessíveis, de origem porém incerta.

Ao meu redor, havia pequenas ruas e becos que eu desconhecia por completo. Virando a esquina, vi a loja da Beryl´s, um chocolate malásio do qual deixei-me tornar dependente, e cuja especialidade são amêndoas cobertas em chocolate ao leite, ou amargo, ou branco, ou ao chá verde. Sou, por razões médicas, proibido de ingerir cacau, sob o risco real de encurtar minha vida, e isso cria um dilema. Chocolate me dá sono de noite se estou insone, me deixa desperto de dia se estou sonolento, me dá energia se estou apático, e me acalma se estou agitado. Em suma, resolve tudo. Renunciar a ele é uma luta cotidiana, e frequentemente perdida. No interior elegante da loja, há um mural representando crianças felizes — presumivelmente por poderem comer chocolate sem culpa — e arranha-céus de Kuala Lumpur, entre eles as Torres Petronas.

No muro lateral da Beryl’s, que dá para uma viela curta e estreita, vi a pintura que eu mais desejava conhecer, uma das atrações famosas do bairro chinês, O Ourives, da artista russa Julia Volchkova.

Continuando pela viela, logo cheguei a outra rua, onde há uma sequência de pitorescas casas amarelas. À direita, notei um beco fechado por uma grade, diante da qual pessoas faziam fila. Um guarda me explicou tratar-se de um lugar muito frequentado, por causa de seus murais e alguns bares. A Covid obrigava a que apenas poucas pessoas fossem autorizadas a permanecer no local simultaneamente. Juntei-me à fila, sob o sol tremendo e o excessivo calor. A espera foi curta. O nome do beco, Kwai Chai Hong, parece querer dizer, em cantonês, algo como “Brincalhão” ou “Malandrinho”. Compõe-se de duas curtíssimas ruas de pedestres, que formam um “T”, onde os muros são cobertos de murais, lembrando o espírito descontraído de Penang. Nenhum de meus guias fala nesse lugar, e descobri-lo por acaso foi uma boa surpresa. Parecia que eu estava a anos-luz da Kuala Lumpur moderna onde moro. Deixei-me levar pela levíssima sensação de estar fora do tempo, em nova realidade.

Ao abandonar o Malandrinho, de volta à rua, caminhei frente às casas amarelas. Pela janela aberta de uma delas, vi um painel na parede que me levou a entrar. Diante de mim, estava um enorme retrato de Ava Gardner. Bem, não realmente. Tratava-se de uma mulher oriental. Algo nela, porém — talvez a grande beleza, o cabelo escuro, o olhar direto e o ar de independência que a figura comunicava — me fez pensar na atriz hollywoodiana. Esta, segundo Sérgio Augusto em sua coletânea de ensaios sobre cinema, Vai Começar a Sessão, “é até hoje considerada a mulher mais linda de todos os tempos”. 

Entendi que eu entrara em um restaurante, cuja sala era no segundo andar. No térreo, nada havia se não Ava Gardner, um bar e a escada que levava ao andar de cima. Em um letreiro de neon, letras estilizadas como um caractere em mandarim formavam o nome do restaurante. Chamava-se Concubine.

Não pude me impedir de rir. Eu estava justamente lendo — e o deixara em cima da cama para ir explorar o bairro chinês — um livro lançado em 2020 pelo historiador britânico Robert Bartlett, intitulado Blood Royal, Dynastic Politics in Medieval Europe, onde o conceito de concubina é relevante. No começo da Idade Média, a concubina real era algo superior, moralmente, à amante casual, particularmente entre os Merovíngios e os Carolíngios. No caso da primeira dinastia, não havia impedimento formal a que o rei fosse sucedido por filho tido de uma concubina. O livro contém subcapítulos com títulos como: “Esperando a Morte do Pai” (atividade principal de todo príncipe herdeiro, na Idade Média como hoje), “Reis Bastardos”, “Madrastas”, “Rainhas Adúlteras”, “Matando os Primos” e — este é o meu predileto — “Tios Malvados” (“Wicked Uncles”). São exemplos desse tipo encantador de tio os príncipes que, para aceder ao trono, precisavam primeiro eliminar fisicamente — e às vezes o faziam com as próprias mãos — o sobrinho, rei menor de idade. Ler o estudo de Robert Bartlett é como segurar nas mãos o roteiro de Game of Thrones, faltando apenas os dragões. George R. R. Martin, autor dos livros que deram origem à série de televisão, notoriamente inspirou-se de eventos verdadeiros da Idade Média e também em um conjunto de romances históricos de Maurice Druon, Les Rois Maudits, que já faziam meu encanto na infância e cujos heróis aparecem, com roupagem acadêmica e não ficcional, no volume de Robert Bartlett.

Procurei na Internet quem seria a Ava Gardner do Concubine. Trata-se da modelo chinesa Fei Fei Sun. O pintor é o artista malásio Najib Bamadhaj.

Isso me fez voltar à realidade. Eu estava no universo do bairro chinês de Kuala Lumpur, não na corte de Filipe, o Belo, e suas noras, as princesas adúlteras, e muito menos na corte de Cersei Lannister e seus crimes em King’s Landing. As concubinas que haviam dado origem ao nome do restaurante não eram as de Carlos Magno, mas as dos enriquecidos imigrantes chineses. Todo aquele canto da cidade, no passado, havia sido um local de jogatinas, bebedeiras e belas cortesãs. Exatamente como em George Town, em Penang, onde existe uma via conhecida como Love Lane, porque ali, diz a tradição, moravam as amantes dos ricos chineses que residiam, com suas famílias, em uma rua adjacente. Os maridos saíam de casa dizendo que iam passear, andavam poucos metros e já estavam em questões de minutos nos braços de suas concubinas.

A tarde avançava. O passeio terminava. Uma gata me esperava.

Voltei à rua da loja da Beryl’s. Do lado esquerdo na calçada, eu notara mais cedo, havia um café, onde uma das atrações era um chocolate quente, cujo ingrediente principal vinha do chocolateiro vizinho. Sentei-me. Logo colocaram frente a mim, na mesa, o melhor chocolate quente da minha vida. A ele só podem se igualar, embora de sabores diferentes, dois outros. Um deles foi tomado há quase trinta anos em um café em Barcelona; o outro é de vez em quando preparado em casa pela minha mulher, derretendo a barra de chocolate no fogo baixo com manteiga.

A experiência durou uns poucos minutos. Enquanto eu olhava dentro da xícara já vazia, sorri.   

Este texto, VIII Carta da Malásia, foi publicada no Estado da Arte em 17 de abril

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A Tinta dos Seres Bons

A Tinta dos Seres Bons

Como toda grande cidade, Kuala Lumpur requer tempo para ser dominada. Desde que cheguei, há pouco mais de um ano, as recorrentes ondas de isolamento social obrigatório limitaram meu aprendizado. Muito do que descobri na capital malásia é resultado das semanas logo após a chegada, antes do primeiro fechamento provocado pela pandemia, iniciado em 18 de março de 2020.

Há alguns meses eu vinha querendo visitar uma livraria independente, Tintabudi, de que ouvira falar. No mapa, notei que ela ficava, e isto era um atrativo, em uma área que eu não conhecia, a uns dez, talvez quinze minutos de carro da minha casa, e bastante perto do antigo bairro chinês.

A rigor, eu não precisava de mais uma livraria. A maior da capital, Kinokunyia, fica a dez minutos a pé de onde moro, do outro lado do parque desenhado por Roberto Burle Marx. Tenho o cartão de usuário frequente, o que me dá um desconto, e vou lá tanto que fiquei amigo de um dos gerentes, Arthur, malásio de origem chinesa, que entende como poucos de música brasileira, sendo por ela apaixonado. Outro nessa situação é um dos nove sultões do país, que considera Tom Jobim o seu compositor predileto. Nosso “soft power” está associado à música, além do futebol. No aniversário de Tom Jobim, em 25 de janeiro, Arthur me escreveu, manifestando a certeza de que os brasileiros “remember the maestro with fondness and gratitude”. Esse certamente é o meu caso; naquele mesmo dia eu fizera um tuíte com o vídeo de 1974 do músico e Elis Regina cantando Águas de Março.

No último domingo de fevereiro, depois de terminar a primeira temporada de uma série policial belga excelente, La Trêve, pensei que eu precisava sair e me recuperar dos assassinatos vistos na tela. Fechando o laptop, olhei pela janela. O dia estava nublado, sem sol, mas não chovia. Isso é uma raridade em Kuala Lumpur, onde faz trinta graus sempre, seja com sol e céu azul, seja com chuva, a qual pode durar poucos minutos ou uma ou duas horas. Na verdade, o tempo lá fora, cinza e com o teto baixo, lembrava justamente a Bélgica, embora não a Bélgica da série. Estranhamente, em La Trêve sempre faz sol, e os personagens, antes de assassinar ou ser assassinados, vivem continuamente, em suas aldeias e florestas nas Ardenas, em uma radiante primavera. Eram quatro da tarde. Resolvi sair da rotina e ir à livraria independente. Desci e chamei um “Grab”, o Uber da Malásia e de Singapura.

O trajeto relativamente curto até a Tintabudi atravessava cantos que eu nunca vira. Havia canteiros de obras por toda parte, mas isso não é novidade na capital, cuja área metropolitana contém 8 milhões de habitantes e onde a construção civil nunca se interrompe, de dia ou de noite. De repente, o motorista de “Grab” parou o carro. Tínhamos chegado.

Kuala Lumpur é hoje um símbolo da modernidade. Por todo lado, há telões em fachadas de prédios mostrando anúncios em 3D, há viadutos suspensos onde o metrô passa ao ar livre, passarelas, túneis aéreos para pedestres e edifícios espetaculares como as gêmeas, e famosas, Torres Petronas. No Natal, um jornalista brasileiro, conhecido pela ironia sutil, me escreveu: “Deve ser curioso celebrar o nascimento de Jesus no cenário de Blade Runner”. Ele não sabia, mas a tese da minha mulher foi a primeira no mundo inteiro sobre Philip K. Dick, que era então um autor pouco conhecido. Vendo Kuala Lumpur pelos olhos dela, posso entender a associação com Blade Runner.

Ao sair do “Grab”, porém, o cenário que vi nada tinha de futurístico. Eu estava frente a um prédio de quatro andares, da década de 50, conhecido como “the Zhongshan Building”. Ele não me pareceu muito diferente de alguns edifícios pequenos, antigos de Copacabana ou Ipanema. Deve ter sido um marco na Kuala Lumpur de setenta anos atrás, quando a cidade ainda não era a sede de um país independente e não iniciara seu processo de verticalização. O lugar me pareceu tão descampado, tão ermo e vazio, naquela tarde cinzenta de domingo, que perguntei ao motorista, com alguma ingenuidade, se dali eu conseguiria condução de volta. Por causa da pandemia, quinze minutos de carro a um lugar novo parecem hoje uma tremenda aventura.

Atrás do Zhongshan Building, reconheci a onipresente torre azul em construção, certamente mais distante do que alguma ilusão de ótica fazia crer. Quando essa obra terminar, talvez ainda em 2021, mais provavelmente em 2022, a torre será o segundo prédio mais alto do mundo. Dependendo da fonte, sua altura final prevista varia de 635 a 678,9 metros. Dos seus 118 andares, 83 serão de escritórios; os restantes serão ocupados por um hotel e restaurantes.

Minha atenção estava porém focalizada no infinitamente mais modesto edifício Zhongshan. Ele abriga lojas pequenas, todas elas modernosas, elegantes e alternativas. Um americano, para definir o espírito do lugar, diria que é “hipster”. Um francês diria que é “bobo”, com o acento tônico no segundo “o”. No térreo, em uma botica decorada com madeira clara, todos os produtos são preparados sem componentes químicos e vendidos em frascos de vidro marrom. Ao lado, uma lojinha de tons pálidos vende cadernos e cadernetas de couro, perto de um café-padaria onde depois me arrependi de não ter ido me sentar. Sei que há pelo prédio uma galeria de arte e lojas de roupas e objetos de decoração, mas não as visitei.

Iniciei a subida até a livraria, que fica no segundo andar. Na metade do caminho, vi uma loja de discos, Tandang, e entrei. O recinto era mínimo e sedutor. A especialidade era punk rock. Gostei da música que estava tocando naquele momento. Descobri tratar-se de The Father, de um grupo de roots reggae inglês chamado Black Roots. O disco, In Session, fora lançado quando eu estudava em Londres. No entanto, eu nunca ouvira aquela canção ou, se a ouvi, minha memória não a registrou. Na época, aos vinte anos, eu estava sempre na universidade ou em algum museu, no teatro ou na ópera. Havia muito pouco tempo disponível para roots reggae na minha vida, inclusive porque eu nem conhecia o conceito, que só descobri no último domingo de fevereiro.

Voltei às escadas. Subi mais um andar e entrei na Tintabudi. Se a loja de discos era mínima, a de livros conseguia ser mais diminuta ainda. Fiquei me perguntando se aquela seria a menor livraria que eu já vira, ou se esse título caberia à Bahrisons de Khan Market, em Nova Delhi, que visitei em 2017 e de que falei, mostrando uma foto do seu interior, em Seis Livrarias.

Como espaço, a Bahrisons, apenas um curto corredor estreito, é sem dúvida menor, mas lá isso é compensado pelo fato de os livros à mostra, empilhados até o teto, preencherem todos os recantos. Na Tintabudi, uma pequena sala quadricular, não há empilhamento de livros. Organizada e aconchegante, ela poderia ser a biblioteca de uma casa particular.

Conversei com Nazir, o proprietário, um jovem malaio. Disse-me que seu nome pode ser traduzido como “aquele que traz a notícia”, o que achei premonitório para um livreiro. Perguntei seu critério para selecionar os volumes, tendo em vista o tamanho reduzido da loja. Respondeu-me: “Escolho para vender apenas os livros que quero ler”. Ele me explicou o nome da livraria.

