O título em português dá um sentido levemente diferente do título em inglês (Mountains may depart). O título em francês (Au-delà des montagnes) já dá um terceiro sentido, mais fraco do que os outros dois. Qual dos três sentidos será mais perto do chinês? O enredo justifica os três títulos, dependendo do aspecto que se queira enfatizar.

Jia Zhangke aborda o tema filosófico, a meu ver, mais fascinante de todos: como o ser humano lida com a solidão inerente  a toda vida. Nascemos, vivemos e morremos apenas na companhia de nós mesmos, e se eu fosse o narrador de um filme do Woody Allen, recomendaria agora: “Ame a você mesmo…é muito chato ter de passar a vida inteira com alguém de quem você não gosta”.

Pode-se postular que amamos, fazemos amigos, jantamos fora em grupo e queremos sucesso profissional, em parte, para tentar escapar da solidão. Porém, nem os amores mais profundos, nem as amizades mais verdadeiras, nem a vida social mais intensa, nem a existência mais prestigiada, mais exitosa eliminam totalmente a solidão.

Um amigo, este ano, chamou minha atenção para um artigo de Hans Morgenthau de 1962, bastante surpreendente, intitulado Love and Power, em que o autor equipara a busca por amor e a busca por poder, argumentando serem ambas causadas pela tentativa de fugir da solidão.

Os amores, porém, muitas vezes terminam e os amigos se desentendem (e o poder, em algum momento, termina). Fazemos um esforço de aproximação com outros seres humanos para escapar da solidão, mas frequentemente afastamos de nós essas mesmas pessoas. Fugimos da solidão e a trazemos de volta.

O belo filme de Jia Zhangke é, entre outras coisas — muitos preferem ver no filme uma análise das consequências que o desenvolvimento chinês provoca nas pessoas, mas essa visão não é incompatível com a minha, é apenas uma questão de ênfase  -— uma descrição sobre a solidão a que as pessoas às vezes se condenam. Elas fazem escolhas, ao longo da vida, sem ter como prever as consequências; essas escolhas podem ser equivocadas e aumentar —  em vez de diminuir  — seu grau de solidão.

A frase mais marcante do filme talvez seja: “todo relacionamento humano termina; as pessoas sempre se afastam umas das outras”. A frase não é sempre verdadeira. Amores, amizades e relações profissionais e sociais podem durar a vida inteira, como sei pela minha própria experiência. Toda relação, porém, mesmo a mais indiferente, precisa de esforço constante para ser preservada. Um olhar mau-humorado pode bastar para azedar a relação mais antiga. E Proust nos ensina que todo relacionamento humano varia ao longo dos anos, às vezes mais próximo, às vezes mais distante.

A heroína do filme, em uma comovente interpretação de Zhao Tao, é bela, ética, meiga (sei que o adjetivo soa antiquado, mas é correto, neste contexto) e generosa. Um erro — e é, em qualquer vida, o que pode bastar — a condena, e a vários outros personagens, à solidão. A decisão em questão é perfeitamente natural e parece correta, naquele momento. Suas consequências, porém, afetam negativamente a vida de vários dos personagens principais do filme, e por muitos anos.

A cena final provocou em mim enorme tristeza. Alguns amigos, talvez mais sábios, tiveram percepção diferente: julgaram que a heroína termina feliz, conformada com a sua condição solitária, já que humana.

 

Ficha técnica do filme: imdb

 

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Amor e Amizade -Whit Stillman

