Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo

Aos 20 anos de idade, eu venerava Beethoven. Podia satisfazer plenamente essa adoração, graças às salas de concerto em Londres, onde fazia minha graduação. Beethoven me dava, naquela época, a impressão de ser um amigo muito próximo. Em todas as vezes em que estive em Viena, nunca deixei de ir ver, ao menos de fora, a Casa Pasqualati, no Mölker Bastei, onde ele morou. Fiz peregrinação ao seu túmulo no Cemitério Central. Jantei na taverna instalada na casa onde ele morou em Heiligenstadt, Mayer am Pfarrplatz. Pensei mesmo em comprar um de seus pequenos bustos de gesso, facilmente encontráveis em Viena.

Há no romance de Henry James The Portrait of a Lady uma cena em que a música tem um papel fundamental. A protagonista, Isabel Archer, na casa de campo senhorial dos tios, onde mora, ouve o piano, e descobre que está sendo tocado por Madame Merle, uma amiga da tia, de passagem. Na edição original do livro, de 1881, é Beethoven que Madame Merle toca. Na edição revista por James, em 1908, o compositor passa a ser Schubert. Isabel, ao conhecer Madame Merle, vê apenas sua sensibilidade musical (“That’s very beautiful, and your playing makes it more beautiful still”), dá a ela sua amizade e não desconfia que sua vida será por isso negativamente afetada. O tio está doente – logo morrerá – mas Isabel garante a Madame Merle que “to hear such lovely music as that” fará com que ele se sinta melhor. Madame Merle retruca então com uma frase marcante, que me impressionou quando a li pela primeira vez aos 22, 23 anos: “I’m afraid there are moments in life when even Beethoven has nothing to say to us”.

Na fiel adaptação de The Portrait of a Lady para o cinema realizada por Jane Campion em 1996, essa frase (a diretora preferiu a versão onde Schubert é o compositor mencionado) ganha muita força, pela forma como Barbara Hershey, no papel de Madame Merle, a diz a Nicole Kidman, em uma de suas interpretações mais convincentes como Isabel Archer. A expressão facial de Barbara Hershey revela todas as decepções na vida de sua personagem.

Acontece que há uma peça de Beethoven que sempre tem algo a me dizer, nos bons momentos como nos menos bons. É o Concerto para piano nº 4. Se Beethoven é um amigo, esse Concerto é o seu melhor presente; trata-se de um dos monumentos da inteligência humana. Que um indivíduo tenha sido capaz de compor esse Concerto redime as falhas da nossa espécie.

Acontece também que nem todos os meus amigos nasceram em 1770 e morreram em 1827. Vários são da minha geração, estão bem vivos e posso vê-los em carne e osso. Há algumas semanas, uma amiga paulista me perguntou se eu poderia passar com ela seu aniversário. Quando um amigo de adolescência, com quem nunca houve afastamento ou rusga ao longo dos anos e com quem temos relação mútua de aceitação incondicional, pede para nos ver em seu aniversário, a única reação possível é ser grato por essa amizade e responder positivamente.

E é por essa razão que minha mulher e eu embarcamos rumo a São Paulo, para o fim de semana de 8 e 9 de outubro.

Ao planejar nossos dias em São Paulo, pensei, além  da aniversariante, na Bienal de Arte e na exposição sobre Calder e sua influência sobre artistas brasileiros, no Itaú Cultural. Outros amigos, que eu não via há muito tempo, estariam na cidade. Julguei estar atingindo o grau mais elevado de felicidade; tudo parecia perfeito. Estava equivocado. Ingrediente adicional estava à minha espera: li no jornal que Paul Lewis iria tocar, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, no sábado, o Concerto nº 1 e o Concerto nº 4 de Beethoven.

Quando fui comprar os ingressos pela Internet, só havia lugares no Coro, mas pude conseguir dois na primeira fila e do “lado certo” para ver as mãos do pianista tocando.  Sentar no Coro acabou sendo uma experiência por si. Pode-se ver melhor, além do rosto e dos movimentos do regente (no caso, uma regente, Marin Alsop), como os músicos lidam com seus instrumentos. Mais tarde, amigos comentariam haver o entendimento de que o som chega de forma diferente – menos satisfatória – aos  espectadores sentados no Coro. Pode ser, mas para nós não pareceu: estar ali era já um privilégio.

