De Taxila a Panam Nagar

De Taxila a Panam Nagar

Em 2010, recebi de um amigo belga um presente extraordinário: os volumes completos da versão de 1963 da 14ª edição revista da Enciclopédia Britânica. Ele estava se desfazendo de parte da biblioteca. Perguntou-me se eu queria a Enciclopédia e sabia a resposta de antemão. Morávamos no mesmo bairro em Bruxelas; passei em sua casa, recolhi os 24 volumes (um deles com o índice e mapas) e coloquei-os no carro.

Cresci namorando na estante do meu pai a sua edição da Enciclopédia Britânica – ano de 1957 – que hoje está guardada em um depósito no Rio. Adulto, passava horas lendo a edição dos meus sogros, que hoje está em um depósito em Curitiba.

Já mencionei várias vezes neste blog – por exemplo em O Amor, em Papai Noel e a amizade e na crítica ao filme O Plano de Maggie – o papel que os livros podem exercer em minha relação com as pessoas. Valorizei muitíssimo receber uma edição completa da Enciclopédia Britânica, que hoje aparece assim na estante, rodeada aliás de livros que recebi de outros amigos e de parentes:

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Minha relação amorosa com a Enciclopédia Britânica sofreu um duro baque há poucos dias, quando li o verbete sobre Alexandre, o Grande. Na minha postagem anterior, fui severo com aquele que tantos consideram um herói. Apontei a sua crueldade e a falta de propósito prático de suas conquistas. Senti curiosidade em ver como o Rei da Macedônia era tratado na Enciclopédia: descobri páginas e páginas escritas em tom de fervor juvenil. Para os editores, ainda em 1963, Alexandre era um homem inigualável. Fiquei surpreso com a falta de espírito crítico do texto.

Apesar de meus comentários, algo da admiração que sentia na infância por Alexandre sobreviveu, pois minha passagem por Taxila, no Paquistão, há um mês, me marcou por sua causa. Desde sempre, associo o nome do lugar a ele. Em Taxila, visitando as ruínas da cidade e as dos mosteiros budistas, eu olhava a paisagem ao meu redor e pensava: “Ele também por aqui andou… ele também viu essas montanhas, essa grama, esse horizonte…”. Já mostrei anteriormente cenas de paisagem e das ruínas de Taxila, mas não resisto a mostrar mais.

No caminho entre Rawalpindi e Taxila, meu carro enfrentou a seguinte dificuldade, como aliás outro também, vindo na direção oposta:

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O centro urbano que visitei em Taxila é Sirkap, fundado cerca de 150 anos após a passagem de Alexandre. Estas são portanto ruínas de edifícios que, embora antiquíssimos, o conquistador não viu:

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Fiquei me perguntando se a paisagem seria mais duradoura do que os prédios:

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Taxila é famosa pelas ruínas de mosteiros budistas, como o de Jaulian, que serviu também de universidade e foi destruído no século V por invasores da Ásia Central denominados Hunos Brancos. Tive muito no que pensar, vendo estes três restos de colunas em Jaulian:

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Há muita poesia nesses três fragmentos. Eles evocam a transitoriedade das coisas, das religiões – o Budismo já não é a principal religião da Índia, sendo praticado apenas por 0,7% da população. Pensei nos monges que aqui vieram morar ou estudar e meditar; lamentei que conquistadores destruam não somente impérios e cidades e vidas humanas, mas também centros de pensamento e de espírito religioso. O mosteiro foi destruído, mas o que terá acontecido com os monges que lá ainda estavam quando os Hunos Brancos chegaram? Provavelmente, algo nada invejável.

Na estupa – monumento que abriga os restos mortais de algum monge importante ou sábio budista – principal de Jaulian, admirei os restos de esculturas, como estes:

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Ao sair de Jaulian, reparei nestes degraus ao longo de um muro, que pareciam levar ao Infinito:

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Igualmente evocadoras são as ruínas de Dharmarajika, estupa e mosteiro particularmente famoso, pois os restos mortais que ele acolhia eram de uma parte do corpo do próprio Buda:

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Havia poucos visitantes:

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E alguns guias, como este:

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Como em Jaulian, as ruínas evocavam paz e serenidade:

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Reparem nas figuras humanas abaixo:

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O museu de Taxila é famoso pela sua coleção de moedas e de estátuas encontradas nas ruínas e nos vales ao seu redor, representativas da arte de Gandara:

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Assim como Alexander Sokurov fez, em Francofonia, uma declaração de amor ao Louvre e focalizou algumas das peças daquele mega-museu – e talvez eu venha a fazer o mesmo, em uma escala naturalmente bem menor, em uma próxima postagem, mostrando fotos que tirei no Louvre em janeiro – quero mostrar alguns exemplos da coleção do museu de Taxila, como já fiz com o Museu de Arte Islâmica de Doha.

As estátuas abaixo são dos séculos II ou III depois de Cristo:

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Acima, o Buda no estado de Abhaya Mudra (sem medo). Abaixo, a estátua de que os guardas do museu mais se orgulham, o Bodhisattva Maitreya (o buda do futuro):

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Quase todas as peças no museu são mostradas dentro de vitrines de vidro, o que dificulta a reprodução fotográfica, pelos reflexos.

A minha escultura predileta talvez tenha sido esta, do Buda meditando:

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Se, no Paquistão, Rawalpindi e seu parque onde dois Primeiros-Ministros foram assassinados e Taxila, suas ruínas e seu museu me fizeram pensar sobre a transitoriedade dos impérios, dos homens e do poder, e também sobre o consolo que as religiões frequentemente trazem às pessoas, bem diferente foi minha atitude com relação a Panam Nagar, em Bangladesh, poucos dias depois.

Panam Nagar – ou Panam City, o que já soa mais prosaico – é um distrito, desenvolvido no final do século XIX, durante o domínio britânico, da antiquíssima cidade de Sonargaon, a cerca de uma hora de Daca. Povoada sobretudo por prósperos comerciantes bengalis de religião hindu, foi abandonada em 1964, após os massacres contra aquela minoria efetuados pelos muçulmanos no que era então o Paquistão Oriental.

Panam Nagar e Sonargaon eram apenas vagos nomes para mim, antes de eu chegar a Bangladesh. Pude assim visitá-los sem idéias preconcebidas. Sobram em Panam Nagar as ruínas, em variado estado de conservação, de 52 prédios, todos situados nos dois lados de uma rua.

Cheguei cedo e encontrei o local quase deserto:

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Fui ciceroneado pelo administrador do sítio, que me mostrou praticamente todas as casas:

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Esta é uma das casas mais bem conservadas:

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As mais prósperas possuem todas um andar térreo no mesmo formato, com arcadas:

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Essas casas eram ao mesmo tempo residências e depósitos comerciais.

De outras, sobra apenas uma parede, ou pedaço da fachada:

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O administrador me levou à casa mais preservada – ou reformada, na qual ele e sua família moram. Embora a casa esteja em bom estado, fiquei imaginando como seria ficar ali à noite, naquela cidade fantasma:

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Do terraço da casa, vi mais ruínas, que me lembraram sítios arqueológicos em Roma:

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O administrador me explicou que, durante anos, os habitantes da região dilapidavam os prédios, roubando os tijolos para construir suas próprias residências.

Vi, do terraço, que a cidade já não estava tão vazia como quando eu chegara:

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Descemos e seguimos caminhado pela única rua. Pouco a pouco, uma multidão animada e alegre, em trajes coloridos, encheu a rua, os gramados e as ruínas. O administrador me explicou que visitam Panam Nagar cerca de 150.000 turistas por ano, dos quais 3.000 são estrangeiros.

As cores foram tomando o espaço:

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Um visitante tira um selfie no topo de uma casa em ruínas:

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Havia grupos de estudantes:

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E vários vendedores ambulantes:

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A variedade e a riqueza de cores nos trajes era surpreendente, em uma aldeia abandonada:

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Os espaços que eu vira vazios, estavam agora ocupados por turistas:

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E as ruas estavam agora agitadas:

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Embora aquela região do que hoje é Bangladesh tenha, como todo o país, uma história rica, carregada de beleza mas também de violência – como provam as casas em ruínas – a alegria dos turistas e as cores chamativas me contaminaram e senti-me bem menos meditativo do que em Rawalpindi e em Taxila.

Escrevo este texto no Rio de Janeiro, olhando o mar:

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O que haverá nesta casa daqui a 1.000 anos? Ruínas? Prédios? Nada? Quem verá o Oceano Atlântico e essas ilhas deste mesmo ponto em que me encontro? Às vezes, quando estou no meu jardim à noite, penso nas muitas pessoas que, ao longo dos séculos, também passearam por seus jardins, em diferentes continentes, com preocupações e alegrias semelhantes às minhas. Olho a Lua e medito sobre algum babilônio que, séculos antes de Cristo, também possuía um jardim e admirava o satélite da Terra, certo de que sua casa, sua grama, suas árvores, sua religião e o império a que estava submetido durariam para sempre. Taxila, Julian, Dharmarajika, Panam Nagar parecem longe, no tempo e no espaço. Lá também, contudo, viveram seres humanos, com seus sonhos e suas ambições. Um dia, o que hoje conhecemos e consideramos eterno e natural não existirá mais, será uma ruína ou talvez nem isso.

Gravei o vídeo abaixo no rio Buriganga – ou Velho Ganges – em Daca. Os grandes rios asiáticos viram já todo tipo de civilização; uma multidão de seres humanos e de construções passaram por suas margens ao longo da História. Às vezes, eles tiveram seu curso modificado, pela natureza ou pelo Homem, e encontram-se frequentemente poluídos. Continuam, porém, a correr – se não imutáveis, ao menos eternos – até o fim dos tempos.

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Sleep No More – Minha noite com o casal Macbeth

Sleep No More – Minha noite com o casal Macbeth

A cena se passa em Nova York, em 21 de janeiro deste ano. São 21h45 e eu saio do taxi em Chelsea, na Rua 27, para me juntar à fila ao longo de um prédio dentro do qual, estou convencido, passarei por uma experiência transcendental. Faz frio, mas eu nem noto. Um homem com cara de poucos amigos, que trabalha no prédio, começa a circular pela fila, pedindo, em alguns casos, para ver documentos de identidade. O pedido é perfeitamente inútil, todos na fila sabemos que vamos entrar, mas a expressão feroz do homem ajuda a criar o clima adequado. A mim, ele pede a mão direita e, depois de eu retirá-la da luva, nela carimba algo ilegível, sem dizer uma palavra. Ainda não estou plenamente recuperado do acidente que sofrera em Sevilha, três semanas antes, a que aludi em O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks. Até poucos dias atrás, minha mão direita estava enfaixada e é desagradável a pouca cerimônia com que o homem a puxa e a carimba.

A função do homem parece ser a de anunciar, da forma menos simpática possível, que a porta do prédio está prestes a se abrir. Pouco atrás de mim, dois casais brasileiros riem, nervosamente. E o nervosismo não é fora de propósito. Todos na fila compramos ingresso para assistir a Sleep No More, versão de Macbeth montada pelo grupo teatral britânico Punchdrunk – pioneiro do teatro de imersão – que estreou em Londres em 2003 e em Nova York em 2011.

Como mencionei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro, as artes cênicas me atraem desde sempre. Minha primeira experiência com teatro de imersão aconteceu no Festival de Edimburgo, em 2010. Festivais de teatro me parecem irresistíveis: poder assistir a três ou quatro peças por dia – às vezes duas seguidas, quase sem intervalo – é uma das formas maiores de felicidade. Normalmente, prefiro a programação não-oficial, conhecida como off em Avignon e, em Edimburgo, como fringe.

