Capitu, a Garota de Ipanema

Capitu, a Garota de Ipanema

Mudamo-nos para 52, Cornwall Gardens, South Kensington.
Joaquim Nabuco em seu Diário, 4 de setembro de 1900

 

Há muitos anos, minha irmã foi, em um dia de outono, apresentada à rainha Elizabeth II e ao príncipe Philip. Titina acabara de fazer 18 anos. O príncipe é conhecido pelos seus comentários intempestivos. Por alguma razão, o divórcio de meus pais — que era recente — foi tema da conversa. O príncipe perguntou: “Se seu pai mora no Rio, isso quer dizer que você fica indo e vindo entre o Rio e Londres? Mesmo antes de se divorciarem, seus pais já viviam assim, cada um em um país?”. Concluiu a interação dizendo: “Não sei como você conseguiu nascer”.

Essa história já tinha fugido da minha memória por completo. Voltou, junto a outras, quando, há poucos dias, reli as cartas que enviei ao meu pai, na época em que eu era estudante universitário em Londres e morava com minha mãe e minha irmã. Ele era então meu principal correspondente, pois eu o via como o melhor dos amigos. As cartas eram frequentes e longas. Lembro-me com carinho das tardes ou das noites em que, voltando da universidade ou do teatro, eu me sentava à mesa de jantar, no silêncio absoluto da casa em South Kensington, a poucos metros de onde morara Joaquim Nabuco, na mesma rua, e redigia, em papel em geral azul, o relato do meu cotidiano. No dia seguinte, cedo, antes de pegar o metrô para ir à aula, eu parava na agência dos correios, perto da estação, para selar e postar a carta. Na era do e-mail, do whatsapp, isso tudo parece um conto de fadas.

Minhas cartas falam do meu curso, das minhas viagens pela Europa, de escritores amigos de meu pai — e de livros. Relê-las é recordar como eu era entre os 19 e os 24 anos.

Há referências que eu já não entendo; como meu pai morreu há vinte anos, não posso consultá-lo a respeito. Fico surpreso com a seguinte frase, que coloquei como post-scriptum em uma das cartas: “Soube que você brigou com dois acadêmicos que, no velório da Dinah, falaram da paixão dela pelo José Lins do Rêgo. Achei ótimo, a atitude deles foi de extremo mau gosto”. Falo aí de Dinah Silveira de Queiroz, grande amiga de meu pai, que conheci na adolescência, e cujo romance Margarida La Rocque: A Ilha dos Demônios eu lera pouco tempo antes e achara fascinante. Mas como foi que eu, em Londres, soubera dos protestos do meu pai diante dessa intriga? Quem me contara? Quais eram os “dois acadêmicos”? Houve essa “paixão” da Dinah Silveira de Queiroz pelo José Lins do Rêgo? Nunca mais terei resposta para essas dúvidas.

José Lins do Rêgo marcou minha juventude, por causa da leitura, no começo da adolescência, de seu romance Menino de engenho. Assim como o narrador atravessa a infância e a juventude no engenho de açúcar do avô materno na Paraíba, meus irmãos e eu passávamos todas as férias na fazenda de nosso avô materno, na Zona da Mata em Minas Gerais. Propriedades rurais imersas em uma vida própria, fora do tempo, latifundiários severos chamados de “coronel”, como o avô do personagem e como meu bisavô, eram conceitos familiares para mim na infância e na adolescência. Abro o livro ao acaso, e uma frase que define o avô do narrador poderia se aplicar ao meu: “aquele seu ar de tranquilidade poucas vezes eu via alterar-se”.

José Lins do Rêgo era amigo de meu segundo avô materno, o padrasto de minha mãe, que a criou. Por whatsapp, ela me confirma neste instante que o conheceu bem: “O Zé Lins? Claro que sim. Ele e papai eram grandes amigos, unidos pelo amor ao futebol e ao Flamengo. Fez conosco a viagem à Suíça em 1954, para a Copa do Mundo”. Eram ambos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos e cronistas no Jornal dos Sports. Meu avô, Alfredo Curvello, escreveu nesse jornal, em setembro de 1958, uma crônica sobre José Lins do Rêgo, no primeiro aniversário de sua morte, intitulada “O Inesquecível Zé Lins”. Lamenta meu avô essa perda, “surpresa dolorosa de todos os dias, quando o buscamos onde ele não estará nunca mais, quando o esperamos onde ele sempre aparecia”, e elogia a “personalidade forte de homem que não enganava a ninguém”.

Em outra carta, leio a frase repentina: “O Luis Fernando Veríssimo me telefonou ontem. Não o vi, porque ele foi embora de Londres já hoje”. Como posso ter esquecido que um dia falei com o Veríssimo? A conversa telefônica não terá sido palpitante, porque eu era um jovem tímido. É nessa mesma época que, de férias no Rio, ao ser apresentado pelo meu pai a Jorge Amado e a Carlos Drummond de Andrade, fiquei mudo diante da simpatia do escritor baiano e da cordialidade do poeta mineiro.

Livros ocupam um espaço importante na correspondência entre meu pai e eu. Um avisa ao outro que está enviando um livro pelo correio. Um comenta com o outro suas impressões sobre algum texto ou autor. Passar os olhos por uma de minhas cartas trouxe de volta a alegria que me causou a leitura de The Pickwick Papers. Em outra, comento o sucesso de crítica da tradução para o inglês de uma obra muito cara ao meu coração, Ópera dos Mortos, de Autran Dourado. Em uma carta de meu pai, vejo elogio a um livro escrito por Cora Rónai, Sapomorfose, ilustrado por Millôr Fernandes. Noutra, ele avisa que me enviou exemplar do novo romance de Jorge Amado, Tocaia Grande, com dedicatória para mim. Queixa-se de seus editores: “Edição de livro, aqui no Brasil, realmente é um problema. Acho que insolúvel”; e em outra carta: “E cadê a divulgação? É isso aí, a eterna esculhambação das editoras, que sempre julgam que o livro vende por si mesmo, misteriosamente”. Numa terceira, falando do lançamento de sua novela Sandra, Sandrinha, reclama: “o livro saiu junto com O Gato Sou Eu, do Sabino, que tem precedência, como sempre, por parte da editora”. Fernando Sabino, amigo querido de meu pai, era então, provavelmente, o autor brasileiro mais popular, o que mais vendia. Não era preocupação tola temer que o lançamento simultâneo, pela mesma editora, do livro de crônicas de Sabino fosse afetar a divulgação de sua novela.

