No Fim do Túnel – Rodrigo Grande

Após ver este estupendo filme, procurei nos jornais argentinos, pela Internet, a reação do público. Encontrei, entre outros comentários, este: “buena película, mantiene el interés hasta el final, recomendable, entretenida, muy bella la chica”. Ri muito com o resumo feito por esse espectador argentino. Pensei também que seria uma pena se a beleza da atriz espanhola Clara Lago desviasse a atenção de sua interpretação como Berta, alma perdida em busca, sem sequer saber disto, de redenção.

O diretor Rodrigo Grande conseguiu, de todos os atores, e não só de Clara Lago, interpretações magníficas, do Joaquín de Leonardo Sbaraglia, ao Galereto – líder de um grupo de bandidos – de Pablo Echarri, passando pelo policial altamente perturbador de Federico Luppi. Até os intérpretes de papéis secundários deixam uma lembrança forte. E o que dizer do personagem canino, Casimiro? Sua existência é determinante para algumas guinadas da trama.

Tudo é bem trabalhado em Al Final del Túnel: além das interpretações, há o roteiro, também de Rodrigo Grande, a fotografia e a direção de arte. Em todas as cenas, há um detalhe que as torna belas ou visualmente impactantes. Em algumas, há um vaso de flores, no canto, que poderia quase passar desapercebido, de tão discreto, só que está lá justamente para completar a imagem, torná-la mais rica. Na cena final, a junção de vários tons de vermelho é belíssima.

Este é um filme cujas referências artísticas são conhecidas e declaradas, inclusive em entrevistas de seu diretor: Poe, Hitchcock, Tarantino… A cadeira de rodas de Joaquín e sua espionagem dos vizinhos são clara homenagem ao Hitchcock de Janela Indiscreta. As cenas de violência – e há uma muito chocante, para a qual o diretor vai nos preparando, sadicamente, durante alguns minutos – remetem a Tarantino.

As influências cinematográficas sobre Rodrigo Grande são muito comentadas pela imprensa; por isso, eu me interessei mais pelo papel importante que ele concede à literatura. A casa de Joaquín é povoada de livros, jogados por toda parte. Apenas dois são focalizados pela câmera: os Contos de Poe e A Ilha do Tesouro (afinal, o tema que conduz a narrativa é o roubo de um banco). Um dos prazeres do filme é ver como Berta, pouco a pouco, vai arrumando as centenas de livros nas estantes; a cada cena, os cômodos estão menos bagunçados e os livros mais bem organizados. Esse detalhe é importante, pois o filme é passado quase todo no interior da casa. Os livros vão sendo arrumados, e o cenário vai ficando mais bonito e, ao mesmo tempo, mais arejado e iluminado. É possível que haja mais de uma parábola nisto. De um lado, os livros, que antes eram uma demonstração de confusão e desleixo, passam a enriquecer, embelezar a vida, dar-lhe serenidade. De outro, o afã de Berta em organizá-los sugere que o amor entre os dois protagonistas está surgindo e crescendo, sem que eles percebam (Berta, ostensivamente, ama outro homem, e percalços da vida tornaram Joaquín um solitário… como já comentei antes, este é um ano farto em filmes sobre a solidão).

Há uma cena muito comovente em que Berta, apesar de todas as evidências em contrário, à luz de sua profissão como bailarina de strip-tease, afirma a Joaquín que a casa de seu pai, no interior, é cheia de livros. Pode até ser verdade, mas não soa crível. O propósito da frase, para Berta, é fazer com que Joaquín a aceite. Os livros, assim, são a forma de aproximação entre os dois protagonistas. A biblioteca – e vale notar que Berta, a bailarina de casa noturna, manuseia os livros, para arrumá-los, e fala neles com respeito, ao mencionar o pai, mas que Joaquín, em sua decadência, não parece se interessar por eles – passa a ser um personagem, que intermedeia a relação dos protagonistas.

Uma homenagem não só a Stevenson e a Poe, portanto, mas aos livros e à literatura como um todo. E mais do que isso: apesar de toda a violência e da perversidade e da crueldade de alguns personagens, este é um filme que fala da beleza da vida, e de como recuperá-la em circunstâncias sombrias.

