Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo

Aos 20 anos de idade, eu venerava Beethoven. Podia satisfazer plenamente essa adoração, graças às salas de concerto em Londres, onde fazia minha graduação. Beethoven me dava, naquela época, a impressão de ser um amigo muito próximo. Em todas as vezes em que estive em Viena, nunca deixei de ir ver, ao menos de fora, a Casa Pasqualati, no Mölker Bastei, onde ele morou. Fiz peregrinação ao seu túmulo no Cemitério Central. Jantei na taverna instalada na casa onde ele morou em Heiligenstadt, Mayer am Pfarrplatz. Pensei mesmo em comprar um de seus pequenos bustos de gesso, facilmente encontráveis em Viena.

Há no romance de Henry James The Portrait of a Lady uma cena em que a música tem um papel fundamental. A protagonista, Isabel Archer, na casa de campo senhorial dos tios, onde mora, ouve o piano, e descobre que está sendo tocado por Madame Merle, uma amiga da tia, de passagem. Na edição original do livro, de 1881, é Beethoven que Madame Merle toca. Na edição revista por James, em 1908, o compositor passa a ser Schubert. Isabel, ao conhecer Madame Merle, vê apenas sua sensibilidade musical (“That’s very beautiful, and your playing makes it more beautiful still”), dá a ela sua amizade e não desconfia que sua vida será por isso negativamente afetada. O tio está doente – logo morrerá – mas Isabel garante a Madame Merle que “to hear such lovely music as that” fará com que ele se sinta melhor. Madame Merle retruca então com uma frase marcante, que me impressionou quando a li pela primeira vez aos 22, 23 anos: “I’m afraid there are moments in life when even Beethoven has nothing to say to us”.

Na fiel adaptação de The Portrait of a Lady para o cinema realizada por Jane Campion em 1996, essa frase (a diretora preferiu a versão onde Schubert é o compositor mencionado) ganha muita força, pela forma como Barbara Hershey, no papel de Madame Merle, a diz a Nicole Kidman, em uma de suas interpretações mais convincentes como Isabel Archer. A expressão facial de Barbara Hershey revela todas as decepções na vida de sua personagem.

Acontece que há uma peça de Beethoven que sempre tem algo a me dizer, nos bons momentos como nos menos bons. É o Concerto para piano nº 4. Se Beethoven é um amigo, esse Concerto é o seu melhor presente; trata-se de um dos monumentos da inteligência humana. Que um indivíduo tenha sido capaz de compor esse Concerto redime as falhas da nossa espécie.

Acontece também que nem todos os meus amigos nasceram em 1770 e morreram em 1827. Vários são da minha geração, estão bem vivos e posso vê-los em carne e osso. Há algumas semanas, uma amiga paulista me perguntou se eu poderia passar com ela seu aniversário. Quando um amigo de adolescência, com quem nunca houve afastamento ou rusga ao longo dos anos e com quem temos relação mútua de aceitação incondicional, pede para nos ver em seu aniversário, a única reação possível é ser grato por essa amizade e responder positivamente.

E é por essa razão que minha mulher e eu embarcamos rumo a São Paulo, para o fim de semana de 8 e 9 de outubro.

Ao planejar nossos dias em São Paulo, pensei, além  da aniversariante, na Bienal de Arte e na exposição sobre Calder e sua influência sobre artistas brasileiros, no Itaú Cultural. Outros amigos, que eu não via há muito tempo, estariam na cidade. Julguei estar atingindo o grau mais elevado de felicidade; tudo parecia perfeito. Estava equivocado. Ingrediente adicional estava à minha espera: li no jornal que Paul Lewis iria tocar, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, no sábado, o Concerto nº 1 e o Concerto nº 4 de Beethoven.

Quando fui comprar os ingressos pela Internet, só havia lugares no Coro, mas pude conseguir dois na primeira fila e do “lado certo” para ver as mãos do pianista tocando.  Sentar no Coro acabou sendo uma experiência por si. Pode-se ver melhor, além do rosto e dos movimentos do regente (no caso, uma regente, Marin Alsop), como os músicos lidam com seus instrumentos. Mais tarde, amigos comentariam haver o entendimento de que o som chega de forma diferente – menos satisfatória – aos  espectadores sentados no Coro. Pode ser, mas para nós não pareceu: estar ali era já um privilégio.

Vejam esta foto: na magnífica Sala São Paulo, sentados no Coro, esperando para ouvir Beethoven.

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Paul Lewis estudou com Alfred Brendel, que foi o pianista que primeiro ouvi tocar o Concerto nº 4, em Londres. No ano seguinte, ouvi Maurício Pollini e aparentemente   gostei mais ainda, segundo anotações que fiz no programa, guardado até hoje. Era porém Claudio Abbado quem regia a London Symphony Orchestra e eu idolatrava Abbado, então sua presença no palco pode ter influenciado minha análise. Registrei no programa que o último movimento provocava em mim (como ainda provoca) sensação de “libertação”, após as tensões musicais do segundo movimento, que eu considerava, aos 20 anos, aptas a despertar “ansiedade” – Beethoven brinca constantemente, nesse movimento, com a expectativa do ouvinte – e que Liszt equiparava a “Orfeu domando as Fúrias”. Todas as tensões são resolvidas, ao final, e fica um sentimento de harmonia triunfante, como se o Concerto fosse uma parábola das misérias humanas sendo superadas, após lutas internas.