A vida literária de meu pai é sempre presente em suas cartas. Pouco antes de eu ir morar em Londres, ele publicara sua obra mais encantadora, um infanto-juvenil intitulado Titina, fortemente baseado na nossa vida familiar. Somos todos personagens, com nossos nomes reais, e eu apareço como um garoto mergulhado em “livros franceses”. Titina e nosso basset hound, Arusha, que morreria muitos e muitos anos depois, na embaixada em Viena, já na velhice, de maneira trágica — talvez assassinada — são as heroínas. O sucesso de crítica de Titina, que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, está bem registrado no arquivo de meu pai. Wilson Martins, em um artigo sobre sua “biblioteca ideal”, nela incluiu Titina. Rachel de Queiroz indicou que “a lição moral, mostrando a alegria da convivência, o amor, a piedade, a solidariedade humana, flui tão espontânea e suave na bonita linguagem de Ary Quintella, que até o leitor adulto a aprecia e aceita”. Carlos Drummond de Andrade escreveu a meu pai: “Titina — poesia, sentimento humano, arte literária: tanta coisa bonita”. O livro possui um frescor diferente das primeiras obras de meu pai, que Drummond uma vez qualificou em uma crônica, de forma elogiosa, de “sortidas vanguardistas”.

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Quando quero ler as cartas que escrevi a meu pai, não posso simplesmente abrir um baú em casa. Cinco anos antes de morrer, ele as doou, assim como seus manuscritos, resenhas de seus livros, fotografias e seus numerosos artigos de imprensa à Fundação Casa de Rui Barbosa. Como comentei em  Edla van Steen, História sobre a Amizade,  senti decepção, recebi uma impressão de traição, ao saber do destino que ele dera às minhas cartas.

Quando estou no Rio de Janeiro e consigo ir à Fundação, nunca deixo de me perguntar como pode existir, no caos urbano carioca, um lugar tão extraordinário. O prédio histórico, na rua São Clemente, é a casa onde morou Ruy Barbosa. A cama onde o jurista morreu em Petrópolis pode ser vista em um dos quartos. Às vezes, entro apenas para visitar a biblioteca, que contém, disse-me a vigia na semana passada, 37 mil volumes. A página eletrônica da Fundação diz 23 mil. Ruy Barbosa gostava dos clássicos franceses. Fico olhando por trás das vitrines das estantes as encadernações em couro das obras de Chateaubriand, de La Fontaine, de Corneille e de Racine, e das Memórias do duque de Saint-Simon.

Atrás da casa, está o jardim, aberto ao público. É grande e relativamente silencioso. O canto dos pássaros predomina. Famílias lá passeiam com seus bebês. Em um prédio lateral está a coleção de carruagens e carros de Ruy Barbosa.

Ao fundo, vemos um prédio moderno, baixo, onde ficam a sede da Fundação e o arquivo literário, que preserva manuscritos ou documentos de vários escritores, inclusive Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Pedro Nava, Vinicius de Moraes. O arquivo de José Lins do Rêgo não está lá, mas está o manuscrito de Menino de engenho, doado por Plínio Doyle, que me foi mostrado em julho. Foi como ver um tesouro.

Menino de engenho

A sala de pesquisa, onde examino, quando vou à Fundação, o arquivo de meu pai, é também um museu literário. Ali trabalho ao lado, por exemplo, de uma mesa redonda, cadeiras e uma poltrona verde que pertenceram a Manuel Bandeira. Ao meu redor, pesquisam estudantes universitários. Nas minhas idas mais recentes à Fundação notei, pelas caixas deixadas nas mesas, que estava sendo consultado o arquivo de um poeta até então desconhecido para mim, Sebastião Uchoa Leite. Desvio minha atenção da poltrona de Manuel Bandeira e volto a examinar a herança de meu pai. Uma entrevista em um jornal uruguaio chama minha atenção: nela, ele declara que o melhor escritor brasileiro é Machado de Assis, seguido de Lima Barreto e José de Alencar. Recordo muito bem que, seis ou sete anos depois, ele condenou a minha fase de grande leitor de José de Alencar, manifestando a esperança de que eu lesse “coisas mais interessantes”. Contradição? Acredito mais na evolução natural provocada pelo tempo que passa, processo em que nosso gosto muda. Eu mesmo, quem sabe, já não tivesse hoje o mesmo prazer em ler Sonhos d’Ouro e Senhora.

As cartas que recebi de meu pai, ao contrário das minhas, estão guardadas comigo. Releio algumas e vejo o comentário de que uma amiga sua, Sônia Coutinho, “foi à casa do Jorge Amado, aqui no Rio, e me disse que o Jorge estava com o Titina na mão, falando do livro com o Merquior, que tinha ido lá trabalhar para a entrada dele na Academia”. Outra carta comenta os boatos a respeito do suicídio de Pedro Nava, ocorrido quatro dias antes.

Em uma delas, meu pai me explica sua visão sobre o processo criador: “Recebi tua última carta, que achei bem bonita. Creio que você tem razão: muita vez o escritor nem percebe o que está escrevendo e, sem querer, coloca coisas que só terceiras pessoas percebem. Mas o que vale — em qualquer obra de arte — é o efeito. Isto é, o que ocasiona no usuário da produção artística. Obviamente, o usuário vai interpretar da maneira que julgar + adequada. Duas interpretações — aliás — são, muita vez, conflitantes, antagônicas, exatamente opostas. Já li mais de 4 livros e/ou 20 artigos sobre o enigma de Capitu. Capitu “deu” ou “não deu”? Essa ambiguidade da obra de arte é que a torna valiosa, às vezes imprescindível. É gozado, quando a gente escreve, ler depois o que pensam do que foi escrito. Uma vez escrevi A Torre de Menagem. As interpretações a respeito foram engraçadíssimas. Eu não pensara em nada do que acharam que fosse minha intenção”. Mais adiante, nessa mesma carta, meu pai faz um comentário que completa sua percepção sobre o processo de criação literária: “Hoje, o Jorge Amado me ligou. Está indo para a Europa escrever. Não aguenta + tantas entrevistas e badalações. Cansam demais e fazem a gente perder tempo”.

