Em 10 de janeiro de 1857 — calendário juliano — o Conde Leon Tolstoi, em São Petersburgo, escreveu em seu diário: “Recebi o passaporte e decidi partir”. Podia iniciar sua primeira viagem ao exterior, aos 28 anos. No dia 12 de janeiro, viajou de trem até Moscou. De lá, no dia 29, partiu para Paris, em uma diligência: “companheiros de viagem franceses e um polonês”.  Levou onze dias para chegar a Paris, o que aconteceu em 9 de fevereiro, calendário juliano, ou 21 de fevereiro, calendário gregoriano, que ele passa então a usar, o que também farei a partir daqui. Permaneceu em Paris por seis semanas, até 8 de abril.

Tolstoi não era ainda o autor de Guerra e Paz e Anna Karenina ou o ancião de longa barba branca, imagem pela qual é mais usual pensarmos nele. Como oficial do exército, participara da guerra da Crimeia entre 1854 e 1855 e morava em São Petersburgo desde novembro de 1855. Ao chegar a Paris, acabara de publicar o último volume de sua trilogia semi auto-biográfica, InfânciaAdolescência e Juventude. Dois anos antes, publicara os três Contos de Sebastopol. Foram todos textos bem recebidos pela crítica e pelo público. Na Rússia, Tolstoi era admirado. No exterior, era um desconhecido.

Essa era sua aparência em São Petersburgo, em 1856:

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Há muitos anos, passeando um dia em Paris, vi sem aviso prévio aquela que deve ser uma das placas comemorativas mais intrigantes do mundo:

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A placa pode ser vista no número 206 da Rue de Rivoli, onde sempre paro para vê-la, quando passo frente ao prédio. Tirei a foto em maio de 2012. Situado entre uma casa de câmbio e uma loja de souvenirs, o edifício mantém mesmo assim um ar aristocrático. Em frente, está o Jardim das Tulherias, cujo reflexo pode ser visto no vidro da porta de entrada. No mesmo dia de 2012 em que fotografei a placa registrando a presença de Tolstoi em Paris em 1857, tirei esta foto do jardim:

IMG_0165.JPGEm julho de 2014, minha mulher, minha filha e eu conseguimos tirar férias juntos -— o que não aconteceu mais desde então — e fomos a Paris, à Provença e a Praga. Tenho, por isso, carinho especial pelas fotos que tirei naquele verão, inclusive das Tulherias:

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Na Rue de Rivoli, perto da pensão onde se hospedou Tolstoi, na mesma calçada, estão não apenas outras lojas voltadas ao turista, mas também, no número 248, a enorme filial parisiense da livraria W.H. Smith; no número 224, a livraria Galignani, uma de minhas prediletas em Paris; e, no número 226, uma celebrada casa de chá, Angelina. No número 228 está o hotel de luxo Le Meurice, que foi requisitado, durante a Ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, pelo invasor. Tolstoi lá se hospedou em suas duas primeiras noites em Paris.

É raro o dia em que não penso na vida do escritor russo ou em alguma de suas obras ou em algum de seus personagens. Esse interesse fica explicitado na postagem Tolstói, Guerra e Paz e a BBC, mas falo nele ou em seus livros com frequência neste blog 

É um pouco surpreendente que os franceses comemorem a primeira passagem de Tolstoi em sua capital, por apenas seis semanas, quando não era ainda tão conhecido. Ou talvez não tão surpreendente, pois é na França que teve início a divulgação da literatura russa para o resto do mundo. E as seis semanas em Paris marcaram a personalidade de Tolstoi, como ele aliás esperava que acontecesse, pois no dia mesmo da chegada escreveu no diário: “Sem sombra de dúvida, uma nova época  [começa]”.

