O leitor irresponsável

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Ocasionalmente, reaparece nas redes sociais um ensaio do escritor britânico Geoff Dyer sobre as suas dificuldades para ler ou terminar de ler livros.

Intitulado “Reader’s Block”, publicado originalmente em 2000, quando o escritor tinha 41 anos, o texto descreve o desânimo de Dyer ao olhar para as suas estantes e perceber que não deseja ler nenhum dos livros ainda intocados. E assim, compra outros, por não querer ler os que já possui. E continuará pensando, olhando para as estantes: “There’s nothing left to read“.

Dyer narra como, para passar o tempo em um vôo transatlântico, compra dois livros, cujos títulos aliás parecem paradigmáticos: O Leitor, de Bernhard Schlink, e A History of Reading, de Albert Manguel. O vôo termina, e nenhum dos dois foi lido. Justamente, tenho ambos os livros em casa, e não os li. O segundo foi presente de uma amiga querida, há muitos anos, e ele serve ao menos para me fazer pensar nela, quando vejo a lombada.

Geoff Dyer é um escritor que sempre leio com prazer e considero o primeiro livro que dele comprei, Out of Sheer Rage: Wrestling with D.H. Lawrence, publicado em 1997, um marco na literatura contemporânea. Nele, Dyer narra sua tentativa de escrever um estudo sobre D.H. Lawrence, o qual, por procrastinação, nunca consegue concluir ou mesmo começar na forma como planejara. A própria liberdade de tempo para escrever torna-se um empecilho: “I had nothing to keep me from writing my study of Lawrence, and so I never buckled down to it”. Lawrence é aliás um autor que nunca li, embora tenha em casa, desde o final da adolescência, Sons and Lovers e Lady Chatterley’s Lover, ambos esperando pacientemente que eu me dedique a eles.

Dyer procrastina também a releitura dos romances de Lawrence, o que poderia ser necessário para elaborar o estudo sobre o autor: “I thought, why should I? Why should I re-read this book [Women in Love] that I not only had no desire to re-read but which I actively wanted not to re-read“. Parece manifestar preferência pela correspondência e os poemas de Lawrence, mas na hora de viajar para uma temporada de seis semanas em uma ilha grega — onde, naturalmente, não conseguirá escrever nada —  indaga-se se deveria ou não levar uma edição dos poemas completos, que afinal será deixada para trás em Roma. Out of Sheer Rage, porém, consegue ser um comentário bem-sucedido sobre D.H. Lawrence e sua obra, uma reflexão sobre a literatura em geral e também uma autobiografia de Dyer. Alguns dos livros do autor foram traduzidos no Brasil, mas creio que não este, o meu predileto. Dyer expõe, em tom feroz e cômico, seus defeitos, suas antipatias e a intensidade de suas reações às coisas e às pessoas. Em um momento, ganha de presente um livro de ensaios acadêmicos sobre Lawrence, com títulos e temas pretensiosos, como “Alternatives to Logocentrism in D.H. Lawrence”, e queima o livro “in self-defence. It was the book or me because writing like that kills everything it touches“.

O texto de Dyer sobre seu bloqueio como leitor, sendo do ano 2000, pertence já à era digital, mas é anterior ao surgimento e à multiplicação das redes sociais. Estas, com seu oferecimento capcioso e constante de notícias, na maior parte do tempo sem interesse ou utilidade, atrapalham a imersão na leitura. Somos também tentados a aceitar oferta profusa de filmes e séries em nossos computadores. Dyer cita um ensaio do pensador George Steiner, que tenho — e li — intitulado “The Uncommon Reader”, o qual, embora publicado em 1978, portanto antes da era digital, critica “the near-dyslexia of current reading habits“. Steiner indica que já não lemos como nossos antepassados, inclusive pela falta de silêncio e solidão. O silêncio, segundo ele, e nisso concordo plenamente, tornou-se um luxo.

Em “Reader’s Block”, Geoff Dyer conta como, nascido em um ambiente de poucos recursos em uma cidade provinciana, único da família a gostar de ler e não tendo ainda viajado, para ele a leitura era, na juventude, a única forma de acesso a outros mundos. Aos 41 anos, escritor de sucesso, constata: “Reading, which gave me a life, is now just part of that life“.

Há períodos em que sofro de um bloqueio e leio menos do que gostaria. Isso notei, pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos, quando lamentei com um amigo estar atravessando uma fase em que, a meu juízo, eu estava lendo pouco. Acabara então de escrever meu primeiro — e até hoje único — romance. Tratava-se de uma história de amor passada entre o Rio de Janeiro e uma fazenda em Minas Gerais, na Zona da Mata, na época do Império. Era, vejo hoje, uma autobiografia, fora o fato de que eu não existia ainda no século XIX. Desencorajado pelo meu pai — ele mesmo escritor — que, com o objetivo de me incentivar foi, para minha sensibilidade adolescente, excessivamente crítico, procrastinei e nunca revisei o romance. “I blame my father”, informa Geoff Dyer, de repente, na página 143 de Out of Sheer Rage, quando não consegue montar um quadro de avisos de cortiça para a cozinha, comprado na IKEA.

Houve, desde a adolescência, outros períodos em que acusei a mim mesmo por não estar lendo o suficiente. Olho para as minhas estantes, suspiro e penso comigo mesmo: “Não tenho interesse por nenhum desses livros. Nenhum deles é o livro que quero ler”. O bloqueio de leitor é algo insuportável. Falta algo na vida, e não sei como preencher o vazio.

Naturalmente, coloca-se a questão do que seria “ler o suficiente”. Estou ciente de que não poderei nunca ler tudo o que espero. Sei também que nem sequer os 6.000 volumes na biblioteca de casa eu poderei ler. Segundo Steiner, não é um verdadeiro leitor aquele que “has not experienced the reproachful  fascination of the great shelves of unread books, of the libraries at night of which Borges is the fabulist“. A menção ao escritor argentino não poderia ser mais apropriada, já que boa parte da obra de Jorge Luis Borges, grande leitor, é um comentário sobre livros, bibliotecas e outros autores.

Romances curtos às vezes me causam um bloqueio, enquanto que posso ler relativamente rápido livros longuíssimos, totalmente imerso no texto. Guerra e Paz — 1.620 páginas na tradução que prefiro, em francês, por Henri Mongault, editada pela Gallimard na Pléiade — é a leitura mais deliciosa que jamais fiz. Sonho com uma vida em que eu pudesse ininterruptamente ler o romance de Tolstoi e recomeçá-lo em seguida, em um ciclo constante. À la recherche du temps perdu é uma leitura e releitura de toda a vida. Abri o primeiro tomo aos 11 anos, fiquei fascinado, e nunca mais parei. Releio sempre os quatro primeiros tomos. Lembro de frases de cor, cito falas dos personagens, que eu pareço conhecer como figuras do meu cotidiano. Sei onde encontrar meus trechos prediletos, e esses eu releio sem parar. Durante muito tempo, porém, senti não estar maduro para os três últimos tomos. Há alguns anos, eu os li pela primeira vez, e a obra toda ganhou nova dimensão, e a minha vida junto.

Após a morte do romancista canadense Robertson Davies, em 1995, lançou-se uma coletânea de palestras suas sobre literatura e leitura. Nem que fosse apenas pelo seu título — The Merry Heart — seria impossível não ficar indiferente ao livro. Davies dá um conselho simples: se não está gostando do livro, pare de lê-lo; a vida é muito curta para passá-la lendo algo que não desperta seu interesse. Montaigne, em seus Essais, diz o mesmo, no capítulo sobre livros. Afirma querer passar “doucement, et non laborieusement, ce qui me reste de vie“. Por isso, busca na leitura “prazer, por meio de uma diversão honesta”. Se a leitura apresenta alguma dificuldade, ou é tediosa, ele evita angustiar-se a respeito (“je n’en ronge pas mes ongles“) e deixa o volume de lado, ao menos temporariamente.

Robertson Davies considera-se “um leitor irresponsável” (“a rake at reading”). Diz ele: “I have read those things which I ought not to have read, and I have not read those things which I ought to have read“. Como suas leituras deveram muito ao acaso e ao seu faro, Robertson Davies estima que, se vivesse de novo, não leria necessariamente os mesmos livros, pois outros apareceriam frente a ele.

Davies formula percepções que todo leitor contumaz, dentro de si,  sente com relação à leitura. Segundo ele, “books choose us” e “we find, and are found by, the books we need to enlarge and complete us“. Acredita que, mesmo quando nos deixamos guiar pelo acaso em nossas leituras, “The inward spirit, I am convinced,  knew very well what it was doing“. Essa frase lembra um comentário de Borges: “Un libro es una cosa entre las cosas, un volumen perdido entre los volúmenes que pueblan el indiferente universo, hasta que da con su lector, con el hombre destinado a sus símbolos. Ocurre entonces la emoción singular llamada belleza”.

Pesquisando na minha biblioteca, vejo que muitos escritores se detiveram sobre o que significa ler. Parece ser um tema recorrente. Talvez isso seja natural, já que um autor superlativo foi, em algum momento ao menos, também um leitor atento.

Italo Calvino publicou em uma revista italiana de notícias, em 1981, artigo incentivando os italianos a ler os clássicos — texto hoje conhecido como Perché leggere i classici — mas é no “romance” Se una notte d’inverno un viaggiatore que ele analisa em detalhe o que é ler e escrever um livro. O personagem principal, Leitor, começa a ler dez romances, que nunca chega a acabar, porque as cópias são todas defeituosas ou incompletas. No início da obra, Calvino dá as várias razões — pouco menos de vinte — pelas quais livros não são comprados ou lidos. No final, Leitor conversa em uma biblioteca pública com outros leitores sobre como encaram a leitura. O “quarto leitor” diz exatamente o que eu mesmo penso: “cada novo livro que leio passa a ser parte do livro global e unitário que é a soma de todas as minhas leituras”.

Em 1905, Proust publicou, com o título de “Sur la lecture, um texto encantador. Redigido para servir de prefácio à sua tradução de um livro de John Ruskin, “Sur la lecture (conhecido depois como “Journées de lecture) inicia-se com a descrição de Proust, criança, em sua atividade como leitor durante o verão na casa dos tios, que podemos ainda hoje visitar em Illiers-Combray. A primeira frase diz que os dias da infância passados com um livro predileto são os que foram vividos mais intensamente. Isso já dá o tom. As atividades que o obrigam a parar de ler — almoço, jantar, passeios com a família — parecem longas. Em algum momento, porém, a leitura do livro termina. Proust descreve a saudade dos personagens que aí surge. “Então, é isso? […] Esses seres aos quais tínhamos dado mais de nossa atenção e de nosso carinho do que às pessoas da vida real […] nunca mais as veríamos, nunca mais saberíamos nada delas”.

Várias páginas depois, Proust afirma ser a leitura “uma amizade sincera”, da qual não fazem parte as “mentiras” necessárias nas relações com as outras pessoas. O texto termina com a observação de que escritores frequentemente preferem ler os clássicos, e não seus contemporâneos. Como leitor, tenho a mesma predileção e, se não li alguns dos livros nas minhas prateleiras, às vezes é simplesmente porque eles são ainda muito recentes. Os clássicos, nos diz Proust, “contêm todas as belas formas de linguagem abolidas, que guardam a lembrança de usos ou formas de sentir que já não existem”. E aqui, Borges pode nos ajudar a completar o pensamento proustiano. Em palestra que deu na Universidade de Belgrano em 1978, ele declarou: “Cada vez que leemos un libro, el libro ha cambiado, la connotación de las palabras es otra. Además, los libros están cargados de pasado […] Hamlet no es exactamente el Hamlet que Shakespeare concibió a principios del siglo XVII […] Hamlet ha sido renacido […] Los lectores han ido enriqueciendo el libro […] Si leemos un libro antiguo es como si leyéramos todo el tiempo que ha transcurrido desde el día en que fue escrito y nosotros“.

Em Les Rêveries du promeneur solitaire, redigidas em seus dois últimos anos de vida, Rousseau inicia o “quarto passeio” dizendo: “Dentre os poucos Livros que ainda leio às vezes, Plutarco é aquele que me prende e me traz mais benefícios. Foi a primeira leitura da minha infância, será a última da minha velhice”. Rousseau sofria de misantropia e mania persecutória. Cabe lembrar que o “primeiro passeio” inicia-se com a célebre frase: “Estou, assim, sozinho na Terra, não tendo outro irmão, próximo, amigo, sociedade além de mim mesmo. O mais sociável e mais amoroso dos homens dela foi proscrito por uma decisão unânime”. É fascinante, por isso, ver o filósofo, na velhice, voltar à leitura predileta dos seus primeiros anos como leitor, como se estivesse preservando uma amizade.

Tolstoi fugiu de casa abruptamente, em estado de agitação mental, aos 82 anos, na madrugada do dia 28 de outubro de 1910. Na noite do mesmo dia, escreve carta, de uma estação de trem, à sua filha Alexandra, pedindo que lhe enviasse, ou se viesse vê-lo trouxesse com ela, os seguintes livros, que estivera lendo antes de fugir: os Essais de Montaigne, Os Irmãos Karamazov, o romance Une Vie, de Maupassant, e o livro espiritual de um autor russo, P.P. Nikolayev. Tolstoi morreria em 7 de novembro, em outra estação de trem, Astapovo. É comovente a necessidade que sentiu, na reta final, de ter consigo os livros que estava lendo.

Tanto no seu ensaio “Reader’s Block” como em Out of Sheer Rage, Geoff Dyer parece apontar para o fato de que, à medida que envelhecemos, lemos menos, inclusive pela razão que ele dá, de que a leitura deixa de ser a vida, e passa a fazer parte da vida. Outro escritor britânico, Alan Bennett, em um romance cômico de 2007 e intitulado, como o ensaio de George Steiner, The Uncommon Reader, apresenta o oposto: um personagem que nunca leu e, de repente, na idade madura, vira um leitor obstinado e maníaco. Esse personagem é, nada mais, nada menos, do que Elizabeth II. Sim, ela própria. Bennett, em um dos livros mais engraçados que já li, imagina que a Rainha da Inglaterra, pouco a pouco, vira uma ávida leitora e passa a ler tudo, romances, poesia, biografias, peças de teatro. Em um jantar de gala que oferece ao Presidente da França no castelo de Windsor, a rainha decide conversar sobre Jean Genet, para constrangimento de seu hóspede, que nunca leu o autor. Ao passar a ser uma grande leitora, única entre seus conhecidos, a rainha causa problemas. Como comenta seu secretário particular, ler é uma atividade excludente, pois embora todos saibam ler, ninguém na verdade lê.

Pouco a pouco, Elizabeth II volta a ler menos. A leitura já não é uma necessidade. Agora, sente que precisa escrever. De início, o primeiro-ministro se anima: um livro popular, indolor sobre a juventude da rainha, a Segunda Guerra Mundial, seu casamento, um bestseller. Logo vem o temor, ao perceber que não é isso. A rainha tem em mente “something more radical. More… challenging“. Na verdade, inspira-se em Proust e deseja emular o Narrador de La Recherche, que “looks back on a life that hasn’t really amounted to much and resolves to redeem it by writing the novel, which we have just in fact read“.

Esta, afinal, é a mensagem de todo escritor: a de que escrever é a verdadeira vida, é o que permite processar, por em ordem as experiências atravessadas, que incluem, também, as leituras feitas. O bloqueio do leitor, assim, pode ser sintoma de que é chegado o momento de escrever.

(Este ensaio foi primeiro publicado na edição de junho do jornal literário Rascunho)

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De Gaulle e o Príncipe Valente

De Gaulle e o Príncipe Valente

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Em junho, presenciei a morte de uma biblioteca. Minha mãe decidiu instalar-se em um apartamento menor do que a casa onde morara por onze anos. Na sua idade, espaços grandes, que ficam facilmente inacessíveis, já não fazem sentido. A casa rodeada de verde, debruçada sobre o mar, tornara-se inadequada, apesar da beleza do cenário.