Meu pai era fascinado por Dom Casmurro, e particularmente por Capitu. Nela falava com frequência. Descubro um longo artigo seu de 1978, Quatro romancistas cariocas, escrito em tom jocoso, em que, ao falar de Machado, concentra-se em Dom Casmurro e revela suas próprias fantasias: “Capitu, D. Capitolina, todo mundo fala de seu mistério, de sua moral e todos se esquecem de que a senhora foi belíssima, atraente, sexy, glamurosa […] a senhora foi a Garota de Ipanema de seu tempo”.

Aos 22 anos, escrevi em uma carta: “Papai, sinto saudades imensas de você”. Comentei com um amigo, que me conhece desde os quinze anos, o tom carinhoso que eu adotava com meu pai. Ele perguntou-me: “E as cartas dele a você, são afetuosas também?” Apenas um amigo de vida toda — ou o príncipe Philip — poderia me fazer uma pergunta assim. Os intervalos entre suas cartas são curtíssimos, ele me escrevia às vezes duas, três vezes na mesma semana. São também mais sucintas do que as minhas, e em estilo mais direto; ele não era dado a exposições de alma. Apenas quando recorda a morte violenta de meu irmão na adolescência, poucos anos antes, a guarda baixa: “Hoje, não cessei de pensar no Alfredo e me sinto deprimido”. O afeto por mim aparece na indagação, na preocupação constante quanto ao meu futuro profissional, minhas ambições, meus projetos: “O tempo ruge, e você — como jovem — ainda não sabe disso”.

Sobretudo, ele me incentiva toda hora a escrever. Pergunta se consegui terminar meu romance. Sugere que eu faça traduções. Oferece-se para publicar na imprensa eventuais crônicas minhas. Opina que começar com crônicas poderia ser uma boa maneira de eu “aprender, quando quiser escrever algo, a ter saco, qualidade fundamental do escritor”.

Abro mais uma carta dele, ao acaso, de quando eu tinha vinte e um anos. Meu pai, aludindo a amigos seus, pressiona-me: “Merquior, se não me engano, começou a escrever crítica literária aos 16 anos […] Jorge Amado, aos 18 anos, já tinha publicado País do Carnaval“. A carta termina com a seguinte injunção: “Ary, escreve: crônica, romance, como é o ensino em sua universidade aí, mas escreve”.

O tempo porém nem ruge nem urge. O tempo não existe, ele é uma abstração que inventamos na tentativa inútil de dar alguma coerência às nossas vidas. Existe apenas o tempo interior, próprio a cada um de nós.

 

Cartas Ary Quintella

 

(Este ensaio foi publicado anteriormente na Revista Pessoa)

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O Dia em que vi o Crânio de meu Avô

O Dia em que vi o Crânio de meu Avô

Let’s talk of graves, of worms, and epitaphs
Richard II, Shakespeare

No final da minha adolescência, no começo da vida adulta, eu costumava, quando  estava em Paris, fazer peregrinação aos túmulos de escritores e compositores objeto de minha admiração. Os cemitérios da cidade são frequentados pelos turistas, que caminham entre os monumentos funerários, com um mapa nas mãos, tentando encontrar o jazigo de celebridades.

A tumba de Stendhal era para mim destino obrigatório, por ser ele então meu escritor predileto. Estudante em Londres, eu ficava acordado até de madrugada lendo seus livros, e ia à aula no dia seguinte acompanhado de seus personagens. Pensava nas intrigas amorosas, nas tramas políticas da existência de Julien Sorel e de Fabrice del Dongo, nas suas ambições, nas renomadas habilidades de estadista do Conde Mosca; tentava prever se eu me apaixonaria por uma Mathilde de La Mole, uma Gina Sanseverina ou uma Clélia Conti; lamentava o terrível destino de Beatrice Cenci. As peripécias, os diálogos, as cenas encontradas nos livros de Stendhal despertavam muito mais meu interesse do que as aulas de estatística ou os experimentos no laboratório.

Quando eu viajava a Paris, enfrentava frio, chuva, neve para andar pelo cemitério de Montmartre até o túmulo de Stendhal. Ficava parado frente a ele, refletindo com ar compenetrado, tentando talvez incorporar algo do talento do escritor, ou da intensidade que ele concedeu, em seus romances, a Julien e a Fabrice. Havia provavelmente, nisso tudo, uma forte inspiração da cena do cemitério em Hamlet. De resto, seria apropriado que assim fosse, pois Stendhal idolatrava Shakespeare e chegou a tentar, em 1802, aos 19 anos, escrever sua própria versão da tragédia do príncipe dinamarquês, transportando a ação para a Polônia.

Adulto, perdi o interesse pelo turismo funerário. Há muitos e muitos anos eu já não prestava homenagem a sepulturas de músicos ou escritores. Em julho, passando poucos dias de férias em Paris, resolvi porém revisitar o cemitério de Montmartre. Na postagem Em Seul, sem Chateaubriand contei que, procurando mais uma vez a tumba de Stendhal, esbarrei na de Madame Récamier, amiga, amante e musa de Chateaubriand. Entre os turistas que estavam no cemitério, naquele dia de verão, um grupo de três mulheres perguntou-me, em um francês com forte sotaque balcânico, se eu conhecia a localização do túmulo de Jeanne Moreau, morta em 2017, e que eu nem sabia estar ali enterrada.