Como foi a vida de Tolstoi na França? Felizmente, podemos acompanhar seus afazeres, pois o seu diário, para aquelas semanas, é particularmente detalhado, em estilo sucinto e direto. Os diários e as cadernetas de Tolstoi, traduzidos para o francês e anotados por Gustave Aucouturier, foram publicados em três volumes, de 1979 a 1985, pela editora Gallimard, em sua prestigiosa coleção da Pléiade e essa é a tradução que utilizo aqui:

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Em Paris, Tolstoi viveu basicamente como lá vivia todo aristocrata russo: frequentando seus pares. Os nomes de suas relações na capital francesa lembram a origem social do Conde Leon Tolstoi: Trubetskoy, Lvov, Orlov e Gortchakov, todos príncipes, alguns deles seus parentes. Sobre o Príncipe Nicolai Orlov, futuro Embaixador em Viena, em Londres, em Paris e em Berlim — tendo o diplomata russo completado o que era então, junto com São Petersburgo, o quinteto de ouro da diplomacia — Tolstoi nos diz: “ele me levou ao teatro, bancando o aristocrata. Ridículo” e, alguns dias mais tarde: “Orlov é terrivelmente limitado. Virará um homem mau”. Isso não o impediu de frequentar o Príncipe — nascido em 1829 e, portanto, só um ano mais jovem do que ele — durante toda sua estada em Paris. Tolstoi não precisava ter sido tão duro com Orlov em seu diário, pois este perdera um olho na guerra da Crimeia e seu empenho seria determinante para que o castigo corporal fosse abolido na Rússia, em 1863:

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Entre uma recepção e outra em casa de russos, ou algum jantar, Tolstoi ia ao teatro — apreciou particularmente as peças de Molière a que assistiu e uma de Marivaux, Les Fausses Confidences, que considerou “uma maravilha de elegância”. Frequentava o Louvre e outros museus, estudava inglês e italiano, lia, escrevia um pouco, ia ao concerto ou ao cabaré. Visitou Dijon e Fontainebleau. Uma visita ao palácio de  Versalhes fez com que se sentisse “intimidado” pela sua “falta de conhecimentos”. O Hôtel des Invalides, onde se pode admirar o túmulo de Napoleão, deixa-o revoltado: “É a deificação de um celerado, isso é assustador”. Assistia a palestras na Sorbonne e no Collège de France. Ocasionalmente, aparecem comentários soltos indicando desânimo, como “dúvidas sobre tudo” ou “moralmente agitado e atormentado” ou “tédio”. Possivelmente, isso se devia à insatisfação moral, habitual nele, com relação à sua fraqueza diante de tentações sexuais. Há no diário menção a uma ida ao bordel em 21 de março e, aqui e ali, vagas referências a encontros furtivos com mulheres encontradas na rua. De forma geral, contudo, Tolstoi parece ter se sentido bem na França. Pensa estar se apaixonando pela sobrinha do Príncipe Georgy Lvov, seu anfitrião costumeiro; sente que frequentar a jovem Princesa torna a “vida alegre” e que é um “imbecil” de não tentar se casar com ela.

Duas circunstâncias no diário de Tolstoi, nas seis semanas passadas em Paris em 1857, chamam a atenção, saem do corriqueiro: ele via Ivan Turgueniev quase todo dia e assistiu a um guilhotinamento.

A relação entre Tolstoi e Turgueniev, às vezes amistosa e às vezes conflitiva — e às vezes as duas coisas no mesmo dia — mereceria  postagem à parte. Direi aqui apenas que os dois escritores haviam se conhecido um ano e meio antes da chegada de Tolstoi a Paris, em novembro de 1855, em São Petersburgo, quando Tolstoi, recém-chegado à capital, se hospedara durante um mês com Turgueniev, dez anos mais velho. Em Paris, durante as seis semanas lá passadas por Tolstoi, é raro o dia em que Turgueniev não aparece em seu diário, embora raramente de forma elogiosa. Em geral, Tolstoi se queixa da atitude triste e retraída de Turgueniev; mas não consegue parar de vê-lo. Escreve em 4 de março: “Caminhei com Turgueniev. Estar com ele é penoso e entediante”. Em 16 de março: […] Fui à casa de Turgueniev. Ele é um homem mau pela frieza e pela inutilidade, mas é muito inteligente e não prejudica ninguém”. Em 1861, na Rússia, eles teriam uma briga decisiva e ficariam dezessete anos sem escrever ou falar um com o outro. A melancolia de Turgueniev aparece nitidamente neste retrato:

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Além do diário, outra fonte importante para conhecermos as semanas parisienses de Tolstoi em 1857, e de resto, qualquer período de sua vida, é a sua correspondência. Uso em casa a edição  em inglês em dois volumes, publicada em 1978 pelo Professor R. F. Christian, que na época dirigia o Departamento de Russo da Universidade de St. Andrews. Monumento de erudição, essa edição, em que as cartas foram selecionadas, traduzidas e anotadas pelo Professor Christian, é indispensável para qualquer admirador ou estudioso de Tolstoi que não fale russo. Gosto de visualizar o Professor alternando, na década de 70, as aulas nas brumas escocesas com viagens à então União Soviética, para consultar arquivos.