Na capital da Escócia, em 2010, registrei que uma peça intitulada Sub Rosa, escrita e dirigida por David Leddy, e montada por sua companhia teatral, Fire Exit, seria apresentada em uma antiga Loja Maçônica, transformada durante o Festival em local para peças do fringe, com o nome de Hill Street Theatre, por causa do endereço. Hill Street, situada no coração da área georgiana da cidade, é uma rua com casas todas iguais, cinzentas, baixas, sem maior distinção arquitetônica. Sub Rosa estava sendo apresentada tarde e terminava em torno da meia-noite. Minha mulher e minha filha, por essa razão, preferiram não ir.

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A peça transcorria em vários ambientes da casa. Os espectadores íamos andando, guiados, de cômodo em cômodo, e em cada um víamos atores representar partes da estória. No Reino Unido, esse tipo de espetáculo é chamado também de promenade theatre. Lembro pouco do texto, mas tenho vívida lembrança de que o tema era tenebroso e envolvia crimes transcorridos em um teatro, na era vitoriana, bem evocada pela decoração da casa e pelos trajes dos atores. A cada cômodo, a inquietação aumentava, o terror e a repulsa com o que ouvíamos e víamos era maior. Depois de uma hora, ou hora e meia, fomos repentinamente deixados em uma rua paralela, sombria. Fazia frio – estive três vezes na Escócia, sempre no verão, e nunca passei calor – a noite era escura, as ruas estavam desertas, se comparadas à agitação diurna do Festival, e caminhei em direção ao hotel sob o impacto da peça e do ambiente ao meu redor.

Punchdrunk é talvez o pai do teatro de imersão. Em 2007 e 2008, em sucessivas viagens a Londres, eu me sentira frustrado ao não conseguir ingressos para uma famosa produção do grupo, Masque Of The Red Death, inspirada na obra de Edgar Allan Poe.

Sobre Sleep No More, baseada em Macbeth, eu ouvira recomendações de primeira mão de minha filha e minha irmã, que haviam assistido ao espetáculo juntas em Nova York, em outubro. Antes de mais nada, é preciso esclarecer que tenho apreço especial por Macbeth, uma das obras mais perturbadoras de Shakespeare em termos psicológicos. A relação entre o marido e a mulher, a de ambos com diversos outros personagens e o papel das bruxas são objeto de fascinação.

A primeira vez em que assisti à peça foi em Londres, quando lá estudava, em uma produção da Royal Shakespeare Company. Lendo o que escrevi no programa na época, vejo o seguinte comentário: “A grande tragédia de Lady Macbeth é ter se casado com o homem errado. Ela fica desesperada ao reparar que o marido não é forte o suficiente para enfrentar as consequências do crime. Ela não acha errado o assassinato do Rei, mas fica desesperada de ver que ela e o marido estão perdidos, porque ele não está à altura”. Já não posso imaginar o que, na produção, me fez chegar a essa análise, que mais se parece a uma declaração de amor por Lady Macbeth e a uma tentativa de me apresentar como parceiro mais sólido do que seu marido.

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Mais recentemente, em 2009, assisti em Namur, em inglês, à estréia de produção da peça pela notável companhia britânica Cheek by Jowl.

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Quanto à ópera de Verdi tirada da peça, assisti a três produções diferentes ao longo dos anos, em Londres, Bruxelas e Liège. A montagem em Bruxelas, em 2010, no La Monnaie – teatro que marcou minha vida, pois foi a primeira Casa de Ópera que conheci, quando era criança – era de Krzysztof Warlikovski, o mais iconoclasta dos diretores de teatro, que já vi ser vaiado na Ópera de Paris, por sua ousadia. No entanto, já não me lembro de detalhe algum de sua produção de Macbeth em Bruxelas. Esse é um ponto notável das artes cênicas: nunca sabemos o quanto aquilo que vemos naquele momento nos afetará, a longo prazo.

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Pude assistir a Sleep No More apenas na nossa última noite em Nova York. O espetáculo é apresentado cinco ou seis vezes por dia, do final da tarde até de noite. Só havia entrada para o último horário, 21h45. No dia seguinte, cedo, pegaríamos o voo de volta para o Brasil. Por isso, minha mulher decidiu não ir. Seu bom senso indicou que ficar até à meia-noite subindo e descendo escadas incessantemente, na penumbra, para acordar poucas horas depois e ir ao aeroporto não seria razoável. Delicadamente, comentou: “E afinal, alguém tem de fazer as malas”.

A porta do prédio se abre e a fila anda. Entro em um corredor, ao longo do qual está o vestiário. Ao fundo, na bilheteria, eu me identifico e recebo esta carta:

Naturalmente, a carta adiciona elemento a mais de mistério mas se revelará tão inútil quanto a agitação do homem do lado de fora. Em momento algum ela me será solicitada.

Continuo por outro corredor escuro, forrado de preto, em zigue-zague, e chego a uma sala:

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Aqui, cabe explicar o cenário de Sleep No More em Nova York. O prédio onde as representações acontecem é um conjunto de antigos depósitos, mas os produtores o apresentam, de forma fantasiosa, como sendo um velho hotel abandonado e restaurado para servir de local para a peça. O hotel inventado pela produção se chama McKittrick e os cinéfilos maníacos por Hitchcock talvez reconheçam ser esse o nome do hotel onde  Madeleine, uma das duas personagens vividas por Kim Novak em Um Corpo Que Cai, entra para criar confusão na mente de Scottie, o personagem de James Stewart, que, da rua, a observa na janela mas, ao entrar no hotel e subir até o quarto, não a encontra.

Junto à sala ilustrada acima, há um bar, o Manderley, cujo nome remete a outro filme de Hitchcock, Rebecca, pois assim se chama a casa palaciana em que vai morar a heroína, vivida por Joan Fontaine, ao se casar com o rico viúvo Maxim de Winter – uma das melhores interpretações de Laurence Olivier no cinema –  e onde vive obcecada pela figura de sua falecida predecessora.

Eis o bar, que é realmente usado como tal, e onde acontecem apresentações musicais:

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Por uma porta, localizada à esquerda da foto, entra-se na parte do hotel onde são apresentadas as cenas de Sleep No More e a partir deste ponto já não são autorizadas fotografias. A porta se abre, cada espectador recebe uma máscara branca – que é obrigado a usar – entra e mergulha em um novo universo. Minha filha e minha irmã tinham me dito que começava-se o percurso entrando em um elevador, o que amigos, semanas depois, no Rio, me confirmaram. No meu caso, não houve elevador. A porta se abriu, o grupo em que eu fora colocado passou o umbral. Vimos uma escada e ouvimos de um funcionário que era possível subir ou descer, como quiséssemos. Hesitei um segundo e decidi subir.

Sleep No More é um espetáculo sem falas. Os atores emitem, no máximo, onomatopéias e grunhidos. Na verdade, são mais bailarinos do que atores, pois há em muitas cenas uma forte preocupação coreográfica. A produção recria, por meio de mímica e gestos e danças, algumas cenas de Macbeth. Cada espectador, usando sua máscara branca, anda por onde quer, livremente, sobe ou desce escadas sem parar – sozinho ou juntando-se a um grupo que segue um dos atores – caminha por longos corredores, entra em cômodos que estarão vazios ou povoados por outros espectadores, dependendo do que neles esteja ocorrendo. Não há uma sequência pré-estabelecida na forma como assistimos às cenas. Estas, aliás, ocorrem repetidamente e podem ser vistas várias vezes na mesma noite. Minha filha e minha irmã, quando foram, ficaram quase quatro horas. Não tive essa sorte, pois à meia-noite, os funcionários do “hotel”, todos de preto e usando máscaras pretas, começaram a bloquear o acesso a determinados andares ou salas, obrigando os espectadores a gradualmente dirigir-se à saída.

Os trajes dos atores são da década de 30; a música, constante, contém ecos da mesma época, mas também de filmes de Hitchcock. Reconheci evocações da trilha sonora de Um Corpo Que Cai. A decoração é a de uma casa da alta burguesia britânica do final do século XIX. Alguns cômodos porém recriam ambientes que não seriam os de uma casa particular. Há uma farmácia, o ateliê de um taxidermista e o de um alfaiate, que vemos trabalhar, quase encostando nele no espaço pequeno, embora ele nos ignore totalmente. Há um quarto de hospital, com várias camas de metal. Há também a recriação da floresta evocada na peça. Como alguns dos ambientes, há cenas que nada têm a ver com Macbeth, criando eventos paralelos. Em alguns momentos, eu tinha a impressão de passar sempre pelos mesmos cômodos ou atores. Cruzei várias vezes, em diferentes corredores, com uma moça de chapéu, carregando uma mala de couro, despertando em mim a indagação de quem era e para onde ia, naquela constante movimentação. De repente, eu descobria um espaço ou um andar novo. Há dois bares. Um deles é o cenário da profecia das bruxas a Macbeth. Só que eram duas bruxas e um feiticeiro, todos vestidos em trajes de gala da década de 30. Macbeth usava um paletó de veludo roxo. A expressão corporal, nessa cena, é particularmente sensual, para ilustrar o quanto as bruxas e o feiticeiro dominam a mente de Macbeth. Em um dos cômodos, fora do eixo principal de circulação, vi um casal de espectadores – reconhecíveis pelas máscaras brancas – em uma cadeira de balanço, ela sentada sobre ele. Minha entrada no quarto gerou desconforto, e ela se levantou o mais rapidamente possível. Às vezes, eu me via sozinho em ambientes escuros e estranhos e pensava, inquieto, em romances de Agatha Christie.

Logo no início do meu percurso, cheguei ao quarto do casal Macbeth e assisti à cena em que Lady Macbeth convence o marido a matar o Rei. O amplo aposento – que inclui uma banheira no meio do ambiente, onde veremos Macbeth tomar banho, nu, frágil, tremendo, para retirar o sangue após a morte do Rei – continha numerosos espectadores, em pé, observando, mascarados, Macbeth sendo seduzido pela mulher. Era um espetáculo de alta carga erótica. Em Sleep No More, o sexo entre o casal Macbeth é figurado como sendo enérgico, quase violento. Macbeth começa rejeitando a mulher, por causa de seu pedido insistente de que ele mate o Rei. Gradualmente, cede à tentação física, joga a mulher contra a parede e a ela se junta. Depois, leva-a para a cama.

Numa segunda vez em que assisti à cena, mais tarde na noite, sentei-me em um banco ao lado do leito matrimonial dos Macbeth, observando de perto a mímica sexual dos intérpretes – ambos estavam vestidos – e, se quisesse, poderia neles ter tocado. Uma das funções dos funcionários de máscara negra é coibir que membros do público tomem a iniciativa de interagir com os atores. Estes, porém, frequentemente se aproximam dos espectadores. Quando participei da cena da loucura, ao longo de um corredor, seguindo Lady Macbeth em sua caminhada alucinada, notei que ela frequentemente parava para cochichar palavras incompreensíveis no ouvido de alguns espectadores. Preferi evitar tanta proximidade com ela. Quando, porém, ela se jogou ao chão, pouco depois pediu com o olhar que eu a ajudasse a se levantar, o que fiz. Uma hora antes, Macbeth, ao voltar ensanguentado para o quarto depois do assassinato do Rei, esbarrara em mim.

A questão é que a presença física do casal era desagradável, pois a produção consegue criar um clima pelo qual sentimos, os espectadores, que estamos dentro da estória. As máscaras brancas fazem de nós fantasmas, que presenciam, ininterruptamente, as mesmas cenas, enquanto elas acontecem e se repetem. O espetáculo faz uma análise sutil sobre a noção de tempo, sobre a ideia de que o que aconteceu no passado continua acontecendo insistentemente. Testemunhamos, em 2017, em Nova York, uma estória ocorrida na Idade Média escocesa. Assim, quando o ator esbarrou em mim e quando dei minha mão à atriz que representava sua mulher para que se levantasse do chão, esses foram momentos gélidos, de pavor; não eram os intérpretes com os quais eu interagia, mas quase que literalmente com Macbeth e com Lady Macbeth, portanto um assassino em série e sua cúmplice e instigadora, que matam para subir ao trono e matam para nele se manter.