Naquela tarde, a residência final de Stendhal reapresentou-se a mim desta maneira:

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A inscrição na lápide merece ser vista em detalhe, inclusive porque é fruto da vontade do próprio autor, manifestada em ao menos duas obras auto-biográficas — Souvenirs d’égotisme, escrita em 1832, e um texto curto, avulso, de 1837:

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Stendhal chamava-se, na verdade, Henri Beyle — por isso o “Arrigo” na lápide — e era notoriamente admirador da Itália, que não fora ainda unificada e era então uma península e um conceito, mas não um país. Alguns dos momentos mais felizes do escritor foram passados em Milão, que visitou pela primeira vez em 1800, aos 17 anos, e onde morou de 1814 a 1821, o que explica o “Milanese”. Stendhal desejava também que constasse de sua lápide que ele “adorara Cimarosa, Mozart e Shakespeare” — costumava aliás escrever “Shakspeare”, sem o primeiro “e”. No texto de 1837, acrescentou à lista o pintor Correggio, “le Corrège” para os franceses. Nosso escritor, como se sabe, era grande admirador das artes plásticas. No século XX, surgiu mesmo a noção de “síndrome de Stendhal” para designar a reação exacerbada, alguns dirão ridícula — tonturas, palpitações, desmaios — diante da beleza de uma obra de arte. Um de seus primeiros livros, redigido em grande parte parafraseando outros autores, intitula-se Histoire de la peinture en Italie,

O escritor deu origem também ao termo “beylisme”, que ele próprio criou em 1812, e que ficou consagrado desde pelo menos a publicação, em 1914, do livro de Léon Blum, Stendhal et le beylisme. A expressão remete aos ingredientes habituais da personalidade dos protagonistas de seus romances — e ao seu próprio ideal — de energia, individualismo, liberdade, capacidade de viver grandes paixões e busca da felicidade.

Tanto em 1832 como em 1837, Stendhal determinara que constassem em seu epitáfio os três verbos “viveu, escreveu, amou”, em italiano. Por alguma razão, seu primo, amigo, biógrafo e executor testamentário Romain Colomb inverteu a ordem, colocando “escreveu” em primeiro lugar. É por isso que lemos “scrisse, amò, visse”. Para qualquer espírito cartesiano, a presença do “viveu” no final da tríade parece ilógica. Para os fanáticos de Stendhal, soa como traição. Em 1891, o escritor nacionalista Maurice Barrès declarou, em um artigo no Figaro intitulado “Le Génie au Cimetière“, que a decisão de Colomb fora uma “manobra chocante”. “O verdadeiro beylista”, escreveu Barrès, “deve antes de mais nada respeitar as manias de Beyle”.

Em 1888, com a inauguração de um viaduto de metal que passa exatamente sobre aquele canto do cemitério, com veículos rodando por cima das tumbas, o túmulo de Stendhal ficara ensombrecido e escondido. Na primeira vez em que visitei o cemitério de Montmartre, aos 20 anos, fiquei suficientemente impressionado com a presença do viaduto — conhecido como pont Caulaincourt — sobre as sepulturas para mencionar o fato em um caderno de anotações. Em 1892, admiradores de Stendhal cotizaram-se para restaurar a sepultura, o que explica a data na lápide. A inversão na ordem dos verbos, porém, permaneceu. Em 1962, passados 120 anos da morte de Stendhal, um dos maiores especialistas de sua obra, Vittorio (ou Victor) del Litto, francês nascido na Itália, promoveu uma mudança de 150 metros na localização do túmulo, para retirá-lo do espaço sob a estrutura metálica do pont Caulaincourt. A cerimônia deu-se em 23 de março, aniversário da morte do escritor. Victor del Litto deixou-nos do acontecimento um relato. Participaram do traslado do túmulo apenas quatro pessoas: o diretor do cemitério, um comissário de polícia, del Litto e sua mulher. Foi necessário abrir a sepultura. Do cadáver de Stendhal, além de “uma poeira impalpável”, sobravam o crânio, a mandíbula e uma tíbia

Durante o enterro do meu pai, no cemitério do Caju, em 1999, um primo chamou-me de lado para “ver algo importante”. Levou-me a uma tumba vizinha ao jazigo da família. Sobre esse túmulo vizinho, haviam colocado uma caixa de metal contendo o que sobrava de meu avô, o matemático. A caixa, retirada do jazigo familiar apenas para que pudéssemos sepultar meu pai, estava aberta. Dentro, naquele dia de sol carioca, vi o crânio de meu avô, uma tíbia e as dragonas de seu uniforme militar. Era tudo o que restava do General Ary Norton de Murat Quintella.

Não terminaremos nessa nota fúnebre. Afinal, como nos ensina o poeta Jacques Prévert, em Chanson des escargots qui vont à l’enterrement,
“Les histoires de cercueils
C’est triste et pas joli”

A caminho do enterro de uma folha morta, os dois caracóis enlutados partem no outono, mas só chegam na primavera, e a essa altura as folhas “sont toutes ressuscitées“. Os pobres caracóis “sont très désappointés“.

O leitor atento — ou com boa visão — terá notado em uma das fotos acima que, no dia de minha visita, havia sobre a sepultura de Stendhal um pedacinho de papel, segurado por uma pedra. Em várias das ocasiões em que vi esse túmulo, ao longo dos anos, algum admirador havia deixado um recado escrito, frequentemente em italiano.

Dessa vez, era este o bilhete:

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“Para Stendhal, obrigada pelo Vermelho e o Negro, Elena”.

Tive o cuidado de não tocar no papel ou na pedrinha. Fiquei pensando na glória póstuma desse homem morto em 1842, aos 59 anos, praticamente desconhecido como escritor enquanto vivo, a não ser por uns poucos amigos literatos. Pensei na beleza de uma vida que pudera ser resumida de forma simples, com três verbos apenas, “escreveu, amou, viveu”.

Como nas vezes anteriores, apreciei a admiração que a ele devotam seus leitores italianos, justíssima, considerando o quanto ele amara a Itália e a maneira como a descrevera. Comovi-me com a simplicidade do papel, claramente arrancado de algum pequeno caderno. Tivera Elena desde o início a intenção, ao dirigir-se ao cemitério, de deixar o bilhete, ou fora esse um gesto impulsivo, inspirado por uma emoção causada pela visão do próprio túmulo? Por que Le Rouge et le Noir e não La Chartreuse de Parme? O que a leitura de Le Rouge et le Noir trouxera a Elena?