Voltando ao dia 8 de outubro: todos, naquela tarde de sábado, fizeram jus à sua reputação: a  Sala São Paulo, que há muito tempo eu tinha vontade de conhecer (vou pouco a São Paulo, infelizmente), Marin Alsop, Paul Lewis e a OSESP. Lewis revelou sons, nos dois Concertos, de que eu nem suspeitava ou que eu tinha esquecido. Beethoven uma vez  mais efetuou a sua magia e tirou de todos, intérpretes e ouvintes, o que de melhor tinham a   oferecer. Uma tarde que dificilmente esquecerei.

Abaixo, Lewis, de azul, e Alsop, à direita, com a mão erguida, e a OSESP, todos recebendo uma ovação bem merecida.

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E minha amiga aniversariante? No dia seguinte, depois de uma visita à Bienal, almoçamos com ela e sua família, de que sempre me senti parte, no restaurante Canto Madalena,  em Vila Madalena, ouvindo choro ao vivo. A feijoada, a caipirinha de caju e a música estavam excelentes, a companhia mais ainda. Passamos a tarde com eles, até a hora de ir para o aeroporto, com passagem pelo Beco do Batman, ali perto do restaurante.

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São Paulo, Jardins, Livraria da Vila, Itaú Cultural e sua Brasiliana, Calder, Beethoven na Sala São Paulo, Bienal, Canto Madalena, feijoada e choro, Beco do Batman, amigos diversos em diferentes momentos…

Haverá felicidade maior? Não creio… fazendo abstração, claro, da Minha vista no Rio de Janeiro.

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Tagore

Recebi, de um amigo que acaba de voltar de viagem à Índia, este presente:

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Gitanjali, em inglês, é a coleção de 103 poemas curtos que o próprio autor traduziu do bengali, incorporando obras de vários livros seus. No ano seguinte, em 1913, Tagore ganhou o Prêmio Nobel de Literatura graças a essa coletânea. O título, no Brasil, é traduzido como Oferenda Lírica. A edição que me deram traz a entusiasmada – e famosa – introdução de W. B. Yeats de 1912.

Outro futuro Prêmio Nobel de Literatura, André Gide, traduziu o livro para o francês, usando também o título L´Offrande lyrique. Sua apresentação à primeira edição dessa tradução, publicada em 1914, está incluída no volume da Bibliothèque de la Pléiade  dedicado aos seus ensaios e críticas literárias. Elogia Gide, em seu texto, o espírito sucinto da coletânea, se comparada a textos indianos como o Mahabharata e o Ramayana e a sua “animação apaixonada” (“ce qui m´emplit de larmes et de rire, c´est l´animation passionnée de cette poésie”). Menciona haver grande alegria nos versos, fruto do “sentimento da vida universal, do sentimento de participar dessa vida”. Uma frase me chama particularmente a atenção nessa apresentação de Gide, a idéia de que o poeta tem consciência de ser indispensável a Deus: “Tagore sait que Dieu a besoin de lui”. Pois, afirma Gide, é por meio de sua criatura que Deus toma consciência de si (“c´est en sa créature que Dieu prend conscience de soi”). A frase final da apresentação de Gide é, referindo-se aos últimos poemas de Gitanjali, que tratam da morte, um elogio à sua solenidade: “Je ne crois pas connaître, dans aucune littérature, accent plus solennel et plus beau”.

Há nos últimos poemas, de fato, grande aceitação do fim da vida. Porém, como os caracóis de Jacques Prévert em seu poema “Chanson des escargots qui vont à l´enterrement”, não gosto tanto de odes à morte. Descartam os caracóis de Prévert a tristeza provocada por caixões, com o belo verso: “Les histoires de cercueils, c´est triste et pas joli”.

Da coleção, preferi os poemas que mostram as incertezas do ser humano, mas ao mesmo tempo uma força interior, como os três abaixo:

 

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Tagore morreu poucas décadas antes do meu nascimento. Quando eu era criança, sua fama – como aliás a de Gide também – era ainda colossal. Lembro bem de ver fotos dele e sentir que aquele homem de longa barba branca, com um nome tão imponente, com uma aura de misticismo oriental, seria para sempre inacessível. Para mim, na infância e na adolescência, ele era uma figura mítica, de difícil compreensão, e preferi deixá-lo longe. Hoje, Gitanjali, como toda a obra de Tagore, já não é tão popular, a não ser em Bangladesh e na Índia.

De repente, este ano, ele entrou em minha vida, e eu o recebi de bom grado. Tenho encontrado beleza em sua obra. Há poucos meses, ganhei este disco:

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Tagore, além de escritor e poeta, era músico e também adotou a pintura como forma de expressão, no final da vida. O disco acima contém algumas das 2.000 canções para as quais ele compôs a letra – em bengali – e a música, criando um gênero musical próprio…Não entendo uma palavra, naturalmente, mas nem precisa…a melodia diz tudo. Minha faixa preferida é a de Shama Rahman cantando “Shokator-e oi kandichhe shokol-e”, que o disco traduz como: “Todos choram lamentavelmente”. Certamente, a música não me faz chorar, muito menos “lamentavelmente”; leva-me, isto sim, a aceitar a vida. Vejam este vídeo:

 

Quanto a meu amigo recém-chegado da Índia, e que me deu de presente Gitanjali, é um ex-aluno e, portanto, bem mais jovem do que eu. Aprendo sempre muito com meus alunos e ex-alunos e valorizo sua amizade. O viajante à Índia, ao vir me visitar para me dar o livro, comentou que, na véspera, pedira sua namorada em casamento. A cerimônia será em um ano. Fiquei feliz por ele e senti um sopro de ânimo ao meu redor. Como diz o poema 37, “…and where the old tracks are lost, new country is revealed with its wonders”.

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