Não consegui, por mais que tentasse, ver todas as cenas. Perdi o segundo encontro de Macbeth com as bruxas. Simplesmente, não aconteceu de eu estar na hora certa no ambiente certo para testemunhar a cena. A morte do Rei me deu trabalho, mas pude vê-la, ao seguir Macbeth fora do quarto na segunda vez em que, sem querer, testemunhei a cena da sedução. O ator caminhou a passo veloz por corredores e escadas que eu até então não vira, e foi difícil acompanhá-lo. Nesta produção, Macbeth mata pessoalmente, estrangulando-a, Lady Macduff, que aparece grávida, para simplificar, pois na peça seu filho também é morto. A cena é muito bem levada: há um embate físico, particularmente vocal, entre Macbeth e sua vítima. Vemos que Macbeth já não demonstra hesitação, temor ou pudor na hora de cometer um crime.

O programa, vendido na saída, apresenta entrevista com os dois diretores, Felix Barrett – fundador de Punchdrunk – e Maxine Doyle:

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Barrett declara no final da entrevista que “Sleep No More é uma experiência visceral tanto para a mente como para o corpo. Algumas pessoas preferem explorar o espaço de forma metódica, enquanto outras seguem os atores. Algumas pessoas a vêem como teatro, outras como instalação artística”.

A primeira foto desta postagem é da minha máscara. Foi tirada no taxi, depois do espetáculo, a caminho do hotel. O fundo preto é meu sobretudo, dobrado no banco traseiro. Em sua entrevista, Felix Barrett informa que o uso das máscaras pelos espectadores garante que cada experiência será individual e que elas são parte importante “do mundo onírico que tentamos criar”.

Alguns comentários de espectadores, na Internet, fazem referência ao filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick. Como nesse filme, em Sleep No More há espectadores mascarados, tensão sexual e a percepção de que há um ambiente criminoso. Pessoalmente, pensei mais no filme Malpertuis, do diretor belga Harry Kümel e baseado em livro de Jean Ray, que meus irmãos e eu vimos inúmeras vezes na infância e na adolescência e que minha irmã e eu adoramos até hoje. O cenário de Sleep No More lembrou-me muito o da casa onde, em Malpertuis, todos os personagens – que são os deuses do Olimpo, caídos – são obrigados a viver como burgueses de Bruges do final do século XIX, aprisionados que foram pelo personagem malévolo de Orson Welles, que os encontrara perdidos em uma ilha.

Sleep No More é uma experiência forte e sei que as pessoas costumam voltar para revê-la. Consegue criar uma atmosfera única e transformar a nós, os espectadores mascarados, em participantes do enredo. Vemos Macbeth se rebelar contra a falta de escrúpulos da mulher, contestar seu pedido, mas gradualmente ceder, pela gratificação de um momento sexual e pela simples predominância da personalidade de Lady Macbeth. Logo após o ato sexual virão o primeiro crime, o trono e em seguida mais crimes, mais sangue… E nós, fantasmas atemporais, condenados a ser testemunhas recorrentes, para a eternidade, daqueles eventos, nada podemos fazer para impedi-los. É uma produção para dar calafrios.

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O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks

O Amor, Georges Perec e Daniel Blaufuks

Aos 25 anos, eu me apaixonei. Fomos apresentados um ao outro e convivemos durante alguns dias, por razões profissionais. Pouco depois, viajei de férias. Passei várias semanas nos Estados Unidos e na Europa. Sabia que ela também viajava pela Europa, mas não conhecia o seu roteiro. Em Nova York, eu ia aos museus pensando se ela já estaria em Londres. Em Londres, eu ia ao teatro pensando o que ela estaria fazendo em Paris. Em Paris, eu almoçava com amigos me perguntando se ela tinha namorado. Em resumo, os sinais eram inconfundíveis.

Anos depois, descobrimos que havíamos ficado hospedados em Londres no mesmo período, em ruas adjacentes de South Kensington, sem nunca esbarrarmos um no outro. Julgamos ter havido uma conspiração do destino. Nessa ocasião, porém, já conhecíamos o final feliz da história: de volta ao Brasil, nós nos reencontramos em seguida, começamos a namorar, casamo-nos e nesse estado estamos até hoje. A foto acima mostra o lugar onde aconteceu o casamento.

Quando começamos a namorar, fizemos duas descobertas importantes: a de que nascêramos na mesma data e a de que nossas bibliotecas se completavam. A dela continha sobretudo livros de ficção científica – com destaque para os de Philip K. Dick, de quem eu nunca ouvira falar, pois ele era ainda um autor “cult” – poesia de língua inglesa, padre Antonio Vieira e ficção francesa da segunda metade do século XX. Na minha, predominavam livros de História e de psicanálise e literatura clássica francesa.

Como mencionei em minhas postagens sobre o filme O Plano de Maggie, de Rebecca Miller e Papai Noel e a amizade, acredito na capacidade dos livros de exercer papel nos relacionamentos humanos. Namorando, ia incorporando a sua vida à minha e ia assimilando novos interesses intelectuais. Lendo os seus livros, eu a conhecia melhor.

O primeiro volume da sua biblioteca que li talvez tenha sido este:

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Nossas estantes cresceram tanto com o tempo, que levei alguns minutos para achá-lo hoje, com o objetivo de fotografá-lo. Georges Perec era então apenas um nome muito vago para mim. A leitura de La Vie mode d’emploi foi uma revelação. Como eu pudera chegar aos 26 anos sem ler esse livro? Vários hábitos meus apareciam ali, escancarados: a mania das listas, que me acometia desde a infância; o fascínio com quebra-cabeças, a que já me referi na postagem O Triunfo da Cor; a vontade de dissecar a realidade, detalhe por detalhe; a análise das relações humanas e suas complexas implicações; a meditação sobre a interação entre a arte e o cotidiano.

Outro hábito meu é o de, ao descobrir um autor, querer ler tudo o que ele escreveu e tudo que foi escrito sobre ele. Perec ocupou meus pensamentos durante um bom tempo. Poderia ter entrado na lista de autores mortos que foram meus melhores amigos, alguns dos quais mencionei em Papai Noel e a amizade. Sua vida trágica deixou-me muitas vezes inquieto, em um sentimento de solidariedade e fraternidade. Neste exato momento, enquanto escrevo, recordo os detalhes da sua existência e sinto profunda tristeza. No entanto, Perec em suas fotos está sempre sorridente, amou e foi amado ao menos duas vezes, tinha numerosos amigos e ganhou prêmios literários importantes. Ele é um exemplo de superação das adversidades, que porém o perseguiram até o fim – morreu de câncer às vésperas de completar 46 anos.

Até 2015, eu não conhecia este livro de Perec:

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Esse texto curto, de 40 páginas, de certa forma é uma grande listagem. Durante três dias, em outubro de 1974, Perec sentou-se em Paris em dois Cafés diferentes da place Saint-Sulpice e listou o que passava diante de seus olhos. Os vários ônibus — ele menciona se estavam cheios, vazios ou semi-cheios –— as pessoas e as roupas que usavam e o que carregavam; os carros, especificando seus modelos e suas cores. Perec não tem o propósito de descrever os prédios, sequer a igreja de Saint-Sulpice, uma das mais famosas de Paris. Seu objetivo é “descrever o resto: aquilo que normalmente não notamos, o que não é observado, o que não tem importância: o que acontece quando nada acontece, a não ser o tempo, as pessoas, os carros e as nuvens”. Perec fica sentado nos dois Cafés, ou em um banco na praça, observando, anotando e também registrando o que ele come e o que bebe. Fica fascinado quando vê passar um homem que, como ele — e ninguém mais que ele conheça — segura o cigarro entre os dedos anular e mediano. O texto de forma alguma pretende ser um romance, mas às vezes frases soltas nos fazem imaginar vidas alheias, como esta: “Um homem carregando uns tapetes”; ou: “Um casal se aproxima de seu Autobianchi Abarth estacionado ao longo da calçada. A mulher mordisca uma tartelete”.  Que fim terá levado esse casal? Terão ficado casados? Tiveram filhos? Aliás, eram casados ou apenas amigos ou sócios? O que pensavam enquanto iam buscar o carro? Nunca saberemos.

Há registro fotográfico de Perec sentado no Café de la Mairie, um dos dois de onde observava a rua e escrevia sobre o que via em Tentative d’épuisement d’un lieu parisien:

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A foto de cima mostra o Café. A de baixo nos mostra um Perec caracteristicamente sorridente, mas parecido com um personagem dostoievskiano. A página é extraída de uma fotobiografia, Georges Perec, Images:

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Até 2015, portanto, a praça Saint-Sulpice não representava nada para mim; simplesmente, não fazia parte da minha Paris, embora o Hôtel Récamier, nos últimos anos, tenha virado local de hospedagem da minha irmã na cidade, e ao lado da praça haja uma excelente livraria que eu frequento, La Procure. Passava eu pela praça de vez em quando, quando estava em Paris, mas sem maior interesse. De repente, em 2015, uma sequência de eventos tornou a praça objeto de minhas indagações. Naquele ano, eu estava na cidade, em abril; por coincidência, em dias sucessivos, dois amigos marcaram encontro comigo no Café de la Mairie. Poucas semanas depois de voltar ao Brasil, vi na Livraria Cultura do Leblon um livro de Enrique Vila-Matas publicado em 2009:

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Dietario voluble cobre o período de dezembro de 2005 a abril de 2008 na vida do escritor espanhol. Logo no começo, para janeiro de 2006, há a seguinte frase: “Estoy en la plaza de Saint-Sulpice, sentado en el café desde donde Georges Perec espiaba horas y horas lo que allí podia verse, no lo que ya había sido antes catalogado o inventariado…”. Vila-Matas menciona que Catherine Deneuve, Vargas Llosa e Umberto Eco possuem apartamentos na praça e brinca de Perec, sentado no Café, esperando, “en vano como siempre”, que passe Catherine Deneuve; lê na revista Lire que Vargas Llosa espera há 15 anos que Deneuve passe, “pero ella no aparece nunca”, lamenta-se o escritor peruano. E eis que, nesse momento, de repente, Catherine Deneuve se materializa frente a Vila-Matas, que escreve: “Quedo mudo de la sorpresa y me pregunto si por unos momentos Deneuve no ha sido ‘lo que pasa cuando no pasa nada’”.

Folheando o Dietario voluble na Livraria Cultura, fiquei surpreso com a coincidência, já que acabara de frequentar o mesmo Café — mas não vira Catherine Deneuve. Comprei o livro. Mandei por whatsapp ao mais literato dos dois amigos com quem me sentara no Café de la Mairie essa página de Vila-Matas, embora ele não fale nem português, nem espanhol — é holandês. A providência seguinte foi encomendar o livro de Perec, o único do autor a faltar até então na nossa biblioteca.

Na primeira semana de janeiro de 2017, passando por Lisboa, onde mora minha irmã, li no blog Lunettes Rouges, minha bíblia para temas de arte contemporânea, artigo sobre exposição em uma galeria de arte lisboeta: Un photographe de notre temps (Daniel Blaufuks). O autor do blog, Marc Lenot, mora agora em Lisboa. No artigo, descreve Daniel Blaufuks como “um fotógrafo da memória, da lembrança, da História, do genocídio dos judeus, fotógrafo assombrado pelo passado”. E menciona que Perec havia sido uma fonte de inspiração para Blaufuks, que fotografara a mesa da cozinha de seu apartamento em Lisboa, onde naturalmente nada acontecia, a não ser pratos, comida, flores, que eram colocados sobre a superfície e retirados.

