Tracey Emin e eu

Em 1998, a artista britânica Tracey Emin criou uma obra de arte intitulada  My Bed, que era sua própria cama desfeita, os lençóis sujos, rodeada de objetos que normalmente ninguém mostra aos visitantes, inclusive preservativos. A artista estava em depressão na época.

 

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Tive a sorte de ver My Bed na retrospectiva consagrada a Tracey Emin em 2011, na Hayward Gallery, no South Bank, em Londres. Foi uma bela exposição e me arrependo de não ter comprado o catálogo. My Bed pertencia então a Charles Saatchi, que a vendeu em 2014 a um colecionador alemão. Está emprestada, por dez anos,  ao museu Tate Britain.

Procurando imagens da peça para reproduzi-la aqui, confirmei a dificuldade em remontá-la tal qual a cada exposição. As meias de nylon, particularmente, mudam constantemente de lugar sobre a cama. No meio de tanto detrito ao pé da cama, acho comoventes as presenças do cachorrinho branco de pelúcia e das pantufas.

A pergunta sobre se essa peça é uma obra de arte me pareceria perfeitamente absurda, pois não pode haver dúvida a respeito. Ao mostrar, de uma forma nova, inovadora, a realidade – a sua realidade – , Tracey Emin criou uma obra de arte (inclusive bela, a meu ver, mas o conceito de belo já não é necessário para definir uma obra de arte) e usou a arte para afugentar seus fantasmas.

Seria inconcebível para mim – e nem minha mulher deixaria –  viver nesse estado de bagunça.

E nem me ocorreria publicar fotos da minha cama. Achei, porém, que poderia mostrar minha mesa de cabeceira, para mim um universo tão importante (ainda que bem mais arrumado) quanto é sua cama para Tracey Emin.

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A foto no porta-retratos representa minha filha. O ocapi remete à minha infância, quando eu era fascinado com esse animal e sempre o procurava em zoológicos. Tinha um desses, como na foto, que se perdeu. Na idade adulta, comprei um novo, que desde então fica na minha mesa de cabeceira.

Passemos aos livros.

Na pilha da esquerda, de baixo para cima, estão:

  • O catálogo, presente de Beatriz Paredes, da espetacular exposição sobre os maias realizada em São Paulo, em 2014, que visitei.
  • Quatro dos livros que ganhei de presente de aniversário este ano: a edição fac-similar do Alguma Poesia do Carlos Drummond de Andrade, editada pelo Instituto Moreira Salles, que recebi de um casal de amigos (ela é minha amiga restauradora de livros, ele um dos meus amigos  mais antigos); o catálogo da exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (que visitei), presente de Cora Rónai; o livro de fotografias RioMarLisboaRio, presente de Carlos Leal; e  o livro Rio, Casas e Prédios Antigos (esse, não me lembro quem me deu).

Vejamos em detalhe a pilha da direita:

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De baixo para cima:

  • Mais um volume de Fernando Pessoa, comprado na Livraria da Travessa de Ipanema este ano.
  • As obras completas de Vauvenargues, um moralista que tem me interessado mais do que La Rochefoucauld. Tenho esse livro há anos e venho lendo trechos ocasionalmente.
  • Le Royaume, de Emmanuel Carrère, comprado em Paris em 2015, não lido ainda.
  • Dentro do envelope: uma peça do Gorki, na versão apresentada na Comédie-Française em 2015, quando a vi. Comprei a peça na livraria da Comédie-Française, para poder passar os olhos no texto antes da representação.
  • Love, Hate and Reparation, obra das psicanalistas Joan Riviere e Melanie Klein que já li algumas vezes. Ao longo dos anos, dei exemplares desse livro a vários amigos. Não sei por que está na mesa de cabeceira.
  • The Consolations of Philosophy, por Alain de Botton, onde venho gostando de fuçar de vez em quando.
  • Mudança, de Mo Yan, outro presente de Cora Rónai deste ano, não lido ainda. Desse autor, tenho e li uma tradução para o francês de O mapa do tesouro.
  • La raison des sortilèges, por Michel Onfray, um filósofo – no sentido francês da palavra – que já li muito, mas cuja prolixidade não tenho conseguido acompanhar. Ganhei o livro há poucos meses de um amigo  que nem sabia de meu antigo interesse por Onfray.
  • Uma seleção, em formato pequeno, fácil de levar em viagens, das cartas de Voltaire, sempre um consolo.
  • A agenda que (quase nunca) uso, a da Pléiade.