Amor e Amizade…dois sentimentos, sugere o filme, que devem ser evitados se quisermos manter a objetividade necessária para vencer na vida. Lady Susan Vernon, a protagonista, é especialista em despertar os dois sentimentos nos outros, sem nunca ser sua vítima. Este filme é mais do que uma nova adaptação da obra de Jane Austen. É um estudo sobre as contingências de uma mulher do século XVIII, ciente de ser mais inteligente do que as pessoas ao seu redor e de que a falta de escrúpulos será seu trunfo. Como bônus, o filme nos entrega interiores soberbos, belas paisagens, Handel e Mozart na trilha sonora, interpretações magníficas e o mais importante: muito senso de humor. Kate Beckinsale está inesquecível como a personagem principal, que hesito em chamar de vilã. Sua Lady Susan merece todos os epítetos listados no poster abaixo mas é também bela, sedutora, irresistível e espirituosa. O diretor do filme, Whit Stillman, nos leva a aceitar que a falta de caráter da protagonista, associada a um constante sorriso, é a melhor arma de que ela dispõe para sobreviver naquela sociedade. Não é culpa sua se é rodeada de tolos, dispostos a se iludir com ela. Tom Bennett, aliás, está estupendo no papel do mais tolo dos tolos. A filosofia de Lady Susan é: a frieza, o cinismo e o oportunismo compensam, se disfarçados pela simpatia e conduzidos com inteligência. Confrontada com sua deslealdade, Lady Susan descarta, sem susto, as acusações contra ela, pontificando: “facts are a horrid thing”. Um filme delicioso.

 

Ficha técnica do filme: imdb

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Em torno a um bilhete encontrado em um livro

Como comentei em texto anterior, em minha mais recente expedição à Livraria Berinjela comprei cinco livros franceses. Entre eles, os dois acima, sobre Proust.

Dentro do livro publicado por Lucien Daudet sobre 60 das cartas que recebeu de Proust, achei um “bilhete postal”, denominação aliás nova para mim. Reproduzo o bilhete nas fotos abaixo.

C. A. [Carlos Alfredo] Bernardes era um diplomata, também conhecido como Lolô Bernardes. Em 1949, pelo visto, estava lotado na Embaixada em Paris. Reproduzo o texto do cartão: “Querido, Receio que você não tenha recebido a minha carta. Já agora, não há tempo de fazer a encomenda, pois ando nas [ilegível] da minha estadia aqui.É pena; visto que o tal líquido corre por cá em caudaloso rio…Muita saudade do teu Lauro”.

Mensagem mais críptica, impossível. Qual é o “tal líquido” (sublinhado no original) que, em Lisboa, corre em “caudaloso rio” e que poderia interessar a um morador de Paris encomendar ?

Não há como saber. Não é grave, porém.  O que interessa é sentir a vida pulsar, 67 anos depois, quando os dois amigos estão mortos. Eles se foram, mas suas preocupações, suas frustrações, sua amizade podem ainda ser sentidas, porque por acaso o bilhete postal de Lauro para Carlos Alfredo sobreviveu.

Minha vista no Rio de Janeiro

Uma ótima forma de passar o domingo: em casa com amigos, almoçando bem, olhando essa vista, depois de um mergulho no mar. Isso também é um prazer estético, e talvez cultural.

Berinjela – Leonardo da Vinci

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, minha mãe me levou pela primeira vez à Livraria Leonardo da Vinci, paraíso no Edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Na época, nós morávamos em Montevidéu, e estavámos de férias no Brasil.

Fiquei imediatamente apaixonado. Nunca mais deixei de frequentar aquele espaço, quando estava no Rio. Moram na minha estante vários volumes adquiridos lá. Era o melhor lugar da cidade para comprar livros em outras línguas, particularmente de História, em francês. A fundadora e proprietária, Vanna Piraccini, estava sempre por lá, frequentemente no caixa. Como eu era, até pouco depois dos vinte anos, muito tímido, nunca tive coragem de trocar com ela palavra alguma além de “bom dia” ou “por favor” e “obrigado”.  Hoje me arrependo. Ao longo de 2015, a livraria foi fechando. O assunto gerou numerosos artigos na imprensa, pois a Leonardo da Vinci foi, durante décadas, uma instituição.

A Leonardo reabriu há pouco, como uma nova livraria, de livros em português, e novo proprietário, Daniel Louzada. O espaço foi totalmente modificado. A antiga Leonardo da Vinci era um dédalo; a nova versão é uma sala retangular, arejada. É uma boa livraria e deve dar certo. Há um café, também excelente  — recomendo o bolo de aipim. 

