A Partida

A Partida

Ao longo de 2019, notei que frequentemente eu me indagava sobre os livros que escritores levam em suas viagens. Vinha naturalmente à minha mente a curiosidade sobre que volumes são colocados na bagagem na hora da partida talvez definitiva, da travessia arriscada, da ruptura com o passado.

Escrevendo em O Mar por toda parte sobre o Padre Antonio Vieira, procurei ver se, na sua correspondência, ele especificava com que volumes embarcaria em uma de suas sete travessias do Oceano Atlântico ou levaria em suas andanças pelo Norte e pelo Nordeste do Brasil. Encontrei apenas, na antologia de suas cartas que retirei da casa de praia de meus sogros, este trecho, escrito por ele no Maranhão em 1653: “Sabei, amigo, que a melhor vida é esta. Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra mais pardo que preto; como farinha de pau; durmo pouco; trabalho de pela manhã até à noite; gasto parte dela em me encomendar a Deus; não trato com mínima criatura; não saio fora senão a remédio de alguma alma; choro meus pecados; faço que outros chorem os seus; e o tempo que sobeja destas ocupações, levam-no os livros de Madre Teresa e outros de semelhante leitura”, referindo-se a Santa Teresa de Ávila.

Relendo o Diário de Etty Hillesum, fiquei fascinado em descobrir, como mencionei em O encontro de Avignon, que ela planejava colocar na mala, quando fosse deportada para Auschwitz, a Bíblia, sua gramática russa, O Idiota, Rilke e os contos populares de Tolstoi. Em O leitor irresponsável, registrei que o patriarca de Iasnaia Poliana, ao fugir de casa na madrugada de 28 de outubro de 1910, naquela que seria sua última viagem, encomendou à filha que se juntaria a ele seus exemplares de Os Irmãos Karamazov, os Essais de Montaigne, o romance Une Vie, de Maupassant, além do livro espiritual de um autor russo, P. P. Nikolayev.

Apenas no final de novembro racionalizei que minha curiosidade era causada pelo fato de que logo eu também ficaria privado, por alguns meses, de minha biblioteca. Soubera, em março, que em algum momento eu partiria para viver e trabalhar na Ásia. A partida está marcada para agora em janeiro, e a mudança chegará à Malásia meses depois. A rigor, eu não precisaria levar livro algum na mala. Desde muito cedo, um de meus grandes talentos é o de constituir rapidamente, onde quer que eu esteja, mesmo que lá esteja por poucos dias, uma pequena biblioteca. Os livros que eu já conheço, que já me pertencem são porém um reconforto. Tirar das estantes alguns de meus amigos, fazê-los viajar comigo tornará a nova vida, por enquanto desconhecida, imediatamente assimilável.

A questão que se coloca é definir que volumes receberão a missão de, com sua presença, tornar tudo natural, normal, previsível, além de se prestarem a ser lidos “no tempo que sobeja a estas ocupações”, à noite, após o trabalho. A empresa de mudança já se apossou de nossa casa; o tempo é limitado para grandes indagações. Além disso, minha mulher, também por razões profissionais, irá morar em Singapura, e isso significa que a biblioteca será dividida. São portanto duas decisões importantes: que livros viajarão comigo no avião, e quais ficarão de cada lado dos Estreitos de Johor. A segunda decisão foi tomada rapidamente, de forma consensual. A primeira é a mais difícil.

Sem dúvida, o candidato principal a viajar na minha mala é o volume de obras de Georges Duby lançado em setembro pela Gallimard, em sua prestigiosa coleção da Pléiade. Duby foi um medievalista prolífero. Hoje vejo que, embora eu o lesse com afinco no final da adolescência e nos anos subsequentes, perdi muito de sua produção intelectual. Poder abordá-lo agora, com as notas, os ricos comentários habituais na Pléiade é ter dele uma nova visão. O editor do volume é um historiador brasileiro, Felipe Brandi. Vários autores não-francófonos fazem parte do catálogo da Pléiade, inclusive Jorge Luis Borges e, em rara homenagem a um autor vivo, Mario Vargas Llosa. Nenhum escritor brasileiro, até hoje, recebeu a consagração das letras que a entrada na coleção representa. A edição esmerada, preparada com rigor por Felipe Brandi, dos textos de Duby, incluindo a longa introdução que redigiu em francês, é o mais perto a que já chegamos.

Para quem estuda História, e gosta dos livros densos e analíticos, porém claros, de Duby, os romances históricos podem parecer ou fascinantes ou desprezíveis. Tudo dependerá da habilidade do escritor, da seriedade com que estudou a época retratada e da luz que joga sobre personagens reais. Neste exato momento, estou mergulhado na leitura de um romance histórico e epistolar cativante, que irá na mala comigo para a Malásia, Augustus, de John Williams. Eu nunca ouvira falar no livro até 2019, quando Cora Ronai me deu de presente a tradução para o português lançada no Brasil em 2017 pela editora Rádio Londres. Fiquei curioso e comprei às vésperas do Ano Novo, na Livraria da Travessa de Ipanema, o original em inglês. Às voltas com a mudança, não tenho podido ler tanto, mas mesmo que eu consiga terminar o livro antes de viajar, ele virá comigo.

Augustus é uma biografia romanceada do primeiro imperador romano. Compõe-se de cartas e memórias fictícias de contemporâneos seus, por meio das quais vamos formando ideias, às vezes contraditórias, sobre sua personalidade. Ao mesmo tempo, cada missivista possui, na criação de John Williams, um modo próprio de pensar, de escrever, de ser, e assim as cartas de Cícero, Lívia, Marco Antonio, o diário de Julia, as memórias de Agripa revelam vozes individuais, coerentes, muito distintas umas das outras.

Susan Sontag — ela mesma autora de um romance histórico pelo qual sinto enorme carinho, The Volcano Lover —  escreveu em 2001: “The literature of the second half of the twentieth century is a much traversed field and it seems unlikely that there are still masterpieces in major, intently patrolled languages waiting to be discovered“. Esse conceito, de que as obras-primas da segunda metade do século XX já foram todas descobertas, é uma afirmação que talvez só Sontag teria tido a ousadia de fazer. Ela própria, aliás, nega sua veracidade em seguida. A frase é a primeira da introdução preparada pela escritora para uma edição em inglês de um livro russo de 1982, Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsipkin, que li há alguns anos. A segunda frase da introdução de Sontag diz: “Yet some ten years ago I came across just such a book“, que é o de Tsipkin. Verão em Baden-Baden, publicado no Brasil em 2003 pela Companhia das Letras, mistura aspectos da vida de Dostoiesvki durante seu segundo casamento, com Anna Grigorievna — incluindo a famosa e desastrada conversa com  Turgueniev na cidade alemã — com a vida do narrador, que é Leonid Tsipkin.

Leonid Tsipkin

Ao contrário de Susan Sontag, acredito ter ainda muito a descobrir sobre as “obras-primas da segunda metade do século XX”. Leio John Williams pela primeira vez e não questiono por que não o fizera ainda. Simplesmente, ele não surgira no meu caminho.  A obra de Williams, morto em 1994, é mais apreciada hoje do que enquanto ele era vivo. No Ano Novo, o namorado de minha filha, que é belga, ao me ver no Rio com Augustus nas mãos, comentou: “você está lendo John Williams… está gostando? Li Stoner há alguns anos. É um livro incrivelmente triste. Aliás, entra em toda lista de livros tristes”. Augustus não é triste, e sim uma indagação sobre como mudamos ao longo do tempo, sobre o que fazemos de nossas vidas mas, ao mesmo tempo, sobre como a vida nos molda. Na edição que comprei, há uma introdução de Daniel Mendelsohn, festejado autor de An Odyssey: a Father, a Son and an Epic, onde ele diz que os romances de Williams examinam como “whatever our characters may be, the lives we end up with are the often unexcepted products of the friction between us and the world itself”.

Um terceiro livro que eu tencionava levar na mala para Kuala Lumpur era uma História da Malásia, que li em 2019 e teria sido útil nas primeiras semanas de instalação no país. Mudanças porém possuem ritmo próprio, e não separei o volume a tempo. Já no primeiro dia ele foi embalado, e para Singapura, junto com uma pilha de livros que descansavam pacificamente sobre uma mesa no escritório.

Há assim um lugar a ser ocupado. Surge a dúvida: prefiro um amigo antigo, possivelmente já lido várias vezes, e cuja companhia é garantia de bem-estar, ou um dos muitos novos que esperam ainda despertar o meu interesse? Às vezes, um livro fica anos na estante ou na mesa de cabeceira, ignorado. Um dia, de repente, sentimos que precisamos lê-lo, que precisamos daquele volume naquele momento para ser felizes. Ele é aberto, devorado, e percebemos que a vida mudou.

Durante anos, levei comigo ao embarcar em aviões uma seleção de bolso, leve, de cartas de Voltaire. Foi sempre uma excelente companhia, por causa da inteligência e da verve voltairianas. O hábito de viajar com textos do filósofo possui, aliás, precedente ilustre. Em uma carta de 1775 a Frederico, o Grande, Voltaire agradece a informação que dele recebera de que “se digna viajar com minhas pobres obras” (“mes faibles ouvrages“). O convívio dos dois na Prússia, de julho de 1750 a março de 1753, passado o fascínio mútuo inicial, fora turbulento. Voltaire e Frederico separaram-se em maus termos e nunca mais se viram. Mantiveram, porém, uma correspondência amistosa. Talvez a seleção de cartas do filósofo volte a fazer parte de minha bagagem.

E por que não um quarto livro, sobretudo sendo o Voltaire tão leve? Há poucas semanas, comprei o Lezioni americane de Italo Calvino. Publicado postumamente em 1988, o volume contém as palestras que, se não tivesse morrido em setembro de 1985, Calvino teria dado em Harvard entre 1985 e 1986, como o convidado naquele período letivo para as prestigiosas “Charles Eliot Norton Lectures”. Ao folhear os ensaios na livraria, caí na seguinte frase, no início da segunda palestra: “L’imperatore Carlomagno in tarda età s’innamorò d’una ragazza tedesca“. Essa é a habilidade do escritor, iniciar uma conferência sobre literatura, destinada a um ambiente acadêmico, narrando “una vecchia leggenda“. Funcionou comigo. Comprei o livro. Desejo lê-lo.

Calvino trabalhava nas seis palestras ao morrer. Na apresentação de Lezioni americane, sua viúva, Ester Calvino, ela mesma falecida em 2018, nos diz que o escritor, ao partir, deixou os textos datilografados sobre a escrivaninha, “in perfetto ordine“. Cada conferência se encontrava em uma pasta transparente, e todas juntas em uma pasta dura. O conjunto estava “pronto per essere messo nella valigia“. Pode-se dizer que esse é o livro que ele levou consigo em sua última viagem.

Aqui em casa, parte da biblioteca vai para Singapura. A parte que vai para Kuala Lumpur não voltará a estar acessível antes de março, abril. A biblioteca porém já está em mim. Somos a soma de tudo o que aconteceu, de tudo o que fizemos ou pensamos, de tudo o que as pessoas ao nosso redor pensam ou fazem. Somos também a soma de tudo o que já lemos, de todos os livros que já tivemos nas mãos.

Minha mulher me acompanhará até Kuala Lumpur, em seu trajeto até Singapura. Nossa gata persa, Kiki, virá junto. Companhias melhores, impossível. John Williams, Augusto, o Duby da Pléiade, Voltaire, Italo Calvino e todos os autores de que ele fala e Carlos Magno e sua “ragazza tedesca” são o bônus. Como todas as pessoas de quem eu gosto, eles já estão em mim.

Duby.jpg

(Este ensaio foi primeiro publicado, em 10 de janeiro, na revista literária São Paulo Review)

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

 

 

 

 

 

 

 

O encontro de Avignon

O encontro de Avignon

No último sábado de agosto, Esther reapareceu em minha vida. Ela possui a capacidade de se materializar assim, quando eu menos espero. Esbarrei nela na Livraria da Travessa de Ipanema, enquanto eu procurava a antologia bilíngue de poemas de Primo Levi, Mil sóis.

Fiquei mudo de surpresa. Nós nos conhecemos em julho de 2011, no Festival de Avignon. Penso nela com frequência e vinha querendo restabelecer contato, pois cada encontro me transporta para uma esfera superior. Nunca imaginei que ela, uma estrangeira, estivesse logo ali, tão perto, que eu fosse revê-la de repente em uma famosa livraria de Ipanema. Simples assim, e ao mesmo tempo inconcebível.

Quando primeiro a vi, eu estava passando uns dias em Aix-en-Provence. Costumo, quando vou a Aix em julho, ir a Avignon por algumas horas. A atmosfera nas duas cidades, no verão, não poderia ser mais diferente. O Festival de Aix, dedicado à Ópera, cria uma agitação comedida, erudita. O Festival de Avignon, voltado para o teatro, com centenas, se não milhares de produções fora da programação oficial, lota a ex-capital dos Papas com uma multidão variada, barulhenta e muitas vezes divertida. As pequenas companhias de teatro desfilam pelas ruas, divulgando as suas peças, com os atores vestindo os trajes usados nos palcos. A programação oficial costuma ter um caráter intelectual, mas as produções no “off” variam enormemente em qualidade e público-alvo. Há peças inteligentes contemporâneas, recriações de grandes clássicos (Molière e Tchekhov são recorrentes) e comédias banais. Gosto, por um dia, de fugir da serenidade de Aix e frequentar a balbúrdia de Avignon, indo de teatro em teatro, vendo quatro ou cinco peças curtas em poucas horas, em salas pequenas.

Meu primeiro encontro com Esther foi inesperado, marcante e inesquecível. Transformou a forma como vejo o mundo. Nunca mais deixei de pensar nela.

Naquele dia de verão, ao chegar a Avignon de manhã e pegar um exemplar do programa do Festival, que contém sempre centenas de páginas, notei uma produção intitulada “Etty Hillesum: l’espace intime du monde”. O nome nada me dizia, mas a descrição da peça era fascinante: tratava-se de um monólogo interpretado por uma jovem atriz, Sandrine Chauveau, que em cerca de uma hora recriava trechos do Diário de Etty Hillesum, holandesa, judia, que morava em Amsterdã e foi deportada e morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Uma crítica incluída no programa do Festival dizia que “no final da peça o público precisa superar a emoção antes de sair da sala, porque a experiência dessa vida nos toca a todos”. O comentário era piegas, mas intrigante.

Comprei meu ingresso. Entrei. O auditório era pequeno, mas as poltronas vermelhas confortáveis. Começou o monólogo. Víamos a atriz andar no palco, pelo cenário, “vivendo” Etty Hillesum. O texto era intenso. A jovem dirigia-se a Deus, a ele buscava. Ouvíamos sua narração de como a perseguição aos judeus holandeses, durante a ocupação alemã, ia gradualmente se agravando. Etty mantinha a coragem e o amor à vida. Sabíamos como aquilo terminaria, mas não víamos desespero na personagem. Uma frase, particularmente, foi dita com grande efeito pela atriz: “Deus, não é você que tem de nos ajudar, nós é que temos de ajudá-lo a nos ajudar”. Quando saí do teatro, uma hora depois, eu estava meditativo. Nenhuma das outras peças que vi em Avignon naquele dia marcou-me tanto. Acabo de verificar que a última produção a que assisti foi de três peças curtas, divertidas, de Tchekhov. Era uma montagem excelente, lembro-me bem agora, e aquela que é talvez a sua peça curta mais famosa, O Urso, estava incluída. O que ficou na minha memória para sempre, porém, foi esse meu primeiro contato com Esther Hillesum — a quem todos chamavam Etty — embora eu nem sequer soubesse quem ela era até poucas horas antes.