Até a nossa conversa, eu não me dera conta de que “tinta” em malásio significa isso mesmo, tinta. A presença de Portugal em Malaca, por 130 anos, teve consequências também para o idioma. Assim como tinta é “tinta”, armário é “almari” e igreja é “gereja” (pronuncia-se “greja”). Já “budi” parece ter um sentido mais complexo. Segundo Nazir, é uma palavra oriunda do sânscrito e incorporada ao vocabulário malásio. Significa algo como “o espírito da bondade e da racionalidade do ser humano”. Uma tradução literal do nome da livraria seria talvez algo como: “Os Textos Produzidos pela Tinta dos Seres Bons”. Qualquer variação em que se possa pensar fará desse nome algo lindamente apropriado para uma livraria.

Em razão do pequeno espaço, a Tintabudi necessariamente tem de se especializar. Concentra-se em história dos países asiáticos, poesia, filosofia, temas contemporâneos. Notei forte presença de autores latino-americanos: Gabriela Mistral, Pablo Neruda, Vargas Llosa, um Jorge Amado — Dona Flor e Seus Dois Maridos — de segunda mão em espanhol, e Clarice Lispector, com a tradução por Benjamin Moser de A Hora da Estrela. Há livros recentes e antigos, novos e de segunda mão.

Namorei a bonita edição de uma coletânea de poetas persas preparada por Abbas Kiarostami, mas era cara. Cedi, no entanto, ao ímpeto de comprar três livros:

Os ensaios de Julian Barnes sobre arte, coletados em 2020 em Keeping an Eye Open, eu já cobiçava há várias semanas, desde que vira o volume na Kinokunyia. O livro de Joan Didion, Let Me Tell You What I Mean, publicado este ano, junta textos antigos — a maioria é de 1968, e o mais recente de 2000 — concisos e cirúrgicos. É cruel a forma como, em “Pretty Nancy”, de 1968, ela destrói Nancy Reagan, cujo marido era na ocasião governador da Califórnia, sem usar uma palavra maldosa sequer. Ela só constata e descreve. Em outro texto, “Why I Write” ela diz: “Had I been blessed with even limited access to my own mind there would have been no reason to write. I write entirely to find out what I´m thinking”. A descrição, em “A Trip to Xanadu”, da visita ao célebre castelo de William Randolph Hearst em San Simeon conclui com a frase: “Make a place available to the eyes, and in certain ways it is no longer available to the imagination”. Comprei o terceiro livro, Horace and Me, porque achei que seria um bom presente para um amigo latinista. Ao chegar em casa e começar a lê-lo, achei tão divertido o tom do autor, o jornalista inglês Harry Eyres, ao falar da sua devoção antiga, desde o colégio — e o colégio era Eton — ao poeta Horácio, que decidi segurá-lo comigo, pelo menos por alguns dias ou semanas. Um capítulo começa com a frase: “I did not always get on with Horace”.

A tarde terminava. Era hora de partir. Ao chegar em casa, depois de alimentar Kiki, a gata persa dourada, tentei descobrir o significado do nome do prédio. Zhongshan é uma cidade na província de Cantão, assim renomeada em 1925 em homenagem a um de seus filhos nativos, considerado o pai da república chinesa, Sun Yat-sen, morto naquele ano. Em 2017, em minha única viagem à China até hoje, visitei o mausoléu de Sun Yat-sen em Nanjing. Sem que eu soubesse disto, ele é mais conhecido na China como Sun Zhongshan, sendo este último nome a pronúncia em mandarim do pseudônimo em japonês que ele precisou adotar ao se exilar no Japão, no ocaso da China imperial. Devemos supor que a família construtora do prédio, de origem cantonesa, ou era oriunda de Zhongshan ou quis prestar tributo ao pai da república chinesa. Alguns dias depois, eu descobriria que Sun Yat-sen, no começo do século XX, morou em Penang, onde há mesmo um museu em sua homenagem. Tenciono visitá-lo quando as viagens internas pela Malásia voltarem a ser permitidas.

No dia seguinte, no trabalho, contei vantagem a meus colaboradores brasileiros sobre o lugar moderninho, “transado”, inovador, o prédio Zhongshan, que eu descobrira. Recomendei, paternalmente, que lá fossem. De uma das minhas colaboradoras, muito jovem, ouvi: “Eu vou muito a esse lugar. Costuma haver festas com rock em um espaço no último andar”.

Tão lapidar quanto Joan Didion.

Esta é a VIII Carta da Malásia, publicada primeiro em Estado da Arte em 6 de março de 2021.

Posteriormente, versão mais curta foi publicada, em 15 de abril, em inglês, na página eletrônica do jornal Sin Chew Daily e, em17 de abril, em mandarim, na versão impressa do jornal, que é o de maior circulação na Malásia.

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As pedras falam

As pedras falam

Quando eu estudava em Londres, muitas vezes pude ir ao British Museum. Durante a semana, as galerias não ficavam cheias, e frequentemente era possível estar sozinho frente aos Mármores do Partenon ou na longa sala egípcia, com o busto monumental de Ramsés II e a Pedra de Roseta. Esse era para mim o objeto mais fascinante do museu. Uma descoberta casual no Egito pelo exército de Napoleão, em 1799, permitiu o acesso à escrita de toda uma civilização. A Pedra nos explicou como ler hieróglifos, depois que essa capacidade havia sido perdida há séculos. Vê-la pela primeira vez, aos 19 anos, foi como encontrar um animal que só existisse em fábulas pois, na infância, por algum tempo, Champollion havia sido meu herói.

As salas egípcias, gregas, romanas, assírias costumavam ocupar meu tempo. Andava pelo museu procurando minhas peças prediletas, como o Vaso de Portland, o qual, além de sua beleza intrínseca, despertava meu interesse por ter pertencido ao rei dos colecionadores, Sir William Hamilton, embaixador em Nápoles de 1764 a 1800. Se gosto tanto do romance de Susan Sontag The Volcano Lover é, em parte, pela descrição cativante que ela faz de Hamilton e de suas duas mulheres. A primeira, Catherine, era uma competente cravista que tocou para Mozart quando o compositor, então com 14 anos, passou por Nápoles em 1770. A segunda Lady Hamilton, Emma, é bem mais célebre, como amante de Lord Nelson; como amiga influente da rainha de Nápoles, Maria Carolina da Áustria, irmã de Maria Antonieta; e como musa do pintor George Romney. Emma parece ter sido o que os artistas da época consideravam uma beleza clássica. Goethe, em sua passagem por Nápoles, em 1787, conviveu com o casal — eles eram ainda amantes apenas, e o escritor conheceu Emma como Miss Hart — e nos diz em seu Viagem à Itália que ela era vista pelos artistas como “o modelo perfeito para todas as heroínas e semideusas” da Antiguidade que eles gostavam de pintar em seus quadros. Ler o livro de Susan Sontag, na idade adulta, foi como recuperar aqueles momentos passados frente ao Vaso de Portland.

Inversamente, era por causa de um livro que, a cada ida ao British Museum, eu ansiava por rever as estelas assírias com baixos-relevos mostrando as caçadas e as campanhas militares de Assurbanipal. Em Proust, eu lera aos 11 anos uma breve alusão ao rei assírio. Em À l´ombre des jeunes filles en fleurs, o narrador nos diz ter ficado, criança, “merveilleusement surpris” ao ler que há registro dos nomes dos acompanhantes de Assurbanipal em suas caçadas. É um prodígio que possamos conhecer, ainda hoje, os nomes dos membros da corte de um rei que viveu seiscentos anos antes de Cristo. Mais recentemente, em 2008 minha mulher, minha filha e eu passamos um fim de semana em Londres especificamente para visitar uma exposição no mesmíssimo British Museum sobre o imperador Adriano. Talvez Adriano chamasse menos minha atenção se eu não tivesse, aos 18 anos, lido o romance sobre ele escrito por Marguerite Yourcenar, em forma de livro fictício de memórias do próprio imperador. Nunca poderei me cansar de refletir sobre o poder da arte para eternizar figuras, fatos ou momentos históricos.

Agora mesmo, gostaria que não houvesse pandemia e eu pudesse tirar férias, pegar um avião e ir a Londres com um propósito concreto: visitar, no British Museum, os artefatos descobertos em Sutton Hoo, em Suffolk, em escavações iniciadas em 1938 em túmulos anglo-saxões do século VII. Ali, possivelmente, foi enterrado um rei, talvez Redualdo da Ânglia Oriental, dentro de um barco do qual sobravam, quando o sítio foi escavado, apenas as marcas no solo. A página eletrônica do museu informa ter sido essa “one of the most spectacular and important discoveries in British archaeology”. Na época em que eu podia visitar assiduamente o museu, essas peças, que cheguei a ver, não despertavam tanto meu interesse. Sua importância cultural e histórica era sutil demais para um jovem inclinado a se impressionar com a imponência dos Mármores do Partenon, das esculturas do Mausoléu de Halicarnasso, do busto de Ramsés II, da cabeça de Amenhotep III, dos baixos-relevos assírios. Ou com a beleza refinada do Vaso de Portland e as revelações trazidas pela Pedra de Roseta.

Isso hoje mudou, por causa de um filme magnífico, distribuído em fevereiro pela Netflix, The Dig (A Escavação). Extraído de um romance de 2007 de John Preston, com o mesmo título e baseado em fatos históricos, o filme, dirigido por Simon Stone, mostra como uma rica viúva, Edith Pretty, contrata um homem apaixonado por arqueologia, Basil Brown, para escavar os montículos em sua propriedade rural, em um lugar conhecido como Sutton Hoo. Dessa iniciativa viria a descoberta de um tesouro que modificou a visão do que era a Inglaterra no início da Idade Média.

O filme condensa a história em poucos meses de 1939; termina com o início da Segunda Guerra Mundial. O diretor não está tão interessado nas consequências das escavações em Sutton Hoo para o estudo da história da Inglaterra. Seu objetivo é apresentar uma reflexão sobre a continuidade do ser humano, como a História nos molda, como a arte une os homens e pode mesmo nos aproximar da natureza, como sugere a fala de um dos personagens, Peggy. Ela narra a história, verídica, de uma violoncelista inglesa, Beatrice Harrison, que, ao tocar no jardim de sua casa, atraía rouxinóis, que cantavam para acompanhá-la. Nas últimas cenas, o Reino Unido está entrando em guerra com a Alemanha, após a invasão da Polônia pelos nazistas. Um personagem menor, o motorista de Edith, diante da iminência do conflito armado, faz pensativamente um dos comentários mais marcantes para entender o espírito do filme: “We´re in for another bloody mess”. A palavra “another” é importante. A guerra e o sofrimento são fatores constantes na experiência humana. De Redualdo, cujo nome nem é citado no filme, sabemos apenas que foi um chefe guerreiro, naquele canto de uma ilha, a Inglaterra, em uma era sobre a qual há poucos registros. Dificilmente ele terá sido um homem bom. Não terá tido as condições para isso. Podemos imaginar a violência em que viviam os súditos dos vários reis que guerreavam entre si, na Inglaterra daquele tempo. Além do seu elmo cerimonial em ferro e bronze, um dos objetos mais famosos extraídos de Sutton Hoo, Redualdo foi enterrado com outros artefatos de grande beleza, trazidos de regiões distantes da Europa, do Egito, da Ásia Meridional e do império bizantino, provando que havia comércio e arte e preocupação em tornar a vida menos rude.

O filme pode ser dividido em duas partes. Primeiro, há o relacionamento entre Basil Brown e Edith Pretty; entre ele e seus superiores do museu local, em Ipswich; e entre Brown e Edith com os arqueólogos profissionais enviados pelo British Museum a Sutton Hoo, quando se espalha o rumor de que um amador está escavando o sítio arqueológico. A tônica nessa primeira metade é o choque entre visões e ambições conflitantes, que acontece no ambiente sereno do campo inglês e do jardim de Edith, extenso e idílico.

Preparado o terreno, Simon Stone nos dá, na segunda parte, a dimensão filosófica da obra. O tema passa a ser a inserção do ser humano no momento histórico em que vive, algo sempre maior do que o indivíduo, e a questão da continuidade dos sucessivos momentos históricos. Temos responsabilidade com o legado de nossos antecessores no mundo, e cada um de nós deve decidir o que fazer com esse legado.

O enredo traça um paralelismo: o tesouro descoberto faz os personagens conhecerem melhor o passado, mas promove também, em vários deles, um grau maior de autoconhecimento. Vemos na tela, em pouco menos de duas horas, como eles amadurecem. Essa não é uma ideia gratuita do filme ou do romance do qual foi extraído. Sigmund Freud — ele próprio colecionador de objetos e estatuetas da Antiguidade — já considerava as escavações da arqueologia como uma metáfora para o trabalho psicanalítico. Há várias observações dele nesse sentido. “Saxa loquuntur!”, ele já escreveria em um ensaio de 1896: “as pedras falam!”. Peter Gay, seu biógrafo, nos lembra de um comentário em particular: “Não há melhor analogia do que é a repressão, a qual ao mesmo tempo torna algo inacessível na mente mas também o preserva, do que o soterramento de Pompeia, do qual a cidade só pôde ressurgir pelo trabalho arqueológico”. A frase aparece no final de um ensaio em que Freud, em 1907, analisa uma novela de 1903, Gradiva, do autor alemão Wilhelm Jensen, lembrado hoje sobretudo por causa do interesse de Freud pelo seu livro, que aliás intrigava também André Breton.

Na história de Jensen, um arqueólogo, em Roma, vê um baixo-relevo da Antiguidade — que existe realmente, está em um dos museus do Vaticano e hoje é conhecido como “Gradiva”, por causa da novela; Freud expunha uma cópia em seu consultório — representando uma moça, à qual ele atribui o nome de Gradiva, por razões latinistas que não interessam aqui. Em um sonho, ou pesadelo, o arqueólogo se vê em Pompeia, na erupção do Vesúvio, onde encontra Gradiva e presencia a sua morte. O arqueólogo decide ir a Pompeia e lá acredita ter visto Gradiva, que é na verdade uma amiga de infância, Zoé, nome que significa “vida”. Toda a situação permite que ele compreenda que vinha reprimindo um sentimento de amor por Zoé. Ela diz a ele: “Você está achando estranho que alguém precise morrer para se tornar vivo. Mas para um arqueólogo, isso não deveria ser estranho”. Lendo o ensaio de Freud, sinto, como ele, o impacto de que uma obra de ficção, já em 1903, pudesse ser tão psicanalítica.    