Não era necessário mais do que esse comentário sobre Perec para me fazer ir até o bairro de Alvalade — distante em relação ao Chiado, centro da cidade para mim — visitar a Galeria Vera Cortês. Alvalade foi urbanizado em meados do século XX, não possui o charme da Lisboa pombalina, mas mostrou-me nova faceta da cidade.

Vera Cortês foi extremamente simpática. A galeria é clara e minimalista, como mostra este canto, que serve de copa:

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O folheto sobre a exposição de Daniel Blaufuks, intitulada, em homenagem a Perec, “Tentativa de esgotamento”, relembra logo na primeira frase o experimento do escritor na praça Saint-Sulpice em 1974 e a tentativa de resgatar “o que se passa quando não se passa nada, salvo o tempo”. Blaufuks informa: “Entre 2009 e 2016 fotografei uma mesa e a janela na minha cozinha em Lisboa. Primeiro atraído pelo silêncio, depois pela forma como a luz caía nos objectos e em seguida pela sua composição geométrica, fui reparando mais e mais em como tudo se repetia e não se repetia devido às ligeiras e quase invisíveis diferenças do dia-a-dia”. O texto de Blaufuks termina da seguinte maneira:

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Tanto Blaufuks quanto Vila-Matas preferiram falar como se Perec tivesse se sentado sempre no mesmo café, embora na verdade tenham sido dois.

Mostro aqui visão panorâmica da exposição e algumas das minhas fotos prediletas:

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Como aponta Marc Lenot em seu artigo, há várias referências artísticas nas fotos, a ponto de podermos nos perguntar se, por exemplo, os girassóis realmente apareceram ali por acaso. Penso que provavelmente não. A questão mais relevante, porém, é outra: é a tentativa de Blaufuks de mostrar como um livro, um prato de comida, um talher, uma fruta, uma flor, uma toalha colocados sobre a mesma mesa mudam o ambiente ou ao menos a percepção que temos do ambiente. Qual das duas fotografias que mostram o copo de leite é mais impactante em termos filosóficos ou mais exitosa em termos estéticos? Discuti o assunto com Vera Cortês. Não sei se há resposta certa. As duas mostram um copo de leite sobre a mesma mesa. No entanto, cada uma mostra uma realidade bem diferente.

Vera Cortês me deu de presente livro editado pela sua galeria, que contém vários textos de Blaufuks ou sobre ele ou que nada têm a ver com ele diretamente mas ilustram sua visão de mundo:

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Ao sair da galeria, parei em um Café do bairro. Sentei-me na varanda coberta e fiquei observando a rua, vendo cair a luz do fim de tarde invernal, pensando na tristeza embutida em toda existência. Poucos dias antes, em Sevilha, eu sofrera um acidente banal mas no qual machucara-me o suficiente para ter de ir ao hospital duas vezes em três dias. Não narrei esse incidente na postagem sobre meu Ano Novo, Sevilha: Palacio de las Dueñas e Casa de Pilatos, onde preferi me concentrar no poder da Arte e na beleza da vida. No Café em Alvalade, com a mão direita enfaixada –— estado em que passei meus nove dias em Sevilha, Lisboa e Paris, no começo de 2017 — as costas, os tornozelos, os joelhos doloridos, pensei na exposição de Daniel Blaufuks, em Georges Perec e sua existência repleta de tragédias, mas da qual ele procurara fazer uma experiência feliz, pensei na transitoriedade das coisas e das pessoas em nossas vidas. Pensei na II Segunda Guerra Mundial e em como ela afetara as vidas de Perec e de Blaufuks, por meio de seus pais, no caso do primeiro, e seus avós, no caso do segundo. Lembrei que Antonio, meu amigo mais próximo, e que, muitíssimo mais velho do que eu, já não está aqui, nascera na Inglaterra durante a II Guerra Mundial. Fiquei me perguntando onde fora parar a máscara anti-gás que ele, quando era bebê, usava durante os bombardeios alemães, e que uma vez me mostrara. Lamentei não poder ligar e narrar-lhe a exposição de Blaufuks que ele, como fotógrafo amador e filósofo nas horas vagas, teria adorado.

Como eu estava em Lisboa, o café e o doce eram ambos deliciosos e começaram a agir sobre mim. Pensei na sorte que era estar ali, de não ter me machucado mais, no quanto minha irmã cuidara de mim em Sevilha. Lembrei que eu tinha de voltar para casa, pois ia jantar fora com um casal de amigos, em meu restaurante predileto na cidade.

Concluí sentindo a sorte que fora apaixonar-me aos 25 anos logo por ela, e que a vida, que nos parece às vezes tão arbitrária, pode também demonstrar enorme coerência: o Amor me fizera gostar de Perec, e isso me levara, depois de anos e de várias coincidências — duas idas seguidas ao Café de la Mairie, por iniciativa de amigos diferentes; a descoberta do livro de Enrique Vila-Matas na Livraria Cultura; a leitura do blog Lunettes Rouges — à obra de Daniel Blaufuks e àquele Café em Alvalade.

Levantei-me feliz, sentindo-me tranquilo e seguro, manquei até o balcão para pagar a conta, peguei um taxi e voltei para o Chiado.

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Sevilha: Palacio de las Dueñas e Casa de Pilatos

Sevilha se caracteriza por seus bairros antigos bem preservados, suas cores, suas laranjeiras carregadas de frutas mesmo no inverno, suas ruas pitorescas, pelo céu azul e pela luz peculiar. Some-se a isso o clima ameno no outono e no inverno, os excelentes e inúmeros restaurantes e a boa educação da população local e tem-se a explicação de por que a capital da Andaluzia é destino apreciado pelos turistas. Lá passei a virada do ano.

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Quando a conheci pela primeira vez em 2007, Sevilha já possuía fortes conotações culturais para mim. Desde sempre, era o local que eu associava a Carmen, a Velázquez -que nasceu na cidade – à figura de Figaro (que já mencionei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro) e à estória de Don Juan, que inspirou Molière e Mozart. Até hoje, não posso passar ao longo do muro da antiga Real Fábrica de Tabacos, atualmente sede da Universidade, e frente à sua entrada monumental sem pensar que é lá onde trabalha a fictícia Carmen e cantarolar alguma ária da ópera de Bizet:

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A dama de ficção mais querida para os sevilhanos é porém a figura de bronze do século XVI que adorna o topo do campanário (e ex-minarete) da Catedral, representando a Vitoriosa. Originalmente conhecida como Giralda, porque ela gira de acordo ao vento, a escultura passou a se chamar Giraldillo quando o nome original, por extensão, foi atribuído ao campanário. Aparentemente, há quem use os dois termos, de maneira indiferente, para se referir a ela.

Para um fotógrafo amador, conseguir uma boa imagem da Giralda e do Giraldillo é um desafio, por causa da altura do campanário, de quase 100 metros. Tirei várias fotos; acho que esta, onde coloquei um filtro para tornar os detalhes mais nítidos, mostra melhor a imponência da torre, embora a figura de bronze pareça distante:

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Felizmente, frente a uma das portas da Catedral há uma réplica também em bronze da escultura – que já esteve no topo da torre de 1999 a 2005, enquanto o original era restaurado – e assim pode-se apreciar de perto a beleza da figura renascentista:

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Cervantes, que morou em Sevilha, menciona a escultura no Don Quijote, como lembra placa em uma fachada na praça em torno à Catedral, mais precisamente no trecho conhecido como Plaza del Triunfo:

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Cervantes menciona Sevilha frequentemente em sua obra. Caminhando pela cidade, vi duas outras placas, ambas de azulejos, comemorando o escritor.

Na famosa Calle Sierpes, tradicional rua de comércio, vi esta:

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A Cárcel Real é onde Cervantes esteve preso por três meses, em 1597.

Em 1999, em entrevista publicada pela revista Sibila, João Cabral de Melo Neto, que morou em Sevilha mais de um vez e dedicou a ela os poemas recolhidos no livro Sevilha Andando, perguntado sobre que imagem lhe vinha à cabeça quando pensava na cidade, respondeu: “Acho que é a calle Sierpes, a rua principal. Chama-se Sierpes por isso, porque ela não é reta”.

Haverá forma mais bonita de celebrar uma cidade do que o famoso poema de João Cabral Sevilhizar o mundo ?

Como é impossível, por enquanto,
civilizar toda a terra,
o que não veremos, verão,
de certo, nossas tetranetas,

infundir na terra esse alerta,
fazê-la uma enorme Sevilha,
que é a contra-pelo, onde uma viva
guerrilha do ser, pode a guerra.

Voltemos a Cervantes. Em um muro, ao lado de portão de acesso ao recinto da Catedral, há esta placa:

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A referência às Novelas Ejemplares me traz boas lembranças, pois tenho particular afeição por esse livro. Vejam a placa em mais detalhe:

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Intrigado pela confecção harmoniosa das placas de azulejos referentes à obra de Cervantes, fiz pesquisa na Internet, onde descobri texto interessante do escritor José Carlos Canalda, no qual explica que, em 1916, para comemorar o tricentenário da morte de Cervantes – e o ano de 1616 é também, quero lembrar, pois é uma coincidência marcante, aquele em que morreu Shakespeare – as autoridades sevilhanas encomendaram vinte placas de azulejos em que seriam lembradas as menções feitas pelo escritor à cidade.

Falemos, porém, não mais de uma heroína de ficção, como Carmen ou a Giralda ou Giraldillo, mas de uma mulher de carne e osso.

No final do século XV, vivia en Sevilha uma dama nobre de nome Catalina de Ribera, que faleceu em 1505, com cerca de 55 anos de idade. Catalina casou-se com o viúvo de sua irmã, Pedro Enríquez de Quiñones. Os dois iniciaram a construção da Casa de Pilatos e, em 1483, adquiriram outro imóvel em Sevilha, o Palacio de las Dueñas. E é assim que o casal, que deve ter sido uma potência imobiliária na Sevilha da virada dos séculos XV e XVI, possuiu as primeiras versões das duas residências que, hoje, modificadas e ampliadas, são consideradas os mais importantes bens imóveis de Sevilha, após o Alcázar, residência real.

Catalina de Ribera é amplamente homenageada na Sevilha contemporânea. Na continuação dos Jardines de Murillo estão os Jardines de Catalina de Ribera, onde está, ao longo da muralha do Alcázar, o Paseo de Catalina de Ribera, no qual existe uma fonte do começo do século XX celebrando-a. Abaixo, mostro a fonte e sua inscrição, em sucessivos graus de detalhes:

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Tirar essa foto de lado não foi uma boa ideia, obviamente. O detalhe abaixo, tirado de frente, ficou melhor:

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E finalmente, a inscrição, que faz referência ao fato de Catalina ter sido a “egregia fundadora” do Hospital de las Cinco Llagas:

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Pelas vicissitudes das sucessões, os dois palácios do casal Pedro e Catalina, embora estejam ambos ainda nas mãos de seus descendentes, pertencem a proprietários diferentes. Os Duques de Alba são os donos do Palacio de las Dueñasos Duques de Medinaceli são os donos da Casa de Pilatos.

