Waterloo

Waterloo

Há poucos dias, estive com minha filha no campo de batalha de Waterloo. Lá, em 18 de junho de 1815, Napoleão Bonaparte foi derrotado pelo Duque de Wellington e pelo Marechal prussiano Príncipe Blücher. Esse é um lugar especial para mim. Na postagem Papai Noel e a amizade, mencionei meu interesse constante, desde a infância, por Napoleão, despertado pelo fato de que Rhode-Saint-Genèse — onde morei criança — é uma localidade perto de Waterloo; de que visitei inúmeras vezes, ao longo da vida, o campo de batalha, seu Panorama, o museu de cera e a livraria cobrindo todo tipo de tema ligado à era napoleônica; e de que subi tantas vezes os 226 degraus do morro do famoso Leão.

Nos três dias que passei em Bruxelas, neste final de julho, o verão estava quente e ensolarado. Antes da ida a Waterloo, minha filha, seu namorado e eu nos encontramos em um café por eles frequentado, o Cup 28, em Ixelles, bairro de Bruxelas onde ela mora e onde ficava meu hotel. Sentamo-nos no pátio, embaixo de uma parreira. Sentar-se do lado de fora em restaurantes é, em Bruxelas, façanha relativamente rara:

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Reparei, ao receber meu café da manhã, que o suco de laranja vinha acompanhado de  canudo de metal, primeiro e único que vi até agora:

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Ao pagar, descobri que o funcionário que tinha nos servido, e que talvez fosse o gerente do café, era brasileiro, de Goiás, e que mora na Bélgica com os pais desde a infância.

A caminho de Waterloo, Julia e eu passamos por Rhode-Saint-Genèse, para eu rever a casa onde morei criança. O passeio quase termina aí, pois o táxi em que íamos por pouco não bateu, em uma rotatória, na entrada de Rhode, em outro carro, dirigido por uma mulher jovem, com o filho pequeno sentado no banco de trás.

De Ixelles a Rhode, o caminho é idílico. Passamos primeiro pelo Bois de La Cambre e, depois, pela Forêt de Soignes. De dentro do táxi, tirei a foto abaixo:

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Lembrei de quantas vezes, criança, eu andara a cavalo nessa floresta.

A rua onde morei em Rhode-Saint-Genèse continua intacta:

20180803_151655.jpgE também intacta continua a nossa casa, embora minha mãe e minha irmã, ao verem esta foto, não tenham aprovado a cerca de hera, única novidade:

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Fiquei pensando em quantas vezes meus irmãos e eu, na infância, nos dias de neve,  deslizáramos de trenó a rampa que leva às duas portas da garagem.

Julia foi impecável e não manifestou nenhuma impaciência com essas demonstrações de saudosismo relativo a uma época em que eu era ainda muito mais jovem do que ela é hoje. Aceitou bem, inclusive, a minha vontade de rever, ali perto, a minha escola:

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Ao contrário de minha filha, meus quatro leitores, a esta altura, devem pensar que abuso de sua paciência. Deixemos Rhode-Saint-Genèse, então, e prossigamos até Waterloo. Lá, algumas surpresas me esperavam.

Há quase sete anos eu não ia ao campo de batalha. O antigo museu de cera, onde as figuras, que acompanharam toda minha vida, começavam mais recentemente a perder bigodes e a escurecer, foi eliminado. Esta foto, em que apareço de casaco de couro, ladeado à esquerda pelo meu irmão e à direita pela minha irmã e, atrás, por Ângela, a amiga — querida até hoje — que nos meus sete anos me explicou que Papai Noel não existia, já não poderá ser replicada por futuras gerações de crianças. O boneco de grenadier atrás de Ângela terá sido preservado?