Embora arrumada, minha mesa de cabeceira se parece com a cama de Tracey Emin pela seguinte razão: não saberia dizer por que muitos desses livros estão sobre ela. Estou lendo livros no momento que não estão em nenhuma das duas pilhas. Outros livros comprados ou ganhos recentemente estão sobre outros móveis no quarto. Tudo isso é parte do mistério inerente a uma casa cheia de livros.

 

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O charme dos pensadores tristes 

Em seu livro iconoclasta, Le charme des penseurs tristes, o filósofo Frédéric Schiffter, no capítulo sobre Cioran, critica os volumes da Bibliothèque de la Pléiade. Segundo ele, o papel é fino demais e os livros acabam virando troféus para colocar na estante e nunca serem abertos. Afirma: “rien n’est moins plaisant que l’usage de ces bouquins“. Alegremente, comenta que seus volumes da Pléiade foram todos surrupiados quando era estudante (“quand je m’ adonnais à la pratique anarchiste de la reprise individuelle“; o estilo do autor é belíssimo). Lastima não o fato de ter roubado, já que afanava livros como forma de redistribuição de renda, mas de ter roubado volumes da Pléiade.

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Com alguma propriedade, Schiffter declara que os volumes não podem ser levados à praia, problema significativo para um autor e leitor residente, como ele, em Biarritz. Posso eu mesmo testemunhar que os livros da Pléiade não devem ser lidos na praia. Em dezembro, em Búzios, um dia levei o quarto  (e último) volume da segunda edição de À la recherche du temps perdu para a praia da Ferradura. Uma tempestade de areia destruiu meu exemplar.

Tirei uma foto enquanto via o livro ser estragado pela areia e a brisa marinha: 

Hoje, o volume está na seguinte condição:

Uma amiga restauradora de livros me informou que recuperar o volume não seria economicamente viável. Um amigo, também leitor de Proust, veio jantar conosco, há poucas semanas; mostrei o volume e ele gentilmente se ofereceu para me trazer novo exemplar de Paris. Sua mulher, porém, fez uma ponderação que me deu no que pensar. Ela disse: “Pensa um pouco se vale a pena jogar esse exemplar fora… esse estado dá a ele uma história”.

Posso entender seu argumento. Os livros da Pléiade, embora caros, não precisam ser tratados como tesouros intocáveis. São publicados para ser lidos. São tesouros, isto sim, de erudição.

A coleção, orgulho da editora Gallimard, vem sendo publicada desde a década de 30. O primeiro autor editado foi Baudelaire, em 1931. No início, o aparato crítico era simples. Hoje, ocupa parte considerável de cada volume. Alguns autores já foram editados mais de uma vez: de cabeça, lembro de Molière, Casanova, Racine, Saint-Simon, Balzac, Stendhal, Montaigne e Proust. Este último foi publicado pela Pléiade, a primeira vez, em 1954, em três volumes. O fato de a nova edição, publicada de 1987 a 1989, ser em quatro volumes dá uma ideia da evolução do aparato crítico. Foi na edição em três volumes, da biblioteca dos meus pais, que comecei a ler Proust, aos 11 anos.

Não conheço, em outra cultura, edições tão cuidadas e eruditas como as da Pléiade. As da Library of America não chegam nem perto.

A crítica de Schiffter, assim, parece excessiva.