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No Fim do Túnel – Ficha técnica

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Bob Dylan encontra a lua e Alfred de Musset em Doha

O Prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan parece contar com unanimidade, o que não é tão surpreendente: quem ousaria, sob o risco de parecer retrógrado, condenar a Academia Sueca por ser inovadora e fazer um aceno a um compositor popular e idolatrado? Por enquanto, li apenas uma voz discordante, a de Anna North no New York Times, mas o jornal publicou também artigos elogiando a escolha.

Coloco esta foto, que tirei em Doha ontem, em homenagem a Dylan, por causa de uma canção que ele canta magistralmente, Full Moon and Empty Arms.

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A canção não foi composta por ele. É de 1945 e foi gravada por Sinatra e posteriormente por vários outros cantores. A melodia é de Ted Mossman e a letra é de Buddy Kaye. Bem, dizer que a melodia é de Ted Mossman é generosidade, pois é fortemente inspirada, se não copiada, do terceiro movimento do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff. Ted Mossman parece ter sido um popularizador de composições alheias e em seu tempo nem sempre foi elogiado por isso.

Vejam neste artigo do ano passado de cmuse.org como o Concerto de Rachmaninoff influenciou a cultura popular. Estranhamente, o texto não menciona Full Moon and Empty Arms, talvez porque o disco de Dylan onde a canção aparece, Shadows in the Night, que deu à música nova vida, é também de 2015.

Sempre, quando vejo a lua cheia, eu penso em Alfred de Musset, por causa de seu interminável poema Ballade à la Lune, incluído  em uma coletânea de versos franceses que meus pais me deram de presente, nos meus 7 ou 8 anos. O poema começa assim: “C’était,  dans la nuit brune, sur le clocher jauni, la lune, comme un point sur un i”. Acho muita graça na noção da lua como “um pingo no ‘i'”… isso remete a dias muito felizes da minha infância. Ao ver a lua cheia, frequentemente exclamo: “Como um pingo no ‘i'”, para perplexidade das pessoas próximas de mim, que não consideram a ideia tão marcante. A tradução para “clocher jauni” seria “o campanário amarelado”. Na foto cima, há duas torres amareladas, incluindo o minarete ao fundo; um boa ilustração do verso de Musset.

A lua ajuda a ter uma boa concepção da relatividade da vida. Como não se sentir mínimo, ao lembrar que, como Bob Dylan em 2015, agricultores nos vales do rio Eufrates, no século VI a.C. (para não falar do próprio Nabucodonosor), já deviam olhar para a lua com perplexidade e fazer dela a confidente de seus sonhos, suas esperanças, seus temores?

Se quiser ouvir o Prêmio Nobel de Literatura cantando Full Moon and Empy Arms –  e acho que você deveria querer – aqui está o link:

Full Moon and Empty Arms

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Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo

Aos 20 anos de idade, eu venerava Beethoven. Podia satisfazer plenamente essa adoração, graças às salas de concerto em Londres, onde fazia minha graduação. Beethoven me dava, naquela época, a impressão de ser um amigo muito próximo. Em todas as vezes em que estive em Viena, nunca deixei de ir ver, ao menos de fora, a Casa Pasqualati, no Mölker Bastei, onde ele morou. Fiz peregrinação ao seu túmulo no Cemitério Central. Jantei na taverna instalada na casa onde ele morou em Heiligenstadt, Mayer am Pfarrplatz. Pensei mesmo em comprar um de seus pequenos bustos de gesso, facilmente encontráveis em Viena.

Há no romance de Henry James The Portrait of a Lady uma cena em que a música tem um papel fundamental. A protagonista, Isabel Archer, na casa de campo senhorial dos tios, onde mora, ouve o piano, e descobre que está sendo tocado por Madame Merle, uma amiga da tia, de passagem. Na edição original do livro, de 1881, é Beethoven que Madame Merle toca. Na edição revista por James, em 1908, o compositor passa a ser Schubert. Isabel, ao conhecer Madame Merle, vê apenas sua sensibilidade musical (“That’s very beautiful, and your playing makes it more beautiful still”), dá a ela sua amizade e não desconfia que sua vida será por isso negativamente afetada. O tio está doente – logo morrerá – mas Isabel garante a Madame Merle que “to hear such lovely music as that” fará com que ele se sinta melhor. Madame Merle retruca então com uma frase marcante, que me impressionou quando a li pela primeira vez aos 22, 23 anos: “I’m afraid there are moments in life when even Beethoven has nothing to say to us”.