Em uma visita anterior a Sevilha, há muitos anos, eu visitara a Casa de Pilatos. Em 2016, pela primeira vez, o Palacio de las Dueñas foi aberto à visitação, em função da morte, em 2014, de Cayetana, 18ª Duquesa de Alba, célebre por seu espírito independente e anti-conformista, que lhe rendeu, entre os espanhóis, enorme popularidade, rara talvez em alguém nesse nível de riqueza – há avaliações de que deixou, ao morrer, fortuna de cerca de 2,8 bilhões de euros. A imagem da Duquesa de Alba está associada à casa em Sevilha, aparentemente sua preferida. Os jornais com frequência declaravam que ela detinha 46 títulos de nobreza e que essa cifra seria um recorde. A 18ª Duquesa de Medinaceli, porém, falecida em 2013, um ano antes de Cayetana (e não deixa de ser curioso que os numerais das duas fossem idênticos) parece ter detido 51 títulos. Quando a mesma pessoa possui 6, 7, 8 ou 9 Ducados, como era o caso das duas, aparentemente a precisão fica mais difícil.

Tanta ostentação de nobreza e fortuna, nas famílias dos Duques de Alba e de Medinaceli, me faz pensar em duas coisas, relacionadas. Primeiro, penso no poema de Sophia de Mello Breyer Andresen, Retrato de uma princesa desconhecida:

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Em segundo lugar, lembro que o Duque de Alba mais destacado foi o terceiro, o celebérrimo  Governador dos Países Baixos – região então possessão dos Habsburgos espanhóis – que, sob o reino de Felipe II, reprimiu de forma cruel e sanguinária a revolta contra o domínio da Espanha, o que não impediu o Norte da província, os atuais Países Baixos, de se tornarem independentes. O Sul católico, a atual Bélgica, permaneceu sob domínio dos Habsburgos, primeiro do ramo espanhol e, depois, com a extinção desse, do ramo austríaco, até a Revolução francesa. O mesmo Duque de Alba se destacou também por ter conquistado Portugal para Felipe II e ter sido nomeado primeiro Vice-Rei da nova possessão da monarquia habsburguesa. Por mais condenável que seja o Duque de Alba, responsável por milhares de execuções nos Países Baixos – de fato, “um imenso desperdiçar de gente”- na Espanha ele parece ainda ser visto como herói. Nenhum Duque de Medinaceli chegou perto de sua fama.

No final de dezembro, visitei as duas propriedades, o Palacio de las Dueñas e a Casa de Pilatos, uma logo após a outra.

Vejamos primeiro o Palacio de las Dueñas. Este é o portão de entrada, com o brasão usado pela família no século XVIII:

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 O que se vê do portão, em direção à rua, é o seguinte:

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A placa de azulejos no muro da direita foi colocada em homenagem ao poeta Antonio Machado, nascido na propriedade em 1875, pois seu pai era advogado ou administrador dos Duques de Alba, que alugavam casas no recinto de seu palácio, como os Duques de Guermantes alugavam à família do Narrador um apartamento em seu hôtel particulier.

Ver essa homenagem a Machado foi comovente para mim porque, na adolescência, em Montevidéu, minha professora de espanhol na escola era admiradora de sua poesia e as aulas eram passadas dissecando obras suas. Vejam em detalhe a placa, que alude a poemas de Machado:

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A paródia da bandeira e do hino britânicos pintada em uma porta de garagem pode ser vista mais nitidamente na foto abaixo:

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Uma homenagem, portanto, frente ao seu palácio, à popularidade de Cayetana, descendente do Rei da Grã-Bretanha James II.

Entremos no recinto do Palacio de las Dueñas. Chama a atenção a profusão de pátios, o mais célebre dos quais talvez seja o Patio de los limoneros, ilustrado nas duas fotos abaixo:

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Segue-se a ele o pátio principal, com suas arcadas:

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Na foto abaixo, a placa no muro, à esquerda, presta mais uma homenagem a Antonio Machado.

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Reparem abaixo nos azulejos e na ornamentação dos muros e do arco da porta, no pátio principal, que dá acesso ao chamado Salón de la Gitana:

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E aqui, em mais detalhe:

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A decoração do Salón de la Gitana, como em todas as salas do Palácio, é pesada, sombria e carregada de objetos. Deve-se supor que era assim que gostava de viver Cayetana:

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A Capela possui quadros de boa qualidade, como o retábulo – bom, embora não inovador – de Santa Catarina entre Santos, de Neri di Bicci, que viveu no século XV:

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A biblioteca, mostrada em duas fotos abaixo, revela atmosfera do final do século XIX, embora talvez faltem livros. É importante lembrar, contudo, que o Palacio de las Dueñas é apenas uma das casas dos Duques de Alba e que a maioria de seus tesouros está no palácio madrilenho:

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Por fim, chega-se ao Patio del Aceite:

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Terminada a visita ao Palacio de las Dueñas, fui rever a Casa de Pilatos.

A entrada principal da residência sevilhana dos Duques de Medinaceli, típica do Renascimento italiano, é mais elaborada em termos artísticos mas possui soberba nobiliárquica mais sutil do que a de seus primos distantes, os Duques de Alba:

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O interior, porém, conta outra estória. Antes de mais nada, é preciso saber que não é permitido fotografar o interior do segundo andar da Casa de Pilatos, que possui quadros interessantes, particularmente de Luca Giordano, um favorito meu. O térreo apresenta-se assim, no pátio interno:

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Os bustos nas paredes são de Imperadores romanos e de personagens ilustres – Cícero, Marco Antonio, Aníbal – da Antiguidade. A exceção é o busto de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico e Rei de Espanha e de muitas outras terras. Fica claríssima a intenção de afirmar ser Carlos V o sucessor de Roma, na sua universalidade.

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Como se vê, a Casa de Pilatos é mais rica do que o Palacio de las Dueñas, em termos de   estuques e variedade nos azulejos. A casa deve muito, na sua aparência atual, ao filho de Catalina de Ribera e Pedro Enríquez, Fadrique Enríquez de Ribera, primeiro Marquês de Tarifa, que visitou Jerusalém (o que originou o atual nome da propriedade), entre 1518 e 1520. Seu sobrinho e herdeiro, o primeiro Duque de Alcalá, montou a coleção de estátuas antigas, muitas delas restauradas.

Ao redor do pátio principal, encontram-se diversas salasonde as influências mudéjar – Sevilha foi possessão árabe até 1248 – e do Renascimento italiano se coadunam:

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Algumas salas contêm peças da coleção de bustos, esculturas e baixos-relevos, muitos deles, como disse, da Antiguidade:

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Comparados com o pátio central e as salas, os jardins possuem caráter mais intimista:

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Como outros cantos do palácio, o jardim principal é representativo, com sua loggia, do Renascimento italiano:

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Nada mostra mais a diferença entre o Palacio de las Dueñas e a Casa de Pilatos do que as respectivas escadarias ao segundo andar (o qual, no caso da casa dos Duques de Alba, não é visitável). Abaixo, a escadaria do Palacio de las Dueñas:

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Sem dúvida, aristocrático e elegante, inclusive porque o retrato ao fundo representa a Imperatriz Eugenia, mulher de Napoleão III, que era espanhola de nascimento e cuja irmã foi Duquesa de Alba. Eugenia de Montijo é tratada, no Palacio de las Dueñas, como verdadeira heroína (e, sejamos justos, qualquer um que tivesse tido uma tia-trisavó Imperatriz dos Franceses provavelmente faria o mesmo); somos informados de que gostava particularmente do Patio de los limoneros e de que morreu, em 1920, na residência madrilenha dos Duques de Alba, o Palacio de Liria.

Vejamos abaixo, em duas fotos,  a escadaria da Casa de Pilatos:

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A variedade e a riqueza dos azulejos, todos do século XVI, elevam o refinamento a um nível superior. Aqui, não é necessário o retrato de uma tia-trisavó Imperatriz.

Qual das duas casas é mais bonita?

Elas se complementam.

O Palacio de las Dueñas se parece a uma casa onde as pessoas vivem. Com seu excesso de objetos e memorabilia em homenagem a uma celebridade, Cayetana de Alba (por exemplo, são expostos em uma vitrine, no centro de uma sala, o vestido e os sapatos com que dançava flamenco), apesar de secular dá a impressão de ter sido a casa de uma pessoa específica.

A Casa de Pilatos, mais impressionante, se parece a um museu, com seus bustos e esculturas e a multiplicidade de desenhos de azulejos. Embora os Duques de Medinaceli a usem frequentemente, é mais impessoal e não celebra uma pessoa específica.

A única regra seria, para um turista, não visitá-las depois de ir ao Alcázar (ou Reales Alcázares, no plural, como gostam os sevilhanos) que, por ser palácio real e fonte de inspiração para as duas casas particulares, as supera pelo requinte e a qualidade dos estuques e dos azulejos.

O que as duas casas fornecem é a percepção de como o Renascimento chegou a Sevilha e se juntou ao gótico moribundo e ao estilo mudéjar para formar conjuntos harmônicos, imponentes, luxuosos, mas onde havia a preocupação com conforto e de tornar a vida mais agradável, mais bela.

Antonio Machado, nascido no Palacio de las Dueñas e que depois de se mudar para Madri, em 1883, aos 8 anos de idade, nunca mais moraria em Sevilha, lembrou-se para sempre, como mostra sua poesia, dos “naranjos encendidos“,  do “limonero lánguido”, do “encanto de la fuente limpia”, da “tarde alegre y clara”. Seus versos fazem referência a Sevilha mas também à casa onde nasceu, fonte para ele de paz, beleza, harmonia: “Esta luz de Sevilla… es el palacio donde nací, con su rumor de fuente“. Desde o ano passado, com a abertura do Palacio de las Dueñas, todo visitante pode sentir o mesmo que o poeta.

Museu de Arte Islâmica, Doha

Em minha viagem à Índia, fiz escala em Doha, onde meditei sobre o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan, a forma como ele canta Full Moon and Empty Arms  e se Alfred de Musset tinha ou não razão em achar que a lua cheia, vista sobre uma torre, se parece a um pingo no “i”. Houve também tempo suficiente para eu conhecer o extraordinário Museu de Arte Islâmica.

Como salientou Alexander Sokurov em seu Francofonia, os grandes museus – e o Louvre, objeto do seu ensaio filmado, é provavelmente o mais famoso e maior dos museus – passam a simbolizar a cidade onde se situam e se tornam os depositários da arte, da história, da civilização, da própria vida humana.

Esse é o caso do Museu de Arte Islâmica, conhecido como MIA (acrônimo de seu nome em inglês), obra do arquiteto I.M. Pei – o mesmo, cabe recordar, da pirâmide do Louvre – e inaugurado em 2008.

O edifício, inspirado na arquitetura islâmica tradicional e que, por parecer emergir do mar, faz-me pensar também em um palazzo veneziano, é, em si, uma obra-prima:

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Vejam agora o interior, mais especificamente o café (no último andar, há também um restaurante do Alain Ducasse):

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A coleção, compacta, é extremamente variada, as peças são, muitas delas, excepcionais, e o museu tem o claro propósito de preservar uma civilização. Um painel, que me arrependo de não ter fotografado, avisa que o MIA pretende oferecer um panorama sobre “as diferentes culturas que formaram a civilização islâmica”.

Fiz a visita usando a câmera do celular profusamente… Não há restrição à fotografia. Depois de um certo tempo, dei-me conta de que estava favorecendo peças onde a escrita tem um lugar importante. Hábito de apreço por textos ou fascínio pela arte da caligrafia?

Vejam o exemplo abaixo, um Alcorão chinês do século XVII:

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O museu possui numerosos manuscritos, muitos antiquíssimos, onde a junção da imagem e do texto forma obras de arte de uma beleza impenetrável.

Às vezes, a simples escrita produz um impacto forte, como no belíssimo manuscrito abaixo do Alcorão, da Península Arábica, do século VII ou do começo do século VIII, portanto talvez contemporâneo de Maomé, na escrita hijazi. Podemos imaginar a fé do escriba, as condições em que produziu o texto, talvez seu orgulho com a beleza da sua caligrafia.