Vejam esta foto: na magnífica Sala São Paulo, sentados no Coro, esperando para ouvir Beethoven.

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Paul Lewis estudou com Alfred Brendel, que foi o pianista que primeiro ouvi tocar o Concerto nº 4, em Londres. No ano seguinte, ouvi Maurício Pollini e aparentemente   gostei mais ainda, segundo anotações que fiz no programa, guardado até hoje. Era porém Claudio Abbado quem regia a London Symphony Orchestra e eu idolatrava Abbado, então sua presença no palco pode ter influenciado minha análise. Registrei no programa que o último movimento provocava em mim (como ainda provoca) sensação de “libertação”, após as tensões musicais do segundo movimento, que eu considerava, aos 20 anos, aptas a despertar “ansiedade” – Beethoven brinca constantemente, nesse movimento, com a expectativa do ouvinte – e que Liszt equiparava a “Orfeu domando as Fúrias”. Todas as tensões são resolvidas, ao final, e fica um sentimento de harmonia triunfante, como se o Concerto fosse uma parábola das misérias humanas sendo superadas, após lutas internas.

Voltando ao dia 8 de outubro: todos, naquela tarde de sábado, fizeram jus à sua reputação: a  Sala São Paulo, que há muito tempo eu tinha vontade de conhecer (vou pouco a São Paulo, infelizmente), Marin Alsop, Paul Lewis e a OSESP. Lewis revelou sons, nos dois Concertos, de que eu nem suspeitava ou que eu tinha esquecido. Beethoven uma vez  mais efetuou a sua magia e tirou de todos, intérpretes e ouvintes, o que de melhor tinham a   oferecer. Uma tarde que dificilmente esquecerei.

Abaixo, Lewis, de azul, e Alsop, à direita, com a mão erguida, e a OSESP, todos recebendo uma ovação bem merecida.

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E minha amiga aniversariante? No dia seguinte, depois de uma visita à Bienal, almoçamos com ela e sua família, de que sempre me senti parte, no restaurante Canto Madalena,  em Vila Madalena, ouvindo choro ao vivo. A feijoada, a caipirinha de caju e a música estavam excelentes, a companhia mais ainda. Passamos a tarde com eles, até a hora de ir para o aeroporto, com passagem pelo Beco do Batman, ali perto do restaurante.

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São Paulo, Jardins, Livraria da Vila, Itaú Cultural e sua Brasiliana, Calder, Beethoven na Sala São Paulo, Bienal, Canto Madalena, feijoada e choro, Beco do Batman, amigos diversos em diferentes momentos…

Haverá felicidade maior? Não creio… fazendo abstração, claro, da Minha vista no Rio de Janeiro.

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Woody Allen e a ArtRio 2016: o que eles têm em comum

Um princípio que adoto neste blog é só tratar de livros, filmes, exposições e artistas de que gosto. Por exemplo, todo ano fico na expectativa de assistir ao novo Woody Allen. Pode ocorrer de eu ficar decepcionado, como aconteceu com Café Society. Vale a pena eu analisar o filme? Não creio. É mais útil pensar no que há de satisfatório ao meu redor… e torcer para que o Woody Allen de 2017 seja melhor.

Da mesma forma, com a ArtRio. Espera-se a nova edição com curiosidade  e é triste quando a visita agrada menos do que a anterior, como aconteceu comigo este ano. Havia, como sempre, muito Pancetti, muito Di Cavalcanti, muito Cruz-Díez, um ar de pouca novidade. Poucos artistas novos estimulantes e menos galerias estrangeiras.

Há porém outro princípio que adoto, não no Blog, mas na vida, que é o de tentar encontrar mérito mesmo nas experiências intelectuais e artísticas mais frustrantes. Discorrer sobre as razões pelas quais Café Society é um filme decepcionante seria pouco proveitoso. Mais vantajoso é eu apontar o que despertou minha atenção de maneira positiva.