Na fiel adaptação de The Portrait of a Lady para o cinema realizada por Jane Campion em 1996, essa frase (a diretora preferiu a versão onde Schubert é o compositor mencionado) ganha muita força, pela forma como Barbara Hershey, no papel de Madame Merle, a diz a Nicole Kidman, em uma de suas interpretações mais convincentes como Isabel Archer. A expressão facial de Barbara Hershey revela todas as decepções na vida de sua personagem.

Acontece que há uma peça de Beethoven que sempre tem algo a me dizer, nos bons momentos como nos menos bons. É o Concerto para piano nº 4. Se Beethoven é um amigo, esse Concerto é o seu melhor presente; trata-se de um dos monumentos da inteligência humana. Que um indivíduo tenha sido capaz de compor esse Concerto redime as falhas da nossa espécie.

Acontece também que nem todos os meus amigos nasceram em 1770 e morreram em 1827. Vários são da minha geração, estão bem vivos e posso vê-los em carne e osso. Há algumas semanas, uma amiga paulista me perguntou se eu poderia passar com ela seu aniversário. Quando um amigo de adolescência, com quem nunca houve afastamento ou rusga ao longo dos anos e com quem temos relação mútua de aceitação incondicional, pede para nos ver em seu aniversário, a única reação possível é ser grato por essa amizade e responder positivamente.

E é por essa razão que minha mulher e eu embarcamos rumo a São Paulo, para o fim de semana de 8 e 9 de outubro.

Ao planejar nossos dias em São Paulo, pensei, além  da aniversariante, na Bienal de Arte e na exposição sobre Calder e sua influência sobre artistas brasileiros, no Itaú Cultural. Outros amigos, que eu não via há muito tempo, estariam na cidade. Julguei estar atingindo o grau mais elevado de felicidade; tudo parecia perfeito. Estava equivocado. Ingrediente adicional estava à minha espera: li no jornal que Paul Lewis iria tocar, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, no sábado, o Concerto nº 1 e o Concerto nº 4 de Beethoven.

Quando fui comprar os ingressos pela Internet, só havia lugares no Coro, mas pude conseguir dois na primeira fila e do “lado certo” para ver as mãos do pianista tocando.  Sentar no Coro acabou sendo uma experiência por si. Pode-se ver melhor, além do rosto e dos movimentos do regente (no caso, uma regente, Marin Alsop), como os músicos lidam com seus instrumentos. Mais tarde, amigos comentariam haver o entendimento de que o som chega de forma diferente – menos satisfatória – aos  espectadores sentados no Coro. Pode ser, mas para nós não pareceu: estar ali era já um privilégio.

Vejam esta foto: na magnífica Sala São Paulo, sentados no Coro, esperando para ouvir Beethoven.

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Paul Lewis estudou com Alfred Brendel, que foi o pianista que primeiro ouvi tocar o Concerto nº 4, em Londres. No ano seguinte, ouvi Maurício Pollini e aparentemente   gostei mais ainda, segundo anotações que fiz no programa, guardado até hoje. Era porém Claudio Abbado quem regia a London Symphony Orchestra e eu idolatrava Abbado, então sua presença no palco pode ter influenciado minha análise. Registrei no programa que o último movimento provocava em mim (como ainda provoca) sensação de “libertação”, após as tensões musicais do segundo movimento, que eu considerava, aos 20 anos, aptas a despertar “ansiedade” – Beethoven brinca constantemente, nesse movimento, com a expectativa do ouvinte – e que Liszt equiparava a “Orfeu domando as Fúrias”. Todas as tensões são resolvidas, ao final, e fica um sentimento de harmonia triunfante, como se o Concerto fosse uma parábola das misérias humanas sendo superadas, após lutas internas.

Voltando ao dia 8 de outubro: todos, naquela tarde de sábado, fizeram jus à sua reputação: a  Sala São Paulo, que há muito tempo eu tinha vontade de conhecer (vou pouco a São Paulo, infelizmente), Marin Alsop, Paul Lewis e a OSESP. Lewis revelou sons, nos dois Concertos, de que eu nem suspeitava ou que eu tinha esquecido. Beethoven uma vez  mais efetuou a sua magia e tirou de todos, intérpretes e ouvintes, o que de melhor tinham a   oferecer. Uma tarde que dificilmente esquecerei.

Abaixo, Lewis, de azul, e Alsop, à direita, com a mão erguida, e a OSESP, todos recebendo uma ovação bem merecida.