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Quando eu era estudante em Londres, frequentava assiduamente a National Gallery e passei muitas tardes nas salas dos primitivos italianos, pelos quais sentia na época forte atração. Vendo os quadros de temática religiosa de Cimabue, Duccio e seus contemporâneos, eu me perguntava até que ponto eles eram acessíveis aos turistas orientais. Eu mesmo – embora criado em um ambiente cultural católico e ocidental – ia ao museu, frequentemente, com meu exemplar do Dictionary of Subjects and Symbols in Art, de James Hall, debaixo do braço, para ler sobre conceitos misteriosos como a Transfiguração, bem menos claros para mim do que para pintores italianos do século XIII.

Hoje, quando visito exposições ou coleções de arte oriental ou arte islâmica, tenho consciência de só estar captando parte da mensagem ou mesmo da beleza de cada obra. De museu em museu, porém, o grau de conhecimento – ou ao menos de curiosidade – vai aumentando. Com toda manifestação artística é assim: quanto mais se vê, mais se aprende e mais se quer saber.

As duas jarras abaixo, por exemplo, não criam questionamentos. São belíssimas em sua simplicidade, oriundas do Iraque e feitas no século VIII ou no século IX. Podem ser admiradas sem indagações filosóficas.

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Outros objetos, embora mais elaborados, podem, como os jarros, ser admirados apenas pela sua beleza, como o galo de bronze abaixo, folheado a ouro, espanhol, dos séculos X ou XI,  que provém de uma fonte:

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O falcão abaixo, indiano do século XVII, é uma das peças famosas do museu, por causa de seu luxo absurdo: é feito de ouro, esmalte, rubis, esmeraldas, diamantes, safiras e ônix. Trata-se de uma jóia, que provocará cobiça em alguns, mas certamente não dúvidas existenciais. Vê-lo em Doha faz algum sentido, por causa da obsessão no Catar com os falcões, transformados em animais domésticos e símbolos de status. Há toda uma ala do souq, em Doha, voltada à venda de falcões, que possuem lá mesmo o seu próprio hospital.

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Há mais poesia nesta cabeça de uma estátua iraniana do século XII:

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O  azulejo abaixo coloca algum grau de questionamento. É turco ou sírio, do século XVI. Fiquei intrigado com o tom de azul, que a foto não reproduz corretamente. Também surpreendentes são os desenhos. Quão usual é esse modelo? Simboliza algo ou é apenas  tirado da imaginação individual do artista?

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Com os manuscritos, a impenetrabilidade aumenta. Abaixo, vejam uma página do livro As Maravilhas da Criação e Curiosidades da Existência, escrito no século XIII, conhecido como a Cosmografia de Qazwini, do nome de seu autor. O MIA se orgulha de possuir o que é, provavelmente, o exemplar mais antigo ainda disponível (quatro páginas estavam expostas). A Biblioteca Digital Mundial informa ser esse “um dos livros mais conhecidos do mundo islâmico”. Coloquei um  filtro na foto, para tornar mais nítidos os detalhes da aquarela:

A pintura abaixo, ostensivamente, não apresenta mistérios. Seu título é O Mestre em Luta Livre Desafiado pelo seu Discípulo, o artista é Mahmud Muzahhib, de Bukhara, no Uzbequistão, e a obra é datada de 1560-1561. A plaquinha do museu nada mais diz a não ser que os materiais utilizados são tinta, aquarela e ouro em papel.

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Tentei vários filtros, nenhum torna os rostos mais nítidos, mas está claro que o vencedor foi o Mestre. O homem sendo levantado ao ar é mais jovem do que o outro. O Mestre foi desafiado por um discípulo e venceu.

Uma parábola sobre a arrogância da juventude e a sabedoria dos mais velhos? Certamente. Uma pesquisa na Internet, porém, revelou mais detalhes. A pintura foi leiloada em 4 de outubro de 2012 (quando, suponho, o MIA a comprou) pela Christie´s de Londres e o catálogo com informações sobre a obra ainda está na sua página eletrônica. A estimativa de preço era entre 100.000 e 150.000 libras esterlinas; a pintura foi vendida por 181.250 libras. Informa a Christie´s: “This miniature illustrates one of the best known stories from the Gulistan of Sa’di, (bab 1 hikayat 27)”. O Golestan (“Jardim de Rosas“), escrito por Sadi no século XIII, é talvez o livro em prosa mais importante da literatura persa. Em abril, em Teerã, eu visitei o Palácio de Golestan e fiquei me perguntando se o nome do Palácio é uma referência não só aos seus jardins, mas também ao livro.

Continuemos com a transcrição que o catálogo da Christie´s faz do conto sobre o mestre em luta livre no Golestan (resumo a estória): um grande mestre em luta livre conhecia 360 truques, dos quais ensinou 359 ao seu discípulo predileto, por quem tinha “uma particular afeição”. Graças ao aprendizado com seu mestre, o aluno tornou-se altamente hábil em luta livre, a ponto de declarar-se tão capaz quanto ele. O rei, chocado com a pretensão do discípulo, ordenou que eles disputassem uma luta, que o mestre venceu graças ao único truque que não ensinara. O aluno declarou-se injustiçado, por não ter recebido esse ensinamento do mestre, ao que este retrucou que fizera bem em não compartilhar todo o seu conhecimento, citando a seguir um poema: “Ou a fidelidade não existe neste mundo ou ninguém a pratica mais, pois todos aqueles a quem ensinei tiro com arco e flecha, em algum momento me tomaram como alvo”.

Sobre a pintura abaixo, indiana de 1595 e intitulada Um Poeta Sendo Descartado por um Príncipe (‘spurned’, na versão em inglês da placa no museu; o verbo pode ser traduzido também como ‘desprezado’ ou ‘rejeitado’), nada encontrei na Internet, e a mensagem subjacente à cena é obscura: a frieza dos poderosos frente às artes, a inocência sendo derrotada pelas artimanhas do poder ou uma estória de amor mal-sucedida? Devemos supor que um destino não muito bom espera a eloquente figura humana sendo retirada do cenário no canto inferior direito, mas o quê: a morte, a miséria, o exílio, penas de amor? A escrita na pintura deve elucidar tudo isso, e esta é a ilustração de algum conto ou poema conhecido no mundo islâmico, contido na coletânea (diwan) de poesia de Amir Shahi, mas para mim permanece o mistério.

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Prefiro terminar este passeio pelas coleções do MIA com uma pintura indiana do século XVI que apresenta uma visão mais serena da vida, sem conflitos ou rivalidades:

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A cena representa dois músicos sentados baixo uma árvore florida. Esperemos que pertencessem a uma corte ilustrada, onde houvesse espaço para que vários músicos  fossem valorizados e pudessem mostrar seu talento, sem intrigas ou competições.

Ao sair do museu, ao anoitecer, vi a seguinte imagem, tão serena quanto a dos músicos, embora povoada de vida; e com ela encerro:

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Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo

Aos 20 anos de idade, eu venerava Beethoven. Podia satisfazer plenamente essa adoração, graças às salas de concerto em Londres, onde fazia minha graduação. Beethoven me dava, naquela época, a impressão de ser um amigo muito próximo. Em todas as vezes em que estive em Viena, nunca deixei de ir ver, ao menos de fora, a Casa Pasqualati, no Mölker Bastei, onde ele morou. Fiz peregrinação ao seu túmulo no Cemitério Central. Jantei na taverna instalada na casa onde ele morou em Heiligenstadt, Mayer am Pfarrplatz. Pensei mesmo em comprar um de seus pequenos bustos de gesso, facilmente encontráveis em Viena.

Há no romance de Henry James The Portrait of a Lady uma cena em que a música tem um papel fundamental. A protagonista, Isabel Archer, na casa de campo senhorial dos tios, onde mora, ouve o piano, e descobre que está sendo tocado por Madame Merle, uma amiga da tia, de passagem. Na edição original do livro, de 1881, é Beethoven que Madame Merle toca. Na edição revista por James, em 1908, o compositor passa a ser Schubert. Isabel, ao conhecer Madame Merle, vê apenas sua sensibilidade musical (“That’s very beautiful, and your playing makes it more beautiful still”), dá a ela sua amizade e não desconfia que sua vida será por isso negativamente afetada. O tio está doente – logo morrerá – mas Isabel garante a Madame Merle que “to hear such lovely music as that” fará com que ele se sinta melhor. Madame Merle retruca então com uma frase marcante, que me impressionou quando a li pela primeira vez aos 22, 23 anos: “I’m afraid there are moments in life when even Beethoven has nothing to say to us”.

Na fiel adaptação de The Portrait of a Lady para o cinema realizada por Jane Campion em 1996, essa frase (a diretora preferiu a versão onde Schubert é o compositor mencionado) ganha muita força, pela forma como Barbara Hershey, no papel de Madame Merle, a diz a Nicole Kidman, em uma de suas interpretações mais convincentes como Isabel Archer. A expressão facial de Barbara Hershey revela todas as decepções na vida de sua personagem.

Acontece que há uma peça de Beethoven que sempre tem algo a me dizer, nos bons momentos como nos menos bons. É o Concerto para piano nº 4. Se Beethoven é um amigo, esse Concerto é o seu melhor presente; trata-se de um dos monumentos da inteligência humana. Que um indivíduo tenha sido capaz de compor esse Concerto redime as falhas da nossa espécie.

Acontece também que nem todos os meus amigos nasceram em 1770 e morreram em 1827. Vários são da minha geração, estão bem vivos e posso vê-los em carne e osso. Há algumas semanas, uma amiga paulista me perguntou se eu poderia passar com ela seu aniversário. Quando um amigo de adolescência, com quem nunca houve afastamento ou rusga ao longo dos anos e com quem temos relação mútua de aceitação incondicional, pede para nos ver em seu aniversário, a única reação possível é ser grato por essa amizade e responder positivamente.

E é por essa razão que minha mulher e eu embarcamos rumo a São Paulo, para o fim de semana de 8 e 9 de outubro.

Ao planejar nossos dias em São Paulo, pensei, além  da aniversariante, na Bienal de Arte e na exposição sobre Calder e sua influência sobre artistas brasileiros, no Itaú Cultural. Outros amigos, que eu não via há muito tempo, estariam na cidade. Julguei estar atingindo o grau mais elevado de felicidade; tudo parecia perfeito. Estava equivocado. Ingrediente adicional estava à minha espera: li no jornal que Paul Lewis iria tocar, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, no sábado, o Concerto nº 1 e o Concerto nº 4 de Beethoven.

Quando fui comprar os ingressos pela Internet, só havia lugares no Coro, mas pude conseguir dois na primeira fila e do “lado certo” para ver as mãos do pianista tocando.  Sentar no Coro acabou sendo uma experiência por si. Pode-se ver melhor, além do rosto e dos movimentos do regente (no caso, uma regente, Marin Alsop), como os músicos lidam com seus instrumentos. Mais tarde, amigos comentariam haver o entendimento de que o som chega de forma diferente – menos satisfatória – aos  espectadores sentados no Coro. Pode ser, mas para nós não pareceu: estar ali era já um privilégio.

Vejam esta foto: na magnífica Sala São Paulo, sentados no Coro, esperando para ouvir Beethoven.

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Paul Lewis estudou com Alfred Brendel, que foi o pianista que primeiro ouvi tocar o Concerto nº 4, em Londres. No ano seguinte, ouvi Maurício Pollini e aparentemente   gostei mais ainda, segundo anotações que fiz no programa, guardado até hoje. Era porém Claudio Abbado quem regia a London Symphony Orchestra e eu idolatrava Abbado, então sua presença no palco pode ter influenciado minha análise. Registrei no programa que o último movimento provocava em mim (como ainda provoca) sensação de “libertação”, após as tensões musicais do segundo movimento, que eu considerava, aos 20 anos, aptas a despertar “ansiedade” – Beethoven brinca constantemente, nesse movimento, com a expectativa do ouvinte – e que Liszt equiparava a “Orfeu domando as Fúrias”. Todas as tensões são resolvidas, ao final, e fica um sentimento de harmonia triunfante, como se o Concerto fosse uma parábola das misérias humanas sendo superadas, após lutas internas.