Primeiro, a fotografia cálida de Vittorio Storaro, muito comentada em críticas no mundo inteiro mas não apreciada com unanimidade, como demonstra o artigo de Richard Lawson na revista Vanity Fair, que a descreveu como sendo  “cheap-looking period gloss […] oddly lush and intricate and garish for an Allen movie”. Pessoalmente, gostei, e sobretudo dos tons alaranjados dos trechos passados em Hollywood.

Em segundo lugar, fiquei impressionado com a última cena, a mais filosófica do filme. O apreço de Woody Allen pela literatura russa, incluindo Tchekhov,  é conhecido. O final de Café Society me comoveu, ao me lembrar o conto A Dama do Cachorrinho, que Tchekhov conclui – como Allen termina seu filme – deixando incerteza no ar. No conto como no longa-metragem, sabemos que os dois personagens se amam mas vivem em cidades diferentes e são casados com outras pessoas, e percebem não haver solução fácil para seu dilema.

Este ano tem sido fértil em filmes sobre a solidão, como As Montanhas se Separam, de Jia Zhangke, e Julieta, de Almodóvar. Anton Tchekhov e Woody Allen nos falam de uma forma de solidão bem específica: a de pessoas que não vivem sós mas são atormentadas porque não podem estar perto da pessoa amada. Ver na última cena do filme de Allen essa alusão, que me pareceu transparente, ao meu conto predileto de Tchekhov foi uma surpresa e redimiu, para mim, as fraquezas do roteiro e de algumas interpretações e o enredo pouco interessante.

Talvez por causa do impacto que me causou o filme de Zhangke Jia, minha obra preferida na ArtRio foi esta foto de Isaac Julien, No Moon Shining, extraída de seu filme-instalação  Ten Thousand Waves (onde uma das atrizes, aliás, é Zhao Tao, estrela de As Montanhas se Separam), apresentada pela  Galeria Nara Roesler:

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Vejam abaixo este detalhe:

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É tanta beleza, tanta serenidade, que a questão da solidão não se coloca; devemos supor que a figura humana na foto sente contentamento em estar viva e participar desse cenário.

Gostei também desta natureza-morta de Albano Afonso, apresentada pela galeria ˜Casa Triângulo, que mistura de forma natural o tradicional e o moderno:

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Mais até do que do carregador de celular, gostei do detalhe da entrada de teatro no canto esquerdo.

Senti-me feliz diante desta fotografia de Flávia Junqueira, apresentada pela Zipper Galeria:

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O espaço vazio ocupado por uma alegria pura não deixa de ser uma parábola sobre a melhor forma de lidar com a solidão.

O atrativo maior na ArtRio 2016, porém, foi o entusiasmo do público… no sábado 1º de outubro, apesar do mau tempo, os pavilhões estavam cheios. As pessoas pareciam interessadas e animadas. Era estimulante estar no meio da multidão, nos corredores. E, como no caso da sessão em que eu assistira Café Society, algumas semanas antes, saí do Pier Mauá pensando que a experiência de ir à ArtRio não fora totalmente satisfatória, mas que perdê-la teria  sido uma pena.

Estou pensando em como finalizar este texto, quando leio artigo perspicaz de Adrian Searle, no The Guardian de hoje, sobre a Frieze Art Fair, que está começando em Londres, e caio sobre esta frase: “Art fairs are always like this, the art reduced to the status of stage-prop”. O título do artigo de Searle é: “Everyone’s a performer in the boozy, fruity house of fun”. Ao apontar os ridículos da Frieze, Adrian Searle não deixa de transmitir o ambiente eletrizante na abertura da feira.

E é isto, talvez, o que tenha faltado à ArtRio 2016: mais auto-derisão. Quem sabe, o personagem abaixo, que fotografei discretamente, não tenha sido quem melhor entendeu o espírito que deveria prevalecer na feira de arte? Termino me perguntando se o blog  The Sartorialist aprovaria esta foto…

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Paris – Moscou – Paris

“The Shchukin collection includes 37 paintings by Matisse – a number surpassed only by his 50 Picassos”. Não sei se a frase, extraída de um artigo do Financial Times de 19 de agosto, assinado por Kathrin Hille, surpreende mais pelos números citados ou pela simplicidade com que os fornece. O artigo, excelente, comenta a abertura na Fondation Louis Vuitton, em 22 de outubro, da exposição Icônes de l’Art Moderne, la Collection Chtchoukine.  