Na capa dos dois volumes, há uma foto de Tolstoi, já ancião, abrindo sua correspondência:

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Um dos correspondentes habituais de Tolstoi durante essa sua primeira viagem ao exterior foi o crítico literário Vassily Botkin:

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Filho de um rico comerciante de chá, representante da burguesia em ascensão no século XIX, Vassily Botkin era casado com uma das irmãs, Alexandra, do anarquista Mikhail Bakunin, que era membro da nobreza. Outra irmã de Bakunin, Tatiana, foi apaixonada por Turgueniev. Esses detalhes, que me parecem fascinantes, são fornecidos por Priscilla Roosevelt em seu livro Life on the Russian Country Estate, excelente fonte de informações sobre a vida na Rússia tsarista e que contextualiza, inclusive, as obras dos escritores da época:

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Vejo no diário de Tolstoi que ele se dava, em São Petersburgo, antes da partida para Paris, com um irmão de Bakunin, Alexis, embora o considerasse “insuportável”. Outra ligação familiar curiosa de Vassily Botkin é seu sobrinho, Eugene Boktin, médico da família imperial no reinado de Nicolau II e que, leal até o fim, foi assassinado em Ecaterimburgo, em 1918, com o Tsar, a Tsarina e seus cinco filhos.

Em 5 de abril de 1857, Tolstoi começa  — como uma curta indicação no diário informa — uma carta para Botkin, anunciando que estava tão bem em Paris, que desejava instalar-se lá por pelo menos mais dois meses. Escreve: “Não posso imaginar que venha um tempo em que a cidade perca interesse para mim, ou a vida nela o seu charme”. Comenta que, se Paris faz com que se sinta ignorante, percebe também que lá poderá curar-se desse mal. Declara que, na capital francesa, desfruta uma “liberdade social” que, na Rússia, nunca pudera sequer imaginar.

No dia seguinte, 6 de abril, Tolstoi retoma a carta e indica ter mudado de ânimo. Menciona  a razão: “Hoje de manhã, fui estúpido e cruel o suficiente para ir assistir a uma execução […] o espetáculo causou impressão tão forte que demorarei a superá-la”. Tolstoi lembra ter já visto “várias coisas horríveis na guerra [da Crimeia] e no Cáucaso”, mas que “essa máquina engenhosa e elegante” o revoltava, pela forma como matara em instantes “um homem forte, bem disposto, saudável”. Descreve a guilhotina como “um cálculo frio, refinado e conveniente de cometer um assassinato, […]  o desejo insolente e arrogante de fazer justiça”. Considera “repulsiva” a multidão — a aplicação da pena de morte por guilhotinamento ocorria então em praça pública — , enojado pelo fato de um pai, perto dele, ter explicado à filha com frieza o funcionamento da máquina. Condena Tolstoi, em seguida, o Estado, que considera “uma conspiração destinada não somente a explorar, mas a corromper os cidadãos”. Afirma serem as “leis da política” uma “mentira terrível” e que a experiência da manhã daquele dia o levava a decidir nunca servir a governo algum.

Nem no diário nem na carta a Botkin o nome do homem executado é mencionado. Sabemos,  graças à colossal biografia de Tolstoi por Henri Troyat

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e também graças às notas na edição dos diários na Pléiade, tratar-se de François Richeux, cozinheiro de 40 anos de idade, condenado por duplo homicídio seguido de roubo, sendo em ambos casos uma faca o instrumento do crime. No mesmo dia 6 de abril em que terminou a carta, Tolstoi anotou no diário: “escrevi uma carta tola a Botkin”, mas não há dúvida sobre o impacto nele causado pelo guilhotinamento de Richeux. No diário, no mesmo dia 6 de abril, ele escreveu: “Um pescoço e um torso fortes, brancos, sadios. Ele beijou o Evangelho e depois — a morte, que contrassenso! […] Não estou bem, estou triste, vou jantar na casa dos Trubetskoy.”