Objetos, móveis tiveram de ser sacrificados por causa da mudança. Livros também. A biblioteca da casa continha mais de dois mil volumes. Apenas cerca de mil poderiam ser levados para o apartamento. Minha irmã e eu ajudamos nossa mãe a separar os que ela considerava essencial preservar. O que fazer da outra metade? Juntos, Titina e eu decidimos ficar com uns cento e cinquenta livros. Mais do que isso não seria razoável. Em casa, minha mulher e eu temos já seis mil; e Titina mora desde sempre no Chiado, em Lisboa, com a sua própria biblioteca.

Para examinar os restantes oitocentos, novecentos volumes, chamei, sucessivamente, quatro livreiros cariocas. O primeiro retirou da casa pouco mais de cem obras. Interessou-se sobretudo por literatura brasileira, em especial os exemplares que possuíam dedicatória para meus pais, e livros de História do Brasil. Opinou que muitos dos livros autografados eram de autores já não tão lidos. Tentei valorizar os de Fernando Sabino. Todos eles, na biblioteca, continham autógrafos para meu pai, minha mãe, ou ambos, ou mesmo para nós, os filhos. Na minha infância, Sabino era o modelo do escritor de sucesso, um cronista divertido, além de ser dono de uma personalidade carismática.

Lembro dele com afeto, embora, ao falar em mim em uma de suas crônicas no jornal, Fernando Sabino tenha me transformado em exemplo de jovem cansativo, de tão opiniático. Fui tirado de meus pensamentos pelo livreiro, que declarou: “Eu gostava do Fernando Sabino, nós nos dávamos bem, ele era um cara muito legal, mas a dedicatória dele não acrescenta nada. Ele costumava aparecer na feira de livros, quando ela se instalava em Ipanema, na praça Nossa Sra. da Paz. Ficava de papo com todo mundo, sempre simpático, e assinava livro para quem pedisse. A coisa que mais há no Rio é livro com dedicatória dele”. Decidi, na hora, ficar com os exemplares autografados pelo Sabino.

O segundo livreiro comprou talvez uns trezentos volumes. Interessou-se inclusive por aqueles em inglês e francês, sobretudo os de História e de relações internacionais. Alegou que livros de arte caros, ainda mais em outras línguas, já não são comprados. Pagou em média 4 ou 5 reais por cada volume que retirou da casa. Já no dia seguinte, vi na página eletrônica de sua livraria que um dos livros fora imediatamente revendido por 125 reais. Reagi de forma racional a respeito. Aquela obra, aliás nova, intocada, nada significava para mim, em termos afetivos, literários ou editoriais. A surpresa é que pudesse valer tanto para alguém.

O terceiro livreiro só se interessou por cinco volumes, em formato grande, com as aventuras de Flash Gordon e do Príncipe Valente, que décadas atrás haviam sido de meu pai. Declarou: “Essa é a biblioteca típica de quem fala muitas línguas. Já vi outras assim. São todos livros bons, interessantes, mas que não têm saída aqui no Rio”. Meditei, posteriormente, sobre esse esnobismo revertido.

O quarto livreiro era certamente o mais desprendido. Ele é conhecido por vender livros usados por uma ninharia, em uma barraca perto de uma estação de metrô no Centro do Rio, com o objetivo de incentivar as pessoas a lerem enquanto usam o transporte público, em vez de ficarem obsessivamente nas redes sociais. Chegou, olhou por alto as centenas de obras restantes e declarou que as levaria todas, mesmo aquelas em russo e alemão.

Depois do divórcio dos meus pais, duas bibliotecas haviam sido formadas, a dele — relativamente pequena, pois ele passara a morar em apartamento, sozinho — e a dela. Quando ele morreu, em 1999, minha irmã já morava há muitos anos em Lisboa, e eu morava em Quito. Parecera natural que colocássemos seus pertences em um depósito. Quando minha mãe comprou a casa na Pedra da Gávea, transferimos para lá as coisas dele, e colocamos seus livros junto aos dela.

Às vésperas da vinda do primeiro sebista, ao final da tarde, vi-me sozinho em um dos quartos da biblioteca, na verdade um longo corredor com estantes cobrindo integralmente uma das paredes mais compridas. Peguei uma cadeira e sentei-me frente à seção onde Titina e eu havíamos concentrado os livros a serem vendidos. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos segurando a cabeça, olhando as estantes, fui tomado de grande tristeza. Essa era a biblioteca com a qual eu crescera. Esses haviam sido os primeiros livros que eu lera. Criança, adolescente, eu os folheara incessantemente. Muitos haviam sido incorporados em datas posteriores, quando eu já era adulto, e eu os lera ao visitar minha mãe.

Sentado no silêncio e na penumbra da biblioteca, pensei em me revoltar, em levar comigo os livros todos que minha mãe se obrigara a descartar. Essa opção, porém, não era razoável. Não há como fazer crescer uma biblioteca repentinamente, de uma só vez, de seis mil para sete mil volumes. Olhei para as estantes como quem está pondo fim a um romance, ou se despedindo para sempre de um parente ou de um amigo. Aqueles livros haviam marcado a minha vida, formado a minha mente, gerado em mim uma primeira visão do mundo, das pessoas. Em retrospecto, eu via que refundir as bibliotecas de meus pais havia sido uma forma de anular seu divórcio, refazer o quinteto familiar, recuperar a infância e suas esperanças. Abandoná-los era como uma traição, renunciar a algo que fora bonito.

Cheguei a retirar volumes adicionais das estantes, para guardá-los comigo. Em seguida, recoloquei-os de volta. Valia a pena agarrar-me à edição em Livre de Poche, antiga e surrada, das Memórias de Charles de Gaulle? Sem dúvida, é facílimo conseguir novas edições, melhores e comentadas, por exemplo da Pléiade. Aquele, porém — velho, com a capa machucada, as páginas amareladas — era o exemplar com o qual eu crescera, que acompanhara minha vida, e mesmo a dos meus pais. Segurei nas mãos os dois volumes da biografia do presidente Rodrigues Alves por Afonso Arinos de Mello Franco, na edição original, de 1973, pela editora José Olympio. Sem dúvida, eu já não teria tempo de reler esse livro. Desde criança, porém, os dois volumes, um de capa vermelha, o outro de capa verde, me fascinavam. Saber que eu já não os veria, não os folhearia, era sentir como uma perda. O quarto livreiro levou o General de Gaulle e o Rodrigues Alves de Afonso Arinos.

No último momento antes da visita do primeiro sebista, retive uma primeira edição de Carlos Drummond de Andrade com uma dedicatória para meu pai. Entre as visitas do terceiro e do quarto sebista, decidi guardar também livros de Vinicius de Moraes, sem autógrafos.

Duas semanas depois, minha mãe instalou-se no novo apartamento. Minha mulher e eu fomos ajudá-la. Uma das providências necessárias era arrumar as estantes. Mesmo reduzida à metade, a biblioteca deu-nos trabalho por vários dias. Abrir caixas, limpar prateleiras, categorizar os livros, rearranjá-los à medida que novos volumes surgiam representou esforço grande.

O resultado foi surpreendente. Livros de que eu não me lembrava reapareceram. Livros que eu nunca notara seduziram-me. Várias vezes, interrompendo a arrumação, sentei-me para folhear uma obra até então desconhecida ou esquecida. Terminado o trabalho, olhei feliz para as estantes. Havia ali mais luz do que no corredor sem janela da casa sobre o mar. Recolocados em um novo ambiente, em ordem diferente nas estantes, iluminados de forma natural, os volumes remanescentes pareceram ter adquirido nova existência. Eram os mesmos livros, mas era outra biblioteca.

Era uma nova entidade. Era uma nova verdade. Era a promessa de uma nova vida.

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The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

The Aspern Papers – de Henry James a Julien Landais

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Em 1885, venderam-se em leilão, em Londres, 35 cartas escritas por John Keats à sua noiva, Fanny Brawne. Após a morte do poeta aos 25 anos, em 1821, Fanny casara-se, tivera filhos e morrera em 1865, aos 65 anos. Um de seus filhos vendeu as cartas, as quais aliás já haviam sido publicadas em 1878. Alguns admiradores de Keats condenaram a publicação e a venda, julgando que as cartas jogavam luz menos sublime sobre sua personalidade. Estimaram que a transparência com que Keats escrevera a Fanny Brawne não se podia compartilhar com as multidões.

Oscar Wilde assistiu ao leilão e, aparentemente, comprou ao menos uma das cartas. Isso não o impediu de escrever, um dia antes, um famoso soneto, intitulado On the Sale by Auction of Keats’ Love Letters, onde critica a venda, declarando: “I think they love not art/Who break the crystal of a poet’s heart/That small and sickly eyes may glare and gloat”. O soneto, além de sua beleza intrínseca, permanece relevante como apelo ao direito à vida privada do artista.

Três anos depois, em 1888, Henry James publicou uma de suas melhores novelas, The Aspern Papers. Na estória, um Narrador americano, nunca nomeado, fervoroso admirador e estudioso da obra de um poeta, compatriota seu, Jeffrey Aspern, visita Veneza em busca de cartas ou documentos escritos pelo seu ídolo. Aspern, como inventado por Henry James, é um poeta da Era Romântica, contemporâneo de John Keats, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley e que, como eles, morrera jovem, cerca de sessenta anos antes. Mantivera na Europa um romance com uma americana, Juliana Bordereau, que vive, anciã e solteira, em um palazzo em Veneza, na companhia de uma sobrinha, também solteira, nomeada Tita em 1888, e Tina nas edições posteriores. O Narrador acredita que os documentos inéditos de Aspern conservados por Juliana contribuiriam para um maior conhecimento da personalidade do poeta e compreensão de sua obra.

O conto de Henry James pode ser visto como uma crítica ao fato de o limite entre o privado e o público tornar-se fluido por causa da fama — no caso, a literária, pois essa era uma época em que poetas e romancistas podiam ser verdadeiras celebridades. A quem pertencem as cartas escritas por Jeffrey Aspern a Juliana Bordereau? A ela própria; à imagem do poeta a ser preservada; ou ao seu público de idólatras, dos quais o Narrador do conto é o sacerdote? Claramente, o Narrador acredita que ele, ao menos, tem o direito de ler as cartas, na qualidade de principal especialista em Aspern. Questões ligadas à privacidade são um dos temas da novela, a qual, como sempre no caso de Henry James, possui vários níveis de leitura.

Sabemos de onde veio a inspiração para a redação de The Aspern Papers. Nos cadernos onde anotava ideias para futuras obras, em janeiro de 1887 Henry James, que estava então em Florença, relata ter ouvido uma estória ocorrida naquela cidade anos antes. Um crítico de arte e “Shelley-worshipper” americano, Edward Silsbee, soubera que Claire Clairmont, a ex-amante de Byron — e talvez também de Shelley, casado com sua hermanastra, Mary Godwin, a autora de Frankenstein — morava, aos 80 anos, em Florença, na companhia de uma sobrinha de cerca de 50 anos. O admirador de Shelley introduziu-se como locatário na casa de tia e sobrinha, na esperança de, quando Claire Clairmont morresse, colocar as mãos em cartas de Shelley e Byron que ela guardava. Claire morreu em 1879; a sobrinha declarou que daria as cartas a Silsbee se eles se casassem. Silsbee fugiu. Comenta Henry James nos seus cadernos: “Certainly there is a little subject there: the picture of the two faded, queer, poor and discredited old English women — living on into a strange generation, in their musty corner of a foreign town — with these illustrious letters their most precious possessions“.

A novela segue o mesmo roteiro. Henry James a escreveu em Veneza, ao longo de 1887, o que contribuiu para tornar particularmente crível a evocação da cidade no texto. Minha frase predileta talvez seja a seguinte, referente a um passeio noturno de gôndola que fazem Tina Bordereau e o Narrador, inclusive pelo Canal Grande: “She had forgotten how splendid the great water-way looked on a clear, hot summer evening, and how the sense of floating between marble palaces and reflected lights disposed the mind to sympathetic talk. We floated long and far […]“. A novela, para padrão de Henry James, possui estilo e diálogos diretos. Como, além disso, trata da apropriação que admiradores de um artista fazem de sua obra e de sua vida pessoal, entende-se que The Aspern Papers tenha inspirado escritores, músicos e diretores de cinema. A estória já foi levada às telas de cinema ao menos cinco vezes e já gerou ao menos duas peças de teatro, além de duas óperas.

Há muitos anos, em 1984, assisti em Londres a uma das versões teatrais da novela. No palco, Vanessa Redgrave interpretava a sobrinha, Tina Bordereau. Christopher Reeve, no auge da fama hollywoodiana, por causa da série de filmes em que interpretava o papel de Super-Homem, fazia o Narrador. Juliana Bordereau era interpretada por Wendy Hiller, famosa em seu tempo, nas telas como nos palcos. Essa adaptação teatral fora produzida originalmente em 1959, e seu autor era o pai de Vanessa, Michael Redgrave, que interpretara o Narrador na produção original. Na versão teatral, o Narrador ganhava um nome, Henry Jarvis, tendo portanto as mesmas iniciais de Henry James, misturando assim criador e personagem.

Guardo ainda o programa da produção londrina de 1984, onde vejo que escrevi ter preferido versão cinematográfica da novela, intitulada Aspern, a que assistira pouco tempo antes, dirigida por Eduardo de Gregorio e estrelada por Alida Valli como Juliana, Bulle Ogier como Tina e Jean Sorel como o Narrador. Eu era então muito, muito jovem, e sentia uma paixonite por Bulle Ogier. Além disso, desde sempre admiro o talento de Alida Valli e seus olhos profundos e acariciantes. A Arte, porém, nos prega peças. Passadas tantas décadas, eu já nem me lembrava dessa versão cinematográfica, até ler, há poucos dias, meus comentários a respeito no programa da peça. Mesmo agora, nenhuma imagem do filme me vem à cabeça. Da produção teatral, de que manifestei no programa não ter gostado, nunca me esqueci.

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The Aspern Papers chega às telas novamente, em uma versão dirigida por Julien Landais, baseada em uma adaptação francesa, para o teatro, de Jean Pavans, que colaborou com Landais e Hannah Bhuiya no roteiro do filme. Vanessa Redgrave, que vi no palco como a sobrinha, na versão teatral escrita por seu pai, vive agora a tia. Sua filha, Joely Richardson, vive a sobrinha. Jonathan Rhys Meyers faz o papel do Narrador.

Como a crítica tem sido severa com o filme, direi imediatamente que gostei da versão de Landais. Em seu primeiro longa-metragem, o ex-modelo — de que eu nunca ouvira falar até assistir ao filme — foi ambicioso e é provável que não possuísse ainda a experiência para reciclar uma obra tão complexa e já mastigada por tantos artistas antes dele. Há, contudo, muito a ser recomendado nesta nova adaptação da obra-prima de Henry James. Antes de mais nada, os diálogos são fiéis à novela, da qual frases inteiras foram transpostas ao filme. Landais manteve a ação no período histórico em que a estória de Henry James se desenvolve, os anos 80 do século XIX. O palazzo veneziano ajardinado que inspirou James para descrever a residência das Bordereau foi usado como cenário. Algumas inovações de Julien Landais são bem-vindas, como atribuir papel maior à amiga do Narrador, Mrs. Prest, em uma brilhante atuação de Lois Robbins. O diretor criou novos personagens  — como uma filha e uma amiga para Mrs. Prest, e uma filha para essa amiga — que nada acrescentam ao desenrolar do enredo, mas permitem a inserção de novos cenários e diálogos e rompem a claustrofobia das cenas no palazzo das senhoras Bordereau. Alguns puristas, aliás, se irritarão com isso, pois o aspecto claustrofóbico é importante na novela.

Outra inovação foi decididamente pouco benéfica para o filme. Julien Landais insere cenas em flashback mostrando o romance entre Jeffrey Aspern e Juliana Bordereau. Vai além, e cria a figura de um “segundo poeta”, que vive com o casal um triângulo amoroso. Essas cenas são banais e desnecessárias. Vemos o trio beijando-se, dançando, os três com ar melancólico, suspirando. No final do filme, quando Tina Bordereau sente-se rejeitada pelo Narrador, queima as cartas de Aspern mas antes lê algumas em voz alta. Seu teor, totalmente inventado pelos roteiristas, mostra que Aspern, nesta versão cinematográfica, amava o “segundo poeta” ao menos tanto quanto amava Juliana Bordereau. Os roteiristas parecem assim ter querido fazer, na figura de Jeffrey Aspern, um condensação de Byron, Keats e Shelley. Inventam a forma como morreu Aspern, afogado como Shelley. Ele é bissexual, como Byron. E quando vemos seu rosto em uma miniatura, reconhecemos imediatamente a pose de Keats em um famoso retrato.