Aqui, faço uma pausa e medito. Um amigo fraternal perguntou-me recentemente se quando começo uma postagem neste Blog sei já o caminho  a seguir e como o terminarei. Respondi com firmeza que sim. Este texto, porém, abre várias possíveis trilhas,  igualmente sedutoras… penso na Fondation Louis Vuitton, penso em Moscou, penso no Museu Pushkin, penso em Matisse… Ponhamos ordem nisso tudo.

Antes de mais nada, meus dois leitores precisam saber que, durante muitos anos, frequentei Moscou com regularidade, primeiro por razões pessoais, depois por razões  profissionais. Lá estive pela última vez em 2011, mas espero voltar em outras ocasiões no futuro. Há em Moscou cinco lugares onde me sinto perfeitamente à vontade: a casa de Tolstoi, o Teatro Bolshoi, o Café Pushkin, a Ópera Helikon e o Museu Pushkin. Nem o Café (na realidade, um excelente restaurante) nem o Museu Pushkin possuem vínculo direto com o poeta; foram assim nomeados para homenageá-lo.

Em 2011, eu dava meus primeiros passos como fotógrafo bem amador. Não possuía ainda a obsessão do registro no celular. Tirei porém esta foto do Café Pushkin, de má qualidade mas que dá certa ideia da atmosfera do restaurante:

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O Museu Pushkin é o principal museu de arte ocidental em Moscou. Uma coleção espetacular. Quando penso no museu, contudo, eu o associo sempre aos quadros de Matisse.

Havia, na Rússia do começo do século XX, dois grandes colecionadores de artistas franceses, impressionistas e pós-impressionistas: Serguei Shushkin e Ivan Morozov, ambos homens de negócios muito ricos. Esse foi o momento – breve, já que a Revolução de Outubro de 1917 logo viria – na história da Rússia imperial em que a alta burguesia ganhava poder e prestígio, em que a nobreza já não era a única fonte de influência política e cultural. Sobre a atividade de Shushkin e Morozov como colecionadores, uma boa fonte é este livro, que dei de presente à minha mãe há muitos anos:

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As coleções de Shushkin (caberia aqui especular sobre a melhor transliteração de seu nome… cada língua usa uma e esta em português é minha invenção) e Morozov foram montadas até o começo da Primeira Guerra Mundial. Depois da Revolução de Outubro de 1917, ambas foram desapropriadas e divididas entre o Museu Pushkin, em Moscou, e o Hermitage, em São Petersburgo. A São Petersburgo e ao Hermitage, fui apenas um vez, há vinte anos e, por isso, não tenho com a cidade e o museu a relação afetiva que tenho com Moscou e o Pushkin.

O livro de Beverley Whitney Kean apresenta, em apêndices, a lista das obras de arte   pertencentes a Shiushkin e Morozov. O primeiro possuía 43 obras de Matisse, das quais 36 telas. Quão feliz pode ser alguém que possui 43 obras de Matisse em casa? Muito feliz, pelos meus critérios. Morozov possuía 11, o que já daria para incrementar o grau de felicidade de qualquer ser humano. Meus olhos acabam de cair, por acaso, na informação de que havia na coleção Morozov 18 telas de Cézanne. Shushkin possuía 8 Cézannes e pendurava todos seus 16 Gauguins  na sala de jantar. É de sonhar, realmente.

Pelos meus cálculos, examinando os apêndices do livro de Kean, o Museu Pushkin ficou com 19 obras de Matisse na partilha das coleções Shushkin e Morozov com o Hermitage. Como todas chegaram à Rússia antes da Primeira Guerra Mundial, a coleção de Matisses do Museu Pushkin cobre a fundo um período relativamente curto de sua produção. Há no museu uma tela de 1896 e outra de 1900; ambas pertenceram a Morozov. Todas  as outras obras de Matisse no Pushkin são do período de 1902 a 1913.