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Em 2015, como parte das celebrações pelos 200 anos da batalha, as atrações locais foram modificadas. Não só o museu de cera foi eliminado, como também — e isto é uma pena — o passeio de trenzinho pelo campo de batalha, que nos permitia andar pelos caminhos arborizados e bastante afundados em relação aos campos que atravessam, os famosos “chemins creux” frequentes na província do Brabant e que tiveram papel importante na batalha, ao menos na visão dos romancistas. Em La Chartreuse de Parme, Fabrice del Dongo entra, sai, caminha pelos “chemins creux”, sem chegar a compreender se estava participando ou não da batalha.

No lugar do envelhecido museu de cera, há agora um Mémorial 1815, subterrâneo mas arejado, cuja entrada apresenta-se assim:

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À direita dos degraus, estão listadas as subdivisões dos exércitos que participaram da batalha. À esquerda, o acesso ao Mémorial:

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Entra-se na recepção. À direita, está a entrada do museu e, à esquerda, a loja onde podem ser comprados bustos de Napoleão, chocolate em forma de grande medalha — envolto em alumínio dourado — chaveiros, pratos, objetos celebrando o Imperador dos Franceses ou a batalha:

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A loja inclui a livraria, reduzida com relação à do passado:

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São duas ou três estantes assim. Isso pode parecer suficiente, mas senti saudades da fartura da livraria anterior. Como tenho a fantasia de que as livrarias vão falir, se eu não comprar ao menos um livro ao visitá-las, escolhi esta biografia:

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Seria difícil supor que precisaríamos em casa de mais um volume sobre Napoleão, pois nossas estantes estão já fornidas de estudos, ensaios sobre ele e seu governo, e de biografias sobre seus inimigos, parentes e Ministros. Certamente, não conseguirei viver o suficiente para ler todos os volumes que venho reunindo, desde a infância, sobre essa figura, que será sempre controvertida.

O livro de Paul Johnson, publicado em 2002, começa da forma mais promissora:

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Passo para a segunda página, porém, e caio nos lugares-comuns habituais: o biografado era um “oportunista”, sedento por guerras infindáveis; deveria ter estudado o exemplo de George Washington, que trocou “o reino da força” pelo “reino da lei”; a Revolução Francesa era totalmente desnecessária em seu “terrível percurso”, pois bastava aos franceses terem feito as reformas necessárias de forma pacífica, “como a Grã-Bretanha e os países escandinavos”. Nas duas páginas seguintes da Introdução, o Congresso de Viena é elogiado como promotor da paz;  e lemos que “o Estado totalitário do século XX era filho de Napoleão”.

A última frase do livro é surpreendente: “todas as formas de grandeza, militar e administrativa, que construam uma nação ou um império,  nada são — são, na verdade, extremamente perigosas — sem um coração humilde e contrito”. Esse estilo “romance cor-de-rosa” é uma curiosa maneira de terminar uma biografia histórica, ainda mais tratando-se de um personagem tão pouco sentimental como Bonaparte.

Voltemos ao Mémorial 1815. Trata-se de um museu interativo. Vemos explicações de como a prensa móvel permitiu a divulgação dos ideais filosóficos do Século XVIII e dos panfletos da época da Revolução:

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Vemos a guilhotina:

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Vemos como eram os instrumentos dos cirurgiões dos exércitos da época, e pensamentos aterrorizados veem povoar nossas mentes:

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Há reproduções de quadros famosos retratando as grandes batalhas das tropas revolucionárias e napoleônicas, com a característica de que são animadas. Aqui, a Batalha de Fleurus, de 1794, vencida pelo General Jourdan:

Há uma grande galeria, onde vemos manequins ilustrando uniformes da época:

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Em uma vitrine paralela, deparo-me, de repente, com uma das cenas mais famosas do antigo museu de cera, que devo ter visto pela primeira vez aos 7 anos de idade, que revi em inúmeras ocasiões posteriormente, e que sempre me fascinou. A cena representa marechais e generais de Napoleão, poucas horas antes da Batalha de Waterloo, examinando mapas:

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As duas figuras centrais representam o Marechal Nicolas-Jean Soult, Duque da Dalmácia, e o General Henri Gatien Bertrand, “Grande Marechal do Palácio” de Napoleão e Conde imperial. Este último acompanharia Napoleão no exílio em Santa Helena. Essas figuras merecem ser vistas em detalhe, pela expressividade de seus rostos:

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Uma placa informa que há pequenos erros nos uniformes mas que, como esta cena “encantou gerações de crianças” que visitaram ao longo das décadas o museu de cera, decidiu-se poupá-la da extinção. Uma grande sorte para mim. E também para Julia, que conhece o campo de batalha desde os 13 anos, esteve lá várias vezes comigo e, conheceu, assim, o antigo museu e o trenzinho, cujo fim ela pareceu lastimar tanto quanto eu.

A cena termina, à direita, com a figura sorumbática de Napoleão, acompanhado de seu “mameluco”, o qual, em 1815, era na verdade um francês, Louis Étienne Saint-Denis, que Napoleão exoticamente chamava de “Ali”:

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No novo prédio do Mémorial, a última atração no percurso da visita é um curta-metragem de pouco mais de 10 minutos, dirigido por Gérard Corbiau em 2015 — portanto, como parte das celebrações do bicentenário — e projetado em 4D, intitulado Waterloo: au coeur de la bataille. Assisti-lo é uma experiência fabulosa. Tirei fotos durante a projeção; sem os óculos especiais, a imagem naturalmente perde nitidez, mas não resisto a publicar algumas, inclusive a que mostra o Imperador examinando a batalha com sua luneta:

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Terminada a visita ao novo museu, caminhamos até a Rotunda onde, há mais de 100 anos, encontra-se uma pintura panorâmica representando, em 360º graus, a batalha — o famoso Panorama de Louis Dumoulin:

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Quando criança, eu ficava impressionado com as figuras representando cavalos mortos, jogadas no espaço entre a pintura e os visitantes:

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Este vídeo que fiz dá uma ideia mais completa do Panorama:

Faltava agora o mais difícil, que é escalar os 226 degraus do célebre monte do Leão, uma das representações mais conhecidas da Bélgica:

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Quando criança, e na verdade até recentemente, isto não representava desafio maior. Desta vez, quase desisti de subir. Minha filha porém galopou escadas acima, alegremente. Pensei que não podia fazer feio diante dela, apesar da vertigem e do despreparo físico. Em um momento, parei e notei que ainda faltava um bocado de degraus para subir:

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Lá de cima, senti que meu esforço fora recompensado. Nunca concordei com o famoso verso de Victor Hugo, segundo o qual Waterloo é uma “planície triste” (“morne plaine“), mas possivelmente o poema quer dizer que a planície foi triste para Napoleão, pois lá terminou a aventura que fora sua vida até então. É verdade, também, que já visitei, no passado, o campo de batalha em dias menos ensolarados, e mesmo chuvosos, quando talvez o cenário pareça menos atraente. Olhando ao redor, aos pés do Leão, naquele dia de um verão excepcionalmente quente, com um céu azul, senti o impacto da beleza do lugar:

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Pensei que aqueles campos tão serenos presenciaram, há 200 anos, uma das batalhas mais sangrentas da história da Europa. Houve entre 10.000 e 11.000 mortos e entre 30.000 e 40.000 feridos naquele 18 de junho; milhares de feridos morreriam nos dias subsequentes. Pensei que por ali cavalgaram, temeram, gritaram, respiraram Wellington e Napoleão.

Os lugares não guardam lembrança do tempo em que ocupamos fisicamente aquele espaço. De manhã, eu revira a casa em Rhode, sem uma presença humana à vista frente à porta de entrada onde meus irmãos e eu — e nosso filhote de pastor alemão — nos sentamos alguma vez. O campo de batalha não tem registro de todas as pessoas que, ao longo dos séculos, por ali passaram. Todo espaço vazio, tranquilo, terá sido ocupado, em algum momento anterior, por corpos humanos, acompanhados de pensamentos, aflições, esperanças. Do drama humano vivido por dezenas de milhares de pessoas em 18 de junho de 1815, não sobra nada.