Este é um filme que parece ter sido feito para que Julien Landais se divertisse com seus amigos. Nos créditos, entre os produtores aparecem o príncipe Charles-Henri de Lobkowicz, François Sarkozy (irmão do ex-presidente da França) e James Ivory, que no passado dirigiu adaptações melhores de obras de Henry James, inclusive, em 1984, The Bostonians, com Vanessa Redgrave e Christopher Reeve. Entre os atores, nos pequenos papéis inventados pelos roteiristas, ou fazendo apenas uma breve aparição, há outros sobrenomes ilustres: Daphne Guinness, Poppy Delevingne, Morgane Polanski (filha de Roman Polanski e de Emmanuelle Seigner), além de modelos aparentemente muito famosos. Em resumo, se você pertence à elite social, econômica, cinematográfica ou do mundo da moda na Europa, suas chances de estar envolvido nesse projeto de Julien Landais eram bem grandes. É fácil, porém, tratar tudo isso com esnobismo intelectual. A verdade é que a participação de Poppy Delevingne no papel, criado para essa adaptação, de amiga de Mrs. Prest, signora Colonna, é irresistível. Morgane Polanski e Barbara Meier, nos papéis de filhas da signora Colonna e de Mrs. Prest, trazem um pouco de brisa e esperança a uma estória que é, também, sobre as desilusões acumuladas em toda vida humana ao longo do tempo.

Além da infeliz ideia de mostrar flasbacks do triângulo amoroso inventado por ele, Landais tomou outra iniciativa que prejudicou o filme: escalar Jonathan Rhys Meyers como o Narrador. O ator aparece em praticamente todas as cenas. Irlandês de nascimento, deram-lhe um acento americano carregado, nunca ouvido antes em filme algum. Sua atuação é artificial, pouco convincente, empostada, e parece a de um adolescente sem talento em produção teatral em final de ano na escola. Estamos longe do talento que aparentara ter em 2005, em Match Point, dirigido por Woody Allen. Ele é um dos muitos produtores executivos listados nos créditos em The Aspern Papers. Terá Julien Landais sido obrigado a aceitar essa terrível interpretação? Ou terá a atuação de Jonathan Rhys Meyers sofrido as consequências da inexperiência de Julien Landais atrás da câmera?

Em compensação, temos direito à presença na tela de Vanessa Redgrave e Joely Richardson. Mãe e filha dominam o filme. Justificam a ida ao cinema. No palco no papel de Tina, em Londres, há tantos anos, Vanessa Redgrave não me convenceu. Era uma presença forte demais para representar uma mulher desinteressante. Na tela, como Juliana, ela é impressionante. É magistral a forma como, em uma cena, dialogando com o Narrador, apenas levantando um dos dedos ela cativa a atenção. Estamos na presença de uma atriz excepcional, mítica, com décadas de experiência nos palcos e nas telas, herdeira de ilustre tradição familiar e que não decepciona. Ao contrário, ela recompensa o público que, há muitos anos, acompanha sua carreira, e dá a entender que tudo o que vimos até aqui era apenas uma preparação para a sua Juliana Bordereau.

Joely Richardson é surpreendente como Tina Bordereau. Mostra a força, a capacidade de sedução da personagem, mas também sua vulnerabilidade, a inocência, a retidão. Enquanto que a novela termina reiterando a frustração do Narrador, tempos depois, pelo fato de nunca ter colocado as maõs nas cartas de Aspern, no filme o que vemos na última cena é a libertação de Tina. Partindo de Veneza em uma gôndola, ela joga na laguna o anel que fora da tia e, antes dela, de Jeffrey Aspern. Sorrindo, abandona o passado. Recomeçará a vida em outra parte, sozinha mas talvez feliz de não ter tido êxito na tentativa de amarrar o seu destino ao do medíocre Narrador.

The Aspern Papers – Ficha técnica IMDb

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O Mar por toda parte

O Mar por toda parte

Passei este ano o melhor Carnaval do mundo: com a minha mulher, na casa onde nos casamos, na beira da praia, acompanhados por silêncio e tranquilidade, rodeados pelo oceano de um lado e pela Mata Atlântica do outro.

Levei comigo alguns livros, mas isso não teria sido necessário, pois a casa contém, ainda intacta, a biblioteca secundária de meus sogros. Na postagem O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks aludi a essa casa. O que não disse, naquela ocasião, é que o prazer de lá estar, ao longo dos anos, inclui o de mergulhar em sua biblioteca. Fico lendo na praia, na varanda, à beira da piscina ou na sala onde me casei, de onde observo, pelas paredes de vidro, o sol se levantar ou cair no horizonte, ouvindo e vendo o mar.

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Ao longo de sucessivos férias e feriados na praia, passei dos romances de F. Scott Fitzgerald — foi nessa casa que aprendi a gostar dele — à monumental biografia, em quatro volumes, do primeiro duque de Marlborough, John Churchill, escrita por Winston Churchill, seu descendente, e publicada entre 1933 e 1938. Um volume, aliás, o segundo, desapareceu. Sempre me pergunto onde terá ido parar. No Carnaval, toquei no assunto com a minha mulher, que respondeu, meditativamente: “Não sei. Ninguém sabe. Sumiu faz muito tempo”. Isso só confirmou minha opinião de que os livros possuem vida própria.

Marlborough: His Life and Times voltou a despertar minha atenção recentemente, porque o duque e sobretudo sua mulher, Sarah Jennings, são personagens do extraordinário filme de Yorgos Lanthimos, The Favourite, que era meu preferido na corrida ao Oscar. O filme oferece uma visão pessoal do diretor sobre a relação entre Sarah e a rainha Anne, que reinou de 1702 a 1714. Lembrando que a amizade entre elas começara na infância e fora durante décadas “deep and strong“, Churchill nos diz que em 1709 essa relação já estava desgastada: “Nothing remained of that remarkable partnership except the opportunities of quarrel“, o que atribui à personalidade forte e difícil de sua antepassada.

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Winston Churchill, neto do sétimo duque de Marlborough — e nascido no palácio de Blenheim, a pouco modesta casa de campo da família, construída pelo primeiro duque e Sarah — ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1953, escreveu com a biografia de seu antepassado uma obra monumental. A edição da casa de praia, embora tenha cerca de mil páginas, é abreviada. O original chega ao dobro. É uma leitura fascinante. John Churchill foi um celebérrimo e vitorioso general na Guerra de Sucessão da Espanha. Na visão de seu descendente, suas vitórias fizeram do reinado de Anne um dos momentos mais ilustres da história inglesa.

Churchill examinou nos arquivos de Blenheim as cartas de amor escritas por John Churchill a Sarah, entre 1675 e 1677. Os dois eram então jovens, solteiros, vivendo o início da paixão e, embora exercessem ambos cargos na Corte do rei Carlos II, tio da futura rainha Anne, não detinham ainda o poder e o prestígio que teriam mais tarde. É comovente ler as cartas onde expõe seu coração o futuro duque e general, que chegou a ser, durante algum tempo, o homem público mais importante do país. Escreve John Churchill à ainda adolescente Sarah Jennings: “É cruel, minha Alma, ser forçado a estar em um lugar sem que eu possa ter a esperança de vê-la”; “Assim que eu soube de seu mal-estar, juro, sem afetação, que também fiquei doente”; “Se você não for gentil comigo, eu a amo tanto que não poderei sobreviver, pois você é minha vida, minha alma, tudo que eu mais valorizo neste mundo”.

Há muito tempo, outras cartas chamavam minha atenção na biblioteca. Elas estão contidas em um volume de capa dura que, com a lombada branca meio surrada, na foto abaixo aparece na prateleira do meio, ao lado de Galápagos, de Kurt Vonnegut, um dos autores de predileção de minha sogra e, aliás, também de meu pai. Trata-se de uma edição de 1949, na coleção Clássicos Jackson, das cartas do Padre Antonio Vieira.

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O pregador, grande favorito de minha mulher, começou a me interessar no início do nosso namoro, pois ela já possuía então a edição de 1959 dos Sermões, em cinco volumes, em papel bíblia, pela editora Lello & Irmão, do Porto. É nessa edição que acabo de ler, por exemplo, o Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma de 1644, em que o autor disseca os sentimentos de amor, amizade e ódio e suas correlações. Diz ele: “Isto que no mundo se chama amor, é uma coisa que não há, nem é: é quimera, é mentira, é engano; é uma doença da imaginação e por isso basta para ser tormento”. De maneira geral, os sermões de Vieira que abordam os temas de amor ou amizade postulam que todo afeto terrestre é uma ilusão. Um argumento frequente seu, pode-se resumir, é que só Jesus sabe amar e, por isso, só ele merece o nosso amor.

Entre as setenta cartas incluídas no livro da biblioteca da praia, porém, vemos em várias um Vieira afetuoso. Carta escrita em 1653, do Maranhão, ao Padre Francisco de Morais termina da seguinte maneira: “Ah amigo, quem pudera trasladar-vos aqui o coração, para que lêsseis nele as mais puras e as mais importantes verdades, não só escritas ou impressas, senão gravadas”. Trinta anos depois, em 1683, da Bahia, Vieira escreve ao Cônego Francisco Barreto: “A falta de carta de V. Mcê, em tanta continuação de navios, me tinha muito sentido, posto que não desconfiado, como quem tão seguro está na verdade do afeto de V. Mcê”.

Dependendo do interlocutor, do momento, do local onde foram escritas, das circunstâncias históricas, as cartas mostram Antonio Vieira preocupando-se com política, economia, diplomacia, religião, catequese e direitos de indígenas brasileiros, etnografia, profecias, amizade. O que nunca vemos nas cartas é Antonio Vieira frio, indiferente. Há uma intensidade constante. Nas cartas, como nos sermões, há no tom uma teatralização do mundo.

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Vieira era um temperamento peripatético. Em uma ocasião, há alguns anos, lendo as cartas na praia, listei os muitos lugares onde ele esteve, além de Portugal: Bahia, Maranhão, Pará, Ceará, Olinda, Cabo Verde, Roma, Haia, Dover, Florença, Paris, Rouen, Açores.

Ouvindo as ondas morrerem quase que no muro do jardim, eu ficava maravilhado com a coragem com que Vieira, no século XVII, subia aos barcos frágeis do seu tempo. Sete vezes, ele atravessou o Atlântico; sofreu tempestades, naufrágios e o desconforto de viagens que podiam durar dois meses, e bem mais se surgiam contratempos. Ao menos duas vezes, ele foi recolhido por piratas.

Em dezembro de 1652, o barco em que ia de Portugal ao Maranhão precisou, por razões de mau tempo, aportar por larga temporada em Cabo Verde. Escreve Vieira em carta ao Padre André Fernandes: “Faço esta em Cabo Verde, aonde chegamos com trinta dias de viagem, obrigados dos ventos contrários e de todos os outros trabalhos de tempestades, calmarias e corsários, que em mais compridas navegações se costumam padecer”. Em 1654, indo do Maranhão a Portugal, sofre novo naufrágio e aporta nos Açores. No Sermão de Santa Teresa, pregado na Ilha de São Miguel, declara: “Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas, como a em que eu e os companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar, e nós fora dele, pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus, e de sua Mãe. Não apareceu ali baleia que nos tragasse…”

Várias cartas comprovam o desejo de Antonio Vieira de estar no centro dos eventos e revelam as controvérsias em que, por causa de seu interesse pela política, ele se envolveu. O sublime orador, cujos textos alcançam a maior profundidade mística, não era desligado das coisas terrestres. Tinha sede de influenciar os rumos de seu país e foi próximo de D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança e restaurador, em 1640, da independência portuguesa após sessenta anos de jugo espanhol. A viagem ao Maranhão de 1652 é relevante para esta discussão, porque deveu-se a intrigas e ao ocaso de sua proximidade com o rei.

A edição dos Sermões da editora Lello & Irmão inclui biografia do orador pelo Padre Gonçalo Alves. Diz este sobre a viagem de Vieira de 1652 ao Maranhão: “afinal o rei, também já trabalhado fortemente pelos inimigos do grande pregador, e aguilhoado talvez pela desconfiança de que fora ele o conselheiro do príncipe [Teodósio, filho mais velho do rei, que com ele estava indisposto], não continuou a impedir-lhe a partida, e quando Antonio Vieira, a 22 de novembro de 1652, embarcou, esperando encontrar a bordo alguma nova ordem para não sair, não encontrou coisa alguma, e teve de partir”. Severo, o padre prossegue: “Foi esse o justíssimo castigo de sua duplicidade, porque, fingindo sempre que todo o seu desejo era ir servir a causa sagrada da religião católica, e que só muito constrangido obedecia às ordens reiteradas de el-rei que não podia passar sem ele, afinal foi vítima da sua própria comédia, e teve de partir, ferido cruelmente no seu amor-próprio, ao ver que o rei se desprendera com facilidade dos laços em que ele julgara tê-lo perpetuamente preso”. De fato, a carta já citada ao Padre Francisco de Morais, de 1653, começa com a frase: “Enfim, amigo, pôde mais Deus que os homens, e prevaleceram os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas. A primeira vez vinha contra a vontade de El-Rei; desta segunda vim até contra a minha, para que nesta obra não houvesse vontade mais que a de Deus”.

Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e faleceu em Salvador em 1697. Essa longevidade, em si atípica no século XVII, surpreende ainda mais em alguém que viveu em condições tantas vezes desconfortáveis, viajando no Brasil a aldeias indígenas distantes, sofrendo o antagonismo das autoridades coloniais, fazendo inimigos poderosos em Portugal ao se imiscuir em temas políticos e, por algum tempo, sendo processado pela própria Inquisição. Vieira morou no Brasil nos seguintes períodos: de 1615 — nessa primeira viagem transatlântica já quase naufragou na Paraíba — a 1640; de 1653 a 1654; de 1655 a 1661; e de 1681 até morrer. O resto do tempo, viveu na Europa, inclusive em Roma por seis anos. Conviveu com D. João IV e a rainha Luísa de Guzmán, com os filhos do casal, Teodósio, D. Afonso VI, D. Pedro II e Catarina, que foi rainha de Inglaterra por ter se casado com o rei Carlos II — um casamento famoso na História, porque a noiva levou Bombaim em dote à Inglaterra. Em Roma, Antonio Vieira conviveu com a rainha Cristina da Suécia e pregou em seu palácio. Em Paris, negociou com a rainha e regente Ana de Áustria e com o cardeal e primeiro-ministro Julio Mazarino.

Talvez o trecho mais cativante na correspondência esteja contido em carta escrita em 1654, do Pará. Descreve uma viagem sua de Belém ao rio Tocantins, pela foz do “rio das Amazonas”, em missão de catequese de povos indígenas. Diz a carta: “[…] cada um em sua canoa, e começamos a navegar por um mar de água doce. Derrotou-nos a escuridão da noite, e o Padre Antonio Ribeiro e eu a passamos amarrados às árvores de uma ilha, que nos serviram de âncoras e amarras”. Seduz a imaginação pensar no interlocutor dos reis e ator da cena política europeia navegando, quase só, pelos rios amazônicos, sob as estrelas de noite, e de dia vendo a mata, ouvindo apenas os barulhos da natureza. No justamente célebre Sermão de Santo Antonio aos Peixes, escrito em 1654, Vieira alude ao trecho anterior dessa viagem, de São Luís a Belém, ao dizer: “Navegando daqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa) vi correr pela tona da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia”.