Os dois colecionadores iam a Paris com frequência e conheciam Matisse pessoalmente. Foi a convite de Shushkin que o artista visitou a Rússia em 1911. Matisse, mais tarde, mencionaria o impacto que os ícones russos tiveram sobre ele. Todas as fontes que consultei (além do livro de Kean, pesquisei em  James H. Billington – The Icon and the Axe, an Interpretative History of Russian Culture -, em Suzanne Massie – Land of the Firebird, the Beauty of Old Russi-, em Oleg Neverov – Great Private Collections of Imperial Russia – e em monografias e biografias de Matisse, um dos artistas que mais admiro) mencionam que, graças às coleções Shushkin e Morozov, em 1911 Matisse era já  apreciado no meio cultural russo. As duas coleções eram abertas ao público e há registro de que Shushkin, aos domingos, gostava de acompanhar ele mesmo os visitantes. As duas coleções, ao mostrar em Moscou o que havia de mais avant-garde em Paris, influenciaram a arte russa. Malevich era um dos admiradores dessas obras e é estranho pensar que Matisse, o inovador no uso de cores vibrantes, contribuiu, entre outros, para formar a concepção artística do artista que, em 1915, apresentaria ao público a tela abstrata Quadrado Negro sobre Fundo Branco, onde apenas essa duas cores aparecem.

Nunca, em minhas visitas a Moscou, deixei de ir ao Pushkin, aonde vou especificamente para ver os Matisses. Passei frente a eles momentos de contemplação, em que a vida se tornava mais instigante, mais intensa. Saía do museu certo de que a felicidade é algo concreto.

Não tenho fotos dos quadros no meu celular. Fotografei, isto sim, a vista desde o pórtico de entrada do museu:

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A iminência da abertura da exposição da coleção Shushkin na Fondation Louis Vuitton está deixando o mundo da arte empolgado. Virão 130 obras do Hermitage e do Pushkin,  recriando parte da coleção em um só local.

Estive na Fundação em 2015, para visitar a exposição Les Clefs d’une passion, onde foram reunidas dezenas de obras-primas da arte do século XX. Um dos pontos mais altos da exposição foi o quadro La Danse, de Matisse, emprestado pelo Hermitage e que pertenceu a Shushkin, que o encomendara ao artista.

Montar uma exposição especificamente sobre a coleção Shushkin segue padrão recente, de examinar o gosto de determinados colecionadores. Em 2015, a National Gallery de Londres montou uma mostra reveladora e importante, Inventing Impressionism, que tive a sorte de visitar, sobre a atividade de Paul Durand-Ruel como marchand. Em 2011, a exposição Matisse, Cézanne, Picasso… L’Aventure des Stein, no Grand Palais, celebrou a atividade de Gertrude Stein, seus dois irmãos e sua cunhada – todos, aliás, amigos de Shushkin – sobre o meio artístico parisiense. Misturada com obras de outras origens, tanto no Pushkin quanto no Hermitage, a coleção Shushkin aparece fragmentada. Na Fundação, seu espírito visionário e corajoso ficará valorizado.

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As Caravanas

Quando éramos crianças, meus irmãos e eu tínhamos uma coleção de quebra-cabeças. Desconfio que montá-los era uma atividade idealizada por minha mãe, que trabalhava muito e via nisso uma maneira de conseguir nos unir ao seu redor. Ficávamos os quatro – ela, seus dois filhos e sua filha – em volta da mesa, na casa em Rhode-St-Genèse, procurando e colocando peças.

A maioria dos quebra-cabeças era de reproduções de quadros famosos, o que foi uma forma lúdica de despertar em nós o amor à arte. Lembro-me particularmente de dois: Le Sacre de Napoléon, de David, e Les Roulottes, de Van Gogh.

É provável que a Coroação de Napoleão tenha sido escolha minha, porque desde sempre o destino desse homem me surpreendeu e sigo tentando entender suas motivações, como prova uma recente compra na Livraria Berinjela. O quadro de David faz parte da minha vida desde meus 7 ou 8 anos, quando o vi pela primeira vez no Louvre e, pouco depois, terei feito minha mãe comprar o quebra-cabeças. Fui, por isso, bastante receptivo à cena em Francofonia, de Alexander Sokurov, em que o fantasma de Napoleão, dentro do Louvre, olhando para o quadro de sua própria coroação, esse mesmo de David, exclama: “Quanta beleza!”. Um bom exemplo, em vários níveis, de como a História inspira a Arte, mas de como também a Arte serve para a apreensão da História, pois a tela gigantesca de David contribui hoje para perpetuar o mito napoleônico; e o filme de Sokurov, por sua vez, ajuda a nos fazer pensar sobre essa correlação.