Era preciso regressar ao solo, tínhamos de almoçar. Para quem sofre de vertigem, como eu, a perspectiva da descida era pouco reconfortante:

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Pensei que talvez precisasse ficar ali em cima para sempre, mas naturalmente essa opção não era realista. Julia, a essa altura, já me esperava em baixo. Desci.

O almoço, excelente, foi, como em tantas vezes anteriores, no L´Estaminet de Joséphine:

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O restaurante fica logo no início da rua sem saída que leva ao campo de batalha. Sentamo-nos no terraço. Como entrada, pedi o que quase sempre peço na Bélgica, croquete de camarão cinza com salsa frita:

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O cinzeiro é testemunha de que ainda se fuma muito na Europa, coisa com a qual nunca canso de me chocar. Fumar em terraço é permitido nos bares, cafés e restaurantes. A bebida na taça é isso mesmo que você está pensando, querido leitor. Comprovar que eu era ainda capaz de subir — e de descer — o monte do Leão me enchera de orgulho; eu precisava comemorar.

Enquanto almoçávamos, íamos conversando sobre Napoleão e seu destino. Ele e seu principal vencedor em Waterloo, o Duque de Wellington, nunca se encontraram. Nunca aliás haviam antes se enfrentado em um campo de batalha. Para o Imperador, Waterloo significou o fim definitivo do poder e o exílio em Santa Helena, onde morreria em 1821, aos 51 anos. Para Wellington, a vitória foi uma consagração. Até a sua morte em 1852, aos 83 anos, viveu em constante glória, tendo chegado mesmo a ser Primeiro-Ministro do Reino Unido e tendo recebido, do Rei dos Países-Baixos, o título de Príncipe de Waterloo, que seus descendentes seguem usando. O atual Duque de Wellington recebe de renda, pelas terras ligadas ao principado, a quantia bastante satisfatória de 160 mil dólares por ano. É o caso de lembrar Machado de Assis: “ao vencedor, as batatas”.

Ou será que não? Um dos maiores historiadores da era napoleônica, Jean Tulard, lembra que, em 1815, quando Napoleão voltara do primeiro exílio na ilha de Elba, para retomar o poder durante os Cem-Dias, sua presença no cenário político simplesmente não era aceitável para as demais potências europeias e seus soberanos, entre os quais se incluía seu sogro, o Imperador da Áustria Francisco I. Em Napoléon, les grands moments d´un destin, publicado em 2006, Tulard examina cinquenta decisões de Bonaparte ou eventos em sua vida que, gradualmente, determinaram o curso de sua existência:

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A derrota em Waterloo é objeto do capítulo 47. Conclui Tulard, após analisar a batalha em detalhe: “Que Napoleão tivesse ou não ganhado em Waterloo, seu destino estava selado. As grandes potências [Áustria, Prússia, Reino Unido e Rússia] pareciam determinadas a não negociar uma paz isoladamente e dispunham de superioridade numérica acachapante […] A sorte não poderia estar sempre ao seu lado”.

Waterloo e o exílio em Santa Helena consagraram o mito napoleônico. Em seu rochedo no Atlântico Sul, o Imperador cuidou da própria lenda. A palavra final talvez caiba a Chateaubriand, que professava ser seu inimigo, mas claramente o admirava. Em Mémoires d´Outre-Tombe, o escritor-diplomata defensor dos Bourbons opina, julgando Napoleão, que “sua desgraça favoreceu a sua glória”. Ao mesmo tempo, admite: “Águia, deram a ele um rochedo, da ponta do qual permaneceu ao sol até a morte, e do qual era visto da Terra inteira”.

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Tolstói, Guerra e Paz e a BBC

Recentemente, a perspectiva de ficar 14 horas dentro de um avião me pareceu mais suportável quando notei que o entretenimento disponível na pequena tela frente à minha poltrona incluía a nova produção de Guerra e Paz da BBC, apresentada no Reino Unido entre janeiro e fevereiro deste ano. A série, eu sabia, fora muito bem recebida pela crítica britânica.