O crítico de arte Donald Kuspit, em um ensaio intitulado “A Mighty Metaphor: the Analogy of Archaelogy and Psychoanalysis”, publicado em 1989 no catálogo de uma exposição sobre a coleção de Freud, examina a fundo a questão da ligação entre arqueologia e psicanálise e observa: “both deal with the unexpected presence and power of the past. Both are means of remembering it”.

Donald Kuspit alerta, porém, para os limites dessa analogia, como também faz o psicanalista e escritor francês J.-B. Pontalis. Este, no livro que escreveu com Edmundo Gómez Mango, Freud avec les écrivains, em um texto em que examina o ensaio sobre Gradiva, aponta que mesmo o pai da psicanálise “oscilava em seu julgamento sobre a analogia”. Pontalis opina, de forma ela própria ambígua, sobre a relação entre arqueologia e psicanálise: “Mieux vaut lui laisser son statut de métaphore improbable”. A ideia de que “as pedras falam”, porém, é facilmente assimilável. É isto que se busca diante de esculturas, objetos, ruínas e monumentos da Antiguidade, que eles nos transmitam o que significaram, comunicaram aos que os admiraram antes de nós, às vezes há milênios.     

Em A Escavação, Ralph Fiennes, como Basil Brown, mostra um homem simples socialmente, mas de grande sofisticação como ser humano. Monica Dolan é a sua mulher compreensiva e forte, May. Com poucas cenas na tela, a atriz consegue transmitir ao espectador a individualidade de caráter da personagem. Carey Mulligan, como Edith Pretty, cria uma figura com a qual todos podemos empatizar, sensata, sensível, firme, desprendida apesar da riqueza. Lily James, insuportável no recente Rebecca, está perfeita como Peggy, uma arqueóloga que vem, de Londres, participar do projeto. A personagem existiu e era tia do romancista John Preston. Representando os meios acadêmicos e o British Museum, está o ator Ken Stott, no papel de Charles Phillips, tentando obter para o museu o tesouro de Sutton Hoo, às vezes por meio do autoritarismo, às vezes pela bajulação.

No final, a guerra vai começar. Milhões nela morrerão. Já era assim muito antes de Redualdo, como mostram as estelas no British Museum com as campanhas militares de Assurbanipal, que viveu 1200 anos antes do rei da Ânglia Oriental. As pessoas desaparecem, mas o que tornou sua vida mais bela e suportável fica. Em uma conversa com Brown, no carro, Edith perde o controle emocional; sabe que está doente e vai morrer. Os túmulos encontrados em sua propriedade, onde nem o corpo nem o barco do chefe guerreiro sepultado perduraram, são uma parábola para a sua própria mortalidade. Ela diz: “We die and we decay. We don´t live on”. Basil Brown discorda. Faz isso da maneira mais caricaturalmente inglesa, dizendo: “Oh, I´m not sure I agree”. Ele acredita que, desde que o homem primeiro deixou a marca de sua mão nas cavernas pré-históricas, somos todos, nas sucessivas gerações, parte de algo contínuo e que, por isso, não morremos de verdade. Pouco depois, a história acabando, acontece a cena mais emocionante. O filho de Edith, Robert, ainda criança — interpretado inteligentemente por Archie Barnes — compartilha com ela a sua ideia poética do que significa partir, enquanto os dois estão deitados na área da escavação, de noite, olhando as estrelas. Contando uma história de ficção científica, de viagem interplanetária, Robert explica e suaviza para sua mãe a ideia da morte dela, e acalma seus temores.

Um vaso romano nos faz gostar de um livro americano, um romance francês nos faz procurar baixos-relevos assírios, e um filme dirigido por um australiano nos revela, em retrospecto, a beleza de objetos que vimos, muitas décadas antes, em Londres. Uma obra de arte nos faz entender outra. A narração ficcional da descoberta real de um tesouro do século VII cumpre seu papel artístico e nos faz aceitar a vida, a humanidade e a morte.

Este texto é dedicado a Vera Pedrosa, chefe, colega e amiga excepcional, que partiu enquanto eu o terminava, mas que continuará sempre presente para mim

Publicado anteriormente, em 6 de fevereiro, em Estado da Arte

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O Vulcão

O Vulcão



Tudo começou quando, vinte anos atrás, fomos morar na encosta de um vulcão. Um vulcão dormente, que não apresentava riscos; sua última erupção importante acontecera no século XVII. O andar mais alto da casa era uma sala retangular, clara e arejada. Do lado direito de quem entrava, havia vista desimpedida sobre um dos picos do vulcão. Embora o topo da montanha estivesse a quilômetros de distância, a impressão era de que ao abrir uma das janelas e estender a mão seria possível tocar a sua vegetação rasteira e árida, de tonalidade palidamente esverdeada.

O bairro onde morávamos ficava a mais de três mil metros de altitude. Havia uma sensação de espaço e de liberdade na sala extensa, com vista direta sobre a montanha, as nuvens e, no mesmo nível das nossas janelas, o terraço dos vizinhos.

Pouco depois de termos nos instalado, recebemos das autoridades um presente desagradável, que não era exclusivo para nós. Era mesmo para a cidade inteira: a notícia de que o vulcão, adormecido por mais de trezentos anos, voltara a entrar em atividade e que uma nova erupção de grande escala era esperada a qualquer momento. 

Passou a ser rotina ver o prefeito, no noticiário noturno, dando conselhos à população, recomendando a compra de máscaras, mandando proteger com papelão as vidraças das janelas. Por um lado, ele procurava tranquilizar, dizendo que a cidade receberia cinzas, não lava, pois esta, se caísse, escorreria pela outra vertente da montanha. Por outro, seu tom excitado transmitia alarme. Alguns maldosos especulavam se o prefeito não via na situação a chance de se candidatar à presidência. Em todo caso, qualquer pessoa mais informada sabia que os habitantes de Pompeia morreram sobretudo por inalar os gases da explosão vulcânica. Máscaras se tornaram o produto mais cobiçado.

A cidade era Quito, e o pico recém despertado do vulcão era o Guagua Pichincha. “Guagua”, que em quéchua significa bebê, tornou-se um conceito importante na nossa vida. Por todo lado, só se dizia “el Guagua está tranquilo hoy” ou “qué bonito se ve el Guagua”. Volta e meia, a montanha agora cuspia cinzas, que cobriam o telhado e o jardim da nossa casa e das casas vizinhas e toda a cidade. Passou a entrar em uso o verbo “cenizar”. A cinza tinha de ser retirada o mais rapidamente possível porque, quando chovia, tornava-se viscosa e pesada como cimento úmido. 

O grande espetáculo aconteceria um ano depois, quando houve erupções violentas, que criavam em cima da cratera do Guagua uma coluna acinzentada de vários quilômetros de altura, coroada por um parasol. O conjunto tinha o formato de um gigantesco cogumelo. Era uma visão belíssima, uma pura manifestação da natureza. Despertava espanto e admiração. Temor também, porque sabíamos que todo aquele esplendor terminaria caindo sobre nossas cabeças. 

As emissões de cinza continuaram, esporadicamente, até nossa partida, em julho de 2001. A cidade ficava paralisada, o aeroporto fechava, havia instrução de não sair de casa quando o vulcão ia entrar em atividade. Em uma dessas ocasiões, precisei mesmo assim ir ao trabalho, por uma questão urgente. Na volta para casa, fui pego pela erupção. Eu dirigia, com visibilidade mínima, pela cidade deserta, com as entranhas do vulcão chovendo sobre o carro. Era como uma tempestade de neve, lenta e silenciosa, só que cor de cinza.

El Guagua
“El Guagua”, gravura da artista plástica equatoriana Dayuma Guayasamín, 1998

Na época, tomamos tudo como uma aventura única em nossas vidas, algo que não se repetiria e pela qual valia a pena passar uma vez, embora sempre houvesse incerteza sobre se realmente sobreviveríamos a ela. Vinte anos depois, máscaras e isolamento social recorrente voltaram a ser parte do nosso cotidiano.      

Em um sábado andino, anterior ao despertar do vulcão, subi para ler no sofá diante das janelas que olhavam para a estupenda vista. Era começo da tarde. No terraço ao lado, um pequeno grupo terminava de almoçar. Abri a janela e cumprimentei. Houve apresentações. Mary Lou e John Hay, o casal de vizinhos, recebiam dois ou três convidados.  No dia seguinte, foi entregue em casa, para minha mulher, um buquê de rosas equatorianas, talvez as mais bonitas e duradouras do mundo.

Ela era comunicativa, ele reservado. Ela era equatoriana de origem cem por cento indígena, ele vinha de uma família de Nova York e de Connecticut. Ela era empresária bem-sucedida, proprietária de estações de rádio, ele vivia de um trust fund que herdara da família. Os dois se complementavam. Eram, ambos, extremamente populares nos meios intelectuais, jornalísticos e artísticos da cidade.

Frequentemente, aos sábados, jantávamos na ampla cozinha da sua casa, com mais dois ou três de seus amigos. Nesses pequenos jantares conhecemos algumas das pessoas mais interessantes e influentes do Equador. Quem cozinhava e servia era a própria Señora de Hay. Os vários empregados da casa, sem muito o que fazer, liam o jornal ou assistiam à novela, sentados na outra ponta da cozinha. 

Quando a Embaixada em Quito mudou de chefia, apresentamos a nova embaixadora, Vera Pedrosa, ao casal Hay. Surgiu entre eles uma afinidade instantânea e uma amizade que viria a ser duradoura, como era natural, tratando-se de pessoas que, todas três, possuíam forte poder de sedução e compartilhavam tantos interesses. 

Mary Lou e John criavam a neta, que tinha a idade da nossa filha. Com eles moravam também vários cachorros da raça Lhasa apso, nem todos muito simpáticos.   

Logo no saguão da casa dos Hay, na parede da direita, via-se uma tela de grandes dimensões, de um pintor que se tornaria nosso amigo, Ramiro Jácome, e que viria a morrer em 2001, ainda relativamente jovem. O quadro representava uma das cenas célebres da história do Equador, o assassinato de Eloy Alfaro. Presidente duas vezes, de 1895 a 1901 e de 1907 a 1911, Alfaro, liberal, introduziu no país conceitos insólitos como o casamento e o registro civis, o ensino público gratuito, e a separação entre Estado e Igreja. Exilou-se no Panamá com a família após deixar o governo pela segunda vez. 

Voltando ao Equador em janeiro de 1912, durante uma guerra civil entre duas facções liberais, Alfaro, então com 69 anos mas, nas fotos, parecendo bem mais velho, alquebrado, foi preso e levado de trem de Guayaquil a Quito — ironicamente, ele promovera a construção da estrada de ferro. Foram presos com ele um irmão, um sobrinho, e mais três apoiadores. 

Assim que chegaram à penitenciária na capital, esta foi invadida, com a cumplicidade dos guardas, por uma multidão — quatro ou cinco mil pessoas — aos gritos de Viva la religión! Ao longo dos dias anteriores, os jornais do país haviam criado um clima de ódio contra Alfaro e seus correligionários, literalmente incentivando seu assassinato.   

Os prisioneiros foram linchados e defenestrados e, nus, arrastados pelas ruas de Quito, alguns talvez ainda vivos. Houve também castração e desmembramento, exposição de vísceras e degustação do sangue das vítimas, uma das quais, um jornalista, ainda em vida teve a língua decepada e exibida à multidão, durante o cortejo até o parque de El Ejido, onde os corpos foram queimados.

Esse drama sempre me faz pensar, pela barbárie, em um momento da revolução francesa, os massacres de setembro 1792 nas prisões parisienses. Meus livros sobre o Equador estão em Singapura, mas vejo na Internet que alguns dos assassinos — sapateiros, açougueiros, empregados de famílias respeitadas — podiam ser identificados pelo nome. Sabe-se, por exemplo, que um deles era “el cochero de la señora Isabel Palacios”. Pesquisando esse nome, vejo que ela pertencia “a una de las más ricas famílias de Quito” e que “siempre fue una verdadera madre de los Salesianos”.

Ramiro Jácome

O quadro de Ramiro Jácome se intitula “El arrastre del Alfaro”; é uma tela expressionista e violenta. Mostra o momento em que o terrível cortejo passa pela Praça da Independência, com a catedral ao fundo. À direita está o palácio do arcebispo de Quito. Deve ser ele próprio, Federico González Suárez, que aparece na janela. Há debate entre os historiadores sobre se alguém orquestrou os assassinatos. Parece provável que tenha havido ao menos indiferença das autoridades civis e eclesiásticas.

O linchamento de Eloy Alfaro foi certamente um alívio para o governo da época, para a outra ala liberal — conduzida por Leonidas Plaza, que também foi presidente duas vezes — e para os conservadores. Se eu não tivesse admirado a força da tela tantas vezes na casa de John e Mary Lou, esse crime político seria para mim apenas uma abstração. A arte, porém, tem o poder de dar concretude à História e seus atores, como souberam todos os governantes que, ao longo dos séculos, protegeram escritores, pintores e músicos. Lembro de conversar com Ramiro Jácome sobre seu quadro, os dois parados frente à tela na casa dos Hay. 

Nossa rua era uma ladeira, que descia, como se diz em castelhano, pelas saias do morro, pelas “faldas del Pichincha”. A casa ficava em uma esquina, e a junção das duas ruas criava o endereço Los Comicios y Los Cabildos, significando “eleições” o primeiro termo, e algo como “câmara de vereadores” o segundo. Em frente à casa, havia uma praça coberta de eucaliptos, como um pequeno parque, onde duas vezes por dia eu passeava nossa Golden retriever, Missy, sobre a qual pude falar em Kiki em Kuala Lumpur. Não era incomum ver pastando por ali duas ou três vacas.  