E aí, percebi que para essa última pergunta eu tinha a resposta. Os heróis stendhalianos, homens e mulheres, trazem-nos um sopro de energia, de coragem diante da adversidade e das circunstâncias, a sensação de que são seres à parte, com uma personalidade própria e atraente e a capacidade de viver intensamente. Dessa forma, Stendhal cumpre, de uma maneira que só pertence a ele, o papel de todo grande escritor: tornar a vida mais suportável, mais rica, mais empolgante para os seus leitores.

O sol estava forte. Saí do cemitério, perambulei por Montmartre, sentei-me ao ar livre em um café numa praça, tomei uma garrafa inteira de água mineral e um macchiato, fiquei vendo a vida passar. Pensei na amizade que os personagens de Stendhal têm me oferecido, ao longo dos anos, desde a adolescência. Teria bastado que ele morresse em 1812, na calamitosa campanha da Rússia de Napoleão, de que participou, para ficarmos sem suas obras e o reconforto que oferecem.

O sol começava a baixar. Mais tarde, eu iria ao teatro com amigos. Queria antes passar em uma livraria de que gosto, Les Cahiers de Colette. O tempo estava ficando curto. Paguei a água e o café, peguei um táxi e fui à livraria.

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O Embrulho Vermelho

O Embrulho Vermelho

Em 27 de maio, minha mãe fez 80 anos. Como a data caía no domingo, pude comemorar com ela no Rio de Janeiro, e estar também com minha irmã, que viera de Lisboa, onde mora.

Alguns amigos passaram em casa no final da tarde para cumprimentar a aniversariante. Como a greve dos caminhoneiros, a falta de gasolina nos postos e o desabastecimento nos mercados da cidade estavam no auge, a chegada de um determinado presente de aniversário causou grande impacto:

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Na foto, aparecem minha mãe, minha sobrinha e os dois amigos que trouxeram o presente. Vindo diretamente de Petrópolis para dar os parabéns, Chicô Gouvea e Paulo Reis consideraram que nada seria tão marcante quanto aquilo que não se encontrava no mercado: verduras frescas.

Nesta outra foto, registrei Cora Ronai capturando a mesma cena:

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Em seu perfil no Instagram (@cronai), Cora Ronai publicou uma das fotos que tirou, acompanhada do texto: “Minha amiga Thereza Quintella fez 80 anos. Ganhou muitos presentes lindos e carinhosos, mas nenhum fez tanto sucesso quanto a cesta de hortaliças que Chicô e Paulo trouxeram direto da roça”. Isso provocou comentários divertidos, como: “Que saudade de uma alface!”, “No momento, tá melhor que ganhar joias”, “Saudade de uma boa saladinha!”.

Acontece, porém, que minha mãe não foi a única a ganhar presente naquele dia. No café da manhã, olhando o mar e filosofando sobre o Infinito enquanto devorava um croissant, recebi da minha irmã um embrulho vermelho, que ela trouxera de Lisboa:

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Titina é a melhor irmã do mundo. Naturalmente, eu nada levara para ela e nem, aliás, para minha mãe. Decidi compensar demonstrando meus talentos mediúnicos. Alisando o embrulho vermelho, declarei: “É um livro”. Isso era pouco para comover Titina. Que mais poderia ser? Prossegui: “O papel não traz a marca de nenhuma livraria, então sei que não é da Bertrand“. Diante de sua resposta de que ela mesma embrulhara o livro, continuei: “Você comprou na livraria da Rua do Século”. Isso sim a impressionou.

De meu conhecimento, a “livraria na Rua do Século” não usa nome algum. É um sebo, forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. A primeira vez em que Titina lá me levou, julguei haver uma intenção metafísica no nome da rua, até descobrir que tratava-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia. Mais corretamente, o nome é “Rua de O Século”.

A entrada do sebo é simples e sem indicação alguma:

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Dentro, o espaço é congestionado:

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O proprietário é educado e afável e deixa os fregueses à vontade. Consegui retirar um tesouro de uma dessas pilhas, quando lá estive pela última vez, em julho de 2017:

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Nem o ano, nem a encadernação nem a edição em si, aos olhos dos meus quatro leitores, justificariam o uso que fiz acima do termo “tesouro”. Tudo o que diga respeito a Carlos V, porém, me interessa desde a infância. Nascido em Gand, o Imperador preserva memória viva na Bélgica, onde morei pela primeira vez criança. Suas disputas com Francisco I de França são objeto de fascínio para mim. Um dos grandes prazeres, quando comecei a ler À la recherche du temps perdu, aos 11 anos, foi descobrir que o Narrador também divaga sobre a rivalidade entre os dois monarcas. Na primeiríssima página do romance de Proust, o Narrador menciona que, às vezes, acordava pouco depois de ter adormecido, não só pensando no livro que lera antes de dormir mas também sentindo-se ser o próprio tema do livro: “une église, un quatuor, la rivalité de Francois Ier et de Charles Quint“. Em geral, presume-se que a fonte para a observação casual de Proust sobre essa rivalidade tenha sido o livro do historiador François-Auguste Mignet (1796-1884), Rivalité de François 1er et Charles-Quint, publicado em 1875, que comprei e li na adolescência:

Mignet.jpgAlguns se perguntarão por que não coloco aqui foto dos dois volumes onde as patinhas do meu gato não apareçam. Pois direi que, pelo visto, há muito tempo eu vinha querendo falar de Carlos V e de Francisco I, ou da presença de Mignet na vida intelectual de Proust, porque esse nosso gato, James, cujas patas são inconfundíveis, morreu em janeiro de 2018, aos 19 anos. Nasceu em Quito, em 1998, em nossa casa, pois sua mãe também nos pertencia — ou nós a ela. Maior do que vários cachorros, de uma beleza altaneira e  personalidade forte (um de seus apelidos era Arquiduque, outro era Señor Presidente), James não era um amigo fácil. Tinha espírito arredio, era propenso a rosnar e marcava preferência pela minha mulher. Por todas essas qualidades, eu o amava (outro apelido que dávamos a ele era Jaimito de mi corazón). Foi uma boa surpresa para mim, ao procurar a foto no celular para inseri-la neste texto, ver que James nela aparece.