Uma das mais belas cartas é a que escreveu à rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, em 1695. Viúva sem filhos do rei Carlos II, com quem se casara em 1662, Catarina regressara a Portugal em 1693. Durante as suas décadas na Inglaterra, não fora feliz. Antagonizada por ser católica em um país de religião oficial anglicana, tivera de conviver publicamente, na Corte, com as numerosas amantes do marido e seus filhos ilegítimos. Ao não ter ela própria filhos, Catarina falhara, na visão da época, na única missão destinada a uma rainha. Vieira a conhecera criança. Escreve ele, aos 87 anos, da Bahia: “Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades”.

Na carta à rainha Catarina, entramos na intimidade da família de D. João IV. Vieira cita diálogo que tivera sobre ela com sua mãe, a rainha D. Luísa de Guzmán, nascida nobre espanhola. Sendo ele “o correio fiel dos recados e lembranças da mãe e das saudades da filha”, relata que D. Luísa lhe dissera, a respeito de um presente que enviara a Catarina: “Estoy muy mal con Catalina, porque, enviándole unas perlas, me las agradeció“. Comenta Vieira: “Onde o agradecimento é ofensa, bem se podia ser secretário destes corações”. É notável que a carta resgate uma frase verdadeira, pronunciada há quase quatrocentos anos: podemos ouvir a voz da rainha de Portugal, que traduz seu sentimento de afeição pela rainha de Inglaterra, sua filha.

Terminava o feriado de Carnaval. Um pensamento antigo voltou à minha mente: seria errado eu retirar o livro das cartas de Antonio Vieira da casa e levá-lo comigo? Isso não estragaria a harmonia da biblioteca, conservada durante anos pelos meus sogros? Quando eu passava pelas estantes, porém, o olhar sempre se dirigia ao volume de capa dura, encadernado com tela branca, um pouco manchada pelo tempo. A própria tela me fazia pensar nas viagens marítimas de Antonio Vieira. As janelas perpendiculares às estantes mostravam o mar e as ondas.

No dia da partida, saímos cedo, pois iríamos ainda subir a serra até o aeroporto. Vendo o sol nascer no horizonte marítimo, eliminei minha hesitação, pousei as malas na porta de entrada, corri pelas escadas até a biblioteca e extraí da estante o livro branco.

Guardo-o comigo desde então.

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Um lugar encantado

Um lugar encantado

Quando viajo, costumo organizar rapidamente no quarto de hotel uma pequena biblioteca. Ando pelas ruas, entro nas livrarias que vejo ao acaso e raramente saio de mãos vazias. Mencionei, em postagem anterior, Seis livrarias, que estas surgem frente a mim como num passe de mágica. Pisco os olhos e lá está uma. É como em um conto das Mil e Uma Noites, e o tesouro que aparece do nada é uma livraria.

Em Paris, em julho de 2018, comprei um guia das livrarias de Paris, lançado no final de 2016 por François Busnel.

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Se você assistiu ao último filme de Roman Polanski, Baseado em Fatos Reais (D’après une histoire vraie), você sabe quem é François Busnel. O filme é inspirado de um romance de Delphine de Vigan publicado em 2015, com elementos autobiográficos. No romance, como no filme, o personagem principal, que também se chama Delphine, é uma escritora que namora um jornalista, apresentador de um programa literário na televisão, chamado François, inspirado em Busnel.

Delphine de Vigan é a companheira de François Busnel. Ele apresenta, no canal France 5, desde 2008, um excelente programa sobre livros, La Grande Librairie. No formato usual, Busnel convida uns poucos escritores para falarem de seus livros mais recentes, todos sentados em poltronas dispostas em volta de uma mesa de centro. Os móveis são contemporâneos. O cenário é colorido e visualmente atraente. São convidados a participar romancistas, às vezes historiadores, filósofos ou poetas. Ocasionalmente, o apresentador viaja ao exterior e entrevista escritores do país visitado. Busnel é particularmente fascinado com a literatura americana. La Grande Librairie costuma também focalizar, em cada edição, em poucos minutos, uma livraria específica, em Paris ou na província, entrevistando o proprietário. Recomendo fortemente o programa — acessível pela Internet — conduzido pelo apresentador com entusiasmo contagiante.

Comprei Mon Paris littéraire em uma das livrarias descritas pelo autor, Les Cahiers de Colette, na rue Rambuteau, perto do Beaubourg. Essa é, no meio literário parisiense, uma livraria mítica. A proprietária, Colette Kerber, sentada no caixa, disse-me, com simplicidade e modéstia, quando fui pagar o livro de Busnel: “Ele fala na minha livraria, nesse guia”.  Achei encantador o tom casual com que o comentário foi feito.

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Busnel nos informa que o painel de fotografias, “parte já da história parisiense”, mostra escritores admirados por Colette Kerber. Olhando rapidamente, reconheço Kafka, Beckett, abaixo dele Jean Genet e Cortázar com seu gato. Abaixo dos dois, à direita, na foto grande, Jacques Roubaud, escritor infelizmente pouco conhecido fora da França e membro do grupo literário OuLiPo. O segundo à direita de Beckett é Walter Benjamin. Entre os dois, parece estar Lacan. Proust está no topo, na foto mais à direita, que infelizmente cortei pela metade. Na foto pouco nítida logo abaixo da de Proust, sabemos que no grupo de quatro homens aparecem Paul Éluard e André Breton, porque seus nomes estão escritos. À esquerda de Kafka, Freud sobe a bordo de um avião, em uma foto meio tenebrosa. Acima de Beckett, ao lado de Freud, está o poeta René Char. O homem na foto grande acima de Char, com ar profundamente inteligente, me pareceu primeiro ser Italo Calvino, que era também membro do OuLiPo. Olhando atentamente, vejo tratar-se na verdade do sociólogo Pierre Bourdieu. Minha imaginação me fez ver Italo Calvino porque, desde a infância, penso nele com frequência. Como no caso das livrarias, fotos e edições de livros de Calvino costumam aparecer magicamente diante dos meus olhos.

O manual de François Busnel é dedicado “a D., minha parisiense”, em clara homenagem a Delphine de Vigan. Divide-se por arrondissements. Além de falar das livrarias, o autor indica, nas redondezas, locais de predileção ou residências de escritores célebres, jardins onde ler, bares e restaurantes onde descansar da busca por livros e, em uma página que abri ao acaso, até mesmo o endereço de um barbeiro —Desfossé, na avenue Matignon, número 19 — porque lá há uma biblioteca para os clientes.

Trata-se, em resumo, do roteiro do dia-a-dia de François Busnel, cujo trabalho — oh, pessoa feliz! — é justamente frequentar livrarias, conhecer autores, ler livros, preparar seu programa semanal na televisão. Como ele mesmo diz no prefácio, sem livrarias “Paris não seria exatamente Paris”. Segundo ele, há na França — país que é, pela dimensão territorial, metade de todo o estado do Pará — 3.260 livrarias independentes, o que considera “indispensável para o reforço dos laços sociais. Não há democracia sem excelentes livrarias”.

A rue de Richelieu é uma das mais citadas por Busnel. Isso é normal, porque a rua, situada no 1er e no 2ème arrondissements, situa-se no coração da cidade. Desemboca na praça onde estão o Palais-Royal e seu jardim, a Comédie-Française e sua loja, a livraria Delamain — que pertence à editora Gallimard — vários cafés, o excelente restaurante do Hôtel du Louvre e, um quarteirão depois, o próprio Museu do Louvre e o jardim das Tulherias. Denominada place Colette — pois a escritora morava ali, em um apartamento no Palais-Royal — e prolongada pela place André Malraux, a praça, a meu ver, é o centro nevrálgico da cidade, e dela já falei na postagem Keira Knightley e os escândalos de Colette. Seria possível passar dias inteiros naquela vizinhança, sem precisar aventurar-se além, e a bem da verdade eu já fiz isso em diferentes férias passadas na cidade.

Sempre que ando por ali — e é lá que fica, aliás, meu hotel predileto — paro e revejo as placas homenageando Molière e Diderot, pois ambos morreram em casas situadas na rue de Richelieu.

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Molière, morto em 1673, ocupa lugar especial no coração dos franceses, ao menos entre os que lêem. O teatro nacional por excelência, a Comédie-Française, é conhecido também como la Maison de Molière e preserva, em suas coleções, a poltrona onde o autor passou mal no palco, enquanto atuava em uma de suas peças, intitulada, ironicamente, Le Malade Imaginaire, logo antes de morrer. O idioma francês é denominado la langue de Molière. O prêmio teatral anual é o Molière. Diz-se “ganhei um Molière”, como quem diria “ganhei um Oscar” ou “ganhei um Emmy”. No saguão de entrada da Comédie-Française há uma escultura do teatrólogo.

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Mais ou menos na altura do lugar onde ficava a casa em que Molière morreu — o prédio atual é posterior à sua morte — há uma fonte dedicada a ele.

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FonteMolière.jpgA foto abaixo mostra a perspectiva da rua, passando pela fonte com a escultura em bronze representando Molière e terminando no Louvre. A rua que se inicia à direita do monumento chama-se, justamente, rue Molière:

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Pensava eu já conhecer perfeitamente a rue de Richelieu, ajudado inclusive por este livro:

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Por mais que pensemos conhecer um lugar, contudo, isso é apenas uma fantasia. Sempre sobram mistérios a ser desvendados. Jacques Hillairet nos diz que a rue de Richelieu, aberta em 1634 por iniciativa do célebre Cardeal e Primeiro-Ministro em homenagem a quem é nomeada, é a rua de Paris que mais abrigou celebridades em sua história. Hillairet lista uma quantidade impressionante de moradores, que inclui chefes de Estado, ministros, políticos, cortesãs, príncipes, artistas. Como o autor disseca a estória de cada casa da rua, e de seus moradores famosos, o volume de informação pode ser desnorteador.

O guia de Busnel, preocupado apenas com livrarias, escritores e os lugares que eles frequentam ou frequentaram, apresenta de forma mais sucinta as informações sobre os autores que moraram na rua. Folheando o guia, vejo que Stendhal passou um tempo no número 45 da rua, onde terminou de escrever De l’Amour. Esse livro, de 1822, é um dos mais curiosos de Stendhal. Nele, o escritor descreve o surgimento e a consolidação da paixão amorosa de forma aparentemente científica, embora esse seja o sentimento menos racional de todos. Stendhal insere porém dezenas de anedotas. Podemos assim pensar em  De l’Amour como uma obra de ficção fantasiada de não-ficção. É nesse livro que Stendhal cria o famoso conceito, importante para entender seus romances, de “cristalização”, etapa no desenvolvimento do amor durante a qual o ser amado adquire, para nós, todas as perfeições. É o ápice do amor. É o momento em que os eventos, as ocasiões, os lugares mais diversos nos lembram a pessoa que amamos. Quando li De l’Amour, aos vinte anos, fiquei muito impressionado.

Vejo no guia de François Busnel, no livro de Jacques Hillairet e nas obras autobiográficas de Stendhal que o escritor morou em vários endereços na rua, em diferentes épocas de sua vida, e que lá escreveu Le Rouge et le Noir. Aparentemente, morou um tempo no mesmíssimo hotel onde costumo ficar, o que descubro apenas agora. Balzac também morou na rua.  Em um restaurante que já não existe, George Sand e Alfred de Musset se conheceram, dando início a uma das mais atormentadas relações amorosas das letras francesas.

Busnel detém-se sobre uma livraria na rue de Rivoli, a Galignani, uma de minhas prediletas, que passei a frequentar por influência de meu amigo Antonio, a quem já mencionei em Vida e Morte no Musée Guimet. Busnel nos informa que a Galignani lá está desde 1856. Segundo ele, “por lá passaram Hemingway, Malraux, Yourcenar, Colette, e também Marlene Dietrich, Orson Welles e Julien Green”. A lista já faz sonhar. Busnel avalia que “a atmosfera é aconchegante, o atendimento discreto, os conselhos esclarecidos. Guarida para curiosos, estetas e dândis”. De fato, a atmosfera na Galignani possui aquele elemento indefinível, mas palpável, que nos faz perceber termos ingressado em um ambiente altamente elegante, mostruário de uma civilização. Duas outras livrarias que provocam em mim a mesma reação são a Hatchards, em Londres, e a Ferin, em Lisboa.

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Em Se una notte d’inverno un viaggiatore, Italo Calvino lista várias razões — distribuídas em categorias criadas por ele —  pelas quais, afinal, livros não são comprados ou, se comprados, não são lidos. Por exemplo: “Livros que Você Poderia Por De Lado Para Talvez Ler Neste Verão”. Há uma categoria bastante metafísica — alguns pensarão cínica: “Livros Já Lidos Sem Que Você Sequer Tenha Precisado Abri-Los Já Que Eles Pertencem À Categoria Dos Livros Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos”.

A classificação que mais me marca é: “Livros Que Se Você Tivesse Mais De Uma Vida Para Viver Você Certamente Leria Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Você Tem Para Viver Estão Contados”. É uma frase engraçadíssima. Como lê-la sem rir? Ao mesmo tempo, ela remete a um fato triste. Por mais disciplinado que seja um leitor, ele nunca conseguirá ler todos os livros que tem ou que deseja ler.

O guia de Busnel mostra uma forma superior de vida, toda orientada pelo amor aos livros, aos parques onde podemos lê-los, aos restaurantes onde podemos conversar sobre eles. Assim como lamento não ter tempo para ler tudo o que gostaria, já que não terei mais de uma vida, Mon Paris littéraire me faz pensar, com nostalgia, em todas as livrarias fantásticas, mundo afora, que não terei tempo de conhecer.

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Keira Knightley e os escândalos de Colette

Keira Knightley e os escândalos de Colette

Uma vez, em Londres, eu vi a Keira Knightley. Minha mulher, minha filha e eu fomos ao teatro, e lá estava a atriz, no foyer, esperando para assistir à peça. Rodeavam-na três ou quatro amigos. Para uma estrela do cinema hollywoodiano, ela pareceu simples, sem afetação  e despretensiosa.

A peça era apresentada em um de meus teatros prediletos — pela programação e pela qualidade das produções — o Donmar Warehouse. Com capacidade para 250 espectadores apenas, sentados em três lados ao redor do palco, esse teatro de arena permite o máximo de proximidade entre plateia e atores e entre os membros do público. Naquela noite, cerca de dez anos atrás, três peças curtas eram apresentadas, todas lidando com situações absurdas e reunidas em uma produção intitulada, não por acaso, Absurdia. Duas eram de um mesmo autor, N. F. Simpson. A terceira mini-peça, The Crimson Hotel, era de Michael Frayn, escritor de minha predileção, por causa de seu senso de humor consistente.

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Em The Crimson Hotel, um teatrólogo e a atriz de sua nova peça, ambos casados, fogem a um lugar deserto, para poderem consumar fisicamente a paixão que sentem um pelo outro. Enfrentam todo tipo de vicissitudes, na tentativa de cometer adultério. A farsa de Michael Frayn é curta, intensa e divertida. Um dos personagens — jamais visto em cena e citado apenas esta única vez — é “the Brazilian with bad breath“.

Keira Knightley pareceu gostar da produção. Riu bastante.

Adultério não era um mistério para a escritora francesa Colette (1873-1954), interpretada brilhantemente por Keira Knightley no filme homônimo, recém-lançado, dirigido por Wash Westmoreland. Fui ao cinema sem nada saber do filme, atraído pelo meu interesse pela vida — variada e escandalosa — de Colette e pelo talento da atriz inglesa. Ao final da projeção, saí cativado pela obra do diretor, excelente reconstituição de época. Colette aborda um período específico da vida da escritora, a relação com Henry Gauthier-Villars, seu primeiro marido — houve três — que era treze anos mais velho do que ela e publicava livros com o pseudônimo de Willy. Eles se casaram em 1893 e se divorciaram em 1910, mas estavam já separados desde 1906.

Existe um registro escrito do que foi esse casamento, pois Colette publicou, em 1936, um livro a respeito, intitulado Mes apprentissages. O texto é altamente condenatório de Willy, que morrera em 1931 e não podia assim se defender, e omite detalhes que poderiam transmitir ao leitor visão menos inocente do comportamento da escritora. Mes apprentissages silencia, por exemplo, sobre as relações mantidas por Colette nesse período com outras mulheres, algumas delas incentivadas pelo próprio marido. Em inglês, a biografia mais importante da escritora é a de Judith Thurman, publicada em 1999.