Montar As Caravanas de Van Gogh foi outra experiência inesquecível. Por isso, conheço cada detalhe do quadro. Tenho uma clara recordação da satisfação em colocar as peças para formar a figura do menino, no lado direito. Ao longo dos anos, pude ver a tela sem a intermediação do quebra-cabeças, no Musée d’Orsay. Imaginarão, por isso, meus dois únicos leitores, o choque, a surpresa que senti ao rever Les Roulottes, de maneira inesperada, no canto de uma sala na magnífica exposição  O Triunfo da Cor, os pós-impressionistas, no CCBB do Rio de Janeiro. Não sabia que o quadro estava na exposição.

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Que deslumbramento revê-lo, sem aviso prévio, como se tivesse esbarrado em um velho amigo em um lugar inesperado do mundo.

Fui ao CCBB, aliás, imbuído de ceticismo, em parte para agradar minha mãe, que queria minha companhia. Estava convencido de que a exposição seria insatisfatória, talvez pela própria publicidade em torno a ela, alardeando “75 obras de 32 artistas”… a pouco mais de duas obras por artista, em média, a coisa não parecia séria. Como entender um artista vendo apenas duas obras?

Entrei cético, mas saí maravilhado. A qualidade das obras é quase sempre extraordinária, a curadoria impecável e o accrochage muito sedutor. Os principais artistas estão representados por bem mais do que duas obras, à exceção (lastimável para mim) de Matisse, com um quadro apenas. É permitido fotografar, mas só tirei as duas fotos nesta postagem, preferindo me concentrar nas obras sem a intermediação da câmera do celular, o que agora lamento. Da mesma forma, cometi o erro de não comprar o catálogo. Tentei depois encontrá-lo em várias livrarias de Brasília, sem sucesso.

Aprende-se muito na exposição. Visitá-la é uma grande experiência sensorial e intelectual. Ela confirma minha experiência pessoal, de que mesmo obras de arte que conhecemos bem, se vistas em contexto diferente, nos dizem algo novo. Talvez seu atrativo maior, para mim, tenha sido a quantidade de telas do Vuillard à mostra. Esse pintor, de minha particular predileção, é um dos mais bem representados na exposição. Fiquei seduzido por este quadro:

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Na página do Musée d’Orsay, na lista de obras de Vuillard na coleção, o quadro aparece como tendo o título Tristan Bernard, conférencier. Na exposição, a placa ao lado da obra   explica um pouco mais, e não a fotografei, sendo esse o terceiro arrependimento em relação à minha ida ao CCBB.

Uma amiga, que vive rodeada de peças marcantes de arte e mobiliário brasileiros contemporâneos e visitou a exposição alguns dias depois de mim, me escreveu lá de dentro: “Ary, nem terminei a expo e estou quase em lágrimas”. A montagem bem-sucedida de uma exposição é assim: cria uma entidade própria, ainda que temporária, forte pela soma de seus componentes e capaz de nos dizer algo, talvez até sobre nós mesmos.

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Tracey Emin e eu

Em 1998, a artista britânica Tracey Emin criou uma obra de arte intitulada  My Bed, que era sua própria cama desfeita, os lençóis sujos, rodeada de objetos que normalmente ninguém mostra aos visitantes, inclusive preservativos. A artista estava em depressão na época.

 

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Tive a sorte de ver My Bed na retrospectiva consagrada a Tracey Emin em 2011, na Hayward Gallery, no South Bank, em Londres. Foi uma bela exposição e me arrependo de não ter comprado o catálogo. My Bed pertencia então a Charles Saatchi, que a vendeu em 2014 a um colecionador alemão. Está emprestada, por dez anos,  ao museu Tate Britain.