Admito que esta outra foto, tirada pela minha mulher, é de qualidade superior:

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Uma característica importante, para mim, de Mignet é que ele nasceu em Aix-en-Provence; um dos principais colégios da cidade, no coração do bairro de Aix com arquitetura do século XVII, chama-se Collège Mignet:

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Vejamos o que dizem as placas de cada lado da porta:

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Esse liceu, assim, resume um pouco da História da França. Insere-se no Quartier Mazarin, construído no século XVII pelo Arcebispo de Aix, o Cardeal Michel Mazarin, irmão de outro Cardeal bem mais célebre, Jules — ou Giulio, pois nascera na Itália — Primeiro-Ministro da minoridade e da juventude de Luís XIV. No colégio estudaram, juntos, Paul Cézanne e Émile Zola e, mais tarde, Darius Mihaud. Marcel Pagnol lá deu aulas. E o liceu hoje carrega o nome de um historiador famoso em seu tempo, a cuja obra alude Proust. Nunca passo na rue Cardinale sem meditar sobre todas essas associações.

Voltemos porém ao presente que me deu Titina no dia 27 de maio. Abro o embrulho vermelho e vejo este livro:

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Um livro sobre o Barão do Rio-Branco, editado pela José Olympio, só poderia me deixar feliz. A palmeira, característica da Coleção Documentos Brasileiros da editora, também me trouxe boas lembranças, pois na biblioteca de meu pai e de minha mãe existem numerosos volumes dessa coleção, com a inesquecível lombada:

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A palmeira da Coleção Documentos Brasileiros, cujos volumes eram tão presentes lá em casa e são parte da minha infância e juventude, traz recordações felizes de leituras e, portanto, da vida.

Em 2008, a editora Sextante — fundada por Geraldo Jordão Pereira e seus filhos Marcos e Tomás, respectivamente filho e netos do editor José Olympio Pereira — publicou um livro exemplar sobre a editora José Olympio, escrito e organizado pelo também editor José Mario Pereira (o sobrenome é coincidência), dono da Topbooks:

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Geraldo Jordão Pereira morreu em 2008, mesmo ano em que o livro foi editado. Devemos ver José Olympio: O Editor e sua Casa como demonstração de amor filial, dirigida à memória do pai e do avô de Marcos e Tomás da Veiga Pereira. “Este livro”, diz Marcos da Veiga Pereira, “projetado como justa homenagem a meu avô e à editora que criou, agora é também para louvar a memória do grande profissional e companheiro de trabalho que foi Geraldo Jordão Pereira, meu pai”.

O volume é de uma impressionante riqueza factual e iconográfica e ganhou, em 2009, o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras. As páginas eletrônicas da Topbooks e da ABL replicam artigos onde é saudada a publicação do livro. Ao elogiar a “magistral pesquisa de José Mario Pereira”, Wilson Martins, em matéria no Jornal do Brasil, classifica o livro como “obra-prima de arte tipográfica, documentação historiográfica e preciosa iconografia”.

Quem diria o contrário, ao ver, por exemplo, estas duas páginas:

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O título do elogio de José Nêumanne, publicado em O Estado de São Paulo, já diz tudo: A vida do homem que pôs o Brasil para ler, remetendo ao título do primeiro capítulo do livro, “José Olympio, o civilizador do Brasil”. Dois artigos de membros da Academia Brasileira de Letras chamaram minha atenção. O texto de Ivan Junqueira, no Jornal do Commercio, menciona o “beneditino trabalho de pesquisa literária e editorial” de José Mario Pereira. O texto de Marcos Vilaça, publicado no Diário de Pernambuco, diz: “Na obra publicada pela Sextante a gente encontra do Brasil a política, a história literária, a indústria editorial, a evolução gráfica, a memória fotográfica, um pedaço da trajetória do país no século XX”.

De forma poética, proustiana, Marcos Vilaça diz como foi a experiência de folhear o livro: “Nesse passar e repassar de páginas, minha vida foi se reativando”. A mesma impressão tive eu. Abro José Olympio: O Editor e sua Casa, e ecos da infância e da juventude passam diante de meus olhos. Dinah Silveira de Queiroz, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Herberto Sales e muitos outros, todos amigos de meu pai ou de minha mãe, e que conheci pessoalmente, criança ou adolescente, em graus variados, circulam pelas páginas. Vejo um bilhete de José Guilherme Merquior, temível polemista na visão de alguns mas, no trato comigo, na minha juventude, homem educado, carismático, gentil e atencioso:

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Outros autores que surgem em José Olympio: O Editor e sua Casa, da geração anterior, foram amigos de meu avô materno — o baiano, pois como expliquei em De carro pela Provença, tive dois avós maternos, um baiano e outro mineiro. Muitas das edições ilustradas no livro são as que li, pois eu as encontrava nas bibliotecas de meu pai e de minha mãe. Onde terá ido parar, por exemplo, nosso exemplar de Oito Décadas, o livro de memórias de Carolina Nabuco, que li e reli quando criança, na mesma edição mostrada abaixo? Recentemente, minha filha pediu para lê-lo e não o encontrei nem aqui em casa, nem nas estantes da minha mãe. Estará com Titina em Lisboa? Ou no depósito, no Rio, onde são guardadas caixas de alguns dos  livros que pertenceram ao  meu pai?

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As capas dos livros de Carolina Nabuco e de Rachel Jardim são ambas de autoria de Eugenio Hirsch, nascido na Áustria em 1923, emigrado primeiro para a Argentina, fugindo do nazismo, e depois para o Brasil. Hirsch morreu no Rio de Janeiro em 2001.

Dois dos livros de meu pai — Retrospectiva e Combati o Bom Combate — foram editados pela José Olympio e Eugenio Hirsch foi o responsável pelas capas de ambos:

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A capa de Combati o Bom Combate parece-me particularmente exitosa. O romance — e eu não me lembrava disto, pois tinha 10 anos de idade e morava na Bélgica — é dedicado a mim, sem sentimentalismos, de forma característica do meu pai: “Para Ary Norton de Murat Quintella”. Esta é a sua foto, beirando os 40 anos, usada na edição:

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Ivan Cavalcanti Proença faz uma introdução ao romance onde a questão da passagem do tempo é evocada: “uma libertação e uma transcendência ao que se chama o amargor da irreversibilidade do tempo”. Outra frase sua remete claramente a Proust: “recuperação do tempo perdido”. Isso faz sentido, pois Combati o Bom Combate é uma ficção semi-autobiográfica; reflete a infância, a adolescência e a juventude de meu pai, e vários personagens aparecem com o prenome ou o apelido das pessoas reais que os inspiraram. A ideia do tempo é retomada por Nélida Piñon, na contracapa: “um panorama profundamente nostálgico de uma geração que já não se ilude com ‘o bom combate’ “.