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O filme de Wash Westmoreland — o diretor é também co-roteirista —reconstitui com maestria não somente o ambiente rural em que vivia Colette até se casar, como também o meio literário, sofisticado, em que se desenvolvia a existência de Willy em Paris. Vemos Colette, na figura de Keira Knightley, bela, jovem e com ar perfeitamente ingênuo, transplantada de sua Borgonha natal para os vícios da capital. Descobrimos, pelos olhos da protagonista, que o marido cosmopolita vivia em condições precárias, apesar da celebridade, de suas origens burguesas e do círculo social e literário em que se movia. Vemos o surgimento das desilusões amorosas, quando a provinciana recém-casada descobre que o marido é um adúltero contumaz. Sobretudo, somos confrontados com o fato de que Willy já não escreve, mas utiliza os talentos de outros escritores, contratados para redigir os textos — romances, crítica musical, artigos de jornal — que ele assina. No filme, ele declara: “Willy is a brand”. Colette começa ela também a escrever livros para o marido. Graças ao talento dela, Willy obtém seu maior sucesso financeiro e de público, a série de romances protagonizados por uma personagem feminina, Claudine. Lendo Mes apprentissages — e a autora passa, efetivamente, por vários aprendizados nesse período fica difícil decidir se o que pesou mais na decepção sentida por Colette em relação a Willy foi a descoberta de que ele a traía, ou o fato de que ele não escrevia de verdade as obras publicadas com o seu nome, ou a facilidade com que ele se apropriava dos louros proporcionados pelo talento da mulher. Um dia, sem consultá-la, ele cede a um editor, em troca de significativa soma de dinheiro, os direitos autorais dos livros protagonizados por Claudine.

A crítica elogiou a atuação, no filme, de Dominic West como Willy. Pessoalmente, antipatizei com o personagem, e talvez isso demonstre o talento do ator. Fiquei, de forma decidida, do lado de Keira Knightley; quero dizer, de Colette. Se eu tivesse de apontar um defeito no filme, seria o fato de que aparece pouco na tela a mãe da escritora, Sido, de forte personalidade, e que Colette professava adorar. Interpretada por uma grande atriz, Fiona Shaw, a personagem nos seduz e sentimos falta de uma participação mais longa sua no enredo.

Nas cenas que mostram o meio dos escritores parisienses, por duas ou três vezes aparece brevemente um personagem denominado Madame Arman. Trata-se de Léontine Arman de Caillavet, amante de Anatole France, que mantinha um importante salão literário. Seu filho Gaston e sua nora Jeanne chegam a ser mencionados na história. Senti, porém, a ausência no filme do jovem Marcel Proust, amigo nessa época do casal Colette e Willy e da família Arman de Caillavet — tendo Jeanne sido um modelo para o personagem proustiano de Gilberte Swann.

Em 2013, em Paris, nos jardins do Palais-Royal, vi ao ar livre uma exposição de fotos sobre Jean Cocteau, que morou em um apartamento debruçado sobre os jardins.

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Havia várias fotos suas com Colette, amiga de longa data, que também morou, no fim da vida, no Palais-Royal.

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Como Colette morreu aos 81 anos, temos dela a visão de uma senhora sábia, de bengala ou em cadeira de rodas, com o cabelo curto e branco, enrugada, grande dama das letras francesas de sua época. Cocteau escreveu, em 1947, quando a escritora tinha 74 anos: “Da minha janela, converso com Colette, que atravessa o jardim com a sua bengala”. A escritora foi enterrada com honras nacionais e dá nome, desde 1966, àquela que considero a praça principal de Paris, ladeada pela Comédie-Française e pelo Palais-Royal e seus jardins, por um de meus restaurantes preferidos, a Brasserie du Louvre, e pela livraria Delamain e que fica a um quarteirão do Louvre, como mostra este curto vídeo que fiz em julho:

Colette ganhou um ar sóbrio, com o tempo. Vê-la sob a aparência de Keira Knightley, jovem, bela, sensual, é um choque. Wash Westmoreland nos traz a Colette da faixa dos vinte aos trinta e poucos anos, primeiro inocente e comportada, e depois descobrindo a vida e a si própria, errando, acertando, sofrendo e tentando ser feliz.

São abordadas na tela duas das relações homoafetivas da escritora. A primeira, com uma milionária americana casada com um francês, e cujas atenções Colette descobre um dia estar dividindo com o próprio Willy. A segunda relação — com uma mulher de aparência masculina conhecida como Missy — merece comentário mais demorado. Missy, interpretada no filme pela atriz irlandesa Denise Gough, foi presença marcante para Colette. Estimulou-a a fazer transformações radicais em sua vida, incentivando-a, por exemplo, a virar atriz de music-hall. Nessa fase, a escritora aparecia frequentemente seminua no palco, gerando grande comoção na França da Belle Époque. O nome verdadeiro de Missy era Mathilde de Morny, marquesa de Belbeuf.

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Socialmente, Missy não era pouca coisa. Era mesmo muita coisa. Seu pai, o primeiro duque de Morny, morreu quando ela era criança. Morny era meio-irmão do imperador Napoleão III e filho ilegítimo de uma das figuras mais atraentes da saga napoleônica, Hortense de Beauharnais, enteada de Napoleão I e casada por ele com seu irmão Louis, que Napoleão transformou em rei da Holanda. Morny nascera da relação adulterina da rainha Hortense com Charles de Flahaut, ele próprio filho ilegítimo de Talleyrand. O pai de Missy, portanto, era um duque, filho da rainha Hortense, irmão do imperador Napoleão III, neto da imperatriz Josefina e neto do mais célebre dos diplomatas, Talleyrand. A mãe de Missy era uma princesa russa, Sofia Trubetskoy, que, viúva do duque de Morny, casou-se com um duque espanhol. Este, segundo Judith Thurman, teria abusado sexualmente de Missy na infância.

Uma boa e curta biografia em francês de Colette, acompanhada, como sempre acontece nessa coleção, de farto material iconográfico, é o  Album da Pléiade a ela dedicado.

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Folheando o volume, fico impressionado em constatar como o filme de Wash Westmoreland é fiel à realidade. Há cenas que parecem extraídas de fotos da época. O Album da Pléiade nos mostra Colette aos 18, portanto dois anos antes de seu casamento com  Willy.

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Com pouco tempo de casada, a insatisfação da futura escritora com o casamento, ou com Willy, já aparece nesta foto dos dois:

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O filme captura bem o sucesso fenomenal da série dos romances Claudine e o aparecimento, na vida do casal, da atriz Polaire, que interpretou nos palcos a versão teatral de um dos livros. Willy fez Colette cortar os cabelos, para ficar parecida com Polaire, e associou a autora à atriz. Levava-as para jantar ou ao teatro, juntas, vestindo roupas iguais, chamando-as de suas “gêmeas”. Embora a relação do casal com Polaire pareça ter sido apenas profissional, está claro que Willy, para ajudar o sucesso da peça, desejava passar a ideia de que eles formavam um ménage à trois. Segundo Colette, em Mes apprentissages, isso chocava Polaire. A habilidade de Willy para o marketing é ilustrada por esta caricatura, publicada na imprensa da época:

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Neste cartaz, vemos como apenas o nome de Willy aparecia como autor dos romances e como o rosto de Polaire passou a representar a personagem Claudine:

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Em 1907, o maior escândalo protagonizado por Colette até então deu-se quando Missy montou para ela no Moulin Rouge uma pantomima intitulada Rêve d’Égypte, em que as duas apareciam juntas no palco. Colette, quase nua, fazia o papel de uma múmia pela qual se apaixonava um arqueólogo, representado por Missy vestida de homem — portanto, em seus trajes habituais:

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O público, claramente, fora à estreia no Moulin Rouge na expectativa de saborear um escândalo, pois o cartaz publicitário prenunciava o que aconteceria no palco:

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“Yssim” era um claro anagrama de Missy, e o brasão da marquesa aparecia no cartaz. Uma cena de beijo entre múmia e arqueólogo causou tumulto na plateia, que já vaiara desde o início da representação a presença da marquesa no palco. Em parte, o escândalo foi facilitado pela atitude da família de Missy e dos círculos bonapartistas, chocados com a exibição pública e desejosos de impedir a continuação do espetáculo. Nossa geração, acostumada à divulgação constante dos amores de artistas famosos e a declarações auto-reveladoras na imprensa, não se impressionaria com a pantomima. Em 1907, porém, não era comum ver a neta de uma rainha e bisneta de uma imperatriz ostentando no palco sua relação homoafetiva com a mulher de um célebre escritor. Willy, co-autor da pantomima, separado de Colette mas ainda formalmente casado com ela, assistiu à estreia, acompanhado de sua própria amante. Sua presença complacente chocou a plateia e, contribuiu para criar a comoção.

O jornal Le Figaro, no dia seguinte, publicaria artigo violento condenando a apresentação: “A sala do Moulin Rouge estava arquicheia, e estava além disso ultra-elegante”; “Durante os quinze minutos que durou a pantomima, o tumulto não cessou nem um minuto sequer, e as intérpretes, enfrentando a tempestade, seguiram atuando com uma teimosia digna de uma causa melhor”; “Uma exibição deplorável que, esperamos, não se repetirá”.

No filme, a cena no Moulin Rouge é tratada com grande veracidade. Vemos Keira Knightley no palco com o ar de determinação, sensualidade e vontade de chocar que Colette terá certamente demonstrado naquela noite. Esse é talvez o ponto mais alto da carreira de Keira Knightley até o momento. A cena mostra não só o caminho ousado percorrido por Colette, ex-provinciana ingênua, mas também a evolução da atriz, dona agora de um talento claro, que ela ostenta com segurança.

E assim, encerrando-se o casamento de Colette e de Willy, o filme vai terminando. Seu propósito, mostrar o percurso da escritora no início da vida adulta, por meio da relação com o primeiro marido, está concluído.

Uma indagação colocada pelo filme, e pela existência levada pela própria escritora, diz respeito ao papel reservado a uma mulher talentosa na Belle Époque. Aparentemente, a única oportunidade à disposição de Colette para escapar de um casamento infeliz era a quebra de tabus. Fiquei me perguntando se haverá algum dia um filme mostrando a etapa seguinte da trajetória de Colette. De 1912 a 1924, ela foi casada com o barão, jornalista e político Henry de Jouvenel, com quem teve uma filha. Consagrou-se, nesse período, publicando livros, como Chéri, que demonstram poder de análise psicológica e capacidade de descrever a vida como uma experiência sensorial. Valeria a pena ver na tela Colette baronesa, mulher de senador e escritora famosa e respeitada? Esse segundo filme, porém, teria também de mostrar sua relação afetiva e sexual com o enteado, Bertrand de Jouvenel, iniciada quando ele tinha 16 anos e ela 46. Wash Westmoreland, provavelmente, termina seu excelente filme no momento certo.

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O Dia em que vi o Crânio de meu Avô

O Dia em que vi o Crânio de meu Avô

Let’s talk of graves, of worms, and epitaphs
Richard II, Shakespeare

No final da minha adolescência, no começo da vida adulta, eu costumava, quando  estava em Paris, fazer peregrinação aos túmulos de escritores e compositores objeto de minha admiração. Os cemitérios da cidade são frequentados pelos turistas, que caminham entre os monumentos funerários, com um mapa nas mãos, tentando encontrar o jazigo de celebridades.

A tumba de Stendhal era para mim destino obrigatório, por ser ele então meu escritor predileto. Estudante em Londres, eu ficava acordado até de madrugada lendo seus livros, e ia à aula no dia seguinte acompanhado de seus personagens. Pensava nas intrigas amorosas, nas tramas políticas da existência de Julien Sorel e de Fabrice del Dongo, nas suas ambições, nas renomadas habilidades de estadista do Conde Mosca; tentava prever se eu me apaixonaria por uma Mathilde de La Mole, uma Gina Sanseverina ou uma Clélia Conti; lamentava o terrível destino de Beatrice Cenci. As peripécias, os diálogos, as cenas encontradas nos livros de Stendhal despertavam muito mais meu interesse do que as aulas de estatística ou os experimentos no laboratório.

Quando eu viajava a Paris, enfrentava frio, chuva, neve para andar pelo cemitério de Montmartre até o túmulo de Stendhal. Ficava parado frente a ele, refletindo com ar compenetrado, tentando talvez incorporar algo do talento do escritor, ou da intensidade que ele concedeu, em seus romances, a Julien e a Fabrice. Havia provavelmente, nisso tudo, uma forte inspiração da cena do cemitério em Hamlet. De resto, seria apropriado que assim fosse, pois Stendhal idolatrava Shakespeare e chegou a tentar, em 1802, aos 19 anos, escrever sua própria versão da tragédia do príncipe dinamarquês, transportando a ação para a Polônia.

Adulto, perdi o interesse pelo turismo funerário. Há muitos e muitos anos eu já não prestava homenagem a sepulturas de músicos ou escritores. Em julho, passando poucos dias de férias em Paris, resolvi porém revisitar o cemitério de Montmartre. Na postagem Em Seul, sem Chateaubriand contei que, procurando mais uma vez a tumba de Stendhal, esbarrei na de Madame Récamier, amiga, amante e musa de Chateaubriand. Entre os turistas que estavam no cemitério, naquele dia de verão, um grupo de três mulheres perguntou-me, em um francês com forte sotaque balcânico, se eu conhecia a localização do túmulo de Jeanne Moreau, morta em 2017, e que eu nem sabia estar ali enterrada.

Naquela tarde, a residência final de Stendhal reapresentou-se a mim desta maneira:

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A inscrição na lápide merece ser vista em detalhe, inclusive porque é fruto da vontade do próprio autor, manifestada em ao menos duas obras auto-biográficas — Souvenirs d’égotisme, escrita em 1832, e um texto curto, avulso, de 1837:

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Stendhal chamava-se, na verdade, Henri Beyle — por isso o “Arrigo” na lápide — e era notoriamente admirador da Itália, que não fora ainda unificada e era então uma península e um conceito, mas não um país. Alguns dos momentos mais felizes do escritor foram passados em Milão, que visitou pela primeira vez em 1800, aos 17 anos, e onde morou de 1814 a 1821, o que explica o “Milanese”. Stendhal desejava também que constasse de sua lápide que ele “adorara Cimarosa, Mozart e Shakespeare” — costumava aliás escrever “Shakspeare”, sem o primeiro “e”. No texto de 1837, acrescentou à lista o pintor Correggio, “le Corrège” para os franceses. Nosso escritor, como se sabe, era grande admirador das artes plásticas. No século XX, surgiu mesmo a noção de “síndrome de Stendhal” para designar a reação exacerbada, alguns dirão ridícula — tonturas, palpitações, desmaios — diante da beleza de uma obra de arte. Um de seus primeiros livros, redigido em grande parte parafraseando outros autores, intitula-se Histoire de la peinture en Italie,

O escritor deu origem também ao termo “beylisme”, que ele próprio criou em 1812, e que ficou consagrado desde pelo menos a publicação, em 1914, do livro de Léon Blum, Stendhal et le beylisme. A expressão remete aos ingredientes habituais da personalidade dos protagonistas de seus romances — e ao seu próprio ideal — de energia, individualismo, liberdade, capacidade de viver grandes paixões e busca da felicidade.

Tanto em 1832 como em 1837, Stendhal determinara que constassem em seu epitáfio os três verbos “viveu, escreveu, amou”, em italiano. Por alguma razão, seu primo, amigo, biógrafo e executor testamentário Romain Colomb inverteu a ordem, colocando “escreveu” em primeiro lugar. É por isso que lemos “scrisse, amò, visse”. Para qualquer espírito cartesiano, a presença do “viveu” no final da tríade parece ilógica. Para os fanáticos de Stendhal, soa como traição. Em 1891, o escritor nacionalista Maurice Barrès declarou, em um artigo no Figaro intitulado “Le Génie au Cimetière“, que a decisão de Colomb fora uma “manobra chocante”. “O verdadeiro beylista”, escreveu Barrès, “deve antes de mais nada respeitar as manias de Beyle”.