Temos em casa mais de 100 volumes da coleção. Uns 110, talvez. Não posso dar um número preciso, porque alguns estão emprestados a meu amigo leitor de Morgenthau. Todos guardam marcas de terem sido lidos. Minha mulher e eu os lemos no jardim, ao sol; sempre viajamos com algum na mala, e eu não sinto compunção em deixar cair água, chocolate, frutas em algumas páginas. Certamente, não os tratamos como objetos valiosos, embora nenhum volume esteja em tão mau estado como o quarto volume de La Recherche. Ele aparece assim na estante:

Alguns exemplares foram comprados de segunda mão, com buquinistas à beira do Sena ou na Livraria Berinjela, no Rio. Em uma de minhas visitas este ano à livraria, encontrei o primeiro volume da edição de 1954 de La Recherche, aquela que conheço da biblioteca dos meus pais. Comprei o livro, que estava em bom estado, e dei-o de presente ao meu amigo leitor de Proust. Ele gostou.

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Em torno a um bilhete encontrado em um livro

Como comentei em texto anterior, em minha mais recente expedição à Livraria Berinjela comprei cinco livros franceses. Entre eles, os dois acima, sobre Proust.

Dentro do livro publicado por Lucien Daudet sobre 60 das cartas que recebeu de Proust, achei um “bilhete postal”, denominação aliás nova para mim. Reproduzo o bilhete nas fotos abaixo.

C. A. [Carlos Alfredo] Bernardes era um diplomata, também conhecido como Lolô Bernardes. Em 1949, pelo visto, estava lotado na Embaixada em Paris. Reproduzo o texto do cartão: “Querido, Receio que você não tenha recebido a minha carta. Já agora, não há tempo de fazer a encomenda, pois ando nas [ilegível] da minha estadia aqui.É pena; visto que o tal líquido corre por cá em caudaloso rio…Muita saudade do teu Lauro”.

Mensagem mais críptica, impossível. Qual é o “tal líquido” (sublinhado no original) que, em Lisboa, corre em “caudaloso rio” e que poderia interessar a um morador de Paris encomendar ?

Não há como saber. Não é grave, porém.  O que interessa é sentir a vida pulsar, 67 anos depois, quando os dois amigos estão mortos. Eles se foram, mas suas preocupações, suas frustrações, sua amizade podem ainda ser sentidas, porque por acaso o bilhete postal de Lauro para Carlos Alfredo sobreviveu.

Berinjela – Leonardo da Vinci

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, minha mãe me levou pela primeira vez à Livraria Leonardo da Vinci, paraíso no Edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Na época, nós morávamos em Montevidéu, e estavámos de férias no Brasil.

Fiquei imediatamente apaixonado. Nunca mais deixei de frequentar aquele espaço, quando estava no Rio. Moram na minha estante vários volumes adquiridos lá. Era o melhor lugar da cidade para comprar livros em outras línguas, particularmente de História, em francês. A fundadora e proprietária, Vanna Piraccini, estava sempre por lá, frequentemente no caixa. Como eu era, até pouco depois dos vinte anos, muito tímido, nunca tive coragem de trocar com ela palavra alguma além de “bom dia” ou “por favor” e “obrigado”.  Hoje me arrependo. Ao longo de 2015, a livraria foi fechando. O assunto gerou numerosos artigos na imprensa, pois a Leonardo da Vinci foi, durante décadas, uma instituição.

A Leonardo reabriu há pouco, como uma nova livraria, de livros em português, e novo proprietário, Daniel Louzada. O espaço foi totalmente modificado. A antiga Leonardo da Vinci era um dédalo; a nova versão é uma sala retangular, arejada. É uma boa livraria e deve dar certo. Há um café, também excelente  — recomendo o bolo de aipim. 

Mas onde entra a berinjela? Não há no café. Na verdade, é com maiúscula. Em frente à Leonardo da Vinci há, faz alguns anos, um sebo excelente, chamado Berinjela. Pertence a outro Daniel, Daniel Chomski. Em um recinto relativamente pequeno, podem ser encontrados tesouros. Nunca saí de lá de mãos vazias. Os funcionários são sempre simpáticos e prestativos.

Em minha mais recente incursão à Berinjela, saí com o botim abaixo. Deixo vocês sonharem com os cinco títulos. Talvez venham a ser comentados posteriormente.

Direi aqui apenas que Proust e Napoleão são, desde sempre, duas fontes constantes de interesse para mim. Sobre Aron, Baudelaire e Sartre, nada anteciparei por enquanto.

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