20191215_101240~37661513869705731449..jpg

Às vezes acontece de uma pessoa ou um livro de cuja existência não estávamos cientes começar a aparecer frente a nós por toda parte. Poucas semanas depois de Avignon, em Bruxelas onde eu então trabalhava, visitei o ateliê de um artista plástico belga, Fabrice Samyn. Durante a conversa, ele citou Etty Hillesum. Tirou da estante uma edição em francês do Diário, que folheei ali mesmo. Meu interesse por Esther ficou assim cristalizado, para usar um conceito stendhaliano.

O que vi na Livraria da Travessa, no último sábado de agosto, foi uma nova tradução para o português dos diários, lançada pela Editora Âyiné. Trata-se da versão reduzida, intitulada Uma vida interrompida, a primeira a ser publicada, em 1981, na Holanda, que inclui algumas cartas de Etty Hillesum. Essa versão é a mais difundida. O texto completo publicou-se em holandês pela primeira vez em 1986, e foi traduzido para o inglês em 2002, o francês em 2008, o alemão em 2014, e nunca para o português.

A tradução de Mariângela Guimarães para a Editora Âyiné, feita diretamente do holandês, é construída em português correto e elegante. Passa toda a intensidade daquela vida curta e dramática. Começa-se a lê-la e não se consegue parar.

O Diário começa em 9 de março de 1941, com as palavras: “Então vamos lá! Este é um momento doloroso e quase intransponível para mim: confiar meu coração inibido a um tolo pedaço de papel pautado”. Termina em 13 de outubro de 1942, com a frase: “Gostaria de ser um bálsamo para tantas dores”. Nesse período curto de um ano e meio, Esther viu o mundo ao seu redor modificar-se, tornar-se ainda mais sombrio. De agosto a setembro de 1942, ela permaneceu, voluntariamente, no campo de triagem de Westerbork, na Holanda, para prestar ajuda aos judeus prestes a serem deportados. A partir de setembro, doente, voltou por alguns meses a Amsterdã. Ao regressar a Westerbork, podia no início, e até junho de 1943, ir a Amsterdã ocasionalmente. Em setembro de 1943, ela, seus pais e um de seus irmãos foram deportados para Auschwitz. Etty morreu no campo de concentração em novembro, sem que saibamos se de doença, de fome, de exaustão ou na câmara de gás.

A leitura do Diário é uma experiência espiritual. Ou ao menos, a alma que o escreveu era intensa e impregnada de misticismo. Ela esclarece já nas primeiras páginas, em 15 de março de 1941: “O ódio não é da minha natureza”. Na sua opinião, basta haver “um alemão decente” que, por respeito a ele, “o povo alemão não pode ser odiado como um todo”. São numerosos os pensamentos que demonstram rejeição à dor moral, à raiva, à mágoa. Ciente do “grande sofrimento humano, que se acumula e se acumula” e do “enorme sadismo” de sua época, Etty continua a considerar a vida como algo “bondoso e misericordioso”. Fala no “pedacinho de eternidade que as pessoas trazem em si”.

O Diário é o veículo para uma constante autoanálise. Ela frequentava, aliás, um psicoquirólogo, Julius Spier, alemão, judeu, refugiado na Holanda. O tratamento que ele oferecia incluía luta corporal e leitura da palma da mão. Soa, aos ouvidos de hoje, como charlatanismo, mas aparentemente ele exercia grande influência sobre seus pacientes. Os dois desenvolveram uma relação afetiva — ao menos da parte dela; Spier tinha uma noiva que emigrara para a Inglaterra. A morte inesperada do psicoquirólogo, em setembro de 1942, causou nela grande sofrimento, mas nem isso foi suficiente para abalar sua coragem. Poucas horas depois, ela já pensa nele nestes termos: “Você buscou Deus em toda parte, em cada coração humano que se abria para você — e foram tantos — e por toda parte você encontrou um pedacinho de Deus”.

Consistentemente, Etty valoriza os pequenos prazeres do cotidiano, sabendo que mesmo esses, um dia, ela não mais terá. Um dos trechos mais poéticos é a descrição de um passeio que faz, em março de 1942, com um amigo e ex-namorado, Max. Ela resume o encontro da seguinte maneira: “Foram indescritivelmente belos, Max, nossa xícara de café e o cigarro ruim, e nossa caminhada pela cidade escura, de braços dados, e o fato de que andávamos ali os dois juntos”. Percebe a alegria que pode haver em um reencontro, na transformação de um amor de juventude em amizade, e diz: “Foi indescritivelmente belo. Que nesse mundo dilacerado e ameaçado coisas assim ainda sejam possíveis. É um grande consolo”.

Etty fala frequentemente em flores, descreve-as com devoção e admiração. Parece ver nelas uma referência à fragilidade de sua própria vida ameaçada, e também a tudo que pode haver de belo, satisfatório. Um dia, observa a beleza de um jasmim branco, mergulhado na luz do sol e pelo qual passa a brisa: “Como é possível, meu Deus, ele está ali prensado entre o muro sem pintura dos vizinhos de trás e a garagem. Entre aquele cinza e aquele lodoso escuro, ele fica tão radiante, tão imaculado, tão exuberante e tão delicado, uma jovem noiva imprudente, perdida num bairro pobre”. Dez dias depois, a planta perdeu as flores, mas Etty sente que, dentro dela, o jasmim floresce ainda, “imperturbável, tão exuberante e delicado como sempre floresceu”.

Livros ocupam espaço importante em sua vida. Ela deseja ser escritora, e um tema recorrente nos diários é o debate interno sobre se tem talento, se conseguirá escrever, sobre a dificuldade de colocar o que sente no papel. Espera que algumas vítimas daquele momento na História, ao sobreviverem, escrevam sobre a terrível experiência vivida; ela deseja ser um dos futuros narradores. De Westerbork, escreve a uma amiga que gostaria de poder anotar ideias para histórias que surgem em sua mente de noite, deitada na escuridão forçada. Percebe ser excessivamente exigente consigo mesma no campo literário, sente-se obrigada a, no mínimo, escrever um novo Os Irmãos Karamazov. Etty Hillesum falava russo; sua mãe aliás nascera na Rússia. Dostoievski é um autor recorrente em seu Diário. Uma hora, percebe que só poderá levar consigo poucos livros, ao ser deportada. Pensa em uma lista sucinta, e O Idiota, de que ela já nos falara várias vezes antes, está incluído. Rilke é outro autor de sua predileção, ao qual se refere a cada instante. Avalia que um verso seu é mais real do que a vida cotidiana. A mala para o campo de concentração teria de incluir também a Bíblia e dois dicionários de russo. Em outro momento, acrescenta à lista planejada os contos populares de Tolstoi.

Há forte contraste, nos diários, entre o que acontece na vida interior de Etty — suas indagações sobre a relação com Julius Spier e com os amigos; suas leituras; a associação com as flores; o diálogo com Deus; a sensação de liberdade obtida com a visão do céu — e a tragédia da vida ao seu redor. Em 12 de junho de 1942, escreve estar “mergulhada em algo que acontece no meu íntimo”. Dois dias depois, comenta: “E agora parece que os judeus não podem mais entrar nas grandes lojas; e devem entregar as bicicletas; e não podem mais andar de bonde; e têm que se recolher antes das oito da noite”. Em julho de 1943, já definitivamente internada em Westerbork, ela descreve em uma carta a vida no campo de triagem como equivalente à de ratos em um esgoto. No entanto continua a mesma carta dizendo: “esta vida é algo lindo e grandioso, temos de construir um mundo inteiramente novo no futuro e contra cada delito, cada atrocidade a mais temos um pouquinho de amor e bondade a mais para compensar, que temos de conquistar em nós mesmos”.

Há relatos de que, em Westerbork, Etty foi de fato um bálsamo — como ambicionara — para os internados no campo. Um amigo, Jopie Vleeschhouwer, acompanhou-a até o trem em que ela e sua família partiriam para Auschwitz e a morte. Menciona que, a caminho do trem, ela foi “falando alegremente, rindo, uma palavra simpática para todo mundo que cruzava seu caminho, cheia de um humor cintilante”.

E assim termina Uma vida interrompida, com o trem partindo rumo ao campo de concentração e a carta do amigo de Etty narrando seus últimos momentos em Westerbork. Morta, ela continua bem presente para os que a leem, graças a uma intensidade e uma sinceridade muito peculiares. Seu Diário, suas cartas são a sua obra; não são os romances ou contos que ela poderia ter escrito, mas a história dos últimos meses de vida de uma mulher jovem eliminada pelo Holocausto. É uma voz individual. Sinto o quanto eu gostaria que essa voz, com sua lição de força interior e elevação espiritual, pudesse ser ouvida por mais pessoas. Ela certamente é bem menos lida do que Anne Frank, quinze anos sua caçula. Terão as duas jamais se visto nas ruas de Amsterdã? Não é impossível.

Em agosto, saí da Livraria da Travessa carregando os dois volumes, ambos publicados em 2019: os diários da holandesa que morreu em Auschwitz, e os poemas do italiano que sobreviveu fisicamente a Auschwitz. Na antologia poética de Primo Levi pela Editora Todavia, onde os poemas foram escolhidos e belissimamente traduzidos por Maurício Santana Dias, há versos que se referem a Anne Frank mas poderiam também, com alguma imaginação, aplicar-se a Esther, a quem conheci em Avignon e nunca pude esquecer. No poema A menina de Pompeia, Primo Levi fala-nos de uma menina petrificada pela erupção do Vesúvio no tão distante ano de 79, cuja presença física ficou eternizada como um “retorcido decalque de gesso”. E diz:

Mas nada entre nós permanece de sua irmã distante,
Da menina de Holanda murada entre quatro paredes
Que ali mesmo escreveu sua infância sem futuro:
Suas cinzas mudas se dispersaram no vento,
Sua vida breve encerrou-se num caderno gasto.

 

20191215_101512~26886607197736129541..jpg

 

(Este ensaio foi publicado primeiro, em 29 de novembro, na revista literária São Paulo Review)  

 

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Capitu, a Garota de Ipanema

Capitu, a Garota de Ipanema

Mudamo-nos para 52, Cornwall Gardens, South Kensington.
Joaquim Nabuco em seu Diário, 4 de setembro de 1900

Há muitos anos, minha irmã foi, em um dia de outono, apresentada à rainha Elizabeth II e ao príncipe Philip. Titina acabara de fazer 18 anos. O príncipe é conhecido pelos seus comentários intempestivos. Por alguma razão, o divórcio de meus pais — que era recente — foi tema da conversa. O príncipe perguntou: “Se seu pai mora no Rio, isso quer dizer que você fica indo e vindo entre o Rio e Londres? Mesmo antes de se divorciarem, seus pais já viviam assim, cada um em um país?”. Concluiu a interação dizendo: “Não sei como você conseguiu nascer”.

Essa história já tinha fugido da minha memória por completo. Voltou, junto a outras, quando, há poucos dias, reli as cartas que enviei ao meu pai, na época em que eu era estudante universitário em Londres e morava com minha mãe e minha irmã. Ele era então meu principal correspondente, pois eu o via como o melhor dos amigos. As cartas eram frequentes e longas. Lembro-me com carinho das tardes ou das noites em que, voltando da universidade ou do teatro, eu me sentava à mesa de jantar, no silêncio absoluto da casa em South Kensington, a poucos metros de onde morara Joaquim Nabuco, na mesma rua, e redigia, em papel em geral azul, o relato do meu cotidiano. No dia seguinte, cedo, antes de pegar o metrô para ir à aula, eu parava na agência dos correios, perto da estação, para selar e postar a carta. Na era do e-mail, do whatsapp, isso tudo parece um conto de fadas.

Minhas cartas falam do meu curso, das minhas viagens pela Europa, de escritores amigos de meu pai — e de livros. Relê-las é recordar como eu era entre os 19 e os 24 anos.

Há referências que eu já não entendo; como meu pai morreu há vinte anos, não posso consultá-lo a respeito. Fico surpreso com a seguinte frase, que coloquei como post-scriptum em uma das cartas: “Soube que você brigou com dois acadêmicos que, no velório da Dinah, falaram da paixão dela pelo José Lins do Rêgo. Achei ótimo, a atitude deles foi de extremo mau gosto”. Falo aí de Dinah Silveira de Queiroz, grande amiga de meu pai, que conheci na adolescência, e cujo romance Margarida La Rocque: A Ilha dos Demônios eu lera pouco tempo antes e achara fascinante. Mas como foi que eu, em Londres, soubera dos protestos do meu pai diante dessa intriga? Quem me contara? Quais eram os “dois acadêmicos”? Houve essa “paixão” da Dinah Silveira de Queiroz pelo José Lins do Rêgo? Nunca mais terei resposta para essas dúvidas.

José Lins do Rêgo marcou minha juventude, por causa da leitura, no começo da adolescência, de seu romance Menino de engenho. Assim como o narrador atravessa a infância e a juventude no engenho de açúcar do avô materno na Paraíba, meus irmãos e eu passávamos todas as férias na fazenda de nosso avô materno, na Zona da Mata em Minas Gerais. Propriedades rurais imersas em uma vida própria, fora do tempo, latifundiários severos chamados de “coronel”, como o avô do personagem e como meu bisavô, eram conceitos familiares para mim na infância e na adolescência. Abro o livro ao acaso, e uma frase que define o avô do narrador poderia se aplicar ao meu: “aquele seu ar de tranquilidade poucas vezes eu via alterar-se”.

José Lins do Rêgo era amigo de meu segundo avô materno, o padrasto de minha mãe, que a criou. Por whatsapp, ela me confirma neste instante que o conheceu bem: “O Zé Lins? Claro que sim. Ele e papai eram grandes amigos, unidos pelo amor ao futebol e ao Flamengo. Fez conosco a viagem à Suíça em 1954, para a Copa do Mundo”. Eram ambos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos e cronistas no Jornal dos Sports. Meu avô, Alfredo Curvello, escreveu nesse jornal, em setembro de 1958, uma crônica sobre José Lins do Rêgo, no primeiro aniversário de sua morte, intitulada “O Inesquecível Zé Lins”. Lamenta meu avô essa perda, “surpresa dolorosa de todos os dias, quando o buscamos onde ele não estará nunca mais, quando o esperamos onde ele sempre aparecia”, e elogia a “personalidade forte de homem que não enganava a ninguém”.

Em outra carta, leio a frase repentina: “O Luis Fernando Veríssimo me telefonou ontem. Não o vi, porque ele foi embora de Londres já hoje”. Como posso ter esquecido que um dia falei com o Veríssimo? A conversa telefônica não terá sido palpitante, porque eu era um jovem tímido. É nessa mesma época que, de férias no Rio, ao ser apresentado pelo meu pai a Jorge Amado e a Carlos Drummond de Andrade, fiquei mudo diante da simpatia do escritor baiano e da cordialidade do poeta mineiro.