Em 1888, com a inauguração de um viaduto de metal que passa exatamente sobre aquele canto do cemitério, com veículos rodando por cima das tumbas, o túmulo de Stendhal ficara ensombrecido e escondido. Na primeira vez em que visitei o cemitério de Montmartre, aos 20 anos, fiquei suficientemente impressionado com a presença do viaduto — conhecido como pont Caulaincourt — sobre as sepulturas para mencionar o fato em um caderno de anotações. Em 1892, admiradores de Stendhal cotizaram-se para restaurar a sepultura, o que explica a data na lápide. A inversão na ordem dos verbos, porém, permaneceu. Em 1962, passados 120 anos da morte de Stendhal, um dos maiores especialistas de sua obra, Vittorio (ou Victor) del Litto, francês nascido na Itália, promoveu uma mudança de 150 metros na localização do túmulo, para retirá-lo do espaço sob a estrutura metálica do pont Caulaincourt. A cerimônia deu-se em 23 de março, aniversário da morte do escritor. Victor del Litto deixou-nos do acontecimento um relato. Participaram do traslado do túmulo apenas quatro pessoas: o diretor do cemitério, um comissário de polícia, del Litto e sua mulher. Foi necessário abrir a sepultura. Do cadáver de Stendhal, além de “uma poeira impalpável”, sobravam o crânio, a mandíbula e uma tíbia

Durante o enterro do meu pai, no cemitério do Caju, em 1999, um primo chamou-me de lado para “ver algo importante”. Levou-me a uma tumba vizinha ao jazigo da família. Sobre esse túmulo vizinho, haviam colocado uma caixa de metal contendo o que sobrava de meu avô, o matemático. A caixa, retirada do jazigo familiar apenas para que pudéssemos sepultar meu pai, estava aberta. Dentro, naquele dia de sol carioca, vi o crânio de meu avô, uma tíbia e as dragonas de seu uniforme militar. Era tudo o que restava do General Ary Norton de Murat Quintella.

Não terminaremos nessa nota fúnebre. Afinal, como nos ensina o poeta Jacques Prévert, em Chanson des escargots qui vont à l’enterrement,
“Les histoires de cercueils
C’est triste et pas joli”

A caminho do enterro de uma folha morta, os dois caracóis enlutados partem no outono, mas só chegam na primavera, e a essa altura as folhas “sont toutes ressuscitées“. Os pobres caracóis “sont très désappointés“.

O leitor atento — ou com boa visão — terá notado em uma das fotos acima que, no dia de minha visita, havia sobre a sepultura de Stendhal um pedacinho de papel, segurado por uma pedra. Em várias das ocasiões em que vi esse túmulo, ao longo dos anos, algum admirador havia deixado um recado escrito, frequentemente em italiano.

Dessa vez, era este o bilhete:

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“Para Stendhal, obrigada pelo Vermelho e o Negro, Elena”.

Tive o cuidado de não tocar no papel ou na pedrinha. Fiquei pensando na glória póstuma desse homem morto em 1842, aos 59 anos, praticamente desconhecido como escritor enquanto vivo, a não ser por uns poucos amigos literatos. Pensei na beleza de uma vida que pudera ser resumida de forma simples, com três verbos apenas, “escreveu, amou, viveu”.

Como nas vezes anteriores, apreciei a admiração que a ele devotam seus leitores italianos, justíssima, considerando o quanto ele amara a Itália e a maneira como a descrevera. Comovi-me com a simplicidade do papel, claramente arrancado de algum pequeno caderno. Tivera Elena desde o início a intenção, ao dirigir-se ao cemitério, de deixar o bilhete, ou fora esse um gesto impulsivo, inspirado por uma emoção causada pela visão do próprio túmulo? Por que Le Rouge et le Noir e não La Chartreuse de Parme? O que a leitura de Le Rouge et le Noir trouxera a Elena?

E aí, percebi que para essa última pergunta eu tinha a resposta. Os heróis stendhalianos, homens e mulheres, trazem-nos um sopro de energia, de coragem diante da adversidade e das circunstâncias, a sensação de que são seres à parte, com uma personalidade própria e atraente e a capacidade de viver intensamente. Dessa forma, Stendhal cumpre, de uma maneira que só pertence a ele, o papel de todo grande escritor: tornar a vida mais suportável, mais rica, mais empolgante para os seus leitores.

O sol estava forte. Saí do cemitério, perambulei por Montmartre, sentei-me ao ar livre em um café numa praça, tomei uma garrafa inteira de água mineral e um macchiato, fiquei vendo a vida passar. Pensei na amizade que os personagens de Stendhal têm me oferecido, ao longo dos anos, desde a adolescência. Teria bastado que ele morresse em 1812, na calamitosa campanha da Rússia de Napoleão, de que participou, para ficarmos sem suas obras e o reconforto que oferecem.

O sol começava a baixar. Mais tarde, eu iria ao teatro com amigos. Queria antes passar em uma livraria de que gosto, Les Cahiers de Colette. O tempo estava ficando curto. Paguei a água e o café, peguei um táxi e fui à livraria.

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Em Seul, sem Chateaubriand

Em Seul, sem Chateaubriand

Na minha primeira noite em Seul, insone no hotel por causa do jetlag, abro a mala de mão, para buscar meu volume de Chateaubriand. Não o encontro. Olho pelo quarto, embaixo da cama, sob os lençóis, dentro da mala, sobre a cômoda, a mesa, a poltrona. Depois de tanta agitação, não havia mais a possibilidade de conseguir dormir. Sento na cama, pensando em como pudera perder o primeiro dos dois volumes das Mémoires d’Outre-Tombe na edição da Pléiade. Já totalmente acordado, percebo a dura verdade: eu esquecera o livro no avião. Tomei a descoberta como se fosse uma separação.

Isso aconteceu em 2013. Em algum momento, já de dia, liguei para a Lufthansa e comuniquei a perda. Resignei-me a nunca mais ver meu livro. Parecia improvável que aparecesse. Na partida, no terceiro ou quarto dia, no check-in para Frankfurt, foi-me dito que eu o receberia no portão de embarque. Fiquei incrédulo. Na hora de entrar no avião, vi que o volume de Chateaubriand estava sobre o balcão onde eram verificados cartões e passaportes. Sorri. Atribuí a devolução do livro às competências somadas da Alemanha e da Coréia do Sul.

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Durante boa parte da minha vida, resisti a ler Chateaubriand. Os próprios títulos da obra desse pai do romantismo francês — como Les Martyrs, Les Aventures du dernier Abencérage, Le Génie du Christianisme — pareciam-me rebarbativos, incompreensíveis. Na adolescência, tive de ler trechos de suas Mémoires d’Outre-Tombe. Não fui imune à poesia da obra, mas passada a obrigação, não retomei sua leitura por muito tempo. O livro de memórias  parece ser o que sobrou, neste início do século XXI, da obra do autor mais célebre, influente e adulado de seu tempo. De todos os títulos que fizeram a glória de Chateaubriand, no início do século XIX, temo que muito pouco seja lido hoje, mesmo na França. Duvido, por exemplo, que alguém ainda leia Le Génie du Christianisme, publicado em 1802, que contribuiu a relançar o catolicismo na França após treze anos de Revolução e deu ao escritor verdadeira celebridade, já que o livro atendia à política de Napoleão de reconciliação da República francesa com o Papa.

A existência de François-René, visconde de Chateaubriand, transcorreu em um período tumultuado da história. Bretão, nascido em Saint-Malo em 1768 e morto em 1848, o diplomata e escritor atravessou a Revolução Francesa, viveu exilado na Inglaterra de 1793 a 1800, voltou à França, serviu por alguns meses na embaixada em Roma — onde sua vaidade criou atritos com o Embaixador, o Cardeal Fesch, tio materno de Napoleão — rompeu com Napoleão em 1804, acolheu de braços abertos, e ajudou a tornar possível, a Restauração dos Bourbons em 1814, exilou-se em Gand com Luís XVIII durante o breve retorno de Napoleão à França em 1815, decepcionou-se com os Bourbons, e presenciou a Revolução de 1830, que colocou no trono Luís Filipe de Orleães, e a de 1848, que o derrubou. Viajou a lugares então de difícil acesso para um francês, como os Estados Unidos, a Turquia, o Oriente Médio.

Chateaubriand foi, de dezembro de 1822 a agosto de 1824,  Ministro dos Negócios Estrangeiros. Fora, antes disso, Ministro plenipotenciário em Berlim e Embaixador em Londres, ocasião em que o cozinheiro da embaixada inventou o “filé Chateaubriand”. Posteriormente à sua queda do Ministério, foi Embaixador em  Roma. De maneira muito característica, em suas memórias Chateaubriand fala em uma página apenas de sua atuação como Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas dedica à sua queda, e às emoções que ela gerou nele mesmo e em outras pessoas, nove páginas.

Na qualidade de Ministro, Chateaubriand ocupou o espírito de dois sucessivos emissários a Paris de D. Pedro I, que buscava o reconhecimento pela França da independência do Brasil, e de José Bonifácio, nosso primeiro Chanceler. O primeiro emissário, Manoel Rodrigues Gameiro Pessoa, futuro visconde de Itabaiana, escreveu a José Bonifácio, em setembro de 1823, que Chateaubriand “não é favorável aos nossos interesses”. O grande feito do escritor, como Ministro, foi a intervenção militar francesa na Espanha, em 1823, para libertar o Rei Fernando VII do jugo das Côrtes. Essa ação, determinada para dar prestígio interno e externo ao trono dos Bourbons na França, e que permitiu ao rei espanhol voltar ao absolutismo, pode explicar as reticências de Chateaubriand com o processo de independência dos países ibero-americanos. Em novembro, Gameiro Pessoa voltou a escrever a José Bonifácio: “[…] o visconde de Chateaubriand, que sempre achei avesso ao Brasil”. Ler os ofícios de Gameiro Pessoa e de seu sucessor, Domingos Borges de Barros, futuro visconde de Pedra Branca, em que narram seus encontros com Chateaubriand causa certa estranheza. Nesses ofícios, vemos Chateaubriand como um diplomata cauteloso, reservado, bem diferente do poético autor que gostava de expor sentimentos ou do político assertivo e polemista.

Em suas embaixadas, o escritor nunca permaneceu mais do que alguns meses. Nas memórias cáusticas que deixou sobre a sociedade e a vida política francesas na primeira metade do século XIX, a condessa de Boigne, que o conheceu bem e claramente não simpatizava com ele, diz que, se no exterior Chateaubriand sentia-se entediado, é porque lá não era tão célebre e adulado como na França.

Eterno insatisfeito, vaidoso, egoísta, megalomaníaco, preocupado com a sua celebridade, o autor só se sentia contente sendo admirado e rodeado de admiradoras que o endeusassem. A condessa de Boigne nos diz que, em 1813, ouviu Chateaubriand ler trechos de um de seus livros em um salão aristocrático. Segundo ela, “ele lia com a voz mais tocante e emocionada, com essa fé que deposita em tudo que emana dele mesmo. Ele entrava nos sentimentos de seus personagens, ao ponto que lágrimas caíam sobre o papel”. Isso tudo causava grande emoção nos ouvintes. Terminada a leitura, um chá foi servido e começou um ritual absurdo. “Dez senhoras”, nos diz a condessa, comentaram uma com a outra: “Ele quer chá”, “Ele vai tomar chá”, “Ele pede chá”, “Dê chá a ele” e se agitaram para servi-lo.

Aos olhos do sexo feminino, Chateaubriand possuía enorme poder de sedução. Um de seus apelidos era Enchanteur. Manteve inúmeras aventuras galantes, embora fosse casado. Sua mulher fora escolhida pelo dote, mas o amava.  O visconde pertenceu àquele momento feliz da história das letras, em que um escritor famoso exercia verdadeiro fascínio sobre o público e, se tivesse ambição política, era um poder a ser levado em conta. Com seus panfletos e opúsculos políticos virulentos, Chateaubriand contribuiu para a Restauração dos Bourbons em 1814 e também para a sua queda em 1830 e, no intervalo, para a demissão de ministros.

Em sua obra de ficção como nas suas memórias, Chateaubriand inventou um tipo cativante: o homem inocente, meio ingênuo, melancólico, transparente, preocupado com questões espirituais, com capacidade para amar e ser amado, em busca da mulher ideal, submetido contra sua vontade a todo tipo de decepção e vicissitudes, vítima ou protagonista, sem procurá-los, de eventos históricos. Em resumo, o herói romântico por excelência. Ambicioso e sedento por poder e prestígio, intrigante, desejoso de se tornar Primeiro-Ministro, ele diz porém sobre sua humilhante demissão do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, nas Mémoires d’Outre-Tombe: “Eu tinha a simplicidade de permanecer tal como o céu me fizera e, porque eu nada queria, julgaram que eu queria tudo […] Como! Você não quer ser nada! Então parta! Nós não queremos que um homem despreze aquilo que adoramos, e que ele se julgue no direito de insultar a mediocridade das nossas vidas”.

Chateaubriand, que viveu grandes paixões amorosas, era capaz de enviar a uma de suas amantes, Cordélia de Castellane, logo após a vitória militar francesa contra as Côrtes espanholas e durante as celebrações que isso ocasionou em Paris, a seguinte carta: “Esta glória, que deixaria qualquer outro homem tonto, não me distrai um só momento do meu amor […] Eu te escrevo após ter escrito a todos os reis e os ministros da Europa”. A condessa de Castellane foi uma das muitas traições que Chateaubriand fez a Juliette Récamier, que foi a pessoa mais importante para ele em seus últimos trinta anos de vida. Decepcionada ao saber de sua relação com Cordélia de Castellane, Madame Récamier viaja à Itália, e lá recebe esta carta do visconde, autor e ainda Ministro: “Eu não fico insensível,  ao ver a França neste estado de prestígio […] e ao pensar que a glória e a felicidade da minha pátria se iniciaram com a minha entrada no Ministério […] mas só me resta um tédio profundo do meu cargo, uma lassidão de tudo e a vontade de ir morrer, longe de todo burburinho, em paz e esquecido, em algum canto do mundo”.

Juliette Récamier, nascida em 1777 e morta em 1849, é ainda famosa. Seu retrato por David, de 1800, em estilo neoclássico, pode ser visto no Louvre, onde o fotografei:

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Aos dezesseis anos, casara-se com um rico banqueiro, 26 anos mais velho do que ela, no que parece ter sido um casamento branco. Até iniciar sua relação amorosa com Chateaubriand, em 1818 ou 1819, manteve-se virgem. Isso não a impedia, porém, de ser uma verdadeira coquette. A bela Juliette ambicionava ser amada por todos, flertava impunemente, e após a conquista de um novo admirador oferecia-lhe, em troca, sua amizade. Madame Récamier destacava-se pela beleza, a elegância e o tato, e mantinha um dos salões realmente importantes de Paris. Ela é um exemplo de êxito burguês na França pós-revolucionária. Com base apenas nas suas relações e nas suas qualidades pessoais, tornou-se extremamente famosa na Europa e exercia poder nas esferas intelectuais e administrativas. Nomeava Embaixadores, elegia membros da Academia francesa, conseguia empregos em ministérios. Mesmo após a ruína definitiva do marido, em 1819, quando seus meios financeiros tornaram-se reduzidos, manteve um salão no convento onde foi morar em Paris, a Abbaye-aux-Bois, e seus amigos continuaram fiéis a ela.

Em julho, em Paris, no cemitério de Montmartre, procurando o túmulo de Stendhal que eu queria rever, esbarrei por acaso no da bela Juliette:

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Devemos deduzir, pelas flores na tumba, que a celebridade de Madame Récamier não se apagou.

Chateaubriand e Madame Récamier haviam sido feitos um para o outro. Ambos célebres e casados, cuidaram juntos da fase final de suas respectivas reputações. Toda tarde, Chateaubriand visitava Juliette e imperava em seu salão literário.