Um dia, ouço um barulho de rodas de metal. Vou à varanda do quarto e vejo John subindo a rua, puxando pela calçada, sobre um carrinho de carga, um objeto metálico, corroído. Na vez seguinte em que jantamos com eles, ouvimos que John procurava pela cidade peças descartadas de metal, que transformava em esculturas. Ele às vezes trabalhava nelas, mas em geral simplesmente as colocava sobre um pedestal. Sua preferência era por peças de automóveis. Via em alguns objetos descartados, encontrados pelas ruas de Quito, uma beleza intrínseca, que desejava preservar. Era um verdadeiro filho de Marcel Duchamp.

Do lado esquerdo do saguão da casa dos Hay ficava a porta para a biblioteca. Nada mais oposto a “El arrastre del Alfaro” do que o ambiente nesse cômodo, sereno e tranquilo, onde havia uma coleção de peças pré-colombianas. Quando partimos de Quito, Mary Lou nos deu de presente um pilão de pedra em forma de jaguar, da cultura Valdivia. Ela sabia, amiga generosa, ser essa a forma artística de que eu mais gostava da era pré-colombiana equatoriana.

Muitas vezes, de tarde, no fim de semana, ou depois ou antes do jantar, ali ficávamos os dois casais, sentados frente à lareira, admirando o fogo. Passear a Missy pelo parque na nossa rua significava aliás sentir, ao anoitecer, o perfume do eucalipto queimando nas lareiras do bairro. Na biblioteca dos Hay, conversávamos sobre a vida política equatoriana, arte, artistas e livros. Um dos autores prediletos de John era Paul Auster e, vinte anos mais tarde, isso se tornaria um dado importante na minha vida.

A morte, em fevereiro de 2021, de Vera Pedrosa, que tanto me entristeceu, deu-me vontade de falar com Mary Lou. Liguei para Quito. Conversamos sobre a amiga comum desaparecida e também sobre John, que morrera em 2018. Uma das coisas mais difíceis da existência nômade é aceitar que nunca mais voltaremos a ver amigos queridos. A partida de John me fizera lamentar que a amizade com ele e Mary Lou não pudesse ter sido alimentada com mais frequência nos dezessete anos anteriores. Eles não usavam redes sociais, nem mesmo whatsapp; e falar ao telefone, para mim, não é uma atividade agradável, para contrariedade da minha família. A vida assim vai se esgotando, enquanto deixamos, em outros cantos do mundo, pessoas de quem gostamos e que nunca mais veremos. De Vera Pedrosa, eu conseguira me despedir no Rio antes de vir para Kuala Lumpur, em janeiro de 2020.

Ao telefone com Mary Lou, comentei que, pouco meses antes, eu finalmente lera Paul Auster, em homenagem a John, e ela achou engraçado. Contou estar agora morando em um apartamento, já não na grande casa rosa de Los Comicios y Los Cabildos. Confirmou ter levado consigo o “Arrastre del Alfaro”. Depois de desligar, percebi que eu deixara de mencionar o poema de Vera Pedrosa, Pantogrifos, dedicado a ela em A Árvore aquela, clara homenagem a seus antepassados indígenas, em que “o avô, o pai” ficam

detidos ante carcaças de templos vazios
que o espírito havia há muito desertado

Pensei no presente dos Hay, o jaguar de pedra, antigo pilão que, milênios atrás, em uma cultura que desapareceu, em uma região do que hoje é o Equador, servia para esmagar plantas.

Esse viajante do tempo continua existindo, atualmente na Malásia, sem a sua função original; mas dá consolo estético a quem o vê, a começar por mim. Da mesma forma, a amizade por John Hay, Mary Lou Parra de Hay e Vera Pedrosa já não pode se manifestar da maneira anterior. Mas essa amizade é grande e verdadeira; não é um templo vazio, e nem o espírito a deserta.

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Joël Dicker e seu Enigma

Joël Dicker e seu Enigma

Poucas leituras me ajudaram tanto a enfrentar a pandemia como o romance mais recente de Joël Dicker, L’Énigme de la chambre 622, agora disponível no Brasil graças à editora Intrínseca, em tradução de Carolina Selvatici e Dorothée de Bruchard. O livro veio na hora certa, em 2020, para distanciar meus pensamentos do novo coronavírus.  

Tenho dificuldade em entender algumas críticas que foram dirigidas ao romance de Dicker, segundo as quais a história é inverossímil e a leitura excessivamente fácil. De fato, eu mesmo devorei com avidez as 574 páginas da edição francesa. Sem dúvida, O Enigma do Quarto 622 é considerado mais leve do que o livro que lançou a carreira internacional de Dicker, La Vérité sur l´affaire Harry Quebert. No entanto, do livro de 2012 não guardo lembrança alguma. É como se eu não o tivesse lido. O livro de 2020, que me deu talvez os únicos momentos de escapismo diante da realidade criada pelo novo coronavírus, permanecerá na minha imaginação por muito tempo.     

A cronologia não é linear, e há mais de uma história no enredo. Há primeiro o momento atual, 2018, em que o narrador, um escritor chamado Joël Dicker, que devemos considerar um personagem fictício inspirado no autor real, está enlutado pela morte, poucos meses antes, aos 91 anos, de seu amigo e editor, Bernard de Fallois, a quem o livro é dedicado.

Personalidade de peso no mundo das letras na França, Fallois em 1987 criou sua própria editora, após trabalhar na Gallimard, na Hachette e na Presses de la Cité, de que foi diretor-geral. Era um estudioso de Proust, sobre cuja obra escreveu e de quem possuía páginas manuscritas inéditas. Ao se tornar editor de Joël Dicker em 2012, modificou a vida do escritor suíço, então com 27 anos. Já na primeira página do capítulo I de L’Énigme de la chambre 622, Dicker nos diz (as traduções são minhas): “Bernard de Fallois era o homem a quem eu tudo devia. Meu sucesso e minha notoriedade vieram graças a ele. Chamavam-me escritor, graças a ele. Liam-me, graças a ele”. “Editor, amigo e mestre”, como diz a dedicatória do novo romance de Dicker, Bernard de Fallois aparece como figura tutelar do texto, pois somos informados de que tudo o que vamos ler decorre da tentativa do autor de escrever um livro sobre ele.

Sentindo-se pouco valorizada, porque o narrador se dedica em tempo integral ao livro, sua namorada e vizinha o abandona. Como reação, Joël Dicker, o personagem do romance do escritor suíço de mesmo nome, decide sair de Genebra e espairecer em um hotel de luxo na aldeia e estação de esqui de Verbier.

Lá, ele conhece uma inglesa, Scarlett Leonas. Como tantos elementos do livro, o nome é uma homenagem adicional a Bernard de Fallois, pois mais adiante somos informados de que Gone with the Wind era “le roman préféré de Bernard”. Escolher Margaret Mitchell como autor predileto é uma opção curiosa para um editor francês especialista em Proust e amigo, entre outros escritores do século XX, de Marguerite Yourcenar.

Provavelmente, há exagero na frase de Dicker, e seu livro de qualquer forma não é uma biografia de Bernard de Fallois, mas uma homenagem. O apreço por Gone with the Wind parece ter tido início quando, fugindo de automóvel com a família durante a Segunda Guerra Mundial, o futuro editor, então adolescente, isolara-se emocionalmente do perigo de um iminente bombardeio aéreo mergulhando na leitura do livro no banco traseiro do carro. Preocupava-o mais o destino de Scarlett O´Hara do que o seu próprio. Queria terminar E o Vento Levou, pois não desejava morrer sem saber o final.

O jovem Fallois pode ter se refugiado nas aventuras de Scarlett O’Hara, mas o nome do editor é ligado ao de Marcel Proust. Foi Fallois quem descobriu e editou pela primeira vez, na década de 1950, os manuscritos de Jean Santeuil e de Contre Sainte-Beuve. Após sua morte, em 2018, descobriu-se que ele guardara, durante décadas, outros manuscritos proustianos. Alguns foram publicados em 2019, pela sua editora, com o título de Le Mystérieux Correspondant et autres nouvelles inédites. Agora em março, a Gallimard publicará Les Soixante-quinze feuillets, páginas escritas por Proust aparentemente em 1908, precursoras de À la recherche du temps perdu.

Só se sabia da existência desse texto por uma breve referência, antiga, do próprio Bernard de Fallois. Pensava-se que estivesse extraviado: “dessas folhas, atualmente desaparecidas, Fallois publicou dois trechos”, dizia Jean-Yves Tadié, em 1996, em sua biografia de Proust. A descoberta do texto nos arquivos deixados pelo editor é, nos diz a Gallimard em sua página eletrônica, “un coup de tonnerre”. A edição ficou a cargo de Nathalie Mauriac Dyer, acadêmica, sobrinha-bisneta de Proust — e neta de François Mauriac; pode haver dinastias literárias, como há as da realeza — com prefácio de Jean-Yves Tadié. No aparecimento repentino desses manuscritos nos arquivos deixados por Bernard de Fallois, sem que ele os tivesse publicado, há um mistério digno do enigma no livro de Joël Dicker, ainda que menos sanguinolento.

Em Verbier, Joël, o escritor-narrador, e Scarlett logo descobrem que, alguns anos antes, um assassinato fora cometido no hotel onde se hospedam. Decidem investigá-lo.

A partir daí, há ao menos três enredos que se desenvolvem simultaneamente, mas em momentos diferentes. Há a história da amizade entre o verdadeiro Joël Dicker e Bernard de Fallois; há a relação, fictícia, entre o personagem Joël Dicker e Scarlett Leonas e a busca dos dois por mais detalhes sobre o crime ocorrido anos antes; e há o romance propriamente dito, objeto do volume que temos nas mãos, O Enigma do Quarto 622, que relata os eventos em torno do crime. A cronologia vai e vem, em diferentes tempos, pois mesmo a narrativa sobre o assassinato, que já aconteceu há alguns anos, requer frequentes voltas a um passado anterior a ele, para explicar o histórico e as motivações dos personagens envolvidos nessa trama.

As cenas entre Dicker e Fallois, devemos supor, aconteceram de fato e possuem valor documental. Servem como testemunho sobre como era e como trabalhava um editor francês importante. São tocantes. Ninguém pode acusar Joël Dicker de ser ingrato. L´Énigme de la chambre 622 é, em grande parte, uma celebração dessa amizade. Vejam esta frase sobre o falecido editor: “Na floresta dos seres humanos, ele era uma árvore mais bela, mais forte, maior. Uma essência única, que não crescerá novamente”. Dicker nos conta como Bernard de Fallois sentiu o potencial de La Vérité sur l´Affaire Harry Quebert, que se tornou sucesso mundial e vendeu “milhões de exemplares em quarenta idiomas”.

Já a relação entre o personagem Joël Dicker e Scarlett Leonas serve a dois propósitos: permitir diálogos onde é descrita a amizade do escritor com seu editor, e introduzir o enredo principal, ligado ao assassinato no hotel em Verbier. Em sua investigação como detetives amadores, Joël e Scarlett interagem com os próprios personagens ligados ao crime.  

Só no final descobrimos quem é o assassino e, na verdade, quem foi assassinado. Alguns críticos e muitos leitores consideraram a história excessivamente rocambolesca. Esse não foi meu caso. Ou melhor, achei que o poder de atração do livro reside precisamente nos seus aspectos rocambolescos.

São muitos os personagens. Os principais são um herdeiro de banco em Genebra, Macaire, sua mulher, Anastasia, e o amante dela, Lev, brilhante jovem banqueiro, diretor na empresa familiar de Macaire. Mesmo para herói de romance, Lev é irreal de tão cintilante. Fala dez línguas, possui “une beauté insolente”, cativa todas as mulheres, tem uma personalidade segura e bem-humorada, é bom filho, gênio das finanças e conselheiro do presidente da França e de organismos multilaterais em Genebra. O próprio texto admite que ele é irritante de tão perfeito (“agaçant de perfection”). Alguns leitores, de fato, poderão antipatizar com ele. Para mim, ele se tornou um amigo, como podem ser nossos amigos os personagens de quem gostamos. Suas aventuras — e elas são muitas e variadas; Dicker não coibiu a imaginação enquanto escrevia — me prenderam em casa, durante um fim de semana prolongado. Lamentei chegar às últimas páginas e ter de abandonar os personagens, mesmo os menos agradáveis.  

São muitos os acenos prestados por Dicker a outros escritores. Basta dizer que o motorista de Lev se chama Alfred Agostinelli, o que, para um admirador de Proust, soa francamente ridículo, de tão transparente. A escolha do nome terá sido mais uma homenagem a Bernard de Fallois, por meio de seu apego a Proust.

O novo romance de Dicker é uma mistura, a meu ver bem-sucedida, de vários subgêneros literários: livro policial, livro de aventuras, livro de espionagem, comédia picaresca e também uma história de amor intenso e incontrolável. Lembra, em alguns trechos, folhetins do século XIX de ação frenética e revelações surpreendentes. Pensei bastante, enquanto o lia, em Le Bossu, famoso romance de capa e espada de Paul Féval, serializado primeiro, em 1857, em um jornal, e que eu adorava quando criança. 

Sobretudo, o livro é uma homenagem a outro escritor suíço de língua francesa, Albert Cohen, e a sua obra-prima, Belle du Seigneur, publicada em 1968 e cuja ação se passa na década de 1930. O triângulo amoroso formado por Lev, Anastasia e Macaire é claramente inspirado em Solal, Ariane e Adrien, personagens principais de Albert Cohen. As semelhanças de situações e personalidades entre L´Énigme de la chambre 622 e Belle du Seigneur são numerosas. Se o romance de Albert Cohen nunca tivesse sido escrito, o de Joël Dicker teria sido diferente.

Por coincidência, fui ler pela primeira vez a obra de Albert Cohen em janeiro, cinco meses depois de terminar L´Énigme de la chambre 622. Fica contudo a dúvida se terá sido mesmo uma coincidência. Talvez o livro de Dicker tenha trazido à minha consciência tudo o que eu sabia do enredo do romance de Cohen e tenha me dado vontade de lê-lo, algo que eu sempre protelara fazer.