Livros ocupam um espaço importante na correspondência entre meu pai e eu. Um avisa ao outro que está enviando um livro pelo correio. Um comenta com o outro suas impressões sobre algum texto ou autor. Passar os olhos por uma de minhas cartas trouxe de volta a alegria que me causou a leitura de The Pickwick Papers. Em outra, comento o sucesso de crítica da tradução para o inglês de uma obra muito cara ao meu coração, Ópera dos Mortos, de Autran Dourado. Em uma carta de meu pai, vejo elogio a um livro escrito por Cora Rónai, Sapomorfose, ilustrado por Millôr Fernandes. Noutra, ele avisa que me enviou exemplar do novo romance de Jorge Amado, Tocaia Grande, com dedicatória para mim. Queixa-se de seus editores: “Edição de livro, aqui no Brasil, realmente é um problema. Acho que insolúvel”; e em outra carta: “E cadê a divulgação? É isso aí, a eterna esculhambação das editoras, que sempre julgam que o livro vende por si mesmo, misteriosamente”. Numa terceira, falando do lançamento de sua novela Sandra, Sandrinha, reclama: “o livro saiu junto com O Gato Sou Eu, do Sabino, que tem precedência, como sempre, por parte da editora”. Fernando Sabino, amigo querido de meu pai, era então, provavelmente, o autor brasileiro mais popular, o que mais vendia. Não era preocupação tola temer que o lançamento simultâneo, pela mesma editora, do livro de crônicas de Sabino fosse afetar a divulgação de sua novela.

A vida literária de meu pai é sempre presente em suas cartas. Pouco antes de eu ir morar em Londres, ele publicara sua obra mais encantadora, um infanto-juvenil intitulado Titina, fortemente baseado na nossa vida familiar. Somos todos personagens, com nossos nomes reais, e eu apareço como um garoto mergulhado em “livros franceses”. Titina e nosso basset hound, Arusha, que morreria muitos e muitos anos depois, na embaixada em Viena, já na velhice, de maneira trágica — talvez assassinada — são as heroínas. O sucesso de crítica de Titina, que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, está bem registrado no arquivo de meu pai. Wilson Martins, em um artigo sobre sua “biblioteca ideal”, nela incluiu Titina. Rachel de Queiroz indicou que “a lição moral, mostrando a alegria da convivência, o amor, a piedade, a solidariedade humana, flui tão espontânea e suave na bonita linguagem de Ary Quintella, que até o leitor adulto a aprecia e aceita”. Carlos Drummond de Andrade escreveu a meu pai: “Titina — poesia, sentimento humano, arte literária: tanta coisa bonita”. O livro possui um frescor diferente das primeiras obras de meu pai, que Drummond uma vez qualificou em uma crônica, de forma elogiosa, de “sortidas vanguardistas”.

20191215_111327~23934560318091699428..jpg

 

Quando quero ler as cartas que escrevi a meu pai, não posso simplesmente abrir um baú em casa. Cinco anos antes de morrer, ele as doou, assim como seus manuscritos, resenhas de seus livros, fotografias e seus numerosos artigos de imprensa à Fundação Casa de Rui Barbosa. Como comentei em  Edla van Steen, História sobre a Amizade,  senti decepção, recebi uma impressão de traição, ao saber do destino que ele dera às minhas cartas.

Quando estou no Rio de Janeiro e consigo ir à Fundação, nunca deixo de me perguntar como pode existir, no caos urbano carioca, um lugar tão extraordinário. O prédio histórico, na rua São Clemente, é a casa onde morou Ruy Barbosa. A cama onde o jurista morreu em Petrópolis pode ser vista em um dos quartos. Às vezes, entro apenas para visitar a biblioteca, que contém, disse-me a vigia na semana passada, 37 mil volumes. A página eletrônica da Fundação diz 23 mil. Ruy Barbosa gostava dos clássicos franceses. Fico olhando por trás das vitrines das estantes as encadernações em couro das obras de Chateaubriand, de La Fontaine, de Corneille e de Racine, e das Memórias do duque de Saint-Simon.

Atrás da casa, está o jardim, aberto ao público. É grande e relativamente silencioso. O canto dos pássaros predomina. Famílias lá passeiam com seus bebês. Em um prédio lateral está a coleção de carruagens e carros de Ruy Barbosa.

Ao fundo, vemos um prédio moderno, baixo, onde ficam a sede da Fundação e o arquivo literário, que preserva manuscritos ou documentos de vários escritores, inclusive Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Pedro Nava, Vinicius de Moraes. O arquivo de José Lins do Rêgo não está lá, mas está o manuscrito de Menino de engenho, doado por Plínio Doyle, que me foi mostrado em julho. Foi como ver um tesouro.

Menino de engenho

A sala de pesquisa, onde examino, quando vou à Fundação, o arquivo de meu pai, é também um museu literário. Ali trabalho ao lado, por exemplo, de uma mesa redonda, cadeiras e uma poltrona verde que pertenceram a Manuel Bandeira. Ao meu redor, pesquisam estudantes universitários. Nas minhas idas mais recentes à Fundação notei, pelas caixas deixadas nas mesas, que estava sendo consultado o arquivo de um poeta até então desconhecido para mim, Sebastião Uchoa Leite. Desvio minha atenção da poltrona de Manuel Bandeira e volto a examinar a herança de meu pai. Uma entrevista em um jornal uruguaio chama minha atenção: nela, ele declara que o melhor escritor brasileiro é Machado de Assis, seguido de Lima Barreto e José de Alencar. Recordo muito bem que, seis ou sete anos depois, ele condenou a minha fase de grande leitor de José de Alencar, manifestando a esperança de que eu lesse “coisas mais interessantes”. Contradição? Acredito mais na evolução natural provocada pelo tempo que passa, processo em que nosso gosto muda. Eu mesmo, quem sabe, já não tivesse hoje o mesmo prazer em ler Sonhos d’Ouro e Senhora.

As cartas que recebi de meu pai, ao contrário das minhas, estão guardadas comigo. Releio algumas e vejo o comentário de que uma amiga sua, Sônia Coutinho, “foi à casa do Jorge Amado, aqui no Rio, e me disse que o Jorge estava com o Titina na mão, falando do livro com o Merquior, que tinha ido lá trabalhar para a entrada dele na Academia”. Outra carta comenta os boatos a respeito do suicídio de Pedro Nava, ocorrido quatro dias antes.

Em uma delas, meu pai me explica sua visão sobre o processo criador: “Recebi tua última carta, que achei bem bonita. Creio que você tem razão: muita vez o escritor nem percebe o que está escrevendo e, sem querer, coloca coisas que só terceiras pessoas percebem. Mas o que vale — em qualquer obra de arte — é o efeito. Isto é, o que ocasiona no usuário da produção artística. Obviamente, o usuário vai interpretar da maneira que julgar + adequada. Duas interpretações — aliás — são, muita vez, conflitantes, antagônicas, exatamente opostas. Já li mais de 4 livros e/ou 20 artigos sobre o enigma de Capitu. Capitu “deu” ou “não deu”? Essa ambiguidade da obra de arte é que a torna valiosa, às vezes imprescindível. É gozado, quando a gente escreve, ler depois o que pensam do que foi escrito. Uma vez escrevi A Torre de Menagem. As interpretações a respeito foram engraçadíssimas. Eu não pensara em nada do que acharam que fosse minha intenção”. Mais adiante, nessa mesma carta, meu pai faz um comentário que completa sua percepção sobre o processo de criação literária: “Hoje, o Jorge Amado me ligou. Está indo para a Europa escrever. Não aguenta + tantas entrevistas e badalações. Cansam demais e fazem a gente perder tempo”.

Meu pai era fascinado por Dom Casmurro, e particularmente por Capitu. Nela falava com frequência. Descubro um longo artigo seu de 1978, Quatro romancistas cariocas, escrito em tom jocoso, em que, ao falar de Machado, concentra-se em Dom Casmurro e revela suas próprias fantasias: “Capitu, D. Capitolina, todo mundo fala de seu mistério, de sua moral e todos se esquecem de que a senhora foi belíssima, atraente, sexy, glamurosa […] a senhora foi a Garota de Ipanema de seu tempo”.

Aos 22 anos, escrevi em uma carta: “Papai, sinto saudades imensas de você”. Comentei com um amigo, que me conhece desde os quinze anos, o tom carinhoso que eu adotava com meu pai. Ele perguntou-me: “E as cartas dele a você, são afetuosas também?” Apenas um amigo de vida toda — ou o príncipe Philip — poderia me fazer uma pergunta assim. Os intervalos entre suas cartas são curtíssimos, ele me escrevia às vezes duas, três vezes na mesma semana. São também mais sucintas do que as minhas, e em estilo mais direto; ele não era dado a exposições de alma. Apenas quando recorda a morte violenta de meu irmão na adolescência, poucos anos antes, a guarda baixa: “Hoje, não cessei de pensar no Alfredo e me sinto deprimido”. O afeto por mim aparece na indagação, na preocupação constante quanto ao meu futuro profissional, minhas ambições, meus projetos: “O tempo ruge, e você — como jovem — ainda não sabe disso”.

Sobretudo, ele me incentiva toda hora a escrever. Pergunta se consegui terminar meu romance. Sugere que eu faça traduções. Oferece-se para publicar na imprensa eventuais crônicas minhas. Opina que começar com crônicas poderia ser uma boa maneira de eu “aprender, quando quiser escrever algo, a ter saco, qualidade fundamental do escritor”.

Abro mais uma carta dele, ao acaso, de quando eu tinha vinte e um anos. Meu pai, aludindo a amigos seus, pressiona-me: “Merquior, se não me engano, começou a escrever crítica literária aos 16 anos […] Jorge Amado, aos 18 anos, já tinha publicado País do Carnaval“. A carta termina com a seguinte injunção: “Ary, escreve: crônica, romance, como é o ensino em sua universidade aí, mas escreve”.

O tempo porém nem ruge nem urge. O tempo não existe, ele é uma abstração que inventamos na tentativa inútil de dar alguma coerência às nossas vidas. Existe apenas o tempo interior, próprio a cada um de nós.

 

Cartas Ary Quintella

 

(Este ensaio foi publicado anteriormente na Revista Pessoa)

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Se gostou do texto, não hesite em compartilhá-lo:

A doença incurável

A doença incurável

Em setembro, no último sábado de verão, eu estava de férias em Paris. Fazia calor e o sol brilhava. Minha filha e o namorado tinham vindo, de Bruxelas, passar o fim de semana comigo. Depois de visitar a exposição Bacon en toutes lettres no Beaubourg, caminhamos pelo Marais. A exposição havia sido uma decepção. Seu objetivo, mostrar como a obra de alguns autores prediletos de Francis Bacon influenciara sua pintura, era ambicioso e não fora concretizado. Na rua, eu nunca vira tanta gente. Havia ao meu redor um clima de alegria, criando contraste com as figuras atormentadas na pintura de Bacon.

De repente, minha filha parou frente a uma vitrine. Logo depois, o namorado e eu entrávamos atrás dela na loja, um corredor comprido. O nome do lugar era À Rebours, pertencente, notei, à fundação cultural Lafayette Anticipations, mantida pelo grupo que controla as Galeries Lafayette.

Olhei à minha volta, surpreso. O recinto continha, em um cabide pendurado no teto, uma enorme camisa de homem, costurada como uma colcha de retalhos, com tecidos de diferentes cores; em um canto, um pufe branco com desenho preto representando talvez um ser humano; em um balcão, algumas bijuterias; em outros balcões, vasos e potes de vidro e de cerâmica. Não sei se havia muito mais do que isso. O ambiente era elegante, mas eu não entendia o que a loja vendia. Perguntei à minha filha onde estávamos. Ela respondeu: “Em uma concept store”. É bem provável que eu jamais tivesse antes ouvido o termo. Vendo meu ar de incompreensão, ela emendou: “Papai, você entra em uma concept store para entender a ideia de quem a organizou, captar uma tendência, não para comprar alguma coisa”. Fui salvo pelo meu olhar que, distraído, percebeu em uma parede uma estante de madeira muito clara onde havia livros. Aproximei-me. Com uma exceção, eram volumes sobre artistas, viagens, natureza, decoração.

A exceção era um romance de 142 páginas, intitulado Dans la forêt du hameau de Hardt, com uma capa sedutora, de fundo branco, na qual folhas — de que apenas o contorno era verde — encobriam em parte as letras do título. Havia sido lançado em janeiro.

Nem o autor, Grégory Le Floch, nem a editora, Éditions de l’Ogre, diziam-me qualquer coisa. Enquanto minha filha e o namorado, mergulhados em seu universo a dois, dialogando, examinavam objetos de cerâmica, folheei o livro. Rapidamente, ele capturou minha imaginação. Havia um mistério, a morte de um personagem. Havia alguém em crise emocional. O estilo era peculiar e cativante. Quis comprá-lo. Preconceitos arcaicos, porém, apoderaram-se de mim. Aquilo não era uma livraria; portanto, livros vendidos ali não podiam ser levados a sério. Não me ocorreu pensar que eu não entendia o conceito de concept store e que, possivelmente, a presença do livro dava a ambos, loja e romance, uma aura adicional. O próprio nome da loja, aliás, é uma referência literária, mas o romance de Huysmans marcou-me pouco quando o li na adolescência.

Saímos. Prosseguimos com nosso passeio. No domingo, acordei pensando nas linhas que eu lera na véspera, em uma ou outra página do romance. Durante o dia, e também na segunda-feira, tentei comprá-lo. Não consegui. Cada livreiro pesquisava no computador e me dizia que eu encontraria Dans la forêt du hameau de Hardt nessa ou naquela outra livraria, mas nenhuma ficava perto dos diferentes lugares aonde eu pretendia ir.

Surgiu em mim grande frustração. Um livro pode ser como um remédio, de que precisamos para sobreviver, para curar uma doença. Estou sempre em busca do livro que resolverá tudo na minha vida; que, ao ser lido, eliminará qualquer problema e a sensação física de uma carência. Esses livros, na verdade, existem. Estão por toda parte. Aparecem inesperadamente em nossas vidas. Há muito de acaso nisso; no entanto, ao lê-los temos a sensação de que, a partir dali, vamos viver de forma idílica, pacífica, com a mente satisfeita. Sentimos que aquele era o elemento que faltava; a partir de agora estaremos completos. Pode ser por causa da história como um todo, por causa da perfeição de uma frase, por causa da apresentação gráfica. Pode ser também por uma fantasia, uma projeção que fazemos sobre aquele volume, sem muito entender a razão. Se é um livro de não ficção, pode ser porque trata de um tema de interesse profundo para nós, sobre o qual nova luz é jogada. Seja qual for a razão, o remédio faz seu efeito. A questão é que essa é uma sensação apenas temporária. Deixamos de tomar o remédio, e o corpo sente sua falta. Logo precisaremos encontrar outro livro.

Na terça-feira, meu último dia em Paris, fui de manhã a uma de minhas livrarias prediletas, a Delamain, na place Colette, em frente à Comédie-Française. Eles não tinham o romance de Grégory Le Floch, mas indicaram o lugar mais próximo onde eu poderia encontrá-lo, uma livraria chamada Petite Égypte. Lá pude ir apenas no final da tarde. Entrementes, eu almoçara com o escritor Leonardo Tonus na Sorbonne, onde ele leciona, e tentara inutilmente comprar o livro no Quartier Latin.

Achamos que conhecemos bem uma cidade, e ela nos surpreende sistematicamente. Jamais eu ouvira falar que, em pleno 2ème arrondissement, há um canto conhecido como Petite Égypte — cercado pela rue du Nil, a rue du Caire e a rue d’Aboukir —, que dá seu nome à livraria. Esta, por sinal, é excelente. A livreira mostrou-me um exemplar de Dans la forêt du hameau de Hardt. Perguntei se ela o tinha lido. Respondeu que não, mas comentou gostar muito dos títulos publicados pelas Éditions de l’Ogre.