Voltando ao dia 8 de outubro: todos, naquela tarde de sábado, fizeram jus à sua reputação: a  Sala São Paulo, que há muito tempo eu tinha vontade de conhecer (vou pouco a São Paulo, infelizmente), Marin Alsop, Paul Lewis e a OSESP. Lewis revelou sons, nos dois Concertos, de que eu nem suspeitava ou que eu tinha esquecido. Beethoven uma vez  mais efetuou a sua magia e tirou de todos, intérpretes e ouvintes, o que de melhor tinham a   oferecer. Uma tarde que dificilmente esquecerei.

Abaixo, Lewis, de azul, e Alsop, à direita, com a mão erguida, e a OSESP, todos recebendo uma ovação bem merecida.

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E minha amiga aniversariante? No dia seguinte, depois de uma visita à Bienal, almoçamos com ela e sua família, de que sempre me senti parte, no restaurante Canto Madalena,  em Vila Madalena, ouvindo choro ao vivo. A feijoada, a caipirinha de caju e a música estavam excelentes, a companhia mais ainda. Passamos a tarde com eles, até a hora de ir para o aeroporto, com passagem pelo Beco do Batman, ali perto do restaurante.

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São Paulo, Jardins, Livraria da Vila, Itaú Cultural e sua Brasiliana, Calder, Beethoven na Sala São Paulo, Bienal, Canto Madalena, feijoada e choro, Beco do Batman, amigos diversos em diferentes momentos…

Haverá felicidade maior? Não creio… fazendo abstração, claro, da Minha vista no Rio de Janeiro.

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Woody Allen e a ArtRio 2016: o que eles têm em comum

Um princípio que adoto neste blog é só tratar de livros, filmes, exposições e artistas de que gosto. Por exemplo, todo ano fico na expectativa de assistir ao novo Woody Allen. Pode ocorrer de eu ficar decepcionado, como aconteceu com Café Society. Vale a pena eu analisar o filme? Não creio. É mais útil pensar no que há de satisfatório ao meu redor… e torcer para que o Woody Allen de 2017 seja melhor.

Da mesma forma, com a ArtRio. Espera-se a nova edição com curiosidade  e é triste quando a visita agrada menos do que a anterior, como aconteceu comigo este ano. Havia, como sempre, muito Pancetti, muito Di Cavalcanti, muito Cruz-Díez, um ar de pouca novidade. Poucos artistas novos estimulantes e menos galerias estrangeiras.

Há porém outro princípio que adoto, não no Blog, mas na vida, que é o de tentar encontrar mérito mesmo nas experiências intelectuais e artísticas mais frustrantes. Discorrer sobre as razões pelas quais Café Society é um filme decepcionante seria pouco proveitoso. Mais vantajoso é eu apontar o que despertou minha atenção de maneira positiva.

Primeiro, a fotografia cálida de Vittorio Storaro, muito comentada em críticas no mundo inteiro mas não apreciada com unanimidade, como demonstra o artigo de Richard Lawson na revista Vanity Fair, que a descreveu como sendo  “cheap-looking period gloss […] oddly lush and intricate and garish for an Allen movie”. Pessoalmente, gostei, e sobretudo dos tons alaranjados dos trechos passados em Hollywood.

Em segundo lugar, fiquei impressionado com a última cena, a mais filosófica do filme. O apreço de Woody Allen pela literatura russa, incluindo Tchekhov,  é conhecido. O final de Café Society me comoveu, ao me lembrar o conto A Dama do Cachorrinho, que Tchekhov conclui – como Allen termina seu filme – deixando incerteza no ar. No conto como no longa-metragem, sabemos que os dois personagens se amam mas vivem em cidades diferentes e são casados com outras pessoas, e percebem não haver solução fácil para seu dilema.

Este ano tem sido fértil em filmes sobre a solidão, como As Montanhas se Separam, de Jia Zhangke, e Julieta, de Almodóvar. Anton Tchekhov e Woody Allen nos falam de uma forma de solidão bem específica: a de pessoas que não vivem sós mas são atormentadas porque não podem estar perto da pessoa amada. Ver na última cena do filme de Allen essa alusão, que me pareceu transparente, ao meu conto predileto de Tchekhov foi uma surpresa e redimiu, para mim, as fraquezas do roteiro e de algumas interpretações e o enredo pouco interessante.

Talvez por causa do impacto que me causou o filme de Zhangke Jia, minha obra preferida na ArtRio foi esta foto de Isaac Julien, No Moon Shining, extraída de seu filme-instalação  Ten Thousand Waves (onde uma das atrizes, aliás, é Zhao Tao, estrela de As Montanhas se Separam), apresentada pela  Galeria Nara Roesler:

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Vejam abaixo este detalhe:

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É tanta beleza, tanta serenidade, que a questão da solidão não se coloca; devemos supor que a figura humana na foto sente contentamento em estar viva e participar desse cenário.

Gostei também desta natureza-morta de Albano Afonso, apresentada pela galeria ˜Casa Triângulo, que mistura de forma natural o tradicional e o moderno:

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Mais até do que do carregador de celular, gostei do detalhe da entrada de teatro no canto esquerdo.

Senti-me feliz diante desta fotografia de Flávia Junqueira, apresentada pela Zipper Galeria:

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O espaço vazio ocupado por uma alegria pura não deixa de ser uma parábola sobre a melhor forma de lidar com a solidão.

O atrativo maior na ArtRio 2016, porém, foi o entusiasmo do público… no sábado 1º de outubro, apesar do mau tempo, os pavilhões estavam cheios. As pessoas pareciam interessadas e animadas. Era estimulante estar no meio da multidão, nos corredores. E, como no caso da sessão em que eu assistira Café Society, algumas semanas antes, saí do Pier Mauá pensando que a experiência de ir à ArtRio não fora totalmente satisfatória, mas que perdê-la teria  sido uma pena.

Estou pensando em como finalizar este texto, quando leio artigo perspicaz de Adrian Searle, no The Guardian de hoje, sobre a Frieze Art Fair, que está começando em Londres, e caio sobre esta frase: “Art fairs are always like this, the art reduced to the status of stage-prop”. O título do artigo de Searle é: “Everyone’s a performer in the boozy, fruity house of fun”. Ao apontar os ridículos da Frieze, Adrian Searle não deixa de transmitir o ambiente eletrizante na abertura da feira.

E é isto, talvez, o que tenha faltado à ArtRio 2016: mais auto-derisão. Quem sabe, o personagem abaixo, que fotografei discretamente, não tenha sido quem melhor entendeu o espírito que deveria prevalecer na feira de arte? Termino me perguntando se o blog  The Sartorialist aprovaria esta foto…

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Paris – Moscou – Paris

“The Shchukin collection includes 37 paintings by Matisse – a number surpassed only by his 50 Picassos”. Não sei se a frase, extraída de um artigo do Financial Times de 19 de agosto, assinado por Kathrin Hille, surpreende mais pelos números citados ou pela simplicidade com que os fornece. O artigo, excelente, comenta a abertura na Fondation Louis Vuitton, em 22 de outubro, da exposição Icônes de l’Art Moderne, la Collection Chtchoukine.  

Aqui, faço uma pausa e medito. Um amigo fraternal perguntou-me recentemente se quando começo uma postagem neste Blog sei já o caminho  a seguir e como o terminarei. Respondi com firmeza que sim. Este texto, porém, abre várias possíveis trilhas,  igualmente sedutoras… penso na Fondation Louis Vuitton, penso em Moscou, penso no Museu Pushkin, penso em Matisse… Ponhamos ordem nisso tudo.

Antes de mais nada, meus dois leitores precisam saber que, durante muitos anos, frequentei Moscou com regularidade, primeiro por razões pessoais, depois por razões  profissionais. Lá estive pela última vez em 2011, mas espero voltar em outras ocasiões no futuro. Há em Moscou cinco lugares onde me sinto perfeitamente à vontade: a casa de Tolstoi, o Teatro Bolshoi, o Café Pushkin, a Ópera Helikon e o Museu Pushkin. Nem o Café (na realidade, um excelente restaurante) nem o Museu Pushkin possuem vínculo direto com o poeta; foram assim nomeados para homenageá-lo.

Em 2011, eu dava meus primeiros passos como fotógrafo bem amador. Não possuía ainda a obsessão do registro no celular. Tirei porém esta foto do Café Pushkin, de má qualidade mas que dá certa ideia da atmosfera do restaurante:

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O Museu Pushkin é o principal museu de arte ocidental em Moscou. Uma coleção espetacular. Quando penso no museu, contudo, eu o associo sempre aos quadros de Matisse.

Havia, na Rússia do começo do século XX, dois grandes colecionadores de artistas franceses, impressionistas e pós-impressionistas: Serguei Shushkin e Ivan Morozov, ambos homens de negócios muito ricos. Esse foi o momento – breve, já que a Revolução de Outubro de 1917 logo viria – na história da Rússia imperial em que a alta burguesia ganhava poder e prestígio, em que a nobreza já não era a única fonte de influência política e cultural. Sobre a atividade de Shushkin e Morozov como colecionadores, uma boa fonte é este livro, que dei de presente à minha mãe há muitos anos:

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As coleções de Shushkin (caberia aqui especular sobre a melhor transliteração de seu nome… cada língua usa uma e esta em português é minha invenção) e Morozov foram montadas até o começo da Primeira Guerra Mundial. Depois da Revolução de Outubro de 1917, ambas foram desapropriadas e divididas entre o Museu Pushkin, em Moscou, e o Hermitage, em São Petersburgo. A São Petersburgo e ao Hermitage, fui apenas um vez, há vinte anos e, por isso, não tenho com a cidade e o museu a relação afetiva que tenho com Moscou e o Pushkin.

O livro de Beverley Whitney Kean apresenta, em apêndices, a lista das obras de arte   pertencentes a Shiushkin e Morozov. O primeiro possuía 43 obras de Matisse, das quais 36 telas. Quão feliz pode ser alguém que possui 43 obras de Matisse em casa? Muito feliz, pelos meus critérios. Morozov possuía 11, o que já daria para incrementar o grau de felicidade de qualquer ser humano. Meus olhos acabam de cair, por acaso, na informação de que havia na coleção Morozov 18 telas de Cézanne. Shushkin possuía 8 Cézannes e pendurava todos seus 16 Gauguins  na sala de jantar. É de sonhar, realmente.

Pelos meus cálculos, examinando os apêndices do livro de Kean, o Museu Pushkin ficou com 19 obras de Matisse na partilha das coleções Shushkin e Morozov com o Hermitage. Como todas chegaram à Rússia antes da Primeira Guerra Mundial, a coleção de Matisses do Museu Pushkin cobre a fundo um período relativamente curto de sua produção. Há no museu uma tela de 1896 e outra de 1900; ambas pertenceram a Morozov. Todas  as outras obras de Matisse no Pushkin são do período de 1902 a 1913.