A leitura de Belle du Seigneur fez com que eu gostasse ainda mais, em retrospecto, de L´Énigme de la chambre 622. Por um paradoxo, o livro mais forte, o clássico, aumentou meu apreço pelo mais leve. Não há nisso enigma algum. Valorizei a maneira como Dicker adapta a história de Albert Cohen aos nossos tempos, suavizando-a, apesar do assassinato. Percebi o trabalho necessário por trás da leveza. A complexidade da cronologia, que irritou alguns, fascinou-me. Entendi que os personagens de Joël Dicker e suas aventuras mirabolantes viverão muito tempo em mim, como vivem, ainda que por razões diferentes em cada caso, os de Paul Féval, de Albert Cohen e de Marcel Proust.

Bernard de Fallois dizia que um grande romance é como um quadro: “Um mundo que se oferece ao leitor, o qual se deixa prender por essa imensa ilusão feita de pinceladas”. Foi assim que, em um fim de semana de agosto, no meio da pandemia, eu me senti grato de conseguir ficar preso ao mundo de um livro, à sua imensa ilusão.  

Este texto foi primeiro publicado, em 22 de fevereiro, na revista literária São Paulo Review

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Uma biblioteca em estado puro

Uma biblioteca em estado puro

Alguns dos acontecimentos literários mais importantes no Brasil, no surpreendente ano de 2020, foram sem dúvida os lançamentos da coleção de cartas de Clarice Lispector e da nova edição da obra de João Cabral de Melo Neto. Todas as Cartas, pela editora Rocco, vem com prefácio e notas de Teresa Montero, biógrafa de Clarice, e posfácio de Pedro Karp Vasquez. Poesia completa, pela Alfaguara, é organizado por Antonio Carlos Secchin.

Vivendo e trabalhando na Malásia, não pude comprar nenhum dos dois volumes. Por causa deles, fiquei tentado a finalmente aceitar a modernidade e encomendar um kindle. Cheguei a escolher o modelo, a cor da capa, mas na hora de terminar o pedido hesitei.

Faria sentido, para alguém na minha profissão, parar de comprar livros físicos e tê-los todos em um aparelhinho cômodo, fácil de carregar, que não ocupa espaço, e que tornaria obsoleta a centena de caixas que carrego por todo lado. Mas por favor, não me digam que o kindle é um bom substituto para o livro como objeto. Nada pode se sobrepor às delícias de segurar um volume, tocá-lo, cheirá-lo, sentir a textura do papel — ainda que de má qualidade — e abrir uma página ao acaso.

Se você, leitor amigo, vier me visitar quando a pandemia terminar e as fronteiras da Malásia reabrirem, por favor coloque na mala, além das cartas de Clarice e os poemas de João Cabral, a biografia de Paulo Rónai por Ana Cecilia Impellizieri Martins, O homem que aprendeu o Brasil, publicado pela Todavia. Se houver espaço na bagagem, traga também dois romances, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, também pela Todavia, e Marrom e Amarelo, de Paulo Scott, com o selo da Alfaguara. Quando os dois foram lançados, em 2019, eu já me preparava para partir para a Malásia e achei que não seria difícil encomendá-los daqui. Não podia prever o novo coronavírus, motivo pelo qual, aparentemente, as livrarias brasileiras na Internet não estão aceitando encomendas do exterior.

Sem acesso aos lançamentos no Brasil no ano passado, e embora ninguém tenha me perguntado nada, vou comentar alguns livros que, lidos ou relidos, estiveram ao alcance da minha mão em 2020.

Os contos de Clarice Lispector em Laços de Família nos fazem, como poucos outros, entrar no sentimento de seus personagens. Isso me permitiu sair da minha experiência pessoal que tem sido, como a de todo mundo, de luto e preocupação. Se eu tivesse de escolher apenas um, seria A Imitação da Rosa, no qual, ao remoer a condescendência com que é tratada pelo marido, pelo médico, pela melhor amiga, uma jovem percebe que a condição psiquiátrica de que acaba de se tratar em um sanatório está voltando. “A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais”, pensa Laura. Talvez a doença mental que ela sente regressar seja causada por sua noção apurada das regras de dominação ou indiferença que ditam os relacionamentos humanos.

Em setembro de 2019, o historiador Philip Mansel lançou na Inglaterra King of the World, biografia de um homem, Luís XIV, acostumado a encarar a todos com condescendência. Em O Delacroix de Chelsea contei como cheguei a comprar o livro para oferecê-lo de presente, em Londres, mas acabei trazendo-o na mala ao voltar para o Brasil.

Nas nossas estantes, a bibliografia sobre Luís XIV é extensa. Pensei nunca ler a contribuição de Philip Mansel, mais uma entre tantas; achei que não haveria tempo útil de vida, e que ela nada acrescentaria ao que já sei. Em 2020, porém, tradução publicada na França causou sensação entre os franceses que sigo no Twitter. Decidi então ler o original, mas descobri que ele estava em Singapura. Como minha mulher e eu ficamos, por causa da pandemia, quase o ano todo sem poder ver um ao outro, o Mansel estava inacessível. Autorizada pelo governo malásio a vir passar o Natal, ela desembarcou em Kuala Lumpur com o Rei do Mundo..

A erudição acadêmica do texto não impede que o autor construa uma narrativa empolgante, que não é uma elegia ao rei e tenta ser um relato objetivo. Deixou-me consciente da dificuldade, no caso de vidas longas e agitadas, dedicadas à política, de julgar se foram exitosas ou não. Toda carreira pública, se dura muito, só pode ser um contraste de erros e acertos. No livro de Philip Mansel, isso fica claro tanto no que diz respeito ao próprio rei quanto ao cardeal Jules Mazarin, padrinho, mentor e primeiro-ministro de Luís XIV no começo de seu reinado. Figura célebre da história da França, o cardeal nascera porém na Itália, com o nome de Giulio Mazzarino. Uma hora Mansel parece elogiá-lo, noutras é mais severo, particularmente quando fala na venalidade do cardeal, de fato gritante até para os padrões da época.

Sou adepto da doutrina segundo a qual Mazarin muito contribuiu, como seu predecessor, o cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII, para projetar o poder francês na Europa e, no plano interno, eliminar a autonomia da nobreza, ajudando a transformar a França em um país centralizado, uma nação com um executivo forte. A aura do cardeal, em seu tempo um dos homens mais poderosos e famosos da Europa, já não brilha tanto fora de seu país adotivo. Há poucos anos, em Brasília, quando um grupo de amigos jantava em nossa casa, citei-o e notei com surpresa que meu comentário caíra no vazio. Nenhum dos presentes sabia quem ele era. Em seu livro World Order, Henry Kissinger menciona mais de uma vez Richelieu, mas não Mazarin, embora a perseverança do cardeal tenha sido determinante para a Paz da Vestfália em 1648, e tenha sido ele o negociador do Tratado dos Pirineus com a Espanha em 1659.

A biografia de Mansel, porém, é sobre Luís XIV, não Mazarin. Em seu balanço do reinado, aponta que, depois da morte do cardeal, em 1661, tendo herdado o país mais poderoso e o maior exército da Europa, Luís XIV, imaginava-se, se tornaria o monarca mais importante da História. Mansel lembra no entanto que, quando o rei morreu, em 1715, a França já não era a maior potência europeia, e “sua própria personalidade fora uma causa disso”, em razão de seu amor excessivo pela guerra e de tantos erros de julgamento. O título do último capítulo, “The Shadow of Versailles”, dá a entender que o principal legado do rei teria sido o palácio que mandou construir, mas sugere também que a Cinquième République atual — democrática, com um chefe de Estado eleito pelo voto popular, mas de espírito monárquico — seria a herdeira e beneficiária da política centralizadora de Luís XIV e portanto, concluo, também dos dois cardeais, Richelieu e Mazarin, que prepararam o terreno para o rei.

É bem provável que a obra de Philip Mansel seja traduzida no Brasil, após as críticas entusiasmadas que vem recebendo. Além da tradução francesa, soube em janeiro por meu amigo Hélio, escrevendo de Roma, que o livro acaba de ser lançado também na Itália. Gostei de ler a biografia. É academicamente impecável, mas não acho que seja melhor do que outros volumes sobre o rei. As biografias de Luís XIV ou os estudos sobre sua época são numerosíssimos, em inglês como em francês. Já em 1751, com Le Siècle de Louis XIV, Voltaire produziu uma análise excelente e ainda válida. Na França, é raro o ano em que não saia livro sobre “o faraó de Versalhes”, como o denominava o historiador Philippe Erlanger, ou sobre algum aspecto de seu reinado, o qual, tendo durado 72 anos, é o mais longo por enquanto da história europeia. Elizabeth II terá de viver três anos adicionais para suplantar esse recorde. A biografia de Mansel não me pareceu melhor do que outra mais antiga produzida no universo anglófono, a do americano John B. Wolf, de 1968.

O objetivo de Richelieu e de Mazarin de dar supremacia à França requereu diminuir o peso na Europa de uma dinastia conhecida no século XVII como a Casa d´Áustria e depois, mais usualmente, como os Habsburgos. Outro historiador inglês, Martyn Rady, em um livro lançado em 2020, nos faz acompanhar as origens obscuras da família no século X, sua ascensão, seus revezes e o ocaso final em 1918. Em The Habsburgs: The Rise and Fall of a World Power, Rady transmite bem a ambição universalista da dinastia. O world power do subtítulo eram eles, os Habsburgos, e não um Estado soberano. O autor nos mostra como, ao longo dos séculos, a família se firmou como uma força na Europa e, com o ramo que reinou na Espanha e em suas colônias, no mundo inteiro — tendo sido inclusive a soberana, de 1580 a 1640, do Brasil.

Martyn Rady tem o dom de encontrar a frase que encapsula uma vida, uma personalidade. Francisco José I da Áustria, Habsburgo que reinou de 1848 a 1916, é outro exemplo de que a longevidade pode deixar uma marca ambivalente na reputação do indivíduo. É impossível visitar Viena sem notar o culto a ele devotado, mantido vivo pelos saudosistas da monarquia e da era em que a Áustria foi uma potência. O imperador é também lendário pelas tragédias pessoais que viveu: fuzilamento do irmão, o efêmero imperador do México, Maximiliano, em 1867, ainda lembrado hoje por causa das versões pintadas por Manet de sua morte; suicídio do filho e herdeiro, Rodolfo, em 1889; assassinato em Genebra, em 1898, da mulher, Elisabete, famosa sob o apelido de Sissi; e, finalmente, o assassinato, em 1914, em Sarajevo — tornado célebre na História pelas suas consequências — do novo herdeiro, o sobrinho, Francisco Ferdinando.

O reinado de Francisco José, apesar da imagem mítica que ainda irradia, foi, no plano externo, catastrófico para o país. Rady nos diz sobre o penúltimo imperador da Áustria e rei da Hungria: “he was inept but convinced in his own superior wisdom”.  Em menos de vinte anos, Francisco José perdeu a Lombardia, Veneza e a Confederação Alemã. Dois anos depois de sua morte, como resultado da I Guerra Mundial para cuja eclosão a Áustria-Hungria contribuíra, a família deixou de reinar, e o próprio império se esfacelou.

Sobre Sissi, Martyn Rady escreve uma frase irônica e sucinta: “she luxuriated in her own beauty”. Sempre lembro de uma frase de Marguerite Yourcenar, que fala do “mélancolique narcissisme” da imperatriz e julga que Sissi era “tão ausente do mundo e da vida”, que sequer compreendeu que seu assassino a golpeara de morte. Já a duquesa de Guermantes, com sua condescendência habitual, que não poupa ninguém, e que conhecera a imperatriz, define Sissi, depois de morta, como “un peu folle, un peu insensée”, mas “muito boazinha, uma louca muito amável”.

O avô de Francisco José, Francisco I, primeiro imperador da Áustria e último imperador do Sacro Império Romano-Germânico — dissolvido em 1806 — foi um dos mais lastimáveis dos Habsburgos, embora politicamente um dos mais bem-sucedidos, graças, paradoxalmente, à sua longevidade. Ao morrer em 1835, vira vir e passar a Revolução francesa e Napoleão, tendo sido humilhado por ambos nos planos político, territorial e militar. Em 1793, nada fez para salvar sua tia, Maria Antonieta. Em 1810, deu de presente a filha mais velha a Napoleão. Então com 18 anos, Maria Luísa crescera no ódio ao “ogro corso”, mas foi entregue a ele como uma presa, quando isso foi visto como útil, e instada pelo pai a abandoná-lo, em 1814, quando a estrela napoleônica se apagou. Em 1817, Francisco I colocou em um navio outra filha, Leopoldina, para que atravessasse o Atlântico e passasse a dividir a cama de nosso futuro Pedro I, que tanto a humilharia.

De forma alguma foram os Habsburgos a única dinastia a sacrificar, para fins políticos, a felicidade pessoal de seus membros, e nem Rady os acusa disso. Sobre o casamento de Leopoldina, o historiador apenas menciona que as cores da camisa da seleção brasileira juntam o verde dos Braganças ao amarelo dos Habsburgos. A mim, porém, a atitude de Francisco I com as filhas sempre pareceu de um certo cinismo, pois ele procurava passar aos súditos uma imagem de homem simples, burguês, devotado à família. Fraco e medíocre, foi bem assessorado por um chanceler poderoso e viveu o suficiente para ver superadas suas derrotas. É sintomático que o capítulo dedicado ao seu reinado se intitule “Metternich and the Map of Europe”. Os admiradores do célebre estadista, entre os quais está Henry Kissinger, que fez de Metternich o tema de sua tese de doutorado, encontrarão no livro de Rady uma visão favorável de sua atuação. Mesmo a repressão política e a censura implantadas por Metternich, que já na época marcavam o seu nome tanto quanto a capacidade diplomática, são minimizadas pelo historiador.