Paguei o livro e saí. Estava atrasado. Tinha entradas para a Ópera, sala Bastille, onde assistiria a uma produção inovadora de Les Indes Galantes. Esperavam-me Rameau e a amiga que eu convidara para escutar sua obra-prima. No metrô, percebi ter gastado o dia em Paris atrás de um livro. Senti porém que valera a pena. O próprio fato de eu ter conseguido comprá-lo, depois de tanto esforço, tornava o mundo um lugar mágico. Segurá-lo nas mãos dentro do vagão do metrô era a cura para a doença que ele próprio criara, a necessidade de lê-lo.

No dia seguinte, no voo de volta para o Brasil, mergulhei na prosa de Grégory Le Floch. O livro — que ganharia poucas semanas depois um prêmio da Fondation Prince Pierre de Monaco — marcou-me pela dificuldade do personagem principal, Christophe, em narrar a morte, de que fora testemunha, de um amigo na Calábria. A personalidade inquietante de Christophe — não sabemos se ele é apenas de uma timidez doentia, ou um verdadeiro néscio, ou se sofre de distúrbios psicológicos — forma a base de um texto que trata da dificuldade de narrar, de escrever, de falar, de compartilhar pensamentos e histórias. Relatar o que presenciou na Calábria representaria para Christophe uma morte mental: “meu espírito não sobreviveria à narração daquela história […] essas palavras me matariam, não literalmente, eu já disse, mas me matariam mesmo assim definitivamente”. Na impossibilidade de contar o que presenciou, foge para uma aldeia na Alemanha, frente a uma floresta, e lá permanece por dez anos.

O toque cruel é que ele decide estar pronto a contar o que viu dez anos antes apenas quando a família do amigo morto encontrou a paz e já não precisa de sua história. Christophe pega o carro, volta à França, chega à casa da mãe do amigo morto e encontra a família toda reunida, por motivos indefinidos. A sua narrativa, que conclui o romance, é construída como uma cena de teatro.

A fala final de Christophe lembrou-me uma das tiradas mais célebres do teatro francês, le récit de Théramène. Em Phèdre, a peça mais famosa de Racine — embora não a minha predileta — Teseu exila o filho, Hipólito, acusado injustamente pela madrasta, Fedra, de ter tentado seduzi-la. Teseu, cegado pela raiva, não percebe que na verdade é Fedra quem ama Hipólito. O deus Netuno, acolhendo o desejo de vingança de Teseu, lança contra o príncipe um monstro marinho, na estrada à beira-mar pela qual partia para o exílio. Não vemos em cena a morte de Hipólito; ouvimos, junto com Teseu, detalhes de como ela se deu, por meio da narrativa de Théramène, seu preceptor e amigo.

A família do amigo morto, plateia de Christophe, reagirá à sua fala aterrorizante, devemos imaginar, com o mesmo estupor com que Teseu e o público de teatro reagem ao relato de Théramène. Tal qual o ator que abandona o palco após uma fala dramática, Christophe deixa a casa ao concluir seu terrível discurso. Presumivelmente, sua personalidade mudará; ficará menos arisca. Christophe pôde, depois de dez anos de sofrimento, narrar a sua história. Venceu seus temores. Encontrou-se. Libertou-se.

O voo aterrissou. Durante alguns dias, vivi em paz. Estava curado. Nenhuma fome por novas histórias e nenhum livro visto ao acaso me perturbaram. Poucos dias depois, a moléstia voltou, implacável.

 

20191124_1017371800693970053757085.jpg

Versão diferente e mais longa deste texto foi publicada pelo jornal Rascunho, com o título Perdido na Floresta

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

A culpa foi da Mona Lisa

A culpa foi da Mona Lisa

Em setembro, de férias em Paris, animou-me a notícia de que a Mona Lisa estava provisoriamente instalada na Galerie Médicis do Louvre, enquanto a sala onde habitualmente fica era reformada e pintada de azul. Há muitos anos, venho tentando rever a galeria onde ficam expostos os quadros encomendados a Rubens por Maria de Médicis, viúva de Henrique IV e mãe de Luís XIII, para celebrar sua própria vida.

Filha do grão-duque da Toscana e de uma arquiduquesa da Áustria, Maria casou-se com Henrique IV em 1600. Os Médicis, embora tivessem já dado uma rainha à França, Catarina, morta em 1589, e fossem ilustres há duzentos anos como patronos das artes, eram uma família reinante de origem apenas burguesa. Maria foi chamada pelos franceses de “a banqueira gorda”. Regente da França em nome do filho após o assassinato do marido em 1610, ela passou por todo tipo de vicissitudes. Ambiciosa, mas temperamental e não muito inteligente, demonstrou grande capacidade para atrapalhar a própria existência. Fugindo da França em 1631, morreu exilada e endividada em Colônia, em 1642. Sofreu ainda o dissabor de ver seu protegido, o cardeal de Richelieu, cuja ascensão ela promovera, suplantá-la politicamente junto a Luís XIII e causar seu exílio.

Maria seria hoje talvez uma rainha esquecida, se não fosse a sua atividade como protetora das artes. Devemos a ela a construção do palácio do Luxemburgo, em Paris, onde morou. Para decorá-lo, idealizou um ciclo pictórico sobre si mesma. Desejava, por meio de quadros, mostrar a sua trajetória como algo belo, grandioso, memorável. Queria ser lembrada como aquilo que não era, esposa e mãe amorosa e rainha sábia e competente. Atribuiu essa tarefa ao grande artista barroco, o flamengo Peter Paul Rubens. Entre 1622 e 1625, o pintor realizou 21 quadros povoados, além de Maria, de figuras mitológicas, e mais três retratos da rainha e de seus pais. O talento de Rubens imortalizou uma soberana medíocre, revestindo de glamour a sua imagem.

MariadeMédicis.jpg
Scala Archives

Minhas tentativas de revisitar a galeria, no segundo andar da aile Richelieu, terminam sempre em fracasso. Já me aconteceu de entrar no Louvre especificamente para isso, mas vou parando pelo caminho, minha atenção é desviada por outras obras-primas, pego outros rumos pelo museu, perco-me. Quando eu era criança, adolescente, universitário, os 24 quadros eram expostos em outro canto do museu, então eu simplesmente não consigo mais chegar até eles.

Em setembro, minha visita à casa de Rubens em Antuérpia, poucos dias antes de chegar a Paris, tornara mais intensa a vontade de rever a Galerie Médicis. Julguei que naquele momento isso seria facílimo, pois o percurso até a residência temporária da Mona Lisa, ídolo das multidões, estaria certamente apontado com cartazes e flechas. Minha filha, ao me ouvir durante o almoço expressar essa opinião, mostrou-se cética: “Não sei… acho que a presença da Mona Lisa na galeria pode complicar mais as coisas”.

Só consegui chegar ao Louvre setenta minutos antes de o museu fechar. Na pirâmide, os guardas não me deixaram entrar, por causa da hora. Andei rápido até a porta na rue de Rivoli, desci as escadas rolantes e atravessei o corredor subterrâneo de lojas. Lá o guarda foi mais tolerante. Entrei. Como eu previra, cartazes indicavam de maneira ostensiva a localização da Mona Lisa. Havia uma fila, contida por uma barreira, de pessoas esperando para pegar as escadas rolantes e subir à aile Richelieu. Lembrei que eu estava sem bilhete de entrada. Perguntei aos guardas se era necessário comprar um, considerando que o museu fecharia dali a uma hora. Disseram que sim. Corri até as máquinas eletrônicas, mas já estavam trancadas. Fui à única bilheteria onde havia ainda um vendedor, que hesitou em me dar uma entrada: “O museu vai fechar daqui a menos de uma hora. Tem certeza?”. Respondi usando a cartada da favorita do grande público, a atração maior do museu: “Sim, por favor, um bilhete, só quero ir até a Mona Lisa”. Tecnicamente, era verdade.

Com a entrada na mão, voltei rápido até a fila. Só que não havia mais fila. Naqueles três, quatro minutos em que eu me ausentara, a barreira fora levantada, e o grupo subira as escadas rolantes. Os turistas deviam agora estar caminhando pelas salas da aile Richelieu, em direção ao segundo andar, cantarolando de alegria com a perspectiva de ver a florentina do sorriso misterioso, sem saber que veriam também as enormes pinturas celebrando outra florentina, a rainha morta no exílio. Os guardas já não deixavam entrar ninguém. Implorei. Expliquei. Fiz como todo mundo, e declarei não poder partir sem ver a Mona Lisa. Inútil. Tive de desistir. Pensei em ir embora mas, afinal, pagara pela entrada. Apenas o acesso à aile Richelieu fechara, por causa da multidão sequiosa por aquele sorriso. As outras alas estavam abertas.

Fui diretamente às salas de escultura romana, que são há alguns anos meu lugar preferido no museu e estão aliás instaladas nos antigos aposentos de verão da nora de Maria de Médicis, a mulher de Luís XIII, Ana de Áustria. Lá também uma decepção me esperava. O busto de Germânico que eu queria rever — o museu possui vários — estava emprestado para a exposição em Roma sobre seu irmão, o imperador Claudio.

Germânico.jpg

A hora de fechamento do museu encontrou-me na Grande Galerie, repleta de quadros italianos importantes, inclusive de Leonardo da Vinci, e onde eu, pela centésima vez, meditava por que aquelas pinturas são menos famosas do que a Mona Lisa. Os visitantes começavam a ser gentilmente conduzidos para a saída. Muitos reclamavam. Não eu. É importante ter sempre uma razão para voltar aos lugares de que gostamos. Algum dia, conseguirei rever o ciclo de Maria de Médicis.

À noite, jantando com minha filha, narrei-lhe minha desventura. Ela me olhou e disse: “Bem, pelo menos, você pôde ver outras salas, Mas papai, era tão evidente que a presença da Mona Lisa na galeria ia impedir você de chegar lá. Como você pode ter achado o contrário?”. Abanou a cabeça e suspirou.

Sorri. Senti-me realizado; feliz. É a melhor das sensações, quando vemos os filhos serem mais prescientes do que nós.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

 

 

Uma casa em Antuérpia

Uma casa em Antuérpia

No verão de 1629, Peter Paul Rubens estava em Londres, negociando uma trégua no conflito entre a Espanha e a Inglaterra, o que levaria, no final do ano seguinte, à assinatura de um tratado de paz. De Londres, enviou uma carta, em 8 de agosto, a seu amigo o erudito Pierre Dupuy, bibliotecário do rei de França, no caso Luís XIII. Escrevendo em italiano, como quase sempre fazia em sua correspondência, Rubens dizia ao amigo que teria de permanecer na Inglaterra ainda um pouco: “apesar do meu desejo de respirar uma vez mais na minha própria casa” (con desiderio di respirar qualche tempo in casa mia). E acrescentava que a casa “realmente precisa da minha presença, pois quando retornei de Espanha fiquei em Antuérpia apenas três ou quatro dias”. O pintor e diplomata permaneceria na Inglaterra, porém, até março de 1630.

Há alguns anos, também eu vinha acalentando o sonho de voltar a respirar o ar da casa de Rubens, hoje um museu em homenagem ao artista. Corroía-me a vontade de revê-la — pois é, aos meus olhos, desde a infância, um lugar fascinante — e, dentro dela, um busto de mármore que o artista acreditava representar Sêneca. O filósofo estoico é minha leitura predileta nas horas de tristeza ou preocupação.

Em setembro, minha mulher e eu estivemos em Bruxelas, de férias, visitando nossa filha. Antuérpia pareceu um sonho facilmente realizável. Uma terça-feira, levei minha mulher ao aeroporto de madrugada, pois ela precisava regressar ao Brasil antes do previsto, e o voo decolaria às 06:15. O plano era que, na tarde daquele mesmo dia, eu viajaria a Londres. No táxi, ela me pediu: “Não vá a Antuérpia, você só vai se cansar. Eu vou ficar preocupada. Por favor, vá direto para Londres”. Prometi.

Do aeroporto, voltei ao hotel. Fiz a mala, desci para tomar café e olhei no celular os horários dos trens para Londres. À medida em que cafeína, proteínas, carboidratos iam entrando no meu sistema, comecei a relativizar o peso da promessa feita. Julguei que eu a fizera para tranquilizar minha mulher. Esse objetivo fora cumprido. Pensei em Rubens, em Sêneca, na casa.

Fui para a estação. Convém ao viajante aventureiro saber que há dois tipos de trem no trajeto Bruxelas-Antuérpia. Um, direto, de alta velocidade, faz a viagem em 35 minutos. O outro tipo leva de 45 a 75 minutos, dependendo do número de paradas. Comprei bilhete para o trem seguinte. Infelizmente, era o mais lento de todos. E assim, fui parando em pequenas cidades de que nunca ouvira falar, apesar dos muitos anos em que morei, criança e adulto, na Bélgica. Adolescentes subiam de mochila e desciam na estação seguinte. Tudo parecia bem campestre.

Eu deixara todos os livros na mala em Bruxelas e desligara o celular, para economizar a bateria. Assim, tive o lazer de pensar sobre aquela insistência em revisitar a Rubenshuis. Comecei a me perguntar se meu objetivo não era o de postergar, ao máximo possível, o momento em que eu deixaria a Bélgica e colocaria, entre minha filha e eu, uma distância física maior. Quis ligar, para avisá-la de que eu estava a caminho de Antuérpia, e não ainda de Londres, mas sabia que ela passaria a manhã em uma reunião importante. Tive o impulso de cancelar a ida à Inglaterra e passar mais uns dias em Bruxelas. Lembrei das Cartas a Lucílio, onde Sêneca pondera que “estar em todo lado é o mesmo que não estar em parte alguma”. Pensei nos amigos que eu não tivera tempo de ver em Bruxelas, e sobre isso também a segunda carta a Lucílio tem algo severo a dizer: “Quem passa a vida em viagens tem muitos conhecidos, mas nenhum amigo verdadeiro”.

Acontece, porém, que obras de arte, os artistas que as criam e os museus que as abrigam podem também ser excelentes amigos, assim como livros e seus autores. A ida a Antuérpia parecia-me um esforço de reencontrar velhos e íntimos conhecidos: a cidade, o pintor, a Rubenshuis, seu conteúdo, o busto do pseudo-Sêneca — que não representa as feições do filósofo, mas torna-o simbolicamente presente naquele ambiente — e a própria atmosfera da casa. Como Rubens na carta a Pierre Dupuy, eu sentia que ficara tempo demais sem respirar aquele ar.

Chuviscava em Antuérpia. Coloquei o casaco e caminhei até a Rubenshuis, no coração da cidade.

Rubens comprou a casa em 1610. Dois anos antes, ele voltara da Itália, onde residira por oito anos — com um pequeno intervalo durante sua primeira viagem à Espanha, entre 1603 e 1604. O artista desenhou e construiu uma nova ala, de inspiração italiana. Por isso, a Rubenshuis é descrita como sendo “palaciana”, ou “no estilo de um palazzo italiano”. Lá ele morou, com interrupções devidas a variadas e prolongadas viagens, até morrer na casa em 1640. Lá também trabalhava com seus assistentes, em um amplo e arejado estúdio. Modificada, decaída, desfigurada com o tempo, a casa foi, no século XX, restaurada, na medida do possível, ao que terá sido enquanto Rubens lá viveu.