Na foto abaixo, extraída da página da BBC, vemos Paul Dano, à esquerda, como Pierre, Lily James como Natasha e James Norton como Andrei.

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Tolstói é uma referência intelectual e filosófica forte para mim. Como mencionei neste blog, sua casa é um dos lugares de que mais gosto em Moscou. Aos 20 anos, fazendo minha graduação em Londres, ao mesmo tempo em que idolatrava Beethoven, comecei a estudar russo porque queria ler Tolstói e Tchekhov no original, e esse esforço durou alguns anos, mas acabou sendo abandonado, o que hoje lamento. Na era pré-Internet, troquei várias cartas com Tatiana Belinky, renomada tradutora (nascera na Rússia) e grande amiga de meu pai, em busca de precisão sobre a pronúncia de alguma letra ou palavra e regras gramaticais. Nunca cheguei a conhecê-la, e talvez ela tenha sido meu primeiro amigo virtual, quando o conceito não existia ainda; na época falava-se em amigo epistolar. Ela me respondia com impressionante paciência.

Nesse período, eu não perdia uma peça de Tchekhov nos palcos londrinos, em produções normalmente bem sombrias; eu não entendia como o autor pudera declarar que suas peças eram comédias. Ia à English National Opera para assistir Guerra e Paz de Prokofiev. Assistia também, na televisão, a uma reprise da série de 1972 da BBC, em vinte episódios, em estilo “teatro filmado”. A música de abertura era uma lenta e solene interpretação do hino russo tsarista, o que já dá uma ideia do espírito dessa produção, marcante pela atuação de Anthony Hopkins como Pierre Bezukov. A série de 1972 não é Tolstói e não é russa e sim um bom exemplo da excelência do teatro inglês. 

Anos mais tarde, quando minha mãe morava em Moscou, pedi que me comprasse livros do Tolstói, para que eu pudesse ver – embora não pudesse ler – os que os russos vêm ao abri-los. Ela me ofereceu uma edição de 1951, em quatorze volumes, dos quais Guerra e Paz ocupa quatro:

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A primeira vez em que abri o romance, na belíssima tradução para o francês de Henri Mongault, publicada em 1941 na edição da Bibliothèque de la Pléiade, coleção sobre a qual já escrevi neste blog, senti nas primeiras linhas que meu universo iria mudar. Tolstói nos mergulha imediatamente nas intrigas da alta sociedade de São Petersburgo, por meio de uma recepção oferecida por uma dama da Corte de Alexandre I, Ana Pavlovna Scherer. Muitos dos principais personagens do romance participam dessa festa. Entramos junto com eles no salão da anfitriã. Somos apresentados a eles, vemos como são percebidos por seus pares, ouvimos suas palavras, vemos seus gestos e queremos que a recepção dure para sempre.

Além dos quatro volumes em russo, e da edição da Pléiade, temos em casa uma edição pela Oxford World’s Classics da tradução de Louise e Aylmer Maude, que viajou muito com minha filha e ficou nas condições abaixo:

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A tradução do casal Maude – ambos conheceram Tolstói pessoalmente – é ainda mais antiga do que a de Henri Mongault. Geralmente, prefiro ler os russos em francês, porque é assim que os conheci. Meu amigo leitor de Proust entendeu perfeitamente a situação ao me dizer uma vez, de maneira irônica: “Se você lê os russos em outra língua que não o francês, parece uma tradução, certo?”. Li porém uma novela de Tolstói em português, Padre Sérgio, na bela tradução de Beatriz Morabito publicada em 2001 pela Cosac & Naify. Quem poderá jamais lamentar suficientemente o fim dessa editora, que nos brindou, da obra de Tolstói, com traduções de Guerra e Paz, Anna Kariênina, Khadji Murat e uma edição de Contos Completos?