Os dois colecionadores iam a Paris com frequência e conheciam Matisse pessoalmente. Foi a convite de Shushkin que o artista visitou a Rússia em 1911. Matisse, mais tarde, mencionaria o impacto que os ícones russos tiveram sobre ele. Todas as fontes que consultei (além do livro de Kean, pesquisei em  James H. Billington – The Icon and the Axe, an Interpretative History of Russian Culture -, em Suzanne Massie – Land of the Firebird, the Beauty of Old Russi-, em Oleg Neverov – Great Private Collections of Imperial Russia – e em monografias e biografias de Matisse, um dos artistas que mais admiro) mencionam que, graças às coleções Shushkin e Morozov, em 1911 Matisse era já  apreciado no meio cultural russo. As duas coleções eram abertas ao público e há registro de que Shushkin, aos domingos, gostava de acompanhar ele mesmo os visitantes. As duas coleções, ao mostrar em Moscou o que havia de mais avant-garde em Paris, influenciaram a arte russa. Malevich era um dos admiradores dessas obras e é estranho pensar que Matisse, o inovador no uso de cores vibrantes, contribuiu, entre outros, para formar a concepção artística do artista que, em 1915, apresentaria ao público a tela abstrata Quadrado Negro sobre Fundo Branco, onde apenas essa duas cores aparecem.

Nunca, em minhas visitas a Moscou, deixei de ir ao Pushkin, aonde vou especificamente para ver os Matisses. Passei frente a eles momentos de contemplação, em que a vida se tornava mais instigante, mais intensa. Saía do museu certo de que a felicidade é algo concreto.

Não tenho fotos dos quadros no meu celular. Fotografei, isto sim, a vista desde o pórtico de entrada do museu:

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A iminência da abertura da exposição da coleção Shushkin na Fondation Louis Vuitton está deixando o mundo da arte empolgado. Virão 130 obras do Hermitage e do Pushkin,  recriando parte da coleção em um só local.

Estive na Fundação em 2015, para visitar a exposição Les Clefs d’une passion, onde foram reunidas dezenas de obras-primas da arte do século XX. Um dos pontos mais altos da exposição foi o quadro La Danse, de Matisse, emprestado pelo Hermitage e que pertenceu a Shushkin, que o encomendara ao artista.

Montar uma exposição especificamente sobre a coleção Shushkin segue padrão recente, de examinar o gosto de determinados colecionadores. Em 2015, a National Gallery de Londres montou uma mostra reveladora e importante, Inventing Impressionism, que tive a sorte de visitar, sobre a atividade de Paul Durand-Ruel como marchand. Em 2011, a exposição Matisse, Cézanne, Picasso… L’Aventure des Stein, no Grand Palais, celebrou a atividade de Gertrude Stein, seus dois irmãos e sua cunhada – todos, aliás, amigos de Shushkin – sobre o meio artístico parisiense. Misturada com obras de outras origens, tanto no Pushkin quanto no Hermitage, a coleção Shushkin aparece fragmentada. Na Fundação, seu espírito visionário e corajoso ficará valorizado.

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O Triunfo da Cor

Quando éramos crianças, meus irmãos e eu tínhamos uma coleção de quebra-cabeças. Desconfio que montá-los era uma atividade idealizada por minha mãe, que trabalhava muito e via nisso uma maneira de conseguir nos unir ao seu redor. Ficávamos os quatro – ela, seus dois filhos e sua filha – em volta da mesa, na casa em Rhode-St-Genèse, procurando e colocando peças.

A maioria dos quebra-cabeças era de reproduções de quadros famosos, o que foi uma forma lúdica de despertar em nós o amor à arte. Lembro-me particularmente de dois: Le Sacre de Napoléon, de David, e Les Roulottes, de Van Gogh.

É provável que a Coroação de Napoleão tenha sido escolha minha, porque desde sempre o destino desse homem me surpreendeu e sigo tentando entender suas motivações, como prova uma recente compra na Livraria Berinjela. O quadro de David faz parte da minha vida desde meus 7 ou 8 anos, quando o vi pela primeira vez no Louvre e, pouco depois, terei feito minha mãe comprar o quebra-cabeças. Fui, por isso, bastante receptivo à cena em Francofonia, de Alexander Sokurov, em que o fantasma de Napoleão, dentro do Louvre, olhando para o quadro de sua própria coroação, esse mesmo de David, exclama: “Quanta beleza!”. Um bom exemplo, em vários níveis, de como a História inspira a Arte, mas de como também a Arte serve para a apreensão da História, pois a tela gigantesca de David contribui hoje para perpetuar o mito napoleônico; e o filme de Sokurov, por sua vez, ajuda a nos fazer pensar sobre essa correlação.

Montar As Caravanas de Van Gogh foi outra experiência inesquecível. Por isso, conheço cada detalhe do quadro. Tenho uma clara recordação da satisfação em colocar as peças para formar a figura do menino, no lado direito. Ao longo dos anos, pude ver a tela sem a intermediação do quebra-cabeças, no Musée d’Orsay. Imaginarão, por isso, meus dois únicos leitores, o choque, a surpresa que senti ao rever Les Roulottes, de maneira inesperada, no canto de uma sala na magnífica exposição  O Triunfo da Cor, os pós-impressionistas, no CCBB do Rio de Janeiro. Não sabia que o quadro estava na exposição.

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Que deslumbramento revê-lo, sem aviso prévio, como se tivesse esbarrado em um velho amigo em um lugar inesperado do mundo.

Fui ao CCBB, aliás, imbuído de ceticismo, em parte para agradar minha mãe, que queria minha companhia. Estava convencido de que a exposição seria insatisfatória, talvez pela própria publicidade em torno a ela, alardeando “75 obras de 32 artistas”… a pouco mais de duas obras por artista, em média, a coisa não parecia séria. Como entender um artista vendo apenas duas obras?

Entrei cético, mas saí maravilhado. A qualidade das obras é quase sempre extraordinária, a curadoria impecável e o accrochage muito sedutor. Os principais artistas estão representados por bem mais do que duas obras, à exceção (lastimável para mim) de Matisse, com um quadro apenas. É permitido fotografar, mas só tirei as duas fotos nesta postagem, preferindo me concentrar nas obras sem a intermediação da câmera do celular, o que agora lamento. Da mesma forma, cometi o erro de não comprar o catálogo. Tentei depois encontrá-lo em várias livrarias de Brasília, sem sucesso.

Aprende-se muito na exposição. Visitá-la é uma grande experiência sensorial e intelectual. Ela confirma minha experiência pessoal, de que mesmo obras de arte que conhecemos bem, se vistas em contexto diferente, nos dizem algo novo. Talvez seu atrativo maior, para mim, tenha sido a quantidade de telas do Vuillard à mostra. Esse pintor, de minha particular predileção, é um dos mais bem representados na exposição. Fiquei seduzido por este quadro:

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Na página do Musée d’Orsay, na lista de obras de Vuillard na coleção, o quadro aparece como tendo o título Tristan Bernard, conférencier. Na exposição, a placa ao lado da obra   explica um pouco mais, e não a fotografei, sendo esse o terceiro arrependimento em relação à minha ida ao CCBB.

Uma amiga, que vive rodeada de peças marcantes de arte e mobiliário brasileiros contemporâneos e visitou a exposição alguns dias depois de mim, me escreveu lá de dentro: “Ary, nem terminei a expo e estou quase em lágrimas”. A montagem bem-sucedida de uma exposição é assim: cria uma entidade própria, ainda que temporária, forte pela soma de seus componentes e capaz de nos dizer algo, talvez até sobre nós mesmos.

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Tracey Emin e eu

Em 1998, a artista britânica Tracey Emin criou uma obra de arte intitulada  My Bed, que era sua própria cama desfeita, os lençóis sujos, rodeada de objetos que normalmente ninguém mostra aos visitantes, inclusive preservativos. A artista estava em depressão na época.

 

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Tive a sorte de ver My Bed na retrospectiva consagrada a Tracey Emin em 2011, na Hayward Gallery, no South Bank, em Londres. Foi uma bela exposição e me arrependo de não ter comprado o catálogo. My Bed pertencia então a Charles Saatchi, que a vendeu em 2014 a um colecionador alemão. Está emprestada, por dez anos,  ao museu Tate Britain.

Procurando imagens da peça para reproduzi-la aqui, confirmei a dificuldade em remontá-la tal qual a cada exposição. As meias de nylon, particularmente, mudam constantemente de lugar sobre a cama. No meio de tanto detrito ao pé da cama, acho comoventes as presenças do cachorrinho branco de pelúcia e das pantufas.

A pergunta sobre se essa peça é uma obra de arte me pareceria perfeitamente absurda, pois não pode haver dúvida a respeito. Ao mostrar, de uma forma nova, inovadora, a realidade – a sua realidade – , Tracey Emin criou uma obra de arte (inclusive bela, a meu ver, mas o conceito de belo já não é necessário para definir uma obra de arte) e usou a arte para afugentar seus fantasmas.

Seria inconcebível para mim – e nem minha mulher deixaria –  viver nesse estado de bagunça.

E nem me ocorreria publicar fotos da minha cama. Achei, porém, que poderia mostrar minha mesa de cabeceira, para mim um universo tão importante (ainda que bem mais arrumado) quanto é sua cama para Tracey Emin.

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A foto no porta-retratos representa minha filha. O ocapi remete à minha infância, quando eu era fascinado com esse animal e sempre o procurava em zoológicos. Tinha um desses, como na foto, que se perdeu. Na idade adulta, comprei um novo, que desde então fica na minha mesa de cabeceira.

Passemos aos livros.

Na pilha da esquerda, de baixo para cima, estão:

  • O catálogo, presente de Beatriz Paredes, da espetacular exposição sobre os maias realizada em São Paulo, em 2014, que visitei.
  • Quatro dos livros que ganhei de presente de aniversário este ano: a edição fac-similar do Alguma Poesia do Carlos Drummond de Andrade, editada pelo Instituto Moreira Salles, que recebi de um casal de amigos (ela é minha amiga restauradora de livros, ele um dos meus amigos  mais antigos); o catálogo da exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (que visitei), presente de Cora Rónai; o livro de fotografias RioMarLisboaRio, presente de Carlos Leal; e  o livro Rio, Casas e Prédios Antigos (esse, não me lembro quem me deu).

Vejamos em detalhe a pilha da direita:

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De baixo para cima:

  • Mais um volume de Fernando Pessoa, comprado na Livraria da Travessa de Ipanema este ano.
  • As obras completas de Vauvenargues, um moralista que tem me interessado mais do que La Rochefoucauld. Tenho esse livro há anos e venho lendo trechos ocasionalmente.
  • Le Royaume, de Emmanuel Carrère, comprado em Paris em 2015, não lido ainda.
  • Dentro do envelope: uma peça do Gorki, na versão apresentada na Comédie-Française em 2015, quando a vi. Comprei a peça na livraria da Comédie-Française, para poder passar os olhos no texto antes da representação.
  • Love, Hate and Reparation, obra das psicanalistas Joan Riviere e Melanie Klein que já li algumas vezes. Ao longo dos anos, dei exemplares desse livro a vários amigos. Não sei por que está na mesa de cabeceira.
  • The Consolations of Philosophy, por Alain de Botton, onde venho gostando de fuçar de vez em quando.
  • Mudança, de Mo Yan, outro presente de Cora Rónai deste ano, não lido ainda. Desse autor, tenho e li uma tradução para o francês de O mapa do tesouro.
  • La raison des sortilèges, por Michel Onfray, um filósofo – no sentido francês da palavra – que já li muito, mas cuja prolixidade não tenho conseguido acompanhar. Ganhei o livro há poucos meses de um amigo  que nem sabia de meu antigo interesse por Onfray.
  • Uma seleção, em formato pequeno, fácil de levar em viagens, das cartas de Voltaire, sempre um consolo.
  • A agenda que (quase nunca) uso, a da Pléiade.

Embora arrumada, minha mesa de cabeceira se parece com a cama de Tracey Emin pela seguinte razão: não saberia dizer por que muitos desses livros estão sobre ela. Estou lendo livros no momento que não estão em nenhuma das duas pilhas. Outros livros comprados ou ganhos recentemente estão sobre outros móveis no quarto. Tudo isso é parte do mistério inerente a uma casa cheia de livros.

 

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