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E minha amiga aniversariante? No dia seguinte, depois de uma visita à Bienal, almoçamos com ela e sua família, de que sempre me senti parte, no restaurante Canto Madalena,  em Vila Madalena, ouvindo choro ao vivo. A feijoada, a caipirinha de caju e a música estavam excelentes, a companhia mais ainda. Passamos a tarde com eles, até a hora de ir para o aeroporto, com passagem pelo Beco do Batman, ali perto do restaurante.

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São Paulo, Jardins, Livraria da Vila, Itaú Cultural e sua Brasiliana, Calder, Beethoven na Sala São Paulo, Bienal, Canto Madalena, feijoada e choro, Beco do Batman, amigos diversos em diferentes momentos…

Haverá felicidade maior? Não creio… fazendo abstração, claro, da Minha vista no Rio de Janeiro.

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Tagore

Recebi, de um amigo que acaba de voltar de viagem à Índia, este presente:

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Gitanjali, em inglês, é a coleção de 103 poemas curtos que o próprio autor traduziu do bengali, incorporando obras de vários livros seus. No ano seguinte, em 1913, Tagore ganhou o Prêmio Nobel de Literatura graças a essa coletânea. O título, no Brasil, é traduzido como Oferenda Lírica. A edição que me deram traz a entusiasmada – e famosa – introdução de W. B. Yeats de 1912.

Outro futuro Prêmio Nobel de Literatura, André Gide, traduziu o livro para o francês, usando também o título L´Offrande lyrique. Sua apresentação à primeira edição dessa tradução, publicada em 1914, está incluída no volume da Bibliothèque de la Pléiade  dedicado aos seus ensaios e críticas literárias. Elogia Gide, em seu texto, o espírito sucinto da coletânea, se comparada a textos indianos como o Mahabharata e o Ramayana e a sua “animação apaixonada” (“ce qui m´emplit de larmes et de rire, c´est l´animation passionnée de cette poésie”). Menciona haver grande alegria nos versos, fruto do “sentimento da vida universal, do sentimento de participar dessa vida”. Uma frase me chama particularmente a atenção nessa apresentação de Gide, a idéia de que o poeta tem consciência de ser indispensável a Deus: “Tagore sait que Dieu a besoin de lui”. Pois, afirma Gide, é por meio de sua criatura que Deus toma consciência de si (“c´est en sa créature que Dieu prend conscience de soi”). A frase final da apresentação de Gide é, referindo-se aos últimos poemas de Gitanjali, que tratam da morte, um elogio à sua solenidade: “Je ne crois pas connaître, dans aucune littérature, accent plus solennel et plus beau”.

Há nos últimos poemas, de fato, grande aceitação do fim da vida. Porém, como os caracóis de Jacques Prévert em seu poema “Chanson des escargots qui vont à l´enterrement”, não gosto tanto de odes à morte. Descartam os caracóis de Prévert a tristeza provocada por caixões, com o belo verso: “Les histoires de cercueils, c´est triste et pas joli”.

Da coleção, preferi os poemas que mostram as incertezas do ser humano, mas ao mesmo tempo uma força interior, como os três abaixo:

 

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Tagore morreu poucas décadas antes do meu nascimento. Quando eu era criança, sua fama – como aliás a de Gide também – era ainda colossal. Lembro bem de ver fotos dele e sentir que aquele homem de longa barba branca, com um nome tão imponente, com uma aura de misticismo oriental, seria para sempre inacessível. Para mim, na infância e na adolescência, ele era uma figura mítica, de difícil compreensão, e preferi deixá-lo longe. Hoje, Gitanjali, como toda a obra de Tagore, já não é tão popular, a não ser em Bangladesh e na Índia.