Procurando imagens da peça para reproduzi-la aqui, confirmei a dificuldade em remontá-la tal qual a cada exposição. As meias de nylon, particularmente, mudam constantemente de lugar sobre a cama. No meio de tanto detrito ao pé da cama, acho comoventes as presenças do cachorrinho branco de pelúcia e das pantufas.

A pergunta sobre se essa peça é uma obra de arte me pareceria perfeitamente absurda, pois não pode haver dúvida a respeito. Ao mostrar, de uma forma nova, inovadora, a realidade – a sua realidade – , Tracey Emin criou uma obra de arte (inclusive bela, a meu ver, mas o conceito de belo já não é necessário para definir uma obra de arte) e usou a arte para afugentar seus fantasmas.

Seria inconcebível para mim – e nem minha mulher deixaria –  viver nesse estado de bagunça.

E nem me ocorreria publicar fotos da minha cama. Achei, porém, que poderia mostrar minha mesa de cabeceira, para mim um universo tão importante (ainda que bem mais arrumado) quanto é sua cama para Tracey Emin.

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A foto no porta-retratos representa minha filha. O ocapi remete à minha infância, quando eu era fascinado com esse animal e sempre o procurava em zoológicos. Tinha um desses, como na foto, que se perdeu. Na idade adulta, comprei um novo, que desde então fica na minha mesa de cabeceira.

Passemos aos livros.

Na pilha da esquerda, de baixo para cima, estão:

  • O catálogo, presente de Beatriz Paredes, da espetacular exposição sobre os maias realizada em São Paulo, em 2014, que visitei.
  • Quatro dos livros que ganhei de presente de aniversário este ano: a edição fac-similar do Alguma Poesia do Carlos Drummond de Andrade, editada pelo Instituto Moreira Salles, que recebi de um casal de amigos (ela é minha amiga restauradora de livros, ele um dos meus amigos  mais antigos); o catálogo da exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (que visitei), presente de Cora Rónai; o livro de fotografias RioMarLisboaRio, presente de Carlos Leal; e  o livro Rio, Casas e Prédios Antigos (esse, não me lembro quem me deu).

Vejamos em detalhe a pilha da direita:

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De baixo para cima:

  • Mais um volume de Fernando Pessoa, comprado na Livraria da Travessa de Ipanema este ano.
  • As obras completas de Vauvenargues, um moralista que tem me interessado mais do que La Rochefoucauld. Tenho esse livro há anos e venho lendo trechos ocasionalmente.
  • Le Royaume, de Emmanuel Carrère, comprado em Paris em 2015, não lido ainda.
  • Dentro do envelope: uma peça do Gorki, na versão apresentada na Comédie-Française em 2015, quando a vi. Comprei a peça na livraria da Comédie-Française, para poder passar os olhos no texto antes da representação.
  • Love, Hate and Reparation, obra das psicanalistas Joan Riviere e Melanie Klein que já li algumas vezes. Ao longo dos anos, dei exemplares desse livro a vários amigos. Não sei por que está na mesa de cabeceira.
  • The Consolations of Philosophy, por Alain de Botton, onde venho gostando de fuçar de vez em quando.
  • Mudança, de Mo Yan, outro presente de Cora Rónai deste ano, não lido ainda. Desse autor, tenho e li uma tradução para o francês de O mapa do tesouro.
  • La raison des sortilèges, por Michel Onfray, um filósofo – no sentido francês da palavra – que já li muito, mas cuja prolixidade não tenho conseguido acompanhar. Ganhei o livro há poucos meses de um amigo  que nem sabia de meu antigo interesse por Onfray.
  • Uma seleção, em formato pequeno, fácil de levar em viagens, das cartas de Voltaire, sempre um consolo.
  • A agenda que (quase nunca) uso, a da Pléiade.

Embora arrumada, minha mesa de cabeceira se parece com a cama de Tracey Emin pela seguinte razão: não saberia dizer por que muitos desses livros estão sobre ela. Estou lendo livros no momento que não estão em nenhuma das duas pilhas. Outros livros comprados ou ganhos recentemente estão sobre outros móveis no quarto. Tudo isso é parte do mistério inerente a uma casa cheia de livros.

 

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