De certa forma, já então a residência do artista era um museu, pois Rubens foi um colecionador importante de pinturas dos séculos XVI e XVII, particularmente da escola veneziana, de esculturas antigas, de medalhas e de objetos preciosos. Sua coleção era um marco nos Países Baixos espanhóis e atraía visitantes ilustres. Em seu livro publicado em 1672 sobre a vida de pintores do século XVII, Giovanni Pietro Bellori escreve sobre Rubens: “non passando forestiere alcuno in Anversa che non vedesse il suo Gabinetto“. Sem dúvida, a coleção e a ala italianada da casa consagravam também o prestígio social do artista, que foi enobrecido por Filipe IV de Espanha e por Carlos I de Inglaterra pela sua atuação na negociação de paz entre os dois países. Após a morte de Rubens, o catálogo das obras de arte a serem vendidas por seus herdeiros incluía mais de mil peças. Filipe IV, sozinho, comprou 29 quadros.

Por essa razão, obras que pertenceram a Rubens podem ser vistas em diversos museus. Sua coleção é objeto de um estudo publicado em 1989 pelo professor de história da arte Jeffrey M. Muller, Rubens: The Artist as Collector. Muller trata do tema com verdadeiro afeto: “Rubens’s collection is like a vanished work of art, even more ephemeral than a painting, because when he died the spirit of the collection departed and its physical shell disintegrated quickly“. A atividade de Rubens como colecionador — que se soma aos seus talentos como artista e diplomata — é mencionada por Jonathan Brown em seu livro Kings & Connoisseurs, Collecting Art in Seventeenth-Century Europe.

JeffreyMuller.jpg

Curiosamente, Muller não menciona uma das peças mais ilustres da coleção de Rubens, hoje exibida no Walters Art Museum, em Baltimore. Trata-se de um vaso bizantino de ágata decorado com folhas de vinha e duas cabeças de sátiro, do século V, com uma história imponente e pitoresca. Em uma carta de 18 de dezembro de 1634 a outro amigo francês, Nicolas-Claude Fabri de Peiresc, célebre homem de ciência e de letras, Rubens menciona que o vaso fora capturado por piratas holandeses quando estava sendo transportado, por razões que ele não explica, para a Índia.

A Rubenshuis contém alguns quadros do artista, assim como do mais famoso de seus discípulos, Van Dyck, e de alguns contemporâneos. As naturezas-mortas de pintores flamengos do século XVII são numerosas e excelentes. Há uma recriação dos diferentes ambientes — quartos, salas, cozinha, estúdio e galerias onde era exposta a coleção.

CasaRubens.jpg

Um dos quatro auto-retratos existentes de Rubens está na casa, onde vemos sua preocupação em se apresentar como um homem distinto, elegante, de elevada posição social.

autoretratoRubens.jpg

De repente, cheguei à entrada da sala semi-circular construída por Rubens, denominada “Panteão”, obviamente inspirada no Pantheon romano, onde ele exibia parte de sua coleção de esculturas antigas e onde o visitante de hoje pode ver o pseudo-Sêneca:

Sabe-se que Rubens trouxe com ele o busto de mármore, do século I, ao regressar da Itália, em 1608. Estava convencido de que se tratava de uma representação do estoico. Há várias esculturas em diferentes museus reproduzindo essas feições. Supõe-se, hoje, que o retratado era um poeta, dramaturgo ou outro filósofo, possivelmente grego, caro aos romanos. O modelo do pseudo-Sêneca, a que pertence o busto da Rubenshuis, mereceu um capítulo no catálogo da exposição D’après l’antique, que o Louvre montou em 2000 sobre a influência cultural, ao longo dos séculos, de obras famosas da antiguidade.

O busto possivelmente foi incluído por Rubens na venda que fez, em 1626, de parte de sua coleção ao duque de Buckingham. O duque é célebre por ter sido favorito do rei Jaime I de Inglaterra e de seu filho, Carlos I, e por ter mantido com a mulher de Luís XIII, Ana de Áustria, uma intensa relação, o que é um dos temas de Alexandre Dumas em Les Trois Mousquetaires. Na verdade, não há certeza se o busto que hoje vemos na Rubenshuis — comprado em um leilão em Paris na década de 1950é o exemplar do pseudo-Sêneca que pertenceu ao pintor. Há quem argumente que sim; há quem pense que o busto que foi de Rubens é na verdade outro exemplar do pseudo-Sêneca, exposto hoje no museu Ashmolean, em Oxford.

pseudo.Sêneca.jpg

Em um quadro pintado em 1611 ou 1612, Os Quatro Filósofos, o artista retratou-se com seu irmão Filipe, morto em 1611, e um famoso humanista flamengo, Justus Lipsius (1547-1606), de quem Filipe Rubens era discípulo. Lipsius reviveu o estoicismo como filosofia e editou as obras de Sêneca. Hoje, empresta seu nome a um prédio cavernoso das instituições europeias, em Bruxelas, onde muitas vezes participei de reuniões. A quarta figura no quadro é outro seguidor de Justus Lipsius, Joannes Woverius, amigo dos irmãos Rubens. Em um nicho à direita, pairando acima dos quatro homens, está o busto do pseudo-Sêneca. A escultura aparece também em desenhos de Rubens e serviu de inspiração para o rosto em outro quadro seu, de que há algumas cópias, A Morte de Sêneca. O busto pertencente a Rubens também ilustrou uma nova impressão, em 1615, das obras do filósofo estoico editadas por Lipsius, a cargo de Balthasar Moretus, célebre editor e humanista, para quem Rubens pintou uma das versões de A Morte de Sêneca.

O busto na coleção do pintor, portanto, deve ter sido bastante famoso em seu tempo. Dele aliás parece ter sido feito um molde de gesso, cópias do qual aparecem em quadros de outros pintores. Um professor de história da arte, Wolfram Prinz, em um ensaio de 1973, analisou a frequente presença pictórica, no século XVII, do pseudo-Sêneca de Rubens. Prinz menciona que o busto de Rubens era a única imagem do filósofo existente “ao Norte dos Alpes” naquela época. O professor James Ker, em The Deaths of Seneca, escreve ser o busto “an instance of willful projection, in which inauthenticity is outweighed by perceived authority — by the perceived correspondence between physiognomy and idea“. As feições do pseudo-Sêneca, enrugadas, emaciadas, sofridas, intensas, com ar dramático, simplesmente correspondiam à imagem que se queria ter do filósofo, no Barroco.

Assim, no círculo erudito frequentado por Rubens, o apreço por Sêneca fazia parte da atmosfera. Justus Lipsius viu no estoicismo, argumenta Wolfram Prinz, uma forma de lidar com o sofrimento causado pela violência das guerras de religião e da revolta holandesa, iniciada em 1568, contra o domínio espanhol.

Praticar efetivamente o estoicismo, contudo, podia ser mais árduo. Em outra carta enviada a Pierre Dupuy, de Antuérpia, em 15 de julho de 1626, comentando a recente morte de sua primeira mulher, Isabella Brant, Rubens comunica a sua dor e diz: “Não tenho a pretensão de chegar à impassibilidade estoica” (io non ho pretensione d´arrivar giammai alla impassibilità stoica).

Da prodigiosa quantidade de cartas escritas por Rubens sobrevivem 250, editadas em 1955 por Ruth Saunders Magurn. Em nenhuma delas encontro menção a Sêneca ou ao busto. Seria fascinante sabermos mais sobre como o adquiriu e o que pensou ao se desfazer dele.

Pergunto-me se, para Rubens, Sêneca não representava também uma advertência moral. O filósofo teve de se suicidar — e o fez com coragem e dignidade — por ordem de seu ex-pupilo, Nero, que o tornara riquíssimo e que em troca ganhara no início de seu governo, graças ao preceptor, a aura, afinal falsa, de imperador digno de Augusto. Os textos de Sêneca ajudavam, no século XVII, a suportar a violência e as incertezas daquele tempo. A vida de Sêneca ilustrava os méritos e os riscos, para o intelectual ou artista, na relação com o governante. Rubens conheceu de perto as cortes de Mântua, Bruxelas, Madri, Paris e Londres. Os retratos que pintou de soberanos e favoritos ajudaram a criar dos poderosos uma imagem idealizada. Ao mesmo tempo, o artista deles recebeu prestígio, nobreza e dinheiro. Rubens foi, em 1609, nomeado pintor da corte do arquiduque Alberto da Áustria e da infanta Isabel Clara Eugenia de Espanha que, primos e cônjuges, governavam juntos os Países Baixos espanhóis. Na década de 1620, graças à confiança que nele tinha a infanta, exerceu a sua intensa atividade político-diplomática. Um de seus correspondentes era o poderosíssimo conde-duque de Olivares, primeiro-ministro de Filipe IV. Rubens foi nomeado pelo rei secretário de seu conselho privado.

No entanto, em 16 de março de 1636, retirado da vida pública, o artista declara em carta a Peiresc: “ho in horrore le corti”. E acrescenta: “aprendi por meio de longa experiência o quanto os príncipes agem lentamente quando se trata do interesse de outras pessoas, e quão mais fácil é para eles fazer o Mal em vez do Bem”.

Na carta a Peiresc de 1634 em que menciona o vaso bizantino, Rubens escreve que “nos últimos três anos, pela graça divina, encontrei a paz de espírito, e renunciei a qualquer forma de atividade além de minha adorada profissão [de pintor]”. Continuando, diz: “Devo muito à Fortuna, pois posso dizer sem pretensão que as minhas missões e viagens à Espanha e à Inglaterra foram extremamente bem-sucedidas. Efetuei negociações da mais alta importância”. Rubens explica que, “tendo atingido o ápice do favor junto à Sereníssima Infanta e aos principais ministros do rei”, tomou a decisão “de fazer violência a mim mesmo e de cortar o nó dourado da ambição” (tagliar questo nodo d’oro). Rubens confidencia a Peiresc ter percebido que “um retiro desse tipo deve ser feito enquanto estamos subindo, e não caindo; que devemos abandonar a Fortuna enquanto ela ainda é favorável”. O tom elevado da carta é prejudicado quando, no final, Rubens pede a Peiresc ajuda para ganhar uma causa no Parlamento de Paris contra um gravador que copiava sem autorização suas gravuras, causando-lhe “grave prejuízo e dano”.

Se nenhuma das cartas sobreviventes de Rubens fala em Sêneca, três falam no Brasil e na Bahia, por causa das iniciativas holandesas contra Salvador, sendo Filipe IV de Espanha também rei de Portugal. Uma dessas cartas, enviada a Pierre Dupuy em 1º de junho de 1628, pertence hoje ao colecionador Pedro Corrêa do Lago.

Que o busto de mármore exibido na casa represente outro filósofo ou poeta, em vez de Sêneca; que talvez nem seja o busto que pertenceu a Rubens; que o neo-estoicismo tenha sido no artista afetação ou convicção, nada disso me pareceu relevante, ao revisitar a Rubenshuis. O importante era estar ali, respirar aquele ar, incorporar o ambiente, compreender a forma de vida de um dos artistas mais talentosos de sua geração, pensar que Sêneca foi valorizado naquela atmosfera, preservar esses vínculos.

Sob um céu cinzento, passeei sozinho pelo jardim deserto. Vi a fachada posterior da casa com suas esculturas, a arcada e o pavilhão neoclássicos construídos por Rubens, as árvores, os arbustos. Minha filha porém começava a me escrever no celular. Sua reunião terminara. Preocupou-se em que eu não perdesse o trem Bruxelas-Londres.

Ao voltar para a imponente estação de Antuérpia, consegui um trem mais rápido do que o de vinda, embora o de 35 minutos tenha continuado a me eludir. Recuperei minhas malas na estação em Bruxelas; embarquei. Às oito da noite, estava já no meu hotel em Londres.

Senti que havia vencido o tempo, as gerações, a geografia, a morte.

À memória de Ivan Cannabrava,
que partiu ontem e permanece para sempre amigo incomparável.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

O leitor irresponsável

20140715_110306-1.jpg

Ocasionalmente, reaparece nas redes sociais um ensaio do escritor britânico Geoff Dyer sobre as suas dificuldades para ler ou terminar de ler livros.

Intitulado “Reader’s Block”, publicado originalmente em 2000, quando o escritor tinha 41 anos, o texto descreve o desânimo de Dyer ao olhar para as suas estantes e perceber que não deseja ler nenhum dos livros ainda intocados. E assim, compra outros, por não querer ler os que já possui. E continuará pensando, olhando para as estantes: “There’s nothing left to read“.

Dyer narra como, para passar o tempo em um vôo transatlântico, compra dois livros, cujos títulos aliás parecem paradigmáticos: O Leitor, de Bernhard Schlink, e A History of Reading, de Albert Manguel. O vôo termina, e nenhum dos dois foi lido. Justamente, tenho ambos os livros em casa, e não os li. O segundo foi presente de uma amiga querida, há muitos anos, e ele serve ao menos para me fazer pensar nela, quando vejo a lombada.

Geoff Dyer é um escritor que sempre leio com prazer e considero o primeiro livro que dele comprei, Out of Sheer Rage: Wrestling with D.H. Lawrence, publicado em 1997, um marco na literatura contemporânea. Nele, Dyer narra sua tentativa de escrever um estudo sobre D.H. Lawrence, o qual, por procrastinação, nunca consegue concluir ou mesmo começar na forma como planejara. A própria liberdade de tempo para escrever torna-se um empecilho: “I had nothing to keep me from writing my study of Lawrence, and so I never buckled down to it”. Lawrence é aliás um autor que nunca li, embora tenha em casa, desde o final da adolescência, Sons and Lovers e Lady Chatterley’s Lover, ambos esperando pacientemente que eu me dedique a eles.

Dyer procrastina também a releitura dos romances de Lawrence, o que poderia ser necessário para elaborar o estudo sobre o autor: “I thought, why should I? Why should I re-read this book [Women in Love] that I not only had no desire to re-read but which I actively wanted not to re-read“. Parece manifestar preferência pela correspondência e os poemas de Lawrence, mas na hora de viajar para uma temporada de seis semanas em uma ilha grega — onde, naturalmente, não conseguirá escrever nada —  indaga-se se deveria ou não levar uma edição dos poemas completos, que afinal será deixada para trás em Roma. Out of Sheer Rage, porém, consegue ser um comentário bem-sucedido sobre D.H. Lawrence e sua obra, uma reflexão sobre a literatura em geral e também uma autobiografia de Dyer. Alguns dos livros do autor foram traduzidos no Brasil, mas creio que não este, o meu predileto. Dyer expõe, em tom feroz e cômico, seus defeitos, suas antipatias e a intensidade de suas reações às coisas e às pessoas. Em um momento, ganha de presente um livro de ensaios acadêmicos sobre Lawrence, com títulos e temas pretensiosos, como “Alternatives to Logocentrism in D.H. Lawrence”, e queima o livro “in self-defence. It was the book or me because writing like that kills everything it touches“.

O texto de Dyer sobre seu bloqueio como leitor, sendo do ano 2000, pertence já à era digital, mas é anterior ao surgimento e à multiplicação das redes sociais. Estas, com seu oferecimento capcioso e constante de notícias, na maior parte do tempo sem interesse ou utilidade, atrapalham a imersão na leitura. Somos também tentados a aceitar oferta profusa de filmes e séries em nossos computadores. Dyer cita um ensaio do pensador George Steiner, que tenho — e li — intitulado “The Uncommon Reader”, o qual, embora publicado em 1978, portanto antes da era digital, critica “the near-dyslexia of current reading habits“. Steiner indica que já não lemos como nossos antepassados, inclusive pela falta de silêncio e solidão. O silêncio, segundo ele, e nisso concordo plenamente, tornou-se um luxo.