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Editora 34 vem publicando traduções de autores russos. Por enquanto, Tolstói comparece em seu catálogo apenas com quatro livros de contos e novelas, uma delas A Sonata a Kreutzer, certamente a sua pior obra de ficção e, portanto, uma escolha estranha para receber tal prioridade.

Guerra e Paz se inicia com uma frase de Ana Pavlovna Scherer em francês, língua da elite social russa da época, sobre o poder de Napoleão e o fato de que a Itália passara a ser um apanágio da família Bonaparte. O interlocutor de Ana Pavlovna é o príncipe Vassily Kuragin. Na versão da BBC, tão fiel ao livro colossal quanto poderia ter sido uma série em seis episódios, essa frase de Ana Pavlovna é suprimida, o que é uma pena. A vida e a personalidade dos personagens, inclusive a dos presentes nessa festa, será afetada pelas guerras napoleônicas e pela invasão da Rússia. Não é à toa que Tolstói, já na primeira frase de Guerra e Paz, nos fala de Napoleão.

A nova versão da BBC, como o livro, consegue nos prender desde o início. Gillian Anderson, no papel de Ana Pavlovna, é uma anfitriã eficaz. Ela nos recebe, dá à sua personagem, secundária, uma força que o original não possui no livro, nos convida a permanecer na estória durante os seis episódios, e aceitamos de bom grado ficar. Na televisão, alguns personagens são eliminados, mas o que me surpreendeu foi como a série conseguiu desenvolver bem a linha narrativa de todos os protagonistas e ser bastante fiel ao original.

Abaixo, vemos Gillian Anderson, reencarnando Ana Pavlovna Scherer, recebendo em seu salão o príncipe Vassily Kuragin, interpretado por Stephen Rea:

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As interpretações são quase todas excelentes, com destaque para Paul Dano, Stephen Rea e Tuppence Middleton como a filha de Vassily Kuragin e mulher de Pierre, Hélène. Os três membros da família Bolkonsky são igualmente bem representados – o velho príncipe, por Jim Broadbent; seu filho, o príncipe Andrei, por James Norton; e sua filha, a princesa Maria, por Jessie Buckley. Sendo esta uma série inglesa, podemos ter a certeza de que mesmo os papéis secundários são interpretados por grandes atores. A Natasha de Lily James me convenceu menos, mas talvez esse seja um dos papéis mais ingratos para qualquer atriz: como representar a heroína russa por excelência? Como se destacar em um papel que já foi de Audrey Hepburn? Lily James está porém convincente na famosa cena de dança camponesa, que deu aliás a Orlando Figes o título de seu livro sobre a estória cultural da Rússia, Natasha’s Dance. O irmão de Natasha, Nikolai Rostov, está bem feito por Jack Bowden, em um papel particularmente difícil, porque Nikolai, ao longo do romance, pode ser sucessivamente inocente e ambicioso, pouco inteligente e antipático e logo depois sedutor e comovente.

Abaixo, a cena do casamento entre Pierre e Hélène. Um casamento feito pelo pai da noiva, em um faz-de-conta de que os dois se amam. Ele gostaria de poder amá-la; ela gosta do seu dinheiro, de que pretende gozar sem ser importunada. O olhar dos atores captura bem esses sentimentos:

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Uma palavra sobre a família Kuragin. No romance, o príncipe Vassily e seus três filhos – um, o diplomata infantilizado Hyppolite, foi excluído da série da BBC – simbolizam toda a corrupção e a falsidade da alta sociedade. Tuppence Middleton dá a sua Hélène (morena, e não loura como no livro) uma inteligência que o personagem original não possui. No texto de Tolstói, é uma mulher bela, fria, imoral, egoísta e obtusa. Uma das evoluções pessoais mais surpreendentes no romance é a transformação de Hélène em dona do salão aristocrático mais celebrado de São Petersburgo. Pierre não entende como os homens mais prestigiados podem considerá-la inteligente e instruída e tratar de temas filosóficos em seus jantares. A BBC decidiu mostrar o que é apenas sugerido no romance: vemos Hélène na cama com Boris Drubetskói, bem interpretado por Aneurin Barnard; e vemos Hélène praticar incesto com o irmão, Anatole, interpretado por Callum Turner, que em algumas cenas, estranhamente, está parecido com fotos de Tolstói quando jovem. A imprensa britânica não deixou de registrar essa sexualização da personagem e regozijou-se com uma alegada reação negativa dos russos, mas a mim parece-me próprio que a televisão ostente aquilo que é apenas alusão no romance. De resto, em seu livro de memórias, lançado pela primeira vez apenas em 2010, Sofia Tólstoi se orgulha de ter conseguido convencer o marido a retirar do texto “os trechos cínicos onde Liev Nikolayevich narra episódios da vida devassa da bela Hélène Bezukov” (traduzo da edição em francês do livro da Condessa Tolstói), sob o argumento de que “por causa desse detalhe insignificante e sujo” as jovens seriam impedidas de ler seu romance.

Abaixo, a cena do baile, em que Andrei e Natasha se apaixonam:

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Infelizmente para Natasha, seu noivo cede à pressão do pai, posterga o casamento por um ano e parte para a guerra. Para o romancista, essa era uma decisão inevitável na evolução da trama, pois a ausência de Andrei fará de Natasha uma presa dos irmãos Hélène Bezukov e Anatole Kuragin, que quererão corrompê-la por puro prazer, dando novo impulso ao ritmo narrativo. Abaixo, Natasha deslumbrada com a beleza e a segurança de Hélène, sem saber o que esconde a máscara amável da Condessa; a cena se passa na Ópera:

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Teatro e Ópera são, para Tolstói, locais onde demonstrações artísticas pouco naturais, artificiais ocorrem e servem, assim, para revelar a corrupção da sociedade.

Natasha será logo assediada por Anatole, com resultados nefastos. A imagem abaixo mostra o espírito perverso de Anatole e a realização de Natasha de que, noiva de Andrei, está se deixando seduzir por outro homem:

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De toda a discussão filosófica de Tolstói sobre a História, que inspirou Isaiah Berlin a escrever The Hedgehog and the Fox, nada foi transportado para a série, mas talvez seja melhor assim, pois uma adaptação passa a ser uma obra por si própria, que pretende no máximo oferecer uma versão do pensamento do autor original.

O que fica bem demonstrado na série é o quanto Pierre e Andrei, como amigos, fazem na verdade um ser humano só, em toda a sua complexidade. Parecidos de personalidade, ambos insatisfeitos com a vacuidade do meio social em que vivem, buscam caminhos distintos para dar sentido à vida, Andrei atrás de glória no exército e na administração, Pierre filosofando na franco-maçonaria, no casamento, no dia-a-dia. É um comentário comum que os homens desejam ser Andrei mas temem ser Pierre. Enquanto o primeiro esconde sua tristeza e insatisfação sob um ar altaneiro, receita segura de sucesso entre seus pares, Pierre ostenta perplexidade diante da vida e é objeto de desprezo, mesmo depois de se tornar milionário. Na série, as numerosas cenas entre os dois amigos capturam bem a sensação de que estão interagindo não propriamente duas pessoas diferentes, mas duas versões do mesmo indivíduo.

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Semanas depois de vista em um vôo, a série permanece na memória pelas atuações,  pela produção cuidadosa e luxuosa e pela tentativa bem-sucedida de recriar o ambiente russo do romance. Vemos na tela os personagens sofrendo, rindo, mudando, morrendo ou sobrevivendo e percebemos que assim é a vida, que um nobre ou um militar russo das guerras napoleônicas tentava, como nós, fazer sentido das suas circunstâncias. Alguns conseguem, outros não, mas o esforço nunca é fácil, nos ensina Tolstói, e reitera a BBC.

Guerra e Paz – Ficha técnica IMDb

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