As Mémoires d’Outre-Tombe contêm trechos extremamente poéticos. Chateaubriand começou a escrever o livro em 1809 e esse trabalho ocupou-o, com interrupções, até quase a morte, quarenta anos depois. Desejava que fosse publicado cinquenta anos após seu falecimento, o que explica o título, mas a publicação aconteceu quase em seguida, de 1849 a 1850. No salão de Madame Récamier, a partir de 1834, convidados seletos puderam ouvir a leitura de fragmentos. Tanto Alexis de Tocqueville quanto o mais famoso crítico literário da época, Sainte-Beuve, deixaram-nos relatos sobre essas leituras. Escreveu Tocqueville, que era contraparente de Chateaubriand: “Senti-me emocionado, agitado, real e profundamente conturbado […] Voltei para casa carregado por um ambiente aéreo que não é ainda o céu, mas já não é a Terra, que é o ambiente onde se encontra o espírito quando ficamos fortemente emocionados e que a impressão vibra ainda”. Sainte-Beuve informa que a leitura fora feita por um dos participantes, não por Chateaubriand. Para os convidados, devemos supor, havia não somente o prazer de serem os primeiros a tomar conhecimento direto da obra-prima, mas também o de notar sobre o rosto do autor os efeitos do que sentia ao ouvir suas memórias sendo lidas. Diz Sainte-Beuve: “Ora sua mão passava e pousava sobre as pálpebras […] escondendo alguma lágrima involuntária. Ora seu olho reabria, com a chama da jovem águia”. Estamos em pleno Romantismo.

Em suas memórias, Chateaubriand não se preocupa com a cronologia e algumas vezes insere comentários a passagens redigidas anos antes. O livro é uma mistura de auto-biografia, história da era agitada em que o autor viveu, poema em prosa e, também, de ficção. Chateaubriand revela o seu “eu” ideal, não o real. Alguns críticos literários e leitores se irritam, ao ver autor, narrador e herói imaginário alternando-se no livro. Chateaubriand narra, por exemplo, seu jantar, nos Estados Unidos, com George Washington. Há sérias dúvidas sobre se eles sequer se encontraram. Do ponto de vista puramente literário, porém, era imprescindível inserir uma vinheta sobre uma das grandes figuras históricas de seu tempo. O escritor inglês J. B. Priestley, em sua história da literatura ocidental, Literature and Western Man, declara que as Mémoires d’Outre-Tombe são “both an astonishing panorama of historical events and figures and the self-potrait of a man who is half-genius, half-charlatan, and thoroughly romantic in both halves”.

Para outros leitores, o livro pode ser irresistível. Nele, Chateaubriand cria uma atmosfera muito peculiar, da qual não queremos sair. Um dos trechos mais célebres é o da vida que o escritor levou, dos dezesseis aos dezoito anos,  após estudos em diferentes cidades da Bretanha, no castelo de Combourg, onde morou com seus pais e a caçula de suas quatro irmãs. Vemos a solidão, a natureza selvagem do lugar, a severidade do pai, a tristeza da mãe e a extrema cumplicidade com a irmã, Lucile, que mais tarde se suicidaria. Chateaubriand redige esses capítulos em 1817, mais de trinta anos após o período descrito, hospedado no castelo de Montboissier. A  vida em Combourg é introduzida de uma forma que faz dele um precursor de Proust, que conhecia bem as Mémoires d’Outre-Tombe. Passeando uma tarde sozinho pelo parque do castelo de Montboissier, Chateaubriand ouve o canto de um tordo: “Na mesma hora, esse som mágico fez reaparecer aos meus olhos a propriedade paterna; esqueci as catástrofes de que fora testemunha e, transportado repentinamente ao passado, revi aqueles campos onde tantas vezes eu escutara cantar o tordo”. Inicia-se assim o relato da vida levada em Combourg, de 1784 a 1786. O tordo de Chateaubriand prenuncia a madeleine de Proust.

Assim como a época histórica em que viveu o autor, o livro de memórias de Chateaubriand é dominado pela figura de Napoleão. Os dois só se falaram uma vez, em 1802. Em 1804, o célebre escritor descobre-se monarquista e legitimista e rompe com o Primeiro Cônsul. No entanto, nunca foi incomodado pela polícia de Napoleão, que aceitou mesmo sua eleição para a Academia francesa em 1811. Em 1814, quando o Bourbons estavam prestes a voltar à França, Chateaubriand publicou um panfleto violento contra o Imperador, intitulado De Buonaparte et des Bourbons.

Com o passar do tempo, nosso autor percebe que Napoleão dominará a lembrança daquela  era. Dá-se conta de que, sob Luís XVIII, Carlos X e Luís Filipe, a França perdera a glória em que vivera sob o regime imperial. Ao dedicar grande espaço no livro aos tempos napoleônicos, sente que engrandece a sua obra e também a si próprio. Coloca Bonaparte como seu inimigo mas, também, como objeto de sua admiração. Em 1839, Chateaubriand inicia em suas memórias a narrativa sobre a Restauração dizendo: “Tudo não terminou com Napoleão? Deveria eu falar de outra coisa? Que outro personagem pode interessar, se não ele? […] Como falar de Luís XVIII, em vez do Imperador? […] Fico ruborizado, pensando que preciso agora falar fungando de um bando de criaturas ínfimas, das quais faço parte, seres duvidosos e noturnos que nós fomos, em um cenário do qual o grande sol havia desaparecido”.

Desde 2013, com frequência penso nas memórias de Chateaubriand e releio trechos do livro. Já tive ocasião de citá-lo, na postagem sobre Waterloo.

Há menos de três meses, em julho, de férias em Paris, combinei de jantar com uma amiga. Fui buscá-la em casa. Ela mora em um dos cantos mais charmosos da cidade, a Rue du Bac. Caminhando, fui revendo e reconhecendo casas, lojas e cafés. Passei em frente ao Square des Missions Étrangères, onde há um busto de Chateaubriand que já vi inúmeras vezes na minha vida:

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Estava perto do número da casa de minha amiga. Atravessei a rua. Quase em frente ao jardim com o busto, encontrei o portão que buscava:

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Antes de inserir o código para entrar, li a placa. Pensei estar sonhando.  Vi que ali, em 4 de julho de 1848, morrera Chateaubriand. Eu sabia que, de fato, ele vivera dez anos na Rue du Bac. Não era porém possível tanta coincidência, que ele tivesse vivido e morrido no mesmíssimo prédio onde eu ia entrar.

Abri o portão. Caminhei até o pátio interno. Sabia que ele vivera em um apartamento no térreo.

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Antes de abrir a porta de vidro que leva à escada e subir até o apartamento de minha amiga, andei pelo pátio. Pensei que ali, ele estivera; que ali, ele terminara suas memórias; que aquilo, ele vira; que ali, ele morrera. Toquei nos muros. Examinei a hera. Olhei o céu.

De repente, dei-me conta também de que era preciso por fim àquele momento. Estava começando a me atrasar. Minha amiga ligou, perguntando se eu me perdera. Descartei a Revolução, o Império, a Restauração, Combourg, Chateaubriand, sua irmã Lucile, todas as suas amantes, Juliette Récamier, Tocqueville, Sainte-Beuve, Napoleão, abri a porta de vidro e subi.

                                                                                              Para Maria-Theresa Lazaro

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Minhas Aventuras com Tintin

Minhas Aventuras com Tintin

Uma vez, li em algum lugar que a vida é aquilo que precisamos fazer para ocupar o tempo entre o café da manhã e o almoço e entre o almoço e o jantar. Em julho de 2018, quando passei alguns dias em Bruxelas, senti que a vida acontecia durante as refeições, quando podia estar com minha filha, que lá vive e trabalha. O resto do tempo era apenas a espera tediosa do momento de revê-la.

Desde que Julia saiu de casa, em 2011, para fazer faculdade, e passamos a morar em países diferentes, cada reencontro torna tudo mais vivo, mais vibrante, mais colorido ao meu redor. Ao mesmo tempo, cada separação traz, nos primeiros dias, um sabor de vazio e de incompletude. Como preencher os momentos em Bruxelas entre o café da manhã, o almoço e o jantar? Como tornar menos entediantes as horas sem minha filha? Tive sorte de que os dias estavam quentes e ensolarados. Choveu apenas em um final de tarde.

Um de meus primeiros destinos foi La Boutique Tintin, o paraíso de todo admirador do jovem repórter que nunca escreve para jornal algum. Tintin é provavelmente o belga mais famoso que jamais existiu. No aeroporto de Bruxelas, Zaventem, na área central por onde passam todos os passageiros, estejam eles embarcando ou desembarcando, é ostentado o foguete que figura em duas de suas aventuras mais conhecidas:

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Assexuado, sem família, ar de adolescente e rosto sem traço distintivo — o topete é sua única característica física notável — Tintin é aquilo que cada um de nós quer que ele seja e todos podemos nos projetar nele. Mais recentemente, o personagem tem-se revestido de uma forma nova de prestígio: é um dos poucos heróis de histórias em quadrinhos famosos a não ser americano, em uma espécie de resistência cultural franco-belga.

No longínquo ano de 2016, meus alunos no Instituto Rio-Branco ofereceram uma festa a fantasia com o tema “Quadrinhos”. Fiquei me perguntando se algum iria vestido de personagem das BD franco-belgas. Quantos se fantasiariam de Lucky Luke, o cowboy “mais rápido do que a própria sombra”? Quantos de Astérix ou Obélix? Quantos de Spirou, o camareiro que vira jornalista, ou de Fantasio, seu melhor amigo? E quantos de Iznogoud, o vizir que queria “ser califa no lugar do califa”?

Ao ver nas redes sociais as fotos da festa, fiquei desapontado. Havia apenas personagens de comics americanos. Notei uma única exceção: um aluno fora disfarçado de Tintin, levando inclusive no braço um Milou de pelúcia. O jornalista belga de ficção aparentemente escapa da relativa obscuridade atual de outros heróis de quadrinhos de língua francesa, como demonstra o filme The Adventures of Tintin, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2011.

No Brasil, conheço ao menos uma pessoa fanática por Tintin: Chicô Gouvêa. Minhas férias de julho haviam começado em Lisboa, onde eu fora visitar minha irmã, e logo no primeiríssimo dia ela e eu jantamos no apartamento de Chicô e Paulo Reis, amigos que já mencionei em  O Embrulho Vermelho. Reparei que, como também acontece em sua casa no Rio de Janeiro, os personagens tintinescos faziam-se presentes na decoração em Lisboa:

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Chicô e Paulo colecionam máscaras africanas. Uma vez, no Rio, aconteceu de eu elogiar uma delas. Da maneira mais generosa, eles imediatamente a retiraram da parede como um presente para mim. Essa máscara foi comigo para Brasília, e agora chegou a Kuala Lumpur:

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Voltemos a Lisboa, ao jantar em casa de Chicô e Paulo, onde me deparo com uma máscara com os traços do herói belga, o que eu nunca havia visto antes:

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Dias mais tarde, em Bruxelas, dirijo-me a La Boutique Tintin. Conheço bem a loja, da época em que morei na cidade pela segunda vez, e sei que ela não é barata. Fica perto da Grand’Place:

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Dentro, o foguete é onipresente, e mesmo os modelos menores são caros, em função das leis de oferta e demanda, já que esse é provavelmente o objeto mais reconhecível, mítico das aventuras do nosso amigo belga:

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Vários objetos fazem referência a outras aventuras:

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O criador de Tintin, Georges Remi (1907-1983), conhecido pelo nome artístico Hergé (foneticamente, suas iniciais invertidas), é figura controvertida. Trabalhava, no começo da vida, em um jornal conservador, católico. É em um dos suplementos do jornal que primeiro foram publicadas, de forma seriada, as aventuras de seu principal personagem. Hergé é visto por alguns como tendo sido colaboracionista durante a ocupação alemã da Bélgica, na Segunda Guerra Mundial.

As aventuras de Tintin começaram a ser publicadas em 1929. As primeiras prestam-se facilmente a acusações de racismo e antissemitismo. Ler Tintin au Congo (1931) é uma experiência constrangedora. A partir de um determinado momento, contudo, as aventuras mudam de tom e tornam-se cativantes, embora haja, em L’Étoile mystérieuse, publicado durante a Ocupação alemã, ao menos uma página com alusões antissemitas.

Em casa, temos todos os volumes, exceto justamente Tintin au Congo. Mostro na foto os meus prediletos, sendo que na maioria dos casos são ainda os exemplares que meus irmãos e eu líamos avidamente na infância:

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Os volumes onde aparece o famoso foguete são estes:

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A mudança na visão de mundo de Hergé é atribuída à forte amizade que desenvolveu, a partir de 1934, com um estudante de arte chinês então residente na Bélgica, Chang Chong-chen, que colaborou no álbum Le Lotus Bleu. A convivência entre os dois durou apenas um ano, pois em 1935 Chang Chong-chen regressou à China. Eles só voltariam a se ver em 1981.

Hergé escreveu outras séries de histórias em quadrinhos, além da que é dedicada a Tintin, mas este, ao se tornar mais famoso do que seu próprio criador, ofusca o resto da obra. Criança, eu gostava também de Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, que mostram as peripécias de dois irmãos e seu chimpanzé:

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Em 2009, a viúva do artista criou na cidade de Louvain-la-Neuve, perto de Bruxelas, o Musée Hergé, belíssimo prédio concebido pelo arquiteto Christian de Portzamparc, mas desconfio que os visitantes vão ao museu para aprender mais sobre Tintin, não sobre o criador ou o resto de sua obra. Em janeiro de 2017, visitei em Paris, no Grand Palais, exposição dedicada a Hergé:

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Na exposição, organizada pelo Musée Hergé, as críticas ao antissemitismo, racismo e espírito colonialista de alguns álbuns foram abordadas de forma superficial, como que por mero desencargo de consciência. Com relação a Tintin au Congo, por exemplo,  um cartaz explicava que: “A ingenuidade caricatural com que ele descreve a população local e o país resulta de uma documentação sumária, cuja fonte é essencialmente o museu colonial de Tervueren”. E continuava: “Em Tintin au Congo, com frequência acusado, posteriormente, pelo seu tom colonialista, Hergé dá provas sobretudo do espírito de seu meio e de seu tempo”. Fácil assim…

A exposição dava exemplos do trabalho de Hergé como desenhista publicitário, por exemplo neste anúncio do jornal onde primeiro trabalhou:

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Naturalmente, não podia faltar uma maquete do celebérrimo foguete, pois afinal Tintin e seus amigos Milou, Capitão Haddock e Professor Girassol e os irmãos detetives Dupond e Dupont caminharam na Lua em 1954, quinze anos antes de Neil Armstrong:

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Nada me interessou mais na exposição do que rever a “estatueta portadora de oferendas”, em madeira, oriunda do Peru, produzida pela Cultura Chimu, pré-colombiana, entre 1100 e 1450:

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É que conheço muito bem essa escultura, pois ela pertence à coleção do Musée Art et Histoire, em Bruxelas, onde — criança e adulto — eu a vi inúmeras vezes. A peça inspirou Hergé, que a conhecia, a escrever um de meus livros prediletos da série, L’Oreille cassée.  Graças ao álbum, a estatueta talvez seja hoje a peça mais famosa do museu.

Em casa, temos uma mini-bibliografia sobre Tintin:

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Michael Farr —  autor inglês que publicou vários livros sobre o personagem e seu criador —  opina ser Tintin “um herói imaginário em um mundo real”. Daí derivaria seu “apelo universal”. Em The Complete Companion, Farr nos mostra como as aventuras são sistematicamente baseadas em fatos, eventos, prédios, pessoas, obras de arte, descobertas científicas reais.

O psicanalista e psiquiatra francês Serge Tisseron dedica grande parte de seu tempo a Hergé e a Tintin. Segundo sua teoria, Hergé transferiu para a série tintinesca o seu drama familiar. O pai do artista tinha um irmão gêmeo, como parecem ser gêmeos Dupond e Dupont, seus dois personagens detetives. O pai e o tio de Hergé eram filhos de uma mãe solteira, empregada doméstica na casa de um conde belga e sua mulher. Quando seus dois filhos gêmeos eram já adolescentes, a avó de Hergé casou-se com um operário, em um casamento arranjado pela condessa e graças ao qual os dois gêmeos adotaram o sobrenome — Remi — do padrasto. Essa união foi meramente de conveniência. Hergé nunca sequer viu o padrasto do pai, embora tivesse já 34 anos quando o “avô” morreu.