Mas onde entra a berinjela? Não há no café. Na verdade, é com maiúscula. Em frente à Leonardo da Vinci há, faz alguns anos, um sebo excelente, chamado Berinjela. Pertence a outro Daniel, Daniel Chomski. Em um recinto relativamente pequeno, podem ser encontrados tesouros. Nunca saí de lá de mãos vazias. Os funcionários são sempre simpáticos e prestativos.

Em minha mais recente incursão à Berinjela, saí com o botim abaixo. Deixo vocês sonharem com os cinco títulos. Talvez venham a ser comentados posteriormente.

Direi aqui apenas que Proust e Napoleão são, desde sempre, duas fontes constantes de interesse para mim. Sobre Aron, Baudelaire e Sartre, nada anteciparei por enquanto.

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Loucas de Alegria – Paolo Virzì

Amar pode causar loucura? Paolo Virzì diz que sim, em seu luminoso filme. Ao menos no caso de amor não-correspondido, conceito na minha visão contestável: se não é correspondido, não é amor, é um delírio, uma loucura…Ou será que amar é em si, segundo Virzì, um ato de loucura?

Beatrice (Valeria Bruni Tedeschi), bela, exuberante e aristocrática, e Donatella (Micaela Ramazzotti), bela, melancólica e pobre, estão internadas em instituição psiquiátrica-judicial, por causa dos atos insensatos que cometeram pelo amor – ou pela obsessão – que sentem por homens errados. Surge uma bonita e inesperada amizade entre duas mulheres cujo único traço comum é a vontade de desenvolver vínculo forte com outro ser humano; não será isso já um sinal de loucura? A estupenda interpretação das duas atrizes, assim como o roteiro e o talento do diretor, transformam uma estória potencialmente trágica em uma comédia profunda mas divertida sobre a condição humana.

O filme coloca várias indagações. Primeiro, qual a diferença entre loucura e saúde mental, pois em sua fuga pelas estradas italianas, Beatrice e Donatella encontram figuras perturbadoras, soltas e aceitas pela sociedade, ao contrário delas, que parecem ser punidas pela sua autenticidade e transparência. Em segundo lugar, somos levados a pensar sobre o que é o amor e como demonstrá-lo; pelo desprendimento, parece nos dizer o filme em cena quase no final, entre Donatella e o filho. Finalmente, vem o questionamento sobre se a amizade existe, não só entre as duas, como entre quaisquer outras pessoas. Virzì nos convence que sim, se houver aceitação mútua. Um filme marcante.

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Ficha técnica do filme – IMDb

Julieta – Pedro Almodóvar

Novo dramalhão do Almodóvar, um diretor que eu já desistira de acompanhar. Este filme, porém, é soberbo. São inúmeras as referencias culturais (Alice Munro, Patricia Highsmith e Homero são referências abertas…mas notei também alusões a Hitchcock – vários de seus filmes -, Bernard Herrmann, Debussy e Tolstoi (algumas cenas remetem a Anna Karienina).

Há grande riqueza estética e psicológica. Esteticamente, são marcantes as cenas no trem: dentro do vagão, há o uso das cores e das linhas retas e a beleza de Adriana Ugarte; fora, há a neve, as árvores e um cervo carregado de simbologia.  As cenas na cozinha da casa do marido de Julieta, onde a janela olha para o mar, são também marcantes visualmente e, como as do trem, carregadas de simbolismo. A água, aliás, é um tema recorrente no filme.

No plano psicológico, este é um filme sobre a culpa, o ciúme e também sobre o ciúme levando as pessoas a cometerem atos ou tomarem decisões que levam à culpa. Ao contrário do filme de Jia Zhangke,  As Montanhas se Separam, em Julieta a solidão dos personagens parece ser voluntária.

A denúncia moral do filme, coerente o tempo inteiro, fica explicitada na última cena: infelizmente, o ser humano só aprende a perdoar depois da perda e do sofrimento. Que triste que seja assim, parece dizer Almodóvar, já que a capacidade de perdoar – ou de não guardar mágoas – poderia trazer felicidade e nos poupar, justamente, da perda e do sofrimento. 

Frase da heroína: “Ya no podía con mi alma”. Existirá solidão maior do que essa ? Um belíssimo filme.

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Ficha técnica de Julieta – IMDB.com