Martyn Rady oferece um retrato tradicional de outro Habsburgo, Felipe II de Espanha. O Felipe de Rady é o rei dos manuais escolares, católico intransigente, soturno perseguidor de protestantes, judeus e muçulmanos, trancado no sombrio Escorial. O rei tenebroso que inspirou a Verlaine o poema La Mort de Philippe II e a Verdi a ópera Don Carlos. Esse homem existiu, mas trata-se do Felipe II envelhecido. Antes disso, houve um príncipe jovem, viajante e, como tantos Habsburgos, protetor das artes. É esse o Felipe que aparece no catálogo de uma exposição recente, Love Desire Death, que chegou a ser aberta na National Gallery de Londres, mas teve de ser interrompida por causa da pandemia.

Love Desire Death expôs as sete telas, conhecidas como poesie, encomendadas por Felipe II a Ticiano sobre temas mitológicos inspirados em Ovídio. Entre os sete quadros, hoje espalhados por museus na Inglaterra, na Escócia, na Espanha e nos Estados Unidos, está um dos mais famosos do mundo, O Rapto de Europa, que mora em Boston, para onde foi levado após ter sido celebremente comprado, em 1896, pela colecionadora de arte Isabella Stewart Gardner, amiga de Henry James.

O catálogo contém ensaios excelentes, de diferentes autores, e belíssimas reproduções dos quadros. Seu coordenador, Mathias Wivel, nos explica como Felipe, aos 21 anos, ainda príncipe e herdeiro do pai, o imperador Carlos V, de passagem por Milão em 1548 pediu a Ticiano que viesse de Veneza encontrá-lo. O pintor, que tinha Carlos V entre seus patronos, era quarenta anos mais velho do que o príncipe. Wivel mostra um Felipe “enérgico e ambicioso”, desenvolvendo com o pintor tão mais velho uma relação “de grande respeito mútuo”. Ticiano recebera total liberdade sobre o formato dos quadros e as cenas a serem representadas; escolheu para a série de poesie temas que pudessem atender a “Philip´s ardent interest in women and his lifelong obsession with hunting”. Aparece assim a imagem de um Felipe namorador, patrono sensível de Ticiano, por quem nutria “genuine affection”.

O ano de 2020 foi trágico para todas as manifestações artísticas e para todos os artistas. Como catálogo de uma exposição interrompida, Love Desire Death simboliza para mim as experiências intelectuais, culturais e sensoriais de que fomos privados em razão da pandemia.

Talleyrand, contemporâneo, amigo e rival de Metternich, é objeto de um estudo que li do historiador francês Emmanuel de Waresquiel e que não deve ser confundido com sua biografia do diplomata. Mas foi graças a Stendhal que comecei a gostar dos livros de Waresquiel, que publicou em 2020 curto volume sobre o escritor, de quem é a bela frase do título, J´ai tant vu le soleil. O livrinho é apresentado por Waresquiel de forma desmerecidamente modesta, como algo “rápido e sucinto demais para ter qualquer valor científico”. Seu propósito é comentar, sem pretensões, aspectos da vida de Stendhal, mas nesse processo Waresquiel ilumina sua própria personalidade e o ato de escrever. “Para quem provou da profunda atividade que é escrever”, diz ele por exemplo, “ler se torna um prazer apenas secundário”.

O livro sobre Stendhal despertou em mim grande interesse pelo estilo do historiador. Li, em seguida, sua visão sobre o processo de Maria Antonieta, Juger la reine, de 2017, e seu livro sobre a Revolução, também publicado em 2020, Sept Jours: 17-23 juin 1789. Neste último, ele desmonta a fábula sobre a suposta bondade e a tolerância de Luís XVI. Mostra, ao contrário, um soberano aferrado aos seus direitos e à herança absolutista, mas sem a firmeza de personalidade necessária para enfrentar o desafio do momento histórico. Waresquiel demonstra que a Revolução se tornou um fato irreversível em decorrência de eventos ocorridos naquela semana de 17 a 23 de junho. Mais do que propor uma história da Revolução, ele se concentra sobre esses sete dias cruciais, apresentando as motivações, as falhas, os êxitos dos diversos atores. Trata de maneira original um tema analisado já tantas vezes, jogando sobre ele uma luz nova. Sua análise sobre o processo de Maria Antonieta, em Juger la reine, mostra as múltiplas razões sociais e políticas por trás de sua condenação e o paralelismo da execução, pelo Terror, da maioria de seus próprios acusadores, cuja vida e personalidade Waresquiel detalha.

Ao arrumar as prateleiras de livros em Kuala Lumpur, após abrir a mudança em maio, pensei um pouco em Walter Benjamin. Em artigo de 1931 intitulado “Desembalo a minha biblioteca”, ele narra a experiência de tirar os livros das caixas e de colocá-los nas estantes, tendo tido que ficar dois anos sem vê-los. Uma frase lembra a de Emmanuel de Waresquiel no estudo sobre Stendhal. Benjamin diz que os escritores escrevem “por insatisfação em relação aos livros que eles poderiam comprar, mas que não os agradam”.

Pensei muito mais, porém, no nosso próprio delegado Espinosa. Seu criador, o psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza, morreu em abril de 2020, aos 83 anos. É uma tristeza pensar que já não teremos novos romances policiais intrinsecamente cariocas com o seu detetive de nome e índole filosóficos. Garcia-Roza é um desses escritores que eu teria gostado de conhecer pessoalmente, o que teria sido fácil, pois tínhamos amigos em comum. Mas ele partiu sem que eu nunca tenha feito nada a respeito. Fica então o arrependimento.

Espinosa mora no bairro Peixoto, ao lado do qual, na rua Anita Garibaldi, vivia minha avó, e no coração do qual, na Décio Vilares, em frente à pracinha, morava e clinicava uma psicanalista grande amiga de minha mãe, Imelde Farah, que foi para meus irmãos e para mim mais do que uma tia. Neste momento, passo os olhos por Espinosa sem saída e vejo que Irene, namorada do detetive, inspirou a personagem de um conto que escrevi em francês, há dez anos, e que nunca publiquei. Percebo agora, aliás, que em outro conto meu em francês o personagem principal, detetive carioca introspectivo, sofreu clara influência de Espinosa.

Em Perseguido, o detetive de Garcia-Roza sai mais cedo da delegacia para caçar mais livros em um sebo. Lemos que em sua casa não há estantes ou prateleiras, mas sim “uma singular obra de engenharia doméstica”. Espinosa amontoa os volumes contra a parede, em sucessivas camadas, alternadas, de livros deitados e de livros na vertical: “uma biblioteca em estado puro, sem nenhum elemento que não fosse livro”.

Sozinho em Kuala Lumpur durante a maior parte do ano de 2020, com a presença apenas de Kiki, a gata persa dourada, muitas vezes olhei para as montanhas de livros no chão, sem ânimo para arrumá-los nas estantes, e pensei em Espinosa e na morte de seu criador. A ambos dedico estas páginas.

As fotos nas capas dos livros de Garcia-Roza são de Bel Pedrosa

Este texto foi primeiro publicado em Estado da Arte, em 30 de janeiro de 2021

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Um dia em Lisboa

Um dia em Lisboa

Como Titina mora em Lisboa há muitos e muitos anos, visitá-la não é para mim tão fácil ou corriqueiro, mas o resultado é que a cidade está sempre presente na minha imaginação. Ir a Lisboa ver minha irmã nunca foi, por outro lado, um sacrifício, pois gosto muito de estar lá. A cidade se tornou, de uns anos para cá, um centro artístico e gastronômico. A cada visita percebo diferenças que fazem dela um destino sempre mais atraente. Devo supor que as motivações dos turistas e dos residentes estrangeiros são iguais às minhas: o clima ameno no inverno, o charme de seus bairros históricos, a segurança nas ruas e a sensação transmitida de que a vida pode ser fácil e ensolarada. Um passeio simples pelas ruas do Chiado, do Bairro Alto, da Alfama, da Mouraria e de tantos outros bairros já basta para nos fazer sentir a delícia de estar vivo.

Fator adicional, para mim, é a excelência das livrarias. Um dia ideal, em Lisboa, inclui visitar as minhas prediletas.

Na minha primeira viagem a Portugal, aos 19 anos, adotei a Bertrand. Como eu quase sempre me hospedo no Chiado, ela me serve como uma mistura de livraria e de espaço prático para fazer uma pausa do sol, do calor, do frio, da agitação; para entrar, isolar-me do mundo por alguns minutos em um ambiente conhecido, seguro, e voltar a sair, com renovado entusiasmo. Na sala principal, a primeira, passei já muitas horas da minha vida. Mais adiante, a cavernosa enfileirada de arcos sugere a promessa de tesouros a serem descobertos. Mesmo uma livraria fundada em 1732 e instalada em 1773 no local atual, na Rua Garrett, pode nos reservar surpresas. Em 2017, descobri que os sucessivos ambientes desembocam agora em um café, com um mural representando Fernando Pessoa.  

Saindo da Bertrand, se desço a Rua Garrett e viro à direita na Rua Nova do Almada, chego à Livraria Ferin, a segunda mais antiga da capital. Esse é, por excelência, um lugar elegante, e me lembra duas de minhas livrarias preferidas, a Galignani em Paris e a Hatchards em Londres. O ambiente é acolhedor, e a oferta de livros, inclusive franceses, é sempre interessante, particularmente na área de história. Minha única queixa não é culpa da livraria: é que sonho, até hoje inutilmente, em conseguir fotografar sua fachada sem carros estacionados em frente. Já me aconteceu de ficar longos momentos na calçada oposta, celular à mão, esperando poder captar um momento em que a rua estivesse despejada. Já me aconteceu também de pensar, nessas horas, que os funcionários da Ferin, se me notaram alguma vez, pela vitrine, parado na rua, olhando insistentemente em direção ao prédio, devem ter estranhado ou mesmo ficado preocupados. A rigor, a fachada da livraria em nada se diferencia, arquitetonicamente, das demais nessa rua pombalina. É bem mais sóbria do que a da Bertrand com seus azulejos azuis. Mas algo ali me atrai, talvez o que sei do ambiente atrás da porta; ou talvez a forma arqueada como a palavra “Librairie” é gravada, na pedra do lado esquerdo da porta, sobre o resto da inscrição, “de A. Ferin”. No pilar do outro lado da porta está gravado “Atelier de reliure”, com a palavra “Atelier” também arqueada.

Sempre frustrado na minha tentativa de fotografar a fachada da Ferin sem carros estacionados diante dela, retomo meu passeio.

A concentração de livrarias nessa área de Lisboa, na verdade, é impressionante, pois logo ali, ao lado da Ferin, nos Armazéns do Chiado, está a moderna FNAC. E se eu voltar à Rua Garrett e subi-la, um ou dois quarteirões depois da Bertrand encontro a Sá da Costa, que deve ser o maior receptáculo de livros de segunda mão que conheço, depois da Strand em Nova York. Um dos charmes de Lisboa são os vários sebos que podem ser visitados confortavelmente em um passeio a pé. Caminha-se vendo apenas ruas harmoniosas, fachadas do século XVIII, e entra-se aqui ou ali em um alfarrabista. A Sá da Costa lembra vagamente um daqueles lugares de Bruxelas que aparecem nos álbuns do Tintin, misteriosos, mágicos. Feira da Ladra ou casa de algum antropólogo ancião, sentimos ao entrar que lá terá início uma aventura. Além dos livros, há por ali, espalhados pelas vitrines ou pelas salas, estátuas de madeira, porcelanas antigas, globos terrestres e mapas emoldurados nas paredes, inclusive um representando, na Antiguidade, o que hoje é o Oriente Médio. 

Saindo da Sá da Costa e andando até a Praça Luís de Camões, posso tomar a Rua da Misericórdia, onde grandes felicidades me esperam.

A primeira livraria a aparecer é a Bizantina. Na última vez em que lá estive, fiquei maravilhado, porque vi em uma prateleira a primeira edição inglesa de Justine, de Lawrence Durrell, que tenho em casa. Há muitos anos, retirei da estante de meu pai, no Rio, o seu exemplar e nunca o devolvi. Nem gosto particularmente do romance, mas há algo de lúdico no volume: a grossura e o cheiro do papel, a textura da capa. Sobretudo, há a minha constante ingenuidade de achar surpreendente ver em um sebo edições que já possuo. Nunca falha, sempre fico feliz quando isso acontece.

Em 2018, considerei algo extraordinário encontrar na Livraria Antiquária do Calhariz a edição em cinco tomos dos Sermões do Padre António Vieira pela Lello & Irmão, que minha mulher tem desde sempre. Chega a ser engraçado, eu me encantar de ver em um alfarrabista lisboeta a edição clássica e famosa, mas não muito antiga — é de 1959 — de um grande autor português, publicada por uma casa editorial portuguesa.

Poucos metros depois da Bizantina, no Largo Trindade Coelho, esteve até 2020 a Olisipo, onde, ao longo dos anos, comprei vários livros. Seu interior era sedutor. O ambiente era arejado, entrava a luz do sol e eles vendiam também gravuras e mapas antigos. Algumas encadernações eram estupendas. Na última vez em que lá estive, em julho de 2017, senti falta da presença do proprietário e fundador, José Ferreira Vicente, que nunca, anteriormente, eu deixara de ver. Descobri depois que ele morrera em janeiro daquele ano. Era um homem educado. Quando estou sozinho, costumo ficar mergulhado nos meus pensamentos; por isso, creio nunca termos trocado palavras muito distintas de “boa tarde” e “obrigado”. Sinto seu desaparecimento, no entanto, como o de uma presença bem familiar, de que sentirei falta. A Olisipo mudou-se para outro endereço. Não sei quando poderei voltar a Lisboa e ver como ficou instalada a livraria, agora na Avenida Infante Santo. O antigo espaço ficará para sempre gravado em mim.

Pouco depois do Largo Trindade Coelho, chega-se ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, com a sua vista famosa sobre Lisboa, o Castelo de São Jorge e o Tejo ao fundo. Essa e outras vistas sempre me fazem pensar em um melancólico e marcante filme de 1983 de Alain Tanner, A Cidade Branca, em que Bruno Ganz faz o papel de um marinheiro suíço desembarcado em Lisboa. Na vida real, as portas e as fachadas coloridas ou azulejadas de alguns bairros, como o Chiado e o Bairro Alto, dão uma visão bem diferente, a de uma cidade cálida, vibrante e receptiva aos viajantes.