Quanto a Retrospectiva, sua edição seguinte deu-se em outra editora, mas a capa continuou sendo de Eugenio Hirsch. Se, na edição da José Olympio, vemos Ary Quintella bebendo um copo de uísque, na segunda ele fuma — eram quatro maços por dia e ele morreria de câncer aos 66 anos:

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Meu pai trabalhou, por creio um curto tempo, com José Olympio na editora. Penso não ter jamais visto o mítico editor. Conheci porém, criança, na Bélgica, durante viagem que por lá fizeram, Geraldo Jordão Pereira e sua mulher, Regina. A primeira edição de Retrospectiva, na José Olympio, traz duas dedicatórias, a mais longa delas com ecos de Baudelaire e Lautréamont:

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Vejo que o exemplar que tenho em casa pertenceu a meu irmão, pois nele meu pai colou o seguinte bilhete:

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Alfredo morreu aos 16 anos, então não saberei nunca se chegou a ler o livro, que recebeu aos 8 anos.

Como mencionei em  Edla van Steen, estória sobre a amizade, a correspondência recebida por meu pai, inclusive a enviada por mim, foi em grande parte doada por ele, ainda em vida, à Fundação Casa de Rui Barbosa. No entanto, mexendo recentemente em velhos papéis, minha mãe encontrou o seguinte bilhete de Geraldo Jordão Pereira para meu pai, de pêsames pela morte do meu irmão:

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O texto foi escrito três dias depois da morte de Alfredo, em uma hora em que muitos terão preferido se omitir. Não creio ser indiscreto ao publicá-lo aqui, e sim estar homenageando o sentido de humanidade de Geraldo Jordão Pereira.

O leitor que chegou até aqui talvez tenha notado, acima, no topo da página em que está a dedicatória a Regina Pereira, menção a “Eugen Alois Hirsch: que já trabalhava com meu pai, mui grato”. Essa frase de meu pai me surpreendeu. Olhei alguns exemplares que tenho em casa de livros do pai dele, meu avô, o matemático, também Ary Quintella, que eram publicados pela Companhia Editora Nacional. Algumas capas aparecem como sendo de “Hugo Ribeiro (arquiteto)”, por exemplo estas, minhas prediletas:

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Em algum momento, porém, as capas dos livros de meu avô começaram, de fato, a ser desenhadas por Eugenio Hirsch. Os exemplares que tenho em casa estão já desbotados, perderam as cores e, possivelmente, não fazem justiça à aparência original:

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Eugenio Hirsch parece ter sido um designer revolucionário. Encontrei na Internet, sem grande esforço, além de vários textos que tratam especificamente de seu trabalho, três ou quatro teses e dissertações, relativas a diversos temas — a matemática, a prática editorial em livros didáticos, a história do design no Brasil etc… —  onde são estudadas suas capas para os livros de meu avô.

Situado, em termos geracionais, entre meu avô e meu pai, e tendo sobrevivido a ambos, Eugenio Hirsch associou seu talento a dois Ary Quintella, que publicaram com o mesmo nome, em décadas diferentes, em editoras diferentes, obras de finalidades diferentes — uma, de matemática, outra, de literatura.

E foi assim que um gesto simples, o de abrir o embrulho vermelho, me fez simultaneamente abolir e recuperar o tempo. O presente de minha irmã trouxe de volta, com a encantadora palmeira da José Olympio, os melhores momentos da minha juventude. Proust teria aprovado.

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Edla van Steen, História sobre a Amizade

Edla van Steen, História sobre a Amizade

Aos 18 anos de idade, conheci Edla van Steen e Sábato Magaldi. Meu pai e eu, voando de Foz do Iguaçu para o Rio de Janeiro, paramos em São Paulo com o único objetivo de almoçar com eles em sua casa no Morumbi.

A foto, tirada por meu pai, registra esse encontro.

20180407_211629.jpgEra março e o sol brilhava. A conversa foi fascinante e lembro-me com perfeição do que foi discutido. Senti-me em casa e tratado como um adulto. Esse almoço me marcou. Se pareço sério na foto, é porque estava de luto, tendo meu irmão morrido violentamente apenas três meses antes.

No ano seguinte, fui morar e estudar em Londres, como já relatei no blog, particularmente em Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo. Nunca porém perdi contato com Edla e Sábato. Dos dois, é com Edla que mantive contato mais assíduo, embora em geral por carta e por e-mail, por causa da distância geográfica. Seu desaparecimento, em 6 de abril, foi uma surpresa e provocou em mim uma tristeza grande. Troquei mensagens sobre ela com um amigo mais recente, o cineasta Sylvio Back, que eu sabia ter sido seu colega de juventude quando, embora catarinenses ambos, foram se conhecer em Curitiba. Escreveu-me Sylvio, parafraseando Guimarães Rosa: “que horrível e triste notícia o encantamento da nossa amada Edla van Steen, bela e talentosa escritora e atriz”.

Gosto da ideia de que a morte é um “encantamento”: uma nova forma de ser e uma instalação duradoura, saudosa, positiva na mente daqueles que nos conheceram. Já em vida, tudo em Edla era encantamento: o talento, a beleza, a forma segura e direta com que se dirigia ao interlocutor e o tempo que dedicava aos amigos. Escritora, foi também editora e publicou várias antologias de escritores brasileiros, das quais uma das mais conhecidas é O Papel do Amor, de 1979:

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Três anos depois desse primeiro almoço no Morumbi, revi Edla e Sábato em Londres. Estavam de passagem pela cidade, e minha mãe os convidou para almoçar em casa. Vinham de Paris e ouvi, seduzido, enquanto discorriam sobre as peças a que haviam assistido na França. Eu tinha 21 anos e, apaixonado por artes cênicas, escutava atentamente o que  eles tinham a dizer a respeito. Não era pouca coisa, ouvir o maior crítico de teatro do Brasil discorrer, com a sua mulher escritora, sobre a temporada teatral em Paris. Lembro particularmente do tom entusiasmado com que falaram de uma produção de L´Illusion Comique de Corneille, naquele tempo um de meus autores prediletos, e de cujas peças eu sabia de cor vários versos. Olhando agora na Internet, deduzo que devia tratar-se da famosa produção montada por Giorgio Strehler no Odéon.