Não sabemos se o espetáculo do guilhotinamento de 6 de abril foi causa ou pretexto, mas em 7 de abril Tolstoi escreve no diário: “Acordei tarde, não me sentindo bem, li, e de repente veio-me uma ideia simples e sensata, partir de Paris”. Na manhã do dia 8 de abril, antes de ir para a estação de trem, vai à casa de Turgueniev despedir-se: “Nas duas vezes em que me despedi dele, ao me afastar chorei, não sei por quê. Gosto muito dele. Ele fez e faz de mim um outro homem”.

Em 9 de abril, recém-chegado a Genebra, escreve a Turgueniev um balanço de sua estada em Paris: “Fiz bem de partir dessa Sodoma. Por favor, faça o mesmo […] Passei um mês e meio em Sodoma, e há o acúmulo de muita sujeira em minha alma: duas prostitutas e a guilhotina, e ociosidade e vulgaridade”.

Em 10 de abril, anota no diário: “Genebra — Acordei cedo, sentindo-me bem e quase alegre”. Iniciava-se aí uma nova vida, que duraria meses. Esperavam-no na Suíça outros russos, outros parentes, novos amigos, novas vivências. Uma nova existência. Após longa temporada na Suíça, e passeios pelo Piemonte e pela Alemanha, em 11 de agosto Tolstoi aportava de volta em São Petersburgo, após ausência de seis meses. Em 1861, voltaria a Paris por um mês.

A carta a Botkin de 6 de abril de 1857 antecipa o Tolstoi da idade madura, o mesmo que se tornaria pregador da não-violência — influenciando Mahatma Gandhi —, o contestador que se oporia ao Estado tsarista e à Igreja Ortodoxa, a qual o excomungaria em 1901. O mesmo pensador que escreveria, em 1900, um ensaio intitulado A escravidão em nossos tempos, propondo o fim dos governos; o texto Não matarás, também de 1900, em que considera as guerras como um assassinato autorizado, determinado pelos chefes de estado; e o panfleto Não posso me calar, de 1908, em que, aos 80 anos, dois anos antes de morrer, cinquenta e um anos depois de assistir ao guilhotinamento em Paris, Tolstoi condena a pena de morte e as execuções então sendo efetuadas pelo regime tsarista. Esses textos podem ser lidos neste pequeno volume, editado em 2003 pelo Professor canadense Éric Lozowy, que escreveu uma apresentação de clareza exemplar:

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Ao escrever sua autobiografia espiritual, Uma Confissão, entre 1879 e 1881, portanto vinte e dois anos após a execução de François Richeux, Tolstoi lembra que ela abalara sua crença no progresso, por ter sido um ato “desnecessário e mau”. Ver a cabeça ser separada do corpo e ver os dois caírem separadamente na caixa embaixo da guilhotina demonstrara a ele que “o árbitro do que é o Bem e o que é o Mal não é o que as pessoas fazem ou dizem, e nem o progresso, mas sim o meu coração e eu mesmo”.

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16 comentários sobre “Tolstoi em Paris

  1. Obrigada por nos mostrar os detalhes tão peculiares, intrigantes da vida de Tolstoi, mas que também se encontram na vida de um homem normal.
    “Se queres conhecer o mundo, olha para tua aldeia”.

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  2. Ary, só hoje consegui ler o seu último blog. É fascinante como nos presenteia com fatos que retratam a vida de grandes homens, como Tostoi. Fatos estes que nunca conheceria, já que o meu mundo gira em outra direção. Mas adoro ficar “um pouco mais culta” com a leitura que nos presenteia. Um abraço, Cláudia.

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  3. Encantada com o texto, com a estória mesmo. A Cora Ronai publicou no facebook e assim pude entrar aqui. Não sei porque nós nos interessamos tanto pela vida dos outros, mas é coisa natural (penso eu). Talvez seja como fazer uma viagem a um outro universo, sei lá, mas gostei muito. Pretendo voltar aqui. Um abraço, Glorita

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  4. Descobri sua página e blog através da Cora Ronai e adorei, bem a minha área de interesse. O seu grande conhecimento sobre o que escreve aliado à emoção, tornam seu texto bom demais. Virei seguidora fiel. Obrigada!

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