Em um dia de férias típico meu em Lisboa, a esta altura terei já comprado vários livros e irei adiante até o Jardim do Príncipe Real, para lê-los sentado em um banco sob o sol.

Em 2019, pude passar apenas vinte e quatro horas em Lisboa. Meu roteiro habitual de visitas a livreiros não pôde ser cumprido. Além da Bertrand e da Ferin, onde entrei somente para ver as novidades, respirar o ambiente, ter certeza de que essas duas velhas amigas estavam bem — preocupação inútil, pois elas seguirão existindo quando eu desaparecer — estive em um sebo apenas.

Existe, na Rua de O Século, um alfarrabista que ocupa dois espaços pequenos. Sei hoje que ele se chama Alexandria, mas só em 2019 notei haver placa discreta com o nome. Nos anos anteriores, podia-se passar pela rua, aliás bem tranquila, sem perceber haver naquele ponto uma livraria. Se minha irmã não fosse freguesa, nunca eu a teria descoberto. É um lugar especial, sobre o qual já escrevi anteriormente, em uma crônica de 2018, O Embrulho Vermelho, cujo fio condutor é justamente um livro que Titina lá comprou, naquele ano, para me dar de presente. O sebo é forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. O nome da rua me intrigava muito, e eu a incluía entre os muitos logradouros lisboetas cuja denominação me soa poética, como Travessa da Água-da-Flor, Travessa da Boa Hora, Travessa da Espera, Rua da Horta Seca e Rua das Flores, que faz pensar imediatamente em Eça de Queiroz. Um dia, descobri não haver nenhuma intenção metafísica no nome O Século. Trata-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia.

Na Alexandria, o livreiro é prestativo, mas discreto. Deixa-me à vontade, no espaço pequeno. Os preços são honestos. Uma vez, quis mostrar o sebo a um primo português, o escritor e biógrafo José Norton. Este me convenceu a comprar uma edição barata e surrada, em três volumes pequenos, vermelhos, de capa dura, dos Mistérios de Lisboa. Devo assim a ele meu primeiro contato com Camilo Castelo Branco. Em 2018, vi empilhados no chão 8 dos 21 volumes da correspondência de Proust editada por Philip Kolb. Fiquei tentado. Não os comprei. Nas minhas 24 horas lisboetas em setembro de 2019, voltei lá para sondar se os volumes tinham sido vendidos. De fato, tinham. Arrependi-me bastante.

Em 2020, com as fronteiras da Malásia fechadas por causa da pandemia, não visitei minha irmã. Pelo que já pude ver de 2021, neste mês de janeiro tão parecido com o ano passado, parece improvável que eu consiga consiga vê-la antes de 2022. Pergunto-me se a feira de livros ao ar livre, aos sábados, na Rua Anchieta — com as mesas do lado esquerdo, nos primeiros metros da calçada, colocadas ao longo dos azulejos da Bertrand — tem acontecido, nestes tempos atípicos para todos. Poderia perguntar à Titina. Mas há algo lúdico em permanecer na dúvida. Prefiro sonhar com os livros expostos na calçada, em pleno Chiado. Esperam a minha volta, quando passarei novamente pela Rua Anchieta, transformada todo sábado em um corredor de deleites. Esperam seduzir-me.  

Versão atualizada de texto primeiro publicado na revista literária Pessoa, em 19 de outubro de 2020

Todas as fotos foram tiradas pelo autor

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As frutas de Perak

As frutas de Perak

Foi do Sultão de Perak que recebi, neste Natal, o meu primeiro presente. Na verdade, fui eu quem, ao recebê-lo no final de novembro, decidi considerá-lo assim. Fiquei bem contente de poder antecipar a época natalina, pois esse é, para mim, o momento mais esperado e desejado do ano.

Certamente, isso é um resquício da infância. Durante anos, na Bélgica, descer as escadas com meus irmãos, na manhã do dia 25 de dezembro, ainda de pijama, para ver os presentes sob a árvore decorada na sala, com a neve cobrindo o quintal e o ambiente rural ao redor da casa, era a experiência mais mágica do ano inteiro. Abro neste minuto um livro de 2019 de Jean-Yves Tadié de artigos ou ensaios curtos seus sobre Proust, um dos presentes de Natal que, complacentemente, em dezembro dei a mim mesmo. Caio em uma citação de La Recherche a respeito de adultos rememorando a infância: “eles se perguntam se, naqueles anos felizes, o inverno não era a mais bonita das estações”.

Há outras razões, pessoais e filosóficas, para minha continuada veneração pelo Natal. Minha mulher e eu fazemos aniversário na mesma data, em meados de janeiro, e assim o Natal é um conceito abrangente, que engloba pelo menos todo o mês de dezembro e vai até a terceira semana de janeiro. Essa é a época das comemorações, da sensação de leveza, do sentimento de que pode haver harmonia entre os seres humanos. É a época da felicidade. Todo ano, prolongo ao máximo esse estado de espírito. Duvido que alguém queira me criticar por isso.

Quanto ao aspecto filosófico da questão, direi que o Natal, independentemente da importância religiosa da data, de que nesse dia se celebra um nascimento, parece ser como um resumo, uma explicação do sentido da vida. É algo que espero o ano inteiro, na expectativa de alegrias sem fim; mas depois que ele chega, termina rápido demais. Mal me preparei para festejá-lo, e ele acabou. Acredito que a data ainda está por vir, e ela já é passado.

O Sultão de Perak, Nazrin Shah, com graduação em Oxford e mestrado e doutorado em Harvard, deve ser o único soberano e a única alteza real no mundo com competência para escrever obras de história econômica. Seus livros, publicados pela Oxford University Press, têm títulos como Charting the Economy: Early 20th Century and Contemporary Malaysian Contrasts (2017) e Striving for Inclusive Development: From Pangkor to a Modern Malaysian State (2019). Pangkor é uma ilha em Perak, e é também o nome do tratado pelo qual, em 1874, o Reino Unido assinou com o Sultão de Perak de então o acordo que iniciou o processo pelo qual, em poucas décadas, toda a Península Malaia passou a estar sob controle britânico. Até 1874, o Reino Unido estava presente apenas em Penang, Malaca e Singapura, que juntas formavam a colônia conhecida como Straits Settlements.

Na capa de Charting the Economy, os dois “o” do título são representados por uma semente de seringueira e grânulos de estanho. Como toda criança brasileira aprende na escola, a exitosa inserção na Península Malaia de sementes de hevea brasiliensis roubadas da Amazônia pelos britânicos, nos anos 1870, pôs fim ao ciclo da borracha no Brasil. Uma ironia é que, hoje, importamos borracha da Malásia.

Nos dois livros, vemos como os seringais e as minas de estanho sustentaram, durante décadas, a economia da Malaia britânica. Após a independência, em 1957, o novo país começou a diversificar sua produção. Explica o Sultão de Perak: “dependence on a limited number of primary commodities with highly volatile prices had been recognised as being an unsustainable economic strategy”. O estanho é um produto não-renovável, e a borracha natural é substituível. A Malásia se transformou. Passou a exportar produtos elétricos e eletrônicos e maquinaria. Desde 1971, a política econômica, voltada para a eliminação da pobreza, inclusive por meio de ações afirmativas, de ampliação do acesso à educação e de políticas de transferências diretas à população menos favorecida, pode ser sintetizada com a frase “growth with equity”. É surpreendente ver uma alteza real — que, pelo sistema rotativo entre os sultões para a ascensão ao trono malásio, deverá se tornar em janeiro de 2029 o XVIII Rei da Malásia — citar Thomas Piketty como fonte para seu pensamento sobre a questão da distribuição de renda.   

Do Sultão Nazrin Shah, eu já havia recebido seus dois volumes sobre a história econômica da Malásia. Fiquei então intrigado com o novo presente, de que foi portador um amigo comum, Timor, que, de partida para a Califórnia, onde passaria longos meses com sua família, veio, exemplarmente, se despedir de mim. O presente real é um livro, com texto e fotografias de Omar Ariff Kamarul Ariffin, intitulado The Incredible Fruits of Perak. Nazrin Shah e sua mulher, a princesa Zara Salim, contribuíram para a publicação da obra. Como outros bonitos livros promovidos por eles, o volume ajuda a divulgar Perak, conferindo-lhe uma personalidade própria frente aos outros estados malásios.

Lançada em 2019, a obra descreve as características de cem frutas, a maioria nativas de Perak, mas algumas também exóticas. Dezenas de outras são mencionadas. Há no estado de Perak, segundo explica a princesa Zara Salim no prefácio, ao menos cinquenta cidades ou vilarejos cujos nomes celebram frutas nativas.

Em minha primeira Carta da Malásia — as cinco cartas publicadas anteriormente estão coletadas em Ilhas Misteriosas — relatei viagem que fiz à ilha de Penang e contei que a paisagem de Perak, vista do trem, lembrou-me a da Mata Atlântica. Folheando o livro sobre as frutas do estado, constatei sem surpresa que algumas existem no Brasil. Quem poderia imaginar que a pitangueira, originária da América do Sul e de que temos um exemplar no quintal em Brasília, adaptou-se na Malásia com o nome de cermai belanda? O autor nos dá a informação de que a fruta também é conhecida como “pitanga” ou Brazil cherry. A brasileiríssima e corriqueira carambola aparece logo no início do livro, com o nome de belimbing manis, e aprendo que ela é na verdade originária do Sudeste asiático e do subcontinente indiano. A carambola é conhecida na Malásia também como kembola e, sim, “carambola”.

A maioria das frutas descritas no livro é, porém, desconhecida para mim. Há muitos anos, em Belém, na praça do Theatro da Paz, tomei pela primeira vez um suco de cacau. Das lembranças mais fortes que guardo da cidade está a surpresa que tive então diante da variedade de frutas de que eu nunca ouvira falar. The Incredible Fruits of Perak causa em mim a mesma sensação. Pensar que vivi até hoje sem provar melinjau, rawa e tampoi, entre muitas outras. A melinjau parece particularmente apetecível.

Uma das anedotas itamaratianas de que mais gosto é a história, acontecida não faz tantos anos, em que um estadista indiano visita Brasília. Como é costume, é homenageado com um jantar. Como sempre acontece, na hora da sobremesa trazem à mesa não só o doce, como também uma bandeja de frutas, onde há inclusive mangas fatiadas. O visitante exclama, acredito que de boa-fé e sem ironia: “Que ótima surpresa! Vocês foram atenciosos a ponto de mandar me servir uma fruta indiana”. Ele tinha razão, a manga é originalmente da Índia. É tão adaptada à realidade brasileira, porém, que cresce sozinha por todo canto em Brasília, e eu mesmo durante muito tempo acreditei ser ela originalmente brasileira. No nosso quintal no Lago Sul, ao lado da pitangueira, há duas enormes mangueiras. No final de dezembro, elas atingem o auge da produção. Seus galhos, no Natal, devem ter ficado pesados, carregados de mangas rosadas, de diferentes tonalidades avermelhadas, que me fazem sempre pensar, quando as vejo de longe, nas maçãs estilizadas que, criança, eu colocava em toda árvore que desenhava.  

Graças assim à visita de despedida que me fez Timor, trazendo em um único volume, como presente real, uma centena de frutas de Perak, entrei cedo no clima natalino.

Menos de quatro semanas depois, tive de lidar com preocupações mais transcendentais do que a economia malásia ou as semelhanças entre a flora brasileira e a da Península Malaia. No domingo antes do Natal, vi-me caminhando, à noite, pelo gigantesco aeroporto internacional de Kuala Lumpur, vazio e abandonado. Eu lá não pisava desde abril, quando fora me despedir dos brasileiros sendo repatriados por causa da COVID-19. Naquela ocasião, já havia menos voos, mas os que se mantinham estavam lotados, por causa do novo coronavírus, de malásios voltando ao seu país ou de estrangeiros regressando aos seus. A própria alegria dos meus compatriotas de poder voltar para casa e enfrentar a pandemia com seus familiares tornava o ambiente, para mim, eletrizante. No domingo logo antes do Natal, pareceu-me o aeroporto, que eu conhecera tão movimentado, lúgubre no seu abandono.

Como eu sabia, os problemas filosóficos que passavam pela minha cabeça, enquanto eu circulava pelo aeroporto entristecido, logo receberiam resposta: “Ela vai me achar bem ou envelhecido? Magro ainda? Aprovará esta camisa?”. Pois se eu lá estava, era para esperar minha mulher, que chegava de Singapura. Recebera ela autorização da Malásia, apesar das fronteiras fechadas nos dois países, para vir passar uns dias de férias. Teríamos de fazer quarentena, mas, felizmente, em casa.

Após uma separação forçada de dez meses, por causa da pandemia e o consequente fechamento das fronteiras, era um verdadeiro milagre natalino que eu estivesse ali, esperando por ela. Pensei ser personagem de algum filme ingênuo, típico da estação, It´s a Wonderful Life talvez, ou Love Actually

Não direi que a ceia de Natal foi a melhor que já tivemos, porque faltou nossa filha, que mora em Bruxelas, e para quem as fronteiras malásias e singapurenses permanecem fechadas. Mas foi deliciosa. Após as incertezas de todo o ano, compartilhadas com a humanidade inteira, e uma prolongada separação, era possível pensar que, afinal, a nossa era uma história que terminava bem. Como devem terminar os contos natalinos.

Esta minha VI Carta da Malásia foi primeiro publicada, como as cinco anteriores, em Estado da Arte, em 7 de janeiro de 2021

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Mozart desaparecido

Mozart desaparecido

Existe em Veneza uma placa de pedra, colada na parede de uma casa de cor ocre situada ao lado de uma pequena ponte. Sempre que passeio sem rumo pela cidade, em algum momento vejo a placa, em geral quando menos espero. Há momentos em que a procuro, não encontro a ponte de onde poderia vê-la, desisto e, no dia seguinte, por acaso, passo por ela. A cada vez, é a mesma surpresa. Fico sem entender que caminhos circulares me levaram até ali.