Houve alguns outros encontros, ao longo dos anos, mas não tantos, pois nunca moramos na mesma cidade.

Ao conhecer minha mulher, aos 25 anos, não fiquei tão surpreso de descobrir que meu sogro fora professor de Edla em Curitiba, pois a vida, bem sei, tende a ser circular e eu aceito esse fato.

Quando meu pai morreu, em 1999, foi um grande consolo poder conversar com Edla, provavelmente sua melhor amiga. Nessa ocasião, de tudo o que ela me disse fiquei particularmente impressionado com o comentário de que meu pai nunca superara a morte de meu irmão e de que passara  a vida tentando exorcizar – sem êxito, na avaliação dele – o sucesso profissional de meu avô. Essas duas observações tornavam meu pai, notoriamente arredio à auto-análise e a revelações sobre si próprio, mais humano, mais comovente. Edla e Sábato, de resto, continuaram a ser amigos leais de meu pai, mesmo depois de sua morte.  Ela publicou esta coletânea de contos seus, em 2010:

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 Vi Edla e Sábato pela última vez, creio, em 2006. Naquele ano, minha mulher, nossa filha – então criança – e eu fomos visitá-los em seu apartamento no Rio. Naquela época, eles dividiam o tempo entre São Paulo e Rio, o que era prático, sendo Sábato membro da Academia Brasileira de Letras. Estavam com a neta, Bianca, que ficou brincando com nossa filha enquanto conversávamos. Terá sido então que ela autografou para nós este seu livro de contos?

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É um livro cativante, onde as personagens femininas são mais fortes do que as masculinas. No conto mais longo – uma novela, na verdade – que dá o título à coleção, a personagem principal é dona de uma livraria e alguns autores de sua predileção são citados, entre eles meu pai.

Em 2007, minha família e eu fomos morar em Bruxelas, mas o contato permaneceu. Há um ano, Edla enviou-me pelo correio um conto inédito de meu pai – que estava em suas mãos por ser ela sua editora na Global – e o testemunho que Sábato fizera sobre ele na Academia Brasileira de Letras, quando meu pai morrera. Houve algumas trocas de mensagens no Facebook ao longo de 2017. Escrevi para Edla pela última vez em janeiro de 2018, querendo saber se podia ligar para dar a ela uma boa notícia pessoal, mas ela não respondeu e não sei se terá visto minha mensagem.

No ano passado, dois ex-alunos me disseram, na mesma conversa, que o meu blog é sobretudo sobre os relacionamentos humanos, mesmo quando escrevo sobre um livro, um filme, uma viagem. Embora eu nunca tivesse pensado nesses termos sobre minhas postagens, percebi que tinham razão.

Muitas vezes, até recentemente, meditei com pesar sobre a transitoriedade das pessoas em nossas vidas. Nos últimos meses, comecei a pensar de forma um pouco diferente. Vejo hoje que as pessoas não entram e saem de nossas vidas aleatoriamente. Damos a elas espaço para que entrem e depois, por causa do trabalho, de compromissos familiares, de diversas ocupações, da própria falta de tempo, de mudanças de cidade ou de país, permitimos que haja um afastamento. As pessoas vão e vêm, em um fluxo constante e natural.

Fico pensando nas conversas que – por causa de minha vida apressada, errante, tão lotada, como a deles também era – eu não pude ter com Sábato e Edla sobre teatro, atores, escritores, entre eles meu pai, sobre quem eles teriam tido muito a me dizer. Agora, isso não será possível. Sábato partiu em 2016, e Edla há uma semana.

É triste pensar nas ocasiões perdidas de mais convívio com amigos, mas esse não é o pensamento correto. O que é surpreendente é que ainda consigamos, no mundo em que vivemos hoje, fazer e preservar amizades, apesar da distância física.

Guardo as cartas de vários correspondentes, recebidas na era pré-internet:

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A pilha da direita, embaixo, é a das cartas que recebi de meu pai enquanto eu morava em Londres. Para ler as que eu enviava a ele – meu principal correspondente durante todos os anos em que fiquei na Inglaterra – tenho hoje em dia de pedir autorização à Fundação Casa de Rui Barbosa, pois ele doou, alguns meses antes de morrer, todos os seus papéis, inclusive a correspondência recebida, à Fundação. Naquela ocasião, essa sua decisão me decepcionou, tomei-a como uma quebra de confiança. Julguei também que, presumivelmente, seriam as cartas escritas pelo meu pai, e não as recebidas por ele, que interessariam aos estudiosos, e essas estão comigo e com seus demais correspondentes.

Mantenho contato, vejo e converso, ainda que às vezes isso possa ser apenas ocasional, com amigos que conheço desde a infância, e alguns, leitores deste blog, reconhecerão suas letras nos envelopes na foto acima.

De Edla van Steen, encontrei nessa coleção uma carta apenas, escrita quando eu morava em Londres e que termina da seguinte maneira:

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Outras cartas estarão em outras pilhas, em outros baús aqui em casa. Muitos e-mails terão se perdido, pois em cada país em que morei, desde o início da Internet, antes da vitória final do gmail, criei um endereço eletrônico local, que era eliminado na partida. Houve também endereços eletrônicos profissionais, que eram descartados automaticamente quando eu me mudava. Em geral, eu me preocupava em gravar meus mails em discos, disquetes e pen drives, mas recuperá-los hoje daria um trabalho a que não quis ainda me dedicar.

Esse é o milagre, que possamos não só guardar no coração e na memória os amigos distantes mas que possamos também seguir interagindo com eles, ano após ano, década após década, mesmo que, por longos períodos, de maneira virtual. E assim foi com Edla.

 

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