Em “Reader’s Block”, Geoff Dyer conta como, nascido em um ambiente de poucos recursos em uma cidade provinciana, único da família a gostar de ler e não tendo ainda viajado, para ele a leitura era, na juventude, a única forma de acesso a outros mundos. Aos 41 anos, escritor de sucesso, constata: “Reading, which gave me a life, is now just part of that life“.

Há períodos em que sofro de um bloqueio e leio menos do que gostaria. Isso notei, pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos, quando lamentei com um amigo estar atravessando uma fase em que, a meu juízo, eu estava lendo pouco. Acabara então de escrever meu primeiro — e até hoje único — romance. Tratava-se de uma história de amor passada entre o Rio de Janeiro e uma fazenda em Minas Gerais, na Zona da Mata, na época do Império. Era, vejo hoje, uma autobiografia, fora o fato de que eu não existia ainda no século XIX. Desencorajado pelo meu pai — ele mesmo escritor — que, com o objetivo de me incentivar foi, para minha sensibilidade adolescente, excessivamente crítico, procrastinei e nunca revisei o romance. “I blame my father”, informa Geoff Dyer, de repente, na página 143 de Out of Sheer Rage, quando não consegue montar um quadro de avisos de cortiça para a cozinha, comprado na IKEA.

Houve, desde a adolescência, outros períodos em que acusei a mim mesmo por não estar lendo o suficiente. Olho para as minhas estantes, suspiro e penso comigo mesmo: “Não tenho interesse por nenhum desses livros. Nenhum deles é o livro que quero ler”. O bloqueio de leitor é algo insuportável. Falta algo na vida, e não sei como preencher o vazio.

Naturalmente, coloca-se a questão do que seria “ler o suficiente”. Estou ciente de que não poderei nunca ler tudo o que espero. Sei também que nem sequer os 6.000 volumes na biblioteca de casa eu poderei ler. Segundo Steiner, não é um verdadeiro leitor aquele que “has not experienced the reproachful  fascination of the great shelves of unread books, of the libraries at night of which Borges is the fabulist“. A menção ao escritor argentino não poderia ser mais apropriada, já que boa parte da obra de Jorge Luis Borges, grande leitor, é um comentário sobre livros, bibliotecas e outros autores.

Romances curtos às vezes me causam um bloqueio, enquanto que posso ler relativamente rápido livros longuíssimos, totalmente imerso no texto. Guerra e Paz — 1.620 páginas na tradução que prefiro, em francês, por Henri Mongault, editada pela Gallimard na Pléiade — é a leitura mais deliciosa que jamais fiz. Sonho com uma vida em que eu pudesse ininterruptamente ler o romance de Tolstoi e recomeçá-lo em seguida, em um ciclo constante. À la recherche du temps perdu é uma leitura e releitura de toda a vida. Abri o primeiro tomo aos 11 anos, fiquei fascinado, e nunca mais parei. Releio sempre os quatro primeiros tomos. Lembro de frases de cor, cito falas dos personagens, que eu pareço conhecer como figuras do meu cotidiano. Sei onde encontrar meus trechos prediletos, e esses eu releio sem parar. Durante muito tempo, porém, senti não estar maduro para os três últimos tomos. Há alguns anos, eu os li pela primeira vez, e a obra toda ganhou nova dimensão, e a minha vida junto.

Após a morte do romancista canadense Robertson Davies, em 1995, lançou-se uma coletânea de palestras suas sobre literatura e leitura. Nem que fosse apenas pelo seu título — The Merry Heart — seria impossível não ficar indiferente ao livro. Davies dá um conselho simples: se não está gostando do livro, pare de lê-lo; a vida é muito curta para passá-la lendo algo que não desperta seu interesse. Montaigne, em seus Essais, diz o mesmo, no capítulo sobre livros. Afirma querer passar “doucement, et non laborieusement, ce qui me reste de vie“. Por isso, busca na leitura “prazer, por meio de uma diversão honesta”. Se a leitura apresenta alguma dificuldade, ou é tediosa, ele evita angustiar-se a respeito (“je n’en ronge pas mes ongles“) e deixa o volume de lado, ao menos temporariamente.

Robertson Davies considera-se “um leitor irresponsável” (“a rake at reading”). Diz ele: “I have read those things which I ought not to have read, and I have not read those things which I ought to have read“. Como suas leituras deveram muito ao acaso e ao seu faro, Robertson Davies estima que, se vivesse de novo, não leria necessariamente os mesmos livros, pois outros apareceriam frente a ele.

Davies formula percepções que todo leitor contumaz, dentro de si,  sente com relação à leitura. Segundo ele, “books choose us” e “we find, and are found by, the books we need to enlarge and complete us“. Acredita que, mesmo quando nos deixamos guiar pelo acaso em nossas leituras, “The inward spirit, I am convinced,  knew very well what it was doing“. Essa frase lembra um comentário de Borges: “Un libro es una cosa entre las cosas, un volumen perdido entre los volúmenes que pueblan el indiferente universo, hasta que da con su lector, con el hombre destinado a sus símbolos. Ocurre entonces la emoción singular llamada belleza”.

Pesquisando na minha biblioteca, vejo que muitos escritores se detiveram sobre o que significa ler. Parece ser um tema recorrente. Talvez isso seja natural, já que um autor superlativo foi, em algum momento ao menos, também um leitor atento.

Italo Calvino publicou em uma revista italiana de notícias, em 1981, artigo incentivando os italianos a ler os clássicos — texto hoje conhecido como Perché leggere i classici — mas é no “romance” Se una notte d’inverno un viaggiatore que ele analisa em detalhe o que é ler e escrever um livro. O personagem principal, Leitor, começa a ler dez romances, que nunca chega a acabar, porque as cópias são todas defeituosas ou incompletas. No início da obra, Calvino dá as várias razões — pouco menos de vinte — pelas quais livros não são comprados ou lidos. No final, Leitor conversa em uma biblioteca pública com outros leitores sobre como encaram a leitura. O “quarto leitor” diz exatamente o que eu mesmo penso: “cada novo livro que leio passa a ser parte do livro global e unitário que é a soma de todas as minhas leituras”.

Em 1905, Proust publicou, com o título de “Sur la lecture, um texto encantador. Redigido para servir de prefácio à sua tradução de um livro de John Ruskin, “Sur la lecture (conhecido depois como “Journées de lecture) inicia-se com a descrição de Proust, criança, em sua atividade como leitor durante o verão na casa dos tios, que podemos ainda hoje visitar em Illiers-Combray. A primeira frase diz que os dias da infância passados com um livro predileto são os que foram vividos mais intensamente. Isso já dá o tom. As atividades que o obrigam a parar de ler — almoço, jantar, passeios com a família — parecem longas. Em algum momento, porém, a leitura do livro termina. Proust descreve a saudade dos personagens que aí surge. “Então, é isso? […] Esses seres aos quais tínhamos dado mais de nossa atenção e de nosso carinho do que às pessoas da vida real […] nunca mais as veríamos, nunca mais saberíamos nada delas”.

Várias páginas depois, Proust afirma ser a leitura “uma amizade sincera”, da qual não fazem parte as “mentiras” necessárias nas relações com as outras pessoas. O texto termina com a observação de que escritores frequentemente preferem ler os clássicos, e não seus contemporâneos. Como leitor, tenho a mesma predileção e, se não li alguns dos livros nas minhas prateleiras, às vezes é simplesmente porque eles são ainda muito recentes. Os clássicos, nos diz Proust, “contêm todas as belas formas de linguagem abolidas, que guardam a lembrança de usos ou formas de sentir que já não existem”. E aqui, Borges pode nos ajudar a completar o pensamento proustiano. Em palestra que deu na Universidade de Belgrano em 1978, ele declarou: “Cada vez que leemos un libro, el libro ha cambiado, la connotación de las palabras es otra. Además, los libros están cargados de pasado […] Hamlet no es exactamente el Hamlet que Shakespeare concibió a principios del siglo XVII […] Hamlet ha sido renacido […] Los lectores han ido enriqueciendo el libro […] Si leemos un libro antiguo es como si leyéramos todo el tiempo que ha transcurrido desde el día en que fue escrito y nosotros“.

Em Les Rêveries du promeneur solitaire, redigidas em seus dois últimos anos de vida, Rousseau inicia o “quarto passeio” dizendo: “Dentre os poucos Livros que ainda leio às vezes, Plutarco é aquele que me prende e me traz mais benefícios. Foi a primeira leitura da minha infância, será a última da minha velhice”. Rousseau sofria de misantropia e mania persecutória. Cabe lembrar que o “primeiro passeio” inicia-se com a célebre frase: “Estou, assim, sozinho na Terra, não tendo outro irmão, próximo, amigo, sociedade além de mim mesmo. O mais sociável e mais amoroso dos homens dela foi proscrito por uma decisão unânime”. É fascinante, por isso, ver o filósofo, na velhice, voltar à leitura predileta dos seus primeiros anos como leitor, como se estivesse preservando uma amizade.

Tolstoi fugiu de casa abruptamente, em estado de agitação mental, aos 82 anos, na madrugada do dia 28 de outubro de 1910. Na noite do mesmo dia, escreve carta, de uma estação de trem, à sua filha Alexandra, pedindo que lhe enviasse, ou se viesse vê-lo trouxesse com ela, os seguintes livros, que estivera lendo antes de fugir: os Essais de Montaigne, Os Irmãos Karamazov, o romance Une Vie, de Maupassant, e o livro espiritual de um autor russo, P.P. Nikolayev. Tolstoi morreria em 7 de novembro, em outra estação de trem, Astapovo. É comovente a necessidade que sentiu, na reta final, de ter consigo os livros que estava lendo.

Tanto no seu ensaio “Reader’s Block” como em Out of Sheer Rage, Geoff Dyer parece apontar para o fato de que, à medida que envelhecemos, lemos menos, inclusive pela razão que ele dá, de que a leitura deixa de ser a vida, e passa a fazer parte da vida. Outro escritor britânico, Alan Bennett, em um romance cômico de 2007 e intitulado, como o ensaio de George Steiner, The Uncommon Reader, apresenta o oposto: um personagem que nunca leu e, de repente, na idade madura, vira um leitor obstinado e maníaco. Esse personagem é, nada mais, nada menos, do que Elizabeth II. Sim, ela própria. Bennett, em um dos livros mais engraçados que já li, imagina que a Rainha da Inglaterra, pouco a pouco, vira uma ávida leitora e passa a ler tudo, romances, poesia, biografias, peças de teatro. Em um jantar de gala que oferece ao Presidente da França no castelo de Windsor, a rainha decide conversar sobre Jean Genet, para constrangimento de seu hóspede, que nunca leu o autor. Ao passar a ser uma grande leitora, única entre seus conhecidos, a rainha causa problemas. Como comenta seu secretário particular, ler é uma atividade excludente, pois embora todos saibam ler, ninguém na verdade lê.

Pouco a pouco, Elizabeth II volta a ler menos. A leitura já não é uma necessidade. Agora, sente que precisa escrever. De início, o primeiro-ministro se anima: um livro popular, indolor sobre a juventude da rainha, a Segunda Guerra Mundial, seu casamento, um bestseller. Logo vem o temor, ao perceber que não é isso. A rainha tem em mente “something more radical. More… challenging“. Na verdade, inspira-se em Proust e deseja emular o Narrador de La Recherche, que “looks back on a life that hasn’t really amounted to much and resolves to redeem it by writing the novel, which we have just in fact read“.

Esta, afinal, é a mensagem de todo escritor: a de que escrever é a verdadeira vida, é o que permite processar, por em ordem as experiências atravessadas, que incluem, também, as leituras feitas. O bloqueio do leitor, assim, pode ser sintoma de que é chegado o momento de escrever.

(Este ensaio foi primeiro publicado na edição de junho do jornal literário Rascunho)

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

 

 

 

De Gaulle e o Príncipe Valente

De Gaulle e o Príncipe Valente

SãoConrado.jpg

Em junho, presenciei a morte de uma biblioteca. Minha mãe decidiu instalar-se em um apartamento menor do que a casa onde morara por onze anos. Na sua idade, espaços grandes, que ficam facilmente inacessíveis, já não fazem sentido. A casa rodeada de verde, debruçada sobre o mar, tornara-se inadequada, apesar da beleza do cenário.

Objetos, móveis tiveram de ser sacrificados por causa da mudança. Livros também. A biblioteca da casa continha mais de dois mil volumes. Apenas cerca de mil poderiam ser levados para o apartamento. Minha irmã e eu ajudamos nossa mãe a separar os que ela considerava essencial preservar. O que fazer da outra metade? Juntos, Titina e eu decidimos ficar com uns cento e cinquenta livros. Mais do que isso não seria razoável. Em casa, minha mulher e eu temos já seis mil; e Titina mora desde sempre no Chiado, em Lisboa, com a sua própria biblioteca.

Para examinar os restantes oitocentos, novecentos volumes, chamei, sucessivamente, quatro livreiros cariocas. O primeiro retirou da casa pouco mais de cem obras. Interessou-se sobretudo por literatura brasileira, em especial os exemplares que possuíam dedicatória para meus pais, e livros de História do Brasil. Opinou que muitos dos livros autografados eram de autores já não tão lidos. Tentei valorizar os de Fernando Sabino. Todos eles, na biblioteca, continham autógrafos para meu pai, minha mãe, ou ambos, ou mesmo para nós, os filhos. Na minha infância, Sabino era o modelo do escritor de sucesso, um cronista divertido, além de ser dono de uma personalidade carismática.

Lembro dele com afeto, embora, ao falar em mim em uma de suas crônicas no jornal, Fernando Sabino tenha me transformado em exemplo de jovem cansativo, de tão opiniático. Fui tirado de meus pensamentos pelo livreiro, que declarou: “Eu gostava do Fernando Sabino, nós nos dávamos bem, ele era um cara muito legal, mas a dedicatória dele não acrescenta nada. Ele costumava aparecer na feira de livros, quando ela se instalava em Ipanema, na praça Nossa Sra. da Paz. Ficava de papo com todo mundo, sempre simpático, e assinava livro para quem pedisse. A coisa que mais há no Rio é livro com dedicatória dele”. Decidi, na hora, ficar com os exemplares autografados pelo Sabino.

O segundo livreiro comprou talvez uns trezentos volumes. Interessou-se inclusive por aqueles em inglês e francês, sobretudo os de História e de relações internacionais. Alegou que livros de arte caros, ainda mais em outras línguas, já não são comprados. Pagou em média 4 ou 5 reais por cada volume que retirou da casa. Já no dia seguinte, vi na página eletrônica de sua livraria que um dos livros fora imediatamente revendido por 125 reais. Reagi de forma racional a respeito. Aquela obra, aliás nova, intocada, nada significava para mim, em termos afetivos, literários ou editoriais. A surpresa é que pudesse valer tanto para alguém.

O terceiro livreiro só se interessou por cinco volumes, em formato grande, com as aventuras de Flash Gordon e do Príncipe Valente, que décadas atrás haviam sido de meu pai. Declarou: “Essa é a biblioteca típica de quem fala muitas línguas. Já vi outras assim. São todos livros bons, interessantes, mas que não têm saída aqui no Rio”. Meditei, posteriormente, sobre esse esnobismo revertido.

O quarto livreiro era certamente o mais desprendido. Ele é conhecido por vender livros usados por uma ninharia, em uma barraca perto de uma estação de metrô no Centro do Rio, com o objetivo de incentivar as pessoas a lerem enquanto usam o transporte público, em vez de ficarem obsessivamente nas redes sociais. Chegou, olhou por alto as centenas de obras restantes e declarou que as levaria todas, mesmo aquelas em russo e alemão.