A placa comemora a estada de Mozart naquela casa por um mês, em 1771, quando ele tinha quinze anos. Leopold, seu pai, o acompanhava, mas é ignorado nos dizeres na pedra. Quando minha mulher e eu estivemos em Veneza pela última vez, em setembro de 2019, a placa estava decorada com uma guirlanda de folhas secas, e assim eu a fotografei. Parecia uma janela barroca.

O texto transmite justamente aquilo que, desde minha leitura das Memórias de Casanova, na adolescência, associo ao espírito veneziano do século XVIII. Caracteriza a cidade como sendo a de Vivaldi e Goldoni. Diz que Mozart, “il fanciullo salisburghese”, passou em Veneza, de forma festiva — “festevolmente” — o carnaval daquele ano. Só de ler essas palavras, os olhos comunicam à alma uma sensação de leveza.

Como todos nós, eu jamais poderia ter previsto naquele dia de setembro em Veneza, há mais de um ano, enquanto atravessava a ponte e fotografava a placa, que uma pandemia surgiria pouco tempo depois. Os meses imediatamente anteriores a fevereiro de 2020 parecem-me, hoje, mais inocentes do que até mesmo os anos da minha primeira infância. Revestem-se de uma aura de alegria, liberdade e despreocupação. Isso é, naturalmente, apenas uma fantasia post facto, mas demonstra o impacto causado pela Covid-19.   

À medida que a pandemia se eterniza, a atitude filosófica com que eu a encaro parece-me mais e mais estoica. Fiquei quase dez meses sem ver minha mulher; são já onze sem ver minha filha ou minha mãe. No meio do caminho, em julho, minha tia, também madrinha de batismo, morreu de Covid-19. Inúmeros amigos contraíram o vírus mas sobreviveram. A vida cotidiana mudou para todos.

Em maio, mergulhado no confinamento compulsório na Malásia, afirmei em Roma não está mais em Roma que, no meio do isolamento social, não precisamos ficar tristes pela saudade de amigos, de nossa família ou de lugares, pois eles estão em nós e nos acompanham aonde vamos. Quase oito meses transcorreram desde então. As fronteiras da Malásia, de Singapura e da União Europeia continuam fechadas, o vírus segue presente entre nós; as festas de final de ano fazem ver que 2020 termina, e as reuniões familiares estão ainda prejudicadas.

Durante o confinamento na Malásia, entre março e maio, uma válvula de escape foram as transmissões gratuitas pela Internet de espetáculos gravados meses ou anos antes, por diferentes teatros, companhias ou orquestras. Avaliei em Cleópatra no Escritório que, por mais lúdico que fosse para o público acessar essas transmissões, para os intérpretes a pandemia criava uma situação insustentável a longo prazo. Por razões financeiras, e também porque o artista precisa de plateia tanto quanto de ar.

De meu conhecimento, apenas a Metropolitan Opera continua transmitindo gratuitamente, de forma regular, alguns de seus espetáculos. A mesma produção de Don Pasquale já passou ao menos três vezes desde março. Essa é uma ópera que me acompanha desde os vinte anos. Não há tédio e tensão que sobrevivam às risadas que ela provoca. Gosto infinitamente do libreto e da música. Endosso o comentário de Zito Batista Filho, em seu livro A Ópera: “Tudo termina bem, como convém a uma ópera bufa que é, aliás, uma das mais belas em seu gênero”.

Quantas vezes, porém, pode um admirador de Donizetti assistir à mesma produção de Don Pasquale, ainda que excelente, e ver Anna Netrebko no papel de Norina, no mesmo cenário, com as mesmas roupas, na mesma gravação? Netrebko esteve hospitalizada, em setembro, com Covid-19, mas li que se recuperou bem. Ela pode voltar a cantar nas casas de ópera da Europa que venham a reabrir ou novamente fechar em função dos meandros da pandemia. Já a Met Opera permanecerá ociosa até setembro de 2021, e não paga desde abril aos seus músicos — ao menos um dos quais morreu de Covid-19 logo no início da pandemia. Um dos parceiros de Anna Netrebko em Don Pasquale, o barítono polonês Mariusz Kwiecien, anunciou, também em setembro, que, embora ainda jovem, já não cantaria nos palcos, por um problema de coluna. No mundo eternizado dos vídeos da Metropolitan, porém, nada mudou. A orquestra está intacta. Donizetti nos encanta. Anna, no papel de Norina, e Mariusz, no de Dr. Malatesta, estão saudáveis, e ela se casa em todas as transmissões com Ernesto, personificado pelo tenor Matthew Polenzani.

No futuro, haverá análises acadêmicas sobre como a repetição incessante pela Met Opera, ao longo de 2020, das mesmas gravações de algumas de suas produções terá influenciado a estética teatral no mundo. Em setembro de 2019, em Covent Garden, assisti a uma estupenda produção de Agrippina, de Handel, com Joyce DiDonato no papel-título, como mencionei em O Delacroix de Chelsea. Uma das últimas apresentações pela Metropolitan, em março de 2020, antes de seu fechamento, foi justamente a de outra produção da mesmíssima Agrippina, com a mesmíssima Joyce DiDonato. A montagem do Lincoln Center já foi transmitida duas vezes nas últimas semanas e, a esta altura, virou minha referência, suplantando a de Covent Garden, embora esta talvez fosse melhor.

Nunca pensei que teria a sorte de assistir a Nixon in China, que meu amigo Hélio sempre me recomendara. John Adams, como compositor, e Alice Goodman, como libretista, conseguem a façanha de tornar interessante uma ópera contemporânea (1987) sobre um tema de política externa — que é agora também, tantos anos depois do evento descrito, um tema de história diplomática. É uma obra artística que talvez estimule o estudo das relações internacionais. Duas noites, ao longo dos meses de pandemia, pude ver e ouvir a soprano Janis Kelly cantar a ária This is prophetic, em que Pat Nixon, em Beijing, prevê um mundo mais simples e portanto, nessa visão, mais feliz:

and everywhere the simple virtues root
and branch and leaf and flower.

Uma ópera que não morava no meu coração é Idomeneo. Não guardo lembrança alguma da única vez em que a vi no palco, em Bruxelas, há dez anos. Assistir no computador duas vezes, em pouco tempo, à produção da Met Opera deixou-me agora entusiasmado por essa opera seria mozartiana. Luxuosamente barroco, montado por Jean-Pierre Ponnelle em 1971, e parecido com a sua produção de La Clemenza di Tito, esse Idomeneo revela belezas na música que eu anteriormente não notara.

Matthew Polenzani, que poucas noites antes parecera ser o simplório Ernesto apaixonado pela esperta Norina, reaparece transformado em figura mitológica, majestática, o heroico Rei de Creta, ele mesmo, Idomeneo, regressando da Guerra de Troia. A ária final de Electra — em que ela enlouquece de amor não correspondido — tal como interpretada pela soprano Elza van den Heever é uma grande cena de teatro. Arrasta-se ela pelo chão, com olhar alucinado, afastando freneticamente do vestido de Corte do século XVIII, com as mãos, as Fúrias que somente ela vê, enquanto a elas suplica: “Squarciatemi il cuore, ceraste, serpenti”. Na estreia da ópera em 1781, em Munique, essa foi uma das árias cortadas por Mozart, para encurtar a produção, e isso já é motivo para pensar como é bom estar vivo em 2020, em vez de no século XVIII. Na produção de Ponnelle, Electra morre no palco, contorcendo-se, ao terminar a ária. Menos dramaticamente, o libreto nos diz que ela “parte, infuriata”.   

Desde outubro, o aumento no número de casos de COVID-19 na Malásia criou novas restrições à vida social. Em novembro, impossibilitado de ver minha família, condenado de noite, ao voltar do trabalho, a ver uma vez mais no computador Anna Netrebko ou Joyce DiDonato nos mesmos papéis em que já as vi várias vezes desde março, senti um dia que precisava recuperar alguma lembrança da infância, de repente transformada, na minha fantasia, em época em que tudo era perfeito.

Foi então que pensei no disco de Mozart.

Aos 8 anos de idade, ganhei de presente dos meus pais, na Bélgica, um disco de vinil com duas sinfonias do “fanciullo salisburghese”, a Nº 40 em sol menor e a “Júpiter”. Durante muitos anos, esse disco foi um dos meus tesouros. Mesmo hoje, pego-me frequentemente cantarolando as duas sinfonias. A própria composição gráfica da capa era sedutora, com uma moldura azul celeste e, no centro, a reprodução de um quadro barroco repleto de personagens em uma cena rural.

A música de Mozart parecia revelar as complexidades, portanto as decepções, que aguardam todo ser humano, mas trazia também a cura mágica. Quando, na mesma época, entendi que um dia eu já não respiraria, não pensaria, não sentiria, saber que o compositor de dons terapêuticos também se extinguira tornou a perspectiva menos assustadora. O que consolava antecipadamente da morte era lembrar que Mozart morrera um dia. Hoje, como vivi já bem mais do que ele, que morreu tão jovem, esse pensamento produz um efeito menos benéfico. Comparo quem ele foi com quem eu sou, com tantos anos a mais na Terra, e considero-me insatisfatório. É cruel, injusto com Mozart, que eu viva mais do que ele e não produza algo como Don Giovanni ou Così fan Tutte ou a Sonata para Piano K.331.   

Nada ilustra mais a maldade representada pelo desaparecimento do compositor aos 35 anos, em 1791, do que um trecho das Conversações com Goethe de Johann Peter Eckermann. Quarta-feira 3 de fevereiro de 1830: “Jantei em casa de Goethe. Falamos de Mozart. Goethe disse: ‘Eu o vi, garoto de sete anos, quando ele dava um concerto em uma de suas viagens. Eu mesmo tinha então cerca de catorze anos, e me lembro ainda muito nitidamente daquele garotinho de peruca e espada na cintura’. Fiquei boquiaberto. Pareceu-me prodigioso que Goethe fosse velho o suficiente para ter visto Mozart criança”. Como Eckermann, fico eu também “boquiaberto” com isso. O romancista, poeta, dramaturgo, cientista e membro da Corte de Weimar tinha 80 anos na noite desse jantar em 1830.

Em outra conversa, Goethe afirma que só Mozart teria sabido transformar em ópera o seu Fausto, publicado em 1808, dezessete anos depois da morte do compositor. Para mim, o comentário é doloroso, porque traz à tona outro sentimento muito presente na minha adolescência, o da perda de obras magníficas que nunca escutaremos, porque Mozart morreu cedo demais para compô-las.

No apartamento em Kuala Lumpur, ansiei pelo consolo do disco da minha infância com as duas sinfonias. Guardo com carinho os meus antigos LPs. Fui até a estante onde eu os colocara, ao abrir a mudança em junho. Embora eu não tenha ainda conectado aquilo que se costumava chamar de vitrola, era possível ao menos olhar e segurar o disco de Mozart, admirar a capa, alisar o vinil. Isso não apresentava qualquer problema.

Só que sim.

Simplesmente, o disco desapareceu. Estão todos lá, os LPs que me acompanharam na infância e na adolescência, antes da chegada do CD, e que ajudaram a formar minha personalidade. Todos, não. Do disco com as duas sinfonias, não há sinal. Não consigo lembrar em que momento ele sumiu. Terá quebrado? Ou ficado tão arranhado que, em um ato de desapego pouco característico, eu o joguei fora? Vai ver, simplesmente desapareceu, como tudo na vida desaparece, assim, sem razão, como o próprio Mozart partiu um dia.  

Quis verificar o nome do regente e da orquestra na gravação. Uma busca na Internet, em poucos minutos, mostrou-me a capa. Vi então que a cena rural no centro é um quadro de Rubens. Meu apreço pelo pintor é sólido, resquício da infância passada na Bélgica. Houve a decisão, em setembro de 2019, já que eu estava de férias na Europa, de ir até Antuérpia apenas para revisitar sua casa; há as costumeiras tentativas, que consigo sempre frustrar, de rever no Louvre seu ciclo sobre a vida de Maria de Médicis.

A verdadeira surpresa da capa porém era outra. O regente, Karl Ritter, e a Orchestre de la Société des Concerts de Vienne nada me diziam. E nem poderiam. Nunca existiram. No século XIX houve um compositor menor, com esse nome, que foi aluno de Schumann. Somente uma busca intensa na Internet permitiu-me colher essa informação. Esse aluno de Schumann obviamente não poderia ter gravado um disco na segunda metade do século XX. Em resumo, meu disco de Mozart, descobri em Kuala Lumpur tantas décadas depois, era um genérico, copiando uma gravação fidedigna, mas modificando os nomes do regente e da orquestra para evitar direitos autorais ou problemas legais. Era um disco pirateado.

Essa descoberta propiciou o consolo desejado, ainda que não da forma prevista. A falsidade nos nomes dos artistas, na capa do vinil desaparecido, fez-me perceber o deslocamento que eu promovera ao longo do tempo. Atribuíra poderes encantatórios a um objeto material, em vez de à música nele gravada. O importante não era o disco, aquele fetiche que sobrara, por alguns anos, da infância. A música é o que conta. Um disco de vinil quebra. Não deixa rastros. Como as sucessivas idades da infância, ele se desvanece. Mozart morre. O que ele teve tempo de criar permanece, dando sentido à vida.

A infância não foi bonita e segura porque vivida na era pré-pandemia ou por causa da forma como transcorreu. Ela teve, a bem da verdade, os seus dramas. Preservar ou perder o disco não muda nem o passado e nem o presente. Depende só de nós valorizar a música, em vez do objeto. Depende só de nós, mesmo nos momentos mais difíceis, como este longo 2020, criar felicidade onde poderia haver tristeza. O velho LP, como Mozart, desapareceu; como as duas sinfonias, o que ele representava pode para sempre perdurar.

Este ensaio foi primeiro publicado, em outra versão, em Estado da Arte, em 5 de dezembro.

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