De repente, este ano, ele entrou em minha vida, e eu o recebi de bom grado. Tenho encontrado beleza em sua obra. Há poucos meses, ganhei este disco:

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Tagore, além de escritor e poeta, era músico e também adotou a pintura como forma de expressão, no final da vida. O disco acima contém algumas das 2.000 canções para as quais ele compôs a letra – em bengali – e a música, criando um gênero musical próprio…Não entendo uma palavra, naturalmente, mas nem precisa…a melodia diz tudo. Minha faixa preferida é a de Shama Rahman cantando “Shokator-e oi kandichhe shokol-e”, que o disco traduz como: “Todos choram lamentavelmente”. Certamente, a música não me faz chorar, muito menos “lamentavelmente”; leva-me, isto sim, a aceitar a vida. Vejam este vídeo:

 

Quanto a meu amigo recém-chegado da Índia, e que me deu de presente Gitanjali, é um ex-aluno e, portanto, bem mais jovem do que eu. Aprendo sempre muito com meus alunos e ex-alunos e valorizo sua amizade. O viajante à Índia, ao vir me visitar para me dar o livro, comentou que, na véspera, pedira sua namorada em casamento. A cerimônia será em um ano. Fiquei feliz por ele e senti um sopro de ânimo ao meu redor. Como diz o poema 37, “…and where the old tracks are lost, new country is revealed with its wonders”.

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Tracey Emin e eu

Em 1998, a artista britânica Tracey Emin criou uma obra de arte intitulada  My Bed, que era sua própria cama desfeita, os lençóis sujos, rodeada de objetos que normalmente ninguém mostra aos visitantes, inclusive preservativos. A artista estava em depressão na época.

 

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Tive a sorte de ver My Bed na retrospectiva consagrada a Tracey Emin em 2011, na Hayward Gallery, no South Bank, em Londres. Foi uma bela exposição e me arrependo de não ter comprado o catálogo. My Bed pertencia então a Charles Saatchi, que a vendeu em 2014 a um colecionador alemão. Está emprestada, por dez anos,  ao museu Tate Britain.

Procurando imagens da peça para reproduzi-la aqui, confirmei a dificuldade em remontá-la tal qual a cada exposição. As meias de nylon, particularmente, mudam constantemente de lugar sobre a cama. No meio de tanto detrito ao pé da cama, acho comoventes as presenças do cachorrinho branco de pelúcia e das pantufas.

A pergunta sobre se essa peça é uma obra de arte me pareceria perfeitamente absurda, pois não pode haver dúvida a respeito. Ao mostrar, de uma forma nova, inovadora, a realidade – a sua realidade – , Tracey Emin criou uma obra de arte (inclusive bela, a meu ver, mas o conceito de belo já não é necessário para definir uma obra de arte) e usou a arte para afugentar seus fantasmas.

Seria inconcebível para mim – e nem minha mulher deixaria –  viver nesse estado de bagunça.

E nem me ocorreria publicar fotos da minha cama. Achei, porém, que poderia mostrar minha mesa de cabeceira, para mim um universo tão importante (ainda que bem mais arrumado) quanto é sua cama para Tracey Emin.

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A foto no porta-retratos representa minha filha. O ocapi remete à minha infância, quando eu era fascinado com esse animal e sempre o procurava em zoológicos. Tinha um desses, como na foto, que se perdeu. Na idade adulta, comprei um novo, que desde então fica na minha mesa de cabeceira.

Passemos aos livros.

Na pilha da esquerda, de baixo para cima, estão:

  • O catálogo, presente de Beatriz Paredes, da espetacular exposição sobre os maias realizada em São Paulo, em 2014, que visitei.
  • Quatro dos livros que ganhei de presente de aniversário este ano: a edição fac-similar do Alguma Poesia do Carlos Drummond de Andrade, editada pelo Instituto Moreira Salles, que recebi de um casal de amigos (ela é minha amiga restauradora de livros, ele um dos meus amigos  mais antigos); o catálogo da exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (que visitei), presente de Cora Rónai; o livro de fotografias RioMarLisboaRio, presente de Carlos Leal; e  o livro Rio, Casas e Prédios Antigos (esse, não me lembro quem me deu).

Vejamos em detalhe a pilha da direita:

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De baixo para cima:

  • Mais um volume de Fernando Pessoa, comprado na Livraria da Travessa de Ipanema este ano.
  • As obras completas de Vauvenargues, um moralista que tem me interessado mais do que La Rochefoucauld. Tenho esse livro há anos e venho lendo trechos ocasionalmente.
  • Le Royaume, de Emmanuel Carrère, comprado em Paris em 2015, não lido ainda.
  • Dentro do envelope: uma peça do Gorki, na versão apresentada na Comédie-Française em 2015, quando a vi. Comprei a peça na livraria da Comédie-Française, para poder passar os olhos no texto antes da representação.
  • Love, Hate and Reparation, obra das psicanalistas Joan Riviere e Melanie Klein que já li algumas vezes. Ao longo dos anos, dei exemplares desse livro a vários amigos. Não sei por que está na mesa de cabeceira.
  • The Consolations of Philosophy, por Alain de Botton, onde venho gostando de fuçar de vez em quando.
  • Mudança, de Mo Yan, outro presente de Cora Rónai deste ano, não lido ainda. Desse autor, tenho e li uma tradução para o francês de O mapa do tesouro.
  • La raison des sortilèges, por Michel Onfray, um filósofo – no sentido francês da palavra – que já li muito, mas cuja prolixidade não tenho conseguido acompanhar. Ganhei o livro há poucos meses de um amigo  que nem sabia de meu antigo interesse por Onfray.
  • Uma seleção, em formato pequeno, fácil de levar em viagens, das cartas de Voltaire, sempre um consolo.
  • A agenda que (quase nunca) uso, a da Pléiade.

Embora arrumada, minha mesa de cabeceira se parece com a cama de Tracey Emin pela seguinte razão: não saberia dizer por que muitos desses livros estão sobre ela. Estou lendo livros no momento que não estão em nenhuma das duas pilhas. Outros livros comprados ou ganhos recentemente estão sobre outros móveis no quarto. Tudo isso é parte do mistério inerente a uma casa cheia de livros.

 

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O charme dos pensadores tristes 

Em seu livro iconoclasta, Le charme des penseurs tristes, o filósofo Frédéric Schiffter, no capítulo sobre Cioran, critica os volumes da Bibliothèque de la Pléiade. Segundo ele, o papel é fino demais e os livros acabam virando troféus para colocar na estante e nunca serem abertos. Afirma: “rien n’est moins plaisant que l’usage de ces bouquins“. Alegremente, comenta que seus volumes da Pléiade foram todos surrupiados quando era estudante (“quand je m’ adonnais à la pratique anarchiste de la reprise individuelle“; o estilo do autor é belíssimo). Lastima não o fato de ter roubado, já que afanava livros como forma de redistribuição de renda, mas de ter roubado volumes da Pléiade.

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Com alguma propriedade, Schiffter declara que os volumes não podem ser levados à praia, problema significativo para um autor e leitor residente, como ele, em Biarritz. Posso eu mesmo testemunhar que os livros da Pléiade não devem ser lidos na praia. Em dezembro, em Búzios, um dia levei o quarto  (e último) volume da segunda edição de À la recherche du temps perdu para a praia da Ferradura. Uma tempestade de areia destruiu meu exemplar.

Tirei uma foto enquanto via o livro ser estragado pela areia e a brisa marinha: 

Hoje, o volume está na seguinte condição:

Uma amiga restauradora de livros me informou que recuperar o volume não seria economicamente viável. Um amigo, também leitor de Proust, veio jantar conosco, há poucas semanas; mostrei o volume e ele gentilmente se ofereceu para me trazer novo exemplar de Paris. Sua mulher, porém, fez uma ponderação que me deu no que pensar. Ela disse: “Pensa um pouco se vale a pena jogar esse exemplar fora… esse estado dá a ele uma história”.

Posso entender seu argumento. Os livros da Pléiade, embora caros, não precisam ser tratados como tesouros intocáveis. São publicados para ser lidos. São tesouros, isto sim, de erudição.

A coleção, orgulho da editora Gallimard, vem sendo publicada desde a década de 30. O primeiro autor editado foi Baudelaire, em 1931. No início, o aparato crítico era simples. Hoje, ocupa parte considerável de cada volume. Alguns autores já foram editados mais de uma vez: de cabeça, lembro de Molière, Casanova, Racine, Saint-Simon, Balzac, Stendhal, Montaigne e Proust. Este último foi publicado pela Pléiade, a primeira vez, em 1954, em três volumes. O fato de a nova edição, publicada de 1987 a 1989, ser em quatro volumes dá uma ideia da evolução do aparato crítico. Foi na edição em três volumes, da biblioteca dos meus pais, que comecei a ler Proust, aos 11 anos.

Não conheço, em outra cultura, edições tão cuidadas e eruditas como as da Pléiade. As da Library of America não chegam nem perto.

A crítica de Schiffter, assim, parece excessiva.