Depois do divórcio dos meus pais, duas bibliotecas haviam sido formadas, a dele — relativamente pequena, pois ele passara a morar em apartamento, sozinho — e a dela. Quando ele morreu, em 1999, minha irmã já morava há muitos anos em Lisboa, e eu morava em Quito. Parecera natural que colocássemos seus pertences em um depósito. Quando minha mãe comprou a casa na Pedra da Gávea, transferimos para lá as coisas dele, e colocamos seus livros junto aos dela.

Às vésperas da vinda do primeiro sebista, ao final da tarde, vi-me sozinho em um dos quartos da biblioteca, na verdade um longo corredor com estantes cobrindo integralmente uma das paredes mais compridas. Peguei uma cadeira e sentei-me frente à seção onde Titina e eu havíamos concentrado os livros a serem vendidos. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos segurando a cabeça, olhando as estantes, fui tomado de grande tristeza. Essa era a biblioteca com a qual eu crescera. Esses haviam sido os primeiros livros que eu lera. Criança, adolescente, eu os folheara incessantemente. Muitos haviam sido incorporados em datas posteriores, quando eu já era adulto, e eu os lera ao visitar minha mãe.

Sentado no silêncio e na penumbra da biblioteca, pensei em me revoltar, em levar comigo os livros todos que minha mãe se obrigara a descartar. Essa opção, porém, não era razoável. Não há como fazer crescer uma biblioteca repentinamente, de uma só vez, de seis mil para sete mil volumes. Olhei para as estantes como quem está pondo fim a um romance, ou se despedindo para sempre de um parente ou de um amigo. Aqueles livros haviam marcado a minha vida, formado a minha mente, gerado em mim uma primeira visão do mundo, das pessoas. Em retrospecto, eu via que refundir as bibliotecas de meus pais havia sido uma forma de anular seu divórcio, refazer o quinteto familiar, recuperar a infância e suas esperanças. Abandoná-los era como uma traição, renunciar a algo que fora bonito.

Cheguei a retirar volumes adicionais das estantes, para guardá-los comigo. Em seguida, recoloquei-os de volta. Valia a pena agarrar-me à edição em Livre de Poche, antiga e surrada, das Memórias de Charles de Gaulle? Sem dúvida, é facílimo conseguir novas edições, melhores e comentadas, por exemplo da Pléiade. Aquele, porém — velho, com a capa machucada, as páginas amareladas — era o exemplar com o qual eu crescera, que acompanhara minha vida, e mesmo a dos meus pais. Segurei nas mãos os dois volumes da biografia do presidente Rodrigues Alves por Afonso Arinos de Mello Franco, na edição original, de 1973, pela editora José Olympio. Sem dúvida, eu já não teria tempo de reler esse livro. Desde criança, porém, os dois volumes, um de capa vermelha, o outro de capa verde, me fascinavam. Saber que eu já não os veria, não os folhearia, era sentir como uma perda. O quarto livreiro levou o General de Gaulle e o Rodrigues Alves de Afonso Arinos.

No último momento antes da visita do primeiro sebista, retive uma primeira edição de Carlos Drummond de Andrade com uma dedicatória para meu pai. Entre as visitas do terceiro e do quarto sebista, decidi guardar também livros de Vinicius de Moraes, sem autógrafos.

Duas semanas depois, minha mãe instalou-se no novo apartamento. Minha mulher e eu fomos ajudá-la. Uma das providências necessárias era arrumar as estantes. Mesmo reduzida à metade, a biblioteca deu-nos trabalho por vários dias. Abrir caixas, limpar prateleiras, categorizar os livros, rearranjá-los à medida que novos volumes surgiam representou esforço grande.

O resultado foi surpreendente. Livros de que eu não me lembrava reapareceram. Livros que eu nunca notara seduziram-me. Várias vezes, interrompendo a arrumação, sentei-me para folhear uma obra até então desconhecida ou esquecida. Terminado o trabalho, olhei feliz para as estantes. Havia ali mais luz do que no corredor sem janela da casa sobre o mar. Recolocados em um novo ambiente, em ordem diferente nas estantes, iluminados de forma natural, os volumes remanescentes pareceram ter adquirido nova existência. Eram os mesmos livros, mas era outra biblioteca.

Era uma nova entidade. Era uma nova verdade. Era a promessa de uma nova vida.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

Veneza.jpg

Em 1885, venderam-se em leilão, em Londres, 35 cartas escritas por John Keats à sua noiva, Fanny Brawne. Após a morte do poeta aos 25 anos, em 1821, Fanny casara-se, tivera filhos e morrera em 1865, aos 65 anos. Um de seus filhos vendeu as cartas, as quais aliás já haviam sido publicadas em 1878. Alguns admiradores de Keats condenaram a publicação e a venda, julgando que as cartas jogavam luz menos sublime sobre sua personalidade. Estimaram que a transparência com que Keats escrevera a Fanny Brawne não se podia compartilhar com as multidões.

Oscar Wilde assistiu ao leilão e, aparentemente, comprou ao menos uma das cartas. Isso não o impediu de escrever, um dia antes, um famoso soneto, intitulado On the Sale by Auction of Keats’ Love Letters, onde critica a venda, declarando: “I think they love not art/Who break the crystal of a poet’s heart/That small and sickly eyes may glare and gloat”. O soneto, além de sua beleza intrínseca, permanece relevante como apelo ao direito à vida privada do artista.

Três anos depois, em 1888, Henry James publicou uma de suas melhores novelas, The Aspern Papers. Na estória, um Narrador americano, nunca nomeado, fervoroso admirador e estudioso da obra de um poeta, compatriota seu, Jeffrey Aspern, visita Veneza em busca de cartas ou documentos escritos pelo seu ídolo. Aspern, como inventado por Henry James, é um poeta da Era Romântica, contemporâneo de John Keats, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley e que, como eles, morrera jovem, cerca de sessenta anos antes. Mantivera na Europa um romance com uma americana, Juliana Bordereau, que vive, anciã e solteira, em um palazzo em Veneza, na companhia de uma sobrinha, também solteira, nomeada Tita em 1888, e Tina nas edições posteriores. O Narrador acredita que os documentos inéditos de Aspern conservados por Juliana contribuiriam para um maior conhecimento da personalidade do poeta e compreensão de sua obra.

O conto de Henry James pode ser visto como uma crítica ao fato de o limite entre o privado e o público tornar-se fluido por causa da fama — no caso, a literária, pois essa era uma época em que poetas e romancistas podiam ser verdadeiras celebridades. A quem pertencem as cartas escritas por Jeffrey Aspern a Juliana Bordereau? A ela própria; à imagem do poeta a ser preservada; ou ao seu público de idólatras, dos quais o Narrador do conto é o sacerdote? Claramente, o Narrador acredita que ele, ao menos, tem o direito de ler as cartas, na qualidade de principal especialista em Aspern. Questões ligadas à privacidade são um dos temas da novela, a qual, como sempre no caso de Henry James, possui vários níveis de leitura.

Sabemos de onde veio a inspiração para a redação de The Aspern Papers. Nos cadernos onde anotava ideias para futuras obras, em janeiro de 1887 Henry James, que estava então em Florença, relata ter ouvido uma estória ocorrida naquela cidade anos antes. Um crítico de arte e “Shelley-worshipper” americano, Edward Silsbee, soubera que Claire Clairmont, a ex-amante de Byron — e talvez também de Shelley, casado com sua hermanastra, Mary Godwin, a autora de Frankenstein — morava, aos 80 anos, em Florença, na companhia de uma sobrinha de cerca de 50 anos. O admirador de Shelley introduziu-se como locatário na casa de tia e sobrinha, na esperança de, quando Claire Clairmont morresse, colocar as mãos em cartas de Shelley e Byron que ela guardava. Claire morreu em 1879; a sobrinha declarou que daria as cartas a Silsbee se eles se casassem. Silsbee fugiu. Comenta Henry James nos seus cadernos: “Certainly there is a little subject there: the picture of the two faded, queer, poor and discredited old English women — living on into a strange generation, in their musty corner of a foreign town — with these illustrious letters their most precious possessions“.

A novela segue o mesmo roteiro. Henry James a escreveu em Veneza, ao longo de 1887, o que contribuiu para tornar particularmente crível a evocação da cidade no texto. Minha frase predileta talvez seja a seguinte, referente a um passeio noturno de gôndola que fazem Tina Bordereau e o Narrador, inclusive pelo Canal Grande: “She had forgotten how splendid the great water-way looked on a clear, hot summer evening, and how the sense of floating between marble palaces and reflected lights disposed the mind to sympathetic talk. We floated long and far […]“. A novela, para padrão de Henry James, possui estilo e diálogos diretos. Como, além disso, trata da apropriação que admiradores de um artista fazem de sua obra e de sua vida pessoal, entende-se que The Aspern Papers tenha inspirado escritores, músicos e diretores de cinema. A estória já foi levada às telas de cinema ao menos cinco vezes e já gerou ao menos duas peças de teatro, além de duas óperas.

Há muitos anos, em 1984, assisti em Londres a uma das versões teatrais da novela. No palco, Vanessa Redgrave interpretava a sobrinha, Tina Bordereau. Christopher Reeve, no auge da fama hollywoodiana, por causa da série de filmes em que interpretava o papel de Super-Homem, fazia o Narrador. Juliana Bordereau era interpretada por Wendy Hiller, famosa em seu tempo, nas telas como nos palcos. Essa adaptação teatral fora produzida originalmente em 1959, e seu autor era o pai de Vanessa, Michael Redgrave, que interpretara o Narrador na produção original. Na versão teatral, o Narrador ganhava um nome, Henry Jarvis, tendo portanto as mesmas iniciais de Henry James, misturando assim criador e personagem.

Guardo ainda o programa da produção londrina de 1984, onde vejo que escrevi ter preferido versão cinematográfica da novela, intitulada Aspern, a que assistira pouco tempo antes, dirigida por Eduardo de Gregorio e estrelada por Alida Valli como Juliana, Bulle Ogier como Tina e Jean Sorel como o Narrador. Eu era então muito, muito jovem, e sentia uma paixonite por Bulle Ogier. Além disso, desde sempre admiro o talento de Alida Valli e seus olhos profundos e acariciantes. A Arte, porém, nos prega peças. Passadas tantas décadas, eu já nem me lembrava dessa versão cinematográfica, até ler, há poucos dias, meus comentários a respeito no programa da peça. Mesmo agora, nenhuma imagem do filme me vem à cabeça. Da produção teatral, de que manifestei no programa não ter gostado, nunca me esqueci.

TheAspernPapers.jpg

The Aspern Papers chega às telas novamente, em uma versão dirigida por Julien Landais, baseada em uma adaptação francesa, para o teatro, de Jean Pavans, que colaborou com Landais e Hannah Bhuiya no roteiro do filme. Vanessa Redgrave, que vi no palco como a sobrinha, na versão teatral escrita por seu pai, vive agora a tia. Sua filha, Joely Richardson, vive a sobrinha. Jonathan Rhys Meyers faz o papel do Narrador.

Como a crítica tem sido severa com o filme, direi imediatamente que gostei da versão de Landais. Em seu primeiro longa-metragem, o ex-modelo — de que eu nunca ouvira falar até assistir ao filme — foi ambicioso e é provável que não possuísse ainda a experiência para reciclar uma obra tão complexa e já mastigada por tantos artistas antes dele. Há, contudo, muito a ser recomendado nesta nova adaptação da obra-prima de Henry James. Antes de mais nada, os diálogos são fiéis à novela, da qual frases inteiras foram transpostas ao filme. Landais manteve a ação no período histórico em que a estória de Henry James se desenvolve, os anos 80 do século XIX. O palazzo veneziano ajardinado que inspirou James para descrever a residência das Bordereau foi usado como cenário. Algumas inovações de Julien Landais são bem-vindas, como atribuir papel maior à amiga do Narrador, Mrs. Prest, em uma brilhante atuação de Lois Robbins. O diretor criou novos personagens  — como uma filha e uma amiga para Mrs. Prest, e uma filha para essa amiga — que nada acrescentam ao desenrolar do enredo, mas permitem a inserção de novos cenários e diálogos e rompem a claustrofobia das cenas no palazzo das senhoras Bordereau. Alguns puristas, aliás, se irritarão com isso, pois o aspecto claustrofóbico é importante na novela.

Outra inovação foi decididamente pouco benéfica para o filme. Julien Landais insere cenas em flashback mostrando o romance entre Jeffrey Aspern e Juliana Bordereau. Vai além, e cria a figura de um “segundo poeta”, que vive com o casal um triângulo amoroso. Essas cenas são banais e desnecessárias. Vemos o trio beijando-se, dançando, os três com ar melancólico, suspirando. No final do filme, quando Tina Bordereau sente-se rejeitada pelo Narrador, queima as cartas de Aspern mas antes lê algumas em voz alta. Seu teor, totalmente inventado pelos roteiristas, mostra que Aspern, nesta versão cinematográfica, amava o “segundo poeta” ao menos tanto quanto amava Juliana Bordereau. Os roteiristas parecem assim ter querido fazer, na figura de Jeffrey Aspern, um condensação de Byron, Keats e Shelley. Inventam a forma como morreu Aspern, afogado como Shelley. Ele é bissexual, como Byron. E quando vemos seu rosto em uma miniatura, reconhecemos imediatamente a pose de Keats em um famoso retrato.

Este é um filme que parece ter sido feito para que Julien Landais se divertisse com seus amigos. Nos créditos, entre os produtores aparecem o príncipe Charles-Henri de Lobkowicz, François Sarkozy (irmão do ex-presidente da França) e James Ivory, que no passado dirigiu adaptações melhores de obras de Henry James, inclusive, em 1984, The Bostonians, com Vanessa Redgrave e Christopher Reeve. Entre os atores, nos pequenos papéis inventados pelos roteiristas, ou fazendo apenas uma breve aparição, há outros sobrenomes ilustres: Daphne Guinness, Poppy Delevingne, Morgane Polanski (filha de Roman Polanski e de Emmanuelle Seigner), além de modelos aparentemente muito famosos. Em resumo, se você pertence à elite social, econômica, cinematográfica ou do mundo da moda na Europa, suas chances de estar envolvido nesse projeto de Julien Landais eram bem grandes. É fácil, porém, tratar tudo isso com esnobismo intelectual. A verdade é que a participação de Poppy Delevingne no papel, criado para essa adaptação, de amiga de Mrs. Prest, signora Colonna, é irresistível. Morgane Polanski e Barbara Meier, nos papéis de filhas da signora Colonna e de Mrs. Prest, trazem um pouco de brisa e esperança a uma estória que é, também, sobre as desilusões acumuladas em toda vida humana ao longo do tempo.

Além da infeliz ideia de mostrar flasbacks do triângulo amoroso inventado por ele, Landais tomou outra iniciativa que prejudicou o filme: escalar Jonathan Rhys Meyers como o Narrador. O ator aparece em praticamente todas as cenas. Irlandês de nascimento, deram-lhe um acento americano carregado, nunca ouvido antes em filme algum. Sua atuação é artificial, pouco convincente, empostada, e parece a de um adolescente sem talento em produção teatral em final de ano na escola. Estamos longe do talento que aparentara ter em 2005, em Match Point, dirigido por Woody Allen. Ele é um dos muitos produtores executivos listados nos créditos em The Aspern Papers. Terá Julien Landais sido obrigado a aceitar essa terrível interpretação? Ou terá a atuação de Jonathan Rhys Meyers sofrido as consequências da inexperiência de Julien Landais atrás da câmera?