Quem teria sido o verdadeiro pai do pai de Hergé? Se ele sabia, nunca revelou. Serge Tisseron especula se poderia ter sido o conde, ou um de seus parentes ou talvez até mesmo o próprio Rei dos Belgas, Leopoldo II, notório mulherengo, que, segundo se sabe, frequentava as propriedades do conde e sua mulher.

Leopoldo II não era um monarca qualquer. Rei de um pequeno país, viu no imperialismo europeu na África a chance de aumentar seu patrimônio pessoal. Transformou o imenso território que é hoje a República Democrática do Congo em uma propriedade particular, à qual atribuiu-se, ironicamente, o nome de Estado Livre do Congo. Em 1908, o rei doou sua colônia à Bélgica, depois de ter amealhado grande fortuna graças a ela. O domínio de Leopoldo II sobre o Congo foi excepcionalmente cruel e sangrento. Alguns autores consideram que a presença belga no Congo constituiu, verdadeiramente, um genocídio. Joseph Conrad inspirou-se das crueldades cometidas pelos agentes de Leopoldo II para escrever Heart of Darkness, publicado em 1902. Devemos supor, porém, que, ao contrário de Kurtz, o vilão de Joseph Conrad, o Rei dos Belgas nunca sentiu arrependimento e nunca exclamou, ao morrer “The horror! The horror!”.

Seria Leopoldo II o avô de Hergé? Estaria aí a origem das falas e das atitudes revoltantes de Tintin e mesmo de seu adorável cachorrinho Milou em sua viagem ao Congo? De qualquer forma, o Tintin que sobrevive é o posterior, aquele encantador, inteligente, que ajuda os outros, vive aventuras em todas as partes do mundo, resolve vários enigmas, nunca comete maldades, é equilibrado e sensato, apesar da eterna figura de adolescente.

Saí de La Boutique Tintin, em Bruxelas, apressado, impaciente para ver Julia. Comprara um relógio de pulso. No dia seguinte, fiz um tuíte ostentando-o no braço. É, até hoje, meu tuíte mais popular.

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O Palazzo Spada e seus gatos

O Palazzo Spada e seus gatos

Para Fátima Ishitani

Ao chegar a Roma pela primeira vez, em 1786, aos trinta e sete anos, Goethe escreveu: “Todos os sonhos da minha juventude ganharam vida”. Visitando sua casa natal em Frankfurt, em 2013, constatei que o interior havia sido decorado pelo pai do escritor com gravuras representando Roma. Após um ano e meio viajando pela Itália, Goethe precisou partir, em abril de 1788. Triste, pensou em Ovídio, “o poeta que também foi obrigado a se exilar e a abandonar Roma, em uma noite enluarada”:

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Em abril de 1925, o futuro Senador e Chanceler do Brasil Afonso Arinos de Melo Franco visitou Roma pela primeira vez, aos dezenove anos de idade, sem saber que um dia seu nome estaria ligado ao de um período destacado da diplomacia brasileira, o da Política Externa Independente. Em 1982, publicaria um belo volume, Amor a Roma — belo palíndromoque é ao mesmo tempo livro de recordações, história de Roma, relato de viagem e ensaio literário, pois ali discorre sobre escritores que, como ele, se deixaram fascinar pela cidade. Meu exemplar de Amor a Roma foi presente que ganhei de um amigo, aos vinte e quatro anos:

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Quando ganhei o livro, eu já conhecia bem Roma, pois lá estivera pela primeira vez quatro anos antes, e havia regressado em duas ou três outras oportunidades. Desde então, não me canso de voltar. A cada vez, é a mesma surpresa de que possa no mundo existir um lugar assim. A cada vez, é a mesma estupefação diante daquele esplendor. Afonso Arinos, ao descrever o que seria o amor a Roma — considerado por ele “fecundo encantamento” — ensina que “o amoroso de Roma não se transfere para dentro da Cidade, antes transfere a Cidade para dentro de si”.

Como Afonso Arinos, cheguei a Roma pela primeira vez trazendo “no bolso um livro de Stendhal”. Ele não nos diz qual. Terá sido Promenades dans Rome, clara inspiração para Amor a Roma? No meu caso, foi Chroniques italiennes, e sobre isso já escrevi em Papai Noel e a amizade.

Foi em Roma, no Campo dei Fiori, que, pela primeira vez, em 2013, descobri as virtudes do suco de romã feito na hora. Pedro Nava criou para Afonso Arinos um “Palíndromo do amigo”:

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Afonso Arinos detém-se sobre a figura do poeta Joachim Du Bellay (1522-1560), que viveu em Roma de 1553 a 1557, mas não cita o verso de Du Bellay que mais me marcou, desde que primeiro o li em uma coletânea de poesia francesa que recebi de meus pais, na infância:

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O poema, iniciado com o célebre verso “Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage”, permite a Du Bellay declarar a saudade de sua terra natal, Liré, na província de Anjou, e dizer que gosta mais de lá do que do Monte Palatino: “Plus mon petit Liré que le mont Palatin”:

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Já criança, sem nunca ter ido a Roma — mas sim ao Anjou, embora não a Liré — eu ficava intrigado: como era possível uma aldeia de nada no interior da França (2.494 habitantes em 2010) carregar mais peso em um coração do que o Monte Palatino, onde Roma começou e onde moraram Augusto e muitos Imperadores, que lá construíram seus palácios? Isso, porém, foi só até eu começar a pensar nos morros na fazenda de meu avô, na Zona da Mata em Minas Gerais.

Em julho, minha filha e eu passamos um fim de semana em Roma. No domingo de manhã, fomos passear a pé, com uma amiga, pelo Campo dei Fiori e seu mercado. Tenho um fraco por feiras ao ar livre. Costumam ser lugares onde se sente o pulso de uma cidade, ouvem-se conversas de todo tipo à nossa volta, e as frutas e os legumes parecem deliciosos. Mercados trazem-me ecos de contos de As Mil e Uma Noites, uma de minhas leituras prediletas na adolescência. Frequentemente, perambulando por quiosques de frutas, mel, nozes, ervas e condimentos, penso nas aventuras do Califa Haroun-al-Rachid em Bagdá.

Tenho no meu celular fotos tiradas no Campo dei Fiori em diferentes viagens. As minhas prediletas são estas duas, de outubro de 2013:

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Quem será esse casal elegante, parado em pleno mercado? Nunca saberei, e fica a curiosidade. Penso frequentemente nessa foto, no momento em que a tirei, e nas vidas que ela revela.

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Quando publiquei no Facebook a foto acima, uma amiga que então morava em Roma, criou-se em Portugal e é uma purista do idioma me escreveu: “comprei orégano a esse homem ontem!”.

Na foto abaixo, de julho de 2017, conto ao menos dez variedades de tomate no diminuto espaço:

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Apesar do nome poético e da beleza arquitetônica, o Campo dei Fiori é também o local onde, no passado, aconteceram execuções públicas. Em 1600, o dominicano Giordano Bruno foi aqui queimado vivo pela Inquisição por, entre outras coisas, acreditar na existência de diversos sistemas solares. No centro, mesmo local onde ocorreu o suplício, há hoje um monumento em sua homenagem:

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O mercado se desenrola ao pé e ao redor da estátua. Como tantos lugares em Roma, a praça soma o belo ao prosaico:

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O nome do cinema é uma referência ao Palazzo Farnese, ali perto, sede da Embaixada da França.

No mês passado, ao chegarmos à praça, Julia, nossa amiga e eu tomamos um suco de romã. Pouco depois, tendo chegado ao último quiosque, ouvimos o vendedor, nascido em Bangladesh, nos dizer: “I can change your life”. Sorrimos e seguimos adiante, pelas ruas da vizinhança. Aquilo, porém, ficou me martelando. Meia-hora depois, pedi que voltássemos ao estande:

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Perguntei como ele poderia mudar nossas vidas. A resposta nos frustrou: “Fazendo vocês beberem um suco destas laranjas muito especiais. Laranjas darão às suas vidas mais energia, mais saúde”. Aceitamos. Tomamos cada um o seu copo de suco. A laranja era de fato excepcional, mas fiquei decepcionado. Isso era tudo bem banal. Esperava mais; talvez, a revelação do mistério da vida. O vendedor havia feito propaganda enganosa.

Tomado o suco de laranja, perguntei à nossa amiga se conhecia o Palazzo Spada, ali perto. Julia, eu sabia, nunca estivera lá. Diante da resposta negativa, sugeri que o visitássemos imediatamente.

O palácio, construído nos séculos XVI e XVII, contém uma coleção de arte formada por membros eclesiásticos da família Spada, particularmente o Cardeal Bernardino Spada (1594-1661). Menor e menos importante do que, por exemplo, a da Galleria Borghese ou a do Palazzo Doria Pamphilj, a coleção, conhecida como Galleria Spada, é porém atraente e compacta. A fachada externa do palácio e as fachadas no pátio interno, do século XVI, apresentam-se assim:

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O palácio não é todo visitável, pois é um prédio governamental, sede do Conselho de Estado. Por essa razão, a não ser excepcionalmente, não pode ser vista a estátua de Pompeu que ele abriga, descoberta no século XVI e que, por muito tempo — mas não mais — foi considerada aquela mesma a cujos pés caiu César, ao ser assassinado no Senado. Plutarco, em sua biografia de César, nos diz que a estátua ficou “toda ensanguentada; por isso, ela parecia presidir à vingança e à punição do inimigo de Pompeu, caído aos seus pés”. Não conheço a escultura, mas posso ver sua reprodução todo dia, se quiser, pois ela está na capa deste livro:

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A Galleria Spada compõe-se de apenas quatro salas, de tamanho mediano. Os quadros são expostos ao estilo do século XVII, cobrindo ao máximo possível as paredes. Nesta foto, o retrato cardinalício, na parede da esquerda, representa Bernardino Spada, pintado por Guido Reni (1575-1642):

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Guido Reni é um pintor cujas obras sempre noto, pois era um artista de predileção de Stendhal, que frequentemente fala nele, afrancesando seu nome para “le Guide”. A cada quadro de Reni que vejo, sinto-me mais próximo de um de meus escritores prediletos.

A visita pela Galleria Spada continua:

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A última sala contém o quadro que mais me intrigou nesta visita recente, o maior de todos, visto abaixo na parede da esquerda:

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Vejamos a obra mais de perto. Não foi fácil fotografá-la, pois por mais que eu me movesse pela sala — retangular e relativamente estreita — sempre havia luz incidindo sobre alguma parte da tela:

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Trata-se de A Morte de Dido, pelo Guercino (1591-1666), outro pintor de predileção de Stendhal, que o chama de “le Guerchin”. A obra, teatral, representa o momento em que Dido, rainha e fundadora de Cartago, se suicida ao ser abandonada pelo amante, Eneas, que parte nos barcos vistos ao fundo da tela. A espada usada por Dido para se matar fora um presente de Eneas. O homem à direita na tela nos convida a assistir à cena, o que parece nos inserir em uma peça. Essa percepção é acentuada pela posição do corpo de Dido — que ainda está viva — pouco natural mas fortemente dramática. À esquerda, a irmã da rainha demonstra seu choque, com o gesto das mãos abertas. Barroco pelas roupas e as poses das personagens, o quadro é impressionante.

Era porém hora de sair para o jardim interno do palácio, onde já me esperavam Julia e nossa amiga, e onde queríamos ver a famosa perspectiva criada pelo arquiteto Francesco Borromini em 1653:

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Graças a um efeito de ilusão de ótica, a galeria de colunas parece ter 35 metros, mas na realidade há pouco menos de nove. A estátua de soldado ao fundo parece ser em tamanho natural, mas sua altura verdadeira é de apenas 60 centímetros.

A perspectiva de Borromini é um dos tesouros romanos mostrados em A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino, ganhador de numerosos prêmios, inclusive, em 2014, o Oscar de melhor filme estrangeiro. A Grande Beleza é, talvez, a mais bela homenagem que um filme já tenha prestado a qualquer cidade. O personagem principal, Jep Gambardella — em uma convincente atuação de Toni Servillo — nos revela, andando pela cidade, a vida cínica e ociosa que passa junto a membros decadentes da alta sociedade romana, em claros ecos de La Dolce Vita de Fellini. Na loja da Galleria Spada, ao sair, comprei um livro fascinante, do historiador da arte Costantino D’Orazio, que nos explica muito sobre os cenários de A Grande Beleza e o objetivo de Sorrentino ao realizar o filme:

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Segundo D’Orazio, “Os romanos já não sabem apreciar a beleza que os circunda”. O fio condutor do filme de Sorrentino seria o seguinte: “La grande bellezza di Roma, le sue architetture e opere d’arte vengono continuamente deturpate dalla volgarità degli uomini che le abitano”.

Em um filme repleto de cenas memoráveis, uma das melhores dura cinco minutos e mostra Jep e sua nova amiga, Ramona, em um passeio noturno por palácios, museus e jardins. Levaríamos dias, enfrentando multidões, para percorrer o trajeto daqueles cinco minuto de cena. Jep e Ramona estão acompanhados de Stefano, claudicante e de bengala, que carrega consigo uma pasta onde estão as chaves — enormes — dos lugares que contêm vários dos tesouros artísticos da cidade. Ramona pergunta a Jep: “Ele é o porteiro?”. A resposta: “Não, é o amigo das princesas”. A personagem de Ramona é a mais comovente do filme. Quando Jep a conhece, sabemos apenas que ganha a vida fazendo strip-tease na casa noturna do pai, que assiste ao seu show e explica: “Já disse a ela que, aos 42 anos, está velha para isso, mas ela diz que precisa do dinheiro”. Longe de ser mais uma personagem decadente do filme, Ramona é, na verdade, a mais inocente e atraente, e logo descobriremos a razão triste por que precisa do dinheiro.

O poético passeio noturno de Jep, Ramona e Stefano inclui uma visita à perspectiva de Borromini no Palazzo Spada. Ao contrário de nós, Ramona pode caminhar pela galeria de colunas e, chegando ao fim, exclama: “parecia longa, mas é curta!”, com ar de total surpresa e felicidade. Comenta D’Orazio: “Con il sorriso di una bambina… la sua sorpresa è quella che i romani non vivono più di fronte alla grande bellezza di Roma”. D’Orazio classifica a perspectiva como apta a provocar “stupore” e “meraviglia”.

O jardim de laranjeiras de onde se vê a obra de Borromini é silencioso e tranquilo:

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Admirei as laranjas, ouvi o canto de pássaros, senti o sol, reexaminei a galeria de colunas. A paz era profunda. Além de nós três, mais ninguém. Ou assim pensávamos. Logo, sentimos outra presença. Uma gata, grávida, circulava pelo jardim:

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Deitou-se sem cerimônia:

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Logo apareceu um segundo gato, e rapidamente elaboramos a teoria, romântica ou lúcida, de que seria o feliz papai dos filhotes prestes a nascer:

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Tivemos em seguida a certeza de que eram os animais de estimação da casa:

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Fiquei pensando sobre o fato de que, em um canto silencioso de Roma, o Palazzo Spada guarde a estátua antiga de Pompeu e os quadros de Guido Reni e Il Guercino ilustrando figuras da história ou cenas dramáticas da mitologia, ostente as suas nobres fachadas, mas abrigue também dois gatos e sua casinha. Talvez seja esse o mistério de Roma. A cidade é o espetáculo grandioso de várias épocas superpostas, formando ao mesmo tempo um conjunto coeso. Para sempre, porém, seu nome fará lembrar o do Império de que já foi o centro e que ruiu. Por isso, as noções de grandeza e decadência estão, em Roma, interligadas. E a vida continua, agitada mas também serena, espetacular mas também simples, alegre e também triste, e o mesmo espaço nos mostra, magnificamente, a morte de Dido — abandonada por Eneas, preocupado em partir para ir fundar Roma — e uma gata grávida e seu pequeno abrigo. Roma, assim, é todos nós.

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Ary