Temos em casa mais de 100 volumes da coleção. Uns 110, talvez. Não posso dar um número preciso, porque alguns estão emprestados a meu amigo leitor de Morgenthau. Todos guardam marcas de terem sido lidos. Minha mulher e eu os lemos no jardim, ao sol; sempre viajamos com algum na mala, e eu não sinto compunção em deixar cair água, chocolate, frutas em algumas páginas. Certamente, não os tratamos como objetos valiosos, embora nenhum volume esteja em tão mau estado como o quarto volume de La Recherche. Ele aparece assim na estante:

Alguns exemplares foram comprados de segunda mão, com buquinistas à beira do Sena ou na Livraria Berinjela, no Rio. Em uma de minhas visitas este ano à livraria, encontrei o primeiro volume da edição de 1954 de La Recherche, aquela que conheço da biblioteca dos meus pais. Comprei o livro, que estava em bom estado, e dei-o de presente ao meu amigo leitor de Proust. Ele gostou.

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Em torno a um bilhete encontrado em um livro

Como comentei em texto anterior, em minha mais recente expedição à Livraria Berinjela comprei cinco livros franceses. Entre eles, os dois acima, sobre Proust.

Dentro do livro publicado por Lucien Daudet sobre 60 das cartas que recebeu de Proust, achei um “bilhete postal”, denominação aliás nova para mim. Reproduzo o bilhete nas fotos abaixo.

C. A. [Carlos Alfredo] Bernardes era um diplomata, também conhecido como Lolô Bernardes. Em 1949, pelo visto, estava lotado na Embaixada em Paris. Reproduzo o texto do cartão: “Querido, Receio que você não tenha recebido a minha carta. Já agora, não há tempo de fazer a encomenda, pois ando nas [ilegível] da minha estadia aqui.É pena; visto que o tal líquido corre por cá em caudaloso rio…Muita saudade do teu Lauro”.

Mensagem mais críptica, impossível. Qual é o “tal líquido” (sublinhado no original) que, em Lisboa, corre em “caudaloso rio” e que poderia interessar a um morador de Paris encomendar ?

Não há como saber. Não é grave, porém.  O que interessa é sentir a vida pulsar, 67 anos depois, quando os dois amigos estão mortos. Eles se foram, mas suas preocupações, suas frustrações, sua amizade podem ainda ser sentidas, porque por acaso o bilhete postal de Lauro para Carlos Alfredo sobreviveu.

Berinjela – Leonardo da Vinci

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, minha mãe me levou pela primeira vez à Livraria Leonardo da Vinci, paraíso no Edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Na época, nós morávamos em Montevidéu, e estavámos de férias no Brasil.

Fiquei imediatamente apaixonado. Nunca mais deixei de frequentar aquele espaço, quando estava no Rio. Moram na minha estante vários volumes adquiridos lá. Era o melhor lugar da cidade para comprar livros em outras línguas, particularmente de História, em francês. A fundadora e proprietária, Vanna Piraccini, estava sempre por lá, frequentemente no caixa. Como eu era, até pouco depois dos vinte anos, muito tímido, nunca tive coragem de trocar com ela palavra alguma além de “bom dia” ou “por favor” e “obrigado”.  Hoje me arrependo. Ao longo de 2015, a livraria foi fechando. O assunto gerou numerosos artigos na imprensa, pois a Leonardo da Vinci foi, durante décadas, uma instituição.

A Leonardo reabriu há pouco, como uma nova livraria, de livros em português, e novo proprietário, Daniel Louzada. O espaço foi totalmente modificado. A antiga Leonardo da Vinci era um dédalo; a nova versão é uma sala retangular, arejada. É uma boa livraria e deve dar certo. Há um café, também excelente  — recomendo o bolo de aipim. 

Mas onde entra a berinjela? Não há no café. Na verdade, é com maiúscula. Em frente à Leonardo da Vinci há, faz alguns anos, um sebo excelente, chamado Berinjela. Pertence a outro Daniel, Daniel Chomski. Em um recinto relativamente pequeno, podem ser encontrados tesouros. Nunca saí de lá de mãos vazias. Os funcionários são sempre simpáticos e prestativos.

Em minha mais recente incursão à Berinjela, saí com o botim abaixo. Deixo vocês sonharem com os cinco títulos. Talvez venham a ser comentados posteriormente.

Direi aqui apenas que Proust e Napoleão são, desde sempre, duas fontes constantes de interesse para mim. Sobre Aron, Baudelaire e Sartre, nada anteciparei por enquanto.

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