Em compensação, temos direito à presença na tela de Vanessa Redgrave e Joely Richardson. Mãe e filha dominam o filme. Justificam a ida ao cinema. No palco no papel de Tina, em Londres, há tantos anos, Vanessa Redgrave não me convenceu. Era uma presença forte demais para representar uma mulher desinteressante. Na tela, como Juliana, ela é impressionante. É magistral a forma como, em uma cena, dialogando com o Narrador, apenas levantando um dos dedos ela cativa a atenção. Estamos na presença de uma atriz excepcional, mítica, com décadas de experiência nos palcos e nas telas, herdeira de ilustre tradição familiar e que não decepciona. Ao contrário, ela recompensa o público que, há muitos anos, acompanha sua carreira, e dá a entender que tudo o que vimos até aqui era apenas uma preparação para a sua Juliana Bordereau.

Joely Richardson é surpreendente como Tina Bordereau. Mostra a força, a capacidade de sedução da personagem, mas também sua vulnerabilidade, a inocência, a retidão. Enquanto que a novela termina reiterando a frustração do Narrador, tempos depois, pelo fato de nunca ter colocado as maõs nas cartas de Aspern, no filme o que vemos na última cena é a libertação de Tina. Partindo de Veneza em uma gôndola, ela joga na laguna o anel que fora da tia e, antes dela, de Jeffrey Aspern. Sorrindo, abandona o passado. Recomeçará a vida em outra parte, sozinha mas talvez feliz de não ter tido êxito na tentativa de amarrar o seu destino ao do medíocre Narrador.

The Aspern Papers – Ficha técnica IMDb

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

 

O Mar por toda parte

O Mar por toda parte

Passei este ano o melhor Carnaval do mundo: com a minha mulher, na casa onde nos casamos, na beira da praia, acompanhados por silêncio e tranquilidade, rodeados pelo oceano de um lado e pela Mata Atlântica do outro.

Levei comigo alguns livros, mas isso não teria sido necessário, pois a casa contém, ainda intacta, a biblioteca secundária de meus sogros. Na postagem O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks aludi a essa casa. O que não disse, naquela ocasião, é que o prazer de lá estar, ao longo dos anos, inclui o de mergulhar em sua biblioteca. Fico lendo na praia, na varanda, à beira da piscina ou na sala onde me casei, de onde observo, pelas paredes de vidro, o sol se levantar ou cair no horizonte, ouvindo e vendo o mar.

Praia.jog

Ao longo de sucessivos férias e feriados na praia, passei dos romances de F. Scott Fitzgerald — foi nessa casa que aprendi a gostar dele — à monumental biografia, em quatro volumes, do primeiro duque de Marlborough, John Churchill, escrita por Winston Churchill, seu descendente, e publicada entre 1933 e 1938. Um volume, aliás, o segundo, desapareceu. Sempre me pergunto onde terá ido parar. No Carnaval, toquei no assunto com a minha mulher, que respondeu, meditativamente: “Não sei. Ninguém sabe. Sumiu faz muito tempo”. Isso só confirmou minha opinião de que os livros possuem vida própria.

Marlborough: His Life and Times voltou a despertar minha atenção recentemente, porque o duque e sobretudo sua mulher, Sarah Jennings, são personagens do extraordinário filme de Yorgos Lanthimos, The Favourite, que era meu preferido na corrida ao Oscar. O filme oferece uma visão pessoal do diretor sobre a relação entre Sarah e a rainha Anne, que reinou de 1702 a 1714. Lembrando que a amizade entre elas começara na infância e fora durante décadas “deep and strong“, Churchill nos diz que em 1709 essa relação já estava desgastada: “Nothing remained of that remarkable partnership except the opportunities of quarrel“, o que atribui à personalidade forte e difícil de sua antepassada.

Marlborough.jpg

Winston Churchill, neto do sétimo duque de Marlborough — e nascido no palácio de Blenheim, a pouco modesta casa de campo da família, construída pelo primeiro duque e Sarah — ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1953, escreveu com a biografia de seu antepassado uma obra monumental. A edição da casa de praia, embora tenha cerca de mil páginas, é abreviada. O original chega ao dobro. É uma leitura fascinante. John Churchill foi um celebérrimo e vitorioso general na Guerra de Sucessão da Espanha. Na visão de seu descendente, suas vitórias fizeram do reinado de Anne um dos momentos mais ilustres da história inglesa.

Churchill examinou nos arquivos de Blenheim as cartas de amor escritas por John Churchill a Sarah, entre 1675 e 1677. Os dois eram então jovens, solteiros, vivendo o início da paixão e, embora exercessem ambos cargos na Corte do rei Carlos II, tio da futura rainha Anne, não detinham ainda o poder e o prestígio que teriam mais tarde. É comovente ler as cartas onde expõe seu coração o futuro duque e general, que chegou a ser, durante algum tempo, o homem público mais importante do país. Escreve John Churchill à ainda adolescente Sarah Jennings: “É cruel, minha Alma, ser forçado a estar em um lugar sem que eu possa ter a esperança de vê-la”; “Assim que eu soube de seu mal-estar, juro, sem afetação, que também fiquei doente”; “Se você não for gentil comigo, eu a amo tanto que não poderei sobreviver, pois você é minha vida, minha alma, tudo que eu mais valorizo neste mundo”.

Há muito tempo, outras cartas chamavam minha atenção na biblioteca. Elas estão contidas em um volume de capa dura que, com a lombada branca meio surrada, na foto abaixo aparece na prateleira do meio, ao lado de Galápagos, de Kurt Vonnegut, um dos autores de predileção de minha sogra e, aliás, também de meu pai. Trata-se de uma edição de 1949, na coleção Clássicos Jackson, das cartas do Padre Antonio Vieira.

CartasVieira.jpg

O pregador, grande favorito de minha mulher, começou a me interessar no início do nosso namoro, pois ela já possuía então a edição de 1959 dos Sermões, em cinco volumes, em papel bíblia, pela editora Lello & Irmão, do Porto. É nessa edição que acabo de ler, por exemplo, o Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma de 1644, em que o autor disseca os sentimentos de amor, amizade e ódio e suas correlações. Diz ele: “Isto que no mundo se chama amor, é uma coisa que não há, nem é: é quimera, é mentira, é engano; é uma doença da imaginação e por isso basta para ser tormento”. De maneira geral, os sermões de Vieira que abordam os temas de amor ou amizade postulam que todo afeto terrestre é uma ilusão. Um argumento frequente seu, pode-se resumir, é que só Jesus sabe amar e, por isso, só ele merece o nosso amor.

Entre as setenta cartas incluídas no livro da biblioteca da praia, porém, vemos em várias um Vieira afetuoso. Carta escrita em 1653, do Maranhão, ao Padre Francisco de Morais termina da seguinte maneira: “Ah amigo, quem pudera trasladar-vos aqui o coração, para que lêsseis nele as mais puras e as mais importantes verdades, não só escritas ou impressas, senão gravadas”. Trinta anos depois, em 1683, da Bahia, Vieira escreve ao Cônego Francisco Barreto: “A falta de carta de V. Mcê, em tanta continuação de navios, me tinha muito sentido, posto que não desconfiado, como quem tão seguro está na verdade do afeto de V. Mcê”.

Dependendo do interlocutor, do momento, do local onde foram escritas, das circunstâncias históricas, as cartas mostram Antonio Vieira preocupando-se com política, economia, diplomacia, religião, catequese e direitos de indígenas brasileiros, etnografia, profecias, amizade. O que nunca vemos nas cartas é Antonio Vieira frio, indiferente. Há uma intensidade constante. Nas cartas, como nos sermões, há no tom uma teatralização do mundo.

ClássicosJackson.jpg

Vieira era um temperamento peripatético. Em uma ocasião, há alguns anos, lendo as cartas na praia, listei os muitos lugares onde ele esteve, além de Portugal: Bahia, Maranhão, Pará, Ceará, Olinda, Cabo Verde, Roma, Haia, Dover, Florença, Paris, Rouen, Açores.

Ouvindo as ondas morrerem quase que no muro do jardim, eu ficava maravilhado com a coragem com que Vieira, no século XVII, subia aos barcos frágeis do seu tempo. Sete vezes, ele atravessou o Atlântico; sofreu tempestades, naufrágios e o desconforto de viagens que podiam durar dois meses, e bem mais se surgiam contratempos. Ao menos duas vezes, ele foi recolhido por piratas.

Em dezembro de 1652, o barco em que ia de Portugal ao Maranhão precisou, por razões de mau tempo, aportar por larga temporada em Cabo Verde. Escreve Vieira em carta ao Padre André Fernandes: “Faço esta em Cabo Verde, aonde chegamos com trinta dias de viagem, obrigados dos ventos contrários e de todos os outros trabalhos de tempestades, calmarias e corsários, que em mais compridas navegações se costumam padecer”. Em 1654, indo do Maranhão a Portugal, sofre novo naufrágio e aporta nos Açores. No Sermão de Santa Teresa, pregado na Ilha de São Miguel, declara: “Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas, como a em que eu e os companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar, e nós fora dele, pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus, e de sua Mãe. Não apareceu ali baleia que nos tragasse…”

Várias cartas comprovam o desejo de Antonio Vieira de estar no centro dos eventos e revelam as controvérsias em que, por causa de seu interesse pela política, ele se envolveu. O sublime orador, cujos textos alcançam a maior profundidade mística, não era desligado das coisas terrestres. Tinha sede de influenciar os rumos de seu país e foi próximo de D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança e restaurador, em 1640, da independência portuguesa após sessenta anos de jugo espanhol. A viagem ao Maranhão de 1652 é relevante para esta discussão, porque deveu-se a intrigas e ao ocaso de sua proximidade com o rei.

A edição dos Sermões da editora Lello & Irmão inclui biografia do orador pelo Padre Gonçalo Alves. Diz este sobre a viagem de Vieira de 1652 ao Maranhão: “afinal o rei, também já trabalhado fortemente pelos inimigos do grande pregador, e aguilhoado talvez pela desconfiança de que fora ele o conselheiro do príncipe [Teodósio, filho mais velho do rei, que com ele estava indisposto], não continuou a impedir-lhe a partida, e quando Antonio Vieira, a 22 de novembro de 1652, embarcou, esperando encontrar a bordo alguma nova ordem para não sair, não encontrou coisa alguma, e teve de partir”. Severo, o padre prossegue: “Foi esse o justíssimo castigo de sua duplicidade, porque, fingindo sempre que todo o seu desejo era ir servir a causa sagrada da religião católica, e que só muito constrangido obedecia às ordens reiteradas de el-rei que não podia passar sem ele, afinal foi vítima da sua própria comédia, e teve de partir, ferido cruelmente no seu amor-próprio, ao ver que o rei se desprendera com facilidade dos laços em que ele julgara tê-lo perpetuamente preso”. De fato, a carta já citada ao Padre Francisco de Morais, de 1653, começa com a frase: “Enfim, amigo, pôde mais Deus que os homens, e prevaleceram os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas. A primeira vez vinha contra a vontade de El-Rei; desta segunda vim até contra a minha, para que nesta obra não houvesse vontade mais que a de Deus”.

Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e faleceu em Salvador em 1697. Essa longevidade, em si atípica no século XVII, surpreende ainda mais em alguém que viveu em condições tantas vezes desconfortáveis, viajando no Brasil a aldeias indígenas distantes, sofrendo o antagonismo das autoridades coloniais, fazendo inimigos poderosos em Portugal ao se imiscuir em temas políticos e, por algum tempo, sendo processado pela própria Inquisição. Vieira morou no Brasil nos seguintes períodos: de 1615 — nessa primeira viagem transatlântica já quase naufragou na Paraíba — a 1640; de 1653 a 1654; de 1655 a 1661; e de 1681 até morrer. O resto do tempo, viveu na Europa, inclusive em Roma por seis anos. Conviveu com D. João IV e a rainha Luísa de Guzmán, com os filhos do casal, Teodósio, D. Afonso VI, D. Pedro II e Catarina, que foi rainha de Inglaterra por ter se casado com o rei Carlos II — um casamento famoso na História, porque a noiva levou Bombaim em dote à Inglaterra. Em Roma, Antonio Vieira conviveu com a rainha Cristina da Suécia e pregou em seu palácio. Em Paris, negociou com a rainha e regente Ana de Áustria e com o cardeal e primeiro-ministro Julio Mazarino.

Talvez o trecho mais cativante na correspondência esteja contido em carta escrita em 1654, do Pará. Descreve uma viagem sua de Belém ao rio Tocantins, pela foz do “rio das Amazonas”, em missão de catequese de povos indígenas. Diz a carta: “[…] cada um em sua canoa, e começamos a navegar por um mar de água doce. Derrotou-nos a escuridão da noite, e o Padre Antonio Ribeiro e eu a passamos amarrados às árvores de uma ilha, que nos serviram de âncoras e amarras”. Seduz a imaginação pensar no interlocutor dos reis e ator da cena política europeia navegando, quase só, pelos rios amazônicos, sob as estrelas de noite, e de dia vendo a mata, ouvindo apenas os barulhos da natureza. No justamente célebre Sermão de Santo Antonio aos Peixes, escrito em 1654, Vieira alude ao trecho anterior dessa viagem, de São Luís a Belém, ao dizer: “Navegando daqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa) vi correr pela tona da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia”.

Uma das mais belas cartas é a que escreveu à rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, em 1695. Viúva sem filhos do rei Carlos II, com quem se casara em 1662, Catarina regressara a Portugal em 1693. Durante as suas décadas na Inglaterra, não fora feliz. Antagonizada por ser católica em um país de religião oficial anglicana, tivera de conviver publicamente, na Corte, com as numerosas amantes do marido e seus filhos ilegítimos. Ao não ter ela própria filhos, Catarina falhara, na visão da época, na única missão destinada a uma rainha. Vieira a conhecera criança. Escreve ele, aos 87 anos, da Bahia: “Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades”.

Na carta à rainha Catarina, entramos na intimidade da família de D. João IV. Vieira cita diálogo que tivera sobre ela com sua mãe, a rainha D. Luísa de Guzmán, nascida nobre espanhola. Sendo ele “o correio fiel dos recados e lembranças da mãe e das saudades da filha”, relata que D. Luísa lhe dissera, a respeito de um presente que enviara a Catarina: “Estoy muy mal con Catalina, porque, enviándole unas perlas, me las agradeció“. Comenta Vieira: “Onde o agradecimento é ofensa, bem se podia ser secretário destes corações”. É notável que a carta resgate uma frase verdadeira, pronunciada há quase quatrocentos anos: podemos ouvir a voz da rainha de Portugal, que traduz seu sentimento de afeição pela rainha de Inglaterra, sua filha.

Terminava o feriado de Carnaval. Um pensamento antigo voltou à minha mente: seria errado eu retirar o livro das cartas de Antonio Vieira da casa e levá-lo comigo? Isso não estragaria a harmonia da biblioteca, conservada durante anos pelos meus sogros? Quando eu passava pelas estantes, porém, o olhar sempre se dirigia ao volume de capa dura, encadernado com tela branca, um pouco manchada pelo tempo. A própria tela me fazia pensar nas viagens marítimas de Antonio Vieira. As janelas perpendiculares às estantes mostravam o mar e as ondas.

No dia da partida, saímos cedo, pois iríamos ainda subir a serra até o aeroporto. Vendo o sol nascer no horizonte marítimo, eliminei minha hesitação, pousei as malas na porta de entrada, corri pelas escadas até a biblioteca e extraí da estante o livro branco.

Guardo-o comigo desde então.

Caiobá.jpg